Quatro anos.
No máximo três ou quatro anos poderia ter a menina que deixaram na frente da sua porta.
Estava bem agasalhada, mas mesmo assim seus dentes batiam de frio como se não estivesse acostumada, e ela esfregava as mãozinhas com desespero; precisava se aquecer o quanto antes. Seus cachinhos loiros saíam de debaixo do capuz, e aqueles olhos tão azuis só olhavam para a porta, esperando que alguém abrisse para entrar. Estava assustada, sozinha e congelando.
A pessoa que a deixou ali saiu correndo muito depressa e fugiu no seu carro, deixando a menina na porta fria depois de tocar a campainha, quando se certificou de que ninguém estava por perto - algo complicado se parássemos para ver de quem era aquela casa. Levou dois dias para conseguir fazer essa manobra.
A menina tinha uma nota consigo e uns documentos que continham informações sobre ela, mas só sobre ela, não sobre a mãe. Coisas como sua idade, nome e seu estado de saúde, não muito mais.
Quando abriram a porta, a senhora do serviço olhou ao redor para ver onde estava a mãe ou o pai daquela criatura. Mas ali não havia ninguém.
Correu para o interior sem pegar a menina; não podia entrar com ela na casa sem que seu chefe soubesse, mas antes de chegar ao chefe, tinha que passar por Vincent, a mão direita, seu conselheiro.
- Há uma menina na porta! - exclamou a pobre mulher, angustiada por tê-la deixado naquele frio e abraçador inverno.
- Compre biscoitos para ela e mande-a embora - disse o tal Vincent, sem entender por que a mulher se alarmava tanto só pela presença de uma menina na porta.
Era só uma menina na porta, o que importava?
- Senhor... deixaram uma menina na porta - explicou melhor a senhora Aisha. - Não há ninguém ao lado dela e ela tem uma nota, também uns documentos. Está sozinha. Deixaram-na na porta! E tudo indica que... - Não se atrevia a dizer, mas era o que parecia.
- Quem diabos se atreveu a fazer tal coisa? - Com várias passadas, dirigiu-se à porta e Aisha o seguiu. - Droga! - exclamou ao vê-la. - É verdade que há uma menina na porta. - Vincent teve o impulso de recuar; não gostava de crianças, muito menos de uma menina de longos cachos loiros, aqueles olhos azuis com um aspecto muito parecido com o de seu chefe Vasily Ivanov, inclusive com seu olhar frio.
Como era possível que uma menina tivesse um olhar tão sério? Mas ao vê-la, Vincent compreendeu o que estava acontecendo, o mesmo que Aisha já havia compreendido.
Tinham deixado aquela menina ali porque era filha de seu chefe.
De qualquer modo, era uma tolice.
Teve o impulso de enfiar as mãos nos bolsos para pegar o tabaco, embora se lembrasse de que seu chefe não o deixava fumar em sua casa.
Aproximou-se bem devagar; aquela pequena sustentava o olhar sem nenhum medo, mas quando ele se aproximou, a menina deu um grito longo que ecoou por todos os lados. Ato que fez Vasily sair do seu escritório.
Vasily, ele era o chefe do lugar.
O Pakhan.
Por que uma menina estaria gritando em sua casa, arruinando sua paz? Isso era o que Vasily queria saber.
- E agora o que acontece? - perguntou, aproximando-se da porta, com seu típico tom de voz desanimado. Olhou à frente para a menina loira, para Vincent e Aisha. - Quem se atreve a trazer uma menina para a minha casa? - perguntou aos adultos, seus olhos em busca dos pais, mas ali só estavam eles e a menina. Não havia outro desconhecido.
Onde estavam os pais?
Quando Vasily voltou a olhar para a loira que estava sentada no chão frio, notou algo estranho nela, algo que lhe chamou a atenção repentinamente; aproximou-se muito rápido dela e a ergueu nos braços sem que a menina chorasse. Aquelas duas pessoas se olharam fixamente e, ao compreender, Vasily sorriu.
Era sua filha.
Assim de simples, percebendo apenas ao vê-la.
Por enquanto se alegrava, mas só por enquanto.
Seu trabalho não lhe permitia ter família, muito menos um ser tão indefeso como uma filha. Ele jamais pensaria em procriar e sempre se assegurava de que não ocorresse nenhum acidente com isso; era dos que nunca deixavam de lado a proteção.
Embora, ao que parece, falhou uma vez. Diante dele estava a prova.
Em seu coração, sentiu um pequeno anseio, quase como se seu peito se encolhesse ao ver aqueles olhos tão parecidos com os seus, esse olhar, esse rosto.
- Papai? - Perguntou a pequena. Tinham lhe dito uma e outra vez que a levariam ao seu pai; agora estava diante dele.
O homem sorriu sem querer, maravilhado com aquele tom de voz, mas quando ele falou de novo, a pequena começou a gritar tal qual havia feito antes. O mais estranho de tudo é que ela soltava palavras, mas em espanhol, não em russo, deixando Vasily ainda mais confuso.
Agora tinha que lembrar quando foi à Espanha ou quando esteve com uma espanhola. Sem proteção!
Pegaram as coisas dela e entraram na casa.
Tinha uma filha.
Vasily Ivanov tinha uma filha.
O Pakhan tinha uma filha.
O bar estava lotado; três guarda-costas de Vasily estavam posicionados nas respectivas saídas, vigiando para que tudo estivesse bem; dois mais estavam misturados entre as pessoas.
Vincent havia ido com ele. Por algo era sua mão direita, quase seu melhor amigo, alguém que ia com ele a todos os lugares, não importava onde. Vincent conhecia cada mínimo movimento de Vasily.
Não se podia chegar a Vasily sem antes passar por Vincent.
Havia uma garota morena atrás do balcão que depois saiu para levar umas cervejas à sua mesa; para ela, era uma noite comum, como qualquer outra de trabalho.
Os olhos de Vincent se dirigiram a ela, notando a peculiar beleza daquela mulher; certamente era estrangeira e isso chamou muito sua atenção.
Seus lábios se curvaram em um sorriso amável quando ela deixou a cerveja na frente de Vincent, o mesmo sorriso que ofereceu a Vasily; este a olhou com olhos frios, enquanto Vincent a devorava com o olhar, consciente da beleza que tinha à sua frente e desejando devorá-la. Não era uma figura que passasse despercebida e ele a notou no instante.
- O que fazemos aqui? - perguntou Vincent, a ponto de se aproximar do balcão para puxar conversa com a garçonete e tentar levá-la para a cama naquela mesma noite ou naquele mesmo instante, e se tivesse muita pressa, levá-la ao banheiro e se saciar um pouco enquanto passava o tempo, aliviar a pressão que se formava em seu pênis enquanto pensava nela. - Está muito cheio. - Olhou para o traseiro de uma loira que passava, ao mesmo tempo ergueu a mão para a garçonete de antes para tê-la de volta; queria-a perto dele. Queria vê-la mais de perto para saber qual parte dela lhe agradava mais. Saber quais lugares percorreriam seus lábios quando tivesse seu pau duro dentro dela, fazendo-a gemer e suplicar por mais.
- Precisam de algo mais? - o sotaque da mulher chamou a atenção de Vasily; era um russo muito ruim, como se estivesse recém aprendendo, de jeito nenhum agradável, com uma pronúncia fatal.
- A você - murmurou Vincent, olhando para o seu traseiro. Definitivamente, esse era seu maior atrativo, junto com seu rosto inocente, quase angelical, aqueles lábios rosados e seus belos olhos castanhos, mas preferia admirar seu traseiro; isso era mais prazeroso, mais sujo. Não entendia o que uma garota assim fazia naquele bar de merda. E ainda por cima era muito jovem.
- Outras duas cervejas, por favor - pediu Vasily para que a garçonete pudesse ir embora e sair das garras de Vincent, que a espreitava com a baba no canto dos lábios. - Já quer fodê-la, não é?
- É que você não viu o traseiro dela? - murmurou com os dentes apertados, as ânsias devorando-o.
- Por que eu teria que olhar para o traseiro da garçonete?
- Porque é um bom traseiro! Porra. Às vezes acho que você não tem olhos para ver as mulheres; desde quando não leva uma para a cama?
Não havia passado tanto tempo; ainda não rompia seus limites. Tampouco lhe custava um grande esforço. Não era tão promíscuo como Vincent. Talvez fosse mais seletivo.
- Tenho assuntos mais importantes que meter uma puta na minha cama, Vincent. Não gosto de putas.
- Sabe quem é ela? Primeira vez que a vejo. Vou investigar.
Vincent se levantou e desapareceu.
Vasily tampouco a havia visto nunca ali, mas não era como se frequentassem o lugar. Estavam ali porque se tratava de negócios. E os negócios sempre vinham em primeiro lugar; não andava pela vida olhando traseiros, não era nisso que se fixava na hora de desejar uma mulher ou pensar em levá-la para a cama.
Um de seus homens trouxe um pequeno velho astuto que havia querido roubá-lo, acumulando uma grande dívida em seu cassino e sem querer pagá-la; avisou-lhe que não podia ter uma dívida que não poderia pagar, mas ele insistiu em que podia continuar. Cego pela ambição e sua forte crença de que poderia ganhar a próxima.
Até que a dívida subiu demais e depois ele desapareceu.
Já os homens de Vasily o haviam encontrado.
Sentaram-no à sua frente ao mesmo tempo que a garçonete regressava com as outras cervejas, mas ao ver aquele homem que recém chegava, ficou muito nervosa, derramando um jarro de cerveja sobre Vasily.
Vasily se levantou muito depressa, não acreditando no que havia acontecido; a garçonete tentou voltar ao balcão para buscar algo com que secar o homem, mas Vasily achou que ela tentava fugir.
Segurou-a tão forte pelo braço e puxou-a, que a mulher chocou com a mesa e levou tudo pela frente, caindo no chão.
Imediatamente se armou todo um alvoroço com os guarda-costas de Vasily e Vincent que se aproximou ao ver o que acontecia.
A mulher se viu rodeada em um piscar de olhos, sem ser consciente do que acontecia ou quem eram aquelas pessoas, aqueles homens.
Estava frente ao chefe da Bratva Ivanov, o Pakhan.
E o outro homem ao qual haviam levado frente a Vasily era seu padrasto, um ser miserável que anos atrás havia tentado abusar dela, o mesmo que maltratou de muitas formas sua mãe e até a ameaçou de fazer-lhe dano, para que sua mãe ficasse ao seu lado, até que eventualmente ela fugiu e meses depois sua mãe morreu de maneira muito misteriosa.
Nerea Pérez López, como se chamava a garçonete, não podia estar mais assustada que naquele momento, estando de novo frente a seu padrasto e frente a outro homem do qual desconhecia totalmente a identidade.
Seu padrasto, aquele russo de nome Daniel Lebrov, observou nela a oportunidade de sair vivo daquele assunto, depois de meses fugindo com desespero por não ter o dinheiro do Pakhan; tendo a maravilhosa casualidade de se encontrar com Nerea naquele lugar, depois de que lhe perdeu o rastro há um ano e meio após o funeral de sua mãe.
Estava frente a ele, assim como o Pakhan e seus homens, de quem não sairia vivo a menos que tivesse a quantiosa soma que lhes devia.
Vincent se aproximou de Nerea para ajudá-la a se levantar, observando o corte que tinha ao longo de seu braço direito, já que havia caído sobre um dos cristais dos copos quebrados, machucando-se; tentava deter o sangramento com a mão, mas o corte havia sido profundo.
Daniel tentou se aproximar do Pakhan para falar, mas seus homens não o deixaram se aproximar nem um centímetro, pressionando seu corpo contra o chão e um deles deixando um pé sobre sua cabeça.
Vasily o olhou com desprezo, lançando seu olhar frio sobre o homem que haviam estado procurando nos últimos três meses.
- Aqui te tenho, Daniel. - Cuspiu em sua cara; não entendia como pôde se ocultar durante tanto tempo e isso tinha Vasily de mau humor. Por que um simples ancião havia logrado se ocultar durante todo esse tempo? - Suponho que a quantidade que me deve não cabe no seu bolso, não é? - De imediato seus homens o revistaram, não encontrando nada de dinheiro, menos a quantidade que lhe devia. - Vamos lá fora, temos algo do que falar.
Enquanto Vasily saía, olhou para trás, observando como Vincent tirava sua camiseta para cobrir a ferida de Nerea e deter o sangramento em seu braço.
Depois pensava em se encarregar dela por ter jogado a cerveja sobre ele. Mas talvez para quando chegasse esse momento já Vincent a teria fodido no banheiro.
Lá fora, os homens soltaram Daniel e ele caiu aos pés de Vasily; o homem chutou sua cara, lançando-o contra o pavimento; segurou o pescoço de sua camisa e o ergueu sem esforço, deixando uma série de socos em seu rosto.
Queria descarregar um pouco a frustração que trazia depois de duas semanas em busca da mãe de sua filha, depois de ter contratado doze babás e a lista seguia, sem que a pequena Roxana se acostumasse a nenhuma delas, pois o espanhol dos demais era muito ruim e a menina havia decidido não falar. E não sabia nada de russo, enquanto que o espanhol de Vasily era tão ruim como o do resto. Sentia-se frustrado com tudo isso de ter uma filha e nem sequer poder entender o que dizia.
Encontrava-se em um beco sem saída com a situação de sua filha.
A alegria de ser pai se evaporou tão logo viu que era impossível se comunicar com sua filha. E de sua mãe não tinha a menor informação.
- Te pagarei! - rogou, aferrando-se aos pés de Vasily.
- Esse prazo já expirou, Daniel. - Realmente havia se investido tempo e homens para encontrá-lo e dar-lhe outra chance de pagar. Daniel tinha seus minutos de vida contados. - Não há maneira de que tire dos seus bolsos o dinheiro que me deve. E sabe bem que gosto de jogos, mas você joga fatal. - Tirou um lenço do bolso e limpou de seus nós dos dedos o sangue que ficou de Daniel. Maxim, seu guarda-costas mais antigo, sacou sua arma e apontou direto para Daniel.
- Tenho como pagar! Tenho algo que vale muito e - a arma se grudou em sua nuca; o homem sentiu esse nó em sua garganta, assim como a morte estando muito perto dele, quase levando-o para o outro mundo. - Minha filha! Minha filha! - gritou alto demais. - Tenho uma filha!
- Devia ter pensado nela antes de se meter nesses problemas. Com certeza se lhe faz um favor ao desaparecer alguém como você. Lixo humano. Sua vida pode ser melhor sem você. - Não lhe interessava nem um pouco que aquele homem tivesse uma filha. Interessava-lhe que pagasse pelo que havia feito.
Com a Bratva não se brincava. E se esse homem não pagasse com sangue o que não podia pagar com dinheiro, então Vasily poderia ficar em ridículo perante os demais.
Vasily se virou; só restava atirar nele.
Começava a nevar e ele havia deixado a jaqueta dentro do bar; queria entrar.
- Te a vendo! Te a vendo! Te vendo minha filha! - gritou como último recurso. Vasily se virou irritado, não podendo entender como a Daniel passava pela cabeça que ele aceitaria uma menina como parte de um pagamento.
- Você está louco? Quem você acha que eu sou? Me vê cara de degenerado? - mais que irritado, sacou sua própria arma e apontou direto para a cabeça.
- Nerea Pérez, Nerea Pérez López! Já completou os vinte. Está dentro fazendo de garçonete. Ela é minha filha, minha enteada. Pegue-a, até que quite minha dívida. Use-a, faça o que achar propício com ela. É jovem, inteligente e já viu o quão bonita é. Estava dentro, você a viu. Poderia... servi-lo.
- Nerea Pérez? - lembrou o quão atraente Vincent disse que era a jovem, a mesma que jogou a cerveja sobre ele; recém entendia que talvez se devesse sua atitude ao fato de que ela se encontrou com seu padrasto. Aquele homem à beira da morte era o padrasto da garçonete que estava dentro com Vincent. - Vou confirmar se é verdade o que diz. - Fez um sinal a Maxim; o homem o recolheu do chão e segurou seus braços para que não tentasse nada.
Indo para dentro, viu Vincent com kit de primeiros socorros e tudo curando a ferida de Nerea. Era todo um Don Juan, isso não se podia negar. Fazia tudo o que fosse necessário para ter sua presa.
Aproximou-se deles, observando o cenário.
Quando Nerea o viu, se tensionou, sabendo agora que aquele homem era o próprio Vasily Ivanov, a quem jogou sem querer a cerveja em cima.
Ela havia se atrevido a molhar a roupa do Pakhan.
- Sinto muito, não foi minha intenção molhar sua roupa, senhor Ivanov. Senhor Pakhan - desculpou-se nada mais vê-lo, inclinando a cabeça. Não tinha ideia de como devia se dirigir a ele de forma correta e sem que parecesse uma ofensa. Sentia-se ridícula com tantas formalidades para um homem que ela nem conhecia, mas a quem repentinamente temia.
- Você é Nerea Pérez López?
Ela abriu muito os olhos, surpresa de que ele soubesse seu nome, quando ela era a primeira vez que o via. A conhecia de algum lugar? Nerea estava muito segura de que essa era a primeira vez que o via.
- Sim, sou - confirmou.
- Daniel é seu padrasto? Daniel Lebrov.
- É. Viveu um tempo com minha mãe antes de que ela falecesse.
- Quantos anos tem?
- Completei os vinte há uns dias.
Há só uns dias.
- Por acaso, você é espanhola? - aquilo não sabia, mas o havia deduzido conforme passou aquelas palavras com ela.
- Sou, senhor Pakhan.
Era perfeita para cuidar de Roxana; talvez a indicada, jovem, falaria bem seu idioma e poderiam se dar bem. Mas o melhor de tudo, Daniel a acabava de dar como parte da dívida que ele tinha.
O sorriso que Vasily mostrou gelou Nerea; sabia que algo não andava bem e que todas aquelas perguntas que ele lhe fez deviam ter um motivo; não sabia qual, mas estava assustada.
Na cara daquele homem se desenhou uma covinha do lado direito em sua bochecha por sua maneira torta de sorrir. Mas era um sorriso frio, sem transmitir nada, nada de calor; tudo naquele homem era muito gelado.
- Leve-a para o carro - ordenou com força a Vincent. - Irá conosco para casa. - Deu um passo sigiloso para ela, pegou uma mecha de seu cabelo e capturou a lágrima que sulcava sua bochecha. Olhou os olhos vidrados da jovem, notando medo neles. - Seu padrasto acaba de usá-la como moeda de pagamento, Nerea. Agora é minha, pertence a Vasily Ivanov.
A jovem quase desabou ao ser consciente do que isso significava. Ou o que ela acreditava que significava.
Pertencer a um chefe da máfia? Servir de pagamento?
Incluso resistir naquele momento não serviria de nada.
Vasily saiu do bar e se uniu com seus homens; fez um sinal a Maxim para que soltassem Daniel.
- Já estamos quites? - perguntou Daniel, temeroso da resposta. - Me dará mais tempo para pagar o que te devo enquanto fica com Nerea?
- Sua dívida está quitada. Não volte atrás de Nerea.
Agora era sua e ele não costumava se desfazer do que lhe pertencia. Daniel não teria que pagar o que devia.
Nerea já era o pagamento.
Passou ambas as mãos pelo rosto e mordeu o lábio inferior.
«Como diabos aceitei uma pessoa como pagamento por uma dívida? Em que eu estava me metendo?» Pensou, caminhando de volta ao bar para levar a mulher.
Uma mulher em sua casa... Era tão estranho como ter uma filha.
Duas pessoas metendo o nariz em todos os lados.
Sabia que isso o encurralaria, mas já não havia marcha atrás; precisava de uma babá.
-No se preocupe - disse Vincent quando entrou no carro com ela; havia pegado uma camisa que Vasily tinha no carro, mas ficava um pouco folgada nos braços, pois sua compleição era inferior à do Pakhan. - Você não é o tipo dele, nada vai acontecer com você - assegurou-lhe, imaginando as coisas que passavam pela cabeça da jovem.
Mas sim era o tipo dele e uma parte muito perversa dele se alegrava de que Vasily a tivesse tomado como pagamento; assim se poupava o cortejo e demais.
A jovem tremia, à espera de seu destino, sem poder acreditar que acabava de ser dada para quitar uma dívida, sem que ninguém tomasse em conta sua decisão ou o que ela desejava.
Queria começar a chorar como uma menina pequena e pedir que a levassem com sua mãe, mas sua mãe já não estava para ela e ela já não era uma menina pequena. Além disso, fazia muito tempo que havia se dado conta de que as lágrimas não resolviam as coisas por arte de magia. Isso não significava que não fosse chorar, mas que sabia que isso não arrumaria nada.
Não podia acreditar que tivesse tanta má sorte de ter caído nas mãos daquelas pessoas; todo esse tempo fugindo de seu padrasto, para agora encontrá-lo do nada e ser entregue como pagamento de uma dívida.
Se achou que antes havia tido um mau dia, esse era o pior de todos.
Que tão má era sua sorte, Nerea Pérez López?
Para uma vez que sua vida levava uma direção adequada, longe de pessoas que pudessem danificá-la, agora caía nas garras daquela Bratva. Havia se sentido livre ao não ser encontrada por seu padrasto, mas via que sua liberdade durou menos que um piscar de olhos. Como isso foi possível? Justo quando sentia que as coisas estavam indo bem...
Tentava não gritar; antes Vincent lhe havia parecido um homem agradável quando curou seu braço, mas agora que sabia que se relacionava com aquela Bratva, lhe dava medo, um terror incrível e mais Vasily, o líder daquela organização criminosa.
O Pakhan era ainda mais de temer.
Uns minutinhos mais tarde, Vasily se uniu a eles dentro do carro.
- Vá no outro carro - ordenou a Vincent.
Seu amigo deu uma última olhada em Nerea antes de abrir a porta. Ela estava tão nervosa, que se deu conta de que tinha mais medo de Vasily que de Vincent; não desejava ficar a sós com ele.
Segurou o braço de Vincent ao ver que este já ia sair do carro. Lhe aterrava ficar a sós com o Pakhan, seu novo dono.
- Por favor... não me deixe aqui - pediu-lhe com notável desespero, já molhando seu rosto com suas lágrimas; não que não ia chorar? Chorar não remediava nada, mas tampouco podia impedir de fazê-lo; simplesmente deslizavam por seu rosto. - Te suplico.
- Nada vai acontecer - disse, deu-lhe um sorriso amável e depois terminou de sair, fechando a porta com eles dois dentro, mais o motorista.
Nerea voltou ao seu assento, valorando as possibilidades que tinha de escapar.
Escapar?
Certamente eram de zero.
Não havia nenhuma possibilidade de poder escapar e ao tentá-lo só pioraria sua situação.
Diante dela só havia um homem de olhar frio, que não parava de observá-la. Sentiu-se incômoda e aquele silêncio complicava tudo.
Não queria levantar o olhar, mas observou em sua roupa ainda molhada pelas cervejas que antes ela jogou sobre ele, embora também recordava como ele a jogou sobre aquela mesa com tanta força, mais do que o necessário, e ela se machucou em um braço, recebendo o corte que agora cobria com a camiseta de Vincent.
Vasily Ivanov não era de uma boa fama; aos seus trinta e dois anos havia se tornado o Pakhan, foi algo que ganhou a pulso e escalou para obter, não só foi um título que seu pai pôs nele, foi algo que merecia, que ganhou. Pouco acostumava a confiar nas pessoas; gostava de se rodear de gente da qual não pudesse desconfiar e muito lhe custava confiar, por isso seu círculo era muito fechado, demasiado pequeno porque as pessoas em que confiava eram poucas.
Não gostava da piedade; considerava isso um ato ridículo, longe do justo.
Tinha sérios problemas em mostrar seus sentimentos; seu pai sempre lhe deixou claro que aquilo só servia para fazê-lo fraco, vulnerável perante os demais. Pelo que agora mesmo ele era um experto em não sentir nada; jamais se havia apaixonado, nunca havia mostrado um especial interesse por um homem ou por uma mulher; sabia pôr limites, sabia pôr limites a si mesmo e deixar longe as coisas que podiam fazê-lo vulnerável.
Sabia o poder que tinha uma mulher em um homem apaixonado e ele não se permitiria jamais se ver vulnerável perante ninguém.
O amor era algo inútil para ele.
Diante dele tinha o que serviu para quitar uma dívida, mas a jovem parecia demasiado boa, tanto como para atrever-se a olhá-lo desse modo.
Havia medo, mas não descartava essa faísca em seus olhos a ponto de se incendiar.
Nerea Pérez López começava a lhe dar curiosidade.
Depois de olhá-la detidamente, o olhar de Vasily repousou em seu braço ferido.
Foi brusco naquela ocasião e ela se machucou, mas Vasily não sabia como não ser brusco, muito menos mediar sua força. Ter tato não era o seu; ser amável era algo impossível e diante de uma jovem que parecia frágil e inocente, ele não tinha a mínima ideia de como se comportar. Seria um desastre tê-la em casa quando não sabia nem como tratá-la.
Ante seus olhos devia estar parecendo um animal selvagem, como se importasse o que os demais pensassem dele, muito menos uma desconhecida da qual não sabia nada.
- Posso perguntar o que vai acontecer comigo agora?
- O que eu quiser que aconteça, Nerea - essa resposta foi desagradável ante Nerea, compreendendo que seu futuro estava em mãos daquele homem. Ele tinha todo o poder sobre ela.
Dono e senhor.
- D-De quanto é a dívida de Daniel? Se eu trabalhar, talvez pudesse pagá-la.
- A quantidade é grande; do único modo em que poderia pagá-la em um par de anos é se prostituindo em um dos meus cassinos. - Começou a brincar com ela, assustando-a.
Nerea sentiu um nó no estômago e o medo se intensificou; novamente não foi capaz de olhar aqueles olhos azuis gelados. Abraçou-se, desejando que esse não fosse seu destino.
Nunca havia estado com nenhum homem e a ideia de prestar seu corpo para pagar uma dívida que não era dela, lhe aterrava até o ponto de que todo seu corpo tremia ao pensar nisso.
A ele gostava como ela começou a expressar seu medo. Abraçou-se, apertando seus peitos e estes subiram um pouco, asomando-se à tela, chamando os olhos do Pakhan, que nunca costumava se fixar em nada a respeito de uma mulher ou seu corpo, mas que de repente esta chamava sua atenção.
Antes não se fixou em seu traseiro, mas agora olhava seus peitos.
- Com um trabalho que não seja de prostituta, poderia tardar uns nove ou dez anos em pagar essa dívida - seguiu se entretendo com ela, vendo sua reação muito de perto -, entregando tudo quanto ganhe; viveria e trabalharia para isso. É o que quer? Não te é atraente o trabalho de se prostituir? Talvez seja menos honrado, mas poderia ser o caminho mais fácil. - Escutou seu soluço e o Pakhan sorriu. - Trabalhando diretamente para mim, não teria que pagar nenhuma dívida, mas seu trabalho seria para sempre ou até que eu decida.
A forma em que a mulher mordeu seu lábio, de raiva e impotência, tirou um sorriso em Vasily. Queria vê-la explodir, gritar-lhe que era um porco e esse tipo de coisas, mas parece que faria falta mais coisas até que ela explodisse frente a ele.
- Que tipo de trabalho seria o que faria ao seu lado? - perguntou, embora aquela não fosse a melhor opção para Nerea, porque seria para sempre ou até que ele decidisse. Estar em mãos dele a angustiava, mas as saídas que ele lhe oferecia todas eram muito más, vis.
Jamais prestaria seu corpo para que outros homens se saciassem com ela e menos para pagar uma dívida que ela não adquiriu.
Satisfazer a luxúria dos demais não era sua melhor saída.
- Não posso te dizer; tenho que comprovar se vale para fazê-lo. - Comprovar? Levantou sua mão e o motorista empreendeu a marcha. Vasily começou a tirar essa roupa molhada e fedorenta a cerveja frente a ela, ficando só em roupa interior, com sua cueca e suas meias. Aproximou-se do assento dela, pegou seu rosto, inspecionando sua cara. - Tem algum vício?
- Por que me toca? - perguntou; o bufido de Vasily lhe confirmou que não era ele quem tinha que responder às perguntas. - A comida. - Tê-lo perto e em roupa interior a deixou algo nervosa, temerosa de que ele lhe fizesse um dano.
- Fuma? - Separou seus lábios de seus dentes, buscando o amarelo neles pelo tabaco, mas não encontrou nada.
- Odeio o tabaco - admitiu ela logo.
- Bebe com frequência? - Cheirou-a, ficando ainda mais perto dela. Por segurança, ela fechou com força suas pernas; não gostava de seu toque ou da maneira em que ele a inspecionava; parecia que a avaliava.
- Não, não sou de beber álcool.
- Tem filhos? - olhou seu ventre plano e depois seus peitos tão firmes; além de que era muito jovem. Não havia que ser adivinho para se dar conta de que esses peitos não precisavam de um sutiã.
Nerea o olhou; parecia um interrogatório. Os olhos dele não estavam no rosto dela, senão em seus seios.
Por uns breves segundos sentiu a urgência de cobri-lo com suas mãos, mas se conteve; não estava acostumada a um olhar tão perto e direto nessa zona.
- Não, não tenho filhos - respondeu, mas com cada palavra que dizia se notava mais nervosa.
- Namorado? - ela baixou o olhar, tardando em responder. - Tem namorado, Nerea? - sua voz soou mais forte, obrigando Nerea a dar uma resposta imediata.
- Não tenho namorado.
Essas eram as perguntas que acabava de lhe fazer; já investigaria o que era verdade e o que não.
Voltou ao seu assento, fechando seus olhos e abrindo seus braços a ambos os lados.
- Segundo suas respostas, parece uma puritana que acaba de sair de casa de sua mãe e recém vai conhecendo o mundo. Que diabos fazia naquele bar? Foi o melhor trabalho que encontrou? Não tem estudos nem nada? Sua preparação é tão baixa como para se conformar com um trabalho de merda? Não parece apta para este mundo, menininha.
E era assim; Nerea teve que fugir e se aventurar a um mundo selvagem e perigoso, enquanto escapava das garras de seu padrasto, para agora se encontrar com um homem que, certamente, se acreditava seu dono.
Chorou de maneira silenciosa enquanto o carro os dirigia a um lugar desconhecido para ela.
Não se imaginou que, durante aquele turno de trabalho, no qual só levava duas semanas, passariam tantas coisas.
Estava muito preocupada com o que aconteceria com ela, com o que decidiria aquele homem, porque, embora ele lhe dissesse as opções que tinha para quitar a dívida de seu padrasto, sabia muito bem que ela terminaria fazendo justo o que decidisse Vasily Ivanov.
Sua palavra era o único que contava.
- Não é minha culpa que este mundo seja tão cruel - murmurou.
Vasily abriu seus olhos para olhá-la uma vez mais.
- Mas é sua culpa ser tão fraca e insignificante - disse, aumentando a miséria da jovem.