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Um amor de ceo

Um amor de ceo

Autor:: Hugo Alefd
Gênero: Romance
Aos 25 anos, Nina Kovac, uma mulher decidida e pavio curto, decide radicalizar. Ela rompe com tudo que a sufoca e parte para um recomeço. Uma nova cidade, uma nova casa e novos amigos... A alegre e colorida Vila Madalena é o cenário simplesmente perfeito para uma nova vida perfeita... O que essa mulher, de feições angelicais que escondem um gênio de leoa, não poderia imaginar é que teria sua vida pacata virada de ponta cabeça, depois um encontro tumultuado e para lá de inusitado. Por um capricho do destino, a jovem se vê atrelada ao impulsivo e temperamental Theo Callas. Um executivo de tirar o fôlego, talhado pelos Deuses do Olimpo e dono de uma língua nervosa. Dois cabeças duras que têm as piores primeiras impressões do mundo sobre eles. Uma Caipira, irritante! Um Cretino arrogante! Como ela pode ser tão bonita e tão mal-educada? O cara se acha o dono do mundo, só porque é o CEO. Dane-se! Uma deliciosa comédia romântica, inusitada e apimentada sobre relacionamentos, amor, intrigas e segundas chances. Dois mundos que se misturam e se completam em uma aventura envolvente e eletrizante. ** Contém cenas não recomendadas para menores de 18 anos.

Capítulo 1 Um amor de ceo

Q uerem saber de um segredo? Minha antiga vida já era. Isso mesmo! Já era... Ela foi DEMITIDA sumariamente quando resolvi me rebelar e mudar radicalmente tudo. Tudo, menos eu claro, porque me gosto... Muito. Não que seja do tipo egocêntrica ou me ache perfeita, nada disso... Só não me abalo por qualquer coisa e por força das circunstâncias, aprendi a me virar sozinha... E, acho que o melhor sempre estará por vir, mas não acredito em contos de fadas... Ah, não mesmo. Diga-me onde os príncipes estarão e correrei na direção contrária. Então óbvio, a demitida foi a outra.

Aquela EU que começou a aparecer sem ser convidada refletida no meu espelho. Uma intrusa sufocada e sem brilho, que todos queriam que eu fosse, mas me recusei a ser. Desculpem, era ela ou eu... Viver ou sofrer... Então, mandei-a para as cucuias junto com todo o resto... Cidade, parentes malucos e um relacionamento doentio. Sinto pela cidade, amo Curitiba, mas não há batalha sem perdas. Não me arrependo e foi libertador, embora os mais próximos digam que enlouqueci... Mas, muita calma nesta hora. Não virei uma louca impulsiva, ingrata e abandonadora de lares como alegam. Ao contrário, estou bem lúcida. Só lembrei que para ser feliz, preciso gostar de mim, me cuidar e principalmente, gostar de quem também gosta de mim. Simples assim. Eles é que não enxergaram os sinais ou não quiseram enxergar. O que foi uma pena! Porque a mudança de atitude foi tão óbvia. Fruto de uma decisão pensada, repensada e pensada novamente. Primeiro, resgatei minha força interior, amor próprio e determinação. Estudei, formei-me, consegui um emprego e juntei um dinheiro. Depois... Aproveitei uma pulada de cerca das boas para exigir minha liberdade e paguei caro por ela. E agora, apenas aceitei um empurrãozinho do destino... A empresa na qual trabalhava foi vendida para uma outra aqui em São Paulo, a Callas Corporation ou a C&C... Só aproveitei e mudei junto com ela de mala e cuia. Segui as únicas coisas que me dão esperança e segurança: meus sonhos e o meu emprego. Dei duro por ele, preciso dele e amo o que faço. Jamais iria demiti-lo. Bom... Essa sou eu em minha nova vida. Nina Kovac, vinte e cinco anos: quase falida, solteira e feliz como nunca estive. Morando e trabalhando em São Paulo, há dois meses, em um bairro antigo, arborizado e charmoso... A Vila Madalena [1] . Um lugar gostoso cheio gente, lojinhas, cafés, livrarias, restaurantes e bares. Pacato de dia e boêmio nas noites agitadas. Pura sorte, eu diria. Consegui logo de cara, um apartamentinho charmoso em cima de um restaurante italiano familiar, o Vincenzo. Pequeno: quarto, sala, cozinha e banheiro. Eu me apaixonei pela banheira antiga, pela varanda-laje [2] e amei a privacidade. A entrada é independente, pelos fundos do restaurante que por sinal, tem um quintal-jardim não utilizado. Simplesmente perfeito para uma pessoa que trabalha como paisagista e vive entre projetos, flores e plantas. Passei meus primeiros finais de semana na cidade ajeitando o lugar. Ficou lindo... Outra cara, outra vida! Deus, como estou amando tudo isto ! Minha nova casa fica a quatro quadras do meu emprego. O que convenhamos, é uma mão na roda... Já que, o quase falida inclui não ter rodas. Isto mesmo minha gente, nada de carro para mim. Meus pés são meu transporte. Tenho evitado pegar o busão lotado, como chamam o ônibus cheio por aqui. A experiência foi terrível, minha bunda parecia pista de aterrissagem para mãos bobas. Preciso lembrar de nunca ficar virada para o corredor do ônibus e sorrir para estranhos... ●●● ● ● ● ●●● Sábado bem cedinho e já estou de pé, pronta para o batente. Nada de reuniões com clientes engomadinhos, é dia de pôr a mão na terra. Empolgada, visto meu uniforme básico: macacão jeans velho e largo, uma regatinha branca, porque está calor, tênis surrados e o chapéu de panamá que era do meu pai. Carrego na dose de protetor, não existe nenhuma possibilidade de ficar embaixo deste sol de verão sem proteção. Simplesmente torraria e minhas sardas ganhariam companhia. Desço a escada lateral do apartamento. A esta da hora da manhã, o Vincenzo ainda está fechado, mas já escuto o bate panelas vindo da cozinha, o que indica que a preparação do almoço está a todo o vapor. Passo rapidamente pelo jardim e saio pela lateral do prédio. Morando sozinha e com um orçamento apertado, a melhor opção é tomar o café na rua. Atravesso a alameda silenciosa e vou em direção ao Café Bar Estrela. Um lugar charmoso e aconchegante que pertence às filhas de Vincenzo, Estrela e Jasmim. Elas são legais, animadas, loucas e têm me ajudado muito neste período de adaptação. Arrisco dizer que já viramos amigas. Gosto disso, não tinha muitos amigos em Curitiba. Não por opção, amo as pessoas, rir e conversar, mas com o Bernardo isto era simplesmente impossível, mesmo depois da separação. Era ele me ver papear com alguém e começar uma cena. Meu único refúgio foi a universidade, isto é, até meu ex começar a dar umas incertas por lá também. Se querem um conselho meninas... Nada de querer se envolver tão novinhas com alguém. Namorem, divirtam-se e aproveitem a vida. Conheçam bem o cara antes de se jogar de cabeça. Deus nos livre de ir assumindo um compromisso com a primeira promessa de príncipe que aparecer. Desconfiem da perfeição, pode ser só um sapo disfarçado. Iludi-me completamente por Bernardo. Na verdade, era muito ingênua e aos dezoito anos, mal tinha dado uns beijos na boca. Aí, reaparece um Bernardo Fontes na minha frente. Loiro, alto, lindo e musculoso. Irmão de uma amiga de infância, paixonite antiga de menina. Dez anos mais velho que eu, todo galante e de fala envolvente... Recém-chegado de Nova Iorque e aparentemente louco por mim. Estava feita a desgraceira... Cai feito patinho e por muito tempo, acreditei estar realmente apaixonada. Acho até que o amei... Ou não. Sei lá... Já não sei mais como definir aquele sentimento. Nosso primeiro ano juntos foi um sonho e ele foi meu primeiro quase tudo. Minha primeira paixão, meu primeiro namorado, amante e meu pior algoz. O único e último homem que eu deixei me tratar como nada. Ding dong... O sensor na porta avisa que estou entrando no café. - Bom dia! - sorrio e cumprimento a todos sem me fixar em alguém. Vou direto para o balcão e vejo uma cabeça morena submergir como um submarino. - É você! Ai, graças a Deus! Uma muito agitada Jasmim olha para os clientes e faz sinal para que eu venha para trás do balcão. Vou guiada pelo aroma delicioso do café fresquinho, que brota de uma das máquinas expresso. Estranho a presença dela, pois este é o turno de sua irmã mais velha, Estrela. A caçula de Vincenzo sempre assume à noite, quando o lugar já se transformou em barzinho. - Que cara de desespero é essa? Quedê [3] a Estrela, Guria [4] ? Jasmim revira os olhos, alcança uma pilha de xícaras e apoia o quadril no balcão. - Os dentinhos da Luar estão nascendo, a pobrezinha passou a madrugada toda chorando. Daí a Estrela me pediu para abrir. - coloca os cafés recém tirados na bandeja indo entregar em uma mesa perto da janela. Volta fazendo careta e entendo seu drama. A coitada está com uma cara péssima, provavelmente, mal teve tempo de pregar os olhos. Ela tem olheiras e seus longos cabelos encaracolados estão em um bagunçado coque, preso por uma caneta. Ooook! Não me custa nada retribuir a hospitalidade. - Escutê Jasmim, tenho que encontrar o pessoal da manutenção só daqui a uma hora. Se quiser, posso te dar uma mãozinha. Onde arrumo um avental fofo como esse? Minha amiga sorri lindamente como se eu fosse a salvação da lavoura, depois abre uma gaveta, retira um avental limpo e me entrega. - Não sei nem como te agradecer, Polaca [5] . Minha praia são os petiscos da noite, não tenho nem ideia de como fazer este tal de crepe, que tem no cardápio de sábado. Solto uma gargalhada, há muito tempo não me chamavam de Polaca. Fazer o quê? Sou descendente de alemães com poloneses, uma coisa loira e branquela mesmo. Visto o avental e enfio meus cabelos presos por uma trança lateral dentro do chapéu. - Está com sorte, minha avó me ensinou a cozinhar de tudo um pouco. Venha e parê de drama, Guria! Mostre onde guarda as coisas na cozinha. Meia hora depois, a massa para uns cinquenta crepes está pronta. Aproveito e faço também uma leva de bolinhos de baunilha. Logo, um aroma adocicado de massa assando invade o lugar. Saio da cozinha e vou até o balcão para ser útil em mais alguma coisa.

Capítulo 2 Um amor de ceo

Eita, caramba! Todo mundo resolveu tomar café aqui? Apresso-me e começo a dividir o atendimento das mesas com Jasmim. Anoto os pedidos com um sorrisão estampado no rosto. Estou adorando a agitação e amando mais ainda, que estejam elogiando meus crepes e bolinhos. Opa! Quase provoco um desastre ao esbarrar em uma mesinha. Peço desculpas e me concentro em não derrubar nada. Ai, Jesus! Estabanada e desastrada poderiam ser meus nomes do meio. Olho no relógio e está quase na hora de eu ir.

Se não estivesse tão preocupada com o péssimo estado de conservação dos jardins da Callas, até poderia ajudá-la mais... Sorte que as coisas parecem ter acalmado, Jasmim possui um dom para lidar com os clientes e organizar o caos de pedidos. Volto para trás do balcão, Jasmim me estende uma xícara de café e um misto quente. - Aposto que passou outra noite sem jantar. - olha feio e apenas concordo. - Até quando vai ficar vivendo nesta pindaíba [6] ? Pelo menos, comer, você tem que fazer direito. Dou uma mordida no sanduiche e fecho os olhos em êxtase. Nem eu sabia que estava faminta. - Só mais este mês, juro. Já não devo mais nada para os advogados do divórcio, mas até o próximo salário chegar, a coisa está apertada. Não quero mexer nas poucas economias que me restam, mas não exagere, não tenho passado fome. - minto. - Ontem foi exceção, tive uma reunião última hora. Acho que, finalmente, a intragável da minha chefe vai me dar um projeto grande. Fiquei estudando as plantas baixas [7] e acabei chegando super tarde. Capotei sem janta e banho. - Percebi. - repreende enquanto termino de devorar o lanche. - O Daniel foi te chamar umas duàs vezes e nada. Precisa de diversão, Polaca. Não pode ficar só do trabalho para casa. Isso não é vida. Sinto-me envergonha, tenho dado furo atrás de furo. Quero me divertir, adoraria fazer novos amigos e confesso que ouvi as batidas do namorado dela na minha porta, contudo estava tão exausta, que virei para o lado e apaguei. - Eu sei disso. Juro que hoje, eu apareço por aqui mais tarde. - junto e beijo os dedos em sinal de promessa. O assunto é interrompido por um ronco de motocicleta e uma discussão, que começa lá fora, chamando a nossa atenção. Ambas levantamos a cabeça, na mesma hora, para espiar. Curiosidade é uma merda! Diacho! Parece que o casal, que dá um pequeno show em frente ao café, não está em seus melhores dias. Uma morena, escandalosamente bonita, gesticula e fala sem parar, enquanto um homem permanece apoiado na moto, ainda de capacete. O moço não diz uma só palavra e isto me intriga. Há algo nele que prende minha atenção logo de cara e me faz observá-lo de novo. O homem é bem construído e grande, mas não do tipo bombado. Apenas do tipo 0% de gordura e na medida certa. Como um desses atletas sarados. Um gostoso. As coxas grossas, apertadas em um jeans desgastado, balançam impacientes e despertam mais o meu interesse. Fico em alerta... Os gritos da mulher aumentam... e flashes de cenas de brigas, que eu protagonizei na minha antiga vida, passam diante dos meus olhos fazendo a pele do meu pescoço formigar. Porém, em minhas memórias, quem gritava era o homem. Á essa altura, o café inteiro assiste ao espetáculo da morena. Ela chora, faz beicinho e bate os saltos altíssimos na calçada. Sua calça é tão justa que nem sei como consegue respirar. Um "Ohhh" coletivo surge quando o homem ameaça dar a partida na moto e a morena agarra-se a ele, impedindo que saia. Sinto-me mal por ela... Que papelão! A moça segura nos braços do cara como se sua vida dependesse disto. Um outro "Ohhhh" invade o café, exclusivo da ala feminina, quando o cara faz um gesto, a briguenta se afasta e lá se vão o capacete e a jaqueta. Pelos Deuses do Olimpo e adjacências! Suspiro. O céu estava em festa quando projetaram esse aí. Até eu me sinto em festa! Ohhh. Suspiro novamente . Ele é tão... Bonito. Parabéns pelo seu rosto, senhor! Reparo nos bíceps, que a mulher não larga nem por decreto, e tenho um mini frenesi. Aliás, parabéns pelo corpo todo, amigão! Entendo-a completamente, também quero me agarrar nesses brações. Seu rosto é feito de ângulos retos, maçãs destacadas, queixo quadrado, um nariz simétrico, tudo isso emoldurado em uma barba malfeita . Destas que dá vontade de tocar. Espetáculo de homem! Minha vontade é ir até ele, segurar em seu rosto estupendo e dizer obrigada por existir, e despertar pensamentos adormecidos em mim. Provavelmente, seria espancada pela morena ou presa pela polícia. Mas, que culpa tenho eu, se está escrito: feito para o seu prazer, na testa dele? Fico hipnotizada, só admirando... Tudo. Caramba ! Ele é atraente. Muito... Mesmo... De cegar meus olhos. Diferente, eu diria. Dono de uma morenice instigante que faria sucesso no Sul... É tão quente. Eu me animo mais e reparo mais... Gosto do seu cabelo escuro, curto e despenteado, e do jeito que cai um pouco para esquerda. Não consigo ver a cor dos olhos, mas aposto que vou gostar. Porém, o que mais me encanta, é que em momento algum, ele levanta a voz. Um Lord inglês! Argumenta tão baixo com a mulher histérica, que não consigo ouvi-lo. O que é uma pena e me deixa quase triste. O silêncio reina absoluto, todo mundo atento, nem um mísero barulhimo de louça batendo ou conversa... A platéia inteira focada, só esperando um desfecho para o drama que continua. Ele está aborrecido e seus lábios carnudos contraídos em uma linha fina. Hummm... Como será a sensação de ter essa boca grudada na minha? Balanço a cabeça para afastar o pensamento fora de hora... Estou com um pouco de pena dele, a mulher continua a chorar, gritar e fazer beicinho. Tudo ao mesmo tempo e não necessariamente nessa ordem. Um outro "Ooooooh" feminino eclode no momento em que ele a abraça. Consigo ouvir um... - Menos Andreza, bem menos. Meus pelos arrepiam e não tinha arrepios assim desde... Hum? Bom... Nunca . Daqui, sua voz soa como imaginei que seria. Não esperava nada menos que esse tom rouco e aveludado vindo de um ser como ele. Agora, já sinto até um pouco de inveja... Que mulher sortuda! Queria eu, ser apertada nesses brações e imprensada em seu peito largo. Eu sei... Eu sei... Cobiçar o homem alheio é feio. Pecado, diria a minha mãe. Mas, em minha defesa, alego que o homem foi feito para ser cobiçado. É até judiação comigo! É corpo que não acaba mais. Devem ter quase dois metros de pura virilidade, ali. E... É com certa nostalgia antecipada, que eu e todas as mulheres boquiabertas no recinto, observamos o casal subir na moto e sair das nossas vistas ao virar a esquina. - Ai, ai... Juro que amo o Dani, mas se um destes me chamasse para uma rapidinha ali no cantinho, iria sem pensar duàs vezes. - Jasmim suspira com os olhos vidrados na esquina. Dou risada quando ela abana-se, teatralmente, com a bandeja. - E quem recusaria? - brinco concordando com ela. - O homem é um dez mais para ninguém botar defeito. Lindo e ainda um cavalheiro! Nossa mãe! Viu que ele não levantou a voz nem por um minuto sequer? - imito seu gesto e também me abano com o avental. - Ôh se vi! Dez é pouco! Nota mil para ele! - assovia e alguns clientes olham com curiosidade. Jasmim desculpa-se, afunda atrás do balcão e senta-se no chão gargalhando. - Hum... Agora não te entendi, Polaca. Pensei que não estivesse à procura de diversão. Tiro o avental preparando-me para partir, mas antes, sento ao seu lado no chão. - Não estou à procura. - cutuco seu ombro com o meu. - Deus me livre de encrenca, mas não estou morta e nem louca. - brinco. - Também tenho minhas necessidades, poxa. - Tem? - parece surpresa. - Jurava que depois da separação você nunca mais...

Capítulo 3 Um amor de ceo

Transei? Ela balança a cabeça assentido. Gargalho... Por que será, que o mundo pensa que junto com o divórcio, assinamos também votos de castidade? - Claro que já... - faço um gesto de pouco caso. - Foi o meu casamento que acabou, não a minha vida. Arrisquei alguns encontros... Não morri só porque me separei, Jasmim. Gosto de sexo e não vejo graça nenhuma em vibradores. Mas no fim das contas, só encontrei muita promessa e nenhuma empolgação. Entretanto, não estou a fim de entrar em um ciclo de fodas vazias e sem sentido com caras que não valem a pena.

Minha prioridade é arrumar a bagunça que minha vida virou. Só que um dez é um dez, não tem como ignorar. Ainda mais um exemplar como aquele. Nunca vi um igual. - Nunca viu? - descrente, Jasmim gira o corpo ficando de frente para mim. - Qual é, o Sul está cheio de homens lindos. Pelas fotos que mostrou no Face, seu ex é bem um dez. Estico as pernas e as uso como apoio para dobrar o avental. - Bernardo é bonito sim, mas é um nove menos, muito menos. Os dez mais são raros, quase extintos. Pensando bem, acho que o moreno delícia deve ser um dez menos. Na certa aprontou uma das boas. Aquela beleza inalcançável dele é bem típica dos cretinos, a mulher não iria surtar daquele jeito à toa. - Também não precisa exagerar. - Pode até ser preconceito, mas minha experiência me ensinou que homens bonitos são um perigo. Charmosos e sedutores no começo e depois viram uns demônios insensíveis. - dou uma bufada antes de ficar de joelhos e entregar o avental dobradinho. - Nossa, foi tão ruim assim? Sei que abriu mão de uma vida confortável para estar aqui. Mas, nem o sexo compensava? Achei seu homem tão quente pelas fotos. Levanto e ela me segue. - Meu ex homem você quis dizer. - rebato com ironia. - Ele era quente sim e carinhoso... No começo... Pena que o príncipe transformou-se em tirano, impondo-me coisas não muito prazerosas. Meu casamento virou um mar de solidão e quase pirei, pensei que o problema estivesse em mim. Cheguei ao cúmulo de ler livros e ver filmes para apimentar a relação. Descobri e aprendi coisas que uma senhora de família nem sonharia em fazer com o marido. Tudo em vão. - sorrio tentando disfarçar as más lembranças. - O problema estava nele e em suas preferências nada ortodoxas. Fui muito ingênua, o ordinário já andava frequentando outros parquinhos e a trouxa aqui nem sonhava. O rosto bronzeado de Jasmim contrai em repulsa. - Fez bem em mandar o babaca pastar, Polaca. - Eu sei. - sorrio, agora de verdade, e saio apressada dando um tchau para todos e para ninguém. Dois ●●● ● ● ● ●●● D epois de sair o café, caminho em direção ao prédio da Callas Corporation. Consigo ver o arranha céu daqui. Uma torre de vinte e um andares em concreto, aço e vidros espelhados, que desponta solitária e imponente à minha frente. Os raios de sol incidem nos espelhos a fazem brilhar como um diamante. Há dois meses, faço o mesmo caminho para o trabalho e há dois meses, impressiono-me com sua arquitetura. O prédio fica em um terreno amplo, na principal avenida do bairro. Um contraste moderno diante da simplicidade ao seu redor. Dizem que a escolha do lugar, para a nova sede, foi exigência do próprio dono. Dou a volta no quarteirão e a imagem do homem bonito montando em sua moto, levando a morena com ele, ainda está marcada na minha memória. Rio sozinha do quão idiota eu sou... Fiquei mesmo impressionada pela beleza avassaladora dele. Olho para os lados, antes de atravessar para a reta final de cinquenta passos. Diacho Nina! Praguejo baixinho... Tenho vontade de arrancar minha trança... Foi justamente assim, que me meti no pior relacionamento do século. A beleza de Bernardo me fascinou, nunca estive nem aí para o dinheiro dele. Porém, não nego, fiquei muito animada com seu tipo exótico e olhe que posso dizer com certeza, que ele é bonito, mas não chega aos pés do motoqueiro gentil Pronto, Nina! Chega de bobageira! Deixe o homem no lugar dele... Só na fantasia... Paro na calçada, bem em frente ao prédio e a placa que diz: CUIDADO! SOMENTE PESSOAL CREDENCIADO . Pulo a correntinha de isolamento e os homens da manutenção já estão a todo vapor trabalhando nos jardins. Jardins que eu reformulei! A torre espelhada fica ao fundo. Antes dela, abrindo o caminho como um tapete vermelho, temos uma alameda extensa. Uma espécie de passarela em granito negro que conduz até as portas envidraçadas do hall de entrada. De um lado, um espelho d'água com os mesmos cem metros que a passarela e do outro, um jardim de descanso com canteiros rodeados por bancos rústicos. Em cada um deles: árvores, folhagens e flores. Modéstia parte... Lindo, lindo. Eu amo o meu trabalho! Sou boa no que faço. Hoje, são as árvores que me trouxeram aqui. Podem me chamar de louca, mas elas conversam comigo e não estão felizes. De duas semanas para cá, têm perdido o viço. Fui contra o uso de adubo químico, mas fui vencida pela minha chefe. " Mais baratos e menos fedidos." Taí o resultado! Folhas amareladas e caindo. Briguei, argumentei e agora, posso sentir no ar o cheiro do melhor adubo que existe: a boa e potente titica de galinha. Dane-se o fedor. Até segunda-feira, não restará nem lembrança do odor e minhas árvores vão ficar magníficas. - Senhorita Nina! - o chefe de jardinagem acena e vem em minha direção. - Oi André. Vocês adiantaram bem o trabalho. - elogio satisfeita. - A adubação já foi refeita. Reviramos a terra e trocamos as folhagens dos canteiros laterais. Falta só regar, vou dispensar os homens. Posso fazer a rega sozinho. - Eu te ajudo. - digo esfregando as mãos no macacão - Pode liberar o pessoal, que eu vou começando. - Não precisa, Senhorita. Essa mangueira tem uma pressão desgranhenta. - olha para os meus braços finos, sem muita convicção que seja possível. Endireito o corpo tentando parecer maior e mais forte que sou. Quer ver eu tentar alguma coisa até a exaustão? É só dizer que acha que não consigo. Sorrio, abaixo e pego a mangueira. Eitaaaa! Pesaaaada. Não é à toa que os bombeiros são tão sarados. Movo a alavanca no bocal com cara de que sei exatamente o que estou fazendo. - Opa, cuidado com isso aí. - desespera-se. - Só abra depois que o fluxo de água estiver completo. Hum, hum... Ooook... Fluxo de água completo. Molezinha. - Relaxê, André. Libera essa água para mim, piá [8] . - sorrio confiante e preparo-me. Fico de costas para a rua ao assistir ao homem correr até o hidrante. Está escrito na testa dele que não gostou nada, nada. Reviro os olhos, ajeito meu chapéu e agarro firme na mangueira. Afinal, vim aqui para pôr a mão na massa e o que pode dar errado? Mangueira é mangueira. Esses homens e suas malditas manias de acharem que não somos capazes. Sinto uma vibração começar a sacudir a mangueira como um maremoto... Ô... Ooooh. Lascou-se. ●●● ● ● ● ●●● Theo Atrasado, estaciono minha moto na entrada lateral da Callas. Tiro o capacete e a jaqueta depositando-os sobre o banco. Checo o celular e ainda tenho uns minutos. Respiro fundo, aliviado... Menos mal, detesto chegar atrasado e abomino mais ainda, cenas de ciúmes patéticas como as de Andreza mais cedo. Porra! Se não fosse pela platéia assistindo, acho que teria perdido a cabeça. A merda é que eu sou o único culpado, deveria ter cortado as asas daquela maluca logo no início, mas não, arrastei a coisa nem sei por quê? Hummm... Amiguinha de infância... Gata insistente e fácil... Bunda empinada... Seios tentadores e uma boca gulosa... Bem, eu sei por quê. Mas não importa, ela que se controle. Não há beleza que resista a chatice. Pulo a corrente de proteção, que proíbe a passagem, no mesmo momento em que o meu celular vibra... Caminho apressado pela passarela respondendo ao texto de Andreza. Será que ela não entendeu nada do que falei? Praguejo alto... - Mas, que merda de dia. "Meleca! Danou-se! " Meleca? Ouço um grito de mulher, mas quando desvio a atenção do celular para ver de onde veio o som, sou atingido. Mas que porra? Um jato d'água, mais forte que um soco, golpeia em cheio minhas bolas. - Puta que pariu, como isto dói! - berro deixando cair o celular e inclino-me para frente tentando me proteger. Um jato atinge meu rosto... Um murro doeria menos e tenho que fechar a boca para não me afogar... Uma​gritaria​começa​e​sou​atingido​várias​vezes,​até​que finalmente, o jato é desviado para outro lado. Sou invadido pelo alívio, mas ele dura pouco. Abro os olhos só para ver uma onda lamacenta ejetar-se e espirrar em mim. Mais gritos, incluindo os meus, e um cheiro ruim paira no ar. Percebo que minhas roupas, além de encharcadas e cobertas de terra, estão impregnadas pelo fedor. Mas que merda é essa? Respiro fundo para recuperar o fôlego e conter a dor entre as pernas. Caralho!

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