Dor foi a primeira coisa que Hali Andrews registrou. Era uma latejada aguda e rítmica atrás de suas têmporas, o tipo de dor de cabeça de ressaca que prometia um dia de miséria. Ela manteve os olhos fechados, relutante em deixar a luz da manhã agredir suas retinas ainda. Ela se mexeu, esperando o conforto irregular de seu colchão velho no Brooklyn, mas os lençóis sob seus dedos pareciam errados. Eram lisos demais. Frios demais. Seda.
Ela franziu a testa, seus dedos se curvando no tecido. O cheiro no ar também era diferente. Seu apartamento geralmente cheirava a café velho e à vela de baunilha que ela queimava para mascarar o cheiro da cidade. Este ar cheirava a caro. Era uma mistura nítida de cedro, sândalo frio e algo unicamente masculino.
Hali estendeu a mão às cegas para onde sua mesa de cabeceira deveria estar, procurando desajeitadamente por seu telefone para verificar as horas. Sua mão não encontrou madeira ou plástico. Em vez disso, sua palma pousou no colchão amarrotado. Os lençóis de alta contagem de fios estavam afundados, guardando o calor corporal intenso e persistente de alguém que acabara de desocupar o lugar.
Hali congelou. Seu coração martelava contra suas costelas, um pássaro frenético preso em uma gaiola.
Ela abriu os olhos bruscamente.
O quarto era vasto, banhado pela suave luz cinzenta de uma manhã em Manhattan. Mas Hali não olhou para as janelas que iam do chão ao teto ou para a arte moderna nas paredes. Seu olhar estava fixo na porta de vidro fosco do banheiro da suíte, de onde o som pesado de um chuveiro ligado ecoava pela suíte silenciosa.
As memórias da noite anterior invadiram sua mente como um maremoto. A gala de caridade. As bandejas intermináveis de champanhe que ela consumiu para amortecer o tédio. A viagem de elevador onde o ar de repente se tornara rarefeito. O calor da mão dele em sua cintura. O jeito como a porta da suíte da cobertura se fechou com um clique, selando seu destino.
Pânico, frio e agudo, inundou suas veias. Ela parou de respirar. Isso era uma catástrofe. Era o fim de sua carreira. Se Irving descobrisse...
Irving. Ela apertou os olhos. Havia ligado para ele três vezes na noite anterior. Ele não atendeu. Foi por isso que ela bebeu o champanhe. Foi por isso que ela estava aqui.
Ela puxou a mão de volta como se estivesse queimada, agarrando-a contra o peito. Ela tinha que ir embora. Agora. Antes que ele terminasse o banho.
Hali se moveu com uma lentidão meticulosa, arrastando-se para a beirada da cama. Seus membros pareciam pesados, desobedientes. Ela conseguiu se sentar, balançando as pernas para o lado, seus pés afundando em um carpete felpudo que provavelmente custava mais que seus empréstimos estudantis.
Ela procurou freneticamente por suas roupas. Seu vestido, uma peça vintage que ela mesma havia ajustado para parecer um vestido de grife, estava jogado em um monte perto da porta. Estava arruinado. O zíper estava quebrado, o tecido rasgado na costura. Uma memória visceral das mãos de Ezra o arrancando dela passou por sua mente, fazendo seu rosto queimar.
Ela não podia vestir aquilo. Estava nua, presa na cova dos leões, sem armadura.
De repente, a água no banheiro foi desligada. O silêncio que se seguiu foi pior que o barulho.
Hali agarrou o lençol de seda e o puxou até o queixo, recuando de costas até bater na cabeceira da cama. Ela se sentia como um animal encurralado.
A porta do banheiro se abriu com um clique.
Ezra saiu. Ele estava totalmente desperto, alerta. Não havia sonolência matinal em seus olhos, apenas uma clareza aterradora e predatória. Ele usava uma toalha preta baixa nos quadris, gotas de água grudadas em seus ombros largos e escorrendo pelos contornos definidos de seu abdômen. Ele se movia com uma graça rígida e controlada. A toalha estava baixa o suficiente para cobrir completamente a parte superior de suas pernas, revelando nada além de músculos. Sua presença preencheu o quarto, sugando o oxigênio do ar.
Ele olhou para ela. Sua expressão era indecifrável, seus olhos escuros percorrendo-a, agarrada ao lençol. Ele não parecia envergonhado. Não parecia arrependido. Parecia que estava em uma reunião de diretoria.
"Bom dia, Hali."
Hali abriu a boca, mas nenhum som saiu. Ela pigarreou, sua voz tremendo quando finalmente falou. "Sr. Gardner. Eu... isto foi... eu preciso ir embora."
Ezra não respondeu imediatamente. Ele passou pela cama, seu movimento fluido, porém cuidadoso, em direção ao enorme closet. Ele desapareceu por um momento e voltou segurando uma capa de roupa e uma caixa.
Ele as colocou aos pés da cama.
"Vista isto", disse ele.
Hali encarou o logotipo na caixa. Chanel. Ela olhou de volta para ele, a confusão lutando contra seu pânico.
Ezra se encostou na cômoda, cruzando os braços sobre o peito nu. "Dados os eventos da noite passada, e minha posição, precisamos discutir o caminho a seguir."
Hali piscou. "O quê?"
"Casamento", disse Ezra. A palavra pairou no ar, pesada e absurda.
Hali soltou uma risada engasgada. Foi um som histérico. "Como é que é?"
O rosto de Ezra permaneceu impassível. "Um escândalo envolvendo o CEO e uma assistente júnior seria prejudicial ao preço das ações, especialmente com uma aquisição de marca vital e confidencial atualmente em fase delicada de negociação. Um casamento repentino, no entanto, pode ser apresentado como um romance relâmpago. Estabiliza o conselho. Resolve a crise de relações públicas antes que ela comece."
Hali o encarou. Ele estava discutindo a noite deles juntos - uma noite em que ele a tocara de maneiras que a faziam queimar só de pensar - como se fosse um item em um relatório trimestral.
"Isso é loucura", Hali sussurrou. "Eu não vou me casar com você por causa do preço de uma ação."
Ezra inclinou a cabeça ligeiramente. "É um contrato. Um acordo de negócios. Você será compensada."
"Eu tenho um namorado", Hali deixou escapar.
A temperatura no quarto pareceu cair dez graus. Os olhos de Ezra se estreitaram, um lampejo de algo perigoso passando por eles.
"O diretor de criação", disse Ezra, seu tom desdenhoso, como se se referisse a um pequeno erro administrativo. "Ele é um obstáculo, mas dificilmente um insuperável."
"Sim", disse Hali, erguendo o queixo, tentando salvar algum resquício de dignidade. "Irving."
"Ele não atendeu suas ligações ontem à noite", afirmou Ezra. Não era uma pergunta.
Hali se encolheu. "Isso não significa..."
"Vista-se, Hali." Ezra se afastou da cômoda e virou de costas para ela, caminhando em direção à máquina de café no canto da suíte. "O carro está esperando lá embaixo."
Hali observou suas costas, os músculos se movendo sob sua pele. Ele a estava dispensando. Ele havia soltado uma bomba e depois a dispensado.
Ela pegou a caixa e a capa de roupa e correu para o banheiro, trancando a porta com os dedos trêmulos.
Ela se apoiou no mármore frio da pia, encarando-se no espelho. Seu cabelo estava um desastre. Seus lábios estavam inchados. Havia marcas vermelhas em seu pescoço e clavícula, evidência inegável da boca de Ezra.
Ela abriu a torneira e jogou água fria no rosto, esfregando com força, tentando lavar a memória das mãos dele. Não funcionou.
Ela abriu a capa de roupa. Era um terninho de tweed, uma silhueta clássica da Chanel, mas com um corte moderno e arrojado. Era da próxima coleção. Nem sequer havia chegado às lojas ainda.
Ela o vestiu. Serviu perfeitamente.
Um arrepio percorreu sua espinha. A cintura, o busto, o comprimento da saia. Serviu notavelmente bem - tamanho de amostra padrão, talvez, ou talvez ele apenas tivesse um olho assustadoramente preciso para proporções.
Ela afastou o pensamento. Não queria saber. Abriu a caixa. Roupa íntima. La Perla. Renda preta. Também do seu tamanho.
Ela se vestiu rapidamente, suas mãos tremendo tanto que mal conseguia abotoar os botões. Sentia-se como uma boneca que ele havia vestido. Ela enfiou seu vestido arruinado na lata de lixo, incapaz de olhar para ele.
Quando saiu do banheiro, Ezra estava sentado em um sofá de veludo, uma xícara de café preto na mão. Ele gesticulou para uma segunda xícara na mesa.
"Beba. Você vai precisar."
"Não", disse Hali. Ela pegou sua bolsa do chão. "Estou indo embora. Nós vamos fingir que isso nunca aconteceu. Eu vou para o trabalho, e vou ser uma assistente júnior, e você vai ser o CEO, e nunca mais falaremos sobre isso."
Ela caminhou em direção à porta, seus saltos afundando no carpete.
"Hali", a voz de Ezra a deteve. Era baixa, mas exigia obediência. "Fugir não resolve problemas."
Ela parou, a mão pairando sobre a maçaneta. Não se virou. "Resolve este."
Ela abriu a porta com um puxão e saiu para o corredor. Estava vazio. Ela praticamente correu para o elevador, apertando o botão repetidamente como se isso o fizesse chegar mais rápido.
Quando as portas se abriram, ela entrou e se encostou na parede espelhada, fechando os olhos. Seu coração batia tão forte que doía.
O elevador desceu, os números diminuindo. 40... 30... 20...
Quando as portas se abriram no saguão, ela manteve a cabeça baixa, usando o cabelo como um escudo. Andou rápido, ignorando o porteiro, passando pelas portas giratórias para o ar fresco da manhã.
Ela respirou fundo, pensando que havia conseguido. Estava livre.
Um Maybach preto e elegante parou junto ao meio-fio, bloqueando seu caminho. A janela traseira desceu suavemente.
Finley Butler, o chefe do departamento jurídico da empresa e braço direito de Ezra, estava no banco do motorista. Ele olhou para ela com um sorriso educado e profissional que não alcançava seus olhos.
"Sra. Andrews", disse Finley. "O Sr. Gardner me instruiu a levá-la para casa."
Hali congelou. Olhou para a esquerda, depois para a direita. Não havia táxis. O metrô ficava a três quarteirões de distância. Ela estava usando um terninho de cinco mil dólares que não era seu.
Ela estava encurralada.
Hali encarou Finley, apertando a bolsa com tanta força que os nós dos seus dedos ficaram brancos. O sol da manhã refletia com força na pintura preta polida do Maybach, ardendo em seus olhos cansados.
"Eu posso pegar o metrô", ela disse, embora sua voz soasse sem convicção.
Finley não parou de sorrir. "O porteiro está observando, Sra. Andrews. E acredito que os paparazzi costumam ficar de tocaia no café da esquina a esta hora da manhã, na esperança de vislumbrar o Sr. Gardner. Seria melhor entrar."
Hali olhou de volta para a entrada do prédio. O porteiro estava de fato observando, com as sobrancelhas levemente arqueadas ao ver a assistente júnior de Chanel parada ao lado do carro do CEO.
Ela rangeu os dentes e abriu a porta de trás, deslizando para o assento de couro. O interior tinha um leve cheiro do mesmo aroma de sândalo que estava impregnado em sua pele. Era sufocante.
Finley afastou-se do meio-fio sem esforço, entrando no trânsito caótico de Manhattan. A divisória entre a frente e a traseira estava abaixada. Hali olhava pela janela, observando o borrão de táxis amarelos e pedestres.
"Para onde?", Finley perguntou, seus olhos encontrando os dela no espelho retrovisor.
"Brooklyn", disse ela, dando-lhe seu endereço. Parecia errado dizer o nome da rua naquele carro. Era como misturar óleo e água.
Finley assentiu. "Brooklyn. Uma longa viagem."
O silêncio que se seguiu era pesado. Hali puxou um fio solto no assento - espere, não havia fios soltos em um Maybach. Ela juntou as mãos no colo para parar de se mexer inquieta.
"O Sr. Gardner raramente perde o controle", disse Finley de repente. Seu tom era casual, coloquial, como se estivesse comentando sobre o tempo. "Você deve ser... inesperada."
O calor subiu às bochechas de Hali, queimando, quente e rápido. Ela sentiu o sangue subir ao rosto. "Eu não sei do que você está falando. Foi o champanhe. Foi um erro."
Finley murmurou, um som evasivo. "Erros geralmente não envolvem um Chanel de arquivo."
Hali olhou para o terninho. O tecido era macio contra sua pele, um lembrete constante do homem que o havia dado a ela. Ela se lembrou do jeito que Ezra a olhou na noite anterior, no elevador. Havia uma fome em seus olhos que a aterrorizava. E ela havia puxado a gravata dele. Ela se lembrava disso agora. Ela o havia puxado para baixo, em sua direção.
Ela fechou os olhos, desejando que o chão a engolisse por inteiro.
Seu celular vibrou em sua mão. Ela deu um pulo, o coração falhando uma batida. Era uma mensagem de texto de Irving.
"Oi, querida. Desculpe por não ter atendido suas ligações. Apaguei cedo ontem à noite. Semana louca. Um café pela manhã?"
Hali encarou a tela. Apagou cedo.
Ela olhou o horário de sua última ligação para ele: 23:45. Irving era uma coruja. Ele nunca dormia antes das 2 da manhã.
Um nó de desconforto apertou-se em seu estômago. Ele estava mentindo. Mas por quê?
Então, um pensamento mais sombrio e frio tomou o lugar da suspeita. A data. Ela fez as contas de cabeça rapidamente, contando os dias em seu calendário interno.
Ela sentiu o sangue sumir de seu rosto.
"Pare o carro", ela disse. Sua voz era ríspida, urgente.
Finley franziu a testa, olhando pelo espelho. "Sra. Andrews? Nós estamos no meio do..."
"Por favor, pare. Tem uma CVS bem ali. Eu preciso... eu preciso de uma coisa."
Os olhos de Finley se estreitaram um pouco, avaliando seu rosto pálido. Ele entendeu. Não disse uma palavra, apenas deu seta e encostou o carro imenso no meio-fio em frente à farmácia.
Hali não esperou que ele abrisse a porta. Ela saiu apressadamente, quase tropeçando nos saltos emprestados.
As luzes fluorescentes da farmácia eram fortes. Ela caminhou direto para o corredor de planejamento familiar, seu coração martelando em seus ouvidos. Sentia como se todos estivessem olhando para ela. A mulher no corredor de produtos para cabelo. O adolescente comprando refrigerante. Todos eles sabiam.
Ela pegou a pequena caixa de Plan B. Uma pílula. Cinquenta dólares. Um preço baixo a pagar para apagar um erro que mudaria sua vida, mesmo que as letras miúdas no verso alertassem sobre sua janela de eficácia decrescente.
Ela levou ao balcão. A caixa, uma mulher de meia-idade com olhos cansados, escaneou a caixa. Ela olhou para o terninho caro de Hali, depois para seu cabelo bagunçado, e então para a caixa. Não disse nada, mas sua expressão gritava julgamento.
Hali pagou em dinheiro. Não queria deixar registro. Ela enfiou a caixa na bolsa e saiu, mantendo a cabeça baixa.
Quando voltou para o carro, Finley não perguntou o que ela havia comprado. Ele simplesmente voltou para o trânsito. Mas o ar no carro havia mudado. Parecia mais pesado.
"Ele suspeita", Hali pensou. "E se ele suspeita, vai contar para o Ezra."
Ela ficou em silêncio pelo resto da viagem, agarrando a bolsa contra o peito como um escudo. Quando o carro finalmente parou em frente ao seu prédio de apartamentos desgastado no Brooklyn, o contraste era gritante. A tinta descascada da entrada parecia patética ao lado do metal preto reluzente do carro.
"Obrigada", Hali murmurou, abrindo a porta.
"Sra. Andrews", disse Finley.
Ela parou, olhando para trás.
"Ezra é um homem que cuida de seus ativos", disse Finley. Sua voz estava desprovida de zombaria agora. Era um aviso. Ou talvez uma promessa.
Hali bateu a porta com força e subiu correndo os degraus para seu prédio.
Ela se atrapalhou com as chaves, suas mãos tremendo tanto que as deixou cair duas vezes. Finalmente, conseguiu abrir a porta e entrou tropeçando em seu apartamento. Trancou a fechadura, passou a corrente e encostou-se na madeira, deslizando para baixo até sentar no chão.
Estava quieto. Seguro.
Ela tirou a caixa da bolsa. Suas mãos tremiam enquanto rasgava a embalagem de alumínio. A pequena pílula branca parecia inócua.
Ela foi até a cozinha, encheu um copo com água da torneira e engoliu a pílula. Ela arranhou sua garganta seca.
Quase imediatamente, uma onda de náusea a atingiu. Era psicossomático, ela sabia, mas ainda assim teve ânsia de vômito, agarrando a beirada da pia.
Ela precisava tirar aquele cheiro dela. Precisava tirar Ezra de sua pele.
Ela foi ao banheiro e se despiu do terninho Chanel. Olhou para si mesma no espelho. Os hematomas em seu pescoço estavam escurecendo. Um chupão bem em cima do ponto onde seu pulso latejava.
Ela ligou o chuveiro na temperatura mais quente que conseguia aguentar. Esfregou a pele até ficar em carne viva e vermelha, tentando apagar o fantasma do toque dele.
Quando finalmente saiu, enrolada em seu roupão velho e puído, sentia-se oca por dentro. Ela enfiou o terninho Chanel e a lingerie em um saco plástico e o empurrou para o fundo do armário, atrás de seus casacos de inverno. Nunca mais queria vê-lo.
Seu celular vibrou novamente. Era Lia, sua melhor amiga e designer júnior na empresa.
"Você viu o Irving ontem à noite? Juro que o vi no The Box por volta da 1 da manhã."
Hali encarou a mensagem. The Box. Uma boate.
Irving tinha mandado uma mensagem dizendo que estava dormindo.
O nó em seu estômago se apertou ainda mais. Ele mentiu.
Por que ele mentiria sobre estar em uma boate? A menos que não estivesse sozinho.
No banco da frente do Maybach, a quarteirões de distância, Finley digitava uma mensagem em seu celular criptografado.
"Ela foi à farmácia. Parece doente. Urgente."
Do outro lado da cidade, na suíte da cobertura, Ezra Gardner olhou para a mensagem. O celular em sua mão rangeu sob a pressão de seu aperto.
Ele encarou as palavras, seu maxilar se contraindo até um músculo saltar em sua bochecha. Ele fechou os olhos, exalando uma respiração lenta e controlada. Então, com um movimento súbito e violento, ele partiu ao meio a caneta-tinteiro que estava segurando. A tinta escorreu por seus dedos, preta como óleo.
A manhã de segunda-feira chegou com a sutileza de uma marreta. Hali estava parada em frente ao espelho, ajustando a gola de seu suéter de caxemira mais grosso e de gola mais alta. Era cinza-carvão e sufocantemente quente para setembro, mas era a única coisa que escondia eficazmente os hematomas em seu pescoço.
Ela aplicou uma camada extra de corretivo sob os olhos, tentando mascarar as sombras deixadas por um fim de semana sem dormir. A náusea do Plan B havia se transformado em uma dor surda e constante em seu baixo-ventre.
Ela checou o celular. Nenhuma mensagem nova de Irving desde seu SMS de domingo à noite dizendo "espero que tenha tido um bom fim de semana". Ela não havia respondido.
Na viagem de metrô para Midtown, Hali atualizava obsessivamente o Instagram de Irving. Nada. As fotos em que ele estava marcado estavam limpas. Mas a dúvida plantada pela mensagem de Lia havia criado raízes e estava crescendo rápido.
Ela passou o crachá nas catracas da Gardner Holdings, o bipe soando como uma acusação. O saguão era uma colmeia de atividade, saltos estalando no mármore, o zumbido de ambição e cafeína preenchendo o ar.
Hali manteve a cabeça baixa, agarrando seu copo de café como uma tábua de salvação. Ela conseguiu chegar ao departamento de design sem esbarrar em ninguém importante.
Sua baia estava exatamente como ela a havia deixado: entulhada com amostras de tecido, esboços e painéis de inspiração inacabados. Parecia uma vida diferente.
Yara, a fofoqueira do departamento e amiga de trabalho de Hali, rolou sua cadeira até lá no momento em que Hali se sentou.
- Meu Deus, você está com uma cara de morte - sussurrou Yara, com os olhos arregalados. - Mas escuta. A rádio-corredor está pegando fogo.
O coração de Hali deu um pulo. Ela forçou um sorriso, ligando o computador. - Qual a novidade?
- Não, isso é sério. Alguém da equipe de limpeza disse que encontrou um vestido de mulher na suíte da cobertura de Ezra no sábado de manhã. Rasgado.
A mão de Hali deu um solavanco, derramando café quente em seu pulso. Ela sibilou, pegando um lenço de papel.
Yara se inclinou para mais perto. - Dizem que ele levou alguém para casa depois da gala. Todo mundo está tentando adivinhar quem. Alguns dizem que foi aquela modelo, Kaia. Outros acham que pode ser uma socialite.
Hali limpou o pulso, o coração batendo forte contra as costelas. *"Ou talvez uma assistente júnior que queira morrer"*, pensou ela.
- Provavelmente uma modelo - disse Hali, sua voz soando fraca para seus próprios ouvidos.
Nesse momento, Nolan Hayes, o Diretor de Design, passou rapidamente pelos corredores. Ele parou na mesa de Hali, pegando um esboço que ela havia deixado à mostra - um desenho rústico a carvão de um corpete estruturado.
- Linhas interessantes, Andrews - murmurou Nolan, ajustando os óculos. - Muito agressivas. Tem uma certa qualidade... disruptiva. Me lembra o movimento de vanguarda em Berlin.
Hali congelou. O sangue sumiu de seu rosto. - Ah, eu... eu estava só rabiscando. Não é nada.
Nolan murmurou um som de aprovação, largando o esboço de volta na mesa. - Não seja tão modesta. Preciso de você na reunião de conceito esta tarde. Para fazer anotações. Às 14h.
Ele se afastou antes que ela pudesse protestar.
Hali exalou, afundando na cadeira. Ser notada era perigoso. Ela tinha que ser mais cuidadosa.
Um "ping" do seu computador chamou sua atenção. Uma pequena caixa de notificação apareceu no canto inferior direito da tela. Era do sistema de mensagens interno da empresa, o Slack.
Nova Solicitação de Amizade.
Hali franziu a testa. Quem adicionava pessoas como amigos no Slack? Geralmente era automático.
Ela clicou na notificação.
Usuário: E.G.
Cargo: CEO
Hali encarou a tela. O avatar era um quadrado preto.
Ezra.
Sua respiração falhou. Ele estava adicionando-a. No servidor da empresa. Onde o TI podia ver. Onde qualquer um olhando por cima de seu ombro podia ver.
Seu mouse pairou sobre o botão Aceitar. Seu dedo tremia. Isso era uma jogada de poder. Ele estava invadindo seu espaço de trabalho, lembrando-a de que ele estava em toda parte, afirmando sua dominância mesmo através de uma tela digital.
Ela rangeu os dentes. Não. Ela não ia jogar este jogo. Ela não era sua noiva. Ela era sua funcionária.
Ela moveu o cursor para o botão Recusar e clicou.
Solicitação Recusada.
Ela se recostou, o coração acelerado. Ela tinha acabado de rejeitar o CEO. Ela era louca. Ela seria demitida.
Cinco minutos se passaram. Hali tentou se concentrar em uma planilha, mas os números dançavam.
O telefone em sua mesa tocou. O som estridente a fez pular.
- Departamento de Design, Hali Andrews - ela atendeu, com a voz tensa.
- Sra. Andrews - a voz suave de Finley Butler soou na linha. - O Sr. Gardner gostaria de vê-la em seu escritório. Agora.
Hali fechou os olhos. Claro.
- Estou no meio da preparação para-
- Agora, Sra. Andrews.
A linha ficou muda.
Hali desligou o telefone lentamente. Yara a olhava com pena. - Foi chamada na sala do diretor? O que você fez?
- Nada - disse Hali, levantando-se. Suas pernas pareciam gelatina.
Ela caminhou até a área dos elevadores, agarrando seu caderno contra o peito. Ela apertou o botão para o andar da cobertura.
A subida foi agonizantemente rápida. As portas se abriram no 45º andar, um espaço de luxo discreto e silêncio aterrorizante.
Finley estava sentado em sua mesa do lado de fora das portas duplas de mogno. Ele ergueu o olhar, sua expressão neutra.
- Pode entrar.
Hali caminhou até a porta e bateu.
- Entre.
Ela empurrou a porta para abri-la. Ezra estava parado junto à janela que ia do chão ao teto, de costas para ela. Ele usava um terno que custava mais do que seu pai - se ela soubesse quem ele era - provavelmente ganhava em um ano.
Ele se virou lentamente. Segurava o celular na mão. A tela estava acesa.
Hali parou no meio da sala, mantendo uma distância segura.
- O senhor queria me ver, Sr. Gardner?
Ezra não respondeu imediatamente. Ele caminhou em direção a ela, seus passos lentos e deliberados. Ele parou a menos de um metro de distância, invadindo seu espaço pessoal.
Ele ergueu o celular. Na tela estava a notificação: Hali Andrews recusou sua solicitação.
Ele olhou para ela, seus olhos escuros cravados nos dela.
- É assim que você trata seu noivo? - ele perguntou, sua voz baixa e carregada de uma calma perigosa.
- Eu não sou sua noiva - sussurrou Hali, recuando até seus calcanhares baterem na madeira da porta atrás dela.
Ezra a seguiu, colocando uma mão no batente da porta acima da cabeça dela, encurralando-a. O cheiro de sândalo a envolveu novamente, desencadeando um flashback sensorial dos lençóis de seda e da pele quente dele.
- Estamos negociando - disse Ezra, inclinando-se até sua boca ficar a centímetros da orelha dela. - E recusar uma solicitação de amizade é uma péssima jogada de abertura, Hali.