A paixão é avassaladora quando chega junto com o som da tempestade.
Prólogo
Jantar no restaurante Terraço Itália- SP
O restaurante que frequentaram juntos, agora ficaria apenas nas recordações. Na mente e no coração daquela mulher.
Aquele espaço foi tudo o que os dois amantes precisavam para terem a companhia um do outro no final do dia e sem os olhares curiosos.
Dinah tinha uma aparência tranquila mesmo sabendo como tudo iria terminar, era uma despedida.
Ele iria deixá-la.
- Então, eu posso ir mesmo?
- Você é livre, sempre foi e nunca neguei isso – Ela conseguiu sorrir após saborear o vinho predileto de Benicio, mas por dentro, o seu coração gritava para aquela ideia ser adiada.
O olhar de Benicio, carregava um misto de surpresa e confusão, porém o seu tom de voz era firme.
- Você me deu tanto durante esse tempo e aprendi tanto ao seu lado.
- Você quase correu de mim.
- Sim. Eu corri e voltei e não me arrependi.
- Fico feliz. E agora está pronto, pode seguir o seu caminho... Aquele último comercial é um grande sucesso.
-Tudo está acontecendo e é incrível – Ele a analisava, os olhares não se encontravam, ela não permitia - Você poderia aceitar aquele convite da exposição que a minha agência está cuidando, na próxima semana – insistiu.
- Sabe como é a minha agenda, mas quem sabe eu apareça – ela respondia quase que pausadamente já que por dentro gritava:
Vá embora logo!
- Você está linda esta noite, aliás todas as noites e os dias...
O sorriso dele era tentador, o mesmo sorriso que encantou Dinah desde a primeira vez que os seus olhos pousaram sobre ele.
Dinah precisa sair daquele lugar.
- Sempre gentil. Bem, como o nosso jantar era apenas uma pequena despedida, creio que não vai se importar de eu ter que deixá-lo aqui. Sabe como sou e tenho pilhas de relatórios e reuniões me esperando amanhã bem cedo na empresa.
- Claro. Eu sei sim e se quiser posso acompanhá-la.
- Não precisa, o Saulo está me esperando.
Benicio levantou junto com ela, a conversa ainda não tinha terminado e sentia que ela queria ir mesmo embora.
- Eu desejo todo sucesso do mundo para você.
- Obrigado, Dinah... Por tudo.
Dinah foi se afastando lentamente e não se deixou tocar, pois a ideia de sentir a pele dele na sua poderia fazer com que desistisse de tudo e esquecer aquela dor que vinha sentindo desde o momento que soube de tudo.
Dinah partiu, pisando firmemente no carpete vermelho com o seu salto francês ponta agulha que tinha comprado na sua última viagem à França. Para aquela noite, tinha escolhido um belo longo negro que modelava o seu corpo. Caminhando em direção ao elevador, em nenhum momento, voltou-se para olhar na direção de Benicio.
Porque esse poderia ser um sinal que ele aguardava dela.
Dinah entrou no elevador ainda em transe, segurando as emoções que agitavam o seu corpo. Estava tão absorvida por seus pensamentos que só reparou que a porta do elevador já estava aberta quando sentiu o ar gelado tocar o seu rosto.
Agora, ali na garagem, viu o seu fiel escudeiro motorista, Saulo que a aguardava como tinha sido ordenado. Aquela saída era discreta e eficaz para muitos clientes do lugar.
O motorista quando a avistou sozinha, mudou o olhar pois esperava ver uma outra cena, então logo se recompôs e abriu a porta de trás da SUV- Honda Urban para que a sua patroa entrasse e assim deixarem o famoso edifício.
O homem não fez nenhuma pergunta e seguiu de volta para o Tower Garden, residência de Dinah Fontanne.
Dinah passou o tempo todo olhando as paisagens da cidade cinza e as luzes que clareavam parte da escuridão do carro, e foi observando o contraste da cidade que deixou as lágrimas descerem.
Ela, que sempre esteve no controle de tudo, sempre foi dona das cartas marcadas, agora sentia-se sem chão.
Ela nunca conheceu o amor de verdade e começou a rir de si mesma, pois pensava como a vida era irônica em só mostrar agora que Benicio era apaixonante.
Quase um ano de relacionamento que poderia acabar a qualquer momento, que tudo era resumido nos pequenos momentos e prazeres da vida, e por tanto negar o que ele queria, agora ela seguiria como sempre foi, sozinha.
Tudo tinha um fim.
E o caso deles não seria diferente, ainda mais com uma terceira pessoa entre eles, a qual Dinah não queria enfrentar.
- O carro já está pronto, senhora.
- Obrigada.
Dinah, aquela noite vestia um longo vermelho, sem mangas e sem decotes, o tecido macio em dress e seda se ajustava levemente sem comprometer o andar da empresária.
Aquela noite participaria de um grande jantar, uma grande premiação dedicada aos melhores empreendedores do ano - Ela detestava – Mas, a sua empresa seria uma das premiadas naquela noite, o ramo imobiliário sempre foi rentável e muito glamoroso para quem sabia a direção.
A empresa Assunção Fontanne já passou por vários comandos e nos últimos anos, vinha sendo dirigido por uma mulher, a viúva de Arthur Assunção Fontanne, Dinah.
Um pouco antes de ter sido interrompida por sua governanta, Dinah fitava a vista panorâmica da cidade, pela janela de sua suíte. Agora, quase pronta para o grande circo no qual enfrentava sempre sozinha, antes de pegar a pequena bolsa toda costurada em perolas brancas, borrifou levemente o seu perfume francês N.º 5 – Chanel em sua pele sedosa e assim que sentiu-se um pouco mais segura, deixou a suíte, logo a cobertura, um duplex em um bairro nobre da cidade.
Dinah era uma mulher linda aos trinta e cinco anos e muito dona de si, imitada e odiada por algumas pessoas, mas era a vida particular dela que era sempre um mistério, pois era sempre vista só em viagens e convenções. Parecia que não tinha vida amorosa e apenas era vista ao lado dos colegas empresários que herdara do marido. Tudo muito profissional e social.
Dinah tinha uma vida vigiada pelos inimigos e era ciente disso, por isso, tudo era feito discretamente quando nascia algum interesse imediato.
O prêmio Olintho Barros, era um dos mais aguardados pela cúpula dos altos executivos e investidores do país sendo que no dia seguinte, as empresas estariam estampadas na capas de jornais e sites importantes.
A festa aconteceria em um grande e moderno teatro que tinha sido arrendado por um banco estrangeiro. A premiação tem uma tradição de mais de cinquenta anos e a cada ano surgem presenças ilustres como chefes de Estado, artistas e empresários de outros ramos e nacionalidades, deixando a imprensa agitadíssima.
Dinah, quando chegou ao evento, todos os flashes inclinaram-se em sua direção, era seguida por várias vozes que perguntava diversas coisas, uns querendo uma foto, outros pedindo um sorriso, ela agradeceu mentalmente ao motorista e uma Hostess do evento que a tiraram daquele pequeno tumulto na portaria do teatro.
O seu lugar já estava reservado, a sua mesa seria compartilhada com os Villares Cintra e também tinha a presença de um dos seus advogados da Fontanne.
O jantar corria sem maiores novidades, sorrisos falsos, aplausos sem tantas emoções e o pior daquilo tudo era ouvir os premiados com os seus discursos emblemáticos para uma plateia rica e levemente apática, porque a matemática dos negócios seguia com o seguinte fins: se um está ganhando é que muitos outros estão perdendo.
A cada premiação, um casal ligado à mídia fazia as apresentações. Em alguns casos, alguns eram atores ou modelos, pessoas bonitas que o público apreciavam em ver nas telas e nas revistas.
Aquela noite para Dinah já estava mais que fadada, tanto que já tinha pedido para o advogado representá-la no palco quando a Fontanne fosse receber o último e mais aguardado prêmio da noite. Até aquele momento, a empresa já tinha conquistado dois como dizia na lista que Dinah tinha recebido semana passada com os nomes de todos os premiados.
- Tem certeza, Dinah?
- Sim, e também estou com um pouco de dor de cabeça. Receba logo esse prêmio para eu poder ir embora.
O advogado apenas assentiu à ordem.
Quando, de repente um homem, visivelmente atraente, dono de uma bela postura, alto e usando um belo terno preto, entra no palco para anunciar o próximo prêmio.
Dinah gostou muito do que viu e o analisou discretamente, a sua visão era privilegiada por estar perto do palco o que a levou a não perder nenhum gesto ou sorriso daquele homem desconhecido.
Mesmo não sabendo nada a respeito sobre o jovem homem, uma coisa Dinah tinha certeza: ela queria aquele homem.
***
- Eu diria que você é um galã!
- Não sei onde estava com a cabeça quando aceitei esse convite.
- Vamos Benicio! Precisamos de mídia e de novos contatos e com você amanhã nas redes sociais, o nosso escritório vai decolar!
O amigo Guilherme era de tal animação que Benicio não queria cortar.
- Encarar uma plateia eu encaro, agora, ficar olhando para um monte de endinheirados metidos à besta que só sabem falar de economia e fumar charuto não era bem a mídia que eu pensava.
- Cara, relaxa! E também é só por hoje, é só fazer de conta que está em um daqueles eventos com a sua mãe...
Benicio fitou-se no espelho e gostou do que viu, na verdade lembrou-se de um passado familiar não distante e o glamour que compartilhou ao lado da mãe, uma atriz de teatro muito famosa e premiada.
- É apenas mais um trabalho – dizia para si mesmo - Nada de atuar e seja você mesmo.
Esse era o seu novo mantra que usava todos os dias.
Ele que fugiu dos palcos para a tristeza de sua mãe, para viver num mundo bem diferente. Às vezes, as aulas da escola teatral até que o ajudavam e muito, principalmente quando se encontrava em um ambiente que não o agradava.
Benicio Pavano era filho de artistas estrangeiros, apesar de ter vivido em várias cidades, passou boa parte da vida lendo clássicos e aprendendo novas línguas. Os palcos nunca estiveram seus planos. Quando formou-se em Comunicação e Marketing, recebeu uma proposta para trabalhar na equipe de um milionário que tinha intenções políticas, o filho de Margo Pavano ficou apenas três meses no cargo e comprou uma passagem para morar no Brasil e viver na cidade de São Paulo.
Agora, sócio da agência Dois Cubos com o amigo Guilherme, tinham apenas conquistados três clientes e o objetivo da dupla era crescer no mercado. Primeiro a ideia era focar na mídia social, voltando para um público jovem, mas a concorrência é desleal, então estavam pensando em novos contratos que envolvessem mídia social e urbana.
Contudo, a ideia de voltar para a Espanha, estava cada vez mais distante.
Quando chegou em terras brasileiras, já conhecia bem o idioma. Ainda na adolescência, morou no Sul com a família da mãe durante um ano e o sotaque foi se dissipando aos poucos. Sem namorada e focado na abertura da agência, era sempre paquerado na academia ou em algum barzinho, em algumas dessas vezes saiu com belas mulheres, porém logo o interesse acabava e ele seguia a sua vida.
Benicio recebeu aquele convite no início da noite, seria para cobrir um casal que não chegaria à tempo, o fato de ser ligado a várias pessoas de bastidores por conta do parentesco familiar ou por criar novos campos de amizade, a organizadora daquele evento implorou por sua presença.
-Você é o próximo - disse a mulher bem alinhada segurando a cortina - Aqui está o premiado da noite - a organizadora passou o envelope dourado para Benicio - É o mais esperado e o último prêmio da noite, depois disso podemos beber a vontade - a mulher era simpática, apesar do estresse da noite.
- Obrigada mais uma vez Benicio... Um, dois, três. É com você.
Benicio entrou no palco com passos firmes e decididos, as luzes do palco e os cliques dos fotógrafos que andavam apressadamente para acompanhá-lo. O seu olhar para aquela plateia era uma incógnita, assim parou o corpo atrás do púlpito de vidro.
- Boa noite senhoras e senhores, é um prazer estar com vocês em um evento desta magnitude. Acredito que todos estão ansiosos para saber qual é o último premiado da noite – apesar da simpatia era nítido o tamanho desconforto, tanto que na hora que abriu o envelope, o seu tom de voz não tinha mais brincadeiras ou sorrisos - A empresa vencedora que vai levar o troféu Olintho Barros para casa como a melhor do ano de dois mil e quatorze é o Grupo Arthur Fontanne.
O som dos aplausos foram elevados.
E todos os olhares focaram em uma mulher, que foi iluminada por uma luz prata.
Enquanto isso Benicio batia palmas para uma direção qualquer.
***
"Quem é ele?"
Dinah sabia que estava sendo observada e odiada por boa parte da plateia de empresários, só que quem mais a interessava tinha um olhar distante, indiferente. E isso a intrigou ainda mais, enquanto sorria para os mais próximos e o advogado da empresa subia ao palco para receber o prêmio, deslocando assim a atenção sobre ela e passando para o palco.
- Por que nos privou de tamanha beleza, essa noite é sua, minha cara.
As palavras do velho Cintra, foi sim de forma amigável e até arrancou um sorriso da loira.
- Que gentileza... A noite é da Fontanne, por isso, deixarei o meu fiel escudeiro da lei me representar.
- É uma pena para os jornais de amanhã.
- Eles já devem ter um arsenal de fotos minhas em seus computadores- respondeu sorrindo ao casal que já tinha quase cinquenta anos de matrimônio.
Dinah sempre tinha uma resposta afiada e um belo sorriso para os seus ouvintes, até para aqueles que eram mais íntimos, afinal foi treinada para ser uma Fontanne.
O advogado do grupo, era Plinio Correia, um homem honesto e de família, além de muito fiel a atual presidente da Arthur Fontanne que vinha sofrendo certo desconforto como membro da família do falecido marido.
No palco, Plinio cumprimentou o rapaz e de forma polida fez um breve discurso e agradeceu os esforços da nova diretoria por todas as conquistas agraciadas nos últimos anos.
Mais uma vez o holofote iluminou Dinah e a imagem feminina refletiu no telão.
Foi ali que os olhares se cruzaram, por poucos segundos.
E a festa começou!
Dinah demorou para encontrá-lo novamente, eram tantos colegas, mídias e curiosos que acabou demorando em deixar o salão e chegar até o setor privativo que acontecia a festa do evento.
Entre alguns parabéns e leves ameaças cordiais e normais do mundo dos negócios, Dinah e o seu advogado chegaram ao salão.
- Vai ficar um pouco mais?
- Apenas mais alguns minutos...
Dinah o avistou perto do bar conversando com um casal, a conversa parecia um tanto amistosa entre goles e risadas.
- Fico preocupado em deixá-la aqui.
- Plinio, aqui estou segura, pode ir e amanhã tudo volta ao normal. Eu quero apenas terminar esta bebida e bater papo com uma amiga.
Plinio a olhou estarrecido, mas se convenceu quando uma mulher baixinha e de corte chanel veio correndo em direção de Dinah, com sorrisos e abraços.
- Dinah! Belíssima festa e os prêmios da Fontanne! Que orgulho dessa mulher.
- Bondade sua... Olha quando acontecer o próximo chá das mulheres não esqueça de me chamar.
- Querida, o seu pedido é uma ordem. Aliás, sempre comunico a sua secretária que sempre fala que sua agenda é cheíssima...
- Ah, isso vai ter que mudar...
O advogado sabia que a chefe odiava aquele tipo de bajulação, mas não sabia quais as reais intenções da mulher, então se calou e se despediu deixando a chefe, ali entregue ao círculo social.
Dinah, fitou Benicio novamente, mas este não a enxergava de maneira alguma.
Então, veio um dos planos mais ridículos e talvez eficaz num lugar como aquele, mesmo não sendo mestre em simular, porém lembrou-se que uma vez funcionou com uma amiga do colégio e então colocaria em prática. Até mesmo por que não aguentava a conversa da mulher.
A loira se posicionou próximo ao trio e ouvindo a conversa do pequeno grupo que a mulher de corte chanel reunia ali em sua volta, foi então que, discretamente tirou um dos brincos e o deixou cair no chão. Com um toque do salto, empurrou na direção do trio, isso tudo bem discretamente e no tempo certo de agir.
- Querida, cadê o seu brinco?
Dinah fingiu não entender e passou os dedos na orelha esquerda.
- Óh, deve ter caído...
- Eles estavam agorinha aí, vamos procurar... Pessoal, vamos abrir espaço. Uma pérola caiu no chão... Um brinco lindíssimo. Vamos por favor, todos olhem no chão.
Algumas pessoas começaram a se mobilizar e a procurar entre eles garçons e até o casal, mas o rapaz foi que ficou parado, olhando aquele murmúrio que começou atrás das suas costas.
Benicio olhando aquela situação parou e fitou Dinah que parecia bem preocupada.
Dinah fingia bem.
Benicio deu dois passos para frente e encontrou a pérola, abaixou-se e pegou o brinco.
-Deve ser isso que procura.
Agora, Dinah teria tempo para avaliar melhor, o homem de ombros largos, de traços finos e olhos verdes, os fios do cabelos devidamente disciplinados.
- Sim, você a encontrou. Obrigada.
- Amiga que sorte! – disse a moça que mobilizou a todos minutos antes- Dinah é uma mulher de sorte... O caso aqui foi resolvido, querida. Eu já volto.
Dinah ainda o analisava.
- Parabéns pelo prêmio... O que é um grande prêmio perto de uma simples pérola – Benicio tinha um tom muito irônico e o que era para afastar a ricaça acabou criando um efeito ao contrário.
- Os dois tem valores, cada um ao seu modo- respondeu Dinah - Se fosse só pela sorte, essa já teria acabado porque já passa da meia-noite.
Aquelas últimas palavras da empresária, saíram sem querer, mas, para o jovem rapaz não surtiu efeito algum.
- Bom, mais uma vez, parabéns.
- Obrigada. Agradeço também por ter encontrado o meu brinco, boa noite.
- Boa noite.
Dinah não iria insistir, não ali naquela festa, e viu que teria que usar a estratégia que usava sempre. Educadamente deu 'boa noite' a todos e se retirou do lugar, quase escoltada pela mulher que a 'ajudou' sem querer na sua aproximação.
- Esse homem que achou o seu brinco, que homem lindo! Meu marido que não me escute – dizia rindo e se abanando com a mão esquerda.
- O que tem esse rapaz? – fingiu o desinteresse enquanto aguardava o motorista.
- Ele é publicitário, morava na Espanha... É filho de artista, acho que até já fez cinema quando era mais jovem... Ele se chama Benicio; Benicio Pavano.
- Nunca o tinha visto antes – ainda mantinha a falta do interesse
- Deveria sair mais vezes... Você é viúva, não está morta e é linda.
- Os negócios não me permitem e também jovens aventureiros não me agradam tanto...
- Homens como era o seu marido não existem mais... É uma pena, minha querida.
Dinah mudou o olhar ao ouvir aquelas palavras e pensou
Você não sabe de nada...nada.
Quando para o seu alivio, o seu carro chegou. Assim ficaria longe daquela bajulação noturna, levando consigo um nome, um alvo.
E no conforto do seu carro a caminho da sua casa, pensava em apenas um nome
"Benicio Pavano"
***
Dois dias depois...
- Aqui está o que pediu.
Plinio deixou a pasta vinho em cima da mesa de Dinah, assim que todos os diretores deixaram a sala de reunião.
- Como está o andamento da compra daquelas terras no Paraná? Já foram todos removidos?
- Estamos em finalização.
- Sem a força policial, assim espero.
- Aquela vez foi necessária, Dinah... As terras tinham sido invadidas e já pertencia ao grupo Fontanne.
- O problema depois é ter que fazer acordos com os abutres, abafar o caso com a imprensa e nas redes sociais. Odeio ter que fazer isso.
Plínio continuava em pé no meio daquela sala confortável, decorado por profissionais competentes. Esse foi o primeiro luxo que Dinah promoveu na Fontanne, mudando a sala e as áreas dos demais departamentos que pareciam sem vida e cores.
Depois mudou algumas direções, trazendo assim admiração de muitos e certos ressentimentos de outros.
Dinah parou de falar e olhou para a pasta, aquela pasta era um código, apesar de ter mais de dois anos que Plínio não entrava mais com aquela pasta na sala da presidência.
Plínio deu alguns passos para a porta de saída, mas antes de sair falou em um tom preocupado e deixou-a em cima da mesa.
-Tome cuidado.
-Você sempre fala isso e eu sempre digo que estou bem segura.
-Ele é diferente- disse Plínio.
Dinah pegou a pasta e não abriu, e curiosa o questionou:
-Diferente como? Gay?
-Não. Não se trata disso, ele é heterossexual. O que quero dizer é que ele não é ambicioso, a vida do rapaz é estável, digamos que ele quer mostrar para o mundo que pode conseguir as coisas pelo lado do bem, sabe... Ele é um sonhador.
Dinah abriu a pasta e viu a foto do Benicio numa campanha publicitária de óculos de sol de uma marca bem famosa, de alguns anos atrás. Ali naquelas folhas brancas, cheias de palavras, tinha escrito tudo que precisava saber. E, com um sorriso misterioso, a empresária disse:
-Gosto de homens sonhadores.
Plínio concordou balançando a cabeça e deixou a sala da presidência. Passou pela secretária e a avisou para não incomodar a Dinah nos próximos dez minutos, não passar ligações ou avisar da próxima reunião e que segurasse tudo até a dona da Fontanne a chamar.
A secretária executou a ordem sem maiores problemas.
Enquanto isso, Dinah começou a ler com maior atenção, como se estivesse com um contrato minuciosamente importante e de maior sigilo. Ali, na verdade, era um resumo da vida do seu mais novo pretendente.
E assim que leu, logo traçou um plano e continuou a sua rotina daquele dia, mas uma coisa era certa, ela queria vê-lo mais uma vez.
Um convite para dois.
Benicio fitava aquele convite há mais de dez minutos e ainda não sabia o que fazer. Era um pouco mais das seis da tarde e a agência já estava fechada e aquela noite não estava querendo nem ir ao barzinho, nem à academia.
Ele tinha em mãos um convite para um jantar na cobertura de Dinah Fontanne, a mulher que foi a grande premiada daquele evento e que perdeu o brinco bem perto de onde ele estava. Só que o que ele viu naquela mulher, além de beleza e classe, pode também sentir ambição.
E aquele jantar, o que poderia significar?
Mas, Benicio era um homem curioso apesar do seu modo como lidar com as situações da vida, principalmente a profissional. Aquele ero o único jeito de descobrir o que aquela empresaria queria.
Assim que decidiu, pegou o seu blazer esporte que estava no encosto da cadeira e vestiu por cima da camisa azul, pegou as chaves e deixou o escritório.
O trânsito daquela noite não estava tão carregado, chegou rapidamente ao bairro luxuoso e na hora marcada.
O edifício Garden era um dos mais modernos e discretos daquela região.
Benicio chegou e sua entrada foi liberada sem restrição desde a portaria até a cobertura, mas tudo era gravado pelo circuito de segurança.
Quando chegou foi recebido pela governanta.
- A dona Dinah está em um ligação. Ela logo irá recebê-lo. Entre e fique à vontade, senhor Pavano.
- Obrigado.
Benicio olhava em volta todo aquele ambiente e não se intimidou, ainda mais por ter sido criado no conforto até os dezesseis anos de idade, foi quando pediu para ser emancipado pela mãe para poder trabalhar e viajar para onde quisesse. Agora com trinta e dois anos, não estava arrependido de nada.
Mas, àquela curiosidade sobre aquele jantar e aquela mulher, era isso que ainda não estava entendendo. Apesar de já ter aceitado e agora estava ali, naquele apartamento luxuoso, esperando-a.
Dinah... Dinah Fontanne... O que essa mulher quer?
***
Dinah o observou por uns longos dez minutos enquanto ele estava ali parado na sala espaçosa, cheia de quadros e espelhos, peças de artes e um sofá de couro. Em algumas vezes, ela gostava de observar as pessoas que esperavam para serem atendidas, apesar de não gostar do voyeurismo, mas era como se pudesse ler o corpo das pessoas e através disso, descobrir algo a mais.
Aquela noite, ela escolheu um vestido de tecido leve até a altura dos joelhos, o cabelos estavam soltos e levemente ondulados, perfumada e sem nenhum joia.
- Boa noite, Benicio. Bem-vindo a minha casa.
Dinah estava parada um pouco atrás dele, aproveitando o momento que ele distraidamente analisava um dos quadros.
- Boa noite e agradeço o seu convite, apesar de que estou um pouco curioso sobre o motivo do jantar.
- Sim, eu sei que está. Não gostaria de sentar?
Dinah indicou para que se sentasse, assim, fez o mesmo na outra ponta.
Lena, retornou à sala trazendo uma bandeja com champanhe dentro de um balde de inox e duas taças e se retirou rapidamente.
- O meu assunto pode parecer um tanto estranho, porém se me ouvir até o final e quando compreender melhor o meu convite, todo esse receio vai desaparecer.
Benicio a analisava e estava mesmo curioso, só não sabia se poderia confiar naquela bela e sedutora mulher.
- Então vamos ao seu assunto.
Dinah seria bem direta para derrubar toda aquela confiança que Benicio ali nutria.
- Você está livre?
Benicio apertou um pouco os olhos, inclinou a cabeça olhou para o lado e voltou a encará-la. Era como se não tivesse compreendido aquela pergunta.
- Eu não entendi muito bem, dona Dinah.
- Primeiro, não precisa me chamar de dona ou senhora, nada disso, e você entendeu o que eu quis dizer, Benicio. Gostaria de saber se aquela atriz que passou o verão ao seu lado, ainda é algo duradouro.
- Como sabe dos meus relacionamentos?
- Digamos que preciso me inteirar melhor das pessoas em minha volta.
- Ah... Isso deve ser uma espécie de brincadeira, o seu marido sabe deste jantar?
- Sou viúva.
- Sinto muito, eu não sabia...
- Não precisa sentir nada, apenas responda a minha pergunta, Benicio.
- Achei que fosse um jantar de negócios.
- E será, quando começarmos a conversar melhor.
Mesmo assim Benicio ainda não tinha relaxado nem um pouco.
- Benicio, naquela festa eu estava com um grupo de empresários e era uma noite importante para a empresa e nada poderia sair errado naquela noite. E hoje, você está aqui. Sei que não me conhece, mas eu sei um pouco sobre você e gostei do que li. E o que eu quero perguntar, ou melhor, a proposta que tenho pra você é rápida, simples e muito objetiva.
Benicio continuou em silêncio, mas a encarava.
- Eu quero você.
Ela foi direta, sem tremer a voz e o seu olhar sempre direto nos olhos daquele homem.
Benicio demorou para compreender, sentiu a boca secar e o seu olhar se perdeu por alguns segundos.
- Desculpe, acho que não entendi muito bem.
- Eu vou explicar. Eu não quero que trabalhe para mim, mas vou precisar de você, sou uma mulher muito ocupada, passo horas em reuniões, longos jantares e poucas viagens de lazer, mas eu preciso relaxar, existem alguns clubes ou serviços para isso, porém não sou adepta. Eu prefiro escolher e fazer uma proposta amigável.
- É um caso? Você quer ter um caso comigo?
- Exatamente.
Benicio ficou agitado, levantou-se e andou de um lado para o outro.
- Isso não tem sentindo algum, você não me conhece e eu não a conheço.
- Eu li algumas coisas sobre você. Sei que é filho de uma atriz de teatro, nasceu na Espanha, morou por aqui e saiu de casa muito jovem, já fez campanhas publicitárias e tem uma agência de publicidade chamada Dois Cubos. Nunca foi casado, não tem filhos e aparentemente está solteiro.
- Eu não estou a venda.
- Mas, a sua agência só tem dois fiéis clientes e eu posso mudar esse quadro. E outra coisa, não se trata de venda, é apenas um acordo, um tempo para que possamos nos conhecer, mas veja bem não é um namoro e sim um acordo de duas pessoas adultas e desprendidas.
- Sexo.
- Sim.
Os olhares cruzaram-se. De um lado o fogo de uma decisão e do outro, ainda com muitas dúvidas e uma leve ironia.
- Sinto muito, Dinah Fontanne, mas comigo as coisas não funcionam assim. Daqui a pouco, você aparece com roupas de couro e um chicote na mão achando que sou um brinquedo para satisfazer as suas vontades sexuais.
Dinah riu, na verdade segurou a risada alta e divertida que há muito tempo não dava.
- Não, Benicio! Não, isso não é um contrato de dominante e submisso, fique tranquilo. Essa foi engraçada.
- Mesmo eu ter feito você rir, minha resposta ainda é não.
Dinah então respirou, ajeitou-se melhor no confortável sofá.
- Eu ainda não quero desistir de você.
- Isso é alguma brincadeira?
- Não é uma brincadeira, porém pode ser um bom acordo para os dois. Eu posso ajudar nos seus negócios.
-Você estaria me comprando.
- Digamos que posso ser uma conselheira de negócios e levar você ao lugar que tanto deseja e nunca, ninguém irá saber da gente. Seremos discretos e prometo não invadir o seu espaço.
Os olhos de Benicio escureceram.
- Você quer a mim e a outros homens também?
- Se caso você ficar comigo, só serei sua da mesma forma que espero que fique só comigo, mas depois de um tempo você estará livre.
- A sua proposta é muito indecente. Você é bonita, é rica e não precisa nada disso.
- Quem decide isso, sou eu.
- Você só tem relacionamentos assim? Cercando, estudando e oferecendo coisas, isso é errado sabia?
- Benicio, eu só quero que fique um tempo ao meu lado, o que pode ser dias, semanas... Deixa o tempo rolar e tenho certeza que quando menos esperar, você e sua empresa crescerá e muito.
- Uma troca, por sexo? É isso?
Dinah olhou para Benício que agora estava em pé quase na sua frente.
- Eu diria uma troca de interesses incomuns. Vai ser divertido, Benicio, acredite.
- E o que eu teria que fazer? Por exemplo, agora?
- Fique sem roupa.
Benício ficou olhando para Dinah, procurando uma resposta à altura, contudo não vinha nada à cabeça, pelo contrário, estava com raiva só que não diria as palavras pesadas que vieram em sua mente.
- Eu não estou a venda. Boa noite.
Benicio deixou aquele apartamento sem olhar pra trás- Era um absurdo!
Ele prometeu que esqueceria aquele incidente...
Horas, dias e semanas depois, Benicio pensava naquela loucura de proposta até começar sentir os efeitos da sua escolha.
Apesar de admitir que a loira era uma mulher atraente que de uma garota risonha passava para uma megera. Porém, Benício não queria fazer parte de um catálogo de conquistas daquela jovem mulher que agora invadia os seus pensamentos a qualquer hora do dia
Que loucura! Quem aquela mulher pensa que é?!!