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Uma filha para o CEO babaca

Uma filha para o CEO babaca

Autor:: Dani vences
Gênero: Romance
Ana e Leonardo se conhecem desde crianças. Ana sempre foi apaixonada por Léo, porém, sendo filha da empregada, ela sabia que ele estava além do que ela poderia sonhar. Mas o improvável acontece: Léo e ela começam um romance. Leonardo é o filho mais velho da família Alcântara. Ele vai assumir o posto de seu pai como CEO da empresa, porém seu pai pede que ele se case antes com uma mulher de seu nível. Mesmo amando Ana, ele decide se casar com outra. O que Léo não sabe é que Ana já está grávida dele. Cinco anos se passam, Ana está de volta à cidade com sua filha, e Leonardo quer ter certeza se ela é ou não sua filha. E mais que tudo quer provar para Ana que não é mais o babaca que a abandonou.

Capítulo 1 Prólogo

Olhei para o teste em minhas mãos, as duas barras demonstrando positivo, e me sentei no chão do banheiro.

- Não pode ser, Deus, não pode ser. - Escutei uma batida na porta.

- Ana, vamos, o intervalo acabou, o professor já deve estar na sala. - Geovana falou. Eu queria contar a ela, mas ela diria que eu era burra, e ela estaria certa. Eu era burra. Levantei e puxei o ar. Eu não ia chorar. Léo me amava, íamos nos casar, não precisava ter medo. Abri a porta e Geovana me analisou.

- Aconteceu alguma coisa?

- Não, estou com medo da prova. - Ela revirou os olhos.

- Você tem que parar de se cobrar tanto, é a melhor aluna da turma. - Eu ri.

- Não diga isso em voz alta, capaz de Thiago sair das sombras e me desafiar a um duelo matemático. - Ela riu.

- Ele acha que ninguém é melhor que ele. Você viu ele questionando o professor? - Revirei os olhos.

- Ridículo isso. Se eu fosse o professor, o expulsaria da sala. - Saímos do banheiro e fomos para a sala.

A prova foi fácil. Geovana me levou para casa. Ela tinha uma condição financeira melhor que a minha, não que fosse rica como os Alcântaras, mas ainda assim podia ser considerada herdeira. Ela me olhou desconfiada.

- O que está acontecendo? - Ela sabia que eu escondia algo. Nunca fui de ficar quieta; sou falante no geral, falo até demais.

- Só cansaço. - Ela revirou os olhos azuis como o céu. Geovana era atípica: menina rica, pele clara, olhos claros, cabelos lisos castanho-claros. Tudo nela indicava que vinha de uma família de posses, apesar de não agir dessa forma.

- Pensei que Helena tinha te dispensado para que focasse nas provas. - Eu e minha boca grande.

- E eu foquei, estudei até tarde ontem. - Não era uma mentira completa.

- Se você diz, tudo bem. - Ela deu de ombros. - Tem certeza que não quer ir almoçar comigo e com meu pai?

- Não, obrigada. Como foi a última prova, eu vou voltar para o trabalho. Dona Helena tem sido muito bondosa, não quero abusar. - Ela deu de ombros novamente.

- Ana, você tem que parar de ser tão certinha. - Eu sorri e abri a porta do carro.

- E você tem que parar de ser uma má influência. - Ela riu.

Assim que Geovana sumiu com o carro, me virei e fui atrás de uma farmácia. Queria ter certeza da gravidez antes de contar ao Léo. Imaginei que seria uma confusão quando descobrissem sobre nós. Mas Dona Helena sempre foi gentil comigo, não iria se opor ao nosso casamento. Agora, Senhor Paulo...

Nem queria pensar em como o Senhor Paulo reagiria. Talvez ele fosse contra o meu casamento com Léo, ou talvez a minha gravidez amolecesse o coração dele. Comprei mais dois testes. Seria melhor não ter nenhuma dúvida. Coloquei os testes na bolsa e voltei para a mansão. Por um momento, enquanto olhava aquela casa enorme, senti um frio na barriga. O bebê que carregava agora era um dos donos de tudo isso. E o medo começou a me sufocar. E se Dona Helena pensasse que eu engravidei de propósito? E se Léo achasse isso?

Não, ele não pensaria isso. Ele me conhecia desde pequena, e ele me amava. Sabia que me amava. Ele nunca acharia que eu era uma golpista. Com esse pensamento, entrei na casa. Assim que entrei, vi uma movimentação estranha. Josefa andava de um lado para outro, floristas estavam pela casa e outras pessoas que eu nunca tinha visto.

- Que bom que chegou! - Josefa falou. - Estou ficando louca, Dona Helena decidiu dar um jantar de noivado esta noite. É apenas para os pais da noiva, mas ela está me deixando doida.

- Noivos?! - Quem estava noivo? Josefa já estava andando para a cozinha. - Josefa, quem está noivo? Do que está falando?

- O menino Leonardo, ele pediu a mão de Mariana em casamento. - Senti meu coração desacelerar e tudo se tornou escuro.

Quando acordei, estava no sofá da sala. Dona Helena e Josefa estavam ao meu lado com olhares apreensivos.

- Ela acordou! - Josefa falou aliviada.

- Ana, como está? - Dona Helena me perguntou, mas eu não tinha a resposta. Léo estava noivo de Mariana. Ele nem a suportava; ela sempre correu atrás dele, e ele correu dela. Em que momento isso mudou?

- Cansada. Posso ir para meu quarto? - Dona Helena me olhou desconfiada.

- Chamei o médico. Josefa me falou que você tem se alimentado mal. Eu sei que se preocupa com as provas, mas precisa se cuidar, Ana. - Ela me repreendeu.

- Não precisa de médico. Dormi tarde ontem, estudando. É só cansaço. Umas horas de sono e ficarei bem. - Ela concordou com a cabeça.

- Tudo bem, mas coma algo antes de se deitar. - Ela falou e saiu. Josefa me encarou.

- Foi porque falei do noivado, não é? - Ela sussurrou. - Eu te disse, menina, que essa sua paixão por ele não te faria bem. Eles não se casam com as empregadas. Nunca se casam com elas.

Fui para meu quarto e entrei no banheiro. Assim que os três testes deram positivo, eu soube que estava com problemas. Mandei mensagem para o Léo; ele me devia uma explicação.

Mas ele não me respondeu, e também não respondeu as outras vinte mensagens que mandei. Decidi ir até o quarto dele esperá-lo lá. O aguardei por uma hora até que ele apareceu. Seus olhos azuis caíram sobre mim.

- Você está com uma cara péssima, Ana. - Ele falou fechando a porta. - O que faz aqui?

- Sua mãe está preparando um jantar de noivado. Me disseram que pediu Mariana em casamento. A Mariana, Léo? - Ele puxou o ar e revirou os olhos.

- Estou na idade de casar. Se não fosse ela, seria outra. Ela ao menos me adora. - Ele falou em um tom comum, como se não tivéssemos nada, como se não me devesse nada.

- E eu, Léo? - Ele deu de ombros.

- O que tem você? - Senti meu coração acelerar. - Ana, você não achou que a gente seria mais que amantes, não é?

- Amantes? - Ele balançou a cabeça.

- Podemos continuar com isso. Não amo a Mariana, ela só preenche os requisitos que preciso. - A forma fria como ele falou aquilo me fez ver o quão idiota eu fui.

- Léo...

Eu ia contar, ia dizer a ele que estava grávida, mas não reconhecia esse homem que estava na minha frente. Ele era só um babaca, mesquinho.

- O que, Ana? - Ele se aproximou e eu me afastei.

- Nada. Eu entendi o meu lugar. Com licença. - Falei, indo até a porta.

- Ana, sabe que gosto de você, mas eu nunca poderia me casar com você. - E ele deu a última facada.

- Seja feliz, senhor Leonardo. - Falei saindo daquele quarto, e antes daquele noivado pretendia estar o mais longe possível daquele homem, daquela família.

Capítulo 2 De volta ao lar

Ana

Cinco anos depois

Emily brincava no banco de trás, suas bochechas rosadas e o sorriso confiante me davam forças para continuar. Havíamos sido despejadas, e não culpo o proprietário; seis meses sem pagar o aluguel era demais. Eu devia vender o carro e pagar o aluguel, mas o carro estava com IPVA atrasado e algumas multas acumuladas. O meu Corsinha de 4 portas, vermelho de 2008, não valia tanto quanto quando o adquiri, na verdade, estava caindo aos pedaços. Eu só conseguiria uma merreca e ainda ficaria sem pagar todo o aluguel e sem o carro. Parei o carro na beira da estrada; não podia ficar dirigindo sem rumo. Emily não reclamou, mas imaginei que estivesse com fome. Eu estava com fome. Só tiramos as roupas do corpo. Eu poderia pedir abrigo a alguma amiga, mas isso seria humilhante demais. Olhei para a pulseira em meu pulso. Durante todos esses anos, me recusei a vendê-la, mas era a única coisa de valor que eu tinha. Sempre a guardei caso algo me acontecesse e Emily precisasse provar de quem era filha.

Olhei novamente para ela; não havia como negar de quem era filha. O mesmo cabelo negro e os olhos cor de mel, até mesmo o sorriso dela era como o dele. Eu poderia voltar e falar para ele que tinha uma filha e que sua brincadeira gerou frutos, mas Emily não merecia um pai que a rejeitaria. Para Leo, o dinheiro era o que importava. Ele me disse isso quando eu acreditei que ele se casaria comigo.

"Acha mesmo que isso poderia acontecer? Você é só a empregada?"

Ele foi cruel comigo. Logo depois disso, fui embora daquela casa e, dois meses depois, descobri que estava grávida de Emily. Prometi nunca mais voltar, mas não podia continuar assim, colocando minha filha em uma situação em que ela nem tivesse o que comer.

- Mamãe, por que estamos paradas? - Porque sua mãe não sabe para onde ir.

- Porque a mamãe está cansada. - Falei para ela uma das verdades. Eu estava exausta. Olhei para meu celular e ainda tinha o número da Dona Helena. Apesar de ser mãe daquele cafajeste, Dona Helena sempre foi gentil comigo. Ela poderia me indicar para alguma amiga. Puxei o ar e disquei o número.

- Residência dos Alcântaras! - Uma voz familiar atendeu.

- Josefa, sou eu, Ana, a filha da Claudia.

- Ai, meu Deus, menina, como você está? Não sabe como ficamos preocupados com você. Dona Helena a procurou por um ano.

- Eu sei, eu queria recomeçar em outro lugar. - Escutei, ao fundo, Dona Helena perguntando quem era.

- E como está... É Ana, a filha da Claudia. - Escutei Dona Helena pedindo o telefone.

- Como pode fazer isso comigo, menina! - Ela falou, me dando uma bronca. - Sua mãe me pediu que garantisse seu bem-estar antes de morrer, mas tudo bem. Me diga onde está, como está?

- Dona Helena, me perdoe por ir daquela maneira, eu...

Eu estava com medo, com raiva, na verdade, eu só queria ficar longe dele e, como consequência, longe de toda a sua família.

- Tudo bem, não vamos mais falar do passado. Me diga como está, onde está morando? - Puxei o ar.

- É sobre isso que quero falar. Poderia me indicar para alguma amiga? Estou precisando muito trabalhar.

- Que bobagem, menina. Se precisar de trabalho, acharemos algo aqui para você. Venha, tem dinheiro para a passagem? - E eu não tinha nem gasolina.

- Não, mas estou de carro. - Não pediria dinheiro a ela.

- Precisa de dinheiro, Ana? - Ela me conhecia desde pequena, sabia quando eu precisava de algo. - Passe sua conta, farei a transferência. Venha direto para casa, preciso ver como está.

Passei minha conta e não demorou muito para a notificação de que dois mil reais tinham caído na minha conta. Dona Helena era generosa.

- Sabe onde vamos almoçar? - Perguntei para Emily, que levantou a cabeça.

- Onde, mamãe? - Eu sorri.

- McDonald's. - Emily abriu um largo sorriso, e isso aqueceu meu coração. Apesar de tudo, não me arrependo de tê-la. Ela era a razão para eu não desistir, e quando chegamos à mansão dos Alcântaras, espero que a semelhança com os membros da família seja ignorada por Dona Helena.

Emily comeu feliz seu hambúrguer e batatas. Ela só tinha vindo uma vez ao McDonald's porque minha amiga insistiu e pagou para ela. As coisas seriam melhores com os Alcântaras. Na verdade, a vida de Emily seria diferente se Dona Helena soubesse que ela era sua neta. Por anos fiquei tentada a contar, mas dar um pai a ela que a rejeitaria seria doloroso para ela e para mim. Emily estava segura sendo apenas minha filha.

- Mamãe, para onde estamos indo? - Ela perguntou, pegando mais uma batata frita.

- Para um lugar seguro. Você vai gostar de lá. - Eu amava a mansão quando criança. Dona Helena sempre me permitiu brincar por lá. Eu me imaginava sendo uma deles, e foi esse pensamento que foi minha perdição. Esqueci qual era o meu lugar e me apaixonei por Leo.

Ele era o mais velho dos irmãos, sempre o admirei, apesar de ser esnobe e o que menos me dava atenção. Quando deu atenção, o resultado foi desastroso. Agora ele vive sua vida perfeita com sua esposa, já deve ter filhos, os irmãos de Emily. Senti um nó na garganta. Ele a escolheu, escolheu a riquinha do seu nível, ele nunca me amou.

- Mamãe! - Emily pegou seu brinquedo na mão. - Vamos ir morar com papai?

- Não, e eu já te disse que você não tem pai, Emily. Você tem a mim, apenas a mim. - Ela me olhou triste. Ela estava na fase em que começava a querer saber coisas. Semana passada, ela me perguntou por que as outras crianças têm pais e ela não. Um soco no estômago teria doído menos. Eu, como Emily, não tive pai e sei a dor dela.

- Mas se eu tivesse pai...

Ela deixou as palavras fugirem, e eu me odiei por isso, me odiei por não dar um bom pai para Emily.

- Filha, preciso da sua ajuda em uma coisa. - Me senti envergonhada de pedir aquilo a Emily, mas seria a forma mais segura de tirar suspeitas.

- Vamos a uma casa e lá, quando perguntarem sua idade, você precisa falar que tem quatro anos, tá me ouvindo? - Emily ficou pensativa.

- Mas tenho cinco anos, mamãe. - Ela abriu seus dedinhos como eu a ensinei.

- Mas lá eles precisam achar que você tem apenas quatro anos. Promete para mamãe que vai dizer para quem perguntar que tem quatro aninhos?

- Isso não é mentir? - Ela é esperta demais.

- Mas é uma mentira para o nosso bem. Não conte a ninguém que tem cinco anos, tá bom? - Ela balançou os ombros.

- Vamos ter que mentir para ficar em um lugar seguro? - Ela entendeu.

- Vamos.

- Vamos poder voltar ao McDonald's? - Eu sorri.

- Sim, vamos poder vir mais vezes ao McDonald's. Agora vamos ter mais uma hora de viagem. - E o restante da viagem foi calmo. Estávamos voltando para a cidade de onde eu queria fugir, e senti um frio na barriga quando vi a placa.

Bem-vindo à cidade de Constança.

Capítulo 3 Ela voltou

Léo

O despertador tocou e eu o desliguei. Outro dia e tudo de novo. Os dias se tornavam entediantes: eu acordava, ia para a empresa, fazia reuniões e voltava para o meu apartamento vazio. Dormia e, no dia seguinte, repetia tudo novamente. Minha psicóloga disse que eu devia tentar fazer algo diferente, começar um hobby.

- Que tal golfe? - Ela sugeriu, como se eu realmente tivesse tempo para isso ou como se isso fosse preencher o vazio que Mateo deixou.

O pensamento intruso me veio. Eu tentava não pensar em Mateo, todos os dias eu tentava não pensar nele, não pensar em suas mãozinhas pequenas e gordinhas, não pensar em como o sorriso dele me fazia falta. Levantei, eu falhei nessa missão hoje e sabia que falharia nessa missão amanhã. Dizem que eu tinha que seguir em frente, Leonardo, ele não iria querer te ver assim.

Todos falavam como se conhecessem Mateo, como se soubessem como era superar a morte de um filho, mas eles não sabiam. Ninguém além de mim e de Mariana sabia a falta que Mateo nos fazia, apesar de ela ser a única pessoa que compartilhava minha dor, ela também era a única pessoa que eu não queria ver por perto.

- Senhor! - Amélia bateu na porta. Acho que ela tinha medo de que eu fizesse uma bobagem na madrugada, mas nem a esse luxo eu podia me dar. Morrer não era uma escolha que eu podia fazer, não quando a empresa que meu pai construiu estava na sua pior fase e somente eu podia garantir que minha família não fosse à falência.

- Estou acordado! - Gritei.

- Seu café está na mesa. - Amélia era uma ótima colaboradora e, apenas por isso, eu não a demitia, porque ela era com toda a certeza a pessoa mais alcoviteira que eu tive o azar de contratar. - Senhor, não deixe de tomar seu café, ligarei para sua mãe.

E ali estava a ameaça. Você pensa que, depois dos trinta e cinco anos, sendo o CEO da empresa, não vai mais ter que dar satisfação da sua vida para sua mãe, mas ela, audaciosa como é, colocava uma vigia na sua vida e, pior, uma da qual agora eu não conseguia viver sem. Ignorei a ameaça e fui para o meu banho. Água gelada de manhã desperta qualquer homem, por mais sem ânimo que ele esteja.

Quando saí do banho e fui para a cozinha, vi o motivo pelo qual Amélia era tão valiosa. A mesa redonda estava bem servida. Eu estava tomando café na cozinha, na verdade, eu tinha reduzido o espaço de uso do apartamento. Ainda não conseguia me desfazer dele, mas ficar nos outros cômodos que não fossem meu quarto ou a cozinha me lembrava de Mateo, me lembrava que ele não estava ali fazendo bagunça.

Tomei meu café mesmo sem fome. Não queria ouvir uma hora de reclamações de dona Helena. Da última vez, ela ameaçou morar comigo, e esse foi o basta para mim. Aceitei, enfim, a sugestão sobre contratar Amélia, porque, apesar de ser vigiado por ela, eu ainda mantinha a decência de não morar com minha mãe após os trinta.

Meu celular começou a tocar e eu sabia que já eram 9:00. Marta queria ter certeza que eu estava vivo e a caminho da empresa. Minha secretária mal-humorada me advertiu que, se eu continuasse atrasando sua programação, ela se demitiria. E Marta era outra mulher que eu simplesmente odiava, mas não podia ficar sem por ser competente demais.

- Estou a caminho. - Falei e desliguei antes que ela tivesse tempo de me questionar onde exatamente eu estava.

Dirigi até a empresa e, assim que desci do carro, coloquei minha máscara de CEO intocável. Ali eu não poderia ser o pai que perdeu seu filho ou o filho que levava sermão da mãe. Ali eu era o CEO da indústria têxtil mais consagrada do país.

- Está atrasado! - Marta falou assim que o elevador se abriu. Ela me entregou as pastas. - Precisa convencê-los de que a empresa está faturando bem este ano. Fiz um relatório com nossos ganhos nos últimos seis meses.

- Bom dia, Marta! - Falei vendo os relatórios. Ela jogou seus cabelos longos e negros para o lado. Ela tinha uma beleza que deixaria qualquer homem maluco: pele bronzeada e olhos verdes como dois diamantes. Seu corpo tinha as medidas certas para submeter qualquer homem a ficar de joelhos, mas não eu. Não quando conhecia seu mau humor e sabia que ela devoraria qualquer homem que se aproximasse dela, como uma leoa. - Certo, irei revisar o relatório.

E estavam impecáveis, assim como tudo que ela fazia. Perfeita em tudo. Como algum dia eu me livraria daquela mulher?

- Preciso de um assistente, aquela coisinha se demitiu. - Ela falou de mau humor. Parei para encará-la.

- Não podemos receber processos, Marta. O que fez? - Ela vinha trocando de assistente há dois anos. Marta achava que todas eram incompetentes e sem dedicação. Já alertei que nem todos são como ela, que vive pela empresa. As garotas têm vida.

- Não levaremos processo. Ela disse que encontrou algo melhor. - Marta revirou os olhos. Para ela, isso era um insulto. Não existia emprego melhor. Ela vestia a camisa da empresa, ela queria o nosso sucesso. Por que tanta devoção, eu não sabia.

A reunião, podemos dizer, foi um sucesso, mas ainda não foram acordados valores de investimentos. Meu irmão entrou em meu escritório com sua pasta preta. Vi pelo seu olhar que ele tinha más notícias.

- Precisamos conversar. - Ele falou, colocando a pasta sobre a mesa. Senti no ar quando ele estava com algum problema.

- Qual o valor do prejuízo? - Ele deu de ombros, como se quisesse espantar os pensamentos.

- Não é sobre isso. - Ele apontou para a pasta. - Isso é só um relatório, mas nossa mãe quer que todos vamos almoçar em casa hoje.

- Não vou. - A questão é que almoçar com minha mãe significava que ela iria querer me convencer que eu e Mariana ainda tínhamos que nos dar uma chance, mas não existia amor para isso. Mariana e eu nos relacionamos por questão de interesse e, por sorte, tivemos Mateo, mas sem ele esse casamento não faz mais sentido.

- Ela disse que tem uma surpresa para nós. Liguei para Josué e soube que Ana está de volta à cidade e que ela trouxe uma linda garotinha em seus braços. - Henrique me falou, sabendo exatamente que aquilo me faria ir até o almoço. Ele é o único que ainda estava vivo que sabia que eu e Ana tivemos algo, e ele nunca me perdoou por isso.

E eu sempre pensei em Ana. Ter que escolher entre ela e Mariana foi terrível para mim, mas meu pai me deu um ultimato. Ele nunca me permitiria ficar com Ana, e eu me envergonho da escolha que fiz. Na época, eu não tinha coragem para enfrentar meu pai e com certeza não estava disposto a largar tudo por ela. Eu ainda achava que o dinheiro era o mais importante.

E agora Ana estava de volta, e com uma filha. Senti uma alegria me tomar, algo que eu não sentia há muito tempo. Seria possível Ana ter fugido grávida na época? Não, Deus não seria tão generoso comigo, não me daria esse consolo, não depois do mal que causei a Ana.

- Quantos anos a menina tem? - Perguntei, ainda me apegando a uma centelha de esperança. Henrique deu de ombros.

- Não perguntei, mas que importância isso tem? - Revirei os olhos e me levantei. Tem muita importância. Preciso ter certeza que o motivo da fuga de Ana não tenha sido a criança.

- Então vamos, temos que visitar a nossa mãe. - Eu queria ver Ana de qualquer forma. Ela me lembrava coisas boas. Nunca mais fui capaz de amar alguém como amei a Ana.

Quando chegamos em frente à mansão de meus pais, logo a vi saindo do carro com uma menininha adormecida em seus braços. Ana estava linda. Não conseguia ver o rosto da menina; ela estava agarrada à mãe, com o rosto virado para Ana, mas sabia que dormia pela forma como Ana a levava. Senti meu coração palpitar. Eu iria encarar Ana depois de todo esse tempo, e pela primeira vez naquele dia, senti o peso sobre isso. Como Ana agiria ao me ver?

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