Por Ryan Hernandes.
Seis meses.
Esse é tempo que o doutor que acompanha Helena diz que minha mãe tem de vida. Tento encontrar forças para me levantar da cama depois de largar o telefone no colchão. Não consigo aceitar o que o doutor acabou de me confirmar em uma mísera ligação que não levou nem dez minutos.
Sinto falta de ar só em pensar em ficar sem minha mãe, o doutor me disse que não há muito mais o que fazer, utilizamos todos os recursos, químio e radioterapia, cirurgia e tratamentos alternativos e experimentais. Nada adiantou, a maldita doença sempre volta no mesmo lugar.
Me sento na beira do colchão e me pergunto por que ela. Helena é a mulher mais incrível que já conheci na vida, nunca foi menos carinhosa comigo por conta do caos que meu pai trazia para casa junto com seu maldito vício em álcool. Após gritos, discussões, barulhos de coisas se quebrando e voando pela casa ela ia até o meu quarto me desejar boa noite como se nada tivesse acontecido, sua voz doce me garantia que tudo ficaria bem mesmo que eu pudesse ver seus machucados e hematomas marcando a pele.
Minha mãe foi uma das únicas pessoas que me compreenderam quando fui incapaz de lamentar a morte do meu pai quando eu tinha apenas 17 anos, ele sempre foi o causador do nosso sofrimento, eu achava que nosso sofrimento seria enterrado com ele. Foi assim, pelo menos por um tempo.
Helena foi a primeira a acreditar em mim e apoiar meu tio quando ele teve a ideia de me colocar a frente da construtora aos 18 anos, sob supervisão dele é claro, mas ainda assim era uma loucura colocar alguém tão jovem na liderança de uma empresa grande que levou gerações para se estabelecer.
Aos olhos de todos eu era incapaz, mas não para ela, Helena sempre me enxergou além do que todos pareciam ver. A consequência disso foi meu esforço para não decepcioná-la, aprendi tudo que foi necessário, me qualifiquei, estudei... Os primeiros anos foram cansativos mas minha recompensa estava estampada no rosto de cada pessoa.
Respeito e admiração.
Minha gestão calou a boca de quem me criticou no início, fazendo-os se dobrarem para mim. Nunca fui de muitas palavras, mas passei a ser de muitos resultados.
Hoje, formado, bem sucedido e estabelecido no mercado, vejo que só cheguei aqui por causa de Helena, faria qualquer coisa por ela. Estar presente é o mínimo, o óbvio, e o que já faço desde que descobrimos o câncer há exatos dois anos, se isso é tudo que posso fazer então continuarei aqui supervisionando os remédios, segurando sua mão durante as crises de dores onde o remédio demora uma eternidade para fazer efeito, e perdendo noites de sono junto a ela.
Mesmo que me rasgasse por dentro vê-la perder o brilho da vida aos poucos, é meu dever, pois nós só temos um ao outro e isso jamais mudaria.
Decido que não vou dizer a ela o que o médico me informou, vamos aproveitar da melhor maneira nossos momentos juntos. Vou planejar tudo, trabalhar menos, levá-la em lugares onde ela gosta de ir, dar a ela as besteiras que ama comer e que estavam suspensas. Vou fazê-la feliz.
- Bom dia. - Cumprimento as duas que tomam café, a mesa está cheia como sempre mas o prato de minha mãe me parece vazio.
- Bom dia. - Respondem em uníssono, Jamily está sentada a mesa, ela é filha da senhora Duarte, que trabalhou aqui em casa durante anos, mas graças a um problema de saúde não pôde mais exercer a profissão, então a contratei em seu lugar.
Me inclino para receber um beijo da minha mãe, estou atrasado mas que se dane, eu sou o presidente. Me sento para tomar café com ela, as duas conversam assuntos superficiais durante o café, não deixo de analisá-la. Perdeu peso, seus lábios não tem mais a cor vibrante de anos atrás, estão pálidos e as unhas estão rachadas bem no meio.
Seus cabelos antes longos agora estão curtos, só cresceram após o término das sessões de quimioterapia e estão bagunçados, ela não se arruma visto que os momentos em que está sem dor e acordada são raros agora.
Helena toma remédios fortes para as dores e os mesmos a fazem ficar apagada por longos períodos. As vezes vem comer na mesa, olha a vista da varanda e assiste as novelas.
- Está sentindo alguma coisa? - Pergunto apenas por hábito, para ter certeza. Ela me olha e acena negativamente.
- Vou trabalhar só até o meio dia hoje. Vamos tomar café da tarde juntos. - Anuncio e ela sorri.
- Tudo bem, vai trazer alguém especial? - Arqueio uma sobrancelha, Helena não esconde o quanto quer me ver amarrado, ou melhor, casado.
- Não mamãe, ninguém especial. Só nós dois. - Ela nega com a cabeça em sinal de decepção. - E... Recebi a notícia de que sua dieta vai se normalizar aos poucos, então Jamily pode preparar os bolos de sua preferência hoje.
- Ah, graças a Deus. - Ela toma um pouco de seu suco, Jamily e eu rimos da forma engraçada que ela fala - Por que vai chegar cedo, filho?
- Menos trabalho, contratei uma secretária e ter Bernardo por perto me desafoga um pouco mais. - Tento parecer casual enquanto mordo uma torrada.
- Hm. - Murmura ela. - Não acho que ver as novelas da tarde vá te animar muito. - Ela gesticula com as mãos, eu sorrio e nego. E então pego uma de suas mãos para beijar.
- Na verdade o que me anima mesmo é a companhia. - Ela faz um bico como se minha frase fosse digna de um troféu. Escuto uma risada discreta de Jamily.
- Está vendo só Jamily? Esse menino é um conquistador barato, sempre soube que ele seria assim - Ela brinca e as duas riem, finjo estar ofendido.
- Não use comentários mentirosos para disfarçar o quanto a senhora ama esse conquistador barato.
- Amo mesmo. - Ela dá de ombros. - Filho, olha a hora, vai se atrasar.
- Já estou atrasado. - Termino de comer e beber o suco, olho rapidamente o relógio de pulso, atrasado é um eufemismo.
Me despeço das duas, dou um cumprimento para Jamily e um beijo na testa da minha mãe, deixo o apartamento e vou de carro em direção à construtora. A empresa foi a única coisa boa que meu pai deixou, e mesmo assim ela esteve a um passo da falência por diversas vezes graças ao maldito vício dele, só não fechou as portas graças ao meu tio Paulo, irmão dele. Meu tio também foi meu supervisor quando assumi, me ensinou muito do que sei hoje.
Vou para o último dos seis andares do prédio onde fica a minha sala, fiz questão de que tivesse uma boa vista, olhar a paisagem me acalma quando estou a ponto de explodir. Nem tenho tempo de me acomodar na cadeira direito, já ouço duas batidas na porta e peço para que entre, seja lá quem for.
- Bom dia, senhor Hernandes.
- Bom dia. – Respondo a contra gosto. Admito que contratar uma secretária foi a melhor coisa que fiz, não que eu quisesse mas foi necessário, principalmente agora que vou dar um jeito de diminuir o ritmo, estou disposto a jogar tudo para o alto se for preciso, ninguém é mais importante que minha mãe.
- O senhor Siqueira está aqui há trinta minutos. - Trinta minutos? Bernando odeia esperar.
- Deixe-o entrar. - Ela concorda em um aceno.
- Devo trazer algo para os dois? - Levanto o olhar.
- Por enquanto não. Obrigado. - Lívia deixa a sala, usa roupas formais e os cabelos loiros presos em um rabo de cavalo, é bonita não dá para negar, seu perfume é bom e permanece na sala depois que ela sai.
Penso em quanto tempo faz que não me interesso por ninguém, com todo esse turbilhão em casa mal sobra ânimo e tempo para essas coisas.
- Devia saber o significado de "ser pontual". – Levanto o olhar, Bernardo está possesso, seu rosto está vermelho de raiva. Ele puxa uma das duas cadeiras em frente a minha mesa de forma impaciente e se senta.
- Perdão. - Ajeito a postura. Ele nega, ainda irritado.
- "Perdão" vai compensar sim, com certeza.
Giro uma caneta com os dedos.
- Minha mãe tem seis meses de vida. - Levanto os olhos para encará-lo, sua expressão assume o choque. - O médico ligou ontem, não tem mais o que fazer. - Largo a caneta, tento pressionar o espaço entre minhas sobrancelhas para me acalmar.
Bernardo engole seco, muda a postura e passa a mão no rosto, perplexo. Somos amigos desde que tínhamos 8 anos, éramos vizinhos e mesmo depois de mudarmos continuamos a amizade.
Além de amigos agora somos sócios.
Juntamos as empresas há aproximadamente três meses e isso nos fez crescer absurdamente, ele tinha a incorporadora e eu a construtora. Ele também tem um vínculo especial com Helena.
- Tem certeza disso? - Ele junta as sobrancelhas, está em negação, como estive mais cedo.
- Tenho. - Ele suspira e levanta de sua cadeira, dá algumas voltas pela sala.
- Queria ter mais a fazer ou a falar agora, Ryan. Mas eu não tenho, me desculpe. Meu Deus, estou em choque. - Bernardo se aproxima e apóia suas mãos no encosto da cadeira onde antes estava sentado. - Sabe que estou aqui para vocês.
Eu concordo com um aceno.
- Como você está? -
Jamais seria possível expressar como estou.
- Péssimo.- Encaro seus olhos verdes - Mas tomei uma decisão...
Sinto um nó se formando em minha garganta e desvio os olhos para a caneta de novo, preciso me manter forte agora, estou no trabalho, não posso chorar como um bebê.
- Vou aproveitar bem esse tempo. Levá-la para passear, passar mais tempo com ela, fazer suas vontades e trabalhar menos.
- Claro. - Ele concorda fervorosamente.- Se precisar que eu assuma algumas das suas responsabilidades eu faço.
- Provavelmente vou precisar. - Ficamos alguns segundos em silêncio e decido mudar o assunto. - Acertamos isso depois, hoje vou ficar só até o meio dia. Veio falar sobre os contratos, não foi?
- Sim, mas agora...- Ele dá a volta na cadeira e se senta.
- Vamos trabalhar, Bernardo. - O tranquilizo. Preciso me distrair e seu olhar de pena direcionado a mim me incomoda.
Trabalhamos até o meio dia, discutimos alguns grandes contratos, falamos sobre o processo de juntar as empresas, a maior parte já foi feita e ele já tem uma sala só para ele aqui. Com a junção dos empregados talvez precisaremos mudar para um prédio maior.
Bernando insiste em ver minha mãe, e enquanto estamos no carro eu o alerto que ela não sabe da sentença do médico.
- Não vai contar a ela? - Ele fica surpreso com a idéia.
- Não.- Aperto o volante um pouco mais.- Não quero assustá-la, além disso quero preservar ao máximo sua saúde emocional. Uma depressão seria terrível.
- Entendo. - Vejo ele concordar com a visão periférica. - Mas se eu tivesse pouco tempo de vida ia querer saber, para...
Ele para de falar quando o encaro duramente, tomei essa decisão pensando no melhor para ela, talvez não fosse o ideal, mas que droga seria ideal nessa situação? Essa maldita doença não é o ideal para ninguém. Quando volto a olhar para o trânsito ele continua com mais cautela.
- Você sabe... Para fazer tudo que sempre quis fazer, coisas que gostaria de fazer na vida e essas coisas.
Respiro fundo.
- Só estou pensando no melhor para ela. E eu vou fazer isso, as coisas que ela mais gosta. Ela só não vai saber que tem pouco tempo.
Acredito que a reação de Helena ao receber uma notícia dessas seria péssima. Não posso deixar isso acontecer, se ela tem que ir, que vá feliz e não em depressão e desespero.
Chegamos no condomínio e só no corredor do apartamento percebo que esqueci a chave da porta na empresa. Toco a campainha ainda com Bernardo rindo de mim, me controlo para não socá-lo, sei que esse é seu jeito de tentar me fazer sentir melhor. Bernardo é desses que mesmo na pior tira sarro da situação.
Para minha surpresa quem vem abrir a porta não é Jamily e sim Helena.
Dou-lhe um abraço ao entrar, ela está sorrindo e aparentemente sem nenhuma dor, o que é uma surpresa já que ela teima em não tomar a dosagem correta dos comprimidos, diz que eles vão acabar com seu estômago.
Ela tem razão, mas são necessários e o doutor assegurou que a dosagem é segura, o problema é que dona Helena acha que sabe mais que o médico, desconfio também ela queira diminuir a dose para que a sonolência diminua e ela possa ficar mais tempo acordada.
- Trouxe visita. – Anuncio e ela abre um sorriso enorme, seus olhos brilham em expectativa mas logo as bochechas coram.
- Ah, meu filho. Eu nem me arrumei. – Ela olha para suas roupas e eu nego. Odeia que a vejam sem a produção toda que faz para receber visitas, incluindo maquiagem para dar um "ar de saúde " como diz.
- Não precisa. – Assim que saio da frente de Bernardo ela o avista, o sorriso diminui drasticamente, ela pisca algumas vezes e as sobrancelhas se juntam em uma careta engraçada.
- Pensei que fosse uma mulher, Ryan. Mas tudo bem.
- Assim vou pensar que não quer me ver, tia. – Bernardo abre os braços para abraçá-la e finge estar ofendido.
- Claro que não, menino. Vê se posso com uma coisa dessas? - Ela o abraça e o enche de perguntas sobre seus pais e sua vida amorosa, ainda tenta arrumar o cabelo com as mãos mesmo.
Me sento no sofá e observo os dois indo até a cozinha e depois voltando com petiscos. Ela sempre teve essa mania de querer casar os outros e Bernardo não é excessão, seria mais fácil casá-lo do que eu. Ele com certeza quer sossegar em algum momento e só ainda não o fez porque não se apaixonou por ninguém ainda, ou melhor, ele se apaixonou uma vez mas o final não foi bom.
Bernardo cresceu em uma realidade diferente da minha, aposto que logo estará amarrado, digo, casado.
Almoçamos juntos e um pouco depois da uma da tarde Bernardo vai embora, ainda passamos pelo início de uma crise de dor, que é contida com um remédio extra antes que piore, Helena dorme por mais duas horas antes de finalmente conseguirmos tomar o café e assistir as novelas.
Ela ri das cenas engraçadas, me conta as histórias por trás das cenas que não entendo, logo chega a hora de outro remédio e ela teima com a enfermeira que não quer tomar. Leva um tempo para que eu a convença, ligo para o doutor pela milésima vez e ele explica de novo que ela pode tomar e que vai apenas dormir.
Após um certo esforço ela aceita tomar o remédio e entra em um sono profundo minutos depois, não acorda para o jantar, dispenso Jamily e acabo comendo sozinho.
Pensar que é assim que vou estar daqui a algum tempo porque não a terei mais parte meu coração.
Ponto de vista: Gabriela Calheiros
(Gabriela)
Sete e trinta e cinco!
Dou um pulo da cama me perguntando por que meu celular não despertou? Meu Deus, isso nunca aconteceu antes! Estou frita, frita e atrasada. Tomo o banho mais rápido da minha vida e coloco o uniforme da loja. Faço uma maquiagem simples e seco os cabelos fazendo algumas ondas leves. Exigências do emprego, boa aparência, sempre.
Chamo um carro pelo aplicativo, não vai dar para esperar o ônibus mesmo. Passo por Beth que está na cozinha preparando algo com cheiro maravilhoso mas que não vou poder comer, ela me entrega um pote cheio de pedaços de bolo e eu beijo sua bochecha, agradecendo por ter salvado meu café da manhã.
Assim que entro no carro me permito respirar aliviada, ou quase, ainda estou atrasada, mas a caminho. Chego 15 minutos atrasada, por sorte nenhum dos meus supervisores me vêem chegar e as meninas ainda estão arrumando a loja para abrir. Tomo meu lugar atrás do balcão, é um emprego simples, mas amo ser caixa da boutique. Gosto de lidar com o público, tem seus altos e baixos mas a maioria ainda é gente boa.
Ainda dá tempo de comer bolo junto com Leila e Carina, minhas colegas aqui no trabalho, nem todas se gostam mas nós três nos damos bem. O ritmo aumenta e eu vou me ajustando ao longo do dia. Ganho biscoitos de leite de um cliente e uma cantada de outro, o tempo passa rápido até o almoço.
- Vamos mulher?! Estou com fome.- Leila vem me apressar eu organizo as notas fiscais do meu caixa.
- Você sempre está com fome, Lê.- Levanto os olhos apenas para ver ela fazendo careta, a fome a está afetando. Guardo tudo na gaveta, pego a carteira e a bolsa e saio com ela para almoçar.
Paramos em um restaurante que estamos acostumadas a ir, recebemos alguns olhares enquanto procuramos uma mesa. Conversamos sobre amenidades durante o almoço e tomamos sorvete de sobremesa. Meu celular vibra no meu colo.
"Achei que jamais a veria de novo. Está linda, Gabi. Preciso admitir."
Releio a mensagem, o número é desconhecido. Não tem foto, não tem nome, até imagino quem pode ser. Mas não quero que seja. Seria ele? Se fosse, ele me viu? Onde? Voltou a morar por aqui? Ah, não. Não pode ser.
- O que foi, Gabi? – Leila me chama atenção e vejo que está preocupada. Minha cara deve estar ruim mesmo.
- Nada. – Tento forçar um sorriso. - Só uma mensagem.
Minha amiga ergue uma sobrancelha de um jeito que eu nunca conseguiria fazer.
- Mensagem de quem, senhorita? – Ela leva a última colherada de sorvete até a boca e então puxa sua cadeira um pouco mais para frente, está pronta para me fazer falar.
- Não faço idéia. – gesticulo com a mão livre enquanto a outra revira a taça para misturar o sabor de passas ao de chocolate.
- Nenhuma suspeita? – Ela limpa os lábios finos com um guardanapo. Enquanto eu levo a mistura que fiz a boca, uma pausa no tempo para sentir o sorvete derreter na minha língua, é magnífico.
- Na verdade tenho uma suspeita, mas não tenho certeza se é, e... – Fecho meus olhos respirando fundo, nego com a cabeça. - Não quero que seja ele, Lê.
Ela faz uma careta, enquanto seus olhos escuros e expressivos me analisam.
- Seu ex?
Aceno que sim.
- Deixa eu ver. – Entrego meu celular e deixo ela ler e reler a mensagem, assim como eu ela tenta verificar qualquer sinal, foto, nome, qualquer coisa.
- Isso é meio assustador.- Lê me devolve o aparelho.
- É sim.
Ter namorado Marcelo é o maior arrependimento da minha vida. Nos conhecemos em um horário de almoço, o qual eu decidi experimentar a comida de outro restaurante, enquanto eu saia do estabelecimento derrubei suco de laranja em sua camisa e ele não quis me matar, bom, pelo menos não naquele momento.
Ficamos amigos e três meses depois começamos a namorar, seis meses de relacionamento e ele foi um príncipe encantado a maior parte do tempo, apenas para se mostrar o pior dos homens depois. Possessivo, ciumento, e quando eu quis colocar um ponto final na relação disse que jamais aceitaria.
Passou meses me procurando onde quer que eu fosse, fez até mesmo algumas ameaças. Depois de muito esforço consegui que ele me esquecesse, pois seu pai pediu que fosse morar com ele no interior após descobrir que estava doente.
Isso foi há 5 anos atrás.
Nunca mais o vi, nem ouvi sua voz graças a Deus, e espero que isso não mude.
Prometi a mim mesma que não ia cometer uma burrada dessas novamente, e desde então não me envolvi com mais ninguém. Acho que não é trauma, só sou mais madura e cautelosa agora, também nunca achei alguém que realmente valesse a pena.
Meus planos são outros, só consigo pensar em mim em uma faculdade, segurando um diploma, usando uma roupa de formatura. Ainda vou chegar lá.
- Olha amiga, fica de olho. Mas também não cria paranóia sabe, porque isso também pode ser alguém querendo te assustar e fazendo brincadeira de péssimo gosto. – Uma luz se acescende em minha cabeça.
- Lê, será que é alguma das meninas da loja? Você sabe que algumas odeiam a gente. – Ela parece pensar na possibilidade.
- Ah, mas se for aquelas invejosas... Eu juro que eu vou... – Ela gesticula com as mãos como se o vento fosse o pescoço de uma delas.
- Leila, espera. Não sabemos se é realmente, tá bom? Não vejo como elas poderiam saber da minha vida a esse ponto.
- Mas se continuar recebendo mensagens assim e com tom de ameaça vai procurar a polícia. – Meus olhos dobram de tamanho. - Promete?
Eu concordo mesmo não querendo, o horário de almoço está acabando, não dá tempo de começar uma discutir agora. Voltamos ao trabalho e o resto do dia passa se arrastando, só mesmo quando me distraio a hora parece dar um salto e vejo o relógio marcar 18h.
Leila se despede, devia ser meu horário de ir embora também, mas como sempre faço hora extra, acabo chegando em casa depois das oito e meia.
- Boa noite, mãe. - Murmuro para Beth, ela está sentada no sofá, dividindo a atenção entre a tv e o crochê em suas mãos. Ela me olha e sorri.
- Boa noite, minha flor. Demorou. A lasanha está no forno, é só esquentar. - Meus olhos se abrem mais em surpresa. Meu cansaço se transforma em animação.
- Fez lasanha? - Abro um grande sorriso e aperto o passo para o meu quarto, a casa não é enorme e só tem um andar. Deixo meus sapatos no chão e volto correndo para dar um beijo em sua bochecha. - Já disse que te amo?
Ela ri da minha animação, mas comer é uma coisa que amo fazer e não posso evitar.
- Você sempre diz. - Ela ri.
Vou até o meu quarto tomar um banho e me preparar para dormir. Depois vou para a cozinha em busca da lasanha, vou comer no sofá, fazendo companhia para minha mãe e assistir a novela junto com ela.
Beth me conta como foi no orfanato, Beth já tinha Fernanda, na época com dois anos, quando começou a trabalhar lá como cozinheira e estava desesperada por um trabalho, já que sempre foi mãe solteira.
A verdade é que Beth me encontrou com aproximadamente um ano de idade, eu estava abandonada no banco da praça Radial Sul, aqui em Botafogo RJ, no meio de uma noite de inverno.
Ela me levou para casa mas então, no dia seguinte, tomou todas as providências para que eu ficasse no Doce Esperança, o orfanato que ela trabalha até hoje. Beth sempre achou que eu seria adotada logo, disse que vontade de me adotar não faltou, mas faltou dinheiro e condições financeiras, pois ela já tinha Fernanda e era difícil sustentá-la sozinha.
Então Beth cuidou de mim como pôde enquanto eu estive no orfanato, segundo ela sempre fui muito retraída.
Beth soube me conquistar, trazia alguns brinquedos e fazia pratos divertidos para chamar minha atenção, logo virei seu grude.
Cresci assim, fiz poucos amigos, mas sempre ficava triste ao ver que todos eram adotados e eu não. Até as crianças que não gostavam de mim tinham mais sorte que eu. Era sempre assim, os adultos chegavam e olhavam, alguns até se interessavam por mim, diziam que eu era uma criança linda, mas sempre encontravam outra e seus olhos brilhavam. Nunca era eu.
Sempre me questionava por que não eu? O que todas as crianças tinham que eu não tinha? Beth me dizia que o problema não estava em mim e sim nos olhos dos adultos. Que eles tinham uma venda invisível que os deixava cegos para as coisas boas da vida. Eu inocentemente acreditava.
Os anos se passaram, Beth teve Eduarda. Continuou cuidando de mim no orfanato até eu completar dezoito anos. Quando atingi a maioridade ela me acolheu em sua casa já que eu não tinha para onde ir, nessa época Nanda e Duda ainda moravam aqui. Foram três anos difíceis, as duas nunca gostaram de mim, só me toleravam.
Quando Beth não estava em casa eu aguentava todos os comentários maldosos a meu respeito. Quando comecei a trabalhar ainda aos 18, insinuaram que eu estava me prostituindo, que era a única coisa que eu seria capaz de fazer.
No fundo sempre soube que Duda é melhor que Nanda, Duda não me odeia, só vai na idéia da irmã. Quando Nanda se casou e se mudou nosso relacionamento se tornou menos pior, ela me ignorava como se eu não existisse, mas não havia nenhuma ofensa.
Nunca tive vontade de conhecer meus pais biológicos. Beth é minha mãe e isso é tudo que importa, não guardo mágoas, mas também não quero saber o que levou meus pais a me deixarem. É melhor assim.
Organizo a cozinha e ajudo Beth a levantar quando vejo que ela tem dificuldade. Ela anda muito cansada e isso me preocupa. Depois de um beijo de boa noite vou para o meu quarto e encontro meu celular tocando.
- Oi Ali. - Ela balbuciou um "até que enfim". Conversamos sobre eu parar de fazer hora extra, mas expliquei para ela que é necessário.
Depois que deixei o orfanato meu desejo é fazer faculdade, quero fazer farmácia. Mas estudar sempre foi um sonho distante, mesmo que eu trabalhe. A maioria dos meus empregos foram puxados, e o dinheiro das horas extras sempre foi necessário.
Além das despesas da casa, Beth assim como muitos precisa de alguns remédios, Duda e Nanda nunca contribuíram muito. Depois que Nanda foi embora nunca mais ajudou, Duda paga algumas contas, mas quanto aos remédios sempre diz que não pode ajudar muito, e o salário de Beth nunca foi alto. Então conciliar as despesas das contas de água, gás, compras do mês, telefone, remédios e outras coisas mais com possíveis gastos da faculdade é impossível. Além do tempo que é zero.
O que sempre desafoga são as horas extras.
Aline sempre diz querer ajudar, é minha amiga desde criança, ela também cresceu no orfanato, mas foi adotada aos 11 por uma família bem sucedida. Ali está estudando arquitetura e vem com essa idéia de vez em quando. Mas não quero que ela pague meus estudos, quero conquistar isso sozinha e não me sentiria bem deixando ela pagar. Se os pais adotivos encrencarem? Jamais seria motivo de problemas para ela.
Ela me pede opinião sobre Brendo, o rapaz estuda na mesma instituição que ela, a convidou para sair duas vezes mas ela recusou. Mas ele é insistente e minha amiga está balançada. No fim da ligação ela decide que vai aceitar o convite se for para saíram como amigos, apenas para conversarem.
Conto sobre a mensagem anônima que recebi, Aline diz que vai pesquisar a vida do meu ex. Sou contra mas ela me convence que é a única maneira de confirmar ou descartar a chance de ser ele. Ela sempre foi boa nisso, por que não?
°°°°°
Acordo as três e vinte da manhã com um barulho na cozinha, quando vou ver é Duda, está bêbada e falando ao telefone. Incrível como ela não tem como ajudar muito em casa mas sempre sai depois do trabalho. Fim de semana quase nem dá sinal de vida.
Volto para cama aliviada por não ser Beth na cozinha. Ouço ela rindo por alguns minutos, deve estar falando no telefone. Bufo irritada.
Por que as pessoas nunca valorizam o que tem? Nanda e Duda tem a mãe que eu sempre quis ter. Por que não vemos como somos privilegiados pelo que temos ao invés de nos sentir injustiçados pelo que não temos? As duas sempre foram ambiciosas demais, mas são incapazes de ver a mãe que tem.
Já de manhã acordo cedo para preparar o café, hoje é minha folga. Enquanto preparo o café vejo que Beth respira como se tivesse acabado de correr uma maratona, vou levar ela para fazer exames. Ela tem pressão alta e diabetes, mas toma os remédios.
Ela sorri quando me vê, tentando disfarçar o cansaço.
- Tudo bem?
- Tudo ótimo.- Ela pega a garrafa térmica e põe sobre a mesa.
Depois do café começo a bendita faxina, deixo cozinha e banheiro por último. E nem penso em arrumar o quarto de Duda, ela que lute.
Quando termino de almoçar já passa das duas da tarde e não resisto a um cochilo depois. Acordo com meu celular vibrando na minha barriga.
- Oi, Aline. - Murmuro ainda de olhos fechados.
- Gabi, me diz que você está em casa.- Seu tom é urgente, sorrio, Aline é dramática.
- Estou em casa, hoje é minha folga. - Suspiro e viro o corpo um pouquinho entre as almofadas. Se eu pudesse tirar um cochilo desses todos os dias...
- Estou indo aí. - Abro os olhos.
- Aconteceu alguma coisa?
- Nada, mas acho que vai querer saber sobre o que descobri.
- Sobre Marcelo? – Me sento no sofá, a tranquilidade de antes se desfaz como fumaça.
- Sim, mas não fica desesperada tá? Já chego aí. – Ali desliga sem esperar minha resposta. É claro que fico desesperada.
Tento afastar os maus pensamentos e vou para a cozinha preparar um lanche para nós, Beth decide fazer bolo, por mais que eu diga que não precisa ela insiste. Minutos depois ela está na cozinha batendo um bolo, sua bochecha está com farinha e ela nem liga.
Ouço o toque de mensagem no celular e vejo que Ali já está na porta. Abro o portão para ela, Ali nem repara no meu estado, mas eu não posso fazer o mesmo com ela. Ela anda sempre bem arrumada. Os cabelos longos e ruivos parecem ter acabado de sair de uma escova, ela usa gloss e perfume. Aline não vive sem produção.
- Um pássaro me contou que vai ter bolo nessa casa hoje. - Ali vai até Beth e a abraça, as duas tem muito carinho uma pela outra, já que Ali foi minha única amiga no orfanato por anos.
- Daqui a pouco sai um bolo de laranja quentinho. – Beth derrama a massa na forma já untada e eu sei o que vem a seguir.
- Posso? – Ali aponta para a vasilha onde Beth fez a massa e ela só sorri em resposta, entregando a vasilha em seguida.
- Você é muito abusada, Aline! – Cruzo os braços, não acredito que ela vai tirar a parte que cabe a mim.
Ali lava as mãos, pega a vasilha e vem para o meu lado já passando o dedo e levando o resíduo da massa crua até a boca.
- Hummm. – Ela fecha os olhos e eu fecho a cara, ela só percebe quando volta a me olhar. - Que foi? Podemos dividir, mas... Eu sou visita, não tenho essa chance sempre.
Deixo a vasilha para ela e a levo até o meu quarto, fecho a porta enquanto ela se senta em minha cama. Faço o mesmo e a encaro.
- Vai, desembucha. – Gesticulo com as mãos e Ali faz careta, pede tempo para acabar com o conteúdo da vasilha.
Quando ela termina ainda espero ela ir lavar as mãos e a vasilha e voltar.
- Então... Ontem quando você contou da mensagem eu procurei saber do Marcelo, se ele ainda está morando no interior e tal, se está trabalhando por lá e essas coisas.
Eu concordo com a cabeça.
Ali começa a estralar os dedos ainda sem desviar os olhos dos meus.
- Descobri que ele não mora mais lá, voltou há pouco mais de um mês. – Ela morde o lábio temendo minha reação.
- Como descobriu isso?
- Tenho alguns contatos. – Ela dá de ombros.
Marcelo na mesma cidade que eu? Provavelmente uma hora ou outra vamos nos encontrar. A não ser que...
- Ali, você sabe se ele tem alguém? – Ela faz careta, não entende minha pergunta.
Pode ser que tenha se apaixonado durante esses anos, que tenha me esquecido de verdade. Mas se fosse assim, então por que ela mensagem?
- Eu não sei, amiga. Mas se ele tivesse de boa não ia te incomodar. Né? – Eu concordo e respiro fundo. - Pode ser que ele queira só te irritar, sabe? Esses caras de hoje em dia tem o ego fragilizado, ele pode estar querendo saber como você está, se está melhor sem ele, se tem outro namorado e essas coisas.
Faz sentido, mas não quero pagar para ver. Ele me fez ameaças, não quero correr o risco, odeio dizer isso mas tenho medo. Não vou contar nada a Beth agora para ela não se preocupar. O bolo fica pronto e tomamos café da tarde, temos uma tarde e noite entre amigas como não tínhamos há tempos.
Naquela noite, antes de dormir minha mente vaga a espera do sono. Preciso cuidar mais de Beth, não posso ficar sem ela. Faço alguns cálculos na minha mente, com bastante esforço, planejamento e uma conversa séria com Duda e talvez com Nanda também, consigo com que Beth não precise mais trabalhar. Na próxima semana vou resolver todos os exames dela na minha folga, mesmo que leve o dia todo. Vou ligar para Nanda e aturar suas provocações, fazer o esforço de falar com Duda, tudo por ela. Eu faria o necessário pela saúde dela.
Ponto de vista: Gabriela.
Hoje é dia de fazer os exames, passamos o dia fora até mais ou menos quatro da tarde, Beth ainda está cansada, pergunto se está sentindo alguma coisa e ela diz que não, mas cada dia que se passa mais preocupada fico.
Também liguei para Nanda, após um pequeno desgaste ela concordou em ajudar para que a mãe não precise mais trabalhar, ela tem condições, sei disso. Jamais faria isso se não tivesse certeza de que ela pode muito bem ajudar, afinal é pelo bem da nossa mãe. Falei com Duda também, ela ficou mais preocupada que Nanda e prometeu ajudar mais, entrarmos em acordo sobre valores e falamos com Beth.
Talvez fosse bom eu procurar um segundo emprego a noite, mas seria impossível sobreviver sem tempo para dormir. Decidi continuar as horas extras, tudo vai ficar bem. Preparo um café reforçado para ela quando chegamos da rua.
A noite vou até a casa de Ali, o encontro dela rolou no sábado passado, ela queria me contar tudo. Assistimos um filme na TV de cinema que tem no quarto dela, com direito a pipoca, refrigerante, chocolates e sorvete. Ali sempre prepara tudo quando venho para cá.
- Não acredito que perdi duas horas da minha vida. - Ela senta na cama quando o filme termina, gargalho alto enquanto permaneço deitada abraçando as almofadas.
O mocinho morreu deixando sua amada triste e desolada.
- Só porque não gostou do final não quer dizer que o filme seja ruim.
- Quer dizer sim! - Ela levanta e põe em um canal qualquer, sentamos no chão e tomamos sorvete.
Jogamos conversa fora por um tempo. Ali vai colocar as taças e o sorvete na cozinha. Fico sozinha no quarto por alguns minutos, sou tão feliz por Ali ter conseguido pessoas boas para adotá-la.
Não tenho inveja dela nem de ninguém, mas as vezes imagino como deve ser crescer rodeada de pessoas que te amam. Sonho acordada com o dia que vou poder estudar, será que iria me casar um dia? Uma parte de mim morreu junto com o último relacionamento, como uma praga ouço meu celular vibrando no chão.
"Hoje foi um dia lindo. Só não foi perfeito porque não consegui te ver. Você está cada dia mais linda, Gabi."
Bloqueio a tela do telefone e o aperto tentando acalmar as batidas do meu coração. Se não conseguiu me ver quer dizer que tentou, hoje é minha folga... Ele foi no meu trabalho. Ele sabe onde eu trabalho. O celular vibra de novo.
"Não acredito que ainda está solteira, além de linda, leva uma vida tranquila, ainda é uma boa garota. Quando é que vamos nos ver novamente?"
É Marcelo, não tenho mais dúvidas. Não são as megeras da loja, essa não é uma brincadeira. Ele está me observando de verdade. Deixo o celular de lado, eu devia chamar a polícia? E se eu der de cara com ele na rua? Marcelo vira um monstro quando recebe um "não" e eu não tenho resposta diferente disso para dar. Bloqueio o número, vou esquecer isso, depois aciono a polícia.
Ali volta e assistimos um desenho, depois vamos nos sentar na varanda que é cercada com placas de vidro. A vista é linda, o condomínio fica há duas ruas da praia e Aline mora no décimo terceiro andar, dá para ver o mar, as luzes dos outros prédios e casas ao longe, a noite ainda está linda nos presenteando com a vista da lua cheia e estrelas.
Observo o vai e vem das ondas enquanto estou sentada em um dos bancos da varanda, Ali está de frente para mim sentada em outro banco. Apoio a cabeça no ferro que está acima da placa de vidro e é parte da decoração.
- E o encontro? - Puxo assunto. Ela sorri enquanto o vento passa bagunçando seus cabelos ruivos.
- Foi bom, ele meio que me segue na faculdade agora. Ligou segunda e ontem de novo.
- Ele gostou de sair com você.
- Acho que sim. O restaurante que ele me levou é maravilhoso. Depois fomos ao planetário.
- Planetário? – Aline ama planetário. Ele é esperto, subiu um pouquinho no meu conceito. - Ele pesquisou.
- Acho que sim. – Seus ombros se encolhem e depois voltam ao normal, indicando que ela não sabe ao certo.- Foi muito bom, Gabi. Ele me disse um monte de coisas bonitas.
Ela revira os olhos mas está sorrindo um pouco.
- E você acreditou?
- É meio difícil não acreditar quando estou vendo toda essa transformação diante dos meus olhos, né? Eu estou bem ferrada. - Ela cobre o rosto com as mãos.
- Por quê?
- Por que estou a ponto de acreditar em um homem, Gabi. Tem algo pior que isso? – Ela gesticula com a mão que antes cobria o rosto.
- Talvez não seja tão ruim assim. – Digo fazendo careta porque a frase parece absurda até para mim.
- Nem você acredita nisso. – Sua sobrancelha está levantada e me permito rir. É verdade, não acredito mesmo.
Olho toda a extensão da vista, amo ver as pequenas luzes da cidade, cada ponto de luz me passa a sensação de vida, imagino várias vidas acontecendo de formas diferentes. Cada pequeno pontinho é uma realidade diferente. A vida continuando em seu ciclo, acontecendo.
- Na verdade eu não acredito nisso. – Afirmo.
- Em que, no que acabou de dizer?
- Não. Que todos são iguais. Não acredito que todos os homens são iguais. – Aline fica em silêncio e acho que está surpresa.
- É claro que acredito que a maioria é imprestável e tudo mais, traidores, mentirosos, cafajestes, imaturos... Mas acho que existem exceções. Devem estar por aí, não é?
- Espero que sejamos uma dessas sortudas que vão encontrá-los. – Trocamos um olhar.
- Hmm. Podem ser caras comuns, desses que antes é um babaca mas que depois de uma lição da vida se torna o cara certo. - Sorrio para ela. Ali me contou a história de Breno.
Ele era o típico líder da turma de idiotas da faculdade, vivia de farra em farra, trocando de namorada como trocava de roupa, tirando péssimas notas. Tinha atitudes horríveis na universidade, preconceituoso, orgulhoso, convencido e tudo que há de ridículo.
De dois meses para cá uma tragédia aconteceu, ele e os pais sofreram um acidente de carro terrível. O pai de Breno ficou paraplégico, segundo ela havia chances de voltar a andar mas seria difícil. Breno ficou afastado da faculdade por três semanas, e quando voltou já não era mais o mesmo. Deixou a galera, não era mais o pegador de antes, ele simplesmente mudou radicalmente.
Chegamos a conversar sobre a mudança radical dele algumas vezes.
Nas últimas semanas se aproximou de Ali, a convidou para sair duas vezes e levou dois nãos. Mas Ali aceitou na terceira tentativa e saíram no sábado. "Sem expectativas"
- Eu tenho medo de ser iludida. Já o vi fazendo coisas bem ruins, Gabi. Sei que ele mudou, e bem, a mudança foi antes dele se aproximar de mim. Mas ainda assim sinto receio.
- Entendo. – Ajeito uma mecha de cabelo.
- Ele disse que o acidente mudou a mente dele, que viu como o pai precisou da mãe quando recebeu a notícia de que estava paraplégico. Viu os amigos próximos se afastarem, mas também viu o quanto a mãe não o abandonou, ela cuida dele. Disse que não sabia o que era amor até ver os pais após o acidente.
- O que mais ele disse? - Pergunto.
- Que quer ter o que os pais tem, que quer amar e ser amado de verdade porque o amor é capaz de nos fazer superar até os momentos mais difíceis.
- Uh, profundo. – Provoco.
- Profundo até demais. Parece um irmão gêmeo dele. - Segundo ele, não quer me assustar, só quer que eu saiba o que aconteceu dentro dele após o acidente para justificar a mudança e que está disposto a se comprometer com alguém. Achei isso legal. Ele disse tudo mas deixou claro que não há pressão. Pode ser eu, pode não ser. Ele vai continuar tentando. Isso é bom, é leve.
- Está apaixonada. - Murmuro.
- Claro que não, Gabi! - Ela me olha brava, o momento romântico se quebra e voltamos a realidade enquanto eu gargalho de sua reação. - Só estamos conversando.
Meu celular começa a tocar, olho para dentro do quarto e o avisto ainda no chão. Lembro da mensagem que recebi agora há pouco, será que é Marcelo? Levanto rápido e quando olho o visor vejo que é Beth.
- Oi mãe, daqui a pouco vou embora.
- Gabriela? - Não é Beth, é Duda. Sua voz está trêmula. Meu coração aperta no mesmo instante.
- Duda? Cadê a Beth? Ela está bem?
- Não, ela teve um infarto. Estamos no hospital.
- Ai meu Deus! - Começo a tremer, meus olhos enchem de lágrimas.- Qual hospital?
Vejo Ali se aproximar, ela parece estar ouvindo há algum tempo pois pega papel e caneta, Duda diz o endereço e eu repito para Ali anotar.
- O que aconteceu? - Ela pergunta assim que desligo a chamada.
- Beth infartou. Está no hospital.
Tudo acontece muito rápido. Ali chama um carro e vamos correndo para o hospital. Adentro pelos corredores com os olhos embaçados, as lágrimas descem pelo meu rosto enquanto ando com pressa com Aline ao meu lado, avistamos Duda.
- Como isso aconteceu? - Me aproximo dela, sua expressão está ansiosa, fechada.
- Não sei... Não estava em casa na hora, quem trouxe ela foi a senhora Marta. - Engulo seco. A vizinha socorreu ela. Eu devia estar em casa, não devia ter saído.
- Teve alguma notícia? - Ela balança a cabeça para indicar que não, ela não chora, mas parece em choque.
- Pediram para aguardar. - Concordo silenciosamente e me sento ao lado de Ali.
- Vai ficar tudo bem. - Ela murmura.
Mais de uma hora se passa avistamos Fernanda andando em nossa direção. O marido não veio com ela.
- Onde estava quando ela passou mal? – Ela diz de forma rude quando se aproxima, está alterada. Me levanto, odeio quando ela fala comigo assim mas não tenho coragem de responder.
- Ela estava comigo, flor. - Aline se levanta, ela está atrás de mim e usa o mesmo tom para falar com ela. Fernanda olha para Ali, mas logo volta a focar em mim.
- Beth já disse mil vezes que você não trabalha quinta feira, por que não estava em casa?! Devia estar lá quando ela precisou de você! – Ela explode lançando seu veneno para cima de mim.
- Eu estive lá quando ela precisou muito mais vezes que você, Fernanda.- Dou um passo a frente e ela faz o mesmo.
Logo uma médica se aproxima e nos viramos para vê-la, é Heloá, uma conhecida nossa.
- Como ela está, dona Helô? - Duda foi a primeira a perguntar, esqueci a presença de Fernanda rapidamente.
- Ela está estável. Vai ficar em observação por um tempo e vamos avaliando a melhora. Não é bom que entre muita gente, mas ela tem direito a um acompanhante.
- Eu fico. - Eu e Fernanda falamos juntas, ela me encara e eu devolvo o olhar.
- Eu vou ficar, vim até aqui para isso. - Desisto de protestar, Fernanda mora longe, veio preparada para ficar e faz muito tempo que não vê Beth, por falta de vergonha na cara mesmo pois nunca vi ficar tanto tempo sem ver a mãe sem nenhuma justificativa plausível. Quem sabe ver Beth fragilizada não toque no coração dela assim como o acidente tocou o coração de Breno.
Ali me diz para irmos para a casa dela, aceito sua oferta de dormir lá, Beth está bem e é isso que importa, vou vir amanhã no horário de visita para vê-la.
§
Ponto de vista: Ryan
Já estou habituado a nova rotina, trabalho de manhã, fico em casa a tarde, as vezes me permito sair a noite para esvaziar a mente, geralmente vou para o bar. O importante é o tempo que estou passando com minha mãe, Helena insistiu em me ensinar a preparar alguns pratos, descobri que um furacão fazendo sua trajetória em uma cidade com casas de madeira e eu tentando cozinhar qualquer coisa causamos o mesmo estrago.
Comecei a assistir as novelas com ela, entendo melhor a trama e consigo acompanhar seus comentários sobre cada capítulo, virou rotina tomar o café da tarde na varanda do apartamento, enquanto aproveitamos a brisa fresca.
Também visitamos a praia já que ela não ia há muito tempo, fomos a um shopping e nesse dia o café da tarde foi em uma confeitaria por lá, além disso visitamos o ateliê de costura preferido dela. Há alguns dias ela decidiu ir ao salão de beleza, sua reação ao olhar o espelho no fim do processo aqueceu meu coração de uma forma que nunca havia sentido, toda a experiência de passar tempo com ela é nova, cada dia é novo. Cada tarde tem gosto de melancolia e despedida, tristeza e saudade em diferentes tons. Por que nunca fiz isso antes? Por que ninguém define suas verdadeiras prioridades sem que haja a pressão de uma despedida?
Jantamos no restaurante preferido dela, mas uma crise de dor se iniciou e tivemos que voltar mais cedo. Fomos em um parque natural e fizemos um piquenique, visitamos um sítio.
Como ela mesma me ensinou ao mostrar albuns de fotos, cada momento está sendo cuidadosamente guardado por mim na memória e também em registros fotográficos.
Hoje é um daqueles dias difíceis, a enfermeira informou que as dores começaram de manhã enquanto eu ainda estava na empresa e foram necessários vários remédios, o resto do dia ela passou apagada, e consequentemente sem se alimentar. Não vi minha mãe de olhos abertos hoje.
Por volta das sete da noite resolvo esquentar a sopa que Jamily havia deixado pronta e levar no quarto para tentar alimentá-la. Abro a porta com a bandeja na mão, ela parece sentir minha aproximação e abre os olhos lentamente, me sento no chão ao seu lado depois de pousar a bandeja no criado mudo, seus lábios pálidos se erguem em um sorriso discreto ao me ver.
- Chegou, filho. - Ela murmura, sua voz está lenta e a pronúncia enrolada, provavelmente efeito dos remédios.
- Sim, mãe. Já anoiteceu. - Ela franze as sobrancelhas em uma careta.
- Dormi o dia inteiro? - Concordo em um aceno.
- Vamos tomar a sopa. - Ela nega.
- Não estou com fome. - Solto todo o ar dos meus pulmões.
- Mãe, por favor. Apenas um pouco.
- Amanhã me alimento melhor, prometo. - Nego de forma enérgica.
- Não, mãe. A senhora tem que comer. Faz isso por mim? Por favor. - Encaro seus olhos azuis, ela pensa por alguns minutos, sinto que consegui tocá-la.
- Estou cansando você, filho. - Lágrimas surgem em seus olhos, eles tem um brilho de tristeza. Me aproximo para pegar sua mão e olhar em seus olhos.
- Não, mãe. Por que está dizendo esse absurdo? A senhora não me atrapalha nunca.
Ela funga.
- Sou um peso na sua vida filho, eu que estou doente e você parou de viver por minha causa. – Ela afirma me apunhalando, meu coração erra duas batidas.
- É claro que não. Não é nada disso. - Uma lágrima escorre de seus olhos e pinga no travesseiro. Acaricioseu rosto. - Não quero que pense assim, isso não é verdade.
Respiro fundo depois de engolir o nó na garganta, não sei se as crises de dores físicas são piores do que isso.
- É sim, Ryan. Você só trabalha e fica aqui comigo, quase não te vejo mais sair com seus amigos ou com alguma moça. Como vai conhecer uma mulher boa para se casar desse jeito?
- Estou aqui para cuidar de você assim como cuidou de mim, não se preocupe mãe eu não quero me casar. - Asseguro mas sua expressão parece pior.
- Mas eu quero que você se case, meu filho. É o meu sonho, sabe disso, não sabe? – Fico em silêncio, não sei o que dizer. Olho para a sopa, a fumaça não está mais subindo, logo vai estar fria.
- Filho? Olha para mim. – Atendo seu pedido.
- Não precisa dizer nada, eu sei que não vou durar muito. - Meu peito arde com o choque das palavras dela. Como ela descobriu? Abro a boca para tentar desmentir mas sou interrompido. - Eu sinto isso, meu corpo diz que está esgotado, não estou bem. Também sinto seu esforço para aproveitar nossos momentos juntos.
Abaixo a cabeça, tem como ficar ainda pior?
- Ah, mãe. - Desisto de tentar ser forte. Deixo tudo escapar em forma de lágrimas, em todos os meses que passamos por esse inferno eu posso contar nos dedos as vezes que chorei. Nunca para ninguém, nem mesmo Bernardo, sempre sozinho.
Mas agora me sinto como uma criança, de repente me torno aquele menino de novo, o que precisava da mãe e que logo não a terá nunca mais. Eu a abraço com cuidado e choro em seus braços, ela me deixa, não me interrompe, não me censura. Ainda sinto sua mão delicada acariciar meu cabelo, seu carinho se move até minhas costas.
Não sei quanto tempo fiquei ali, mas quando decido levantar a cabeça e encará-la ela tem um leve sorriso no rosto, a mesma paciência e doçura de sempre. E acaricia meu rosto.
- Eu tenho um desejo, filho. Um sonho, na verdade. Me pesa saber que meus olhos nunca verão acontecer. - Franzo as sobrancelhas.
- O que? – A risada curta dela se mistura a minha, ela nega depois de alguns segundos. A luz da lua cheia ilumina uma parte do quarto que está com a luz baixa e a brisa entra pela varanda balançando a cortina.
- Meu sonho é que você tenha o que eu nunca tive. - Helena sussura como se fosse um segredo. - Quero ver você se casando meu filho, e sendo feliz no amor como nunca fui.
Seu olhar para mim é intenso, cheio de expectativa, emoção, melancolia, súplica e amor.
- É o meu último desejo. - Ela sorri.
Sou incapaz de dizer qualquer coisa por alguns segundos. É difícil absorver o que acabo de ouvir, me pergunto por que não fiz isso antes? Por que nunca me apaixonei a ponto de querer me casar? Será que sou incapaz de me apaixonar exatamente como meu pai? Poderia ter procurado alguém que me fizesse sossegar e que minha mãe gostasse, mas nunca o fiz. Poderia ter dado netos a ela. Com certeza Helena deve querer netos. Mas agora isso é impossível, segundo o doutor temos apenas seis meses. O fato é que duvido que eu seja capaz de me apaixonar a ponto de me comprometer com uma mulher só pelo resto da vida.
Meu coração parece bater mais forte diante da loucura que estou prestes a fazer, mas sou incapaz de dizer não, sei que nada a faria mais feliz e foi o que me propus: Fazê-la feliz até o fim.
- Eu vou pensar nisso, vou estar... aberto para as possibilidades. - Beijo sua mão.
- Promete que vai sair mais? Eu prometo dormir mais cedo e tomar os remédios para que você vá tranquilo. – Arqueio a sobrancelha, agora dona Helena quer tomar os remédios? - Promete que vai procurar uma mulher boa para se casar, meu filho. Não viva sua vida como se não houvesse um amanhã no qual você pode querer e até precisar de uma família.
Será que algum dia vou querer isso?
- Se eu não tivesse você nem sei o que seria de mim, Ryan. - Aceno afirmando, entendo onde ela quer chegar.
- Eu... - Suspiro antes de pronunciar minha sentença. - Prometo, mãe. - Ela me mostra um sorriso que não vejo há muito tempo, enfim desisto de tentar fazê-la comer. Saio do quarto após desejar boa noite, derrotado.
Não posso simplesmente me casar, muito menos dar meu sobrenome para alguma aproveitadora, está cheio de mulheres assim por aí. Eu jamais traria uma qualquer para casa, por outro lado o tipo de mulher ideal para agradar Helena é totalmente contrário ao que me agrada, a missão que ela me deu é impossível, casado e feliz.
Sorrio com ironia, em alguns meses ou eu estaria casado, ou feliz. Para que ela esteja feliz eu tenho que estar casado, não preciso estar apaixonado e essa baboseira toda. Só preciso encontrar a garota certa e me casar de uma vez, é claro que tenho que oferecer algo em troca, uma boa moça não vai querer se casar com um homem como eu de graça.
Sem essa de compromisso, nada de sentimentalismo, ilusão de romantismo ou comunhão de bens. Tem que ser um contrato, um contrato de 1 ano. Ainda tenho fé que Helena demore a me deixar ou até que não me deixe.
Amanhã mesmo terei uma conversa com meu advogado e o farei preparar os papéis o mais rápido possível. Quanto a garota... Bem, será um pouco mais difícil, talvez precise de Bernardo, não sou exatamente um imã para moças boas e descentes.