Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Bilionários > Uma dose de amor e o coração de um CEO, por favor
Uma dose de amor e o coração de um CEO, por favor

Uma dose de amor e o coração de um CEO, por favor

Autor:: Roseanautora
Gênero: Bilionários
Maria Eduarda Montez Deocca desperta de um coma de quase um ano para descobrir que foi abandonada por todos durante este tempo. Determinada a surpreender o marido, a quem dedicou sua vida, se depara com uma chocante revelação: talvez por anos tenha sido enganada por ele e sua melhor amiga, uma das pessoas em quem mais confiava. Sentindo-se sozinha e fragilizada, decide ir a um bar para afogar as mágoas, achando que beber uma dose de amor próprio seria a cura para seu coração partido. Disposta a se vingar do marido, Maria Eduarda dorme com o primeiro homem que encontra. Só não esperava que aquele encontro inesperado fosse mudar seu destino. Afinal, aquele estranho CEO cheio de segredos e dono dos mais belos olhos que já vira era sua salvação ou seria sua ruína? Ela aceitaria ser "a outra", mesmo constatando o quanto aquilo doía? Em meio a uma trama de conspirações que levaram à ruína financeira e emocional de seu avô, Maria Eduarda se encontra num impasse entre vingar-se de todos ou aproveitar a segunda chance que a vida lhe deu e tentar ser feliz. Em um cenário de mentiras, intrigas e ambições, ela descobre que, mesmo em meio ao caos, o amor verdadeiro e a amizade genuína podem surgir das situações mais improváveis.

Capítulo 1 E Andress

Eu ouvia um som contínuo, que parecia dentro do meu cérebro. Queria abrir os olhos, mas não conseguia. Minhas pálpebras pareciam com dificuldade de se movimentarem. Num grande esforço, enfim, abri os olhos. A claridade me perturbou profundamente.

Várias pessoas correram na minha direção, falando coisas que eu não conseguia entender. Todos usavam roupas azuis e os cabelos cobertos por toucas do mesmo tecido.

- Chamem a doutora Adams... A encontrem, onde quer que esteja - uma das mulheres ordenou.

Comecei a me remexer e percebi que haviam várias espécies de fios que me impediam de movimentar-me.

Tentei identificar onde estava, mas minha cabeça continuava estranha... E eu não conseguia conectar os pensamentos direito.

- Batimentos normais... Pressão normalizada. - Ouvi uma das mulheres ao meu lado falando enquanto observava as máquinas que brilhavam e faziam sons estridentes que era como se vivessem dentro do meu cérebro.

Consegui movimentar a cabeça para o lado e identifiquei o ambiente em que estava: um hospital.

O que eu fazia num hospital? O que teria acontecido?

Uma mulher se aproximou rapidamente, fazendo com que todos se afastassem. Verificou novamente todos os meus sinais e perguntou:

- Consegue me ouvir, senhora Montez Deocca?

"Montez Deocca"... Imediatamente lembrei de Andress. E fiquei ainda mais confusa:

- Casei com Andress? - questionei, achando estranho o som da minha própria voz.

- Andress Montez Deocca? - A voz dela foi gentil e veio acompanhada de um sorriso: - Sim, ele é o seu marido.

Sorri ao lembrar de Andress. Eu talvez não conseguisse recordar do nosso casamento, mas na minha mente era vívido o momento em que ele pediu minha mão, quando eu ainda tinha 9 anos de idade, na praça de alimentação do Shopping.

- Pode me dizer como se sente, senhora Montez Deocca?

- Eu... Me sinto bem - afirmei -, mas um pouco confusa... Como se minha mente não conseguisse recordar muita coisa. Como vim parar aqui?

A doutora virou-se e falou com alguém:

- Os sinais vitais estão perfeitamente bem. Marquem todos os exames necessários e assim que estiverem prontos, quero ela num quarto sozinha.

- Pode deixar, doutora.

- Lembra de alguma coisa? - Ela quis saber.

Balancei a cabeça negativamente:

- Só lembro de Andress... Seu cheiro, seu gosto, sua pele...

- Certamente irá lembrando aos poucos de outras coisas, não se preocupe. É normal esta confusão.

- O que aconteceu?

- Você acordou de um coma profundo.

Olhei ao redor novamente, sentindo o cheiro de produtos de limpeza misturado com álcool, característico de áreas hospitalares.

- Um coma? - Parece que minha mente ficou ainda mais perturbada.

- Sei que quer saber muitas coisas, senhora Montez Deocca. E é normal. Acontece que primeiramente precisamos verificar como está de fato e se houve alguma sequela. Depois iremos focar na sua memória. - Tocou minha mão de forma carinhosa. - Estarei aqui para o que precisar. Meu plantão estava acabando – sorriu -, mas estamos juntas há praticamente um ano. Então eu não perderia o seu despertar por nada neste mundo. Só irei para casa quando me certificar de que não teve nenhuma lesão ou dano permanente... Porque a forma como acordou é quase inexplicável.

A mulher estava saindo quando peguei sua mão, sentindo a pele levemente ressecada:

- Como se chama?

- Sou a doutora Adams, neurocirurgiã. Mas pode me chamar de Verbena... - Com a mão livre usou um dos dedos para acariciar minha testa. - Estou muito feliz por você estar de volta.

- Obrigada.

Ela retirou minha mão lentamente da sua e estava saindo quando perguntei:

- E Andress?

Pareceu um pouco hesitante ao responder:

- Como eu disse, primeiramente vamos aos exames.

- Ele... Está bem, não é mesmo?

- Sim, Andress Montez Deocca está bem - confirmou, fazendo com que meu coração sentisse um alívio absurdo.

Fechei os olhos, mesmo com dificuldade devido à claridade que ainda me perturbava. E na minha mente só aparecia a imagem de Andress... O rosto lisinho, os olhos claros, geralmente combinando com as roupas azuis, sua cor preferida. Os cabelos sempre limpos e bem penteados, de um castanho claro comum, mas que nele parecia especial, como se ninguém ficasse mais perfeito naquele tom. Os lábios de meu Andress eram macios e seus beijos doces e gentis.

Ainda sem muita noção de tempo, fosse por contagem de horas ou mesmo dias, me vi fazendo inúmeros exames, os quais alguns nem sabia que existiam.

A doutora Verbena Adams todos os dias vinha me ver. Logo passei a receber a visita de uma Psicóloga e outros médicos especialistas. Cada um cuidava de uma parte de mim: cérebro, corpo, órgãos internos... E parecia que tudo estava bem, exceto minha mente, que não me trazia nada além de Andress.

Fui transferida para um quarto e assim que me encontrei sozinha no ambiente, sentei-me sozinha pela primeira vez, sem necessitar de ajuda de ninguém. E não senti cansaço. Apenas orgulho de mim mesma.

Comi a primeira refeição normal e cheguei à conclusão de que eu poderia repetir, pois ainda sentia fome, o que me foi negado. "Ir aos poucos" foi a ordem da nutricionista.

Estava sentada, olhando para a parede branca gigantesca enquanto imagens começaram a tomar minha mente.

A porta se abriu e a doutora Verbena entrou, com aquele sorriso radiante de sempre.

Ela era negra, alta e os lábios carnudos sempre estavam abertos num sorriso contagiante que mostrava os dentes brancos completamente alinhados. Apesar do odor do hospital, eu conseguia sentir o cheiro dela. E não era de perfume. Era sabonete floral, com notas que lembravam jasmim. E mesmo tendo a certeza absoluta de que nunca vi aquela mulher na vida, era como se eu tivesse sentido o cheiro dela a vida inteira.

- Como se sente?

- Bem... Muito bem.

- Já se passou uma semana.

Estreitei os olhos, confusa:

Capítulo 2 E Andress (II)

- Você... Não deveria ter comunicado a minha família? Onde eles estão? Por que Andress não veio me ver? O que aconteceu com ele?

Eu tinha tantas perguntas, mas nenhuma resposta.

- Eu... Vou tentar lhe explicar o que houve... - Ela pareceu hesitante. - Mas quero que se mantenha calma, ok?

- Ok... - Senti o coração acelerar, amedrontada por ter acontecido algo com Andress.

- Você chegou aqui no hospital vítima de um afogamento.

- Afogamento? - Respirei fundo, sentindo o corpo estremecer levemente. - Eu... Não sei nadar.

A doutora foi até um armário de duas portas que havia num canto e retirou de lá um pequeno plástico com algo dentro. Entregou-me e observei a aliança, retirando-a enquanto tocava o metal dourado e largo. Dentro estava escrito o meu nome: "Maria Eduarda Montez Deocca". Pus no dedo e era muito larga para se minha. Certamente era de Andress.

- Quando chegou ao hospital, estava em estado de hipóxia, com severa redução de oxigênio no cérebro. Encontramos esta aliança dentro da sua, que estava fechada.

- Por que... Não entregaram para Andress?

- Porque Andress só veio naquele dia. - A voz dela ficou terna. - Ele nunca voltou.

- Nunca voltou? Como assim?

- O hospital seguiu sendo pago pelo senhor Montez Deocca por seis meses. Passado este tempo ele alegou falta de recursos financeiros... Pedindo inclusive que... - A doutora saiu para perto da porta e fez uma ligação, interrompendo o que iria contar.

- Por favor, continue... - pedi.

- Aguarde alguns minutos, senhora Montez Deocca.

- Pare de me chamar de senhora - vociferei. - Você ficou um ano ao meu lado... Me trouxe de volta à vida... Não pode me chamar de Maria Eduarda?

- Sim, eu posso. - Sorriu e voltou para o meu lado.

- Continue...

Ouvimos uma leve batida na porta e duas mulheres entraram. Uma usava um jaleco branco e óculos. Era loira e jovem. A outra tinha uma roupa azul, como a da doutora Verbena e era mais velha e morena.

- Estas são a Psicóloga e a Psiquiatra que estão acompanhando seu caso - Verbena explicou.

Fiquei olhando-as, não entendendo muito bem o que faziam ali.

A Psicóloga pegou minha mão, de forma carinhosa enquanto a outra médica disse para Verbena:

- Siga com a conversa, por favor.

Verbena pegou minha outra mão:

- Seu marido sugeriu que desligássemos os aparelhos por conta da sua falta de dinheiro.

Olhei para o nada, confusa. O que teria acontecido para Andress tomar aquela atitude? Afinal, éramos ricos.

- Será que... Andress faliu? Mas... A empresa sempre foi tão sólida... E... Como eu lembro que tínhamos dinheiro e que a empresa ia bem? - Olhei para a psiquiatra.

- É normal sua confusão mental, senhora Montez Deocca. Irá lembrando de tudo aos poucos, quando menos esperar. E pode haver partes que não consiga se recordar. Mas estamos aqui para lhe falar sobre o que houve no tempo que esteve em coma. Fora disto, não temos como ajuda-la.

- E vocês não desligaram os aparelhos. Isso significa que ele voltou atrás e pagou, não é mesmo? - perguntei.

- Não... Ele não pagou. A doutora Adams pagou por todo o seu tratamento na Terapia Intensiva durante o coma. - A psicóloga olhou para Verbena.

- Por... Quê? - Senti uma lágrima escorrer pelo meu rosto enquanto olhava a médica.

- Você estava sob a minha responsabilidade. E embora não tivesse apresentado melhora, também não teve piora. Sempre acreditei que acordaria, Maria Eduarda. - Apertou minha mão.

Respirei fundo:

- Certamente aconteceu alguma coisa. Andress não faria isso.

A Psicóloga me encarou:

- O senhor Montez Deocca veio trazê-la ao hospital no dia em que a senhora se afogou. Ele estava junto no momento do acontecido, embora não tenha sofrido nenhum dano. Ele a salvou. Quando soube do coma, não veio mais visita-la. Sequer ligou para saber seu estado de saúde.

- Isso não faz sentido... - Balancei a cabeça, atordoada.

- Em breve receberá alta, Maria Eduarda - disse Verbena. - Então poderá saber tudo que houve de fato no tempo em que esteve internada em coma no hospital depois de um afogamento.

- E meu avô? - Lembrei-me de imediato de Alexis Hauser, do nada, como se estivesse na minha mente o tempo todo sem que tivesse me dado em conta.

Me veio à cabeça a imagem de Alexis Hauser, pai do meu pai, meu avô. Um homem não muito alto, com cabelos escuros penteados para trás, algumas mechas levemente grisalhas. Os olhos eram verdes e tinha uma barba esbranquiçada, sempre muito bem-feita. Era corpulento e tinha cheiro refrescante, assim como o local onde morávamos. A menta e o eucalipto pareciam brigar entre si para destacarem-se em seu aroma, trazendo sempre uma sensação de limpeza e vitalidade.

Eu amava meu avô. E as lembranças com ele eram boas.

- Não sabemos sobre seu avô - a psicóloga esclareceu.

- Alexis Hauser. Já devem ter ouvido falar dele - tentei.

- Não sabemos. - Foi enfática.

- Mais alguma coisa que eu deva saber? - indaguei.

- É isso - psiquiatra concluiu.

- Por que vieram vocês três me falar isso? - Fiquei confusa.

- Porque nos preocupamos com seu estado emocional - A psicóloga explicou.

- Estou bem... Confusa, mas bem. Tentarei entender o que está acontecendo com meu marido e meu avô.

- Iremos ligar para o seu marido, o senhor Montez Deocca, e avisar que acordou do coma - a Psiquiatra avisou.

- Não... Por favor! - pedi. - Não liguem para Andress. Quero... Fazer uma surpresa.

- Não podemos fazer isto. O senhor Montez Deocca é o responsável pela senhora e precisamos informá-lo que saiu do coma e precisará busca-la.

- Não... Eu gostaria muito de surpreendê-lo. Andress certamente achou que eu não acordaria... E para evitar sofrer não veio sequer me ver.

- Pode ser... Mas ainda assim, precisamos comunicá-lo. - Ela deu um suspiro. - Seguiremos acompanhando-a enquanto estiver internada. Quando receber alta precisará por um tempo continuar o acompanhamento.

Assenti.

As duas saíram e fiquei novamente sozinha com Verbena:

- Não precisava chamar as duas para me dar as notícias - falei.

- Segui os protocolos.

- E cuidar de mim por um ano assim como deixar de ir para casa quando acordei do coma também são protocolos? Sem contar o fato de ter pago para eu permanecer neste hospital.

- Não.

- Por que fez tudo isto, doutora?

- Porque... De alguma forma me afeiçoei a você, Maria Eduarda.

- Fui sua primeira paciente em coma ou algo do tipo?

- Não, não foi.

Balancei a cabeça, confusa:

- Então me ajude e não deixe que elas comuniquem Andress. Realmente quero surpreendê-lo. Meu marido ama surpresas... - Sorri ao lembrar dele.

- Sobre seu avô... - Ela abaixou a cabeça.

- O que tem meu avô? - Meu coração acelerou imediatamente.

Capítulo 3 Não acho que deva subir

- O senhor Alexis Hauser foi interditado pela família e se encontra numa clínica de repouso. Ao menos... Foi o que li no jornal há um tempo atrás.

- Como assim? – Fiquei atordoada.

- Talvez seja muita informação para pouco tempo, Maria Eduarda.

- Eu sou a família dele. Meu avô só tem a mim. Como assim "alguém" o interditou? E se realmente foi feito, não foi pela "família".

- Irei intervir na ligação para seu marido.

- Acha que consegue? – Fiquei esperançosa.

- Falarei diretamente com a diretora do hospital. Tenho uma boa relação com ela.

- Obrigada, doutora Verbena... Muito obrigada. Sei que tenho uma grande dívida com a senhora. E prometo que pagarei cada centavo. Não sei o que está acontecendo, mas garanto que minha família tem posses e...

- Não quero seu dinheiro, Maria Eduarda. Sinceramente, tenho o bastante e o que paguei para que ficasse internada aqui não me fará falta alguma.

- Desculpe... Se a ofendi.

Ela respirou fundo e voltou ao semblante tranquilo:

- Está tudo bem. Assim que eu verificar o resultado de todos os exames lhe darei alta. E tentarei fazer tudo o mais rápido possível, já que não tenho certeza de quanto tempo conseguirei intervir na situação de avisarem seu marido.

- Obrigada, doutora Verbena.

Ela saiu em direção à porta e antes de sair, me encarou e perguntou de forma séria:

- Não pensa na possibilidade de seu marido não ter vindo vê-la simplesmente porque... Não quis?

Eu sorri, certa do que dizia:

- Não. Sei que aconteceu alguma coisa para que Andress agisse desta forma. E por isso mesmo quero surpreendê-lo. Imagino o quanto esteja sofrendo, pensando que não há possibilidade alguma de que eu volte do coma algum dia.

- Você entende que o "não procurar" ou "não querer saber notícias" inclui também ligações?

- Sim, eu entendi! Não tive dificuldade de compreensão. Meu marido não veio ao hospital e não ligou para saber como eu estava. E sigo tendo a certeza de que aconteceu alguma coisa para Andress agir assim. Ele me ama. E esta é a única certeza que eu sempre tive na vida, doutora.

Ela sorriu e fechou a porta. E fiquei confusa do motivo da doutora Verbena parecer querer me alertar para alguma coisa com relação à atitude de meu marido.

Eu poderia não lembrar de algumas coisas, mas tinha certeza de que todos os momentos com Andress Montez Deocca estavam vívidos na minha mente, cada um deles. E todos eram de muito amor e carinho. Eu amei Andress desde sempre, quando ainda éramos crianças. Graças a ele e sua mãe eu era Maria Eduarda Montez Deocca, realizada profissional e emocionalmente.

Dez dias depois, eu recebia uma roupa de Verbena para que pudesse deixar o hospital e finalmente voltar para casa, depois de quase um ano... Mais precisamente 11 meses e 21 dias.

Assim que vesti a calça jeans e camisa branca com a gola bordada, me senti como se fosse outra pessoa.

Olhei para Verbena:

- Sei que é normal eu não lembrar de nada do que aconteceu enquanto eu estava em coma... É como se me fosse tirado um ano de vida. E agora eu saio daqui... Mas é como se deixasse uma Maria Eduarda neste quarto...

Verbena sorriu:

- Imagino que tenhamos agora três Marias Eduarda... A de antes do coma, a do durante o coma e a de depois do coma.

- Espero um dia poder conectá-las de alguma forma... – Balancei a cabeça, confusa.

- Conseguirá. Eu sei que conseguirá!

Verbena me acompanhou pelo hospital até a saída, onde chamou um táxi para me conduzir à mansão Deocca. Assim que o motorista abriu a porta para mim, olhei carinhosamente para minha médica e até então a única pessoa que eu parecia conhecer na vida:

- Eu nunca terei palavras suficientes para agradecer, doutora.

- Verbena, por favor. Pode me chamar assim.

- Iremos nos ver novamente? – Perguntei.

Ela me deu aquele sorriso que me tranquilizava de uma forma inexplicável:

- Não sei se é correto, Maria Eduarda. Acho que nossa ligação acaba por aqui. Eu consegui trazê-la de volta a vida. Agora você faz a sua parte... Que é vivê-la de forma a nunca se arrepender de nada. Não deixe nada para depois. É a prova de que o amanhã pode nunca chegar. E nem todo mundo tem segundas chances.

- Obrigada pela roupa, por ter pago a conta no hospital, por ter cuidado de mim e não ter desistido, quando me parece que o mundo todo o fez... – sorri sem jeito – Espero conseguir entender o que aconteceu de uma vez por todas. E poder seguir com a minha vida.

- Tenho certeza de que conseguirá, Maria Eduarda.

Dei um abraço nela, sentindo o cheiro floral que parecia me acompanhar a uma vida. Sim, porque aqueles dias que fiquei em recuperação no hospital pareceram se comparar ao um ano que estive em coma, de tanto que demoraram a passar.

- Boa-sorte, Maria Eduarda.

- Obrigada por tudo, dout... Verbena! – Corrigi-me há tempo.

Senti no banco de trás do carro e o motorista fechou a porta. Eu não tinha sequer uma mala. Tudo que me restava eram as poucas lembranças que minha mente carregava.

- Lembre-se que ela precisa ser deixada na porta de casa – Verbena advertiu o motorista – E você só sairá de lá quando a passageira entrar na casa.

- Entendi tudo, doutora. Não se preocupe. – Ele a tranquilizou.

Enquanto o motorista conduzia o carro pelas ruas de Noriah Norte, reconheci cada lugar, como se tivesse passado por ali a vida inteira. Sim, lembrava do meu carro, assim como de estar sentada às vezes no banco do carona, ao lado de Andress.

Abri levemente a janela e deixei o vento fresco entrar no interior do carro, sentindo os fios de meus cabelos bagunçarem. E aquilo me agradava e me deixava feliz.

Eu estava viva! Embora não lembrasse do momento do afogamento, era grata por ter ganhado uma segunda chance! E se Deus me deixou por um ano na cama de um hospital, certamente eu tinha uma missão ainda a cumprir.

Era noite. As ruas estavam iluminadas pelos postes de luzes amareladas. Uma névoa branca encobria algumas partes do trajeto.

Me veio à mente uma vez que eu estava também no banco de trás de um carro, com metade do vidro aberto, o vento balançando meus cabelos. E na frente Kayde dirigindo e Ashley no banco do carona. Dávamos risadas e nos divertíamos.

Kayde era meu amigo, ruivo, olhos claros, bochechas salientes e cabelos sempre levemente bagunçados. Tinha um sorriso encantador e transbordava alegria e simpatia. Ashley também era divertida. E linda. Alta, magra, olhos e cabelos castanhos. Eu adorava a risada dela e brincava que parecia de bruxa. Ela e Kayde eram namorados. E naquela noite ele a pediu em casamento. E eu estava junto. Éramos grandes amigos... Desde o tempo de escola, na adolescência.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022