Sedução na areia...
Os boatos envolvendo o príncipe exilado Tahir Al'Ramiz chegaram ao seu ápice! Após ser encontrado em um cassino de Monte Carlo criando confusão, ele é convocado a retornar ao seu país para a coroação de seu irmão. Mas ele jamais chega ao seu destino. Quando são encontrados destroços do helicóptero no qual viajava, presume-se o pior... até ele aparecer novamente, como se tivesse ressuscitado! Mais intrigante ainda é a presença de uma bela mulher no palácio... Agora, há quem diga que ela está grávida. E isso levanta algumas suspeitas... Será que o tempo em que Tahir ficou perdido no deserto encobriu, na verdade, um romance secreto?
CAPÍTULO UM
- Façam suas apostas, mesdames et messieurs.
O sheik Tahir Al'Ramiz esqueceu o monte de fichas que ganhara e observou as pessoas que aguardavam sua próxima jogada. Um garçom serviu outra rodada de champanhe. Tahir olhou para a mulher que o acompanhava: loura, bonita, insinuante. Quando ela entrara no cassino de Monte Cario, chamara a atenção com uma cascata de diamantes no pescoço e um vestido prateado que demonstravam o que o dinheiro e um bom estilista são capazes de fazer. Ela sorriu do mesmo modo cúmplice e ansioso que as outras mulheres brindavam. Ele lhe estendeu uma taça de champanhe e, enfim, admitiu o que sentira a noite inteira: tédio. Da última vez, levara dois dias para se cansar de Monte Cario; dessa vez, mal acabara de chegar.
- Últimas apostas, mesdames et messieurs. Tahir suspirou e olhou para o crupiê.
- Catorze - ele disse.
O crupiê recolheu as fichas. Alguns espectadores ficaram ansiosos, outros se apressaram a seguir sua aposta.
- Catorze? - A loura arregalou os olhos. - Você vai jogar tudo em um número?
Tahir deu de ombros, levantou a taça e constatou que sua mão tremia. Há quanto tempo não dormia? Dois dias? Três? Primeiro fora a Nova York, onde fechara um negócio e festejara. Depois, à Tunísia, onde participara de um rali. Oslo e Moscou, também a negócios. Afinal, chegara a Monte Cario, onde seu iate estava ancorado. Aquele estilo de vida começava a incomodá-lo. Ele tentara se manter interessado, mas falhara. O crupiê girou a roleta. Tahir sentiu que a loura lhe apertava o joelho e subia a mão por sua coxa, respirando com dificuldade. A vibração do jogo alheio a deixaria excitada? Ele quase a invejava. Se ela se despisse e se oferecesse a ele naquele momento, ele não sentiria nada. Nada. A mulher sorriu e pressionou o seio contra o seu braço. Ele sequer se lembrava do seu nome. Não se interessara o suficiente para gravá-lo. Elsa? Eriça? Sua memória começava a falhar? Tahir apertou os lábios. Infelizmente, sua memória estava intacta. Havia coisas que ele jamais esqueceria, por mais que tentasse. Elisabeth. Sim, Elisabeth Karolin Roswitha, condessa von Markburg.
As reflexões de Tahir foram interrompidas por gritos entusiásticos. A condessa abraçou-o e beijou-o, tão animada que quase subiu em seu colo.
- Você ganhou novamente, Tahir - Os olhos dela brilhavam. - Não é maravilhoso?
Ele esboçou um sorriso e fez um brinde. Invejava o prazer que ela sentia. Há quanto tempo não sentia o mesmo? Jogar não o excitava mais. Estratégias de negócios? Às vezes. Esportes radicais? Proporcionavam-lhe apenas uma descarga de adrenalina toda vez que se arriscava. Sexo? Uma morena sedutora, usando pingentes de rubis e um vestido que em alguns países provocaria sua prisão por falta de decoro, se aproximou, mas ele nada sentiu. A morena se inclinou sobre a mesa de um jeito que revelava não apenas seus seios, mas muito mais.
- Tahir, querido. Há quanto tempo. - Ela o beijou, explorando-lhe os lábios com a língua, mas ele não reagiu. De repente, sentia-se cansado, invadido por um vazio que o perseguia há muito tempo.
Estava cansado da vida.
Tahir se afastou bruscamente da mulher. Fazia poucos meses que haviam ficado juntos em Buenos Aires, mas lhe parecia ter sido em outra vida.
- Elisabeth - ele disse para a loura. - Quero apresentá-la a Natasha Leung. Natasha, esta é Elisabeth von Markburg. - Ele pediu outra taça ao garçom.
- É minha safra favorita - ronronou Natasha, encostando a coxa na perna de Tahir. - Obrigada.
- Façam suas apostas, s'il vous plait - disse o crupiê em voz monocórdica.
- Catorze - murmurou Tahir.
- Catorze? - O crupiê não disfarçou sua perplexidade. - Oui, monsieur.
- Catorze de novo? - A voz de Elisabeth soou estridente. - Você vai perder tudo! A chance de dar o mesmo número outra vez é remota.
Tahir deu de ombros e pegou o celular que tocara discretamente em seu bolso.
- Então, vou perder. - Ao ver a cara de horror que ela fez, ele quase riu. A vida é tão simples para algumas pessoas... Ele olhou para o celular e estranhou não reconhecer o número que o chamava. Apenas seus advogados e seus agentes mais confiáveis sabiam seu telefone particular, e não se tratava de nenhum deles.
- Alô?
- Tahir? - Mesmo depois de tanto tempo, a voz era inconfundível. Tahir se levantou, desembaraçando-se das duas mulheres que se penduravam a ele.
- Kareef. - Só algo muito importante faria com que seu irmão mais velho lhe telefonasse depois de tantos anos. Tahir procurou um local sossegado para falar. - Que surpresa inesperada - ele murmurou.
- A que devo a honra? - O silêncio do outro lado se prolongou, e ele se arrepiou.
- Quero que volte para casa. - A voz de Kareef soou calma e familiar como sempre, mas Tahir jamais pensara em ouvir aquelas palavras.
- Eu não tenho mais casa. Você se lembra? - Ele percebeu que lançava sua amargura sobre Kareef, mas o irmão não tinha culpa do que lhe acontecera.
- Agora você tem, Tahir. - O tom de Kareef provocou-lhe outro arrepio.
- Nosso querido pai teria algo a dizer sobre isso.
- Nosso pai está morto - disse Kareef.
As palavras atingiram Tahir como um raio. O tirano que governara seu povo e sua família de maneira tão corrupta partira. O tirano que traíra a mulher com diversas prostitutas e amantes, que governara sua tribo lançando mão do terror, que castigara o filho repetidamente, quase a ponto de matá-lo. Quando Tahir crescera o suficiente para se defender do pai, este mandara seus capangas atrás dele. O sheik exilara o filho caçula quando este, afinal, fizera o que ele intimamente desejava, ultrapassando o limite. Tahir jamais fora capaz de contentar o pai, por mais que tentasse. Passara a infância se perguntando que falta cometera para provocar tanto ódio, mas fazia muito tempo que deixara de se importar.
Ele olhou para o salão cheio de gente em busca diversão, mas, em vez de enxergar a multidão deslumbrante, tudo o que ele via eram os olhos enfurecidos de Yazan Al'Ramiz, seu bigode úmido de saliva quando esbravejava, furioso, e o peso violento de seus punhos. Com certeza, Tahir deveria sentir algo ao saber da morte do tirano. Depois de 11 anos de ausência, a notícia deveria causar algum impacto, mas um vazio ocupava o lugar onde deveriam estar alojadas suas emoções. Ele deveria ter algumas perguntas: quando, como? Não era o que um filho perguntaria ao ser informado da morte de seu pai?
- Mesmo assim, não sinto vontade alguma de voltar para Qusay - ele disse, inexpressivo. Nada havia para ele na terra em que nascera.
- Maldição, Tahir. Pare de fazer o papel de arrogante insensível. Preciso de você. As coisas aqui estão complicadas. - Kareef hesitou. - Quero que você venha.
Tahir sentiu um nó no estômago.
- O que você quer? - Kareef sempre fora seu irmão preferido, que ele admirava no tempo em que ainda tentava imitar os mais velhos. - Qual é o problema?
- Nenhum - Kareef disse, tenso. - Mas nosso primo descobriu que ele não é o herdeiro legítimo de Qusay e se retirou para que eu possa assumir o trono. Quero que você venha à minha coroação.
Tahir voltou para a mesa da roleta. Parecia inacreditável que o primo tivesse ocupado o trono por engano, porque ele não tinha laços de sangue com o antigo rei ou com a rainha. O primo fora adotado pelo casal durante o período de luto pela morte de seu verdadeiro filho. Tahir duvidava que Kareef, sempre cuidadoso e responsável, tivesse se enganado. O irmão seria um ótimo rei para Qusay. Felizmente, o destino fora misericordioso e o pai não estava vivo para assumir o trono! Como irmão do antigo rei e chefe de um clã expressivo, ele já era poderoso e perigoso o suficiente. Tê-lo como rei seria como soltar um lobo no meio das ovelhas. Kareef lhe dissera que o pai morrera de infarto. Fazia sentido: ele de nada se privava e não se limitara a ter apenas um vício.
Quando Tahir chegou à mesa, as duas mulheres o esperavam ávidas por lhe oferecer o que ele desejasse. Ele sorriu amargamente: talvez se parecesse mais com o pai do que pensara.
- Tahir! - A voz de Elisabeth soou esganiçada. - Você não vai acreditar. Você ganhou! De novo! É incrível.
A multidão se agitou. Todos o olhavam como se ele tivesse feito um milagre. As mulheres tentavam atraí-lo, ansiosas. Tahir olhou para a pilha de fichas, que crescera. O crupiê estava pálido, mas controlado. Tahir jogou algumas fichas na sua direção.
- São para você.
- Merci, monsieur. - O homem sorriu e guardou a pequena fortuna com cuidado.
Tahir fez um brinde e tomou um gole de champanhe que o deixou leve, quase feliz. O destino fora justo pelo menos uma vez. Kareef seria o melhor rei que Qusay poderia ter.
- Boa noite, Elisabeth, Natasha. Sinto muito, mas tenho compromissos em outro lugar. - Ele começou a se afastar, mas um coro de vozes o deteve.
- Espere! As suas fichas! Você as esqueceu.
Tahir se virou e olhou para o grupo.
- Fiquem com elas. Dividam. - Ele ignorou os gritos de alegria e saiu. Quando chegou ao lado de fora do cassino, respirou fundo e sorriu pela primeira vez em muito tempo. Fora convidado para uma coroação.
Tahir sobrevoou as dunas do grande deserto de Qusay em baixa altitude. Pilotando o helicóptero, ele se embriagou com a sensação de estar completamente sozinho e livre. Nada de parasitas, nada de empregados aguardando ordens e de mulheres ávidas, de olhos arregalados. Nenhum paparazzo esperando para fotografar sua próxima aventura. Talvez a gloriosa aridez do deserto levantasse seu ânimo, levando-o a esquecer o que o esperava em Qusay: seu passado, sua família. Durante os últimos dez anos ele frequentara desertos, da África do Norte à Austrália e América do Sul, participando de ralis, voando de asa-delta, sempre procurando maneiras radicais de arriscar o pescoço. Afinal, ele percebeu que a sensação se devia ao fato de estar sobrevoando o lugar que fora seu lar durante os primeiros 18 anos de sua vida e que jamais esperara rever. A percepção o atingiu no mesmo momento em que uma rajada de vento fez o helicóptero balançar. Tahir tentou controlar o aparelho e ultrapassar as dunas. A visão que surgiu diante dele provocou uma descarga de adrenalina: a escuridão crescente do céu não se devia ao crepúsculo, como ele pensara. Se estivesse pilotando de acordo com as regras, ele teria percebido, mas estivera brincando, mergulhando perigosamente baixo, testando sua habilidade para reconhecer a topografia de um lugar que mudava com o vento. A tempestade de areia era das piores, do tipo que ceifa vidas, altera cursos d'água, oculta estradas e é capaz de deslocar um helicóptero como se fosse um brinquedo, atirando-o longe. Não havia chance de escapar nem tempo para aterrissar com segurança. Tahir tentou evitar a tempestade e enviou um pedido de socorro, sabendo que era tarde.
Ele se sentiu muito calmo. Iria morrer. O filho pródigo retornara para ganhar o que merecia.
Mas ele ainda não morrera. O destino lhe reservava algo ainda pior: a desidratação por efeito do calor, ou, pelas dores que sentia, a morte lenta em decorrência dos ferimentos. A sorte que o fizera ganhar fortunas na mesa de jogo o abandonara. Tahir hesitou em abrir os olhos ou se entregar à escuridão da inconsciência novamente, mas não conseguiu ignorar a dor lancinante que sentia na cabeça e no peito. Abrir os olhos era doloroso. Por entre as pestanas cheias de areia a luz lhe feria a retina, ofuscante. Ele gemeu e sentiu na boca o gosto morno e metálico de sangue. Seu corpo todo estava áspero e dolorido. Recordou-se vagamente de estar sentado, preso pelo cinto de segurança, coberto pela poeira, e de ouvir o uivo do vento e o cortante ruído da areia. Depois, sentira o cheiro do combustível, um aroma tão forte que ele se soltara do assento e se arrastara para bem longe do metal retorcido. Depois, mais nada. Acima, o céu azul parecia zombar dele. Estava vivo, no deserto, e sozinho.
Tahir desmaiou três vezes antes de conseguir se sentar, tremendo e suando, sentindo-se mais morto que vivo. Sua cabeça estava confusa, vagueando e voltando ao presente com dolorosa nitidez. Ele se recostou num monte de areia e esticou as pernas, tentando esquecer a dor e a tontura. Estava semi-inconsciente quando algo o despertou: um afago na mão. Tahir levantou a cabeça.
- Você é uma miragem - ele murmurou, mas a voz mal saía de sua garganta. O animal percebeu, olhou para ele com seus olhos dourados e balançou o focinho, soltando uma nuvem de poeira do pelo. E baliu. - Miragens não falam - Tahir murmurou. Elas também não lambiam, mas aquela, sim. Ele fechou os olhos, e quando os abriu novamente, o animal ainda permanecia ali - um cabrito muito novo para estar sem a mãe. Diabo, ele sequer conseguia morrer em paz. O cabrito lhe cutucou o quadril. Tahir percebeu que havia algo em seu paletó. Devagar, para não desmaiar de dor, enfiou a mão no bolso e encontrou uma garrafa de água. Lembrou-se vagamente de tê-la apanhado antes de se arrastar para fora do helicóptero destroçado. Como pudera se esquecer? Ele levou muito tempo para tirar a garrafa do bolso, abri-la e levá-la até os lábios. O mais difícil foi parar de beber, após o primeiro gole. Beber demais seria perigoso. O cabrito o cutucou novamente, e deitou-se ao seu lado. Naquele vasto deserto, o animal escolhera aquele lugar para se encolher... Tahir trincou os dentes e derramou um pouco de água na palma da mão.
- Aqui, beba, cabrito.
O animal bebeu calmamente, como se estivesse acostumado com seres humanos, ou como se também estivesse nas últimas e não houvesse lugar para o medo. Tahir mal teve tempo de fechar a garrafa antes que ela caísse de suas mãos trêmulas. Sua cabeça pendeu e ele sentiu o calor do filhote através das roupas, lembrando-o de que não estava só. Foi isso que o forçou a lutar para sobreviver no perigoso deserto de Qusay.
Annalisa encheu a velha caçamba de água e molhou a cabeça. Que delícia. A terrível tempestade atrasara sua jornada pelo deserto. Os primos reprovavam sua viagem, dizendo que seria um erro do qual ela não sairia viva, mas eles não compreendiam: aquela viagem se tornara muito importante para ela depois que perdera o avô e, logo em seguida, o pai. Ela cumpria a última promessa que fizera ao pai. Era maravilhoso estar ali outra vez, embora a tristeza maculasse as lembranças das viagens anteriores que ela fizera com ele. Annalisa chegara pela manhã e passara a tarde limpando sua câmera e seu telescópio. Um dia no deserto significava calor e poeira, e o privilégio de ter o oásis só para ela era demais para resistir. Ela derramou mais água sobre a cabeça, deliciando-se com a sensação, e sorriu satisfeita, enfiando os dedos dos pés no fundo do pequeno poço. Percebeu que o sol já se punha e lembrou-se que deveria acender o fogo antes que escurecesse. Ela se virou para sair da água quando viu algo no horizonte: um homem. Ele tinha os ombros largos e usava roupas escuras. Parecia vestir um terno, algo bastante estranho no deserto. Ele tropeçou e escorregou alguns metros duna abaixo. Instintivamente, ela pegou a toalha e se enrolou, notando que ele caminhava de modo estranho, sem usar os braços para manter o equilíbrio, cambaleando em movimentos desordenados. A prudência mandava que ela não se arriscasse com estranhos. Os moradores da região não lhe fariam mal, mas aquele homem era, evidentemente, um estranho. Quem sabe como ele reagiria ao encontrar uma mulher sozinha? Annalisa deu um nó na toalha e percebeu que havia alguma coisa errada com o homem. O instinto que desenvolvera ao ajudar o pai, que era médico, foi superior à sua cautela. O estranho não representava perigo. Aparentemente, ele mal conseguia se manter de pé. Um minuto depois ela atravessava o wadi e corria na direção do estranho. À medida que se aproximava, ela se impressionava com sua aparência: alto, cabelos pretos, de smoking e sapatos de couro. Sua camisa estava rasgada e suja. Ele tinha o peito largo e a pele morena. O que restara da gravata pendia de seu pescoço. O rosto estava tão coberto de areia que ela mal conseguia distinguir seus traços, mas o queixo firme e as maçãs do rosto deixavam perceber uma beleza estonteante. Sua testa era uma massa de sangue seco que a fez conter o fôlego. Porém, foram os olhos dele, de um azul penetrante, que a fascinaram, mesmo quando ele escorregou pela duna: olhos cuja cor não se esperava no meio daquele deserto. Mesmo cambaleante, ele parecia elegante e sensual. Annalisa notou a maneira como ele cruzava os braços sobre o peito e se assustou: estaria ferido? Ela seria capaz de lidar com ferimentos e escoriações. Afinal, era filha de seu pai. Mas eles estavam muito longe de qualquer recurso médico e suas habilidades eram limitadas. Ela escalou a duna desajeitadamente, agarrando-se à toalha, tentando controlar o pânico. Quase o alcançara quando ele tropeçou e caiu de joelhos, estonteado, estendeu os braços e olhou para ela.
- Pegue, querida. - A voz dele não passava de um murmúrio rouco, áspero e indistinto. Annalisa se abaixou para ouvi-lo. - Cuide dele.
Ele abriu os braços, deixou cair um animalzinho sujo e desmaiou.
Annalisa se abaixou e afastou os cabelos do rosto. Tremia por causa do esforço, do susto e do medo de não conseguir salvá-lo. Depois de examiná-lo rapidamente, resolveu se arriscar a levá-lo para seu acampamento. Ele tinha uma febre perigosamente alta e passar uma noite na duna poderia ser fatal. Porém, ela não pensara na dificuldade de transportar um homem de mais de l,80m. Custou-lhe uma hora de extremo esforço e muita engenhosidade para puxá-lo numa maca improvisada. O mais apavorante é que ele era um peso morto, não se mexia.
- Não morra agora - ela pediu, checando-lhe o pulso fraco e limpando o ferimento em sua testa. Ela disse a si mesma que machucados na cabeça costumam sangrar abundantemente e que aquele talvez não fosse tão grave quanto parecia. Murmurou um misto de prece e de exortação, numa mistura de árabe, dinamarquês e inglês, como seu pai costumava fazer quando enfrentava um caso difícil. As palavras a acalmavam e a mantinham sob controle, embora ela soubesse que tudo não passava de ilusão. Seria um milagre se seu paciente sobrevivesse.
- Tudo bem. - Ela o ouviu dizer. - Sei que não vou sobreviver. - Ele permanecia de olhos fechados, mas ela viu que os lábios ensanguentados e rachados se moviam e concluiu que não imaginara tê-lo ouvido falar.
- Não seja ridículo! Claro que você vai sobreviver. - Ela ficou irritada por ele expressar exatamente o que ela acabara de pensar. Ele tentou dar um sorriso irônico e retorceu os lábios.
- Se é isso que você acha. - Ele sussurrou. - Mas não se aflija se estiver enganada. - Ele respirou com dificuldade. - Eu não me importo.
Ele ficou imóvel e ela deixou de ouvir sua respiração. Apavorada, procurou seu pulso e respirou aliviada. Seria melhor que ele ficasse inconsciente e não sentisse dor enquanto ela cuidava dos ferimentos. Somente mais tarde, quando colocava uma compressa molhada em sua testa, para combater a febre, ela se lembrou que ele falara em inglês. Quem seria ele? O que fazia um estranho solitário, de smoking, no deserto de Qusay?
Tahir sentia dor em todo o corpo. Sua cabeça latejava impiedosamente. Sua boca e sua garganta estavam secas e ásperas. Quando engolia, parecia estar comendo vidro. Seu corpo estava rígido, pesado e machucado.
Dessa vez a surra fora feia, ele pensou vagamente. O pai, afinal, fora longe demais. Tahir não tinha forças para abrir os olhos, sair da escuridão e tentar saber onde estava, pois instintivamente sabia que a dor seria insuportável. No momento, não tinha energia sequer para fingir que não se importava. Suas únicas armas contra o pai eram o orgulho e a falsa indiferença com que reagia, sem pedir misericórdia. Aquilo levava seu carrasco à loucura e roubava seu prazer de atacar o filho. Por maior que fosse a surra, por mais demorada e cruel, Tahir jamais pedira para que ele parasse, ou se lamentara: nem um murmúrio, nem um gesto, por maior que fosse a frieza e a violência do pai. Quando Yazan Al'Ramiz mandara seus capangas capturarem Tahir e prolongara seu castigo, ele se recusara a se entregar: fora uma vitória desafiar o homem que sempre o odiara e uma pequena compensação por não saber o motivo pelo qual era odiado, mas dera-lhe algo em que se concentrar, em vez de procurar uma explicação que o pai se recusava a lhe dar. Com certeza, Tahir não era do tipo que inspirava compaixão. Preferia ficar sozinho e se controlar. Era teimoso e bastante insolente para jamais ceder. Tornara-se uma questão de honra: quando tudo se acabava, ele reunia suas forças e se retirava, ainda que cambaleante e tonto, apoiando-se nos móveis ou na parede. Sua força de vontade o sustentava. Ele não se deixava abater ou intimidar pelo pai.
Tahir inspirou o ar com dificuldade e recobrou-se o suficiente para sentir uma pressão no peito e uma pontada no lado. Teria quebrado as costelas? Dessa vez não conseguiria fugir. A ideia lhe feriu o orgulho e atiçou sua teimosia. Ele sentiu algo tocar-lhe o pescoço, alguma coisa tão leve que ele pensou ter se enganado. Mas aconteceu outra vez. Sentiu algo úmido e frio passar pelo seu queixo, descer por seu pescoço e atingir-lhe o peito, refrescando a pele ferida. De repente, parou. Tahir ouviu o barulho de água e logo em seguida sentiu o pano úmido refrescar-lhe a testa e a cabeça. Ele gemeu de alívio, mas se perguntou se seria algum novo tipo de tortura preparada pelo pai - um intervalo para que ele se recobrasse e voltasse a sentir dor quando a surra recomeçasse.
-Afaste-se-ele tentou dizer, mas sua voz não saiu. O pano parou de repente, mas voltou a ser movimentado sobre seu rosto, numa carícia que ameaçava levá-lo à desgraça. Ele nunca se sentira tão fraco. Sua pele ardia e comichava como se estivesse queimada, mas a bênção daquele contato aumentava sua ansiedade, fazendo-o respirar com dificuldade. - Vá embora. - Tahir não tinha forças para suportar a farsa do tratamento gentil que o abalava mais que a força de qualquer punho.
- Você está acordado. -A voz dela era um sussurro suave como a brisa. Tahir tentou identificá-la. Com certeza, ele não se esqueceria de uma mulher com uma voz como aquela: suave, doce e com um toque de sedução. Em meio à névoa que envolvia sua cabeça, ele chegou à conclusão que não a conhecia. Deveria ser uma das mulheres do pai. O gosto da amargura ultrapassou o sabor do sangue em sua boca. Ele deveria saber que o pai inventaria algo novo para tentar controlar sua rebeldia. Nada melhor que a carícia de uma mulher...
- Deixe-me em paz. - Tahir percebeu, desgostoso, que sua voz saíra num gemido rouco.
- Espere. - Ela levantou-lhe a cabeça com muito cuidado, mas Tahir sentiu uma dor lancinante e precisou conter um grito de agonia. - Eu sei que dói, mas você precisa beber. - Ela o fez beber um pouco de água fresca. Ele sorveu o precioso líquido, esqueceu o orgulho e tentou pedir mais. Ela o advertiu docemente: - Seja paciente. Logo você poderá beber mais. - Ela deixou que ele apoiasse a cabeça em seu colo, e Tahir sentiu o calor de seu corpo e seu perfume de mel e de canela. - Você está desidratado, precisa de líquido, mas não pode beber depressa.
- Quando é que ele volta?
- Ele? - ela perguntou. - Não há mais ninguém, só eu e você.
Tahir ouviu a voz rouca, tentadora, e engoliu um gemido de desespero. Como poderia combater a promessa daquela voz, a gentileza daquelas mãos? No seu estado de fraqueza, ele não tinha mais energia, e tudo o que queria era que ela o mantivesse no seu colo macio e que o segurasse como se a realidade não existisse. Quanto tempo ele levaria para implorar, pela primeira vez? Maldito fosse seu pai por encontrar um jeito de dobrá-lo. Ela acabaria com sua força de vontade como nenhuma surra conseguiria fazê-lo.
- Diga. - Ele tentou sentar, mas estava tão fraco que ela o conteve apenas com a palma da mão. - Quando ele voltará?
- Quem? Havia alguém com você no deserto? - Ela pareceu preocupada.
- Deserto? - Tahir tentou se lembrar. O sheik Yazan Al'Ramiz apreciava demais as comodidades da vida para passar algum tempo no deserto, ainda que este fosse o lar tradicional de seus antepassados. Ela tentava enganá-lo.
- Onde está meu pai? - ele perguntou, trincando os dentes de dor. - Ele vai querer se deleitar.
- Eu já lhe disse que não há ninguém aqui, além de nós.
- Podem ter me batido até que eu perdesse os sentidos, mas não sou tolo. - Ele sorriu, embora lhe doesse, e agarrou-a pelo pulso. Ela era jovem. Sua pele era suave e macia. Ele sentiu a batida de seu pulso e ouviu-a reter o fôlego.
- Alguém bateu em você? Pensei que você tinha sofrido algum acidente.
Afinal, Tahir conseguiu abrir os olhos. O mundo lhe pareceu distorcido e borrado. Ele levou algum tempo para enxergar, e quando o fez, perdeu o fôlego. Maldito velho! Ele o conhecia muito bem. Ela resplandecia à oscilante luz da lamparina. Seu rosto macio e pálido era perfeito. Seus lábios formavam um arco que prometia prazer. O pulso de Tahir acelerou só de olhar para ela. A despeito da dor, ele sentiu um calor nas entranhas quando ela passou a língua no lábio, nervosa. O formato do seu queixo revelava um caráter firme e determinado, que logo o agradou, e os seus olhos... Ele queria mergulhar nas profundezas castanhas daqueles olhos magníficos, sedutores e sem maldade. As tranças de cabelos pretos haviam se soltado e emolduravam-lhe o rosto sem um pingo de maquiagem. A moça olhou para ele, arregalou os olhos e pestanejou. Ela era a imagem da tentação inocente. Tahir sentiu o corpo dolorido e fraco: se ele tivesse forças, aplaudiria a escolha do pai. Como ele adivinhara que o encanto inocente abalaria mais a determinação do filho que os ardis de uma mulher insinuante e experiente?
Tahir praguejou ao recordar como descobrira ter um fraco pela imagem feminina virginal e doce. Quem pensaria que depois de tanto tempo ele ainda teria uma fraqueza por aquele tipo de fantasia? Ele tentaria evitá-la. Ela parecia frágil e calma, mas seu pulso dizia o contrário. Estaria com medo de seu pai? Fora coagida? Ele deveria lhe perguntar, mas se esforçara demais e seus olhos teimavam em se fechar. Ele soltou a mão dela.
- Vá, antes que ele machuque você também. - Ele percebeu que sua fala estava enrolada e tentou permanecer acordado.
- Quem? De quem você está falando?
- Do meu pai, claro. - A dor sufocou suas palavras e ele desmaiou.
Annalisa o colocou de volta sobre o travesseiro, aturdida. Olhar para os olhos azuis era como fixar o sol durante algum tempo. Porém, olhar para o céu nunca a deixara sem fôlego e nervosa. A voz dele, embora fosse um sussurro saído de lábios rachados, ressoara em seu íntimo. Ela olhou para além da lamparina e da fogueira do acampamento, na direção da duna por onde ele descera. Teria sido atacado? Por um estranho, ou por seu pai, como ele afirmara? Estaria confuso por causa dos ferimentos na cabeça? Além do corte profundo na testa, ele tinha um hematoma na parte posterior da cabeça, e ela levara horas examinando suas pupilas, embora nada pudesse fazer se ele tivesse uma hemorragia cerebral. Levaria dias até que a caravana voltasse, e aquela região árida do país era um buraco negro em matéria de telecomunicação. Ela sentiu um arrepio e estremeceu. Fizera todo o possível para reidratá-lo e abaixar sua temperatura. Agora surgia mais uma preocupação. Annalisa levantou, remexeu na bagagem e pegou uma pistola muito antiga que pertencera a seu pai. Todos os homens de Qusay sabiam atirar, e muitos praticavam esportes tradicionais como a falcoaria e o arco e flecha, mas seu pai, um estrangeiro, jamais usara a arma que recebera do sogro no dia de seu casamento. Ela se sentira melhor sabendo que estava armada ao viajar sozinha, mas sua sensação de isolamento aumentara e a calma que tanto lutara para conseguir lhe fugira. E se houvesse mais alguém no deserto, perdido e machucado, furioso e violento? Não poderia investigar: se abandonasse seu paciente, talvez ele morresse.
Annalisa voltou para o lado de Tahir. A febre estava alta demais. Ela pegou o pano molhado, mas receava tocá-lo. A despeito dos cortes e arranhões, das olheiras arroxeadas, ele era mais bonito que qualquer homem que ela conhecera. Suas mãos largas e fortes eram estranhamente fascinantes. Ela recordou como ele a agarrara pelo pulso e as sensações que provocara. A luz tremulante da lamparina, a camisa aberta revelava um peito musculoso e atraente, apesar da pele esfolada. Quanto à cintura e aos quadris... Annalisa foi forçada a sentar e a apreciar, fascinada, os pelos que formavam uma estreita linha descendente e sumiam no cós das calças. Ela sentiu vontade de tocá-los, seu coração acelerou e ela corou de vergonha ao perceber que o devorava com os olhos. Torceu o pano molhado e o passou no corpo dele. Recusava-se a notar como suas mãos tremiam e como seu corpo reagia ao tocar no corpo de um homem que, mesmo desmaiado, tinha mais virilidade que qualquer outro que ela conhecera.
Tahir despertou sentindo dor, mas a sensação de que sua cabeça iria explodir passara e agora se limitava a um constante martelar. Ele tentou sorrir, mas seus lábios ressecados e feridos apenas se contorceram. Ele abriu os olhos. Não estava escuro, nem claro: a luz era fraca e esverdeada. Ele ouviu o murmúrio do vento e inalou o perfume característico de Qusay: mormaço, areia e um aroma sutil de especiarias que ele jamais conseguira identificar. Ele sentiu uma onda de emoções confusas lhe subir pelo peito e ameaçar sufocá-lo.
- Então, eu não estou morto - ele disse em voz áspera.
- Não, você não está.
Tahir ficou rígido ao reconhecer vagamente a voz que lhe falava: cheia, suave, levemente rouca. A voz de uma mulher sedutora que fora mandada para enfraquecê-lo. Ela falou novamente:
- Você não parece muito satisfeito.
Tahir deu de ombros e seus músculos protestaram. Ele não costumava revelar seus pensamentos íntimos a ninguém. .
- Por que está tudo verde? Onde estamos? - Ele preferiu olhar para outro lado, evitando encarar a dona da voz até conseguir se controlar. Ele se sentia perdido, incapaz de recuperar seu autodomínio. A última surra destruíra a sólida armadura de desdém com que ele se defendia da brutalidade ao seu redor, e sua vulnerabilidade o assustava.
- Estamos no oásis de Darshoor, no meio do deserto de Qusay. -A voz dela soava como o murmúrio da água, e por um instante ele divagou... Até que a realidade o atingiu.
- No deserto? - Ele virou a cabeça, mas fechou os olhos quando a dor explodiu como um clarão.
- Sim. A luz é esverdeada porque você está dentro da minha tenda.
Uma tenda. No deserto. As palavras não faziam sentido.
- Meu pai...
- Ele não está aqui - ela interrompeu antes que ele pudesse raciocinar. - Acho que você pensou que ele estivesse aqui, mas você estava confuso. Você estava... perturbado. - Tahir estremeceu. Nada fazia sentido. Seu pai morava na cidade, onde tinha fácil acesso aos seus vícios: mulheres, jogo, negociatas e corrupção. - Você parecia achar que tinha sido espancado.
Tahir ficou gelado. Ele jamais admitiria tal coisa, ainda mais para um estranho! Quem seria aquela mulher? Ele reabriu os olhos e mergulhou nas profundezas castanhas. A luz do dia ela era ainda mais bonita. Agora ele se recordava da mulher que o perseguira em pensamento, ou seria em sonhos?
- Quem é você? - Ele notou os cabelos cuidadosamente presos, a ausência de joias, a blusa amarela e as calças de algodão bege. Ela não se vestia como uma das mulheres locais, mas somente alguém da região estaria ali. Da posição que ele estava, ela parecia ter pernas intermináveis, e o algodão marcava a curva de suas coxas e de seus quadris. Ela sentou no chão, ao lado dele, exalando um suave perfume, e, quando se inclinou na sua direção, seus seios repuxaram o tecido da blusa amarela. Tahir sentiu um calor na virilha. Não, ele ainda não morrera. Afinal, talvez isso fosse uma vantagem.
- O meu nome é Annalisa Hansen. - Ela hesitou, como se esperasse que ele dissesse algo. - Você está aqui há alguns dias. Você simplesmente surgiu no meio do deserto.
- Há alguns dias? - Como ele perdera a noção por tanto tempo?
- Você está ferido. - Ela apontou a cabeça e o peito de Tahir. - Meu palpite é que você esteve um bom tempo no deserto. Quando me encontrou, estava seriamente desidratado. - Ela tocou-lhe a testa. Tahir teve a sensação de frescor e de familiaridade. Ele tinha uma vaga lembrança de ser tocado, de água e de palavras de ânimo. - Você alternou períodos de consciência e inconsciência. - Ela recolheu a mão e ele desejou que ela voltasse a tocá-lo. - O seu amiguinho estava preocupado.
- Amiguinho? - Ele olhou ao redor e viu a tenda despretensiosa, os utensílios cuidadosamente arrumados num canto. A brisa agitou as páginas de um livro aberto.
- Você não se lembra? - Ela o examinou, muito séria.
- Não. - Ele se lembrou a tempo que não deveria balançar a cabeça. - Eu não me recordo. - Era verdade. Seu raciocínio estava frágil e incompleto. Ele não conseguia registrar os fatos.
- Tudo bem - ela disse, compreensiva. Tahir se perguntou quem seria aquela mulher que cuidava dele num oásis do deserto. - Você levou uma tremenda pancada na cabeça. É natural que fique confuso por algum tempo.
- Diga... - Ele estava preocupado com a perda de memória. Lembrava-se de um cassino, de uma mulher quase sentada em seu colo, da pilha de fichas que aumentava. Lembrava-se de um iate em uma marina movimentada, de uma festa num apartamento de cobertura, de uma reunião de negócios onde as pessoas tinham os rostos borrados. Não se recordava de detalhes. - Que amiguinho? - Ela sorriu e o sol pareceu iluminar o interior da tenda.
- Você estava carregando um cabrito.
- Um cabrito? Que maluquice é essa?
- Sim - ela deu uma risada. - Um cabritinho. Ele parece seu amigo. Ele sai à procura de comida, mas sempre volta para dormir do lado de fora da tenda.
Um cabrito? Ele não se lembrava, e o branco era apavorante.
- O que mais? - ele murmurou. Tinha que haver algo mais. Ela deu de ombros e ele viu um brilho em seus olhos. Seria aflição, medo?
- Nada mais. Você apenas apareceu. Talvez você possa me dizer alguma coisa. - Ela apertou o lóbulo da orelha, nervosa. - Quem é você?
- Meu nome é Tahir...
- E... - ela disse, encorajando-o.
Ele sentiu um peso no peito, seu estômago se contraiu e o sangue lhe subiu à cabeça. O caleidoscópio de imagens indistintas girava em sua cabeça e a deixava vazia.
- Receio que isso seja tudo o que sei. - Ele tentou sorrir. - Parece que perdi a memória.
Tahir parecia muito calmo para quem acabara de perder a memória. Annalisa vira o choque em seus olhos, mas ele imediatamente o dissimulara. Ela sentiu compaixão, mas não demonstrou, sabendo por instinto que ele não gostaria. Embora jamais tivesse saído de Qusay, Annalisa já vira muita coisa nos seus 25 anos. Como assistente do pai, presenciara as reações a acidentes e doenças, e vira como a dor e o medo abalam até a vontade mais forte. Apesar do trauma e da dor, que deveria ser insuportável, aquele homem lhe sorria com uma calma indiferença, como se estivessem tomando chá e conversando.
Nenhum homem lhe causara aquela sensação que a queimava por dentro. Há alguns anos, com Toby, o homem com quem pretendia se casar, ela sentira algo semelhante, mas não tão forte nem tão rapidamente. Alguma coisa em Tahir fazia com que ela se sentisse ligada a ele num nível mais profundo que nada tinha a ver com sua beleza e sua aparência sofisticada. Era algo de diferente. Ela se sentia atraída por sua força interior, vislumbrada nos olhos azuis que a fitavam de bom-humor, ignorando o receio de que sua amnésia fosse permanente.
Ele pertence a outro mundo, um mundo do qual você não faz parte. Seria melhor que ela se lembrasse. Annalisa sentiu uma pontada de dor e ficou angustiada. A que mundo ela pertencia? Durante toda a vida ela jamais se encaixara. Nascera em Qusay, mas vivia de maneira diferente das mulheres locais e não correspondia ao papel tradicional que elas desempenhavam. Estava dividida entre dois mundos, e não pertencia a nenhum. Fizera parte da vida do pai, fora sua assistente e confidente, mas ele se fora, deixando-a desolada.
- O que houve? - A voz de Tahir arrancou-a de suas reflexões melancólicas. - Você está bem?
Annalisa sorriu. Deitado no chão, ferido, vagamente consciente, com a memória prejudicada, aquele homem se preocupava com ela? Ela tocou-lhe o braço e sentiu que seus músculos se contraíam, irradiando sua força até ela. Algo aconteceu entre os dois. O sorriso indiferente de Tahir desapareceu e ele pareceu preocupado.
- Não há nada de errado - ela respondeu depressa, afastando a mão que parecia queimar. -A falta de memória é normal. Ela voltará quando chegar a hora. - Ela tentou dar um sorriso confiante. - Você tem dois ferimentos na cabeça. Um já seria suficiente para abalá-lo por alguns dias. - Ela disfarçou o medo de que ele tivesse algo mais grave.
- Você fala como se tivesse algum conhecimento de medicina.
- O meu pai era médico. O único médico da nossa região. Eu o ajudei durante anos. - Ela se virou para esconder o sofrimento que as lembranças lhe traziam. - Eu não sou formada, mas sou capaz de tratar uma distensão e de controlar uma febre.
- Eu desconfio que você fez muito mais que isso por mim, Annalisa. - Ele pronunciou o nome dela de maneira quase íntima. Ela o encarou e percebeu que ele a olhava admirado. - Você salvou minha vida, não foi? - A frase acabou num murmúrio rouco que reverberou na pele de Annalisa. Ela deu de ombros e se sentiu constrangida pelo modo como seu corpo reagia ao olhar daquele estranho. Fizera todo o possível, mas ele ainda corria perigo.
- Com o tempo você ficará bem. - Ela rezou para estar certa. - Tudo que você precisa é de tempo e de repouso. Tente não se preocupar. - Ela se preocuparia pelos dois. Ainda não acreditava que ele estivesse mantendo uma conversa razoável. Desde que entrara em sua vida, ele oscilava entre a consciência e o delírio, deixando-a apavorada e determinada a fazer o que fosse possível. - Quero checar seus reflexos. - Ela ajoelhou na ponta do colchão. - Você consegue mexer os pés? - Ela observou enquanto ele girava os tornozelos e levantava um pé após o outro. Sentiu-se aliviada. - Ótimo. Vou segurar os seus pés. Quando eu mandar, pressione-os contra as minhas mãos. Certo? - Ela apoiou os pés dele sobre os seus joelhos e segurou-os. Ele tinha pés fortes e bem-feitos. Por um momento ela ficou parada, apenas sentindo a sensação de pele contra pele. Jamais pensara em pés como algo sexy...
- Annalisa? - Ele a trouxe de volta à realidade e ela corou.
- Empurre as minhas mãos. - Ela sentiu a pressão, sorriu e olhou para ele. - Isto é ótimo. - Ela o soltou com cuidado e inclinou-se sobre ele. -Agora, pegue minhas mãos - ela disse em tom profissional, o que se tornava difícil quando ele a fitava fixamente com aqueles olhos safira. Annalisa imaginou se ele perceberia sua agitação. Tahir agarrou as mãos que ela lhe estendeu sem hesitar, dizendo a si mesma que o rebuliço em seu peito se devia ao alívio de ver que ele estava bem. - Agora, aperte. - Ela tentou ignorar a sensação de intimidade produzida pelas mãos entrelaçadas e respirou aliviada. Os reflexos estavam normais. Ela procurou se afastar, mas ele não a soltou. Nos olhos dele brilhava algo indefinível e perturbador. Embora fosse ele o ferido, ela se sentiu vulnerável.
- O que você está checando? - ele perguntou em voz firme.
- Estou verificando se as suas reações estão normais. - Ela disfarçou seu receio de que ele tivesse uma hemorragia cerebral. - E estão. Logo você poderá se levantar e se movimentar.
- Ótimo. Estou louco para tomar um banho. Você disse que estamos num oásis?
- Sim, mas...
- Então não há problema quanto à água. - Ele hesitou. - Um dos seus amigos poderia me ajudar a levantar.
- Estou sozinha, e não acho que um banho agora seria recomendável.
Tahir arregalou os olhos.
- Você está sozinha? Você é uma mulher incrível, Annalisa Hansen. - Ele a soltou de repente, e ela quase caiu em cima dele. - Você faz isso sempre? Acampa sozinha no deserto?
- Esta é a primeira vez que estou sozinha. - A voz dela falhou e ela desviou o olhar. Iam fazer seis meses que perdera o pai e a data a deixava abalada, causando uma dor quase insuportável. Tahir mudou de assunto bruscamente.
- Se você soubesse quanta areia eu engoli, não se negaria a me ajudar. - Ele levantou um pouco e se apoiou no cotovelo. Depois, tentou sentar e ficou balançando ao lado dela. Annalisa protestou, mas ele a ignorou e conseguiu se ajoelhar. Afinal, ela desistiu e o ajudou, sabendo que não conseguiria detê-lo. Mais tarde ela recordou o brilho dos olhos dele quando ela se deixara invadir pela tristeza. Teria percebido o seu sofrimento e resolvera distraí-la? A ideia era absurda.
Tahir amaldiçoou a si mesmo por ser um tolo, en quanto sentava dentro do poço e a água lhe refrescava o corpo dolorido. Sabia que se movimentar não seria uma boa ideia, mas recusava-se a ser um inválido. Pena que o seu cérebro não funcionasse. Quanto mais ele tentava se recordar, mais sua cabeça doía, assim como suas costelas. Ele descartou a possibilidade de que o dano fosse permanente: não aceitaria aquela condição. A decisão o deixou ainda mais determinado a recuperar sua forma. Além disso, havia Annalisa, com os olhos castanhos brilhando de aflição ao evitar encará-lo. Ele percebera sua dor e sua fragilidade e sentira uma necessidade irresistível de mitigar seu sofrimento. Isso lhe dera forças para levantar. Idiota! Ele quase desabara, e não fosse ela ajudá-lo, não chegaria até a água. Sentado no poço, com água até a altura do peito, vestindo apenas a sunga, que conservara por respeito a Annalisa, Tahir se perguntou de onde tiraria forças para voltar à tenda, e quanto tempo aguentaria ficar longe da mulher que o observava, sentada ao lado da fonte. A tortura de deixar que ela o despisse fora diferente, e o fizera esquecer momentaneamente a dor. Quando ele a vira ajoelhar-se diante dele, deixando que se apoiasse em seu ombro para livrá-lo das calças, a sensação que sentira nada tinha a ver com um inválido. Depois, ela o ajudara a entrar na água, sem perceber que se molhava, mas ele percebera. Agora, quando fechava os olhos, ele via o sutiã de renda marcado sob o algodão transparente, sustentando seios volumosos. Ele recordou a curva firme de seus quadris, o elástico do biquini sob as calças molhadas e o longo contorno de suas pernas. Tahir sentiu a boca seca. Deveria estar angustiado, tentando se lembrar quem ele era, tentando juntar os fragmentos de memória que flutuavam em sua cabeça. Mas seus pensamentos teimavam em voltar para Annalisa. Quem seria ela? Por que estaria ali? Apesar da água fria, suas entranhas latejavam, enquanto ele a via acariciar o cabrito. Ele seria sempre assim com as mulheres? Excitava-se tão facilmente? Ele recordou que a mulher cheia de joias e seminua do cassino nada lhe despertara, e estremeceu ao pressentir que deveria se preocupar com o modo como reagia a Annalisa Hansen.
Tomar banho no wadi fora um grande erro. Annalisa mordeu o lábio ao ouvi-lo resmungar durante o sono. Nas últimas horas, ele se agitara cada vez mais, e ela abandonara o telescópio e sentara ao lado dele. Tahir se virou, esticou o braço e deixou o peito exposto à brisa da noite. Ela tentou esquecer que ele estava despido sob as cobertas. Mal retornara do banho, ele caíra sobre o catre, livrando-se da sunga molhada sem se importar com sua presença. Annalisa duvidava que ele se lembrasse que ela estava ali, mas, para sua aflição, ela bem que se lembrava. E com detalhes. Ela ficou vermelha ao recordar a curva firme de suas nádegas, os músculos de suas coxas e...
- Pai! - Ele gemeu asperamente, debatendo-se. Annalisa se assustou, pensando no hematoma em sua cabeça.
- Shh. Está tudo bem, Tahir. Você está a salvo. - Fossem quais fossem os pesadelos que seus ferimentos provocavam, eles o assombravam como demônios. Ele parecia desesperado. Annalisa colocou a mão em sua testa. A temperatura estava normal, ainda bem, mas... Ele a agarrou pelo pulso e puxou-a. Ela perdeu o equilíbrio e tentou resistir, mas, quanto mais lutava, mais firme ele a segurava. Tahir franziu a testa, balbuciou alguma coisa, contraiu o rosto e... puxou. Annalisa soltou uma exclamação de surpresa ao cair em cima dele. Ela tentou se soltar sem enfiar os cotovelos em suas costelas, mas ele a envolveu com o outro braço. Estava presa.
- Ele mandou você, não mandou? - ele rosnou baixinho.
- Ninguém me mandou. - Ela tentou se desvencilhar, mas ele a apertou contra o peito e envolveu-a com a pernas. Annalisa sentiu seu calor e ficou paralisada. Quando ela respirava, os corpos dos dois se tocavam em toda a extensão.
- Ele sabia o que estava fazendo, maldito. -A voz dele soava rouca e grave. Annalisa tentou ignorar o fascínio de estar nos braços de Tahir. Mesmo com Toby, ela jamais se sentira tão... íntima. Toby respeitara o fato de que em Qusay a castidade das mulheres não fosse um presente a ser desprezado. Ele prometera esperar, mas o futuro sobre o qual haviam conversado jamais chegara. - Houri... - Tahir balbuciou. Ela sentiu um arrepio e um calor no ventre. - Tentadora... - Ele relaxou o abraço e acariciou-lhe as costas. Foi tão gostoso que ela teve que se reprimir para não arquear o corpo como um gato. Estendida em cima dele, ouvindo-o murmurar em seu ouvido, ela se sentiu derreter. Sentiu um calor estranho, estimulante e perigoso. Tahir a puxou pelos quadris. Ela sentiu o volume de sua ereção contra as coxas e mordeu o lábio. Tahir não sabia o que estava fazendo, mas o volume que ela sentia entre as suas coxas não deixava dúvidas que não faria diferença. Annalisa se apavorou ao perceber que estava extremamente excitada. Quem diria que um corpo masculino poderia ser tão atraente?
- Não devo... - Ele se calou e parou de acariciá-la. Respirou profundamente, colando o peito aos seios de Annalisa. Ela fechou os olhos, decidida a não reagir, mesmo que seus mamilos estivessem intumescidos de prazer. Esperou um pouco e tentou se soltar. Na mesma hora, ele a prendeu num abraço e foi se acalmando.
Annalisa esperou dez minutos e tentou se soltar ou tra vez. Ainda adormecido, Tahir a apertou contra o peito, recusando-se a soltá-la. Ela viu que não tinha escolha a não ser esperar que ele dormisse profundamente, e relaxou sobre o corpo dele. Por enquanto, não iria a lugar algum.
Um raio de luz da aurora acordou Tahir. Ele foi imediatamente despertado pela dor dos músculos maltratados, da carne lacerada e do latejar na cabeça. E pela excitação sexual. Ficou encantado ao perceber o tamanho de sua sorte. Estava deitado de lado, com Annalisa nos braços. Ela apoiava a cabeça sobre o seu braço, encolhida contra o seu peito. Ele inalou o perfume de seus cabelos como se fosse uma promessa dos prazeres que poderiam vir. Ela era quente e curvilínea, magra, mas arredondada nos lugares certos. Tahir mal ousava respirar, mas abriu-lhe a blusa e acariciou-lhe o seio por cima do sutiã. A respiração dele saiu num assobio e ele praguejou silenciosamente. Não estava pronto para acordá-la e deixá-la se afastar. Era óbvio que não fora o sexo que os levara a compartilhar o colchão estreito. Ela estava completamente vestida. Mas roupas forneciam pouca proteção quando se estava no seu estado de excitação e quando as nádegas de Annalisa pressionavam-lhe os quadris como se fosse um convite. Ele tentou controlar seu desejo, a necessidade de apaziguar o apetite que o consumia, a vontade de rasgar as calças de algodão e de mergulhar dentro do corpo macio daquela mulher. Trincou os dentes e suspirou. Disse a si mesmo que deveria se afastar, que não tinha o direito de abraçá-la daquele jeito, mas... desejava-a intensamente. Ele tentou combater seus instintos, mas não conseguiu resistir e acariciou-lhe o mamilo. Seria o tipo de homem que se aproveitava de uma mulher adormecida? Uma mulher que fora bondosa e que não lhe acenara sequer com um sinal de interesse sexual? A respiração de Tahir se tornou ofegante. Ele nem sabia se era casado ou comprometido com uma mulher que estaria longe, preocupada. A ideia foi como um balde de gelo. Tahir se afastou imediatamente, com cuidado. Cada movimento que fazia era um tormento.
O sol estava alto quando Annalisa acordou. Ela se lembrou de Tahir abraçá-la com uma força que desafiava as suas condições. Recordou-se de haver resolvido esperar que o pesadelo passasse para tentar fugir. Relembrou a forma inconfundível e incomum como o seu corpo reagira ao abraço de Tahir. Ela corou ao lembrar seu prazer quando percebera que ele estava excitado. Annalisa ajeitou a blusa que provavelmente se abrira durante a noite. Depois, tentou controlar o pânico por ele não estar ao seu lado. Claro, era um bom sinal ele ter tido forças para levantar sem ajuda. Mas ela se apressou. Apesar da sua força e de sua de terminação, ele ainda não estava curado.
Assim que ela chegou à porta da tenda, viu-o sentado ao pé de uma palmeira. Ele não estava nu como quando a puxara sobre ele. Vestia as calças que ela lavara, mas, mesmo assim, Annalisa sentiu o calor subir pelo corpo e ficou envergonhada por ele ser seu paciente. E confusa. Em 25 anos, jamais sentira algo semelhante por um homem. Com o peito descoberto, descalço, ele parecia selvagem, primitivo, apesar da calça elegante e cara, que indicava que ele pertencia a uma classe superior à sua. Ele parecia à vontade, como um pirata descansando, mas os ferimentos no peito e na testa comprometiam essa imagem. Ela o observou se inclinar para o lado e sentiu uma sensação estranha no ventre, como se estivesse com fome.
- Aqui. - Ele não a vira chegar. Falava com o cabritinho que se esticava para alcançar um arbusto. Tahir puxou um galho para que o animal pudesse comer. Outro homem de Qusay não se daria o trabalho, a não ser que se tratasse de um cavalo de raça. Embora fosse extremamente viril, ele possuía um lado sensível. Seria sua imaginação ou no dia anterior ele inventara o pretexto do banho ao ver que ela se emocionara ao pensar em seu pai? Parecia-lhe ridículo, mas...
- Ah, a Bela Adormecida acordou. - Os olhos dele brilharam. Quando ele sorriu, formou um vinco perto da boca, e ela ficou fascinada.
- Espero que você não tenha precisado de mim mais cedo - ela murmurou. - Não sei por que perdi a hora.
- Não sabe? - O sorriso dele se alargou. Annalisa sentiu o coração vacilar e os joelhos ficarem bambos, e se agarrou ao poste da tenda. O que acontecia com ela? Sempre fora sensata, responsável, segura. Mesmo quando estava para se casar, jamais se deixara levar pela simples presença de um homem.- Pelo que me recordo, você se esfalfou cuidando de mim. - Annalisa fez um esforço e abandonou a segurança da tenda, sabendo que o único perigo estava na reação do seu corpo aos penetrantes olhos azuis. -A propósito, eu guardei seu telescópio.
- Obrigada - ela murmurou, checando a velha caixa do telescópio.
- Parecia estar tudo certo quando eu o desmontei.
- Você entende de telescópios? Tahir deu de ombros.
- Quem sabe? - Ele pareceu amargurado, e seu olhar ficou distante.
- Sinto muito. - Ela percebeu que fora insensível. - Estou certa de que logo você irá se lembrar.
- Tem razão. - Ele sorriu, mas seu rosto estava sério. - Sente aqui comigo. - Annalisa sentou ao lado dele. - Eu me lembro de algumas coisas. Mais do que lembrava antes.
- É mesmo? Isso é ótimo. Do que você se recorda? - Se ele reparou no tom exagerado de entusiasmo, não comentou. Ela passara dias imaginando quem seria ele e como chegara até ali. Para ele, não saber deveria ser muito pior.
- Apenas de imagens confusas. Uma festa. Um bando de pessoas sem rosto. Lugares que não consigo identificar. - Ele hesitou. - Uma tempestade de areia forte o suficiente para bloquear a claridade.
- Foi na véspera da minha chegada aqui - ela esclareceu.
- Eu me lembro da vastidão do deserto. - Ele olhou para ela. - O que me levou a imaginar como sairemos daqui e, enquanto isso, se você trouxe comida suficiente para sustentar nós dois.
- Há bastante comida. -Ao contrário do que costumava fazer, ela trouxera comida para dois. - Quanto ao transporte, o oásis está na rota de uma caravana de camelos.
- Uma caravana irá passar por aqui?
- Não agora. Dentro de alguns dias. - Ela rezara para que eles passassem mais cedo e levassem Tahir para um hospital. Agora, seu desespero estava misturado a outras emoções.
- Dentro de alguns dias? - ele repetiu. - Talvez demore? - A voz dele estava rouca e ele a olhou com tanta intensidade que Annalisa perdeu o fôlego. - Você e eu, sozinhos no deserto...
Ela fitou os olhos inescrutáveis, sentiu um vazio no estômago e tentou combater emoções que não compreendia. A intimidade da noite anterior mudara tudo. Pela primeira vez a solidão forçada dos dois lhe parecia... perigosa.