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Uma Esposa Para o Mafioso

Uma Esposa Para o Mafioso

Autor:: AutoraAngelinna
Gênero: Romance
Raffaele Orsini não quer uma esposa... No entanto, ao conhecer sua prometida, sua honra o compele a se casar. Ela não é o que ele esperava... mas suas roupas discretas não podem esconder seu corpo voluptuoso e feminino, tampouco seu temperamento selvagem! Chiara Cordiano não amará seu marido! Ela tentou de tudo para escapar a seu destino, mas, em um piscar de olhos, foi levada de sua pitoresca cidadezinha na Sicília para Nova York! Chiara quer odiá-lo, mas a sedução corre quente no sangue dos Orsini. Com seu corpo moreno, seu jeito soturno e sua tentadora masculinidade, Raffaele não hesitará em domá-la!

Capítulo 1 Sinopse um

Raffaele Orsini não quer uma esposa...

No entanto, ao conhecer sua prometida, sua honra o compele a se casar. Ela não é o que ele esperava... mas suas roupas discretas não podem esconder seu corpo voluptuoso e feminino, tampouco seu temperamento selvagem!

Chiara Cordiano não amará seu marido! Ela tentou de tudo para escapar a seu destino, mas, em um piscar de olhos, foi levada de sua pitoresca cidadezinha na Sicília para Nova York! Chiara quer odiá-lo, mas a sedução corre quente no sangue dos Orsini. Com seu corpo moreno, seu jeito soturno e sua tentadora masculinidade, Raffaele não hesitará em domá-la!

Capítulo 1

Raffaele Orsini se orgulhava de ser um homem sempre sob controle. Não havia dúvidas de que sua habilidade em separar a emoção da lógica era uma das razões que o fizera chegar tão longe na vida.

Rafe poderia olhar para um banco de investimentos ou corporação financeira qualquer e ver não o que a empresa era, mas o que poderia vir a ser, com o devido tempo e dinheiro e, obviamente, com o experiente direcionamento que ele e seus irmãos poderiam oferecer. Eles tinham criado a Irmãos Orsini há apenas cinco anos, mas já obtinham um incrível sucesso no arriscado mundo das finanças internacionais.

E sempre foram incrivelmente bem sucedidos com lindas mulheres.

Os irmãos compartilhavam a beleza morena de sua mãe e o intelecto aguçado de seu pai, ambos imigrantes vindos da Sicília para os Estados Unidos décadas atrás. Diferentes de seu pai, haviam colocado seu talento em ambições dentro da legalidade, embora agindo sempre dentro de um perigoso limite que funcionava a seu favor tanto na cama quanto nas salas de reunião.

Foi o que acontecera hoje, quando Rafe dera um lance mais alto que o de um príncipe saudita na compra de um respeitável banco francês que há tempos interessava aos Orsini. Dante, Falco, Nicolo e ele, haviam comemorado com drinques algumas horas atrás.

Um dia perfeito, em vias de se tomar uma noite perfeita...

Até este momento.

Rafe saiu do saguão do prédio de sua amante, do prédio de sua ex-amante, pensou friamente. Pegou o táxi oferecido pelo porteiro e inspirou profundamente o fresco ar do outono. Precisava se acalmar. Talvez uma caminhada de Sutton Place até sua cobertura na Quinta Avenida ajudasse.

Qual era o problema com as mulheres? Como elas podiam dizer algo no começo de um romance, mesmo tendo a maldita certeza de que não era o que queriam dizer?

- Estou completamente dedicada a minha carreira - dissera Ingrid com seu sexy ronronar germânico após a primeira vez em que dormiram juntos - É preciso que você saiba, Rafe. Não estou nem um pouco interessada numa relação estável, então se você estiver...

Ele? Numa relação estável? Ele ainda se lembrava de como havia gargalhado e a puxado para baixo de si. A mulher perfeita, ele pensara, ao recomeçar a fazer amor com ela. Linda. Sexy. Independente...

Até parece.

Seu celular tocou. Ele o sacou do bolso, conferiu o número na tela e o jogou novamente para dentro do paletó. Era Dante. A última coisa que queria era falar com um de seus irmãos. A imagem em sua mente ainda estava muito vivida. Ingrid, abrindo a porta. Ingrid, vestindo não algo justo e sofisticado para o *jantar per se, mas, ao invés disso, usando... O quê? Um avental? Não do tipo prático que a mãe dele usava, mas uma coisa toda feita de babados, renda e laços.

Ingrid, não cheirando a Chanel, mas a frango assado.

- Surpresa - ela exclamou. - Eu faço o jantar hoje! Ela? Mas não tinha nenhuma habilidade doméstica. Ela lhe contara isso. Divertira-se ao revelar esse detalhe.

Não esta noite. Esta noite ela passeara com seus dedos pelo peito dele e sussurrara:

- Aposto que ignorava que eu sabia cozinhar, liebling. Exceto por liebling, ele já ouvira isso antes. O que fez seu sangue gelar.

A cena seguinte fora extremamente previsível, em especial as estridentes reclamações dela de que era hora do relacionamento deles evoluir e ele explodindo:

- Que relacionamento?

Rafe ainda conseguia ouvir o som do que quer que ela houvesse jogado nele, batendo na porta enquanto ele saía.

Seu celular tocou de novo. E de novo. Até que finalmente soltou um palavrão, puxou o maldito aparelho de seu bolso e o abriu.

- O quê?! - gritou.

- Boa noite para você também, mano.

Rafe franziu a testa. Uma mulher indo em sua direção decidiu mudar de caminho.

- Não estou com humor para brincadeiras, Dante. Entendeu?

- Está bem - disse o irmão, animado. Silêncio. Então Dante pigarreou - Problemas com a "valquíria"?

- Nenhum.

- Bom. Porque eu odiaria jogar uma bomba em você se estiverem...

- Jogar que bomba em mim?

O irmão dele suspirou ao telefone:

- Compromisso obrigatório, amanhã de manhã às 8h. O Velho quer nos ver.

- Espero que você tenha dito a ele o que fazer com esse pedido.

- Ei, sou só o mensageiro. Além disso, quem ligou foi a mama, não ele.

- Inferno. Será que ele está novamente às portas da morte? Você disse a ela que ele é ruim demais para morrer?

- Não - disse Dante sensatamente. - Você diria? Foi a vez de Rafe suspirar. Eles todos idolatravam a mãe e as irmãs, mesmo elas parecendo poder perdoar Cesare Orsini em tudo. Os filhos dele não podiam. Eles descobriram quem era seu pai anos atrás.

- Maldição - disse Rafe. - Ele tem 65 anos, não 95. Ainda tem muitos anos pela frente.

- Olhe, também não quero ouvir sermões sem fim sobre onde estão os bancos dele, ou qual a combinação do cofre e os nomes de seus advogados e contadores tanto quanto você. Mas você acha que eu diria isso à mama?

Rafe franziu ainda mais a testa.

- Certo. Oito horas da manhã. Encontro vocês lá.

- Cara, seremos só você e eu. O Nick está indo para Londres hoje à noite, lembra? O Falco viaja para Atenas de manhã.

- Maravilha.

Ele dormiu até mais tarde na manhã seguinte, tomou uma ducha rápida, não fez a barba, vestiu um suéter preto de algodão, um jeans desbotado e tênis, e chegou à casa de seus pais antes de Dante.

Cesare e Sofia viviam no Greenwich Village. Meio século atrás, quando Cesare comprou a casa, a área era parte da Little Italy. Os tempos mudaram. As ruelas apertadas se tomaram elitizadas e chiques.

Cesare também mudou. Deixou de ser um gângster de baixo escalão para se tomar primeiro um capo, o líder do sindicato, e então o chefe. Um don, embora no vernáculo siciliano o velho título italiano de respeito tenha um significado todo próprio. Cesare era dono de uma empresa privada de higienização e meia dúzia de outros negócios legalizados, mas sua verdadeira profissão era uma que ele nunca confirmaria para sua esposa, seus filhos e filhas.

Rafe subiu os degraus da residência e tocou a campainha. Ele tinha a chave, mas nunca a usara. Este local não era sua casa há muitos anos; anos antes de deixá-la ele já não pensava mais naquela casa como seu lar.

Sofia saudou-o como sempre fez, com um beijo em cada bochecha e um abraço, como se não o visse há meses em vez de apenas algumas semanas, então deu um passo para trás e o olhou criticamente.

- Você não fez a barba esta manhã. Para sua decepção, Rafe sentiu que corava.

- Me desculpe, mama. Queria ter certeza de que chegaria aqui a tempo.

- Sente-se - ela ordenou, enquanto o conduzia a uma ampla cozinha. - Tome o café da manhã.

Dante chegou alguns minutos depois. Sofia o beijou, disse que ele precisava de um corte de cabelo e o apontou a mesa.

- Mangia - ordenou ela, e Dante, que não recebia ordens de ninguém, obedeceu como um cordeirinho.

Houve um breve silêncio. Depois Dante disse:

- Então, você e a "valquíria" terminaram?

Rafe pensou em tudo que poderia dizer, de "Não" a "O que o faz pensar isto?" Ao invés disso, deu de ombros:

- Ela disse que era hora de reavaliarmos nosso relacionamento.

Dante teceu um comentário de uma só palavra, o que fez Rafe rir. Ele quase podia sentir seu mau humor se dissipar.

- Eu tenho a cura para Reavaliação de Relacionamento - disse Dante.

- É?

- Tenho um encontro com a ruiva em meia hora. Quer que eu ligue pra ela e veja se tem uma amiga disponível?

- Vou ficar sem mulheres por enquanto.

- Certo, já ouvi isso antes. Bem, se você tem certeza...

- Por outro lado, o que dizem mesmo sobre sacudir, levantar a poeira e dar a volta por cima?

Dante riu.

- Ligo para você de novo em dez minutos.

Errado. Ele ligou em cinco. A ruiva tinha uma amiga disponível. E ela adoraria conhecer Rafe Orsini.

Bem, com os diabos, pensou Rafe presunçosamente ao chamar um táxi, que mulher não adoraria?

Os irmãos estavam em seu segundo espresso quando o capo de Cesare, um homem que o servia há anos, apareceu.

- Seu pai os verá agora.

Os irmãos baixaram seus talheres, limparam os lábios com guardanapo e se levantaram. Fillipo balançou a cabeça.

- Não, não juntos. Um de cada vez. Raffaele, você primeiro.

Rafe e Dante se entreolharam.

- É a prerrogativa de papas e reis - disse Rafe com um sorriso forçado. Suas palavras baixas o bastante para não chegarem aos ouvidos de Sofia, que mexia uma panela de molho no fogão.

Dante deu um sorrisinho.

- Divirta-se.

- Claro. Com certeza será divertidíssimo.

Cesare estava em seu estúdio, um escuro aposento escurecido ainda mais pela abundância de móveis pesados, paredes entupidas de pinturas melancólicas de Nossa Senhora e de santos e fotografias emolduradas de parentes desconhecidos do Velho Mundo.

Cesare estava sentado por detrás de sua mesa de trabalho de mogno.

- Feche a porta e espere lá fora - ele disse a Fillipo, e conduziu Rafe a uma cadeira. - Raffaele.

- Pai.

- Como você está?

- Estou bem - Rafe respondeu, desinteressado - E você?

Cesare balançou a mão de um lado ao outro.

- Cosi cosa. Está tudo bem comigo.

Rafe levantou as sobrancelhas.

- Bem, aí está uma surpresa. - Ele bateu com as mãos nas coxas e se pôs de pé - Neste caso, já que você não está às portas da morte...

- Sente-se.

Os olhos azuis escuros de Rafe escureceram até quase se tomarem negros.

- Eu não sou Fillipo. Não sou sua esposa. Não sou ninguém que receba ordens suas, pai. Não as recebo há muitos anos.

- Não. Não desde o dia em que você se formou no ensino médio e me disse que tinha uma bolsa de estudos para uma universidade chique e me informou o que eu podia fazer com o dinheiro que havia guardado para suas mensalidades - disse Cesare suavemente. - Você acha que eu havia esquecido?

- A data está errada - disse Rafe, ainda mais friamente. - Não obedeço ordens suas desde que descobri como você ganhava a vida.

- Tão metido a santo - zombou Cesare. - Você acha que sabe de tudo, meu filho, mas eu lhe prometo: qualquer homem pode penetrar na escuridão de uma paixão.

- Não sei de que diabos você está falando e, para falar a verdade, não me importo. Adeus, pai. Mandarei Dante entrar.

- Raffaele. Sente-se. Isto não irá demorar.

Um músculo se contraiu na mandíbula de Rafe. Droga, por que não?, ele pensou. O que quer que seu pai lhe quisesse dizer desta vez poderia ser divertido. Ele sentou, esticou as longas pernas, cruzou-as na altura do tornozelo e cruzou os braços sobre o peito.

- Bem?

Cesare hesitou. Era algo notável de se ver. Rafe não conseguia se lembrar de já ter visto seu pai hesitar anteriormente.

- É verdade - finalmente disse seu velho pai. - Não estou morrendo.

Rafe deu uma risada de desdém.

- O que queria discutir com você da última vez, eu não... eu, hã, não estava preparado para fazer, embora achasse que estava.

- Um mistério - disse Rafe, seu tom deixando claro que nada do que seu pai diria lhe interessaria.

Cesare ignorou o sarcasmo.

- Como eu disse, não estou morrendo. - Outro momento de hesitação. - Mas morrerei algum dia. Ninguém sabe exatamente o momento, mas é possível como você sabe, que um homem em minha, hã, profissão possa às vezes encontrar seu fim de maneira inesperada.

Outra primeira vez. Cesare nunca antes havia feito sequer um aceno de confissão de suas atividades ilegais.

- Essa é sua não tão sutil maneira de me dizer que algo está para acontecer? Que mama, Anna e Isabella podem estar em perigo?

Cesare riu.

- Você tem visto filmes demais, Raffaele. Não. Nada está, como você disse, "para acontecer". Mesmo se estivesse, o código de nossa gente proíbe causar dano a membros da família.

- Eles são sua gente - disse Rafe com força, - Não "nossa". E a honra entre chacais não me impressiona.

- Quando chegar meu momento, sua mãe, suas irmãs, você e seus irmãos, todos serão bem cuidados. Sou um homem de posses.

- Não quero nada do seu dinheiro. Nem meus irmãos. E somos mais do que capazes de cuidar bem da mama e de nossas irmãs.

- Certo. Doe o dinheiro então. Será de vocês o que quiserem.

Rafe concordou com a cabeça.

- Ótimo. - Ele começou novamente a se levantar da cadeira. - Imagino que esta conversa esteja...

- Sente-se - disse Cesare e então acrescentou a única palavra que Rafe nunca o ouvira dizer: - Por favor.

O chefe das famílias de Nova York debruçou-se à frente.

- Não me envergonho da maneira pela qual vivi - disse com suavidade - Mas fiz algumas coisas que talvez não devesse ter feito. Você acredita em Deus, Raffaele? Não se importe em responder Já eu, não tenho certeza. Mas só um tolo ignoraria a possibilidade de que as ações de sua vida possam um dia afetar o destino de sua alma.

Os lábios de Rafe se contorceram num sorriso frio.

- É tarde demais para se preocupar com isto.

- Há coisas que fiz em minha juventude... - Cesare pigarreou. - Coisas erradas. Coisas que não foram feitas para o bem da famiglia, mas pelo meu. Coisas egoístas e que me mancharam.

- E o que isto tem a ver comigo?

Os olhos de Cesare encontraram os de seu filho.

- Estou lhe pedindo que me ajude a consertar uma dessas coisas.

Rafe quase riu. De todos os pedidos bizarros...

- Roubei algo de grande valor de um homem que me ajudou quando ninguém mais o faria - disse Cesare com a voz rouca. - Quero me reparar.

- Envie um cheque para ele - disse Rafe com deliberada crueldade. O que tudo isso tinha a ver com ele? A alma de seu pai era problema pessoal.

- Não é o bastante.

- Faça um cheque bem gordo. Ou, diabos, faça-lhe uma oferta que ele não possa recusar - Rafe apertou os lábios. - Você é assim, não é? O homem que pode comprar ou intimidar qualquer um para conseguir qualquer coisa.

- Raffaele. Como homem, como seu pai, suplico por sua ajuda.

A súplica era surpreendente. Os olhos de seu pai queimavam com a culpa. O que custaria a ele entregar um cheque em mãos e oferecer um pedido de desculpas há muito em débito? Gostasse ou não, aquele homem havia dado vida a ele, a seus irmãos e irmãs. Ele os havia, a sua própria maneira, amado e cuidado. De forma um tanto distorcida ele os havia até ajudado a ser quem eram. Se ele havia finalmente criado uma consciência, mesmo de forma tardia, não seria uma coisa boa?

- Raffaele?

Rafe inspirou profundamente.

- Certo. O.k. - ele disse rapidamente, pois sabia como seria fácil mudar de idéia. - O que quer que eu faça?

- Tenho a sua palavra de que fará o que eu pedir?

- Sim.

Cesare concordou com a cabeça.

- Você não se arrependerá, prometo.

Dez minutos depois, após uma longa, complexa e ainda assim estranhamente incompleta história, Rafe pulou de pé.

- Você está louco? - gritou.

- É um pedido simples, Raffaele.

- Simples? - Rafe riu. - Esta é uma maldita maneira de descrever me pedir para ir até uma aldeia esquecida por Deus na Sicília e me casar com uma... uma camponesa sem nome nem educação formal!

- Ela tem um nome. Chiara. Chiara Cordiano. E não é uma camponesa. Seu pai, Freddo Cordiano, possui um vinhedo. É dono de plantações de oliveiras. É um homem importante em San Giuseppe.

Rafe se debruçou sobre a mesa de trabalho do pai, bateu com as mãos na superfície brilhante e polida do mogno e olhou furiosamente.

- Não me casarei com esta. moça. Não me casarei com ninguém. Está claro?

Seu pai o olhava fixamente.

- O que está claro aqui é o valor da palavra de meu primogênito.

Rafe agarrou o pai pela camisa e o puxou a seus pés.

- Cuidado com o que me diz! - rosnou. Cesare sorriu.

- Que temperamento irascível, meu filho. Por mais que queira negar, o sangue dos Orsini bate em suas veias.

Lentamente, Rafe soltou a camisa. Levantou-se e inspirou profunda e equilibradamente.

- Vivo de acordo com minha palavra, pai. Mas você a conseguiu com uma mentira. Disse que precisava de minha ajuda.

- E preciso. E você disse que me ajudaria. Agora diz que não. - O pai arqueou as sobrancelhas - Qual de nós mentiu?

Rafe deu um passo para trás. Em silêncio, contou até dez. Duas vezes. Finalmente, concordou com a cabeça.

- Eu lhe dei minha palavra, então vou até a Sicília me encontrar com este Freddo Cordiano. Direi que você se arrepende do que quer que tenha feito a ele décadas atrás. Mas não me casarei com a filha dele. Estamos claros?

Cesare deu de ombros.

- Seja como você quiser, Raffaele. Não posso forçar sua obediência.

- Não - disse Rafe com raiva. - Não pode.

Ele saiu do aposento a passos largos, usando as portas de estilo francês que davam para o jardim. Não tinha nenhuma vontade de ver sua mãe, Dante ou qualquer outro.

Casamento? De jeito nenhum, especialmente não ordenado, especialmente não se para estar de acordo com seu pai... especialmente não com uma moça nascida e criada em um local esquecido pelo tempo.

Ele era muitas coisas, mas não louco.

A mais de seis mil quilômetros dali, na fortaleza rochosa que o pai dela chamava de lar e que ela chamava de prisão, Chiara pulou de pé em descrença.

- Você fez o quê? - disse em italiano florentino perfeito - Você fez o quê?

Freddo Cordiano cruzou os braços.

- Quando falar comigo, faça-o na língua de seu povo.

- Responda à pergunta, papa - disse Chiara, no dialeto grosseiro que seu pai preferia.

- Eu disse que lhe encontrei um marido.

- Isso é loucura. Você não pode me casar com um homem que nunca vi na vida.

- Você se esquece de quem é - seu pai rosnou - Isso é o resultado de todas aquelas idéias bobas que lhe foram enfiadas na cabeça por aquelas governantas pomposas que sua mãe me fez contratar. Sou seu pai. Posso casar você com quem eu quiser.

Chiara bateu com as mãos nas coxas.

- O filho de um de seus camaradas? Um gângster americano? Não. Eu não me casarei com ele e você não pode me forçar a isto.

Freddo deu um leve sorriso.

- Você preferiria que eu a trancasse em seu quarto e a mantivesse lá até que ficasse velha e feia o bastante para que nenhum homem a quisesse?

Ela sabia que a ameaça dele era vazia. Ele não a trancaria em seu quarto. Em vez disso, a manteria prisioneira naquele horrível vilarejo, naquelas ruelas antigas e estreitas de onde ela passou a maior parte de seus 24 anos rezando para poder deixar. Ela tentara deixá-las antes. Os homens de seu pai, educados porém implacáveis, a haviam trazido de volta. Eles fariam o mesmo novamente, ela nunca poderia se ver livre de uma vida que odiava.

E ele certamente não a permitiria escapar do casamento para sempre. Ela era uma moeda de troca, um meio para a ampliação ou manutenção de seu vil império.

Casamento. Chiara conteve um calafrio.

Ela sabia como seria, como homens como seu pai tratavam suas mulheres, como ele tratara a mãe dela. Este homem, embora americano, não seria diferente. Ele seria frio. Cruel. Teria cheiro de alho, charutos e suor. Ela seria pouco mais que uma serviçal e de noite exigiria certas coisas dela em sua cama...

Lágrimas de ódio brilharam nos olhos violáceos de Chiara.

- Por que faz isso comigo?

- Sei o que é o melhor para você. Por isso.

Era uma piada. Ele nunca pensou nela. Este casamento era pelos próprios objetivos dele. Mas não aconteceria. Ela estava desesperada, mas não era louca.

- Bem, já recobrou a razão? Está preparada para ser uma filha obediente e fazer o que lhe digo?

- Prefiro morrer - disse ela. E, embora desejasse correr, forçou-se a sair de maneira calma e contida. Mas assim que alcançou a segurança de seu quarto e trancou a porta, gritou de raiva, pegou um vaso e o arremessou na parede.

Vinte minutos mais tarde, mais calma, molhou o rosto com água gelada e foi procurar o único homem que amava. O homem que a amava. O único homem a quem poderia pedir ajuda.

- Bella mia - disse Enzo, quando ela o encontrou. - Qual é o problema?

Chiara lhe contou. Os olhos escuros dele tomaram-se ainda mais negros.

- Eu a salvarei, cara - disse ele.

Chiara jogou-se em seus braços e rezou para que ele conseguisse.

Capítulo 2 2

Rafe decidiu não contar a ninguém para onde estava indo.

Seus irmãos teriam rido ou uivado, e certamente não havia amigos com quem pudesse discutir as maquiavélicas intrigas de don Orsini e sua interpretação da honra siciliana.

Honra entre ladrões, pensou Rafe de maneira sombria, enquanto seu avião pousava no Aeroporto Internacional de Palermo. Ele teve de pegar um voo comercial, pois Falco usara o avião dos Orsini para ir a Atenas. Mas mesmo sem o benefício de chegar com seu jato particular, ele passou rapidamente pelo Controle de Passaportes.

O humor de Rafe era negro. A única coisa que reduzia seu humor ranzinza era saber que em apenas um dia deixaria para trás aquela ridícula tarefa.

Talvez, ele pensou enquanto saía do terminal em direção ao calor do início de outono siciliano, talvez ele pudesse, em algumas semanas, pagar uma rodada de bebidas aos seus irmãos e, quando estivessem todos rindo e relaxados, ele diria: "Vocês nunca imaginariam onde estive mês passado."

E lhes contaria a história. Toda ela, começando por sua reunião com Cesare. E eles concordariam com a cabeça quando lhes descrevesse quão gentilmente disse a Chiara Cordiano que lamentava, mas que não se casaria com ela. E sim, ele seria gentil, afinal de contas, não era culpa dela.

Um peso pareceu ser removido de seus ombros.

Certo. A situação poderia não ser tão ruim quanto imaginava. Diabos, aquele era um bom dia para um passeio de carro. Ele almoçaria em alguma pitoresca pequenina trattoria no caminho para San Giuseppe, telefonaria a Freddo Cordiano e lhe diria que estava a caminho. Ao chegar, cumprimentaria a retorcida mão do velho, diria algo educado à filha dele e estaria de volta a Palermo à noite. Sua agente de viagens lhe reservara um hotel que anteriormente fora um palácio. Disse-lhe que era elegante. Ele tomaria um drinque, a seguir um jantar na sacada de sua suíte. Ou talvez fizesse uma parada no bar. As italianas estavam entre as mulheres mais lindas do mundo. Bem, não a que ele estava indo conhecer, mas à noite ela já seria passado.

Na hora em que chegou ao balcão da locadora de veículos, Rafe sorria.

Mas não por muito tempo.

Ele havia reservado um utilitário esportivo, um SUV, ou seu equivalente italiano. Em geral não gostava destes automóveis. Preferia carros mais baixos e rápidos como o Corvette que tinha em casa. Mas ele havia checado no mapa e San Giuseppe era um lugar alto nas montanhas. A estrada para lá parecia mais ser uma trilha para cabras do que qualquer outra coisa, então ele decidiu pela tração de um SUV.

O que esperava por ele na vaga não era um SUV. Era sim o tipo específico de carro que ele realmente desprezava. Aquela grande monstruosidade americana, um modelo há muito da preferência de seu pai e amigos.

Um Mobster Special, um carro de gângster.

A balconista deu de ombros e disse que deveria ser um erro de comunicação mas, scusi, era tudo que tinha disponível.

Perfeito, pensou Rafe ao sentar ao volante. Um filho de gângster, em uma tarefa de gângster, dirigindo um carro de gângster.

Só lhe faltava um charuto gordo entre os dentes. Era o fim do bom humor.

E as coisas não ficaram melhores após isso. Ele fora muito generoso ao chamar de trilha de cabras àquela faixa de terra esburacada, com o escarpado da montanha de um lado e um vertiginoso desfiladeiro em direção ao vale do outro.

Aquilo estava mais para um desastre anunciado.

Dezesseis quilômetros. Trinta. Cinqüenta, e ele ainda não vira outro carro. Não que estivesse reclamando. Não havia espaço para dois carros. Não havia sequer espaço para...

Alguma coisa negra pulou do meio das árvores para o meio da estrada.

Rafe xingou e pisou no freio. Os pneus lutaram para manter a aderência, o carrão deslizando de um lado a outro. Ele precisou de toda sua habilidade para freá-lo. Quando finalmente conseguiu, o capô estava a milímetros do vazio que se estendia por sobre o vale.

Ele ficou absolutamente imóvel. Suas mãos, agarradas ao volante, tremiam. Ele podia ouvir o leve tiquetaquear da ventoinha de resfriamento e a batida de seu próprio coração.

Gradualmente, o barulho da ventoinha diminuiu. Seu coração desacelerou. Ele puxava ar para os pulmões. O.k. A coisa a se fazer agora era dar ré, com bastante cuidado...

Alguma coisa bateu na porta do carro. Rafe se virou em direção à janela semiaberta. Lá estava um cara obviamente fantasiado para um Halloween antes da época. Camisa negra. Calça negra. Botas negras.

E um antigo e negro revólver de cano longo, apontado diretamente para a cabeça de Rafe.

Ele ouvira histórias de bandidos de estrada da Sicília e rira delas, mas somente um idiota riria desta situação.

O homem deu uma sacudidela com o revólver. O que significava? Sair do carro? Droga, não. Rafe não faria isto. O revólver sacudiu de novo. Ou estava tremendo? O cara estava tremendo? Sim, ele estava. E isso não era bom. Um ladrão nervoso e armado...

Um ladrão nervoso, de cabelos brancos e escassos e olhos remelentos. E manchas de idade na mão que segurava o revólver.

Que maravilha. Ele seria assaltado e morto pelo avô de alguém.

Rafe pigarreou.

- Calma, vovô - disse, mesmo sendo ínfimas as chances de que o velhinho entendesse uma palavra de inglês. Ele ergueu as mãos, mostrou que estavam vazias, e lentamente abriu a porta. O bandido chegou para o lado e Rafe saiu, cuidadosamente contornando a beirada da estrada e o desfiladeiro além dela. - Você fala inglês? - Nada. Ele buscou no fundo de sua memória - Voi, hã, voi parlate inglese!

- Certo, olhe, vou tirar minha carteira do bolso e dá-la a você. Daí voltarei para o carro e...

O revólver fez um arco no ar. Rafe tentou não piscar quando ele passou na frente de seu rosto.

- Cuidado, vovô, ou esta coisa periga disparar. O.k., aqui vai minha carteira...

- Não!

A voz do velho tremeu. Voz tremida. Mão tremida. Isto estava ficando cada vez melhor. Seria uma história ainda melhor que a que planejara contar a seus irmãos, isso se vivesse o bastante para contá-la.

- Caiofuora!

Caiofuora? O que isso queria dizer? O nome do velho, talvez. Mas não parecia uma palavra italiana ou siciliana.

O velho cutucou o abdômen de Rafe com o cano da pistola. Rafe cerrou os olhos.

Outro cutucão. Outro rouco "Caiofuora" e, droga, agora já era o bastante. Rafe segurou o revólver pelo cano, sacou-o dos dedos tremidos do bandido e o jogou no abismo.

- O.k. - disse, avançando sobre o velho. - O.k., agora cheg... uhn!

Alguma coisa o atingiu, forte, por trás. Era um segundo ladrão, envolvendo seus braços no pescoço de Rafe e montando em suas costas. Rafe pegou seu atacante pelos braços e lhe deu uma gravata que soltou-o de si, o ladrão rosnou, lutou, mas era um peso leve, e Rafe o contornou e o prendeu pelos pulsos com suas mãos...

Maldição, aquele ali era apenas uma criança. Não apenas peso leve, mas peso mosca. O menino também se vestia todo de preto, desta vez com um velho chapéu de feltro de abas largas que escondia seu rosto.

Era um peso mosca, mas era um lutador.

O menino o atacava de todos os lados, chutando, tentando unhá-lo, diabos, tentando mordê-lo! Rafe jogou o rapaz a seus pés.

- Pare - gritou.

O menino resmungou alguma coisa incompreensível em resposta, ergueu um joelho e mirou no meio das pernas dele. Rafe girou e se afastou.

- Você é surdo menino? Eu disse pare! Evidentemente, pare não se traduzia bem, pois o menino não parou. Ele partiu para cima de Rafe, o velho juntando-se à briga e golpeando-o com o que parecia ser um pequeno galho de árvore.

- Ei - disse Rafe, indignado. Não era assim que as coisas deveriam ocorrer. Ele era o cara durão ali, e caras durões não levam surras de meninos e velhos. Ele sabia perfeitamente bem que poderia encerrar aquele ataque, apenas alguns bons golpes resolveriam, mas só a imagem de bater no matusalém e em um delinqüente juvenil já lhe parecia repulsiva.

- Olhe - disse com sensatez -, vamos resolver isto. Vovô, abaixe o pau. E você, menino, vou soltar você e...

Péssima decisão. O menino mirou com o joelho novamente. E desta vez acertou Rafe naquele lugar com uma precisão devastadora. Rafe, gemendo de dor, preparou seu punho e acertou um cruzado de direita no maxilar do menino.

Devia ter sido um bom golpe, pois o menino caiu nocauteado.

Ainda tentando respirar, Rafe se voltou para o velho.

- Me escute - disse, respirando com dificuldade... O galho de árvore o acertou na nuca. E Rafe caiu ao lado do menino.

Ele despertou lentamente.

Ah, Deus, sua cabeça doía. O matusalém lhe acertara a cabeça, o menino tinha lhe dado uma joelhada. Ele havia sido total e completamente humilhado. Será que o dia poderia piorar?

O velho estava sentado na estrada, segurando o menino em seus braços, o balançando, falando com ele em um siciliano rápido e aparentemente aflito. Ele sequer olhou para cima enquanto Rafe dolorosamente se punha de pé.

- O.k. - ele disse irritado, - O.k., velho. Levante-se. Está me ouvindo? Deixe o menino e levante-se. - O velho o ignorou. Rafe abaixou-se e agarrou o longo e fino braço do velho - Eu disse, levante-se!

- Caiofuora! - gritou o velho. E, de repente, as palavras fizeram sentido. O que ele estava dizendo era caia fora. Bem, diabos, ele certamente obedeceria. Mas primeiro tinha de se certificar que o menino estava bem. Evitar que esta dupla incomum o roubasse era uma coisa, matá-los era outra totalmente diferente.

Rafe empurrou o bandido para o lado e foi em direção ao menino desmaiado, levantou-o com o antebraço. O menino gemeu, seu chapéu caiu e...

E o menino não era realmente um menino.

Ele era... ela era uma menina. Não. Não uma menina. Uma mulher de rosto oval, pálido e uma sedosa e longa cabeleira negra. Ele havia nocauteado uma mulher. E tinha imaginado se o dia poderia piorar...

Cuidadosamente ele a pegou em seus braços, ignorou o velho que puxava sua manga e a carregou para o lado da estrada que dava para a montanha. A cabeça da jovem pendeu para trás. Ele podia ver-lhe o pulso batendo rápido nas delicadas fendas do pescoço. O ângulo em que o corpo dela estava fazia com que os seios pressionassem a grossa lã de seu blusão.

Ele a sentou sobre a encosta coberta de capim. Ela ainda estava inconsciente.

E era também incrivelmente linda.

Somente um canalha notaria isso num momento daqueles, mas somente um tolo não notaria. Seu cabelo não era apenas escuro, era da cor de uma noite sem nuvens. Suas sobrancelhas eram delicadas asas sobre os olhos fechados, seus cílios sombras negras contra maçãs de rosto angulosas. Seu nariz era reto e fino sobre uma boca rosada.

Rafe sentiu um movimento de desejo no baixo ventre. Isso não era incrível? Desejo por uma mulher que tentou emasculá-lo, que serviu de ajudante para um velho armado de revólver..

E que agora se prostrava indefesa ante ele.

Droga, pensou e a segurou pelos ombros, sacudindo-a.

- Acorde - disse com força. - Vamos, abra os olhos.

Os cílios dela tremeram e então se ergueram lentamente, e ele percebeu que os olhos dela mais que se igualavam ao resto de seu rosto. A íris não era azul, mas da cor de violetas em flor. Seus lábios estavam entreabertos. A ponta de sua língua, delicada e rosa, cruzou por sua boca.

Desta vez, o desejo que se movia em sua virilha o fez se apoiar nos calcanhares. Só isto era preciso? Estar em solo siciliano era o que bastava para revertê-lo aos instintos bárbaros de seus ancestrais?

A clareza retomava aos olhos dela. Ela pôs a mão no maxilar, teve um sobressalto e o fitou com um olhar cheio de ódio.

Aqueles suaves lábios rosados revelaram pequenos e perfeitos dentes brancos.

- Stronzo - ela resmungou.

Era uma palavra que qualquer menino que houvesse crescido em uma casa onde adultos falassem italiano com freqüência certamente entenderia, e isso o fez dar uma risada. Grande erro. Ela se sentou, repetiu a palavra e tentou golpeá-lo no maxilar. Ele se desviou sem esforço e ela tentou novamente. Ele prendeu as mãos dela nas suas.

- Esta é uma péssima idéia, baby. Ela sibilou com os dentes e lançou um olhar ao velho por sobre o ombro de Rafe. Rafe balançou a cabeça.

- Outra péssima idéia. Se você mandá-lo chegar perto, ele sairá machucado. - O desprezo era visível nos olhos dela. - Tá, eu sei. Você deduziu que ele me acertou na primeira vez mas, olhe, é o seguinte. Eu não me deixo acertar uma segunda vez. Está entendendo? Uma seqüência de palavras voou dos seus lábios. Rafe entendeu algumas, mas não era necessário um diploma de italiano para compreender o significado. O olhar dela lhe disse tudo que ele precisava saber.

- Certo, também não sou seu fã. Esta é a maneira como você e o vovô aqui recebem as visitas? Vocês os assaltam? Seqüestram seus carros? Talvez os joguem abismo abaixo?

A boca da jovem se apertou, quase como se houvesse entendido o que ele disse, mas é claro que não. Não que isto importasse. A questão era, o que ele faria com aquela dupla? Deixá-los aqui era seu primeiro instinto, mas... será que ele não deveria avisar as autoridades? Sim, mas ele havia ouvido histórias sobre a Sicília e seus tiras. Talvez esta dupla fosse o equivalente italiano de Robin Hood e João Pequeno... salvo que neste caso João Pequeno era, na verdade, a donzela Marian.

A mulher tinha uma leve marca no maxilar, no lugar onde ele a havia acertado. Ele nunca batera em uma mulher na vida, e aquilo o perturbava. Talvez ela pudesse precisar de cuidados médicos. Ele não achava que fosse o caso, não pela forma como ela estava agindo, mas sentiu-se um pouco responsável por ela, mesmo tendo feito o que fez apenas para se proteger.

Ele podia se ver dizendo ao juiz local: "Veja bem, meritíssimo, ela me atacou. E eu a acertei em legítima defesa."

Era a verdade absoluta, mas isso só levaria os nativos às risadas. Ele tinha l,92m de altura, pesava mais de l00kg. E ela tinha... o quê? l,70m? E provavelmente pesava uns 54kg a menos que ele.

O.k. Ele levaria a dupla para casa. Talvez o que acontecera lhes servisse de lição.

Rafe pigarreou.

- Onde você e o vovô moram?

Ela o encarou, com o queixo levantado em tom de desafio.

- Hã, dove è... dove è sua casa? Sua casa? A mulher sacudiu a mão para se soltar. Olhou fixamente para ele. Ele olhou-a fixamente de volta.

- Estou disposto a levar você e o vovô para casa. Está entendendo? Sem tiras. Sem apresentar queixa. Só não desafie a própria sorte.

Ela riu. Era aquele tipo de risada que fez com que Rafe cerrasse os olhos. Quem diabos ela pensava que era? E do que achava que podia rir? Ela o atacara, sim, mas fora ela quem perdera a luta. Agora ela estava lá, no meio do nada, a mercê de um homem o dobro de seu tamanho. Um homem que estava irritado como o diabo. Ele não precisaria de sequer um segundo para mostrar a ela quem estava no comando, mostrar que ela estava a sua mercê, que ele precisaria apenas segurar firmemente aquele perfeito e lindo rosto com suas mãos, colocar a boca contra a dela, e ela pararia de olhar para ele com tamanho desprezo, tamanha frieza, tanta raiva.

Um beijo, apenas um, e a boca da moça suavizaria. A rigidez de seus músculos daria lugar a uma sedosa submissão. Seus lábios se entreabririam, ela envolveria seus braços ao redor do seu pescoço e sussurraria para ele. E ele entenderia o sussurro, pois um homem e uma mulher não precisam falar a mesma língua para conhecer o desejo, para transformar a raiva em algo mais quente e selvagem...

Rafe pulou em pé. - Levante-se - rosnou. Ela não se mexeu. Ele fez um gesto com a mão.

- Eu disse, levante-se. E você, velho, entre na parte de trás do carro.

O velho não se mexeu. Ninguém se mexeu. Rafe se inclinou para a mulher.

- Ele é velho - disse calmamente -, e realmente não desejo ser violento com ele. Então por que você não pode apenas dizer a ele para fazer o que mandei?

Ela o entendeu. Ele podia ver em seu rosto. Rafe deu de ombros.

- O.k., façamos do pior jeito.

Os olhos violáceos brilharam. Ela se levantou, balbuciou uma série de palavras e o velho concordou com a cabeça, foi até o carro e subiu na parte de trás.

Rafe apontou o dedo para o carro.

- Agora você.

Uma última olhada raivosa. Então ela se virou, marchou em direção ao carro e começou a subir ao lado do velho.

- O assento de passageiro. - Rafe estalou os dedos. - Na frente.

Ela disse algo. Algo que mulheres não diziam, mesmo as meninas de rua da infância dele.

- É anatomicamente impossível - ele respondeu friamente.

O rosto dela corou. Bom. Ela de fato entendia inglês, ao menos um pouco. Isto facilitaria as coisas. Ela entrou no carro. Ele bateu a porta após ela, deu a volta em direção ao lado do motorista e pôs-se atrás do volante.

- Você mora quantos quilômetros montanha acima? Ela cruzou os braços.

Rafe rangeu os dentes, ligou o carro, afastou-se cuidadosamente do desfiladeiro íngreme e continuou a subir a estrada em silêncio. Minutos e quilômetros se passaram. E quando ele já quase havia perdido a esperança de reencontrar a civilização, um vilarejo surgiu. Uma placa de madeira aparentando estar lá desde o início dos tempos anunciava o nome do locai. San Giuseppe.

Ele parou o carro e vislumbrou pela primeira vez a Sicília de seu pai.

Rafe engrenou a marcha. A mulher ao seu lado balançou a cabeça e foi em direção à porta.

- Você quer sair?

Ela levantou o queixo de maneira arrogante, o que deixou à vista a ferida que ele lhe produzira. A culpa o torturou e ele inspirou profundamente.

- Ouça - disse. - Sobre seu maxilar...

Outro lampejo daqueles olhos violáceos quando ela se virou para ele.

- É, eu sei. Acredite-me, o sentimento é mútuo. Tudo que estou tentando dizer é que você devia colocar um pouco de gelo neste machucado. Vai diminuir o inchaço. E tome uma aspirina. Você sabe o que é aspirina? As-pi-ri-na - ele disse, sabendo o quão imbecil deve ter parecido, mas não conhecendo nenhuma outra maneira de transmitir a mensagem.

De repente, ela deu uma ordem. O velho respondeu. Seu tom sugeria que ele protestava, mas ela repetiu a ordem. Ele suspirou, abriu a porta do carro e desceu.

Rafe segurou-a pelo ombro enquanto ela se movia para seguir o velho.

- Você entendeu o que eu disse? Gelo. E aspirina. E...

- Entendi cada palavra - ela disse friamente. - Agora veja se você entende signor. Caia fora. Está me ouvindo? Caia fora, como Enzo lhe disse para fazer.

Rafe a encarou.

- Você fala inglês?

- Falo inglês. E italiano. E o dialeto siciliano. Você obviamente não. - Aqueles olhos deslumbrantes cerraram-se até que apenas um talho de cor aparecesse. - Você não é bem-vindo aqui. E se você não sair por conta própria, Enzo fará com que você saia.

- Enzo? Quer dizer o vovô? - Rafe riu. - Isto é que chamo de ameaça, baby.

- Ele é mais homem do que você jamais será.

- É mesmo? - disse Rafe, sua voz ficando mais grave e perigosa. E, sem pensar, ele pegou-a pelos ombros e a levantou por sobre o painel, em direção a seu colo. Ela lutou, golpeou-o com os punhos, mas ele estava preparado. Pegou-lhe as duas mãos com apenas uma das dele, passou a outra mão pelo cabelo dela, inclinou-lhe a cabeça para trás e beijou-a.

Beijou-a como havia imaginado beijá-la, lá atrás na estrada. Ela lutou, mas sem resultado. Ele fervia de fúria e humilhação...

Fervia com a sensação de tê-la contra seu corpo. A boca macia contra a sua. Os seios, tentadores, contra a dureza de seu próprio tórax. As nádegas arredondadas se acomodando em seu colo.

O corpo dele reagiu quase imediatamente, seu sexo inchando de tal forma que teve certeza de que nunca o sentira tão grande ou pulsando com tamanha urgência. Ela sentiu isso acontecer, como poderia não haver sentido? Ele a ouviu emitir um gritinho de choque, sentiu o murmúrio contra sua boca. Os lábios dela estavam abertos e tentava mordê-lo, mas ele voltou a tentativa contra ela, usando isto como oportunidade para beijá-la mais fundo, para colocar sua língua mais dentro do sedoso calor da boca dela. Ela arfou novamente, fez um pequeno som de aflição... E então algo aconteceu.

A boca dela suavizou-se contra a dele. Adoçou-se. Tornou-se quente e desejosa, e o fato de saber que poderia tê-la aqui, agora, fez com que o corpo dele, já duro, se tornasse como de pedra. Soltou-lhe os pulsos, colocou a mão sob o blusão que ela usava e segurou o delicado peso do seio...

Os dentes dela se afundaram em seu lábio.

Rafe jogou-se para trás e pôs a mão na pequena ferida. Seu dedo saiu portando uma gota rubra.

- Porco - ela disse, com a voz tremendo. - Isto não se faz, porco sujo!

Ele a encarou, viu os olhos chocados, a boca tremendo, e recordou-se de seu pai lhe dizendo que qualquer homem pode penetrar na escuridão de uma paixão avassaladora.

- Ouça - ele disse. - Ouça, eu não quis...

Ela abriu a porta e disparou para fora do carro, mas não sem antes lhe lançar uma série de impropérios sicilianos.

Diabos, ele pensou, tirando o lenço do bolso e o passando contra os lábios. Talvez ele merecesse aquelas palavras.

Capítulo 3 3

Estaria o americano indo atrás dela?

Chiara corria cegamente em direção ao beco estreito que conduzia a uma há muito esquecida entrada para o Castello Cordiano. Ela seguia suas reviravoltas, que subiam de maneira íngreme em direção ao topo da montanha.

Ninguém sabia da existência daquela passagem. Ela a descobrira quando criança, escondida no armário do quarto de crianças com sua boneca preferida, para fugir da crueldade de seu pai e da religiosidade de sua mãe.

Tinha sido sua rota para a liberdade desde então, além do prazer adicional de fazer de bobos os homens de seu pai, quando parecia sumir por debaixo de seus narizes.

O beco terminava em um campo de arbustos e rocha escarpada. Uma grossa vegetação de arbustos e hera escondia a centenária porta de madeira que levava ao castelo. Ofegante, com a mão no coração, Chiara recostou-se sobre a porta e lutou para recuperar o fôlego. Ela esperou, então espreitou por uma fenda na folhagem intrincada. Grazie Dio! O americano não a havia seguido.

Agir como o bruto que era devia ter sido o bastante para ele.

Não havia surpresas ali. Ela sempre soubera como o mundo funcionava. Homens eram deuses. As mulheres suas empregadas. O americano cometera o deslize para recordá-la daquelas verdades da maneira mais crua possível.

Chiara tomou um longo e equilibrante fôlego, abriu a pesada porta e a cruzou. Seu coração não voltou ao batimento normal até que estivesse segura dentro do quarto e a porta fechada atrás dela.

Que desastre fora aquele dia!

Sim, ela havia se afastado do castelo como nunca antes, mas e daí? O plano de assustar o americano e o mandar correndo de volta havia sido um miserável fracasso. Pior que um fracasso pois, ao invés de assustá-lo, ela o havia enfurecido.

Irritar um homem daqueles nunca era uma boa idéia.

Chiara tocou seus lábios com a ponta do dedo. O sangue dele estava nela? Não, mas ela ainda conseguia sentir a marca da sua boca, ainda sentia seu gosto. A carne quente e firme. A rapidez de sua língua. A aterrorizante sensação de invasão...

E então, sem nenhum aviso, aquela sensação no seu baixo ventre. Como se algo estivesse lentamente pulsando no mais fundo de si.

Ela piscou e puxou ar para dentro dos pulmões. Não adiantava pensar sobre o ocorrido. O que importava era o que aconteceria a seguir.

Ela havia subestimado terrivelmente o americano.

Ele era muito alto. De físico muito esguio. Mas era mais que o visual que o separava daqueles homens que conhecia. Era... O quê? Suas roupas? O temo cinza, risca de giz que fora certamente feito sob medida? O Rolex de ouro que havia visto de relance em seu pulso bronzeado e peludo? Talvez seu ar de sofisticação. Ou sua autoconfiança.

Autoconfiança presunçosa, mesmo enquanto Enzo lhe apontara o revólver. Mesmo quando ela se lançara em suas costas. Mesmo quando cravara os dentes em seus lábios para encerrar aquela vil demonstração de dominação masculina do tipo eu-estou-no-comando-aqui. Aquele beijo quente e possessivo. Chiara se afastou da porta. Ela deveria trabalhar rápido. Dio, se o seu pai a visse agora...

Ela quase riu ao se despir daquele traje negro e camisa branca sem colarinho que Enzo encontrara para ela. Pensar sobre Enzo era o bastante para que parasse de rir. Que humilhação ele sofrera hoje. E se o pai descobrisse algum dia o que ele havia feito...

O velho era seu mais querido amigo. Seu único amigo. Fora motorista de seu pai quando ela era pequena e fora sempre gentil, mais gentil do que qualquer um, mesmo sua mãe. Mas sua mãe não havia sido feita para este mundo. Chiara tinha apenas vagas recordações dela, uma esguia figura de negro, sempre ajoelhada na velha capela ou sentada em uma poltrona debruçada sobre sua Bíblia, nunca falando, nem mesmo com Chiara, exceto para lhe sussurrar avisos a respeito do que a vida lhe guardava. Sobre os homens e tudo que eles queriam. - Homens são animais, mia figlia - ela lhe sussurrara. - Só querem duas coisas. Poder sobre os outros. E executar atos de depravação sobre o corpo de uma mulher.

Chiara chutou a roupa delatora para o fundo de seu armário, então correu para o banheiro antigo e girou as torneiras da banheira.

O que sua mãe lhe dissera era a verdade.

Seu pai controlava seus homens e seu vilarejo com mão de ferro. Em relação ao resto... ela já ouvira acidentalmente as piadas sujas dos homens de seu pai. Sentira os olhos deles deslizando sobre ela. Um em particular olhava para ela de um jeito que a nauseava.

Giglio, o braço direito de seu pai. Ele era uma enorme bolha de carne. Tinha lábios vermelhos e úmidos e seu rosto estava sempre suando. Mas eram os olhos dele que a faziam tremer. Eram olhos pequenos, próximos um do outro. Cheios de malícia, como os olhos de um javali que certa vez confrontara-se com ela na montanha.

Giglio passara a vigiá-la com uma audácia assustadora.

Certo dia, ao cruzar com ela, a mão dele encostara de leve nas suas nádegas e ele pareceu mantê-la lá demoradamente, de propósito. Ela arfara de susto e recuara. Seu pai estava no recinto. Será que ele não vira o que havia ocorrido? Por que ele não reagira?

Chiara livrou-se desta recordação ao afundar-se na banheira de água quente. Ela tinha coisas mais importantes com que se preocupar agora.

Enzo e ela tinham falhado. O americano manteria o compromisso marcado com o pai dela. A questão era, será que ele a reconheceria? Enzo poderia se manter longe dele, mas ela não. Afinal, ela era a razão pela qual o americano estava lá.

Ela estava numa vitrine. À venda, como uma cabra premiada.

Tudo o que podia fazer era rezar para que ele não a reconhecesse. Era possível, não? Ela estaria usando um vestido, seu cabelo preso para trás no coque usual, ela falaria de maneira suave, se comportaria com discrição e manteria os olhos no chão. Ela se manteria o mais invisível possível.

E mesmo se ele a reconhecesse, ela poderia rezar para que ele não a quisesse, mesmo que fosse uma honra para ele desposar a filha de don Freddo Cordiano.

Um homem como aquele certamente recusaria tal honra. Por que tê-la quando ele poderia escolher suas próprias mulheres? Embora considerasse repugnante toda aquela visível masculinidade, ela sabia que havia quem se fascinasse por aquele rosto áspero, por aqueles penetrantes olhos azuis, por aquele duro e forte corpo.

Aquele momento, quando ele a puxara para seu colo, quando ela o sentira por baixo de si. A recordação a fez tremer. Ela nunca havia imaginado...

Ela sabia que o órgão sexual masculino tinha aquela capacidade. Não era ignorante a este respeito. Mas aquela parte dele parecia ser enorme. Certamente um corpo feminino não podia acomodar algo daquele tamanho...

Uma batida soou à porta. Chiara se endireitou na banheira.

- Sí?

- Signorina, per favore, il vosíro padre chiede che lo unite nella biblioteca.

Chiara ficou imobilizada. Seu pai a queria ver na biblioteca. Estaria ele sozinho ou o americano teria chegado?

- Maria? È solo il mio padre?

- No, signorina. Ci è un uomo con lui. Uno americano. Ed anche il suo capo, naturalmente.

Oh, Deus. Chiara fechou os olhos. Não apenas o americano. Giglio estava lá também. Será que o dia poderia ficar pior?

Será que o dia poderia ficar pior?

Rafe sentiu um músculo pular em sua bochecha. Para que se preocupar em imaginar isto? O dia já havia piorado.

Ele tinha um não solicitado cálice de grappa na mão, um charuto gordo que havia recusado na mesa ao seu lado, uma horrenda massa de músculos e gordura chamada Giglio transbordando de uma cadeira a sua frente.

Cordiano havia apresentado o homem como seu sócio. Mas certo seria dizer que era seu capo. Aquele era só o apelido do dia para capangas.

Por alguma razão o Homem-suíno não gostava dele. Tudo bem. O sentimento era mútuo.

Além disso, Cordiano parecia decidido a contar intermináveis histórias autoenaltecedoras ocorridas nos gloriosos dias de sua juventude, quando homens eram homens e não havia nada que ninguém pudesse fazer a respeito.

As tentativas dele em fazer com que o assunto chegasse ao fim foram infrutíferas.

Após os apertos de mão e a cerimonial entrega de um charuto não desejado e a taça obrigatória de grappa, Rafe entregou a Cordiano a carta lacrada de seu pai.

- Grazie - disse o don e a jogou, fechada, sobre a mesa de trabalho. A cada vez que ele pausava para tomar fôlego, Rafe tentava apresentar a versão verbal do pedido de desculpas de seu pai. Sem sorte. Cordiano não lhe dava oportunidade.

Ao menos a proposta de casamento não fora mencionada. Talvez Cesare já lhe tivesse explicado que Rafe não se aproveitaria da generosa oferta de tomar para si a obviamente indesejável filha de seu velho inimigo.

- ...para você, signor Orsini.

Rafe piscou e se voltou em direção a Cordiano.

- Desculpe-me, o quê?

- Eu disse que este certamente foi um longo dia para você e aqui estou eu, lhe entediando com minhas histórias.

- O senhor não me entedia nem um pouco - disse Rafe e a seguir forçou um sorriso.

- A grappa não está a seu gosto?

- Temo dizer que não sou apreciador de grappa, don Cordiano.

- E também não um apreciador de charutos - disse Cordiano, com um rápido exibir de dentes.

- Na verdade... - Rafe pôs a taça sobre a mesinha ao lado da cadeira e se levantou. O Homem-suíno também se levantou. Basta, pensou, - Também não aprecio ser observado como se fosse roubar a prataria da casa, então peça para que seu cão de guarda relaxe.

- Claro. - O don deu uma risada, embora o som tenha sido notadamente soturno. - É apenas porque Giglio o vê como um concorrente.

- Acredite em mim don Cordiano, não estou nem um pouco interessado em tomar o cargo dele.

- Não, obviamente que não. Somente quis dizer que ele sabe que estive buscando uma maneira de agradecer a ele por seus anos de dedicação e...

- E tenho certeza de que encontrará uma recompensa adequada, mas não tenho nada a ver com isto. Estou aqui Um nome de meu pai. Eu agradeceria se pudesse ler a carta que ele lhe enviou.

Cordiano sorriu.

- Mas eu sei o que ela diz, signor. Cesare suplica meu perdão pelo que me fez há quase meio século. E você, Raffaele, posso chamá-lo assim? Você está aqui para me garantir que ele foi verdadeiro em cada palavra. Certo?

- É basicamente isto. Então, posso voltar para casa e informar meu pai de que as desculpas foram, aceitas? Porque está ficando tarde. E...

- Seu pai lhe contou o que fez?

- Não. Não me contou. Mas isto é entre você e...

- Eu era seu... suponho que você chamaria de patrocinador.

- Que bom para ambos.

- Ele devolveu minha generosidade roubando la mia fidanzata.

- Lamento, mas não falo...

- Seu pai roubou minha noiva. - O sorriso de Cordiano tornou-se frio. - Fugiu com ela no meio da noite, dois dias antes de nos casarmos.

- Não entendo. Meu pai tem uma esposa. Ela... - O queixo de Rafe caiu. - Você está dizendo que minha mãe estava noiva do senhor?

- Definitivamente estava, até seu pai roubá-la de mim. Toda aquela coisa de "escuridão de uma paixão" começava a fazer sentido. E agora? O que ele poderia dizer? Já era difícil imaginar um jovem Cesare, mas imaginar sua mãe como uma jovem fugindo com ele...

- Você achava que isto era sobre algo simples? - A voz do don era tão fria quanto seu sorriso. - É por isto que ele o enviou aqui, rapaz. Para oferecer um pedido de desculpas que valesse, um que eu poderia aceitar. Olho por olho. Esta é nossa maneira. Ou, agora que muitos anos se passaram, um feito por um desfeito. - Cordiano cruzou os braços. - Seu pai roubou minha noiva. Eu lhe mostrarei meu perdão ao deixar você tomar minha filha como sua. Está vendo?

Se ele estava vendo? Rafe quase riu. De jeito nenhum. Nem mesmo um gênio via qualquer lógica naquilo.

- O que vejo - disse secamente. - É que você tem uma filha da qual deseja se livrar.

O Homem-suíno fez um som com o fundo da garganta.

- E, de alguma maneira, você e meu velho confabularam este esquema absurdo. Bem, esqueça. Isto não irá acontecer.

- Minha filha precisa de um marido.

- Tenho certeza de que precisa. Compre um, se isto for necessário.

A montanha de músculos rosnou e tomou um passo à frente. Rafe podia sentir a adrenalina pulsando. Droga, pensou, olhando o capo, ele poderia fazer mais do que dar uma boa luta. Irritado do jeito que estava, ele poderia derrubá-lo.

- Tenho a palavra de seu pai sobre este assunto, Orsini. - Então você não tem nada, pois não é da palavra dele que precisa e sim da minha. E posso muito bem lhe assegurar que...

- Aí está você - disse Cordiano com força, olhando para além de Rafe. - Demorou demais para obedecer minhas ordens, menina.

Rafe se virou. Havia uma figura na porta. Chiara Cordiano chegou para se juntar a eles.

- Virou pedra? - disse o don rispidamente. - Entre. Há um homem aqui que quer conhecê-la.

Até parece, quase disse Rafe, mas lembrou a si mesmo que nada disto era culpa da menina. Na verdade, sentiu um arremedo de pena por ela. Já deduzira que ela deveria ser sem graça. Talvez pior que isso. Talvez tivesse verrugas do tamanho de melancias.

Ela também era uma mulher derrotada. Tudo nela deixava claro isso.

Sua cabeça estava inclinada, mostrando um negro cabelo preso num coque apertado. Suas mãos cruzadas à frente, descansando sobre a cintura, se ela tivesse uma. Era impossível dizer, pois seu vestido não tinha forma, negro e feio como seus sapatos. Sapatos de cadarço, ele pensou com incredulidade.

Não conseguia ver seu rosto, mas não precisava vê-lo. Deveria ser tão simplório quanto o resto dela. Não era de estranhar que seu pai estivesse querendo dá-la. Nenhum homem em sã consciência iria querer uma mulher patética como aquela em sua cama. O.k. Ele seria educado. Poderia fazer isto por ela, pensou, e abriu a boca para dizer olá. O Homem-suíno antecipou-se a ele.

- Buon giorno, signorina - disse o capo

Rafe viu um tremor passar através dos estreitos ombros dela.

- O signor Giglio falou com você - o don disse rispidamente. - Onde estão seus modos?

- Buon giorno - disse ela suavemente.

Rafe curvou a cabeça. Havia algo de familiar na voz dela?

- E você não cumprimentou nosso hóspede, signor Raffaele Orsini.

A mulher inclinou a cabeça. Não foi fácil de fazer, o queixo já estava quase em seu peito.

- Buon giorno - sussurrou.

- Em inglês, menina.

Rafe sentiu outro surto de simpatia. A pobrezinha estava aterrorizada.

- Tudo bem - ele disse rapidamente. - Não sei muito italiano, mas consigo fazer uma saudação. Buon giorno, signorina. Come sta?

- Responda a ele - ladrou Cordiano.

- Estou bem, obrigada, signor. Definitivamente havia algo de familiar na voz dela...

- Por que está vestida assim? - seu pai reclamou. - Você não vai para um convento. Vai se casar.

- Don Cordiano - disse Rafe rapidamente -, já informei ao senhor...

- E por que está parada aí com a cabeça abaixada? - Cordiano agarrou a filha pelo braço, seus dedos apertando-a com força. Ela recuou, e Rafe deu um passo à frente.

- Não - ele disse calmamente.

O capo saltou à frente, mas Cordiano levantou a mão.

- Não, Giglio. O signor Orsini está certo. Ele está encarregado destas coisas agora. É direito dele, e apenas dele, disciplinar a noiva.

- Ela não é minha... - Rafe deu uma rápida olhada na mulher, então baixou a voz. - Já lhe disse, não estou interessado em desposar sua filha.

Os olhos de Cordiano endureceram.

- Esta é sua palavra final, Orsini?

- Que tipo de homem é você, para fazer sua filha passar por algo assim? - disse Rafe com raiva.

- Eu lhe fiz uma pergunta. Esta é sua palavra final? Poderia algum homem se sentir pior do que Rafe se sentia agora? Ele odiava o que Cordiano estava fazendo com a menina. E por que diabos ela não dizia nada? Ela era dócil ou burra?

Não é assunto meu, disse a si mesmo, e olhou para Freddo Cordiano.

- Sim - disse com voz rouca -, é minha palavra final.

O Homem-suíno deu uma risada. O don deu de ombros. Então agarrou o pulso de aparência delicada da filha.

- Neste caso - disse -, dou a mão de minha filha a meu fiel braço direito, Antônio Giglio.

Finalmente, a mulher levantou os olhos.

- Não - ela sussurrou. - Não - disse novamente e o grito cresceu, ganhou força, até tomar-se estridente;

Não! Não! Não!

Rafe a encarou. Obvio que sua voz era familiar. Aqueles grandes olhos violáceos. O nariz pequeno e reto. As maçãs do rosto esculpidas, a inebriante boca rosada...

- Espere um minuto - disse. - Espere apenas um maldito minuto...

Chiara voltou-se na direção dele. O americano sabia. Não que isto importasse. Ela estava encurralada. Encurralada! Ela tinha de fazer alguma coisa...

Desesperada, soltou a mão da de seu pai.

- Vou lhe dizer a verdade, papa. Você não pode me dar a Giglio. Veja... veja, eu e o americano já nos conhecemos.

- Pode ter certeza que sim - disse Rafe, furioso. - Na estrada para cá. Sua filha saiu do meio das árvores e...

- Só queria cumprimentá-lo. Como um gesto de... boa vontade. - Ela engoliu em seco. Seus olhos encontraram os de Rafe. - Mas... mas ele... ele abusou de mim.

Rafe pulou em direção a ela.

- Tente contar a seu pai o que realmente ocorreu!

- O que realmente aconteceu - ela disse com um sussurro tremido - é que... é que bem ali, no carro dele... bem ali, papa, o signor Orsini tentou me seduzir!

Giglio soltou um palavrão. Don Cordiano urrou. Rafe teria dito: Você é maluca, todos vocês são. Mas os negros cílios de Chiara Cordiano tremeram e ela desmaiou, caindo direto nos braços dele.

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