Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Romance > Um professor Irresistível
Um professor Irresistível

Um professor Irresistível

Autor:: MANDY PINHEIRO
Gênero: Romance
ATENÇÃO! ESTE LIVRO É UM SPIN OFF DE SENTENCIADO - TRILOGIA DESTINOS LIVRO 2 ( disponível aqui na plataforma) *O livro contém alguns gatilhos como; abandono parental e abuso psicológico! Quando Lilian Ribeiro saiu de Curitiba um dia antes de se casar deixando tudo para trás, jamais poderia imaginar que sua vida mudaria tanto ou talvez não. Seu jeito certinho, metódico e analítico com tudo, era algo do qual não conseguiria mudar, assim como o fato de não se achar capaz e de ter uma visão deturpada dela mesma. Apesar de não ter mais um noivo, ganhou em São Paulo, a nova cidade onde resolveu se estabelecer, um emprego e um melhor amigo que se tornou o irmão que ela sempre quis ter. Estava tudo indo bem, até um professor vir com algumas ideias malucas que poderiam lhe ajudar, mas no meio disso tudo eles acabaram metidos em uma grande mentira. Heitor Bianchi é professor de direito penal. Um homem do bem que gosta de viver de maneira intensa, seja aproveitando ao lado de poucos amigos que tem ou apenas curtindo com sua moto por aí. Depois que recebeu uma segunda chance dos céus, ele descobriu que cada segundo vale a pena ser vivido. Um italiano de sangue quente, dono de uma grande vinícola na Toscana, que apesar de amar o lugar onde nasceu, se recusa a voltar a morar lá por conta de uma grande decepção, mesmo este sendo sonho de sua querida avó. Estava tudo indo bem até ele resolver ajudar à ruiva, secretária do seu melhor amigo, e por conta dessa maluquice sua vida vai virar de cabeça para baixo.

Capítulo 1 Prólogo - LILIAN

4 ANOS ANTES

- Você está linda, irmãzinha. - Minha irmã mira seus olhos em um tom caramelo para meu reflexo no espelho. Estou na última prova do meu vestido de casamento. O ateliê, por sinal, muito bem recomendado por ela, ficou responsável por fazer o meu vestido e das minhas madrinhas de casamento. Sorrio. Admira-me ela não me julgar de imediato pela escolha do meu vestido ou minha mãe me taxar que tudo que ela faz ou escolhe é melhor que as escolhas que eu faça. Ela sempre me julga. Jogando na minha cara a perfeição da minha irmã caçula.

"Você tem que ser igual à sua irmã, Lilian!

Olha como a Leona se veste bem!

Olha como a Leona é influente!

Olha como a Leona é linda e chama atenção!"

Nunca quis ser o foco das atenções. Sempre fui focada no que eu gostava de fazer. Tinha meus próprios planos; estudar e ser o mais correta possível e ter excelência na profissão. Achava que quanto mais fizesse, mas chances eu teria de ser para ser notada por meus pais e que eles veriam algo positivo em mim, veriam que eu não precisava ser como a minha irmã, que eu poderia ser eu mesma com o talento que tinha.

- É.. até que enfim você teve bom gosto, filha. Hoje você está linda - comenta minha mãe. Tento não absorver seu comentário velado sobre o meu mau gosto para me vestir. Não é o primeiro e nem será o último comentário dela referente a isso. Quanto à minha aparência não reclamo mais, para minha mãe a única beleza que se destaca é de Leona.

- Henrique, já fez a prova do terno? - minha irmã questiona, jogando seus cabelos um tom mais ruivos que os meus para um lado do ombro.

Leona é dois anos mais nova que eu, e apesar de termos nossas diferenças, sinto que nessas últimas semanas próximas ao meu casamento nós nos aproximamos. Talvez seja pelo fato de que vamos morar em casas separadas a partir de agora. Ela tem me ajudado em tudo, seja escolhendo as flores ou até mesmo as toalhas de mesa do buffet, receber presentes, contratar garçons...

- Sim! Ainda não o vi, mas tenho certeza de que deve ter ficado perfeito.

- Com certeza, irmã, o pessoal desse ateliê é um dos melhores da capital.

- Obrigada, irmã - falo agradecida, mirando em seu rosto através no espelho e abrindo um sorriso tímido.

- Mamãe, a senhora já verificou com a moça do salão e com a cerimonialista se já receberam as flores? - inquiro, pegando minha agenda dentro da minha bolsa que está pendurada em um suporte em pé ao meu lado e conferindo o que falta. - E as pessoas que farão os drinks está tudo certo??

- Lilian, não seja ridícula! É claro que já está tudo acertado. Seu noivo é um homem influente, já pediu que contratasse a melhor equipe de organização para que não nos preocupássemos com nada. Pare de surtar feito louca! - Bufa sem paciência.

- Mãe, é o meu casamento. Quero que tudo saia perfeito! - Estou ansiosa com a cerimônia. O que deixa meus pais sem paciência. Na verdade, eles nunca a tiveram comigo.

- Mamãe, tudo bem, eu entendo que Lilian é meio maníaca por controle. Mas acho que dessa vez ela tem razão em querer tudo perfeito. É o casamento dela! É natural ela torcer para que tudo dê certo - minha irmã me defende com um olhar de cumplicidade, e eu sibilo um obrigada vendo-a sorrir.

- Tudo bem, mas é que às vezes você consegue ser insuportável, Lilian - reclama, este é o seu jeito de pedir desculpas. Tento não me deixar ofender por suas ofensas e fito meu vestido no espelho, admirando-o por mais alguns segundos. - Vá logo trocar esta roupa, pois você tem que voltar ao escritório, seu pai precisa de você. - Saio do meu estado. Estático com um revirar de olhos.

- Mãe, eu tenho milhões de coisas para resolver, meu casamento é amanhã! Não posso trabalhar hoje, Leona não pode ir em meu lugar? -peço cansada.

- Não dá, irmã, eu e mamãe temos um café importante com a filha do prefeito, você entende que a parte de boas relações e interesses da família fica comigo. - Pisca de forma arrogante, deixando claro o quanto sou péssima em fazer amizades. As únicas amigas que tenho são primas do meu noivo. Não sou muito de sair, o que limita a minha possibilidade de fazer amizades, além de que, sou extremamente reservada.

- Você sabe que sua irmã não entende nada daquela papelada da advocacia, Lilian.

Não entendo, minha irmã cursa advocacia e está no último ano, porém, nunca pode trabalhar na empresa. Eu ao contrário dela trabalho desde o penúltimo ano de faculdade, meu pai sequer me dá folga, férias então, nunca tive. Achei que quando me formasse as coisas ficariam mais leves, mas pelo contrário a responsabilidade dobrou sobre minhas tarefas. E a desculpa para Leona não trabalhar é que ela precisa estar constantemente saindo para eventos da alta sociedade, participando de festas, estar sempre se conectando com pessoas de influência.

- Ok, mamãe. Avise ao papai que vou sair daqui direto para o escritório - respondo de forma rasa, não adianta discutir, nem espernear, eles sempre conseguem o que querem, minha mãe sempre faz chantagem emocional fazendo com que me sinta mal e eu sempre acabo cedendo.

Termino a prova do meu vestido sob os olhos atentos de minha mãe e irmã. Visto-me novamente com a minha habitual roupa social e me despeço da costureira assim como das duas que irão ao café.  Pego o carro e sigo para a advocacia. Revoltada por ter que trabalhar às vésperas do meu casamento.

Capítulo 2 Prólogo -LILIAN (PARTE 2)

As horas passam e recebo uma mensagem do meu noivo dizendo que irá levar algumas coisas para o nosso apartamento e já vai aproveitar para receber alguns presentes de casamento, me avisa que ficará o resto do dia fora, pois tem várias reuniões para deixar em dia antes de sairmos em lua de mel. Compramos esse apartamento para morarmos assim que nos casarmos. Henrique é candidato a deputado federal, um homem íntegro que conheci através do meu pai, e apesar de ser um pouco ciumento e meio intolerante com relação às roupas que devo usar, ele é um cara maravilhoso pelo qual sou apaixonada.

Ouço meu celular tocar e logo atendo a ligação.

- Alô!

- Olá, senhora Ribeiro. Aqui é Keyla que ficou responsável pelo recebimento e entrega dos presentes do casamento.

- Ah, sim, pode falar. - Henrique contratou uma pessoa para receber todos os presentes e depois enviar para o nosso apartamento, pois só nos mudaremos após voltarmos da lua de mel. 

- É para avisar que o entregador ficou com uma caixa que faltou entregar, peço para deixar na recepção? - ela pergunta constrangida.

- Pode mandar entregar lá no nosso apartamento, meu noivo deve estar por lá. - Constato que faz pouco tempo que me disse por telefone que iria para lá.

- Então, senhora, o entregador já está lá, porém não tem ninguém para receber a encomenda. Estamos tentando falar com seu Henrique, mas ninguém atende.

 - Droga! Ele deve ter ido para a reunião. Keyla, o entregador pode aguardar uns 15 minutos? Eu trabalho aqui perto e posso chegar rápido para receber a caixa.

- Claro, senhora. Ele vai ficar aguardando.

- Obrigada - agradeço de forma gentil e começo a ajeitar minhas coisas. Mas por dentro estou fula, o que pode dar mais errado hoje?

Desligo o computador, pego minha bolsa e minha agenda, observo minha sala para ver se tudo está em ordem e sigo para o estacionamento pegar meu carro.

Assim que estaciono, já encontro os entregadores na entrada de serviço e eles me entregam a caixa de um dos presentes de casamento. Agradeço-os por terem me aguardado e me despeço chegando ao meu apartamento, em frente à minha porta, coloco a enorme caixa de presente no chão e procuro as minhas chaves na bolsa. Finalmente as encontro e destranco a porta, giro a maçaneta desconfiada e ao entrar percebo que apenas os abajures que escolhi a dedo e que ficam na sala estão acesos deixando o ambiente em uma iluminação meia-luz.   

Sem entender absolutamente nada, coloco lentamente a caixa no chão, meu coração parece que vai sair pela boca. Passo lentamente meus olhos analisando cada de detalhe da nossa sala de estar, desde o tapete turco em tons azuis que Henrique fez questão de comprar, as cortinas de linho que escolhemos junto e quando foco no sofá, vejo algumas peças de roupas do meu noivo jogadas como se tivessem sido tiradas às pressas.

Olho com mais atenção, notando um vestido largado no chão, engulo a bile que tenta subir em minha garganta. Aquele vestido não era meu!  Nunca me vi em um vestido tão sexy. Henrique jamais permitiria que vestisse algo assim, e mesmo sabendo que ele não mandava em mim, só o fato de ficar ouvindo-o dizer que quem se vestia assim era taxada como biscate e puta, já me deixa sem vontade de usar. Mesmo não concordando com ele e seu pensamento retrógrado, nunca sequer cogitei em vestir algo tão sensual.

Estava tentando entender tudo aquilo quando ouço um gemido vindo do nosso quarto. Meus pés congelam, passam a pesar toneladas como se tivessem algum tipo de concreto neles. 

Forço-me a ir até onde seria nosso quarto, no lugar em que escolhemos para viver uma vida juntos, onde fizemos planos e pretendíamos construir uma família. Caminho, decidida a ter a certeza do que está havendo, mesmo ouvindo apenas gemidos e respirações abafadas, já sabia de quem eles eram. Mas... eu preciso ver. Eu preciso ter certeza. Observo a porta do nosso quarto apenas encostada e aqui os gemidos estão em alto e bom som. Empurro a porta lentamente, olhando meu pior pesadelo se materializar bem na minha frente. 

Levo as mãos aos lábios, tentando fortemente aplacar o horror que sinto. Vendo Henrique sem blusa mamando de forma sedenta no seio da minha irmã que está apenas de calcinha sentada sob um pequeno sofá que há em nosso quarto. Os dedos dele a masturbam por entre o tecido fino e ela geme de forma incontrolável agarrando seus cabelos com força sentindo algo que ele nunca deu a mim, prazer. 

Não que nossa relação na cama não fosse boa, mas o prazer de Henrique sempre vinha primeiro que o meu. Ele dizia que eu devia me esforçar para agradá-lo e eu tentava, me esforçava ao máximo, pesquisava escondido e assistia a filmes também já que ele dizia que isto era coisa de gente impudica. Olhando a cena se desenrolando à minha frente agora... concluo o quanto fui idiota.

Burra.

Estúpida e tosca.

- Henrique! Mas que porra é essa? - grito! De pavor, de horror, sentindo dor e nojo. Nunca imaginei que a rivalidade da minha irmã chegaria tão longe.

Quando os dois me olham simultaneamente. Henrique se assusta com meu berro e se afasta lívido ao me ver em pé olhando toda aquela cena lastimável. Leona me encara com um sorriso jocoso, pegando lentamente seu sutiã que estava jogado no chão e colocando-o, ajeitando sua lingerie vermelha. 

- Por que sua desgraçada? Por quê? - grito descontrolada, chorando, perdida em raiva e decepção. 

- Lilian, amor não é isso... - Gargalho feito uma louca, alucinada totalmente abalada. 

- Não é o que eu estou pensando? Quer dizer que você não está comendo a vadia da minha irmã no nosso apartamento, dentro do nosso quarto, um dia antes do nosso casamento, seu desgraçado? 

- Ah, Lilian, você sempre soube que eu era melhor que você, sempre! Não foi nenhuma novidade seu noivinho ter me procurado para aquecer a cama dele já que você deve ser pior que uma geleira...

- Sua vaca! Desalmada! - Choro de ódio, avançando nela. - Eu era sua irmã, sua filha da puta! - Dou-lhe uma bofetada na cara com toda a força e a xingo, tentando exorcizar toda a dor que sinto enquanto ela tenta se afastar.

- Leona, cale-se! - Henrique mira um olhar furioso para ela, pegando-me pela cintura e impedindo que eu acabe com a raça dela ali mesmo. - Se controle, Lilian! Vamos conversar civilizadamente,

- Me solta! Me solta, seu cretino! - Debato-me enquanto meu ex-noivo tenta me conter porque estou fora de mim ainda querendo avançar nos dois.  

- Lilian, você está de cabeça quente, vamos conversar com calma... - Solta-me aos poucos e tenta conversar. 

- O quê? Não tem o que conversar! Vocês me traíram! Já imaginou se fosse eu no seu lugar, Henrique? Hum, se fosse eu trepando com outro no nosso apartamento?! - berro. Já não há motivos para lucidez. O que fizeram comigo é desumano.

- Eu os mataria - afirma rápido com semblante furioso, e eu dou uma risada irônica que ecoa pelo apartamento.

- É exatamente a vontade que sinto agora! Matar você! Matar essa cadela que se diz minha irmã! - cuspo as palavras, enquanto as lágrimas rolam do rosto. - Acabou! Ouviu?! Vocês dois morreram pra mim!

Minha irmã me olha como se não fizesse a menor diferença o que digo. Como ela consegue ser tão fria? Como pensei que poderia ter algum tipo de vínculo com ela um dia? Meu coração se despedaça...

- Não pode jogar toda a culpa para cima de mim! - Henrique grita ao constatar que não mudarei de ideia, coloca as mãos na cintura e direciona a mim um olhar irritado. 

- Você está brincando comigo? - pergunto, gargalhando cinicamente ao ouvir aqueles absurdos. Pra mim já era o suficiente, bato em retirada tentando assimilar o que sinto por dentro. E a única palavra que vem em minha é que estou...

Morta. É exatamente como me sinto.

Saio do quarto a passos rápidos e no caminho alcanço alguns porta-retratos com nossas fotos, jogo-os com toda força no chão, fazendo-os se estilhaçarem um a um em mil pedaços. Não me interessa os danos que causarei ou se os vizinhos irão reclamar só quero que os dois vão para o inferno!

Minha vontade é de queimar o apartamento inteiro com eles dentro.  Henrique ainda tenta me alcançar, e como um perfeito idiota que é... me culpar pelo que aconteceu ali...

- Claro! Sempre tão certinha. Fazendo planos e mais planos. Decidindo como seria nossas vidas de forma milimetricamente calculada. Você é pior do que um iceberg na cama, Lilian! - me acusa aos berros e completa: - Me dava tédio comer você! E às vezes, você consegue ser irritante pra caralho! - Termina de jogar a última pá de terra sobre a minha própria cova. Sinto-me envergonhada e rebaixada a nada. Meus olhos cheios de lágrimas fitam Leona que abre um sorrisinho debochada e murmura um "Eu te avisei".

Olho para ele não sentindo nada. Oca e totalmente vazia, retiro meu anel de noivado e jogo nos dois. Leona apenas me encara com um sorriso perverso e vitorioso. 

- Você sempre o quis, não é? Sempre invejou tudo que era meu, apesar de eu não ter nada! Pois faça um bom proveito. Vocês dois se merecem! - Dou as costas para as duas pessoas que mais amei e que me traíram de maneira tão sórdida. 

***

Capítulo 3 Prólogo- LILIAN ( PARTE 3)

Ligo meu carro acelerando pelas ruas de Curitiba, desnorteada e sem saber para onde ir. Lembro-me da casa da minha amiga, hoje seria minha despedida de solteiro, mas não tinha avisado meu ex-noivo sobre a noite do pijama, e ali seria o último lugar que me procurariam. Preciso conversar com alguém, desabafar tudo que estou sentindo. Chego à casa de Rebeca arrasada e assim que ela abre a porta e vê meu rosto...

- Merda! - exclamam as três amigas juntas. Elas já estavam por ali arrumando tudo para a noite.

- Você descobriu, não foi? - Rebeca a morena de cabelos cacheados e olhos negros questiona, surpreendendo-me e fazendo meu coração rachar mais um pouco.

- Vocês... Vocês sabiam? - indago num fio de voz, três anos de amizade jogados fora. Mais uma decepção para minha conta.

- Lilian, desculpa. A gente não sabia como contar - Steh revela apreensiva, mordendo os lábios grossos de forma aflita e me fitando com seus olhos castanhos intensos.

- E iriam me deixar casar sendo corna. Meu Deus! Que tipos de amigas vocês são? Ele estava me traindo com a minha própria irmã! - Elas arregalam os olhos e percebo que Leona foi apenas a foda da vez.

- Nós não... Nós não sabíamos que ele te traía com ela. Ellie viu ele com outra mulher em uma boate há um tempo. 

- Quanto tempo? 

- Lili... - Stephane começa, mas eu a interrompo. 

- Quanto tempo, Ellie? - vocifero transtornada, mirando meu olhar na morena de cabelos lisos e olhos tão verdes quanto os do meu ex-noivo e que até uns minuto atrás eu considerava minha amiga.

- Dois meses atrás. - Novamente as lágrimas vêm com força e eu apenas viro as costas para aquelas que diziam ser minhas amigas. O que eu esperava?! Elas eram primas de Henrique! Lógico que nunca me contariam nada. 

- Lilian espera! - Ainda ouço me chamarem assim que saio da casa e entro no carro batendo a porta com fúria.

Dirijo meu carro novamente, pegando a estrada agora indo direto à casa dos meus pais. Exausta coloco o carro na garagem do condomínio de classe média alta em que vivemos e entro em casa em silêncio, estranho ao ouvir vozes alteradas vindas do escritório do meu pai e então vou até lá quieta apenas para ouvir o que seria. Chego ao cômodo e a porta está apenas encostada e pela fresta consigo ver, minha mãe, minha irmã uma ao lado da outra.  Meu pai está sentado em sua cadeira e Henrique na cadeira que fica de frente para a mesa do meu pai.

- Eu disse para vocês acabarem com este casinho um mês atrás, assim que vocês começaram! - meu pai esbraveja, e eu me sinto ainda mais decepcionada se é que isto é possível. Sinto-me mais uma vez traída pela minha própria família. 

Todos sabiam!

Eu era a chacota de todos! 

- A culpa foi dela. Essa vadia tinha que ir ao meu apartamento se oferecer.

- Rapaz, olha como você fala da minha filha. - Meu pai o encara vermelho, contendo a fúria e defendendo minha irmã. Vejo Henrique se levantar transtornado e começar a andar de um lado para o outro.

- Quando estava comigo não reclamou - minha irmã insinua, e Gisela minha mãe diz algo baixo em seu ouvido. 

- E agora o que faremos? O casamento é amanhã, Lorenzo. Me recuso a passar por essa vergonha de ter que cancelar a festa e ter nosso nome manchado. - Nunca entendi porque minha mãe não gostava muito de mim e sempre preferia minha irmã. Eu fui traída pelas duas pessoas que amava e ela ainda quer manter o casamento preocupada com as aparências? Eu nunca fui importante nesta família e dói saber disso.

- Cancelar? Jamais, Lilian vai ter que aparecer! Não vou passar este vexame diante dos meus apoiadores. Aliás, se não me casar amanhã com sua filha nosso acordo está cancelado, Lorenzo. - Henrique volta a olhar para o meu pai de forma ameaçadora. 

- Não precisaremos cancelar nada e pare de me ameaçar, Henrique. Minha filha está abalada o que é normal, mas logo voltará para casa e conversaremos que o que houve entre você e Leona foi algo passageiro que não foi relevante. Temos negócios em jogo, Henrique, não podemos colocar tudo a perder... - Meu pai apoia as mãos abertas sobre a mesa do escritório e encara meu ex-noivo com seriedade. 

Essa foi a gota para eu transbordar. Sigo em silêncio até meu quarto enquanto eles continuam a conversar, puxo duas malas de viagem e começo a colocar tudo que cogito ser necessário, documentos, roupas, produtos de higiene e meus cartões de crédito. 

Sempre achei que família fosse para cuidar e acolher. Só que nunca me senti acolhida na minha. Eu era sempre o patinho feio, sendo criticada e apontada vivendo de migalhas de carinho que achava que meus pais às vezes me davam. 

Desço da escada com dificuldade arrastando duas malas de rodinha, pego o caminho mais curto até a porta da cozinha para que ninguém me veja saindo e encontro Cissa, nossa empregada terminando de fazer o jantar.

- Vai viajar, menina? - questiona a mulher de pouco mais de cinquenta anos, baixinha e com curvas avantajadas. Seus olhos castanhos me olham com espanto, afinal todos sabem que me caso amanhã.

- Sim! Cissa, vou fazer uma pequena viagem - afirmo, abrindo a porta que dá acesso ao jardim. 

- E o casamento? - pergunta ainda mais atônica.

- Não vai mais ter casamento! - exclamo, deixando-a em choque, seguindo pelo jardim de trás da casa, arrastando minhas malas até a garagem rapidamente. 

Coloco toda a bagagem dentro do porta-malas e bato a porta com força. Entro no veículo e ligo o carro, acelero, saindo dali o mais depressa que consigo. As lágrimas saem como enxurradas, tomam meu rosto caindo em meu colo e chega a ser difícil dirigir. Tento retomar o fôlego enquanto vejo pelo retrovisor tudo que achei que tinha, ficando para trás, ainda sem saber para onde e o que irei fazer.  Às vezes tudo que você precisa é de pequenos segundos de coragem, não importa o que virá depois. Só deixe tudo para trás, aquilo que te feriu, aquilo que não lhe merece e siga.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022