Raina
Após horas de um trabalho de parto exaustivo, meu corpo estava encharcado de suor e cada músculo tremia de puro cansaço.
Por mais que eu tivesse passado nove longos meses me preparando para esse momento, nada poderia ter me preparado para a realidade que me aguardava.
"Sou mãe agora", pensei, com o corpo ainda dolorido e o coração em êxtase. Deitada na cama do hospital, olhei para os dois pequenos milagres ao meu lado - meus gêmeos, meu menino e minha menina. O auge da minha vida.
Por um instante tudo pareceu perfeito, mas, como uma sombra fria atravessando a luz, uma inquietação antiga se infiltrou entre a alegria quente e intensa que transbordava em mim.
Apesar do ar-condicionado, o quarto me pareceu sufocante. E então percebi o motivo: ele estava ali.
Meu marido.
Encostado próximo à janela, observava-me com o mesmo olhar impassível de sempre - uma beleza cruel moldada em pedra. Ombros tensos, maxilar rígido, nenhum traço de ternura ou orgulho.
Eu tinha acabado de trazer ao mundo os nossos filhos, e ele sequer esboçou um sorriso. Nenhuma palavra de carinho. Nem mesmo um "estou orgulhoso de você".
Ah, como eu desejava ouvir isso.
Permaneci em silêncio, esperando que algo, qualquer coisa, quebrasse essa distância insuportável, mas o que veio a seguir me arrancou o fôlego.
Quando ele se aproximou, não foi para me abraçar ou tocar nossos bebês. Em vez disso, ele atirou uma pilha de papéis sobre o meu colo.
"Assine", ele ordenou, sua voz fria e distante.
Demorei alguns segundos para compreender, pois minha mente, entorpecida pela dor e pelo cansaço, se recusava a processar. Alternando meus olhares entre o rosto dele e os papéis, eu perguntei: "O quê?"
"Os papéis do divórcio", ele respondeu, seco, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Senti o chão desaparecer sob mim, e meu coração se quebrou.
"Rápido", ele acrescentou, arremessando uma caneta em minha direção. Sua impaciência era palpável - para ele, isso era apenas um incômodo passageiro, não a provação de horas que eu acabara de atravessar.
"O quê..." Minha incredulidade era tão grande que eu estava sem ar. O que estava acontecendo? Eu havia acabado de dar à luz os filhos dele, ele não podia estar falando sério.
Um divórcio?
"Eu... eu não entendo. Acabei de dar à luz...", minha voz se quebrou no meio da frase.
"Considere-se com sorte por esses filhos serem mesmo meus! Ordenei que os médicos fizessem o teste de DNA assim que nasceram. Se o resultado fosse outro, eu teria acabado com a sua vida e a do seu amante", ele disparou.
Ao ouvir essa acusação, meu corpo inteiro se contraiu. Amante? Por um instante, achei que não tinha ouvido direito. Meu cérebro se recusava a processar as palavras enquanto eu tentava respirar, com o pulso martelando em meus ouvidos.
"Alex, o que... Que amante?"
Mesmo após ter dedicado minha vida tentando provar meu amor por esse homem, ele ainda achava que estava sendo traído.
"Você não engana ninguém, Raina. Agora, assine", Alexander ordenou enquanto se aproximava.
As lágrimas começaram a escorrer antes que eu percebesse.
"Isso só pode ser uma piada. Eu não sei do que..."
"Ah, não comece com o teatro! Todo mundo já sabe o que você fez. Então para de fingir, porra!", Vanessa, a irmã dele, disse, emergindo das sombras com um sorriso debochado.
Meu corpo ficou paralisado. Eu queria acreditar que era um delírio pós-parto, um pesadelo. Mas tudo era real demais.
"Eu não...", tentei falar, mas ela me interrompeu, atirando um maço de fotografias sobre mim, que se espalharam pela cama e pelo chão, deslizando como lâminas.
Ainda dolorida, lutei para me sentar na cama e, com as mãos trêmulas, peguei uma das fotos. Era difícil enxergar através do véu de lágrimas, e eu já não conseguia mais respirar direito. "Alexander, escute..."
"Chega! Pare de desperdiçar o meu tempo e assine a porcaria desses papéis, sua vadia!", ele latiu, me impedindo de conseguir focar nas imagens.
O xingamento me atingiu como uma bofetada. Ele estava chamando a própria esposa de vadia.
De onde vinha isso? O que estava acontecendo?
Nesse momento, era como se mil facas perfurassem meu peito.
Meu Deus, ele estava mesmo falando sério sobre acabar com tudo? Conosco?
O pânico me sufocou, subindo pela garganta, enquanto meu corpo tremia e o quarto girava ao meu redor.
Através das lágrimas, meus olhos vasculharam o rosto de Alexander em busca de qualquer sinal de emoção. Mas não havia compaixão, preocupação, nem amor.
Não havia simplesmente nada.
Tudo o que encontrei foi a frieza impenetrável de suas feições. Talvez eu tivesse amado o homem errado, e essa constatação me rasgou por dentro.
Durante anos, eu me recusei a enxergar o óbvio. A família dele jamais me aceitou - diziam, sem pudor, que eu não era digna do nome que agora carregava.
Engoli cada insulto, cada humilhação, acreditando que o amor seria suficiente para vencer o preconceito. Houve vezes em que sua mãe me ofereceu dinheiro para desaparecer antes mesmo do casamento, mas eu recusei, pois meu amor por ele era sincero, puro, inegociável, e não estava à venda.
Quando a dor das ofensas se tornava insuportável, eu o procurava em busca de amparo, mas ele sempre reagia da mesma forma - um simples erguer de ombros, uma indiferença que me feria mais do que qualquer palavra.
"Eles são assim mesmo, Raina. Vão se acostumar."
Mas eles nunca se acostumaram. E ele nunca me defendeu.
Nem quando a irmã dele me chamou de interesseira durante o noivado. Nem quando o próprio pai sugeriu que ele anulasse o casamento no nosso primeiro ano juntos.
Ainda assim, permaneci ao lado dele, amando-o mais a cada ofensa e me agarrando à esperança de que um dia ele finalmente me enxergasse, enquanto tolamente aceitava o desprezo, os subornos e as agressões verbais, tentando justificar seu silêncio como apenas o jeito dele de lidar com a família.
Mas agora, enquanto o olhava, entendi o que nunca quis admitir.
A frieza que eu via agora não era algo novo - era simplesmente o que sempre esteve ali, por baixo da fachada.
Ou talvez ele nunca tivesse sido meu de verdade. Talvez eu apenas tivesse me imposto a ele o tempo todo, acreditando em um amor que só existia de um lado.
E, como uma lâmina fria, a verdade se cravou em mim: ele nunca me amou. Pelo menos, não da forma como eu o amava.
"Como eu fui idiota!", murmurei para mim mesma, sentindo a escuridão me cercar, ameaçando me arrastar junto.
A voz de Alexander rompeu o silêncio, áspera e impaciente: "Agora pare de me fazer perder tempo e assine os papéis. Tenho coisas mais importantes a fazer."
Com a voz embargada e tentando encontrar o olhar dele, eu sussurrei: "Alex, por favor, podemos conversar a sós? Isso só pode ser um mal-entendido. Eu... eu te imploro, me escuta."
"Não há nada para conversar. Só voltaremos a nos falar na presença dos nossos advogados. Guarde suas mentiras para eles."
"Alex, você me conhece. Sabe que eu nunca faria uma coisa dessas. Eu sempre amei você, só você. Eu nunca te traí."
Alexander permaneceu impassível, nem sequer me dirigiu um olhar. "Apenas assine os documentos. Acabou."
"Alex...", minha voz falhou, os lábios trêmulos, meu olhar suplicante.
Mas ele apenas me encarou - seu rosto inexpressivo, os olhos frios, e a alma distante.
"Não me obrigue a repetir", ele disse entre os dentes, com um controle que beirava o desprezo.
Com as lágrimas embaçando minha visão e as mãos trêmulas, mal conseguia segurar o papel enquanto minhas forças me abandonavam, mas, ainda assim, assinei. Que outra escolha eu tinha? Ao terminar, ergui os olhos para meus gêmeos e, por um instante, o simples fato de tê-los me deu o único resquício de consolo que ainda me restava.
Mas esse alívio durou pouco, pois, a mãe dele, que até então permanecera nas sombras, se aproximou da cama e, com um tom autoritário, ordenou: "Pegue o menino, e vamos embora."
Ao ouvir isso, ergui a cabeça rapidamente. "O quê?"
"Leia os documentos. Você abriu mão dos seus direitos parentais sobre o meu filho", Alexander explicou friamente.
Sentindo o sangue gelar em minhas veias, eu tentei argumentar: "Alex, não... Ele é só um bebê, você não pode tirá-lo de mim! Não pode!"
"Ele é o meu herdeiro!", ele grunhiu, cerrando os dentes.
Então, inclinando-se, ele continuou, sua voz destilando veneno: "Quanto à menina... pode ficar com ela. Considere isso um favor. Eu poderia levar os dois, mas assim não preciso me preocupar que ela se torne uma vadia como a mãe."
No mesmo instante, engasguei, o choque me empurrando para trás. "Alex! Como pode dizer isso da nossa filha... e de mim?!"
"Ela é sua filha. E, de agora em diante, apenas sua. O médico disse que ela nasceu doente e talvez não sobreviva, não preciso de um peso morto. Especialmente um que pode acabar como você."
Então ele se virou, indiferente, e saiu levando nosso filho nos braços, e metade de mim junto.
Fraca demais para me erguer, gritei o nome dele, minha voz se quebrando em desespero. "Alex! Alex, por favor! Alex, não o leve! Por favor!"
Mas ele sequer olhou para trás.
Desabei sobre a cama, abraçando minha filha com as últimas forças que me restavam, enquanto meu corpo tremia em soluços incontroláveis e a dor se instalava em mim como uma ferida aberta que jamais cicatrizaria.
Rejeitada, humilhada e abandonada, eu estava à deriva, perdida em meio à minha própria ruína.
A solidão era absoluta - e o desamparo, total.
Alexander
A exaustão me consumia, corroendo cada fragmento de mim como fogo lento.
Cinco anos de agonia, intermináveis e pesados, me perseguiam como sombras insistentes. Não importava o quanto eu trabalhasse, ou quantas distrações buscasse, o tormento continuava a me engolir.
Os papéis do divórcio estavam assinados e arquivados, encerrando a última vez que a vi, mas sua ausência continuava a arder em mim como uma ferida aberta, pulsante e indomável.
Porém, eu não sentia falta dela, pelo menos não como um homem sente falta de sua mulher. Porra, eu nem a amava mais. O que eu queria - ou melhor, precisava - era saber que ela estava por aí, criando nossa filha sozinha, sofrendo, sem um centavo. Essa seria minha única satisfação em meio ao caos. Mas, em vez disso, só havia silêncio. Um silêncio que me enlouquecia.
Nesse momento, meu celular tocou, arrancando-me dos meus pensamentos sombrios.
Era Silas, o investigador particular que eu havia contratado há anos, e a quem já tinha despejado uma fortuna. Nos últimos três anos, ele prometia respostas, mas tudo que eu recebia eram portas fechadas.
Atendi, já esperando o pior, mas ainda assim me preparei para o impacto. "Diga que você encontrou algo."
Houve uma pausa, uma hesitação que dizia tudo. Droga.
"Nada. Sinto muito... É estranho, Alex... é quase como se ela tivesse desaparecido da face da Terra."
Engoli em seco, tentando conter a frustração que subia pela garganta. "Então talvez você não se importe de se juntar a ela."
Eu sabia que estava passando dos limites, dominado pelo desespero.
Silas suspirou, cansado, mas acostumado aos meus surtos. "Sinto muito, Alex. Revirei cada pista. Ela simplesmente desapareceu. Nenhum rastro dela ou da criança. É como se..."
Frustrado, eu o interrompi enquanto batia com o punho na mesa, mas a dor aguda que explodiu na minha mão foi mínima diante da fúria que me consumia. "Como se tivesse evaporado?! Se você mencionar essa besteira mais uma vez, eu juro que..."
"Alex, eu verifiquei todos os registros. Ela apagou os rastros meticulosamente. Talvez tenha tido ajuda. Continuarei investigando, mas talvez você deva considerar outras opções, como engravidar outra mulher."
"Não!", cortei com o maxilar travado. Em seguida, fechei os olhos e apertei o celular como se pudesse esmagá-lo, respirando fundo para não explodir.
"Não sabia que você era tão incompetente. Quão difícil pode ser encontrar uma mulher com uma criança? Tem que haver alguma coisa! Encontre-a! Eu não te pago para me dizer o que fazer, caralho! Faça o seu trabalho! Não importa o que seja preciso, apenas encontre ela!"
Após dizer isso, encerrei a ligação e a raiva transbordou, ocupando o espaço onde meu coração deveria estar.
Como era possível que, em cinco anos, eu não tivesse encontrado nenhum vestígio dela? Parecia que ela tinha se apagado do mapa, e eu odiava que tivesse tido a última palavra. Enquanto isso, eu permanecia aprisionado em uma dor constante no peito, com um filho à beira da morte, e sem nenhum sinal da única pessoa que poderia ajudá-lo.
Não deveria ser assim. Ela deveria estar por aí, sofrendo - Deus sabe que ela merecia. E eu? Eu merecia o prazer cruel de assistir a tudo, de vê-la pagar pelo que fez com nossa família. Eu odiava que o controle estivesse novamente nas mãos dela.
Liam precisava de um irmão, um doador. E apenas ela podia fornecer isso. Cerrei os punhos. Eu não queria gerar outro filho apenas para salvar o primeiro. Como eu olharia para essa criança? Como lhe diria que ele existia apenas por uma razão utilitária?
Porra!
Fui direto para o hospital, onde o cheiro de antisséptico, familiar e nauseante, impregnava o ar e me revirava o estômago. Essa era minha rotina há três anos.
Ao me aproximar do quarto de Liam, ouvi vozes elevadas. Minha mãe e Eliza, minha noiva, discutindo novamente.
"Não vou desperdiçar meus dias cuidando de uma criança em coma, Vivian! Eu não sou a mãe dele! Já disse isso centenas de vezes! Se você quer que eu assuma esse papel, então diga ao seu filho que ele deve se casar logo!"
A voz estridente de Eliza me irritou imediatamente. Eu estava cansado de ouvi-la.
Minha mãe, sempre tão firme, respondeu sem perder a compostura: "Você sabia no que estava se metendo ao aceitar esse noivado! A forma como trata Liam agora mostra como agirá quando..."
Ignorei a discussão e passei por elas com o maxilar tenso, sem o menor humor para isso.
"Você não pode continuar ignorando isso, Alex! Estamos noivos há três anos! Acha mesmo que esperar que Liam se recupere vai mudar alguma coisa?", Eliza gritou atrás de mim ao me ver passar.
Parei e me virei, a encarando. Meus olhos se cravaram nos dela com intensidade, e minha postura silenciosa falou mais do que palavras. Ela pareceu compreender a mensagem, e o desafio em sua expressão cedeu lugar a um apelo.
"Alex, por favor..."
"Alexander, para você", eu a cortei com voz gélida. Apenas pessoas importantes para mim tinham o direito de me chamar assim. Para ela, soava apenas como uma imitação forçada da intimidade que eu tive com a única mulher que ousou me chamar assim, uma intimidade que terminou em mentira.
"Você sabe que está usando Liam como desculpa para evitar o casamento", ela disse após se acalmar um pouco.
"Cuidado com o que diz. Se é assim que se sente, talvez seja hora de ir embora. Você não é obrigada a ficar", eu respondi friamente.
A verdade era que eu não a amava, nunca amei. Eliza era conveniente: bonita, rica por mérito próprio, disposta a assumir o papel de noiva devotada. Mas amor? Isso não fazia parte da equação.
Eliza bufou, cruzando os braços sobre o peito em um gesto de autoconforto. "Não vou a lugar nenhum, Alexander, mas você não pode continuar fugindo dessa situação."
Eu não respondi, pois era inútil. Isso não era uma fuga, o casamento simplesmente não era importante para mim. Liam era tudo o que importava.
Ignorando as duas mulheres, entrei no quarto, onde o médico estava ao lado da cama de Liam. Meu filho parecia minúsculo, frágil, cada fio de vida preso às máquinas que apitavam incessantemente, e ver isso me dilacerava por dentro.
"Como ele está?", perguntei, sabendo a resposta, mas precisando ouvir.
O médico suspirou, folheando o prontuário enquanto respondia: "A condição dele piorou, senhor Sullivan. Precisamos considerar os próximos passos. Sem um doador compatível, o prognóstico não é favorável."
Cerrei os punhos, tentando manter a compostura. "E quanto à opção de um doador fetal?"
"Ainda é a melhor chance que temos sem a presença da mãe dele. Ela poderia ter sido a salvação dele. Se decidir seguir com essa opção, podemos iniciar os preparativos."
Olhei para o rosto pálido de Liam, para os apitos constantes das máquinas, e meu peito se apertou. Trazer outra criança ao mundo apenas por isso parecia absurdo, mas se significasse salvar Liam - considerando que não conseguia encontrar aquela mulher - então que assim fosse.
Com a decisão tomada, acenei com a cabeça. "Vamos em frente."
Ao sair do quarto, minha determinação se solidificou.
Parei diante da minha mãe e de Eliza e, com expressão impassível, anunciei: "Podem dar continuidade aos preparativos do casamento. Estou pronto."
Eliza teria o que tanto desejava: o casamento e um filho. Mas eu só estava fazendo isso por Liam. Eu faria o que fosse necessário para salvar meu filho, mesmo que isso significasse unir minha vida a uma mulher que eu jamais amei de verdade.
Alexander
Ver Eliza tão radiante me revirava o estômago. Era previsível que ela estivesse nas nuvens, tratando nosso noivado como a realização de um sonho, mas isso não tornava a cena menos irritante. Eu não queria essa união - nem agora, nem nunca -, mas ela era cega demais para perceber a verdade, ou talvez apenas escolhesse ignorá-la. Para ela, isso era o início de um conto de fadas. Para mim, era um fardo.
Uma farsa que eu era obrigado a encenar.
Eu não me casava por amor, mas por dever - uma obrigação que me sufocava a cada respiração.
Ao sentir o celular vibrando em meu bolso, pedi licença e me afastei das duas, que, embora quase tivessem se engalfinhado minutos antes, já voltavam a conversar animadamente, fingindo harmonia com uma hipocrisia que me enojava.
Era minha assistente, lembrando-me do Gala Beneficente do Baile Dourado, evento que eu havia esquecido completamente, perdido no caos da minha própria vida. Merda.
"Certo, obrigado. Estarei lá", respondi antes de encerrar a ligação.
Voltei-me para as duas e anunciei, em tom seco: "Espero que não tenham se esquecido do Gala esta noite. É hora de se prepararem."
Sem esperar resposta, deixei o hospital e segui direto para o carro.
Eliza soltou um gritinho eufórico - um som agudo e irritante que me perseguiu até o lado de fora, enquanto ela provavelmente já se imaginava contando a todos que havíamos marcado a data, como se fosse a maior conquista de sua vida, a prova de que finalmente havia me "domado". Balancei a cabeça, exasperado, e entrei no carro.
A viagem foi silenciosa, e o breve sossego me trouxe alívio. Eliza, grudada no celular, devia estar comprando mais um vestido luxuoso de que não precisava, pois acreditava, piamente, que felicidade podia ser comprada.
No banco de trás, minha irmã mais nova, Vanessa, retocava a maquiagem em sua eterna busca por uma perfeição que eu achava tola, mas, de certo modo, compreendia.
"Animada para o baile?", perguntei, apenas para quebrar o silêncio.
Lançando-me um olhar divertido, ela respondeu: "Ah, bastante! Quem sabe eu não encontre meu futuro marido esta noite? Você sabe, Alexander, esse baile é para a elite, para o um por cento. O tipo de lugar que uma arrivista como Raina jamais sonharia em pisar."
O nome dela me atingiu como uma lâmina, e eu trinquei o maxilar, mas permaneci em silêncio. A mesma irritação queimou sob minha pele - um fogo que nunca se apagava. Por mais que eu tentasse afastá-la dos meus pensamentos, Raina sempre voltava, como uma sombra que se recusava a desaparecer.
O ódio da minha família por ela era quase palpável. Eles haviam transformado Raina na vilã de uma novela particular, e faziam questão de me lembrar disso a cada oportunidade - como se eu precisasse de um lembrete, como se a dor que ela me causara já não bastasse.
O que teria acontecido com ela? Para onde foi depois do divórcio? Estaria viva? Sofrendo, lutando para sobreviver - como merecia? Ou, pior, teria encontrado a felicidade que eu nunca lhe dei? E a criança... O nome me escapava, mas a lembrança ainda ardia. Será que ainda estava doente? Teria os traços da mãe? Ou herdara o que eu mais desprezava - um lembrete constante do meu fracasso?
Suspirei.
Nunca a defendi, e não seria agora que o faria, não quando tinha tanto a perder e minha própria sobrevivência dependia de manter as aparências - algo que eu sabia melhor do que ninguém.
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Quando chegamos em casa, Eliza me seguiu até o quarto, tagarelando sem parar sobre o baile, em uma euforia que beirava o insuportável. Fazia semanas que ela não usava o anel de noivado - um protesto mudo contra minha frieza -, mas, esta noite, certamente o exibiria como um troféu, como se o diamante pudesse consertar o que já estava irremediavelmente quebrado entre nós.
Tentei ignorar sua voz, que soava como um zumbido distante. Eu só queria paz, mas ela nunca percebia quando era hora de se calar.
Respirei fundo e empurrei os pensamentos sobre o casamento para longe. Não podia me dar ao luxo de ser assombrado por isso agora, pois tinha prioridades mais urgentes - como garantir a parceria com a família Graham, o clã mais poderoso de Nova York.
Durante anos, tentei me infiltrar em seu círculo, conquistar a confiança necessária para fechar um acordo que mudaria tudo. Mas sempre que eu me aproximava, algo acontecia: reuniões canceladas, desculpas vagas, portas que se fechavam. Ainda assim, eu sentia que, desta vez, seria diferente.
O Projeto Vince seria meu bilhete dourado. Eu havia sacrificado muito por ele - e esta noite provaria que valera a pena.
Eu podia sentir.
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O Baile Dourado era exatamente como eu imaginara - luxuoso, deslumbrante e sufocante, com o salão cintilando sob lustres imensos e mulheres desfilando em vestidos que custavam o salário de um homem comum por ano - o cenário dos sonhos para Eliza, mas o meu inferno particular. Ela se agarrava ao meu braço com força, as unhas cravadas em minha pele, posando para as câmeras com aquele sorriso ensaiado enquanto eu fazia o mesmo, mantendo a máscara no lugar, e cada flash era uma lembrança cruel de que eu vivia uma mentira cuidadosamente polida.
A risada dela, aguda e falsa, ecoava pelos salões. "O casal mais glamoroso de Nova York", diziam os fotógrafos. Eu apenas sustentava o sorriso, engolindo a raiva e o nojo com um gole de champanhe.
Então começaram os sussurros, discretos no início, mas crescendo em murmúrios ansiosos à medida que o anúncio da chegada dos Graham se espalhava pelo salão.
Senti o pulso acelerar quando o mestre de cerimônias anunciou, em voz solene, que a família Graham acabava de chegar.
Vanessa e minha mãe surgiram ao meu lado, excitadas como adolescentes.
"Ouviu isso? A filha perdida dos Graham foi encontrada, Alexander! Será que ela está aqui esta noite?", Vanessa sussurrou com os olhos brilhando.
Claro que era isso que a empolgava, e não sua caça habitual a algum solteiro cobiçado. Reprimi a vontade de revirar os olhos, pois Vanessa ainda não tinha percebido que mirar em Dominic Graham era uma causa perdida. Não que fosse meu papel apontar seu delírio, mas, para meu alívio, parecia que finalmente havia caído na real.
Acenei com a cabeça de forma distraída, prestando pouca atenção ao que ela e minha mãe diziam, enquanto Vanessa já sonhava em se aproximar da tal herdeira, certa de que uma amizade com os Graham representaria o auge - a consagração definitiva do status da nossa família.
Mas, quando os murmúrios ao redor se intensificaram, olhei para a entrada e vi Dominic Graham entrar no salão com a imponência de quem nasceu para comandar. Mas não foi ele quem me tirou o ar. Foi a mulher a seu lado, caminhando com graça, a mão repousando em seu braço e a postura impecável. Um reflexo distante da mulher que um dia esteve ao meu lado, frágil e vulnerável.
Raina.
Não podia ser.
Ela estava diferente. Não apenas mais bonita - estava... plena, radiante, intocável -, e a constatação me atingiu como um golpe.
Minha ex-esposa.
A mulher que eu fingia não procurar, mas que secretamente rastreava há anos e que, mesmo desaparecida, ainda me assombrava.
Ela não havia simplesmente sumido. Ressurgia ali, entre os Graham - e não com qualquer um deles, mas com Dominic, o herdeiro do império.
Há quanto tempo ela estava com ele? O que fazia ali?
E por que parecia pertencer àquele lugar, como se tivesse nascido para ele?
As perguntas se atropelaram em minha mente. Raina se movia pelo salão com uma naturalidade insolente, como se cada olhar de admiração fosse seu por direito.
A raiva subiu em mim como veneno. Não podia ser assim. Eu havia passado anos alimentando a imagem de sua ruína - sozinha, desamparada, criando aquela criança em meio à miséria - acreditando que esse era o castigo que ela merecia.
Mas não.
Lá estava ela, vestida com luxo, linda, serena - de braços dados com o herdeiro do império Graham.
Sua beleza era uma afronta, uma provocação, e eu a odiei por isso - por ter ousado ser feliz sem mim e se tornado tudo o que eu nunca soube valorizar.