"Lillian Clark, vou te perguntar pela última vez", disse Waylon Edwards, sua voz marcada pela impaciência. "Você vai romper os vínculos ou não?"
Enquanto o sangue continuava a escorrer da mão, Lillian largou a faca que segurava e colocou uma bolsa de núcleos de feras sobre a mesa. "Depois de tudo que fiz por vocês dois... nunca foi o suficiente?"
Ao observá-la, o desgosto se estampou no rosto de Waylon, pois a aparência dela estava desleixada, bem diferente do que ele considerava que uma femacho (fêmea desse mundo) deveria ser.
"Com esse seu poder espiritual de Nível F, você nunca conseguiu acalmar nem Jaycob, nem a mim", disse ele friamente. "Durante todos esses anos, foi sua irmã mais nova quem nos ajudou por trás. Ela é a única que consideramos nossa dominadora. Se você realmente se importa com a gente, então rompa os vínculos."
A resposta de Lillian veio sem hesitação: "Se é assim que pensa, então vou dar a vocês o que querem."
Após um momento de pausa, ela o encarou e continuou: "Mas tem uma coisa que vocês precisam resolver primeiro. Estamos casados há anos e, para compensar minha falta de poder espiritual, entreguei todos os núcleos de feras que consegui caçando. No total, isso valeu 5 milhões de moedas estelares. Me paguem isso e vocês estarão livres para ir."
A surpresa brilhou nos olhos de Waylon, mas logo foi substituída pela empolgação. Ele vinha insistindo nessa separação há um ano e nunca pensou que ela finalmente concordaria.
Embora não tivesse muitas moedas estelares, se ele se juntasse com Jaycob Warren e pegasse o restante emprestado, eles poderiam pagá-la. Então, ele não hesitou em concordar.
Lillian agiu com a mesma rapidez. Ela abriu o contrato no seu comunicador, o assinou e o enviou. "Transfiram o dinheiro até esta noite. Finalizaremos tudo no Cartório amanhã à tarde."
Fazia apenas um mês que Lillian havia entrado nesse corpo, obtendo todas as memórias da sua dona original.
O mundo em que ela vivia agora era regido por Yggdrasil, que governava inúmeros planetas. Quando os machos desses planetas atingiam a idade adulta, despertavam habilidades especiais que correspondiam à sua natureza. Para fortalecer essas habilidades, eles caçavam feras aberrantes e coletavam núcleos de feras. A habilidade especial ia do nível mais baixo, F, até o S Plus, e as habilidades especiais das femachos eram as mesmas.
No entanto, havia uma diferença crucial. À medida que as habilidades dos machos se desenvolviam, eles entravam em períodos de cio. Sem supressores ou o poder espiritual de uma femacho para acalmá-los, eles corriam o risco de perder o controle, se transformando em criaturas sem controle ou até se autodestruindo.
As femachos eram raras e muito valorizadas, tendo um status elevado. Através do sistema de Yggdrasil, uma femacho poderia ser vinculada a vários machos, e eles deveriam permanecer completamente leais a ela. Somente uma femacho tinha o poder de romper os vínculos com eles.
O corpo que Lillian ocupava agora pertencia a alguém que tinha o mesmo nome que ela, mas suas vidas não poderiam ser mais diferentes. Essa Lillian era considerada a femacho menos capaz da sua família, com um poder espiritual de Nível F.
Sua irmã mais nova, Justine Clark, era completamente o oposto. Desde o nascimento, ela tinha um poder espiritual de Nível S, o que era algo extremamente raro. Muitas femachos nunca avançavam sequer um nível no poder espiritual, então alguém como Justine era de um valor imenso. Sua família a tratava como seu orgulho, dando a ela o melhor de tudo.
Enquanto isso, Lillian tinha que lutar por tudo o que queria. Mesmo assim, qualquer coisa que ela conseguisse conquistar acabava sendo tomada por Justine. A antiga Lillian sempre sabia que não tinha o poder espiritual necessário para acalmar os dois machos de Nível A que foram vinculados a ela quando atingiu a maioridade: Waylon e Jaycob. Para compensar isso, ela passava os dias lutando no Bosque Aberrante, na tentativa de coletar mais núcleos de feras para eles.
Em casa, ela se submetia a fazer tudo. Ela cozinhava, lavava as roupas deles e mantinha o lugar limpo, mas nenhum dos dois homens jamais se afeiçoou a ela.
À noite, Lillian se sentou para comer com sua vizinha, Rosalyn Scott, e lhe contou sobre sua decisão de romper os vínculos com Waylon e Jacob no dia seguinte.
A reação de Rosalyn foi imediata. "Isso é inacreditável! Eles realmente pediram isso? Como eles ousam? Você não fez nada além de ser boa com eles!"
Lillian não parecia preocupada com a situação. "Justine os tirou de mim no primeiro ano após a formação dos vínculos. Nunca dividi a cama com eles. E tudo o que pude fazer para acalmá-los foi fazer carinho na cabeça deles. Não faz sentido forçá-los a ficar comigo."
Rosalyn ficou em silêncio por um tempo, visivelmente chocada. Então, sua expressão se suavizou ao se lembrar do baixo poder espiritual de Lillian.
Ela disse: "Não precisa se preocupar tanto. A Diretoria Federal não deixará uma femacho sem companheiros. Assim que você romper os vínculos, Yggdrasil designará novos machos para você."
Lillian soltou um suspiro frustrado e respondeu: "Esse é o problema. Não quero me vincular novamente. Sempre acaba da mesma forma. Os machos não vão gostar de mim."
Ela já podia imaginar como as coisas iriam acontecer. Se ela acabasse se vinculando a machos capazes, Justine interviria novamente e os tiraria dela, assim como agora.
Rosalyn olhou para Lillian da cabeça aos pés antes de falar novamente: "Você não tem muita escolha. O vínculo é obrigatório, e novos machos virão te procurar, quer você queira ou não. Pelo menos tente mudar sua aparência. Você sempre parece que acabou de sair do mato. Mesmo que os machos não tenham o mesmo status que as femachos, você deveria tentar deixar uma boa primeira impressão."
Durante anos, Lillian só se vestia pensando na sobrevivência. Caçar feras aberrantes e coletar ervas no Bosque Aberrante moldou seus hábitos, fazendo com que ela não tivesse tempo para se preocupar com sua aparência.
Agora, um pensamento lhe ocorreu. Será que Waylon e Jaycob mantiveram distância por causa da sua aparência desleixada? Se esse fosse o motivo, então, na sua opinião, eles não passavam de machos superficiais.
Um suspiro suave escapou dela. "Tudo bem, entendi."
Então, Rosalyn lhe entregou um ingresso. "Aqui. É para uma luta clandestina. Vá assistir a algo divertido e tire a cabeça das coisas. O dono do bar me deu os ingressos. Podemos ir juntas."
Lillian pegou o ingresso. "Obrigada."
No dia seguinte, após refletir um pouco, Lillian decidiu tirar um breve descanso. O dinheiro de Waylon e Jaycob já havia sido transferido, então não havia nada que a impedisse.
Ela começou com um longo banho. Depois, usou seu comunicador para encomendar vários vestidos elegantes e seguiu tutoriais para fazer cachos suaves no cabelo.
Sua beleza natural era realmente impressionante. Sua pele era macia e suas feições podiam facilmente rivalizar com as de Justine. Os anos passados ao ar livre transformaram seu corpo em algo equilibrado e forte. Havia firmeza nos seus músculos, mas seus movimentos eram leves e controlados.
Quando Rosalyn viu Lillian, ficou paralisada, sua reação quase cômica. Levou um tempo até que ela recuperasse a voz. "Por que escondia um rosto como esse antes? Mesmo sem um poder espiritual forte, os machos ainda se sentirão atraídos por você. Waylon e Jaycob com certeza se arrependerão de terem te deixado!"
Pensando que Rosalyn só estava tentando animá-la, um leve sorriso surgiu no rosto de Lillian.
Quando chegaram à arena de luta subterrânea, Lillian realmente chamou a atenção de vários machos que estavam por lá.
Após encontrar seus assentos, Rosalyn guiou Lillian até lá e se sentou com ela. A luta já estava em andamento, com socos e chutes voando por todos os lados lá embaixo, e a plateia assistia com fervor.
Inicialmente, Lillian não estava muito interessada no que estava acontecendo, mas sua atenção foi desviada quando um lobisomem foi arrastado para a plataforma acorrentado. Imediatamente, ela o encarou fixamente.
As orelhas cinzentas do lobisomem estavam alertas, e seus olhos brilhavam com um tom avermelhado e sombrio - era evidente que ele estava no cio.
De repente, a voz do apresentador soou com entusiasmo: "Aqui temos um escravo que está no cio há muito tempo! Rejeitado por todas as femachos, sem comer por uma semana inteira e sem beber uma única gota de água! Quem conseguir derrotá-lo ganhará cem núcleos de feras de alta qualidade!"
Um após o outro, os lutadores subiram ao palco para lutar, mas o lobisomem enfurecido os dominou violentamente e os jogou para fora do palco.
Com o passar das rodadas, seus ferimentos só aumentavam, e uma de suas garras já estava quebrada. Ele permanecia agachado no palco, com sangue escorrendo da boca a cada tosse, mas se recusava a emitir qualquer som, suportando a dor em um silêncio obstinado.
Quando o sinal final ecoou pela arena, ele ergueu a cabeça. Por um instante, seus olhos injetados de sangue se fixaram nos de Lillian, e a mistura de fúria e desespero no seu semblante a fez morder os lábios.
Após um suspiro profundo, Rosalyn disse com pena: "Dizem que ele é do Planeta Renegado e está aqui há algum tempo. Lembro de tê-lo visto aqui da última vez. Ele tem um passado criminoso e não tem família, apenas sobrevive por conta própria. Francamente, esta pode ser a última vez que ele entra nesta arena."
Todos sabiam que um macho que passasse muito tempo sem o toque de uma femacho acabaria perdendo o controle e se destruindo.
Lillian ficou com uma expressão sombria. Algo na solidão do lobisomem tocou um ponto sensível nela.
No fim, o lobisomem reuniu a pouca força que lhe restava para derrotar seu último oponente, depois desmaiou, como se pudesse morrer a qualquer momento.
Ao ver essa cena, Lillian perguntou abruptamente: "Como faço para comprá-lo?"
Rosalyn a olhou com espanto. "O quê? Você quer comprá-lo?"
Lillian inclinou a cabeça ligeiramente. "Só por diversão. Isso é permitido, não é?"
Rosalyn tentou convencer Lillian a desistir, mas não conseguiu. Como conhecia o dono da arena, ela levou Lillian até ele e explicou sua intenção de comprar o lobisomem.
O homem ficou perplexo com o pedido. "Você quer comprar Samuel? Eu já estava pensando em me livrar dele. Minha senhora, se você o levar, gastará uma fortuna tentando tratá-lo. Simplesmente não vale a pena."
Ignorando o que ele disse, Lillian se agachou diante de Samuel Burton, que havia voltado à sua forma humana devido à exaustão extrema, mas as orelhas macias e peludas ainda estavam visíveis. Lillian estendeu a mão e as acariciou suavemente. Mesmo nesse estado, ele era de uma beleza impressionante, com uma presença intimidadora.
Samuel se encolheu. Assustado, se sentou abruptamente, prestes a atacar a pessoa à sua frente.
No entanto, quando reconheceu Lillian como a femacho atraente e gentil que havia notado mais cedo na multidão, sua garra erguida parou no meio do caminho. A hostilidade e a intenção letal nos seus olhos desapareceram. Ele não conseguia se permitir machucar uma femacho inocente. Por isso, abaixou a cabeça e se encolheu em si mesmo, recusando o toque dela em silêncio.
Lillian preferiu não incomodá-lo mais. Ela sempre agia por conta própria ou, às vezes, se juntava a grupos de caça de baixo nível, indo até os arredores do Bosque Aberrante para caçar pequenas feras aberrantes e coletar ervas só para sobreviver. No entanto, os ganhos eram insuficientes, e os núcleos de feras de baixo nível que ela absorvia não melhoravam em nada seu poder espiritual.
Pensando nisso, ela pensou que esse lobisomem poderia ajudá-la a se aventurar mais no Bosque Aberrante, onde ela poderia encontrar ervas de qualidade e núcleos de feras mais fortes para elevar seu poder espiritual.
No mínimo, parecia ser um plano viável.
Lillian disse calmamente: "Vou pagar 1 milhão."
Virando-se para o dono, ela disse firmemente: "Esse é um acordo justo para você, não é? Mesmo que ele se recupere, o custo dos supressores é extremamente alto. Sem uma femacho para acalmá-lo, ele não poderá voltar à arena de qualquer forma."
Após pensar por um momento, o dono aceitou a oferta dela, pois ela não estava errada. Nesse momento, Samuel era um lobisomem descontrolado sem valor algum.
Depois de tirar Samuel da arena clandestina, Lillian notou seu comunicador vibrando sem parar com chamadas perdidas e mensagens. Então, abriu uma das mensagens de vídeo.
Jaycob apareceu na tela, com o rosto vermelho de raiva enquanto gritava: "Lillian, estamos esperando por você no Cartório há uma eternidade! Não teste nossa paciência! Você já pegou o dinheiro e assinou o acordo de separação. Está tentando voltar atrás na sua palavra agora?"
Sem a aprovação da dominadora, era impossível para os machos romper os vínculos por conta própria.
Na pressa de comprar Samuel, Lillian se esqueceu completamente do assunto com Jaycob e Waylon.
Ela se virou rapidamente para Rosalyn. "Por favor, leve Samuel para minha casa. Há suprimentos médicos lá. Use o que precisar e garanta que ele se recupere."
"Claro, deixe comigo", respondeu Rosalyn com confiança.
Quando Lillian chegou ao Cartório, Waylon e Jaycob já estavam ao lado de Justine.
Ao se aproximar deles, Lillian disse: "Desculpe por fazer vocês esperarem."
Waylon e Jaycob a olharam com espanto, como se não a reconhecessem de imediato.
"Li-Lillian?" Os olhos de Jaycob a percorreram da cabeça aos pés. Ela parecia mais atraente do que antes, mas quando ele notou que ela estava usando um vestido branco igual ao de Justine, soltou uma risada zombeteira, achando que ela estava tentando imitá-la para ganhar simpatia e evitar a separação.
Waylon parecia chegar à mesma conclusão. Com desdém, ele disse: "Não precisa copiar Justine. O que nos importa não é só a aparência dela, mas a bondade dela. Não perca seu tempo fazendo algo inútil."
Justine abriu um sorriso meigo, com uma postura frágil e apologética ao falar com Lillian: "Lillian, eu realmente não queria arruinar seus vínculos ou tirar seus companheiros de você. Por favor, não guarde rancor de mim, tá bem?"
Para Justine, Lillian era muito apegada a esses dois machos. Vê-la vestida assim só a fez acreditar ainda mais que ela havia ido até lá para pedir uma reconciliação.
Porém...
"Está bem."
Lillian acenou com a cabeça. Sem sequer olhar para Justine, ela foi direto para o balcão de registro e, sem perder tempo com formalidades, pediu para a funcionária carimbar os documentos.
Imediatamente, o funcionário processou tudo e lhe entregou três certificados de separação. Com um sorriso educado no rosto, ele explicou: "Agora que você está registrada como uma femacho solteira, Yggdrasil vai te encontrar novos machos. Amanhã você poderá verificar seu e-mail para ver os resultados."
Após assentir com a cabeça, Lillian se virou e jogou casualmente dois certificados para Waylon e Jaycob. "Pronto. De agora em diante, vocês dois serão os companheiros destinados de Justine."
Ao ouvir isso, Justine ficou chocada e paralisada por um momento. "Lillian, você realmente rompeu os vínculos com eles? Então é isso? Você não os ama mais?"
Uma risada fria escapou de Lillian enquanto ela balançava a cabeça. "Amar? Nunca houve nada disso entre nós. Era apenas uma obrigação que me prendia a eles. Já que você está disposta a pegar o que descartei, fique à vontade."
Essas palavras deixaram Waylon furioso. "Lillian, cuidado com o que diz! Acha que pode falar de nós assim? Nós te rejeitamos por causa de Justine. É ela quem amamos de verdade."
Lillian nem se deu ao trabalho de responder, já que discutir com eles não valia seu tempo.
Então, ela foi para casa antes que o céu escurecesse.
Mais cedo, Rosalyn havia lhe enviado uma mensagem, dizendo que havia dado uma injeção em Samuel que o mantinha vivo, mas sua condição não havia melhorado, sua mente estava instável e ele precisava de um supressor ou de uma femacho para acalmá-lo o mais rápido possível.
Quando Lillian chegou em casa, encontrou Samuel no quarto de hóspedes. Ajoelhado no tapete, ele estava com o corpo encolhido, se contorcendo com as ondas de dor. Um gemido tenso escapou dele, enquanto uma de suas mãos já havia se transformado em uma garra, prestes a se ferir.
Diante dessa cena, Lillian ficou com uma expressão severa. Sem hesitar, avançou e segurou o pulso dele para impedi-lo.
Ao vê-la, Samuel ficou imóvel por um segundo. Seu peito subia e descia com respirações irregulares, e sua voz saiu rouca. "Você não deveria se aproximar de mim. Posso perder o controle e te machucar."
"Não vou te deixar assim." Com cuidado, Lillian segurou a cabeça dele entre as mãos, tentando acalmá-lo. Ela deixou seu poder espiritual fluir por ele, na tentativa de apaziguar a tempestade dentro dele.
Mesmo assim, a tensão no rosto de Samuel não diminuiu. A dor o consumia sem parar, como se seus ossos estivessem sendo arrancados, depois esmagados novamente. Algo invisível parecia pressionar sua coluna, a partindo pedaço por pedaço. A agonia o arrastava para mais perto da beira do colapso a cada segundo que passava.
"Obrigado por me ajudar." Percebendo que a habilidade de Lillian não era suficiente para acalmá-lo, Samuel cerrou os dentes e estendeu a mão para afastá-la suavemente. "Vou apenas enfrentar minha ruína."
Um lampejo de ansiedade cruzou o rosto de Lillian. As regras impossibilitavam o uso de supressores em alguém com antecedentes criminais. Sem uma femacho disposta a acalmá-lo, não havia como salvá-lo disso.
Ela já havia tentado acalmá-lo com o toque, mas não foi o suficiente.
Só restava uma opção: o acasalamento, que geralmente era reservado para os companheiros destinados de uma femacho.
Ela nunca havia feito algo assim antes. Nem na sua vida anterior, nem nesta, ela havia se entregado a alguém.
No entanto, ao ver Samuel lutando bem diante dela, Lillian hesitou por apenas um breve segundo antes de se decidir. Inclinando-se, ela segurou a cabeça dele com as mãos e pressionou seus lábios contra os dele com firmeza.
Um lampejo de choque cruzou os olhos de Samuel no momento em que os lábios dela tocaram os seus. Algo dentro dele se agitou de uma forma que não conseguia explicar. Ele nunca havia sentido algo assim antes.
Pela primeira vez, ele experimentou o que era ser acalmado por uma femacho.
De repente, a tensão se dissipou do seu corpo. A contração violenta nos seus músculos diminuiu, e a dor aguda que dilacerava seus ossos desapareceu como se tivesse sido arrancada por uma força invisível. Um tremor o percorreu quando o alívio se instalava. Seus braços se moveram instintivamente. Ele envolveu a cintura de Lillian e a puxou para mais perto, a segurando firmemente contra si. A necessidade de acolhimento dela o dominou enquanto ele aprofundava o beijo instintivamente.
Pega de surpresa, Lillian perdeu o equilíbrio e acabou se sentando no colo de Samuel. Sua língua estava entrelaçada com a dele, sendo continuamente lambida e sugada, às vezes tocada pelos dentes afiados dele, a fazendo estremecer.
Uma sensação estranha se espalhou por ela, deixando sua mente instável. Além da mudança física, ela também sentiu algo incomum espiritualmente.
Seu poder espiritual, que antes estava esgotado, de repente se expandiu como uma esponja absorvendo água, atraindo toda a energia selvagem que emanava dele, então, ela a transformou em seu próprio poder para acalmá-lo.
O tempo passou sem que ela percebesse. Quando o beijo finalmente terminou, seu poder espiritual estava completamente esgotado. Seu corpo fraquejou e ela desabou sobre Samuel, sua consciência se esvaindo à medida que o cansaço a dominava.
Para Samuel, o tormento não havia desaparecido completamente, mas a tempestade dentro dele se acalmou o suficiente para que ele pudesse pensar com clareza novamente.
Com cuidado, ele carregou Lillian e a deitou na cama. Seu olhar se fixou nela por um momento antes de ele decidir não se deitar ao lado dela. Em vez disso, ele se sentou no chão e ficou ali, a observando em silêncio, enquanto emoções complexas surgiram nos seus olhos.
Ele não conseguia entender por que alguém como ela iria tão longe só para salvá-lo, nem o que ele havia feito para merecer a ajuda dela.
Aos olhos dele, ela era perfeita.
Quando Lillian finalmente acordou, um dia e uma noite inteiros já haviam se passado. Envolvida por um calor, ela percebeu que sua mão ainda estava sendo segurada com firmeza.
Ao virar levemente a cabeça, ela viu Samuel deitado no chão frio ao lado da cama, dormindo profundamente.
O pequeno movimento não passou despercebido. Ele se mexeu quase que imediatamente, se erguendo enquanto seus olhos azuis se fixavam nela.
Havia algo intenso na maneira como ele a olhava. Seu olhar não se desviava e, combinado com suas feições rústicas, mas marcantes, fazia o coração dela disparar.
Lillian parou por um momento antes de estender a mão. Seus dedos passaram pelos cabelos desgrenhados dele até a orelha, e ela perguntou num tom suave: "Samuel, por que dormiu no chão?"
Um som baixo escapou de Samuel ao toque. Como ele era um lobisomem, suas orelhas e cauda eram extremamente sensíveis. "Estou acostumado. E... obrigado por me salvar e me deixar ficar aqui."
Essa resposta não era a verdade. Ele não estava acostumado a dormir no chão, mas já havia visto muitos outros como ele serem levados por femachos que os tratavam como meros interesses passageiros. Eles saíam com os femachos sorrindo, mas depois voltavam com o corpo coberto de ferimentos.
Alguns desses femachos, respaldadas por seu status, não hesitavam em passar dos limites e tratar seus escravos como nada mais do que ferramentas para seus próprios desejos.
Depois de ver tudo isso, Samuel compreendeu uma coisa: se quisesse sobreviver, ele teria que suportar o que quer que surgisse no seu caminho e ser submisso.
Mas...
"Não diga isso. Você deveria estar dormindo na cama."
Lillian afastou as cobertas e saiu da cama, estendendo a mão para ele e o puxando para que ele se levantasse. Foi só então que ela percebeu o quanto ele era alto. Perto dele, ela mal chegava ao seu peito, o que a obrigava a inclinar a cabeça para olhar nos seus olhos.
Um traço de timidez surgiu no rosto de Lillian. "Depois do que aconteceu ontem à noite... está se sentindo melhor agora?"
Samuel ficou atordoado por um momento antes de responder: "Estou. Você me ajudou a passar pelo cio com segurança."
A lembrança do beijo permanecia na sua mente, e quando seu olhar se desviou para os lábios dela sem perceber, ele engoliu em seco.
Foi então que ele percebeu que os rumores no Planeta Renegado eram verdadeiros. Quando um macho experimentava um profundo conforto de uma femacho, a sensação permanecia com ele, o atraindo para ela repetidamente. Ele já podia sentir essa atração.
"Espere... você realmente conseguiu passar por isso por minha causa?" A empolgação iluminou o rosto de Lillian. "Então o que fiz realmente funcionou?"
Quando Samuel confirmou, tudo se encaixou para ela. A maneira como seu poder espiritual funcionava não era a mesma das outras femachos.
Os núcleos de feras nunca aprimoraram seu poder espiritual, não importava quantos ela tivesse usado. Todos esses anos lutando contra feras aberrantes não mudaram nada. Agora, ela finalmente entendeu o porquê. Seu poder espiritual não crescia dessa forma.
O que havia acontecido na noite passada foi além de um simples contato. Foi uma conexão mais profunda que lhe permitiu absorver muito mais energia do que antes, aumentando seu poder espiritual.
Sem pensar duas vezes, Lillian envolveu Samuel com os braços, incapaz de esconder sua alegria. "Obrigada, Samuel!"
O abraço repentino pegou Samuel desprevenido, e ele não soube como reagir. Um leve calor se espalhou pelo seu rosto. Todos os seus instintos lhe diziam para ficar desconfiado dela, mas ele não conseguia fazer isso.
Forçando-se a se afastar, ele organizou seus pensamentos antes de falar: "Você não deveria me tratar tão bem. Não sou alguém digno da sua bondade. Tenho antecedentes criminais e sou considerado um escravo do Planeta Renegado. Se as pessoas descobrirem o que você fez por mim, vão rir de você."
"Não", Lillian respondeu enquanto segurava a mão dele, com um sorriso inabalável. "Trazer você para casa foi a melhor escolha que já fiz. Você é o meu amuleto da sorte!"
Ela olhou para ele. "Fique comigo, Samuel. Talvez você seja o único que vai."