Então, a voz de Nico me trouxe de volta à realidade. Ele notou minha distração e a desaprovação estava clara em seu olhar. Eu o encarei, sentindo vergonha por não ter prestado atenção nele.
- Desculpa - eu disse, tentando encontrar uma explicação. - É que ainda estou me adaptando a tudo isso.
Nico mordeu os lábios e baixou a cabeça, parecendo tristonho. Ele disse, com um toque de insegurança:
- Você não gostou de me ver?
Quando eu olhei nos olhos castanhos dele, percebi o temor que escondia. Eu gostava dele, eu gostava de vê-lo pessoalmente, mas, naquele momento, naquela praia, sob as estrelas, eu não sentia nada mais do que... bem, um cara legal.
Essa constatação me deixou confusa e apavorada. Se o meu coração não saltava de alegria quando Nico estava presente, o que isso significava? Será que ele realmente pertencia a Colin? Mas agora Colin estava com Pati, e eu não fazia ideia do que eles estavam fazendo naquele momento.
- Eu...- comecei a dizer, mas as palavras pareciam se perder em meio ao meu caos emocional.
- Então, passou o dia com Colin, e ele fez você mudar de ideia? - Nico completou, sua voz tingida de tristeza.
Eu me senti mal com tudo aquilo. Eu não queria ver Nico com o coração partido, assim como não queria ver Colin ou Pati sofrendo. Eu comecei a pensar que teria sido mais fácil se eu nunca tivesse aceitado participar desse jogo, se eu nunca tivesse vindo para esta ilha no México.
Eu me esforcei para explicar a Nico:
- Não quero magoar você nem ninguém. Desde o primeiro momento, senti uma conexão com você, mas o Colin... ele é diferente. Nós somos parecidos.
Nico pareceu tentar entender, mas a única coisa que ele fez foi se afastar. Eu senti um vazio se abrir entre nós. Eu disse, achando que ele estava furioso comigo:
- Não quero que você me odeie.
Ele me olhou com um sorriso triste e disse:
- Não odeio você, Hanna. Você é uma pessoa incrível. Eu... não escolhi você à toa. Mas entendo que, às vezes, não controlamos por quem nos apaixonamos.
Sem dizer mais nada, Nico se afastou, claramente frustrado. Eu me senti mal por ter machucado seus sentimentos, mesmo que eu não tivesse a intenção.
Lembrei-me então de Colin e Pati. Tentando não parecer desesperada, saí em busca deles. Quando os encontrei em meio aos coqueiros, percebi que Pati tinha uma expressão magoada, assim como eu. Eu me sentia culpada por estar no meio disso tudo.
Jamais imaginaria que me apaixonaria por um desconhecido e que isso causaria tanta dor.
Assim que Pati saiu, desiludida, eu me aproximei de Colin, que parecia visivelmente desconfortável.
Mas, no momento em que nossos olhares se encontraram, algo mudou. Parecia que finalmente eu tinha encontrado o que estava procurando.
Involuntariamente eu corri até ele e o abracei. Seu perfume me deixou zonza, mas de um jeito bom. Ele era bem maior que eu, então, meio que abracei seu peito.
Mas aquilo já foi o bastante para sentir borboletas no estomago. Quando retribuiu meu abraço, o frio sesso. Me senti completa e confortável, então, achei que estava parecendo uma boba, então me afastei um pouco.
No mesmo instante senti meu rosto arder de tanta vergonha. Foi inusitado e compreendo que pareci uma louca.
- Me empolguei. – Dei um sorriso, sentindo vergonha de mim mesma.
Colin, olhou em meus olhos, acariciou meu rosto e deu um sorriso que fez seu rosto todo iluminar. Ele era lindo de longe, e de perto, mais ainda.
Quando sorria, criava covinhas nas bochechas, seus olhos escuros tinha o brilho de uma estrela. Não consegui parar de sorrir, tanto que doeu meu rosto.
O som das ondas quebrando na areia era uma trilha sonora perfeita para nossa noite especial. Os coqueirais ao nosso redor pareciam guardar segredos antigos, sussurrando ao vento histórias de amores que ali haviam florescido. A eletricidade da tensão romântica fluindo entre nós.
Eu sentia meu coração bater descompassado, como um tambor selvagem anunciando a chegada de algo grandioso.
A brisa marinha dançava ao nosso redor, e então, suavemente, Colin inclinou o rosto na minha direção. Eu senti seu hálito quente contra minha pele, antecipação e desejo misturados em um único instante.
Nossos lábios se encontraram, suaves como as ondas que beijavam a areia. Foi um beijo suave, delicado, mas cheio de paixão e intensidade.
Meu coração explodiu de emoção naquele instante. Uma onda de calor percorreu todo o meu corpo, e minha mente viajou para um lugar onde só existíamos nós dois, cercados pelo mar, pelos coqueirais e pelas estrelas. Nossos lábios se moviam em perfeita sintonia, e o tempo pareceu parar.
O mundo ao nosso redor desapareceu, e só restávamos eu e Colin, entregando-nos ao momento de amor e conexão que compartilhávamos.
O som das ondas se transformou em um murmúrio distante, e o único som que eu conseguia ouvir era o batimento acelerado do meu coração, que ecoava o dele.
Nós nos separamos lentamente, nossas testas coladas e nossos olhos ainda fechados.
Meu Deus, eu não sabia que isso podia acontecer comigo?
- Agora só resta nós dois. - Ele disse no meu ouvido. Sua barba roça no meu pescoço fazendo cócegas.
- Não exatamente. - Esse momento é único e muito feliz, mas... Havia coisas sem resolução. Levantei o rosto para encontrar seu olhar. Colin estava com o cenho franzido, confuso. Eu podia até ver a dúvida e preocupação nos seus olhos. - Pati, ela não ficou bem.
Senti o alívio dele ao vê-lo respirar fundo. Sabia que ele estava pensando no Nico. Eu também pensava. Em como ele ficou com tudo isso. Afinal, consigo entender o sentimento deles.
- Conversamos. - Explicou. - Deixei claro o que sinto.
- Conversamos muito, ela parecia bastante envolvida. - Perdi algumas horas imaginando como as coisas entre eles aconteciam. Claro que haviam temas, cantadas. Pati não criaria expectativas do nada.
Mas assim como eu e Nico, escolhi aquele que mais conseguiu meu coração. O que não o fato de que os dois realmente flertaram. Um pedacinho de mim temia que ele mudasse de ideia. Talvez ele tenha visto isso em meu rosto.
Colin pegou em meu queixo, trazendo-me de volta para o presente.
- Tivemos encontros, como todos. Conversamos sobre tudo. Mas... No final, você prevaleceu em meu coração e agora, não tenho dúvidas sobre isso.
Ele conseguiu um sorriso meu.
- Certo, mas ainda estamos aqui. Presos na ilha. - É, e agora estou bem mais nervosa. Podíamos ir e vir, falar e fazer o que quisermos. Bem... Acho que tudo não!
- É, e temos o Nico. - O tom de voz preocupado me fez dar um sorriso, achando que ele estava inseguro. - O cara não parava de falar em você. - Não posso mentir. Gostei de ouvir isso. E a cara que Colin fez, foi engraçada. - Quase pedi para que ele calasse a boca.
- Ele é um cara legal.
Dei de ombros. Colin cerrou os olhos. Provavelmente ficou com ciúmes. Me afastei um pouco.
- Cara legal? - É, acho que ele ficou com ciúmes. - O cara legal quer você. E eu... Odeio isso.
- Conversamos - Expliquei. - Ele entendeu. Estou com você.
Colin respirou fundo, acenando com a cabeça e pondo as mãos na cintura.
Eu sempre tentava imaginar suas reações, enquanto conversávamos, mas ver isso, pessoalmente, era engraçado.
- Ótimo, mas... Do jeito que ele falava e parecia sentir, não acredito que ele vá desistir fácil.
- Colin - puxei seu braço. Ele estava tenso. - Não precisa se preocupar. Não sou esse tipo de pessoa. Além do mais, está se preocupando atoa.
Ele ficava lindo quanto sorria. Acabei descobrindo que toda vez que ele fazia isso, meu coração disparava.
- Você é uma pessoa incrível, inteligente e humilde. Não é atoa que eu gostei tanto de você. - Colin passou seus braços pela minha cintura. - Por mim, sairíamos daqui amanhã. Mas não acho que isso vá acontecer.
- Vamos ficar bem. Só espero que não desista de mim.
- Hanna, eu nunca vou desistir de você. Tenho medo de perder você. Mas vamos prometer que seremos sinceros. Seja lá o que acontecer.
- Certo. - Estique-me para dar um beijo nele.
Eu fechei meu laptop com um suspiro de alívio, meus olhos cansados refletindo o brilho da tela que me prendeu por horas. Minhas costas doíam, uma lembrança constante de quanto tempo eu tinha passado sentada naquela cadeira desconfortável.
A exaustão mental pesava sobre mim, afetando meu humor já frágil. Tudo o que eu queria naquele momento era um banho quente.
Eu amava meu trabalho como roteirista novata em LA, mas havia algo que faltava em minha vida: calor humano. Minha personalidade introvertida sempre foi um obstáculo para fazer amigos na cidade das estrelas.
Enquanto eu me questionava sobre o rumo que estava tomando, sabia que precisava sair de casa, mas o medo de que tudo desse errado sempre me assombrava.
Minha solidão era palpável, e meus únicos companheiros eram meus gatos, que pareciam entender minha necessidade de isolamento. Minha irmã mais velha constantemente questionava minha escolha de viver assim.
Com um esforço, levantei-me da cadeira e fui em direção à cozinha, mas fui interrompida pelo som da campainha. Meu apartamento próprio não era muito grande, mas estava decorado com quadros e pôsteres que refletiam meu amor pelo mundo do cinema moderno.
Intrigada e curiosa, dirigi-me à porta, imaginando quem poderia ser aquela visita inesperada que quebraria minha rotina solitária.
Ao abrir a porta, claramente exausta, a figura da minha irmã me deixou ainda mais cansada. Não falei uma palavra. Apenas deixei os ombros caírem e permiti sua passagem.
Se bem conheço a minha irmã, sei que Agatha irá encher meu saco, dando aqueles conselhos inúteis e que me fazia querer matá-la.
A mulher, baixinha, de cabelos pintados de vermelho intenso, não disse uma palavra, antes de pôr sua bolsa na bancada de mármore. Sabendo que eu iria ouvir um sermão, passei por ela, abri a geladeira e peguei a garrafa com água.
- Hanna, eu amo você, mas assim não dá. – Minha irmã, dramática como sempre, cruzou os braços, ao me observar. Assim que me hidratei, busquei pela ração dos meus gatos enquanto ela me fitava com certa raiva. – Sabe que isso é... difícil de presenciar.
Revirei os olhos e respirei fundo.
- Agatha, eu não sei o porquê está tão decepcionada. – Me chateei. Pus o potinho de ração no chão, e me afastei, pondo o recipiente de volta ao seu lugar. – Essa é a minha vida, e estou bem como estou.
Na verdade, eu não estava, mas não iria admitir na frente dela.
Geralmente sou mais elétrica e determinada, contudo, o dia foi cheio e meu corpo e mente, estavam cansados.
- Mentira, você se sente sozinha e solitária.
- Tenho os meus dois companheiros, a única que se incomoda com a minha vida é você.
Eu queria muito a mandar embora. Tudo o que eu não queria era ouvir o que Agatha tinha para falar.
- Porque eu te amo – Fez um drama. Ela projetou seu corpo em cima do mármore e me observou, quanto lava a as mãos. – É minha irmã casula. Só pensa em trabalho, nunca nem saiu com ninguém.
Nunca é muito exagero. Não sou uma virgem de vinte sete anos. Eu só estou cansada e ocupada demais.
- Você não tem certeza disso. – Fiquei chateada.
- Então me diz, com quem saiu nesses últimos oito anos?
Ela me pegou. Claro que não sai com ninguém nesse tempo. Minha vagina nem sabe mais o que é sexo. Isso é vergonhoso.
- Isso não é da sua conta.
- Significa que a resposta é negativa. – Enchi meu peito de ar, pensando em dizer algo, mas nada saiu pela boca. – Olha, eu sei que você se dedicou ao trabalho.
- E não me arrependo. – Apontei.
- Mas agora tem uma estabilidade, um bom salário, e ainda vive sozinha.
Achei uma falta de noção.
- Por opção.
Isso já estava me irritando. Bufei, sentindo o sangue ferver.
- Certo, porém, você realmente gosta dessa vida?
Eu poderia dizer, rápido e com determinação, que sim, contudo, estaria mentindo. Mesmo sendo difícil fazer amigos, eu odiava viver no silencio.
Meus únicos ouvintes são meus gatos, e, em alguns momentos, os acho melhor que muita gente.
- Quando eu quiser alguém, vou buscar. Não preciso me desesperar.
Mas não significava que minha irmã mais velha, com duas crianças, não fizesse esse favor para mim.
- Se eu não empurrar você, não vai perceber que precisa sair de casa e se divertir.
Cruzei os braços, respirei fundo e a olhai, séria.
- Você iria embora da minha casa e esqueceria essa história, se eu dissesse que iria sair e tentar socializar?
- Sim. – Deu um sorriso.
Eu sabia que era mentira.
- Eu vou sair e, quem sabe, posso encontrar alguém.
- Ótimo.
Nós duas sabemos que ela não vai me deixar em paz, até aparecer com um cara na festa de aniversário da mamãe.
Se eu não aceitar seus termos, acredito que passarei a noite inteira sem paz. Ao dar um sorriso sarcástico, ela se contenta, pegando a sua bolsa e saindo do apartamento.
Eu não queria fazer isso, mesmo achando que ela estava certa. Seria dar plenos poderes a Agatha, admitir isso na frente dela.
A questão era complexa para mim. Eu vivia presa no meu mundo, criando histórias e não vivendo nenhuma delas.
Sempre que ligo a TV e vejo meu trabalho em ação, sinto que sou eu ali, na televisão, contudo, estou sentada no sofá, comendo pipoca, junto com os meus gatos.
Olhar-me no espelho me desagrada, não por não gostar da minha aparência, mas por ver que a mulher que sonho em ser, não passa de um projeto no papel.
- Talvez ela esteja certa.
***
Deitada em minha cama macia, meus gatos me cercavam como sempre, criando uma espécie de muralha de pelagem fofa ao meu redor. Eu estava exausta, meu corpo ansiava por descanso, mas sabia que minha irmã, Agatha, não me deixaria em paz.
O celular vibrava incessantemente na mobília de madeira aos pés da cama, um lembrete constante de que não poderia escapar das mensagens.
Com um esforço considerável, estendi a mão para alcançar o aparelho. A tela iluminou meu rosto, e eu sabia que não havia escapatória. Era Agatha, como eu esperava. Ela podia ser tão insistente que provavelmente ligaria várias vezes, perturbando meu sono. Suspirei e desbloqueei o telefone, lendo as mensagens que aguardavam pacientemente para serem lidas.
Agatha: "Sei que você não saiu de casa." Há! Isso só pode ser brincadeira. "Abre o link e se inscreve." Desejei jogar o celular na parede. Minha irmã me mandou um link suspeito e continuou digitando. "Acha que gosto de fazer isso?"
- Aposto que ama me irritar, é a sua função.
Agatha: "Só quero que conhece alguém. Mas você e sedentária demais. Acha que tudo vai dar errado, então nem tente."
- Isso não é verdade – Falar sozinha até parece reforçar o que minha irmã acha sobre mim. – Fiz faculdade, tenho uma ou duas amigas, me formei e falei na gente de todo mundo, mesmo que meu coração estivesse na boca por falar em público. – Parei e pensei em tudo o que estava acontecendo, naquele momento. – Ai meu Deus, ela está certa. Eu sou deprimente. – Até me senti mal.
Agatha: "É só um teste. Já que odeia conversar cara a cara, talvez possa digitar."
- Por que você parece me conhecer mais do que eu mesma? – Cruzei os braços irritada. Olhei para Stoltz, meu gato, e ele parecia me julgar. – O que é? – Me irritei. – Não sou tão antissocial assim. – Pensei. – Só odeio sair da rotina. Não gosto de fingir gostar de algo. Odeio lugares cheio de pessoas, não preciso ser depressiva.
"Agatha: Vou saber se você se inscreveu ou não, pois tenho um perfil e vou te vigiar."
Resolvi responder as mensagens:
Hanna: "Olha aqui, eu não preciso de monitora. Se eu resolver fazer isso, será por vontade própria, não sua pressão."
Agatha: "Você vai fazer isso, ou não vou sair do seu pe. É isso que quer?"
Se ela estivesse aqui, esganaria a minha irmã.
Hanna: "Odeio você"
Agatha: "Também te amo, boa noite."
Sentada em frente ao meu computador, pensando no que minha vida se tornou, sinto um profundo descontentamento com a rotina monótona que se instaurou.
Digitando mais um capítulo que encantaria alguns telespectadores, percebo que, apesar de criar histórias emocionantes e românticas, minha própria vida é vazia e previsível aos meus vinte e sete anos.
Enquanto repasso mentalmente as tarefas do dia e do que me aguarda amanhã, uma voz interior inquietante sussurra que minha irmã pode estar certa. Talvez seja hora de buscar algo novo, algo que me tire desse marasmo.
Então, como um estalar de dedos, lembro-me do link que ela me enviou recentemente. Embora pareça uma ideia louca, algo me impulsiona a pegar meu laptop e explorar.
Abri o aplicativo de mensagens, no computador, e olho para a tela, pensando se isso era realmente uma boa ideia.
Pensando como uma escritora, mais parecia uma história maluca onde a mocinha, incentivada a buscar novos ares, se vê fazendo a loucura de se inscrever em um site de namoro. Pior, isso era realmente.
- A única diferença é que não sou nada interessante. - Falei, ainda encarando a tela. - Na verdade, isso não é um filme. O destino, escrito por uma romântica como eu, não irá agir, ou vai colocar um super gostoso na vida da mulher solitária, lhe dando uma experiência magnífica. - Bem que eu queria. Imagina um encontro, na cafeteria. Você não espera que vai sair nada dali. O cara se atrasa, você acha que levou um bolo, mas então, esbarra em um cara lindo, forte e com senso de humor. Aquele é o homem com quem vai viver uma aventura. - Então a realidade me joga de volta para a realidade onde eu estou no sofá, sonhando com algo que nunca vai acontecer.
É deprimente. Contudo, o que farei hoje a noite?
Não tenho coragem de colocar uma roupa e sair, buscando por um bar confortável onde vou beber sozinha.
- Bem, não tenho cerveja, mas tenho vinho.
Decido que é melhor fazer isso com um pouco de classe, então vou até a cozinha e pego uma taça. Meu gato, o eterno observador da minha vida, me encara com aquele olhar crítico.
- Sim, eu sei, senhor Pêlo. Isso é provavelmente uma péssima ideia. - Ele pisca para mim, mas sei que ele está me julgando.
Volto ao sofá, com minha taça de vinho em uma mão e o laptop na outra. Meu coração começa a bater mais rápido à medida que me preparo para clicar no link.
Não faço ideia do que estou fazendo, mas uma coisa é certa: essa noite promete ser interessante, ou pelo menos engraçada.
***
Acordo com uma dor no pescoço, graças ao sofá onde dormir. Os felinos estão em cima de mim, miando, quase gritando por comida.
Estou a ponto de gritar de volta, dizendo que não vão morrer se eu demorar um segundo a mais.
- Se fosse eu, quem precisasse de vocês, com certeza não seria ouvida. - Disse ao me levantar.
Andei até a cozinha, sem saber muito o que estava fazendo. Minha cabeça só girava e não parava de doer.
Ao pegar a ração, coloquei nos potes e logo o som sumiu.
- Vocês são verdadeiros mortos de fome. - Reclamei. Cocei os olhos, voltando para a sala e vendo a bagunça. A garrafa de vinho, vazia, a taça, o computador. - Aí meu Deus! - Aos poucos fui recordando. Na noite passada eu apertei naquele link. Coloquei meus dados. - Deus. Eu não sei se foi uma boa ideia. - Comecei a andar de um canto a outro, roendo as unhas. - Vocês - Virei irritada, olhando para os dois esfomeados. - Por que não me impediram? - Na noite passada, eu tinha motivo. Estava testando, mas agora, com tudo feito, meu coração disparou. - São apenas conversas. Além disso, posso optar por não aceitar as mensagens. - Isso seria tempo perdido. - Mas se bem que eu preciso. Olha para esse apartamento. Dois gatos, um computador. Preciso transar. Já faz tanto tempo.
Suspirei, decidindo que era hora de arrumar a bagunça que eu mesma tinha criado. Peguei a taça suja e a coloquei na pia, prometendo a mim mesma que faria a limpeza mais tarde. Em seguida, endireitei o laptop e coloquei-o com cuidado na mesa de centro.
Enquanto eu organizava as coisas, meu celular ao lado começou a vibrar, chamando minha atenção. Peguei o aparelho e desbloqueei a tela, curiosa para ver o que era tão urgente. Para minha surpresa, era uma notificação de um aplicativo de namoro.
Surpresa, lembrei-me da inscrição em um site de namoro na noite anterior. Minha irmã tinha me enviado um link e insistido para que eu me registrasse.
Eu tinha bebido algumas taças de vinho e não prestei muita atenção em detalhes. Apenas preenchi um questionário rápido sobre minha vida e interesses e cliquei em "registrar".
A notificação mostrava uma mensagem do site. Achei estranho, pois pelo que sei sobre esse tipo de site, as notificações são de interessados no meu perfil, ou seja, de homens, mas aquilo não era exatamente o que eu pensava.
Comecei a ler a mensagem e, aos poucos, os detalhes começaram a surgir em minha mente. Disponibilidade. Passaporte. Coisas que eu não sabia, na hora, sobre o porquê todas aquelas perguntas.
A mensagem: Obrigada pela sua inscrição. Seu perfil está sendo avaliado. Assim que for selecionada, receberá um e-mail e a passagem.
Olhei para aqui e não entendi nada. Acabei imaginando que era alguma pegadinha de Agatha, mesmo que fosse algo muito genial, no qual ela nunca se daria ao trabalho.
- Quer saber - Desliguei o aparelho e o soltei no sofá. - Vou continuar com a minha arrumação. Tenho muito trabalho ainda hoje.
***
Decidi sair de casa naquela noite, algo que não fazia há dias. Minha vontade era de visitar o food truck que costumava frequentar com minha irmã quando éramos mais jovens e, mesmo na vida adulta, ainda mantínhamos essa tradição. Mas naquela noite, eu ansiava por um momento de solidão enquanto saboreava um burrito.
Caminhei até a praça, onde uma multidão de pessoas se reunia, conversava, comia e se divertia. A noite em Los Angeles parecia demorar a chegar, mas a cidade nunca perdia a sua agitação. A praça estava viva, com balanços oscilando e food trucks vendendo de tudo.
Comprei meu burrito favorito e encontrei um banco vago sob a luz suave das lâmpadas da praça. Enquanto saboreava cada mordida, minha mente vagou para a noite anterior.
Tentei lembrar com detalhes como era o site de relacionamentos para o qual minha irmã tinha me enviado um link. Eu estava curiosa, mas não tinha tido a chance de explorar mais naquela ocasião.
Surpreendentemente, avistei minha irmã, seu marido e seus filhos passeando pela praça. Quando Agatha, minha irmã, percebeu que eu estava ali sozinha, com meu burrito, ela rapidamente deixou as crianças sob os cuidados do marido e se aproximou de mim.
Como sempre, revirei os olhos, evidentemente não querendo ter uma conversa com ela, especialmente porque fora ela quem me enviara aquele misterioso link.
Mas Agatha não se importou com a tensão no ar. Ela se sentou ao meu lado, esperando que eu compartilhasse o que tinha acontecido, se eu tinha realmente me inscrito no site que ela me recomendou ou não.
- Seu silencio me incomoda.
- Eu só quero comer o meu burrito. - Tentei ignorar, mas ela, claramente, não iria deixar.
- Hanna!
- Você acha que sou uma piada? - Finalmente ela conseguiu me tirar do sério. - Que site era aquele?
- Como assim? - Provavelmente não foi ela quem indicou o site ou simplesmente botou no Google: site de relacionamentos e me enviou o primeiro que viu.
- Não recebi notificação de homens interessados, mas de uma secretária eletrônica. E para que eu preciso do passaporte?
- Passaporte?
- Como me envia coisas que não sabe o que são? - Isso estava me estressando. O curioso era que resolvi sair para me relaxar.
- Foi a Lívia que me mandou. - Respirei fundo, tentando tirar paciência de onde não existia. - Ela disse que era o site perfeito. Que se não arranjasse nesse site, você ficaria sozinha para sempre.
- Está dando vontade de enfiar esse burrito na sua garganta.
- O que tinha lá de tão bizarro?
- Não me lembro de tudo. Eu tava tensa. Bebi uma garrafa de vinho inteira.
- Como você fica bêbada com vinho.
Olhei para a minha irmã, sentindo ódio.
- Quer saber, eu estou indo embora. - levantei. - Quero tomar um banho e ir dormir.
- Hanna, não exagera. Pode ser bom.
- Não tem como ser bom. Provavelmente me escrevi em um site bizarro onde vou receber notificações de como arrumar um namorado.
Até perdi a fome. Sai dali sem dizer um tchau.
No meio do caminho, meu celular toca. Tem notificações, mas não paro para olhar.