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Uma Escolha Perigosa

Uma Escolha Perigosa

Autor:: MalliV
Gênero: Romance
Nessa segunda parte de Como Amar um Mafioso, Jenna acorda e se dá conta do que aconteceu. Agora ela precisa aprender a lidar com suas perdas enquanto vive em um ambiente hostil. Antoni Santorin não tem interesse em facilitar sua vida, seu unico interesse é cumprir sua parte do acordo.

Capítulo 1 Jenna

Acordei me sentindo estranha, meu corpo estava adormecido, minha boca seca, o braço direito estava dor, não muito, era mais como uma dor que incomodava, dormente. Já meus olhos, precisei abrir e fechar algumas vezes até conseguir realmente enxergar com clareza, parecia haver uma camada pastosa entre minha íris e o mundo exterior.

Estava em um quarto branco, como em um hospital, logo notei que não, pois apesar de bem equipado, estava cheio de móveis, bem decorado e uma janela para um jardim que me lembrava a mansão Belline. Ao meu lado esquerdo havia um homem conferindo uma prancheta. Era um médico, deduzi pelo jaleco branco, e provavelmente devia ter uns cinquenta anos. Notei que atrás dele havia uma porta. Não demorou muito até que me viu acordada.

-Finalmente acordou...Bem-vinda de volta! –Parecia estar feliz com meu despertar, mas não fazia ideia de quem era.

-Onde estou? Cadê o Jackson? -Mesmo com todo esforço do meu peito as palavras saíam baixas e fracas.

Estava rouca, devo ter dormido demais, e minha boca ainda pedia por água, o que parece que ele já sabia, levou um copo com água e encostou em meus lábios me fazendo engolir um pouco.

-Isso...Calma, devagar...Você passou por muita coisa...

Suas palavras despertaram minha memória. Sim, tomei um tiro, por isso a dor no braço, mas devia estar com anestesia, porque agora não era nada comparado a dor que senti na hora do tiro. Era insuportável, diferente de agora, que parecia apenas deixar meu braço pesado.

-Quem é você? E Jackson, onde está? -Perguntei novamente. Minha voz estava voltando ao normal aos poucos. Minhas cordas vocais começaram a trabalhar com mais afinco.

-Sou Dr. Manoel Galdino...Ele...não está aqui...-Houve uma breve pausa, como se estivesse confuso. Seu jeito desastrado me lembrou meu pai. -Espera só um momento...

Saiu porta a fora, deduzi que tivesse ido chamá-lo.

Acenei com a cabeça e fiquei observando aquele lugar. Com certeza era uma casa, claramente não conhecia, não fazia ideia de onde estava. Tentei me levantar, e não tinha forças suficiente, principalmente porque não conseguia apoio no braço machucado. Consegui me sentar um pouco com o esforço do lado esquerdo, mas ainda não estava confortável.

-Espera...Deixe-me ajudá-la! Você ainda está muito frágil. -Dr. Galdino voltou enquanto ainda tentava me acomodar.

Apertou o passo com pressa para chegar logo até mim. Logo atrás dele vinha mais dois homens, um senhor de idade, parecia forte apesar de usar uma bengala, e um mais jovem, mesmo porte, forte, alto, imaginei que fossem pai e filho, a semelhança era nítida. Ainda assim continuava sem os conhecer.

-Quem são vocês? -Perguntei. Desisti de tentar me ajeitar e deixei o médico arrumar os travesseiros.

Não pareciam ser do cartel, eram bem arrumados, e apesar de sérios não tinham uma expressão de ódio, como vi no rosto dos homens do cartel naquela noite. Além do mais estava recebendo cuidados médicos, quando poderiam facilmente me matar.

-Sou Antoni Santorin, pode me chamar de Tony e esse é meu filho...Antoni II -O senhor com barba e cabelos grisalhos caminhou em direção ao meu lado direito com uma expressão amistosa. Apontava para o filho. Esse não, permanecia sério e parado afastado dos pés da cama, quase perto da porta, com os braços cruzados. Mesmo seu tom de cabelo sendo totalmente preto, era incrível a semelhança com seu pai.

-Jackson...Me falou de um Antoni, era você? Onde ele está? -Perguntei.

-Na verdade, era eu –Respondeu o filho -Jackson e eu tínhamos um acordo.

Ele era bem mais sério que o pai, não tinha nenhum sinal de simpatia. Não saía do lugar, não se mexia. Sua voz grossa e firme invadiu meus ouvidos fazendo meu corpo rejeitar qualquer impressão de que havia bondade ali.

-E onde ele está? Está vivo?

Se estivesse vivo, estaria em casa com ele. Pensei só depois as palavras saíram da minha boca e fizeram sentido. Meu coração tomou um outro ritmo, acelerado e confuso.

-A senhorita precisa manter a calma...-Disse o médico.

-Não sabemos, achamos que está vivo, mas não temos contato desde aquela noite...-Seu pai chegou ainda mais perto, tentando me consolar.

-Aquela noite? -Interrompi, ainda estava perdida no tempo. Meu cérebro parecia incapaz de pensar sozinho, precisava de um empurrão das palavras que surgiam. -Você estava em coma, já se passaram mais 2 semanas! Jackson não poderia ter escolhido alguém mais empático para fazer aquele acordo, Antoni não levava o menor jeito para comunicar uma notícia dessas. Um choque atravessou minha espinha. Pude ver o médico e seu pai repreendendo-o com um olhar. Ele não parecia nenhum pouco confortável ou não gostava de mim. Resolvi ignorá-lo me direcionando aquele senhor que parecia mais agradável.

-John, meu irmão, onde está? Vi que conseguiu fugir, lembro dele entrando no helicóptero...

Tony, que já estava ao meu lado, segurou em minha mão cuidadosamente. Presumi que fosse me dar a notícia de sua morte. O que poderia esperar se estava ali sozinha.

-Ele está bem, está na Suíça...Jackson havia deixado instruções caso as coisas dessem errado -Respirei aliviada -Está em um internato, bem cuidado, não se preocupe...

É claro que ele havia cuidado de tudo. Será que me enviar para aquela casa era parte do acordo também? Provavelmente sim. Talvez pudesse confiar naquelas pessoas.

-Quero falar com ele, posso? -Perguntei apreensiva.

-Claro...Podemos organizar isso. Lá tem horários restritos, mas acho que consigo organizar algo. Assim que sairmos daqui farei isso.

Seu olhar desviou para o médico, e logo os três se encararam. Havia mais alguma coisa, e pareciam não saber como me contar.

-O que houve? -Meu estado de alerta e nervosismo voltaram. -Falem logo! -Olhei para o doutor, que deu um suspiro antes de começar a falar.

-Na noite do ataque...Quando tomou aquele tiro, você estava grávida...Lamento dizer, mas o bebê não resistiu ao estresse da bala.

Manoel falou pausadamente, o que para mim parecia que tinham jogado uma bomba novamente, só que dessa vez direto em meu estômago. A dor se misturou a náusea e a culpa. Mas como isso? Como não percebi? Não me lembro de sentir mal estar.

-Você teve uma hemorragia...E precisamos induzi-la ao coma, para que se recuperasse. -Encarei Tony que tomou a vez segurando minha mão, enquanto tentava me explicar. Senti um certo carinho em seu olhar. O que não encontrei em Antoni, esse por sua vez me falava silenciosamente para aceitar aquela informação e engolir o choro.

-Não, não, não é possível...Grávida? Eu não sabia...

Não sei quantas vezes repeti isso, para mim e para eles. Estava desesperada, primeiro Jackson estava desaparecido e agora descubro que perdi nosso filho, que nem sabia que estava esperando. Me joguei para tomar aquele tiro, era minha culpa, provoquei isso. Matei nosso filho. Meu corpo não parecia entrar em acordo, minha mão debatia em minha cabeça. Minhas pernas tentavam empurrar essa notícia para longe. A claridade do quarto foi se dissipando aos poucos. ◆◆◆

Meus olhos abriram sem minha permissão, concluí que haviam me sedado e desejei que fosse para sempre. Quando os procurei pelo quarto, vi que apenas Antoni estava lá, sentado em uma poltrona próximo a porta.

Fiquei surpresa já que antes não parecia muito amigável. Estaria me vigiando? Porque? Me olhava fixamente inclinado com seus dois antebraços apoiados em sua perna. Conseguia ver uma certa indiferença dele, me senti amedrontada com a sua presença.

Poderia estar pensando em quantas maneiras conseguiria simplesmente me matar e acabar com seu problema. Devia me odiar, com certeza perdeu homens naquela guerra, e parecia me culpar por isso, não que estivesse errado, de fato tudo começou comigo. Mas eu também queria que acabasse, por isso tomei aquele tiro, quando estivesse morta, todos teriam paz.

-Por quê? -Encarei seus olhos comuns, um castanho escuro, ou preto, estava um pouco longe não dava para ter certeza, não consegui definir.

O tom de sua pele era mais branco que Jackson, acredito que da mesma altura, apesar de um pouco mais magro também era forte. E era muito mais sério, apesar de bonito, não tinha uma expressão agradável. Ele sim parecia uma mafioso italiano.

-O que? -Perguntou curioso, sem fazer qualquer movimento.

-Por que está fazendo isso? O que estou fazendo aqui? -Continuei.

-Já falei...Fiz um acordo com seu namorado, estou apenas cumprindo minha parte. -Já esperava que não fosse por bondade considerando como me tratou desde que acordei.

Apesar de mafiosos, eram homens de palavra, naquele momento desconfiei que talvez não me faria mal. Jackson não permitiria, não faria parte do acordo.

-Acha que ele está vivo? -Perguntei por que sabia que me daria uma opinião sincera. Além de hostil não parecia do tipo de meias palavras.

-Honestamente...Não sei...Se ele foi pego pelo cartel, deve estar morto. Por outro lado, o cartel não é discreto, teríamos recebido algum...-Sua pausa demonstrou estar procurando a palavra certa. Estranhei. -Olha, essas pessoas tem o costume de usar alguém de exemplo, para mandar um recado. Normalmente mandam partes do corpo da pessoa de presente...Já checamos e o pai dele não recebeu nada.

-E o que vocês vão fazer agora? -Eles deveriam ter um plano.

-Nada...Nosso acordo era cuidar de você e do seu irmão, e estamos cumprindo...

Se colocou de pé e andou em minha direção.

-Como assim? Vão desistir dele? Não podem abandoná-lo...Você tem que fazer algo!

Endureci minha voz, tinha que fazê-lo mudar de ideia, não adiantaria cuidar de mim e abandoná-lo.

-Acho que em algum momento Jackson deve ter dado a impressão de que você mandava em alguma coisa...-Sua expressão fria deu lugar ao sarcasmo -Talvez lá, sim. Particularmente nunca achei que ele tivesse capacidade para chefiar.

Antoni parecia um típico criminoso que fazia questão de demonstrar poder cada chance que tivesse. Estava acostumada com homens do tipo dele, era a maioria dos clientes do escritório.

-E se ele estiver machucado? E se estiver sendo torturado? -Sua cara de indiferença me dizia que não conseguiria nada dele. -Certo...Já que você não tem colhões para isso...

Apesar de me sentir vulnerável, precisava fazer algo, Jackson fez tanto por mim, não poderia simplesmente desistir dele. Puxei todos aqueles fios, mesmo sem força no braço direito, tentei me levantar, enquanto recebia seu olhar de desaprovação.

-Poderia usar todo esse músculo para me ajudar a levantar ou também está com medo de uma mulher moribunda? -Antoni precisava saber que eu também sabia ser hostil, que não me trataria de qualquer forma.

-Aqui...Você não é nada além de um peso! -Senti sua mão em meu pescoço, me empurrando contra a cama. -Não manda em nada e não serve para nada! -O encarei firme tentando esconder o medo que corria pelo meu corpo. Me acostumei a enfrentar Jackson, sabendo que nunca me machucaria, cometi o erro com esse homem, mas não voltaria atrás. -Vai ficar aqui até se recuperar...Depois, pode fazer o que quiser, isso não é problema meu.

Eu queria lutar mais, ao mesmo tempo, estava mais fraca que o normal e aquele imbecil era bem forte.

-Eu não tenho medo de você...-Não daria esse gostinho a ele. Seus olhos estavam bem próximos aos meus quando o respondi. Eram castanhos e bem escuros, e só conseguia enxergar um vazio neles.

-Achei que advogados fossem mais inteligentes! - Colocou sua outra mão em meu braço esquerdo, e a outra permaneceu em meu pescoço, agora aplicava um pouco mais de força, seria difícil conseguir falar algo nesse momento. Senti a ameaça e sabia que se quisesse conseguiria me estrangular ali mesmo, e me desovar em algum lugar.

-Faça, não tenho nada a perder...-Minha voz saiu rouca.

Não me esqueci do meu irmão, mas não poderia vê-lo sem colocá-lo em risco. Não era a vida que desejava para ele. Era melhor morrer, e acabar com tudo aquilo de uma vez.

Antoni continuou me encarando. Seu olhar parecia analisar todas as formas que poderia me matar e quais seriam as consequências daquilo.

-Não vale a pena...Minha palavra vale muito mais -Tirou sua mão do meu pescoço e do meu braço. Esperei que continuasse falando. -Como falei...Quando se recuperar, pode ir embora. Pago até sua passagem para vê-la longe o quanto antes...Mas enquanto isso, ficará aqui e fará o que EU mandar! -Virou as costas me deixando sozinha no quarto.

Comecei a chorar assim que bateu a porta. Jackson poderia estar morto, perdi nosso filho, provavelmente nunca mais veria meu irmão, e nem fazia ideia de como estava meu pai. Queria levantar, ir embora, mas mal conseguia mexer meu ombro, me sentia fraca, um lixo.

Devo ter caído no sono depois de tanto choro, pois não me lembro de ter parado.

Capítulo 2 Antoni Santorin

Estávamos em alerta desde a última conversa com Jackson. O erro foi dos meus homens, logo, eu era o responsável. Deixei alguns dos meus homens observando o movimento em torno de sua mansão. Naquela noite desconfiei que havia algo errado quando um deles não respondeu no rádio.

Quando chegamos ao heliporto começamos a disparar a arma de dentro do carro, assim que pude ver Jackson arrasta-la até a porta do carro dele para se protegerem dos tiros.

Desci correndo do meu carro para ajudá-lo, o helicóptero dele estava voltando, então o ajudei a se levantar para seguirmos para fugirmos. Tinha muito sangue, achei que Jenna estivesse morta já.

Eram muitos tiros, tentava revidar enquanto ele corria com ela no colo. Em um momento quando me virei e Jackson estava ao chão, olhei tentando entender e vi que tinha levado um tiro na perna.

-Leva ela...-Hesitei alguns segundo. Não me importava com ela e sim com minha reputação -Cumpra sua parte do acordo! -Gritou.

-Ela está viva? -Pensei que talvez não tivesse percebido sua morte. -Merda...E você?

-O tiro pegou no ombro, salva ela...Depois a encontro em sua casa -Acenei com a cabeça.

Por mim a deixaria morrendo naquele heliporto, mas tinha feito um acordo com ele, ficaria com NY e a garota era dele. Só que para ele ficasse com sua parte do acordo, teria que salvá-la.

Lhe entreguei a arma e peguei-a no colo, corri enquanto ouvia os disparos e agora era ele quem me dava cobertura. Não consegui ver o que aconteceu. Apenas seguimos para minha casa. Chamamos o médico da família.

O moleque já estava lá, desesperado com toda a movimentação. Fiquei com a missão de contar tudo a ele.

-Não sei como você acabou parando nessa confusão, mas merece saber a verdade...-Seus olhos assustados me lembravam minha irmã quando mais nova. Não sou um monstro, pelo menos não com crianças. -Em NY sua irmã estava defendendo um mafioso, que estava envolvido com um cartel mexicano, por isso ela veio a Europa, para fugir deles...Não sei todos os detalhes...O Belline pediu minha ajuda, as coisas saíram do controle e acabaram encontrando vocês na mansão.

-Jenna não me contou nada...Disse que não podia...Por que todos vocês usam armas? -A ausência de medo em sua voz me surpreendeu.

-Claro...Sua irmã nunca te contou o que Jackson faz!?

-Não, com o outro nome ele tem uma empresa, não sei muito bem...-Estávamos sentados na varanda, observando o movimento. Um dos meus homens passou por nós com sua arma na cintura.

-John, nós somos criminosos, vendemos armas, drogas, quase tudo que fazemos é ilegal...-Agora uma feição confusa tomava conta de seu rosto -Tenho certeza que sua irmã não contou, porque não é o exemplo que quer para você...

-Não acho que ela se envolveria assim com vocês...Jenna é toda certinha...

-Bom, talvez tenha mudado, não a conheço...Terá que perguntar para ela...

-Isso se ela acordar...-Fiquei surpreso com o fato de estar mais triste do que com medo de nós.

-Ela vai...-Eu não sabia se Jenna iria acordar, mas mentir era um dos meus pontos fortes.

◆◆◆

John já estava há quatro dias na mansão, aquilo não era ambiente para ele, quando sua irmã estabilizou, o convenci a ir para Suíça. Apesar de gostar dele, não seria babá de ninguém. Prometi que assim que ela acordasse iria buscá-lo de volta ou levá-la até lá. Esse era o plano do Jackson, resolvi seguir, era o melhor a se fazer.

Achávamos que Jenna não ia acordar, havia perdido muito sangue, principalmente devido a perda do bebê. Tentamos descobrir sobre Jackson, mas nem seu pai sabia. Silvio ainda não havia se recuperado da morte da esposa e pediu que o deixássemos em paz.

Sempre fui um homem de palavra, mas para mim com quem fiz o acordo estava morto, e dessa forma não havia motivo para cumprir minha parte. Infelizmente, meu pai pensava de outra forma, e ainda tinha muito respeito pela família Belline. Mesmo não sendo mais o chefe, depois que descobriu um câncer no pulmão, ainda fazia questão de me lembrar que assumi aquela responsabilidade, e deveria cumprir.

Me fez prometer que a ajudaria até que pudesse decidir o que fazer. Enquanto estava naquela cama dormindo, nunca me incomodou, mas agora que acordou, viraria um problema para mim. Honestamente não sei se ela valia toda essa guerra, pelo menos não para mim.

Estava pensando nisso quando a vi acordar depois do sedativo que o Dr Galdino aplicou quando estava surtando. ​

A primeira impressão que tive dela, era de uma mulher fraca e sem graça. Depois se mostrou teimosa. Sabia que desafiaria cada ordem minha. Eu comandava uma máfia e nenhum dos meus homens nunca ousou falar comigo daquela forma.

Quem ela pensava que era? Poderia matá-la facilmente. Uma coisa era fato, Jenna não ia gostar de me conhecer, eu não tinha nada a ver com o namoradinho dela.

-Cumprirei minha parte do acordo, desde que não tenha que lidar pessoalmente com essa mulher...

Entrei na biblioteca onde estava meu pai, lendo um de seus livros.

-Você está acostumado a lidar com homens...-Falou soltando um riso de canto, e abaixou o livro. -Jenna seria um desafio para você...Duzentos homens não dá o trabalho de uma mulher...Saberia disso, se alguma vez tivesse um relacionamento.

-Acredite, se entrasse em um relacionamento, ela seria a última mulher que escolheria! -Meu peito espumava de raiva só de pensar em sua palavras me desafiando e na afronta que pairava em seu olhar.

Sentei-me à mesa próxima a janela, e me dei conta que realmente nunca discuti com nenhuma mulher, exceto minha mãe, quando era moleque.

-As mulheres que tem só te obedecem porque são pagas...-Senti que estava me provocando com um riso disfarçado. -Acho que você não leva jeito para lidar com uma de verdade.

-Tenho um exército que abaixa a cabeça enquanto falo...Não faço questão de ter alguém me desafiando o tempo todo, não preciso disso.

Eu estava acostumado a ser respeitado, não tinha tempo de discutir com ninguém. Meus homens me respeitavam e nunca precisei pedir, devido a história da minha família. Nunca tive precisei impor respeito a ninguém, até porque se percebesse que precisaria, essa pessoa estaria morta.

-Jackson fazia...E ele também tinha um exército que o obedecia. Filho, às vezes...É bom ter alguém que nos provoque, como um empurrão em direção à uma nova vista.

Meu pai sempre nos comparava, desde de moleques. Não tinha ciúmes disso, só nunca entendi essa admiração pela família Belline e por aquele cara.

-Eu não sou ele, acha que arriscaria nossa organização por causa de alguma mulher? Não sou moleque! -Respondi me levantando -E, mais uma vez, não preciso disso!

Saí andando e o deixei sozinho na biblioteca.

A pedido dele, aconselhado por minha mãe, contratamos um fisioterapeuta e um psicólogo para Jenna. Segundo minha mãe, perder um filho era doloroso, e toda a situação vivida só agravou ainda mais seu quadro.

Minha mãe, Camilla, não gostava de se intrometer nos negócios, sempre evitava, então quando ela dizia algo, meu pai respeitava. E por consequência eu também. Mesmo não estando mais no comando, foi ele quem nos fez chegar aonde chegamos, e antes dele meu avô. Não seria arrogante a ponto de confrontá-lo em tudo, escolhias minhas lutas, e essa era uma que não fazia diferença.

Por mim estava tudo bem, desde que não tivesse que falar diretamente com ela. Quanto antes melhorar, mais rápido iria embora. Nos primeiros dias, após recobrar sua consciência, quase não a via, os médicos iam visitá-la no quarto.

◆◆◆

Minha irmã Celina, quando veio passar um final de semana longe do colégio, foi conhecê-la. Pela forma como a vi sair do quarto, deduzi que tinham se dado bem.

-Até você? -Perguntei enquanto fechava a porta do quarto.

-Ela parece uma boa pessoa...Você poderia ter uma pouco mais de empatia...-Cruzou os braços me encarando.

-Claro, tenho a polícia na minha cola, o cartel que pode nos atacar a qualquer momento e uma nova remessa de armas para enviar ao Estados Unidos, mas minha irmã acha que tenho que arrumar um tempo e bancar o ombro amigo de uma qualquer...-Debochei.

-Foi você quem fez o acordo, isso é sua responsabilidade...-Nesse momento entendi porque se davam tão bem, ambas não tinha noção do perigo.

-E me arrependi amargamente...E Celina espero que não fale assim com seu futuro marido, ele não terá a paciência que tenho...-O pavor tomou conta do seu rosto.

-Antoni...Por favor...-Virei as costas e saí, não ouviria suas lamentações. Ela tinha um papel a cumprir na família, como todo mundo. Assim que completasse dezoito anos arrumaríamos um marido do nosso meio. Ainda não havia escolhido, afinal era minha irmã, não a entregaria a qualquer um.

Desci para o escritório. Owen, meu braço direito estava trazendo informações. Quando entrei na sala, percebi que só faltava eu. Ele já estava sentado de frente a minha mesa, acompanhado de meu pai ao seu lado.

-Desculpe, estava falando com Celina...-Me acomodei na cadeira -Diga, quais as notícias?

-Ainda não há notícias do Belline...E o cartel está quieto, não parecem estar atrás de nós...Também estão bem enfraquecidos depois daquela noite!

-A garota está melhor...-Meu pai tomou a vez -Seu braço parece estar melhorando, acho que ficará aqui por alguns meses...

-Isso se não encontrarmos seu namorado antes...-Desafiei -Owen, continue procurando por Jackson, quero me livrar dela o quanto antes -Recebi seu aceno de volta. -E o cartel pode estar enfraquecido agora, mas não podemos subestimá-los, continue monitorando!

-A carga será entregue em dois dias, acompanharei a entrega enquanto monitoro o cartel em NY. -Owen pensava como eu, era proativo e metódico, acho que tem a ver com sua origem asiática. Ao contrário de mim que aprendi na marra.

-Essa é uma transação tranquila, leve dez homens, o restante quero monitorando a mansão...-Meu pai concordou com um aceno -Ficarei aqui caso tragam a briga até nós.

O dispensei com um aceno, e seguimos até a porta do escritório. Ambos seguiram até a porta principal. Me virei para retornar a sala e vi um vulto próximo a biblioteca seguido da porta se fechando.

Todos estavam paranoicos, inclusive eu. Coloquei a mão em minha cintura e andei até a porta. Poderia se minha irmã, ou minha mãe, ou ser alguém infiltrado, um possível ataque.

Abri a porta lentamente, evitando qualquer barulho. Pela fresta não dava para ver ninguém, mas havia alguém lá. Algo se mexia. Apontei a arma e abri o restante da porta de uma vez.

Um grito ecoou em meu ouvido. Era Jenna. Seu corpo recostou na parede de livros atônita.

-É você...O que está fazendo aqui? -Perguntei.

-Vim pegar um livro para passar o tempo...É alguma espécie de crime na sua organização?

-O que? -Apesar não conter mais traços de medo em seu rosto, ainda mantinha sua mão para o alto e a outra paralisada na tipoia.

-Ainda está apontando a arma para mim...-Não tinha me dado conta, acho que a vontade de matá-la era mais forte do que meu bom senso, abaixei e guardei em meu coldre. -Foi o que pensei...

-Parece que já está bem, não me diga que já vai embora? -Provoquei.

-Sei que gostaria de te apertado esse gatilho...Não se preocupe, darei o fora daqui assim que possível...-Jenna andou em minha direção com um livro na mão, seu olhar para mim também continha ódio -Ah...E prefiro chorar com a cabeça dentro da privada, do que usar seu "ombro amigo".

Bem, pelo menos ela tem senso de humor.

-Não é educado ouvir a conversa alheia -Minha palavras foi ignorada por sua saída.

◆◆◆

Com o passar dos dias comecei a vê-la com mais frequência andando pela casa, às vezes sozinha ou com o fisioterapeuta e outras com o psicólogo. Até minha mãe a acompanhava, enquanto eu entrava e saía da mansão.

-Boa noite filho -A voz da minha mãe se aproximou do meu ouvido -Seu pai não está bem, preferiu jantar no quarto, seremos só nós três.

Jenna estava logo atrás dela, mas não esboçou nenhuma reação ao me ver. Ainda não tínhamos nos visto em nenhuma refeição.

-Que eu saiba é seu braço que está machucado, não deveria afetar sua educação, ou estou errado?

-Me desculpe, só quis poupá-lo da tortura que é estar na minha presença...-O sarcasmo era parte dela -Boa noite.

Esperava mais, a provoquei achando que me mandaria a merda, mas talvez pela presença da minha mãe ali, preferiu se conter.

-Antoni, acho que você poderia ser mais amistoso...É nossa hóspede...

-Não se preocupe Camilla...-Sua voz ficou diferente de segundos atrás.

-É mãe, não se preocupe! Jenna está acostumada a se enfiar em lugares piores...

-Tem razão...E...não podemos exigir...Algo que a pessoa não tem...A oferecer! -Havia algo diferente em sua voz, estava irregular. Seu olhar cravado na mesa, me fez perceber que algo estava errado. -Jenna? Você está bem? -Minha mãe perguntou preocupada.

Ela apenas sacudia a cabeça dizendo que sim, mas era óbvio que não estava.

-Preciso tomar...Um ar...-Seus talheres caíram na mesa enquanto se levantava cambaleando.

-Ok, ela não está bem...Mãe, liga pro Dr Galdino! -Ordenei e me levantei rapidamente em sua direção. -Jenna, o que está sentido? -Perguntei ao alcançá-la.

-Não me toca! -Sua respiração estava irregular, seus olhos estavam marejados. Ela se encostou na parede recusando meu apoio.

Meu peito inflava, só conseguia pensar que não poderia deixá-la morrer na minha casa. Seu corpo deslizou até o chão. Me abaixei acompanhando seu olhar assustado e desconfiado.

-Respira...-Olhei minha mãe falando no celular. -O médico já deve estar a caminho...

-Não...Consigo...Respirar -Ofegava entre uma palavra e outra.

-Dr Galdino está em outra cidade, só chega amanhã cedo...-Minha mãe estava preocupada, confusa, eu também estava. -Ele disse que deve ser um ataque de pânico...-Jenna sacudiu a cabeça confirmando -Tem calmante no quarto dela...

-Ok...-Encarei Jenna -Preciso levá-la até o quarto...Vamos? -Esperei acenar com a cabeça, a peguei em meus braços. Sentia seu coração acelerado bater contra meu peito enquanto subia as escadas.

A coloquei na cama, enquanto minha mãe procurava o remédio. Parecia desesperada para encontrar ar, seu peito enchia e esvaziava, as lágrimas escorriam em seu rosto. Só conseguia pensar repetidamente "Ela não pode morrer!". Se Jackson estivesse vivo, isso significaria uma guerra.

-Ela não vai morrer...-Minha mãe me encarou enquanto lhe entregava um remédio. Fui arrebatado pela surpresa de que aquelas palavras de fato saíram da minha boca sem perceber. O choque tomou meu corpo, sentei na poltrona como da primeira vez que a vi acordar. Estava paralisado. -Ela vai dormir por um tempo...Preciso ver seu pai, fique aqui.

Não consegui dizer não. Meu corpo queria sair correndo de lá, mas parecia não ter força suficiente para se mexer.

Acho que horas se passaram sem eu perceber. Quando acordei, Jenna me encarava da cama. O medo e confusão que antes pairava em seu rosto já não estavam lá. Agora havia apenas curiosidade.

-Você não cansa de chamar atenção?! -Perguntei indo em sua direção. -Deixou minha mãe desesperada...

-Só ela? Você pareceu bem preocupado...-Com certeza ela deve ter me escutado desesperado, era uma possibilidade que pensei.

-Não me confunda com seu namorado...Só não quero ter que enterrar um cadáver no meu quintal! -Rebati.

-Não se preocupe, você nunca será um terço do homem que ele é! -Odiava essa mulher e tudo que ela fazia eu sentir.

-Me escute muito bem! -Pressionei meu antebraço em sua clavícula, empurrando seu corpo contra a cabeceira da cama. -Acho melhor você se recuperar bem rápido e dar o fora da minha casa...

-Por que não me deixa ir? Não estou pedindo para ficar aqui...

-Se tivesse certeza que seu namorado está morto, eu mesmo a ajudaria a encontrá-lo no inferno! Mas enquanto isso...Tenho um acordo a cumprir. Se recomponha e pare de me dar trabalho!

Confesso, não é assim que trato as mulheres, mas algo em Jenna me fazia reagir daquela forma. Não consigo explicar. Ela ficou paralisada, talvez tenha entendido o recado. A deixei sozinha no quarto sem olhar para trás.

◆◆◆

Óbvio que ela também me odiaria, era melhor assim. Seu olhar me desprezava, principalmente quando me via com alguma mulher em casa. Provavelmente me julgava pela forma que a tratei naquele dia e imaginava que tratava as outras mulheres da mesma forma. A verdade era que estava começando a gostar de como nos odiávamos.

Quando minha irmã veio passar o feriado de Páscoa com a gente, fez questão de comprar ingredientes para fazer ovos de chocolate suíço para Jenna. Segundo Celina, sua família descendia do Brasil, e lá existe a tradição de ovos feitos de chocolate.

Não fiquei impressionado pelo fato dela saber muitas coisas sobre sua vida, elas pareciam se dar muito bem. Também não fiz objeção, eu mesmo a levei para fazer as compras. Jenna e eu poderíamos não ter qualquer afeto um pelo outro, mas nunca fui mesquinho, dinheiro não me faltava, não seria dessa vez.

Durante o final de semana, as duas passaram bastante tempo na cozinha. Fiquei curioso e me atrevi a olhá-las, pareciam se divertir com a tradição.

-Tem certeza de que já fez isso? -Ouvi a voz de minha irmã.

-Sim...Fiz uma vez com meu irmão, não lembrava que dava tanto trabalho...Mas podemos...

Jenna parou de falar no instante em que me viu parado próximo ao balcão. Ainda usava uma tipoia no braço, mas não parecia sentir dor.

-Antoni, estamos fazendo ovos de Páscoa para todo mundo -Vi minha mãe estava com um avental todo sujo de chocolate. As duas cozinheiras da casa tentavam manter a cozinha limpa.

-Tentando mãe, estamos tentando. -Celina falou dando risada

Eu olhava para Jenna, esperando que me lançasse algum olhar, mas parecia focada em frente a geladeira aberta, olhando um plástico em formato de ovo com o que deduzi ser chocolate branco dentro.

-Acho que gastaríamos menos se fizessem os ovos tradicionais decorados -Provoquei.

-Tem desse aqui na geladeira...Você mesmo pode decorar o seu, quando não estiver muito ocupado estrangulando mulheres por aí!

Jenna apontava um ovo de galinha em minha direção, como se me oferecesse. Não esperava que fosse falar sobre isso, achei que a tivesse assustado o suficiente para não me provocar. Claro que não deixaria por isso mesmo.

-Estrangulando? -Minha mãe ainda não sabia o que tinha acontecido.

-Verdade, isso ocupa muito do meu tempo...Acredite, as mulheres vivem me implorando por isso...-Falei ignorando todo resto que acontecia naquela cozinha.

-Considerando que recebem por isso, dirão qualquer coisa! – Respondeu virando de costas. Tenho que admitir, ela não se intimidava, era um páreo duro.

-Me parece que está com inveja...Jackson nunca fez isso? Não me diga que estavam se guardando para o casamento...É uma pena que não vá acontecer -Não deixaria por menos.

-Antoni! -Era a voz insatisfeita da minha mãe me repreendendo e assim que a olhei para responder, senti algo acertar minha testa, e uma gosma escorrer por meu rosto.

Jenna me acertou com um ovo de galinha, eu nem tinha reparado que ainda o segurava. Não previ isso. Fiquei extremamente irritado. A alcancei empurrando-a contra a pia, minha mão em seu pescoço nos separava.

-Acho que não fui muito claro em nossa última conversa...-Vi o medo dilatar seus olhos, sua respiração irregular era satisfatória. As vozes ao fundo me pediam para parar.

-Vá em frente! -Sua voz firme tentava disfarçar o que seu olhar entregava de graça.

Celina se colocou entre nós.

-Vocês dois poderiam pelo menos fingir que se suportam, para não estragar o clima de Páscoa. Minha irmã tinha razão, não a suportava e não conseguia disfarçar. O sentimento era recíproco. Me recompus, pois não sabia do que seria capaz se continuássemos com aquela discussão. Provavelmente um assassinato.

-Tem razão irmãzinha...-Encarei Jenna -Preciso trabalhar para arcar com mais esse prejuízo...

Virei as costas para sair e pude ouvir o que parecia um rosnado, deduzi que fosse dela, mas segui porta a fora.

Na manhã de domingo, após o almoço, meu pai me obrigou a ir até a sala de estar. Tinha alguns Ovos de Páscoa, eu já tinha pesquisado na internet como eram, pareciam estar embrulhados em papel de presente.

Tive que admitir a mim mesmo que os ovos eram uma delícia, alguns estavam visualmente um pouco estranhos, mas o sabor era ótimo. Realmente fizeram ovos para todos os funcionários, o que devia ser ideia da minha mãe. E sei que só ganhei um, também por causa dela.

No final da tarde, estava com meu pai no escritório, quando ouvi uma cantoria, era minha mãe, tocando piano com Jenna e Celina cantando, na verdade minha irmã não cantava bem, mas a voz da minha inimiga era doce e forte ao mesmo tempo, fiquei impressionado quando vi algum talento nela. Talvez fosse a única coisa que tivesse de bom.

◆◆◆

As próximas semanas tudo havia voltado ao normal, Celina estava na escola. Eu voltei a viajar bastante, naquele momento não tinha nenhum sinal do cartel, meu pai e eu já havíamos desistido de falar com Silvio sobre Jackson. Então já estava totalmente focado nos negócios da minha família.

Nada havia mudado entre mim e Jenna, continuávamos nos ignorando. Todos se davam bem com ela, até nossos empregados, não entendia o motivo. Não achava que era uma má pessoa, apenas não queria dar abertura para que pensasse que poderia se meter nos meus assuntos, ou que tentasse me convencer a ajudá-la.

Principalmente depois que pediu ajuda ao meu pai, em vão, pois ninguém tinha novidades. Então mesmo que quiséssemos ajudar, não saberíamos por onde começar, e seria um risco nos expor novamente contra o cartel. Depois de algumas semana em alerta, cheguei à conclusão que, seja lá o que meu homem entregou ao cartel, não foi sobre os Santorin, deve ter sido apenas sobre Belline.

Fui reparando a evolução de Jenna dia a dia, estava mais sorridente, exceto quando me via. Também movimentava bem melhor o braço direito, sem precisar da tipoia. O fisioterapeuta disse que já estava 99% recuperada. Mas o psicólogo queria a manter em observação por mais algumas semanas, apesar de estar confiante.

Estava lendo o relatório deles, quando meu pai entrou no escritório entregando uma carta, parecia um convite. Era da família Esposito, outra máfia de tráfico de armas, eram gigantes, todos gostariam de ter negócios com eles, já havíamos trabalhado com eles anos atrás.

Antigamente ainda como chefe, meu pai insistia que me casasse com uma de suas filhas. Mas nunca tive a intenção de casar, não queria nenhuma mulher estranha morando na minha casa. Sabia que em algum momento teria que fazer isso, mesmo contra minha vontade, já que a maioria dos casamentos do nosso meio são acordos. Era como uma obrigação, para mim era um motivo melhor do que amor. De qualquer forma adiaria isso o quanto pudesse. Celina faria isso antes.

Abri o envelope, e era um convite de casamento, como desconfiei. Quando li os nomes do casal, confesso que fui pego de surpresa.

Jackson Belline estava vivo, e iria se casar.

-A conta do psicólogo vai ficar mais cara -Não consegui disfarçar o riso em meu rosto, imaginando ser a pessoa a contar isso para ela.

-Do que está falando? -Tomou o papel das minhas mãos e demorou alguns segundos lendo.

-Filho, se quer tanto que ela vá embora, é melhor não se intrometer...Só deixe-a ir em paz!

Parecia que meu pai não me conhecia. É claro que eu contaria, não sei por que, mas gostava de sentir o ódio dela. E ainda precisava me vingar por sua insolência na Páscoa.

O ignorei e segui em direção ao jardim, sabia que estaria lá. Sempre descia no final da tarde para ler algum livro, e sempre era algum sobre crime ou romance. Não sei que momento aprendi tanta coisa sobre ela. Tudo contra minha vontade.

Estava ansioso. Jenna estava disposta a me enfrentar para procurá-lo, enquanto ele estava se casando com outra. Seria prazeroso ver sua cara de decepção.

-Não chegue muito perto, pois o livro pode te dar alergia...-Ela não me poupava, por que a pouparia?

-Na verdade, vim checar quando você dará o fora da minha casa!

Tinha vontade de machucá-la! Não fisicamente, ou talvez algumas vezes, quando a pegava pelo pescoço, havia uma guerra dentro de mim. Sabia que nosso ódio mútuo poderia estar passando dos limites.

-Logo, não tenho a intenção de ficar muito tempo convivendo com você. Não estou tão desesperada assim...

Depois de tudo que estávamos fazendo, ainda era uma ingrata, só queria feri-la mais do que simplesmente dizer que seu amado estava vivo e se casando com outra. Decidi que melhor do que contar, seria mostrar.

-Não se preocupe, não faço questão da sua presença...Será um alívio quando a ver saindo por aquela porta...-Não pareceu mais se importar com minhas palavras - De qualquer forma, vim aqui para dizer que iremos a um casamento na próxima semana. Uma família que respeito muito, está casando uma de suas filhas...E seu psicólogo acha que precisa sair um pouco -Menti.

-Com você? Nem nos meus piores pesadelos! -Se levantou me encarando -Não irei te acompanhar, ainda não cheguei nesse nível.

Sua reação já era prevista. Tentou virar as costas para mim. Peguei-a pelo braço e a segurei falando baixo no ouvido.

-Ei, não se ache...Posso levar a mulher que quiser...Acha mesmo que é minha primeira opção? Acha que quero sua companhia? Pode ficar tranquila que está bem longe de ser o meu tipo...-Desdenhei.

Ouvi um gemido contido, parecia sentir dor mas não entregaria tão fácil. Percebi que peguei seu braço machucado e aliviei um pouco a força que estava aplicando.

-Você é um nojento...E está me machucando...-Soltei-a e quase pedi desculpas, mas fui interrompido quando se virou de frente para mim -Por que não paga uma de suas acompanhantes? Elas são o seu tipo...Combinam com você...

-Com certeza seriam uma companhia muito mais agradável. Mas não te devo explicações...Aqui sou eu quem manda, achei que tivesse sido claro da última vez. -Seu olhar afrontoso não titubeava. -Vai comigo e isso não é um pedido, é uma ordem! Está na minha casa e enquanto estiver aqui fará exatamente o que eu disser!

Pude vê-la se controlando para não me atacar.

-Eu vou! Deve ser difícil para você...Tenho pena...Ter que pagar ou obrigar uma mulher a te acompanhar. Nunca vai saber o que é alguém querer estar com você por livre e espontânea vontade.

Fiquei surpreso, pois achei que me daria mais trabalho para convencê-la. Saiu andando sem me dar chances de abrir a boca, pensei em puxá-la de volta e continuar a discussão. Mas já teria o troco e eu mal poderia esperar.

A semana passou rápido ou foi minha ansiedade. Meu pai tentou me convencer a desistir, algumas vezes quase brigamos por isso, mas fui firme e o proibi de contar a alguém.

Jenna continuava sem olhar na minha cara, então pedi que minha mãe a levasse para comprar um vestido, não poderia chegar com alguém vestida de qualquer forma. Pude ver pelo aplicativo do banco que não poupou gastos, acho que era para me provocar. Deve ter sido o vestido mais caro da Itália. Mas não deixou minha mãe ver o modelo, no entanto, segundo ela, a vendedora garantiu que era lindo.

No dia do casamento fui o primeiro a ficar pronto, estava na sala aguardando todos se arrumarem, meu pais também iam ao casamento e chegaram na sala um pouco depois. Ficamos sentados esperando por ela. Já estava ficando impaciente, quando meu pai apontou para a escada.

-Ela está maravilhosa...-Encarei para minha mãe que não tirava os olhos da escada. Levantei e me virei.

Realmente, Jenna estava linda, era um vestido amarelo, mas não igual a gema daquele ovo que jogou em mim. Tinha um tom mais suave, o tecido de seda, e com uma fenda quase até a virilha. Um decote reto, que era possível ver o formato perfeito dos seus seios.

Em seguida, só conseguia olhar para suas pernas enquanto descia a escada. Quando me dei conta, me deparei ao pé da escada oferecendo meu braço de apoio. Claro que passou reto, me esnobando. Era uma pena que a odiasse tanto, senão poderia facilmente a levar para minha cama.

-Vamos? -Falou diretamente aos meus pais -Peço desculpas pela demora...Minha última festa não acabou muito bem, estou um pouco nervosa...

-Não se preocupe querida, vai ficar tudo bem...-Tive certeza que meu pai não contou a minha mãe sobre o noivo, senão tentaria me impedir de levá-la.

Enquanto falava com meus pais andando em direção a porta, a observava pelas costas, seu cabelo estava todo para trás, mas não era muito comprido, uns dois palmos abaixo, conseguia enxergar sua bunda marcada pelo vestido, impossível não notar.

Entendi que era exatamente isso que ela queria, me provocar. Provavelmente porque falei que não fazia meu tipo, devo ter mexido com seu ego. Não ia me deixar levar, não faria esse jogo. Seguimos para o carro em total silêncio, meus pais foram em outro, pois costumavam voltar cedo, e sabiam que nunca tenho hora para ir embora.

Capítulo 3 Jenna

Todo esse tempo lá, e meu ódio por Antoni Santorin só aumentava. Sinceramente adorava sua família, todos me tratavam muito bem, mas o dono da casa era quem mais fazia sentir-me como uma invasora. Camilla, me lembrava Carmela, minha ex-sogra, Celina me lembrava meu irmão e o Tony lembrava uma versão mais amorosa do meu pai. Foi ele inclusive, junto com o psicólogo, que me contaram sobre a morte de meu pai e de Melanie.

O cartel os atacou um dia antes de chegarem em mim, e levaram a cabeça dele para Jackson. Melanie foi encontrada depois pela polícia de NY, não me falaram em qual estado, mas não imagino nada menos que cruel. Também me contaram que tiveram que contar a verdade a John, pois ele havia ouvido uma conversa deles no dia em que cheguei baleada.

Ligava para John sempre que podia, e pedi desculpas por esconder a verdade. Prometi que as coisas seriam diferentes quando estivesse melhor. Queria logo receber alta dos médicos e ir embora dali. Tudo me lembrava o que tinha acontecido, e ainda precisava encontrar Jackson. Aceitei o combinado de aguardar a alta dos médicos, e ao mesmo tempo torcia para ele me encontrar primeiro.

Para mim era ótimo quando Santorin ignorava minha existência dentro da casa, toda vez que trocávamos palavras, era exaustivo. O escolhi para descontar toda a raiva pela situação, e não parecia que isso o incomodava, na verdade parecia gostar.

A ordem de ir para o casamento me pegou um pouco de surpresa. Sabia que com certeza o médico e sua família o obrigou. Já tinha desabafado na terapia o quanto me sentia muito presa naquela casa. Queria sair um pouco e por isso não relutei tanto.

Sim, fiquei furiosa e queria mostrar para ele que não era qualquer uma. O vestido não era meu estilo, o escolhi por ser o mais caro e sensual que achei. Se fosse uma festa com pessoas que gostasse, jamais o usaria. Optaria por algo mais discreto, mas não ligava para aquelas pessoas, nem os conhecia, não tinha nada a provar.

Foi interessante vê-lo me secar enquanto descia a escada, sabia que não entraria no meu jogo, era esperto demais para isso. Mas algum homem na festa sim. E isso o deixaria desmoralizado, homens de ego frágil são muito previsíveis.

O casamento era ao ar livre, bem estilo italiano, cheio de flores, quase todos tinham pose de poderosos, exceto as crianças. E tinha alguns senhores como o pai de Antoni, pareciam felizes, como se não devessem nada para a polícia.

Passamos cumprimentando as pessoas com acenos, alguns convidados eram conhecidos dos Santorin, outros não. Como chegamos um pouco atrasados, só tinha cadeira no fundo, nos ajeitamos, com meu algoz na ponta, eu e sua mãe no meio e seu pai na outra ponta. Evitava a todo custo olhá-lo, mas pude notá-lo olhando minha perna com a fenda, ajeitei ambas tentando me livrar daquele sentimento de vergonha.

A música começou e nos levantamos virados para a entrada. Mal pude ficar em pé quando vi Jackson cruzar o arco de flores. Era ele, estava vivo, bem e se casando. Que merda estava acontecendo? Repetia essa pergunta em minha cabeça. Senti meu corpo pender para trás, e em seguida ser apoiada com a mão de Antoni passando em minha cintura.

-Esse é o homem que disse ser melhor do que eu? -Me dei conta que esse desgraçado sabia e me levou ali para isso mesmo. Cruel. Não imaginei que poderia ser tão baixo.

Eu estava petrificada, mal reparei na noiva entrando, apenas seguia o que todos estavam fazendo como um robô. Agradeci mentalmente quando pude me sentar.

Jackson não tinha me visto, não sei se queria que me visse, já me sentia humilhada demais.

-Vamos embora...Por favor -Pedi na esperança de que mostrasse um mínimo de empatia.

-E perder a festa? De jeito nenhum!

Deu um sorriso de canto. Era maldoso. Eu ainda estava chocada demais para discutir e sabia que quanto mais insistisse, mais seria esnobada. Camilla me encarou com pena.

Fiquei em silêncio, pensando em tudo. Tomei um tiro por esse filho da puta, perdi um bebê. E ele simplesmente seguiu a vida? Em tão pouco tempo? Só tinha se passado alguns meses. Estava possuída de ódio por Antoni, e agora sentia ódio dos dois. Como pude ser tão burra?!

Eu evitava olhar, não queria testemunhar aquilo, olhava o tempo todo para baixo. Antoni me forçou a seguir para a festa. Havia um salão naquele terreno imenso. Assim que pisamos na porta, senti todos me olharem, havia esquecido daquele maldito vestido. Antoni segurava forte minha mão, acho que para garantir que não fugiria, o que era minha vontade.

Quando mirei no centro da festa, Jackson estava parado me encarando. Percebi que ficou tão chocado quanto eu, afinal sua mascara tinha caído. Virei a cara e apoiei minha outra mão no braço de Santorin. Deixei que me levasse aonde quer que fosse. Nada poderia ser pior.

Na mesa, além de nós e seus pais, havia um outro casal, que parecia ser conhecido da família. Camilla logo me apresentou, e aparentemente em algum momento já havia falado de mim para eles.

-Anne, essa é a garota que mencionei, nossa hóspede...– Falou piscando para mim -Jenna, esses são Rafi e Anne Montaleone, velhos amigos da família.

-Muito prazer -Respondi forçando um sorriso, e logo virei para o salão procurando por Jackson. Pude vê-lo saindo as pressas seguido de seu pai.

-Vocês formariam um belo casal -Congelei. Anne me pegou olhando para o noivo, pensaria que sou uma vagabunda. Me virei de volta para eles em pânico por ter sido descoberta.

-Ela quis dizer nós dois -Antoni sussurrou em meu ouvido. Ele sabia o que estava pensando e para onde estava olhando.

-Oh não...Ele está apenas me ajudando...-Menti! Na verdade, estava me destruindo, seu ódio me levou até aquele lugar. Fez de propósito e confesso que atingiu seu objetivo.

-Deveriam tentar, ou posso te apresentar ao meu filho Bruno -Anne piscou, e os quatro riram entre si. Mas Camilla pareceu desconfortável.

-Jenna, que tal pegarmos uma bebida? -Assenti.

Finalmente Antoni fez algo de útil me tirando dali. Sei que também não suportava a ideia de sermos um casal. Assim que nos afastamos um pouco, sussurrou em meu ouvido.

-Lembre-se de sempre se manter longe do filho dos Montaleone.

Fiquei confusa do porquê me falou isso.

-Por quê? Ele não deve ser pior do que você...-Provoquei.

-Como sempre, não poderia estar mais errada! Bruno não passa de um drogado...Sei de histórias dele, que me fariam parecer um príncipe.

-Impossível! -Devolvi.

Dei um passo maior à frente, não queria mais conversar. Seguimos até o outro lado do salão. Nunca me imaginei em um casamento desses. Observei cada detalhe, era tudo luxuoso, havia um bar com uma parede cheia de todas as garrafas que imaginei serem as mais caras, marcas que nem conhecia, mas a que queria não estava lá.

-Quero uma dose de whisky, puro -Antoni pediu ao garçom.

-Duas, por favor -Vi quando me olhou surpreso. -O que foi? Normalmente prefiro Tequila, mas não vi nenhuma garrafa...-Respondi.

-Só...Não me envergonhe, tenho uma reputação a zelar...-Era claro que pensava muito pouco de mim, e sinceramente não me importava. Pensei que merecia que ficasse bêbada e desse um vexame, sujando o lindo nome de sua família mafiosa. Bom, seus pais não mereciam isso.

-É o que você merece....Me trouxe aqui de propósito. -O garçom colocou as doses em cima da mesa, tomei a minha, enquanto me encarava, talvez não acreditasse que fosse beber mesmo. –Você quis me humilhar, e te garanto que não serei a única essa noite!

Minha ameaça era da boca para fora, estava tão humilhada que mal conseguia pensar. O que eu faria além de chorar? Me virei para deixá-lo sozinho e dei de cara com a noiva.

Ela era muito bonita, morena, sua pele escura brilhava, ofuscando qualquer outra pessoa no ambiente. Maquiagem e vestido perfeitos. Senti inveja, quem deveria estar se casando com Jackson era eu. Claro que nunca me pediu em casamento. Desgraçado. Me recompus, pois só de estar ali já era humilhação o suficiente, não ia piorar a situação.

-Me desculpe...Virei muito rápido -Me adiantei.

-Imagine, eu que cheguei de supetão...-Respondeu com um olhar gentil, e logo se direcionou para ele. –Então...Antoni Santorin finalmente achou uma mulher para colocá-lo na linha?

Ela parecia ser uma pessoa simpática.

-Aaah não, não sou esse tipo de homem. Me conhece muito bem Flora -Piscou.

-Ele não teria tanto bom gosto...–Me intrometi.

-Jackson parece ser um ótimo partido, você não acha Jenna? – Seu olhar cruel me cortava de dentro para fora.

-Sim...-Tentando não gaguejar –Ele parece ser um ótimo homem!

Se saísse mais alguma coisa da minha boca, começaria a chorar.

-Vamos descobrir...Só falei com ele duas vezes, na segunda nem conversamos muito, se é que me entendem -Piscou para Antoni e pareceram ter intimidade, provavelmente já tinham transado. Mas também entendi o que disse, fiquei em pedaços. Jackson dormiu com ela, sei que estava no casamento dele, mas ouvir que estava transando com outra mulher, me deu vontade de vomitar. Antoni riu erguendo seu copo e bebendo, não sei se era o mesmo ou se já tinha pedido outro. Provavelmente comemorando como aquilo me atingiu. -Meu pai parece convencido de que será bom para os negócios...

Flora continuou falando, me lembrei que nesse meio era comum casamento para formar alianças, o que não justificava tal traição dele. Fiquei ainda mais furiosa. Como pode me trocar por seja lá o que pretendia ganhar?! Ou será que nunca me amou de verdade e já tinha superado?!

-Tenho certeza de que será um ótimo marido! O azar é de quem perdeu...-O objetivo dele era óbvio, me fazer chorar, e estava me segurando para não dar esse gostinho.

-Não sei, acho que vivia como você, de galho em galho –Ela respondeu rindo.

-Deve ter amadurecido...-Falei e logo me direcionei para Antoni. -Talvez você também consiga algum dia...

Finalizei com a mão em seu ombro, que me devolveu um olhar acompanhado de um riso contido. -Flora –Virou a encarando –Sabia que Jenna canta muito bem? Deveria ouvi-la cantar.

Filho da puta! Todo esse tempo lá e não desconfiei que havia prestado atenção nas tardes que passava cantando com sua mãe. Nunca o vi na casa nesses momentos.

-Sério? Você precisa cantar para nós...

Flora estava animada, Antoni satisfeito, e eu? Em pedaços, queria sair correndo dali.

-Não, eu não ando praticando, e ele está exagerando -Tentei me desvencilhar.

-Qual é Jenna, acho que você deveria cantar para os noivos! Como um presente...

Precisávamos parar de brigar. Não importa o que fizesse ou falasse, faria dez vezes pior. Ele ganhou.

-Verdade, vou falar com a banda e chamar o Jackson...–Ela saiu sem nem me deixar responder que não. Aposto que me expulsaria ou me mataria se soubesse quem eu realmente era.

Me virei e apoiei no balcão do bar com a cabeça baixa, meus olhos se encheram de lágrimas, meu coração acelerou, meu peito ia explodir. Minhas pernas procuravam sustento. Eu não poderia, não conseguiria fazer isso, só conseguia pensar o quanto o amava e em quantos pedaços meu coração estava partido naquele momento.

-Oi, você é a Jenna? Sou o Rafael, Flora me pediu para te levar até o palco...-Era voz de um menino. Parou atrás de mim e pareceu esperar que me virasse.

-É ela mesma...-Antoni respondeu e colocou a mão em meu braço tentando me virar. Levantei a cabeça e virei um pouco. O encarei por alguns segundos com algumas lágrimas escorrendo. Engoli seco, enquanto me olhava surpreso. Seu sorriso sumiu. Sequei meus olhos disfarçadamente e virei de volta.

-Sou eu...Claro, vamos lá – Falei gaguejando.

Segui em direção ao palco, minhas pernas pareciam que iam falhar a qualquer momento. Pude ver Flora voltando de mãos dadas com Jackson. Virei o rosto o mais rápido possível, não conseguiria fazer aquilo olhando para eles.

-Acho que deveria ser algo romântico...-Novamente a voz de Rafael.

-Talvez alguma do Ed Sheeran...–Disse o vocalista da banda, nem me dei ao trabalho de prestar atenção neles. Além de tudo tinha que ser do meu cantor favorito?

Pensei sozinha. Me sentia sozinha, tomada pela dor da solidão.

-Você conhece alguma dele? -Me perguntou.

-Sim...Todas –Respondi sem empolgação alguma, não conseguiria escolher nenhuma. Pensei em pedir alguma de outro cantor, alguma que falasse sobre traição. Mas não seria apropriado para a noiva.

-Canta "Kiss Me"...

Rafael parecia saber que aquela era a música que dancei com Jackson no meu aniversário, o que seria impossível, pois nem nos conhecíamos.

Será que Jackson lembraria? Será que tudo aquilo foi mentira? O martírio em minha cabeça não dava descanso.

-Pode ser...–Me ajeitei e segui em direção ao centro do palco, dei uma olhada para o casal e logo desviei, sabia que iria chorar se ficasse os encarando.

Fechei os olhos e contei até 3, desejando que outra bomba nos atingisse. Seria o momento perfeito. Comecei a cantar. Eu queria chorar a cada verso da música e tentava não olhar diretamente para ele.

Decidi focar em Antoni, para não correr risco de chorar no palco, o odiava, era mais fácil focar nesse sentimento. Em alguns versos meus olhos desviavam automaticamente para aquele que um dia acreditei que nunca me machucaria. Não conseguia ignorá-lo completamente. Quando me dava conta de que Flora estava ao seu lado, virava de volta para meu algoz.

Antoni não parava de me encarar de volta, apesar de estar sério, sabia que estava feliz por me destruir e provavelmente torcendo para que começasse a chorar no palco e saísse correndo. Lá de cima, eu lutava de volta com minha voz, não daria esse prazer. Para nenhum deles.

Quando acabei a música, Flora estava de mãos dadas com meu ex-namorado. Pude notar que ele estava incrédulo me olhando, não conseguia decifrar o que se passava em sua cabeça.

Antoni andava em direção a escada do palco, o acompanhei indo até lá, enquanto todos aplaudiam. Quando me estendeu a mão para que pudesse descer, a segurei. E assim que pus os pés de volta ao salão e vi seu olhar de pena, comecei a chorar, não aguentava mais segura. Tinha que sair dali.

Soltei sua mão e saí depressa, apertando o passo e ao mesmo tempo tentando não correr. Não queria chamar atenção.

-Jenna? Espera...– A voz de Antoni me seguia, eu o odiava. Odiava tudo que estava acontecendo, odiava Jackson, odiava minha vida.

Encostei em um arbusto, acho que estava tendo uma crise de ansiedade, mal conseguia respirar. Puxava e soltava a respiração em meio às lágrimas. Sabia que estava hiperventilando.

Meu estômago doía, meu coração estava cheio de raiva, sentia que ia explodir a qualquer momento. Olhei para o céu por um momento e senti como se estivesse sozinha no mundo, e de fato estava. Sentimento horrível.

-Jenna...Calma, respira fundo...–Ele não desistiu de me seguir, e ainda teve a audácia de pôr a mão em minha cintura.

-Tira sua mão de mim...–Juntei todo meu ódio e gritei. Gritei bem alto, não aguentava mais me segurar. Vi os seguranças do lado de fora darem um passo em nossa direção, e ele acenar que estava tudo bem. E estava, para ele.

-Eu não tive a inten...-Não queria mais ouvir nada que visse dele, sua voz era detestável. Estava no meu limite.

-Cala a boca, por favor...-Interrompi -Você é cruel, o pior ser humano que já conheci e não quero nunca mais olhar na sua cara ou ouvir sua voz...-Virei as costas decidida a ir embora a pé, mesmo sem saber como.

-Para onde vai? Jenna? Eu sei que me odeia, mas...-Continuava falando enquanto me seguia.

-Eu não te odeio...Não mais...–Parei e me virei, ele parou bem de frente. Olhei fundo em seus olhos. -Agora...Te desprezo. Desprezo sua existência. Maldito dia que o conheci Antoni Santorin. Você é uma pessoa horrível! -Empurrei minhas mãos em seu peito, no intuito de afastá-lo. Quando na verdade meu maior desejo era agredi-lo.

-Jennaaaa -Reconheceria a voz de Jackson a milhas de distância.

-Agora ficou ótimo...–Falei sorrindo ainda entre lágrimas, e Antoni me encarava surpreso com minhas últimas palavras. O que ele esperava?

-Você não precisa falar com ele...-Se aproximou, enquanto ponderava o que faria. Seu corpo me escondia.

-Antoni? Preciso falar com ela...-Jackson continuava vindo em nossa direção.

-O que mais você quer? -Antoni respondeu nervoso se virando para ele, e me manteve em suas costas. Aproveitei sua estatura, para secar as lágrimas com o mínimo de dignidade que ainda tinha.

-Por que você a trouxe? Pedi que cuidasse dela, não que a levasse em festas...-Jackson esbravejava. –Jenna, me dá um minuto, por favor? -Pediu suavizando seu tom de voz.

-Acha que cuidei dela por consideração a você? Eu a trouxe aqui para que conhecesse quem você é de verdade...-Antoni respondeu a altura, por um momento pensei que fossem brigar, e deveria ter deixado se matarem, seria um favor ao mundo.

-Jackson, não temos nada para conversar...-Falei me colocando à frente. -Para mim está tudo muito claro. Enquanto eu estava passando por um inferno, você estava seguindo sua vida e nem teve a decência de me avisar. E Antoni? -Me virei de volta -Você não cuidou de mim, e sim seus pais. Não banque o bonzinho aqui. Fez de tudo para que me sentisse um lixo, desde que pisei em sua casa. Vocês dois são exatamente iguais. Odeio ambos igualmente.

Virei as costas novamente e tentei seguir andando, mesmo sem saber para onde ir.

-Acha que eu estava bem? Pensei que estivesse morta -Jackson se defendeu me segurando pela mão. Enquanto Antoni permaneceu imóvel. -Por que você acha que estou fazendo isso?

-Acho que você colocou o poder e seus negócios acima de mim, acima de nós...Não sei porque estou surpresa...-Respondi tentando conter o choro.

-Jenna...Tudo que faço desde o dia que te vi pela primeira vez, é por você –Ainda permanecia com esse papinho furado, o que me deixou ainda mais brava.

-Inclusive casando-se com outra? É um jeito muito estranho de amar. Sempre deixei claro que aquela guerra tinha que acabar. Só não imaginei que seria desse jeito...– Falei decepcionada.

-Eu juro que achei que você estava morta, acredite em mim...-Já tinha falado isso, mas eu também achei o mesmo dele.

-E como eu estava morta, em alguns dias pulou na cama com outra. -Uma bolha de ar saiu da minha boca -Precisou seguir sua vida, não é? Eu deveria ter feito o mesmo....Talvez transar com o Santorin, já que também achei que você estivesse morto -Antoni riu. Estava me cansando de conter as palavras.

-Não fala isso...Sabe que eu não suportaria...-Como se isso fosse pior que morrer.

-Não suportaria? Mas eu tenho que suportar? Você é fraco Jackson e é a minha maior decepção...Eu fiquei sozinha...–Estava a ponto de jogar tudo na cara dele.

-Jenna...-Antoni se intrometeu, aproximando-se. -Vamos embora!

Não queria ir embora com ele, mas precisava de carona, e não queria mais ficar ali lutando contra o impulso de me jogar nos braços do meu ex para beijá-lo ou agredi-lo. Já não tinha mais o controle das minhas emoções.

-Me leva daqui, por favor...–Pedi depois de ponderar por alguns segundos. Continuei olhando para Jackson.

-Precisamos conversar, Jenna...Por favor...-Tentou segurar minha mão, sacudi e estiquei-a em direção a Antoni.

-Vamos, por favor...-Por mais que eu quisesse, ignorei os pedidos dele. Estava magoada demais para conversar.

Antoni correspondeu segurando minha mão. Em algum momento já devia ter chamado o motorista, pois o carro já estava atrás de nós. Enquanto me andamos em direção ao carro, Jackson o segurou pelo braço.

-Não ouse tocar nela! –O tom era ameaçador, e depois olhou para mim e continuou. -Nós ainda não terminamos... Antoni não se intimidou e empurrou sua mão para longe.

-Não se preocupe...Não farei nada, a não ser que ela peça...-Não tinha nenhum interesse nele e sei que também não tinha em mim, era pura provocação. Mas ver o ódio e preocupação nos olhos de Jackson, foi satisfatório.

Assim que entrei no carro, soltei sua mão, e permanecemos calados. Voltei para meus pensamentos. Não queria mais brigar com ninguém. E ele tinha acabado de me ajudar, não que apagasse o que tinha acontecido, mas só estava cansada, deles e de tudo.

Decidi naquele momento que iria embora de vez, essa noite foi a gota d'água. Estava lá até aquele momento por Jackson. Quando descemos do carro, precisava pedir uma última coisa.

-Antoni, quero ir embora...E gostaria que seu motorista pudesse me levar até o aeroporto mais próximo, se permitir? Perguntei com uma voz séria, mas calma, estava pedindo um favor para o homem que esculachei minutos atrás.

-Sabe que não está presa em minha casa e pode ir embora quando quiser...Mas para onde vai? E com que dinheiro? -Não entendi sua preocupação repentina, acho que realmente se sentiu mal pelo que fez comigo.

-Quero ficar perto do meu irmão, é tudo que tenho. Também tenho um dinheiro, que era para ter usado no tratamento dele...Enfim, acabei não precisando...Posso me manter até arrumar um emprego.

Não queria dar explicações, ao mesmo tempo não ia ser com grosseria que conseguiria sua ajuda. -Jenna...Quando disse que não fiz nada por você...-Parecia querer se explicar.

-Antoni...O que quis dizer foi que não fez por caridade e sim por obrigação. Agradeço tudo que fizeram por mim, independente do motivo. Mas agora preciso seguir minha vida, não posso viver encostada na casa dos outros -Assentiu como se tivesse entendido.

-Ok...Como preferir...Pedirei ao meu motorista para levá-la amanhã cedo até o aeroporto.

-Obrigada...-Respondi e segui para dentro da mansão. Ele ficou para trás, mas preferi não olhar, apenas continuei andando em direção ao quarto.

◆◆◆

Acho que consegui dormir apenas porque sabia que iria embora daquele lugar. Precisava deixar tudo para trás. Quando acordei, ainda me sentia abalada pelo encontro da noite passada, pelas coisas que Antoni fez comigo na festa, e tudo que passei desde a noite do ataque. Tudo veio à tona.

Tomei um banho gelado na intenção de me recompor. Depois comecei a arrumar minhas coisas. Não demorou muito e escutei alguém bater a porta.

-Quem é?

-Sou eu, Antoni. -Sua voz estava suave, diferente de tudo.

-Pode entrar -Respondi.

-Tem certeza de que vai mesmo embora? -Perguntou assim que me viu arrumando as malas.

-Pode deixar para comemorar quando eu sair...-Falei tentando aliviar a pressão.

-Eu não faria isso...-Respondeu sério. Olhei curiosa pois não tinha entendido, até então fazia questão que me sentisse uma intrusa. Contava os dias para me ver longe. Ele deu uma tossida e continuou. –O motorista irá te levar ao aeroporto em vinte minutos...E quero que leve esse cartão com você...por segurança é melhor não movimentar suas contas. -Segurava um cartão preto. Peguei por alguns segundos, pois sabia que correria risco de ser encontrada caso movimentasse minha conta. -É ilimitado...Então fique à vontade. -Completou.

-Antoni, já estou levando todas as roupas que me deram. Se não fosse sua família, seria praticamente uma mendiga...Agradeço, mas não posso aceitar. -Coloquei o cartão de volta em sua mão.

-Se não aceitar, não a deixarei sair dessa casa. Ai sim será uma prisioneira...Sabe do que sou capaz...-Disse chegando mais perto e me olhando em tom de ameaça. Sabia que faria isso facilmente. Também fiquei com medo de me encontrarem, principalmente agora não teria mais ninguém para me proteger.

-Ok...Mas assim que começar a trabalhar, vou te pagar tudo de volta -Afirmei guardando o cartão.

-Jenna...Preciso perguntar mais uma vez...Tem certeza disso?

Ele estava diferente, parecia que toda aquela raiva que tinha de mim havia sumido. Talvez fosse sentir falta de ter alguém para torturar, ou se sentia culpado pelo que fez comigo durante a festa. De qualquer modo, não me importava mais.

-Sim, já fiquei muito tempo longe do meu irmão, sinto falta dele, é minha única família, e precisa de mim também. Sou a irmã mais velha, deveria estar pensando nele em primeiro lugar...-Lembrei-me de Celina. Achei que aquele único momento em que estava sendo legal comigo, seria bom tentar ajudá-la. -Falando em irmão...Sei que não é da minha conta, mas devia prestar mais atenção à sua irmã.

-O que tem ela? -Me perguntou preocupado.

-Precisa prestar atenção...Só posso dizer que não deve usá-la como mercadoria nos seus negócios. Ela não é como a Flora! -Finalizei.

Ele me faria contar tudo, mas graças ao destino fomos interrompidos por seus pais, agradeci internamente. Tony e Camilla estavam visivelmente tristes com minha despedida, aproveitei e os agradeci por tudo que fizeram.

Fechei minha mala e segui para fora. Olhei para trás e os vi me fitarem da porta. Não vi Antoni. Provavelmente deve ter ido a adega estourar uma champanhe. Nós dois queríamos isso.

No aeroporto achei uma passagem para o horário da noite, então tive que ficar esperando. Mesmo com um cartão ilimitado, não teria coragem de pagar pela primeira classe e nem área VIP. Mas precisei comprar um celular, pois tinha que me comunicar com a escola.

Passei o dia cochilando entre os bancos do aeroporto, e pensando sobre tudo. Quase contei a ele sobre o segredo que Celina me confidenciou. Por sorte fomos interrompidos. O que ela me falou devia ficar entre nós, confiou em mim e quase dei com a língua nos dentes.

A viagem foi tranquila, peguei um táxi no aeroporto e pedi que me levasse ao hotel mais próximo. A Suíça era linda, as coisas parecia perfeitamente no local certo e limpo. Tudo muito bem cuidado.

Fiquei alguns dias no hotel, fiz amizade com algumas pessoas, que me ajudaram a alugar um apartamento. Com três meses de aluguel adiantado, graças ao cartão que Antoni me deu. Era um apartamento pequeno e simples, mas muito bem cuidado.

Falando nele, sentia falta da sua casa e de sua família. Me aproximei muito de Celina e Camilla. Era difícil estar sozinha, fisicamente. Até senti falta de suas provocações, a solidão estava me deixando louca. A dor que sentia pela decepção com Jackson tinha tomado conta de mim. Nos primeiros dias chorava todas as noites.

Foi difícil arrumar emprego recém-chegada no país, como ainda não podia advogar, pois precisaria de autorização, e para dar entrada na documentação levaria um tempo, então o foco era me empregar primeiro, em qualquer área.

Depois de quase um mês, consegui emprego em uma cafeteria. Atendia e servia café e até que era legal, a maioria das pessoas eram muito educadas, parecia ser cultural. Como salário era pago em dinheiro, não precisava fazer movimentações bancárias.

Assim que comecei a trabalhar, liguei para a escola e combinei de visitá-lo. O internato era bem rígido, como perdi o prazo para agendar minha visita, só consegui no final de semana seguinte, mais ou menos uns quinze dias. Por sorte seria minha folga. Mesmo que não fosse, tentaria trocar com alguém.

Como trabalhava muito, de final de semana, as vezes de manhã, outras vezes a tarde, resolvi que assim que passasse na experiência, iria dar entrada na documentação para poder advogar. Deixaria para me preocupar com as consequências de aparecer em qualquer documento oficial futuramente.

Decidi isso quando estava indo embora depois de mais um dia normal. O café era perto do apartamento, então costumava ir a pé mesmo. Era gostoso andar pelas ruas, apesar de ser mais frio que o normal, gostava do vento gelado em meu rosto. Me trazia paz.

Cheguei no corredor do apartamento, procurando as chaves em minha bolsa. Quando achei a coloquei na porta, e tentei girar para abrir, mas não girava. Tentei duas vezes até perceber que já estava aberta.

Fiquei confusa. Talvez tivesse esquecido de trancar, mas tinha o costume de sempre conferir se estava trancada, fazia todo dia antes de ir trabalhar. Desconfiei que tivesse alguém no meu Apartamento.

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