– Merda! - Puxo com força a tranca da porta e resmungo um palavrão quando ela nem se mexe – Vamos lá, abre logo.
Dou um último puxão e oscilo para trás, arfando com o movimento repentino, olho para minha mão e vejo o trinco de ferro. Puta merda quebrei a porta do prédio.
Olho para os lados e somente vejo o porteiro atrás do seu balcão muito mais interessado em seus vídeos de gatinho do que na inquilina que acabou de quebrar a porta da frente, me abaixo o suficiente para ver o estrago e vejo um pequeno cilindro no chão, pego-o e coloco no único lugar vazio que sobra.
Junto os dois e enfio de novo na porta, um clique meio estranho soa e eu movo para baixo, a porta abre com um puxão, mas o trinco se solta da porta de novo, insiro na porta para que pareça que não está quebrado e deslizo para fora, suspirando aliviada.
Me encolho debaixo do sobretudo quando sinto o ar gélido atingir o meu corpo e começo a correr em direção ao ponto de ônibus, não consigo nem recuperar o meu fôlego quando o ônibus para a minha frente. Subo as escadas atrás de algumas pessoas e relaxo os músculos enquanto fico em pé segurando a barra de ferro.
Leva exatos trinta minutos, mas cinco minutos correndo pela rua para que eu chegue à estação de metrô, e já estou totalmente molhada da chuva que resolveu cair de repente, faço uma careta quando não vejo nenhum acento, mas sorrio quando vejo uma senhora me olhar com pena do seu banco.
Pois é, minha senhora, hoje não é meu dia.
Me encosto em um dos cantos e trago minha bolsa para frente, o metrô desliza pela plataforma e eu olho o relógio, vinte minutos para eu estar totalmente atrasada e como essa viagem é de quinze minutos já me considero uma derrotada. Droga.
– Não está tendo uma manhã boa querida? - a senhora pergunta e eu foco os meus olhos nela antes de responder
– Até agora não, mas tenho certeza que irá melhorar
Ela sorri gentil e eu mordo o meu lábio com força quando vejo o sorriso dela, me lembrando. Bloqueando esses pensamentos, balanço a cabeça e suspiro baixinho olhando para o relógio de novo, pego a minha pulseira e a giro em torno do pulso tentando acalmar minhas palpitações.
Quinze minutos depois minha respiração se controla e eu desço do metrô correndo e subindo as escadas tentando não empurrar ninguém no processo, o que é meio que impossível, mas peço desculpas, elas devem servir para algo.
Guarda-chuvas de cores diferentes aparecem e desaparecem da minha visão enquanto corro pelas ruas me molhando ainda mais. Estanco quando chego em frente ao prédio em cores preto obsidiana e abro as portas de vidro derrapando quando chego ao saguão, ignoro com um sorriso inocente o olhar emburrado de Oliver, um dos seguranças, e entro no elevador apertando o botão do terceiro andar.
Bato os pés, impaciente vendo os números subirem e solto um suspiro quando um plim soa e eu estou no meu andar. Bato o meu ponto com o cartão e vejo que meu atraso foi de dois minutos, nada mal para quem acordou atrasada..... De novo.
– Bom dia Kallie – Coloco a bolsa em cima da minha mesa e aceno para Tori a minha frente.
- Bom dia
- Esqueceu o guarda-chuva de novo? - ela pergunta e eu levanto um ombro, ela ri baixinho e me entrega uma caneca de café, o aroma vem até o meu olfato e eu inspiro feliz, mas aí lembro do gosto de café sem graça daqui e faço uma careta – Ah vai, pelo menos vai te esquentar.
- Uma sauna me esquentaria, isso? - Levanto a xícara – Só vai me fazer ter uma baita taxa de glicose no sangue.
Ela concorda bebendo um gole e eu faço o mesmo nos fazendo rir, me sento na cadeira desconfortável e aperto o botão de ligar do computador, minha mesa é o meu orgulho, odeio bagunça, então coloco a bolsa em uma das gavetas e somente tiro meu celular e meu bloco de anotações. Inspeciono o celular em busca de mensagens importantes, então ignoro algumas e relaxo o ombro quando não vejo mensagem de Bianca.
- Você viu que Campbell comprou as ações da empresa de tecnologia avançada? A Technological Structure.
- Eu vi – Vejo ela digitando e dou um sorriso quando sinto seu olhar desconfiado – O que? Acha que foi um péssimo investimento?
- Na verdade eu acho sim, aquela empresa estava falindo Kallie – Ela arqueia as sobrancelhas em descrença – Tipo, eu jurava que Campbell era um cara inteligente, mas aí ele foi lá e comprou uma empresa falida.
- Tori, você sabe muito bem que dependendo da pessoa, poderia transformar a empresa e colocar ela no eixo de novo
- Que problemático – ela resmunga e eu volto os olhos para a planilha, digito as informações que faltam e marco de vermelho quando não encontro o que estava procurando na outra pasta.
Campbell, uma das maiores empresas de construção do estado de Nova York, comandada por nada mais nada menos que o mais novo bilionário Declan Campbell, com apenas 30 anos, ele conseguiu chegar ao topo e permanecer. É um belo histórico, não é? Coisa de cinema.
Eu faço parte disso... Mais ou menos. Trabalho em uma das muitas localizações, em um dos prédios mais bem construídos e mais bonitos também, a fachada com pedras pretas chama a atenção dos passantes e me distraía também, mas isso foi há quatro anos. Comecei nesta empresa como secretária, basicamente eu atendia telefones e passava eles para o ramal correto, mas a dois anos atrás passei para assistente administrativo de Taylor Colton.
É um ótimo emprego, principalmente para mim, que não conseguiu terminar a faculdade de contabilidade, mas isso não vem ao caso agora, e com certeza não é boa ideia pensar sobre isso. Termino a planilha e envio rapidamente quando vejo Colton saindo do elevador, com sua pasta de couro super cara e seu terno comprado sob encomenda.
- Bom dia
Sua voz estala no ar e vejo algumas cabeças se levantando, mas não ousando responder, ele não gosta que respondam o bom dia dele, ou qualquer pergunta que ele faça e seja retórica, como vamos adivinhar que são retóricas? Bem, não sabemos, então tomamos o cuidado de não responder, eu sei, é hilário.
Permaneço sentada, mas coloco o bloco de anotações e a caneta perto de mim enquanto começo uma lista de relatórios sobre os funcionários do prédio. Não demora muito para que Colton me chame ainda de dentro da sala.
- Jones!
Vejo Tori fazer uma careta antes de me levantar e dou um sorriso mais animada do que de fato estou. Estico a camisa de botões o máximo que posso para não parecer que está tão amassada e passo a mão no cabelo colocando-os para trás das orelhas.
A porta está fechada então bato devagar e entro, basicamente aqui ninguém tem uma sala privada, somente Colton, e ele faz questão de ornamentar sua sala como se fosse o dono de tudo, a mesa de mogno, junto com uma cadeira reclinável e um quadro que ele jura ser um autêntico de Jackson Pollock.
- Me chamou senhor Colton?
- Sim, como está o problema com Celina? - ele levanta a cabeça dos seus papéis e eu o observo, um lado do seu bigode está mais para a esquerda dando um pequeno contraste estranho a sua falta de cabelo, seus olhos pretos impacientes fixam em mim e eu pigarreio focando de novo na pergunta.
- Celine ainda está em casa, o médico pediu mais uns dois meses de repouso absoluto
Colton bufa e seu bigode entorta ainda mais, finjo coçar o cantinho do olho para desviar a atenção e espero ele falar.
- Preciso dela e não tenho tempo para fazer entrevistas agora.
- Posso ajudar em alguma coisa? - pergunto educadamente, mas me arrependo quando vejo seus olhos deslizarem por mim, me avaliando – Eu poderia fazer as entrevistas, ou requisitar alguém que já trabalha conosco.
- Sim...- Colton se reclina na cadeira e suas mãos se juntam, em pose pensativa – Você foi secretária não é mesmo Jones?
- Sim senhor – respondo e desloco o peso de um pé para outro, desconfortável com sua avaliação repentina.
- Como estão suas tarefas agora?
- Perdão?
- Suas tarefas Jones – ele espana com a mão impaciente – Os trabalhos que você faz, poderia ser passado para outra pessoa por um tempo?
Fico desnorteada por alguns segundos, meus pensamentos vão de demitida para ocupar o cargo de Celine. Prefiro o segundo, obrigada.
- Creio que sim
- Maravilha, quem você colocaria no seu lugar? - Jesus, isso estava muito estranho
- A Vitória ou a Jane
- Tudo bem – ele acena e pega o celular discando rapidamente antes de colocar no ouvido, fico parada sem saber se é para sair, mas como ele não faz nada que me diga o contrário, permaneço em pé no mesmo lugar – Sônia? Sou eu Colton – ele faz uma pausa e depois continua – Arranjei a pessoa perfeita para ficar no lugar de Adams – Mais uma pausa, dessa vez ele está olhando para mim com um sorriso satisfeito – Sim, seu nome é Jones, assistente, organizado. É de confiança – Finjo tirar um fio imaginário da minha roupa, ocultando minha expressão de surpresa do rosto enquanto ele escuta o outro lado da linha – Sim, mandarei assim que possível. Até mais Sônia.
Ele desliga a ligação e eu coloco os ombros para trás esperando as ordens, porque depois disso sei de certeza que ele irá me colocar no lugar de Celine, como secretária do setor de contabilidade. Não me importo com isso, desde que seja temporário, não suportaria ficar o dia inteiro atendendo o telefone.
- Negócio feito Jones, você vai ser a nova secretária de Campbell – ele diz sorrindo, enquanto na minha cabeça a única palavra que vem é:
Cacete
Saio da sala entorpecida e me sento jogando o bloquinho e a caneta na mesa, os dados da planilha a minha frente é um emaranhado de números e letras, piscando os olhos lentamente levanto a cabeça e encontro o olhar de Tori do outro lado.
- O que foi?
- Fui colocada em outro cargo – eu respondo e ela arregala os olhos fascinada
- Sério? Ai meu deus, você conseguiu! – Ela se levanta e vem para o meu lado, ficando de costas para a sala de Colton – Você vai para onde? Contabilidade?
- Secretária
- O que?? - ela grita na sala e eu belisco o seu braço, recebendo uma careta de volta – Como assim? Você saiu de lá, porque voltaria?
- Secretária de Campbell – eu falo e coloco a mão sobre a cabeça sentindo um leve latejar nas têmporas – Puta merda, o que eu faço?
- Aí caramba, sinto muito
Franzo a testa com o seu tom de voz e levanto o olhar para ela, desconfiada.
- Como assim, sinto muito? O cargo é só enquanto Celine não volta.
- Ah, então a situação melhora – ela responde eu levanto uma sobrancelha esperando, ela olha para os lados resmungando e diz em voz baixa – É que ouvi algumas meninas comentando sobre quão irritante e arrogante é Campbell, ele basicamente demitiu as três últimas secretárias... Tipo, em menos de dois meses.
- Merda – eu digo e ela lança um olhar solitário para mim
- Mas eu ouvi dizer que o salário é bem melhor do que o que ganhamos aqui
- Deve ser, já que ninguém consegue ficar no cargo por muito tempo – falo ironicamente e ela sorri dando de ombros.
Minha cabeça traz milhões de pensamentos e um montante deles é bem negativo.... Todos são, para dizer a verdade. Puxo uma respiração e começo a organizar eles de modo classificativo, primeiro os problemas de agora, depois lido com o resto.
- Preciso que fique no meu lugar, mas se não der para você, coloco Jane – eu falo e ela acena confirmando.
- Eu fico, pelo menos você pode me ajudar quando eu precisar. A Jane é um tanto atrapalhada em questão de organização.
Concordo com a cabeça e volto para o computador clicando em algumas páginas.
- Vou te explicar o básico por enquanto, depois a gente resolve.
- E quanto a Campbell?
- Vou pensar nele depois
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Já teve aquela sensação de que um caminhão pode ter passado por cima de você? É como um terrível pressentimento de que seus ossos foram triturados e sua pele arrancada de você. Minha alma deve estar por aí, divagando de um lado a outro. Se a encontrar mande me avisar por favor.
Mas ainda resta muita coisa para fazer depois do trabalho. Metrô, ônibus e uma caminhada e então enfim consigo chegar em casa. O trinco foi consertado, ou melhor dizendo, remendado, tem alguma espécie de cola ou sei lá, olho para o trinco e franzo a testa pensando, tomara que não seja fita, porque acho que senti alguma coisa descolando.
Tranco rapidamente e subo as escadas, forçando minhas pernas a se movimentarem, puxo uma respiração e ando pelo corredor até a minha porta. Dou um sorriso para o gatinho da senhora Prout que parece bem descansado deitado no carpete fofinho, e abro a porta.
- Olha só quem chegou – Tiro o casaco e o penduro em um dos ganchos desocupados enquanto sigo pelo minúsculo corredor em direção a sala – Esqueceu de levar o guarda chuvas de novo?
- Está surpreso? – pergunto ironicamente enquanto me jogo no sofá ao lado de Jasper, ele se afasta e estremece quando sente os meus cabelos úmidos. Eu sei que deveria ir para o quarto, tomar um banho e me encolher na minha cama, mas minhas pernas pararam de funcionar, então inclino a cabeça para trás e suspiro baixinho fechando os olhos.
- Você deveria trocar de roupa, sabia?
- Sim, mas meio que estou dormindo aqui, então....
Sinto ele resmungando algo sobre molhar o sofá, mas não abro os olhos para confirmar.
- Se eu disser que fiz aquele macarrão ao molho que você tanto gosta você promete ir tomar um banho e tirar sua bunda molhada daqui?
- Prometo – falo animada abrindo os olhos, jesus, estou morrendo de fome – Mas sem pegadinha
- Fechado, mas vá logo
Ele me empurra com as mãos e eu me impulsiono para frente, mas não antes de sacudir o cabelo em cima dele, ele solta um "vaca" e eu me levanto rindo. Jasper Corrigan é meu companheiro de apartamento, e meu melhor amigo, ele basicamente é um gênio na cozinha, o restaurante em que ele trabalha pode confirmar isso. Ele é uma das minhas pessoas favoritas, mesmo que tenha alguns pontos negativos, vou citar alguns deles.
Primeiro, ele adora me pegar de surpresa, então meio que gosta de trazer caras para dentro do apartamento e não me avisar. Já perdi a conta de quantas vezes vi homens pelados andando pela casa.
Segundo, quando estávamos no início da faculdade e começamos a morar juntos, eu sem querer coloquei açúcar nos seus ovos mexidos, e desde então temos seguido uma série de pegadinhas sem tamanho, mesmo que eu tenha dito por semanas que foi sem intenção.
Terceiro e último, ele tem a incrível personalidade de pintar todos os dias os seus cabelos com uma cor diferente, isso meio que é um ponto que gosto muito, mas o ponto negativo é que minhas toalhas brancas sofrem com os respingos de tinta, e minhas escovas de cabelo sempre ficam coloridas.
Estando tudo citado, fica claro que minha amizade com Jasper vai bem além disso, e prometo que ele tem mais pontos positivos do que negativos, só não vou começar a citar eles agora, meio que estou com um problema para tirar minha calça colada em minhas pernas.
Vinte minutos depois, estou parcialmente seca e de pijama quentinho. Meus cabelos ainda pingam de vez em quando, mas não estou com vontade de secá-los agora, então só penteio e os deixo solto, passo a mão no espelho tirando a umidade e suspiro vendo a imagem diante de mim.
Minhas olheiras escuras se sobressaem no meu rosto, o azul dos meus olhos agora parece mais cinzas do que outra coisa. Tiro a água do meu cabelo e os jogo para trás, as ondulações de loiro escuro batem em minhas costas e por preguiça os deixo assim.
- Bon appétit – Jasper faz um pequeno floreio para o seu prato delicadamente feito e eu dou um sorriso faminto antes de me sentar no sofá com o prato em meu colo. Jasper se senta ao meu lado com o seu e começamos a comer enquanto o filme O Poderoso Chefão passa na televisão nos distraindo momentaneamente.
Com a barriga cheia e o corpo relaxado, coloco o prato em cima da mesinha de centro e apoio os meus pés ao lado de Jasper que faz o mesmo só que o contrário.
- Novidades no trabalho? – ele pergunta e eu apoio minha cabeça no travesseiro olhando para a televisão.
- Digamos que irei voltar para o cargo de secretária por um tempo
- O que? Porquê? – com o canto do olho o vejo se virando para mim com uma expressão de assombro, levanto um ombro com descaso enquanto cubro um bocejo com a mão.
- Celine ainda está repousando e o meu chefe está impaciente para encontrar uma secretária para Campbell
- Campbell? – Ele se senta com os olhos arregalados – Estamos falando daquele cara milionário, gostoso para caramba?
- Gostoso na sua avaliação, mas sim, Declan Campbell
- Cacete
- Pois é – falo com a voz sussurrada e ele percebe o tom.
- O que foi? Não é uma boa coisa?
- Não muito, eu sei que pelo visto o salário é bem melhor – ele abre a boca, mas eu interrompo antes dele continuar – Mas, ele demitiu todas as secretárias dele. Tipo nos últimos meses foram umas três.
- Isso é mal – ele fala e eu concordo – Mas olha para o lado positivo, você vai ser secretária de um CEO, vai ver coisas que nunca viu, segredos que nunca ouviram, vai ser um máximo.
- Você está assistindo filmes demais Jasper – falo arqueando a sobrancelha, ele dá de ombros e sorri sensualmente.
- Gosto de um bom clichê, não pode me culpar.
- Deus me livre – falo revirando os olhos e ele belisca o meu braço – Aí Jasper, seu idiota, isso doí.
- É a intenção
- Bundão – ele abre a boca, mas é impedido pelo meu celular vibrando na cozinha, me levanto do sofá em um pulo e pego meu celular desbloqueando rapidamente.
Bianca: Acabei de sair, ela estava dormindo tranquilamente.
Kallie: Alguma mudança?
Bianca: Ainda não querida, ela mal falou hoje
Kallie: Tudo bem então
Bianca: Sinto muito
Kallie: Não é sua culpa, está tudo bem mesmo, e obrigada Bianca, de verdade.
Bianca: Imagine, pode contar comigo. Até amanhã.
Kallie: Até
Bloqueio o celular de novo, e fico olhando por alguns segundos esperando alguma coisa, mas só o que eu vejo é o meu reflexo nele, desamparado e sem esperança. Coloco-o no balcão e começo a girar minha pulseira de um lado para outro, pensando, memorizando, adaptando-se.
- Kallie? – Pisco os olhos até que consiga me concentrar em Jasper, pego os olhos preocupados já em mim – É a Melina? Ela está bem?
- Sim, está bem, mas....
- Nenhuma mudança? – ele termina e eu concordo com a cabeça, meus dedos ainda tocando a pulseira fria em meu pulso – Sinto muito gatinha.
- Tudo bem – eu falo e suspiro me aproximando do sofá, Jasper me puxa para mais perto e minha cabeça se apoia no seu ombro, seus braços me apertam em volta de si e eu me permito relaxar um pouquinho.
- Que tal sorvete?
- Acho perfeito – respondo e é a vez dele pular do sofá indo em direção a cozinha.
Viu? Pontos mais que positivos, pontos perfeitos
- Você deve saber como é, já trabalhou com isso. O senhor Campbell tem muitos compromissos e precisa ter uma pessoa que possa ajudá-lo quando ele mais precisa, você irá atender ligações, organizar a sua agenda, seguir ele em alguma reuniões, e acima de tudo atender às expectativas dele no que ele pedir – Sônia continuava falando com a voz rápida enquanto eu ia anotando tudo em meu bloco, ou fingindo que estava anotando, porque eu meio que me perdi no começo da conversa – Ele ainda não disse quando chegará, mas deve ser logo, há algumas coisas que requer sua atenção imediata, sabe como é né?
- Claro
Minha resposta nem é escutada por ela, porque ela passou por minha resposta seguindo com suas instruções longas e detalhadas, suspiro irritada enquanto continuo olhando para ela fingindo prestar atenção. Sônia Williams é uma mulher em torno de seus cinquenta anos, seus cabelos loiros são cortados de forma Chanel e seus olhos escuros são totalmente delineados por muita maquiagem, ela é uma mulher muito bonita e alguém (provavelmente muito rico dado por seu anel com uma pedra gigante no dedo) tinha percebido isso.
- Quantos anos a senhorita tem? – ela pergunta e eu pisco saindo de algum lugar da minha mente
- Perdão?
- Sua idade florzinha
- Faço vinte e seis em algumas semanas – respondo e tento ignorar a "florzinha"
- Tão nova, o Colton falou bastante de você, mas me surpreendi, eu jurava que Jones era um homem.
- Homem?
- Sim, ele só falou seu sobrenome – Ela pisca seus longos cílios e eu fico me perguntando se isso pesa em seus olhos, será que empata sua visão? – Bom, vou deixar você se adaptar, a primeira coisa que quero que faça é atualizar o sistema e organizar os documentos para que ele assine assim que chegar, você precisa ler todos eles, para ver se tem algo errado. Tudo bem?
- Sim, tudo bem
- Qualquer coisa me ligue e conversamos, estou só alguns andares abaixo
Ela sorri com seu batom rosa e sai rebolando pelo saguão, seus saltos estalando pelo chão, tec, tec, tec.
Aproveitando o momento livre, olho para o meu novo e temporário lugar de trabalho. O escritório de Campbell fica no último andar, estilo privativo, o elevador precisa de identificação de entrada que só pode ser confirmada por mim (por enquanto) ou por ele. O elevador fica a minha frente a alguns metros de distância, todo o ambiente é em cores pretas e brancas, parecendo um pequeno dominó ou um tabuleiro de xadrez, minha mesa é um dos pontos positivos, a mesa grande e espaçosa tem um belo computador e várias divisões compactadas por gavetas.
A cadeira? De excelente material, macia e fazem com que minhas costas se apoiem em vez de me deixar curvada. Ao todo parece uma nova dimensão, algo fora do comum, então eu aproveito enquanto posso, e a primeira coisa que faço é entrar na sua sala e averiguar. Eu sei, a curiosidade matou o gato blá, blá
Abro a porta grande e ao mesmo tempo tão leve e arfo quando vejo a sala. As cores mudam drasticamente aqui dentro, as paredes são de uma cor parecida com creme, a mesa de mogno grande habita no meio da grande sala, papéis estão espalhados de forma desorganizada, me aproximo da mesa e espio, documentos, projetos, e alguns desenhos.
Mas o que realmente chama a atenção? Pode ser dividida em duas partes
A primeira delas é a imensa vista atrás da mesa que rodeia uma parte do escritório, janelas altas que dá para ver uma parte da cidade, carros, pessoas, letreiros enormes, tudo, como se fosse uma imensa televisão.
A segunda é a minha preferida, e é para lá que meus olhos ficam voltando a cada minuto, uma pintura enorme que ocupa toda a parede esquerda do escritório. A pintura era uma réplica perfeita de A Noite Estrelada de Van Gogh, com todos os detalhes, com toda a mágica.
Isso certamente era a minha parte preferida desse escritório, giro a pulseira e me forço a desviar o olhar da pintura depois de alguns minutos. Mordendo o lábio penso no que eu devo fazer primeiro: Organizar os documentos da minha mesa ou da dele?
Sei que provavelmente é uma má ideia mexer em algo dele, mas eu sou secretária, e não me foi impedido de mexer lá, então opto pela segunda opção e começo a organizar.
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Horas depois, com uma coluna dolorida e olhos pesando eu saio da sala dele, e dou um sorriso fraco quando vejo os papéis organizados por assunto, por empresa e por data. Fecho a porta com um clique e vou para a minha mesa, pesco o meu celular da bolsa e observo as mensagens, mas nenhuma de Bianca, pelo menos não pelas últimas horas, puxo uma respiração e movimento os ombros antes de começar a organizar a bagunça da mesa, e sei pelo barulho da minha barriga que deve estar na hora do almoço, mas não quero que Sônia volte e não veja nenhuma mudança, então começo a organizar sentada, mas paro quando o telefone começa a tocar.
- Escritório do sr. Campbell
- Olá florzinha, tudo certo por aí? – Reviro os olhos, mas me arrependo na mesma hora, e se essa bendita sala tiver câmeras de segurança? Forço um sorriso no rosto e digo com a voz animada.
- Sim, tudo bem
- Que bom, olha eu sei que você ainda não deve ter almoçado, então pensei que poderíamos ir comer algo, uma salada é claro, porque estou no meu regime – Merda, penso rapidamente em uma resposta e desbloqueio o meu celular na mesma hora.
- Sabe o que é Sônia, é que eu já tinha combinado de ir almoçar com minha colega aqui do prédio – Faço uma pausa para mostrar um pesar que certamente não estou sentindo – Talvez outro dia?
Kallie: Diga que não almoçou ainda
Tori: Não almocei, o que houve?
Kallie: Te explico daqui a pouco, me encontra no saguão
Tori: Ok.
- Ah, tudo bem. Mas vamos marcar o mais rápido possível, certo? Quero conhecer você
Ela dá aquela risadinha e depois desliga, coloco os papéis que ainda não organizei de lado e tranco minha bolsa em uma gaveta antes de ir até o elevador com a carteira e o celular na mão.
Tori está me esperando como combinado no saguão, conversando com Oliver o segurança, ele é um cara bem alto com pele escura e olhos pretos, você nunca iria confundi-lo, não com aquela altura, ele sempre sorri quando nos vê, só não nas raras vezes em que molho o saguão por conta da chuva e da falta de um guarda-chuva.
- Estão indo almoçar? – ele pergunta quando eu me aproximo, vejo Tori confirmando com a cabeça enquanto digita algo em seu celular.
- Quer algo Oliver? - eu pergunto e ele nega, mas depois olha para mim.
- Espera, se vocês forem ao Ocean quero aquelas empadinhas doces, vou levar algumas para Miranda
- Pode deixar – eu falo e sigo Tori pela saída.
- E então vai me contar esse convite inesperado? – ela pergunta e eu desvio de uma senhora com seu cachorrinho.
- Acho que preciso me alimentar primeiro
- Então não é coisa boa
Não posso discordar.
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O restaurante Ocean é basicamente um local pequeno, mas muito bonito, a entrada é uma construção de cores azuis e verdes. As mesas de madeira são distribuídas na parte de dentro e do lado de fora, nós sempre optamos pelo lado de dentro, mesmo que esteja cheio, como hoje.
Não me pergunte o porquê do nome ser Ocean se estávamos a quilômetros de distância do oceano, mas Connor (o dono do local) meio que é fissurado por mar, ele é um senhor muito gentil, e junto com sua esposa Marguerite eles conseguem fazer com que o restaurante seja familiar e amigável.
- O mesmo de sempre meninas? - Marguerite pergunta do balcão e nós acenamos concordando antes de nos sentarmos na mesa mais distante.
- Acho que somos previsíveis demais – Tori diz e eu sorrio em resposta
- Não diga isso, somos bem imprevisíveis quando queremos
- Vou fingir que acredito nisso – Uma garçonete coloca uma pequena cestinha com pães crocantes e nós nos fartamos enquanto a comida não vem – Mas me conta, o que aconteceu?
- Conhece Sônia Williams?
- A diretora financeira? A que se veste como se fosse dona do prédio?
- Exato, ela mesma – Jogo o último pedacinho na boca e mastigo antes de continuar – Ela basicamente cuida das coisas de Campbell quando ele não está, passamos exatamente uma hora somente com ela me dando instruções de como não errar e entrar na lista negra dele. E horas depois ela vem com um "vamos almoçar florzinha".
Tori começa a rir da minha expressão e eu reviro os olhos divertida.
- Espera, você dispensou o convite para almoçar com a chefona?
- Ela disse que ia comer salada Tori, salada. E sabemos muito bem que os locais que ela almoça, deve pagar até a entrada.
- Isso é verdade
- É claro que é, eu não estou pagando nem minhas meias direito, quem dirá um prato com um monte de coisa chique que nem eu sei o nome.
- Você deveria ter aprendido com Jasper – ela bate na minha mão quando eu vou pegar o último tasquinho de pão, mas divide entre a gente um segundo depois
- Não tenho interesse, obrigada
- Mas me diz, como é lá em cima?
Abro a boca para responder, mas paro quando a garçonete traz os nossos pratos e os coloca na nossa frente.
- Obrigada Tabatha – leio a plaquinha com o nome e ela sorri antes de se virar e ir para outra mesa. Coloco uma garfada de purê com ervilhas na boca e mastigo bem devagar saboreando antes de responder Tori que está com a boca cheia também – O escritório dele parece mais um tabuleiro de xadrez, preto no branco. Mas a sala dele é outra coisa.
- Como assim? – ele pergunta antes de beber um gole do suco de laranja
- Tem uma vista incrível, janelas altas e isso sem contar a pintura na parede
- Pintura?
- Noite Estrelada de Van Gogh
- Está brincando? O cara além de rico tem bom gosto?
- Acho que sim – respondo rindo enquanto coloco mais uma garfada na boca – É impressionante a sala.
- E você já o conheceu?
- Ainda não, ele está em viagem, mas deve chegar nos próximos dias
- Que tensão – ela diz e eu concordo.
Meia hora depois terminamos com o nosso almoço e saímos com a barriga cheia, a energia recuperada e uma caixinha de isopor contendo algumas empadinhas para Oliver e a esposa dele.
E eu ainda escapei de Sônia. Eu meio que considero um bônus por ter sobrevivido ao primeiro dia.