Ethan Blake.
Dois meses se passaram.
Sessenta dias se arrastaram desde o dia em que enterrei a minha esposa. Desde que minha vida perdeu a cor, o cheiro, o som... tudo que me lembrava que eu ainda era humano.
Carla se foi. E com ela, se foi a melhor parte de mim.
Desde então, tenho vivido no automático. Acordo, me visto, finjo trabalhar, atendo reuniões onde mal presto atenção. Assino papéis, participo de decisões importantes que não consigo sequer registrar na minha cabeça. Tudo ao meu redor continua girando, mas dentro de mim, o tempo parou. Fiquei congelado naquele quarto de hospital. Naquele último adeus.
E agora, como se o mundo achasse que ainda não fosse o bastante, a babá de Carlos também resolveu partir.
O que senti naquele momento? Foi desespero.
Não a culpo, claro que não. Ela tinha seus motivos. Família, problemas pessoais... mas a verdade era que eu mal conseguia sustentar a minha sanidade, quem dirá a de outra pessoa.
Carlos, meu filho.
Ele era só um bebê. Pequeno demais para entender o que aconteceu, mas grande o bastante para sentir. Pois ele chora a maioria do tempo, como se buscasse a mãe no vazio. E eu... eu não sei mais o que fazer.
Quando olho para aqueles olhos lacrimejados, sinto o mesmo que ele, a saudade de Carla, daqueles olhos doces dela, da sua voz me chamando no meio da noite. De como ela amava brincar com Carlos, cantar para ele.
Tentei me concentrar hoje, mesmo que a minha mente esteja um caos, preciso me organizar.
Preciso trabalhar.
Hoje, durante uma reunião com os sócios na Blake Holdings, eles deixaram claro que minha vida profissional também estava por um fio. Que a rotina exaustiva, entre reuniões intermináveis e noites em claro acalentando meu filho, estava afundando o que me restava de energia e sanidade.
Coloquei minhas mãos sobre a mesa e olhei para um dos meus sócios.
- Você precisa de ajuda em casa, Ethan. - Leonardo falou, direto como sempre. - Contrate alguém. Pelo amor de Deus, pelo bem do Carlos. E pelo seu também.
Ele sempre foi assim, direto, descontraído. Não é atoa que é um dos meus melhores sócios, um dos meus melhores amigos. Ele é o vice-diretor da minha empresa principal do Brasil, a Blake Holdings.
Não respondi. Só assenti. Naquele momento, qualquer resposta minha teria saído atravessada, amarga, e isso era tudo o que eu não queria naquele momento.
Não queria descontar em ninguém o que sentia, ainda mais nele.
- Bom, vou para casa agora, nos falamos depois. - Saí da cadeira, acenei para todos e peguei minha pasta.
Saí da sala de reuniões e fui até o estacionamento.
Voltei para casa com um aperto no peito.
Entrei no meu carro e, após dar a partida, dirigi apressado até minha mansão.
Em poucos minutos estacionei o carro e dei a chave para um dos meus homens, todos me cumprimentavam e apenas assenti com a cabeça.
Entrei rapidamente na sala de estar.
O silêncio do lado de dentro das portas realmente machuca. Os corredores grandes da mansão, que antes tinham risos, passos apressados, cheiro de comida recém-feita... agora são só sombras e lembranças.
Ao subir os degraus e ir para o segundo andar, escutei algo. Que apertou meu coração.
Era um choro. Aquele choro estridente que me arrancou do torpor e me jogou de volta para a realidade.
Apertei os lábios com força e corri até o quarto do Carlos, e lá estava ele: em pé no berço, rosto avermelhado, braços estendidos, pedindo ajuda em um idioma que só um pai devastado entenderia.
- Shhh... papai está aqui, meu amor. - murmurei, pegando-o nos braços, sentindo o calor do seu corpinho agitado contra o meu peito.
Balancei com cuidado, como Carla fazia. Eu observei seus traços e me perguntei se um dia ele vai lembrar dela. Do sorriso, do colo. Se vai lembrar do amor dela. Ou se isso tudo vai se apagar com o tempo.
Alisei o rostinho dele e disse.
- Você é tão pequeno ainda... tão inocente, não deveria ter que passar por isso. - sussurrei, o abraçando com carinho.
Enquanto o embalava, peguei o telefone e comecei a ligar para alguns velhos amigos. Preciso de ajuda. Preciso de alguém que possa cuidar do meu filho como ele merece, como a mãe dele fazia.
Carlos começou a se acalmar no meu colo, me sentei em uma poltrona no quarto dele e então coloquei o celular sobre a orelha. A chamada foi atendida, então perguntei se meu socio poderia me indicar alguém para olhar o meu filho.
- Não conheço ninguém de imediato, Ethan - falou Gustavo, a voz hesitante. - Mas vou ver o que consigo. Prometo... Assim que encontrar alguém, te ligarei, ok? Você não vai ficar sozinho nessa. - Como sempre, Gustavo foi o primeiro que propôs ajudar, eu o conheço há alguns anos, um corretor de imoveis de idade, sério, firme, mas que sempre está disposto a fazer o que for preciso para ajudar os amigos.
- Obrigado, Gustavo. Vou desligar agora, mantemos contato. - Me despedi.
Desliguei a ligação e bloqueei o celular. Olhei para Carlos, que começou a soluçar entre um choro e outro. Me sinto um fracasso. Um homem com dinheiro, influência, poder... incapaz de confortar o próprio filho. De dar o que ele realmente quer, o que ele precisa.
Uma batida leve na porta me chama a atenção. É Marta, uma das funcionárias mais antigas da casa. Ela entra com uma mamadeira nas mãos.
- Fiz como a senhora Carla costumava preparar - falou, com a voz baixa, quase reverente.
- Obrigado, Marta - respondi, forçando um sorriso que não chegou aos olhos. - De verdade.
Sentei-me na poltrona do quarto e dei a mamadeira para Carlos. Ele pegou com mais calma dessa vez. Os olhos dele começaram a se fechar. Um suspiro escapou dos meus lábios. Finalmente.
Ele mamou rapidamente e seus olhos amoleceram. Coloquei a mamadeira sobre a comoda e deixei meu filho alguns minutos em meu colo, até escutar ele arrotar.
Coloquei-o no berço de lado, o cobri com o cobertor de que ele mais gostava e beijei seu rostinho. Ele dormia tranquilamente agora. Após desligar a luz, saí do quarto do meu filho e caminhei até o escritório.
Esse lugar, antes cheio de projetos e sonhos compartilhados com ela, agora... se tornou minha maldição, meu pesadelo.
Me aproximo da estante. Meus olhos vão direto para a foto.
Minha Carla.
O sorriso mais bonito que eu já vi. Tão viva naquele retrato. Tão ausente em todos os outros cantos.
Me sentei na poltrona. Acendi o abajur, encarei o retrato mais de perto. A luz suave iluminou a moldura e o reflexo no vidro quase escondeu seus olhos azuis. Mas eu lembro. Como se ainda a tivesse diante de mim. Como se ela estivesse prestes a entrar na sala e reclamar da bagunça.
- Eu estou tentando, querida... - falei, ainda olhando para o retrato dela, com a voz falha. - Mas não sei se vou conseguir sozinho.
Fiquei ali, em silêncio, encarando aquele pedaço de lembrança. Meus olhos ardiam, mas as lágrimas não vinham. Fazia tempo que não descia uma sequer. Talvez porque eu tenha aprendido a sufocá-las.
A única coisa que me restava agora... era continuar fingindo que estou inteiro. Mesmo quando tudo dentro de mim ainda sangra.
Porque, no fim, o que importa é manter Carlos bem. Mesmo que eu tenha que fingir estar feliz, que eu tenha que fingir estar bem e tranquilo por fora.
Ele é tudo que me restou, é a única coisa que importa.
Ellen Vasconcellos.
O sol já estava se expondo quando saí pela porta principal da faculdade, puxando a mochila pelo ombro e tentando não tropeçar nos próprios cadarços. A última aula tinha sido tão arrastada que eu quase dormi com o professor falando sobre ética empresarial - ironia, considerando o que seguiria.
- Você viu a cara do professor? - Fábio comentou ao meu lado, já rindo. - Parecia que ele tinha perdido a vontade de viver dando aquela aula pela milésima vez.
Fábio era meu ponto de equilíbrio. Melhor amigo, sempre ao meu lado com piadas ruins e abraços inesperados. A gente tinha esse tipo de amizade que o tempo não desgastava. Ele conhecia minhas manias, meus surtos existenciais, e eu conhecia o jeito dele de disfarçar quando não estava bem.
Eu fingia não perceber, mas, no fundo, eu sabia que ele gostava de mim, só tentava disfarçar.
- Está tudo certo mesmo? - perguntei, olhando para ele de lado, vendo o quanto ele parecia meio para baixo.
- Tudo ótimo, Ellen. Só cansado. - Ele me olhou de cima, brincando como sempre e tentando desviar o assunto. - E com inveja porque você vai para casa no seu carrão enquanto eu pego o busão - disse com um sorrisinho fraco e meio forçado.
Ia insistir, perguntar se ele queria uma carona, mas meu celular começou a vibrar dentro da mochila. Revirei os olhos, achando que fosse propaganda ou cobrança, mas congelei quando vi o nome na tela.
Tia Deborah.
Minha mãe tinha duas irmãs, mas nossa relação sempre foi meio distante. Conversávamos em aniversários, feriados e afins. O tipo de ligação que só acontecia quando alguma coisa estava errada.
- Fábio, eu... preciso atender. - Falei já com o rosto mais sério.
- Tudo bem. Vai lá. - Ele se despediu com um beijo na bochecha e um abraço apertado, e eu senti que ele queria ficar e conversar mais, mas eu precisava atender.
Levantei e peguei minha mochila, saí da sala e comecei a caminhar pelo pátio da faculdade.
Respirei fundo e, enquanto caminhava até meu carro, apertei o botão e comecei a falar.
- Oi, tia... tudo bem?
A voz dela veio do outro lado da linha, firme, mas carregada. Era como se ela estivesse segurando algo há muito tempo, e agora não conseguisse mais manter.
- Ellen... querida, me perdoa por estar ligando assim do nada, mas... eu não consigo mais guardar isso sozinha.
Meu corpo inteiro começou a ficar rígido, em alerta.
O que pode ter acontecido?
- O que houve? - Minha voz saiu falha.
Sua voz veio em seguida.
- Seus pais... eles não quiseram te contar, mas as coisas não estão nada bem, minha flor. - A pausa que ela fez me apertou o peito. - Seu pai está enfrentando problemas sérios na empresa. A situação está feia, Ellen. E a sua mãe... sua mãe está muito doente.
Parei no mesmo instante, coloquei a mão nos cabelos e então a questionei.
- O quê? - Travei. - Como assim, doente? Que tipo de doença? E por que... por que ninguém me disse nada? - senti meu coração bater mais rápido.
Continuei andando até o estacionamento e puxei o ar com força.
Entrei no carro rapidamente, sentindo meus dedos gélidos, tremendo. Larguei a mochila no banco do passageiro e continuei ouvindo enquanto ela tentava explicar.
- Eles não quiseram te preocupar. Disseram que você precisava focar na faculdade, que estavam dando conta de tudo. Mas não estão, Ellen. E eu... eu não consigo mais ficar calada vendo tudo isso.
Minha mente girava. Imagens dos meus pais sorrindo nos almoços de domingo, as mensagens carinhosas da minha mãe dizendo que "estava tudo bem por aqui", os depósitos regulares da mesada, a prestação do meu apartamento sendo paga em dia, o carro... Tudo parecia tão estável. Eles... estavam mentindo?
Minha garganta se fechou. Olhei para o volante como se ele fosse responder minhas perguntas, como se houvesse alguma lógica naquele caos.
- Eu... eu preciso vê-los - falei, sentindo a urgência crescer dentro de mim. - Não fazia ideia... eu nem imaginei.
- Eu sei, minha querida. Eles só queriam te proteger. Mas você tem o direito de saber.
- Obrigada por me contar, tia... de verdade.
Desliguei antes que minha voz desabasse. Fechei os olhos e tentei respirar, mas foi inútil. O choro veio em ondas silenciosas, pesadas, sufocantes. Não era só a notícia. Era a culpa.
Como eu não percebi?
Estava vivendo a vida como se tudo estivesse no lugar. Saía, ria, fazia planos para o verão, reclamava das provas. Enquanto isso, meus pais estavam se afundando... e escondendo isso de mim para não me preocupar.
Eu não pensei duas vezes. Dirigi rapidamente para o apartamento e, quando entrei na sala do meu apartamento, agi rapidamente, me sentei no sofá e agi.
Mandei um e-mail para a coordenação da faculdade, explicando que precisaria de uma breve pausa por motivos pessoais. Não entrei em detalhes. Nem consegui. Enviei e eles me responderam.
Em seguida, fui até o meu quarto e arrumei uma mochila com algumas roupas e parti.
Sai do apartamento e decidi pegar a estrada.
Eles vinham bastante para São Paulo, mas têm a empresa deles em MG, em Contagem.
Coloquei minha mochila no banco de trás, coloquei o cinto e saí apressada, fui até a rodovia e segui rapidamente.
Meus olhos estavam fixos no horizonte e a mente girava em círculos. Não avisei. Não liguei. Só... fui.
A casa dos meus pais ficava em Minas Gerais, Contagem, a distância de São Paulo até lá é de 6 a 8 horas de viagem.
Passei todo o trajeto tentando me convencer de que minha tia podia estar exagerando. Que talvez as coisas não fossem tão graves assim. Que meus pais, como sempre, estavam dando um jeito. Mas, no fundo, eu sabia que estava só tentando me proteger. Me proteger de uma dor que eu não queria enfrentar.
As horas passaram, estava escurecendo. Havia parado para descansar apenas uns minutos e continuei, estava chegando, faltava pouco.
*****
Quando virei a última curva e vi os portões da mansão dos Vasconcellos, tudo pareceu igual. A fachada branca impecável, o jardim perfeitamente aparado, as palmeiras balançando com o vento leve da noite.
Estacionei o carro em frente e peguei minha mochila, colocando-as nas costas, apertei a campainha e esperei.
Assim que a porta se abriu... eu soube.
Foi a velha Idalina quem atendeu. Ela tinha sido minha babá, minha segunda mãe por anos. Agora, tinha os cabelos completamente brancos e uma expressão cansada. Mas foi o susto no rosto dela que me alertou.
- Menina Ellen? - Ela quase deixou a bandeja cair das mãos. - Meu Deus... que surpresa!
Passei pelos portões e o fechei atrás de mim.
- Oi, Ida... - sorri, mas era um sorriso frágil, incômodo. - Eu... senti saudade. Posso entrar?
- Claro! Claro que pode... só... - Ela olhou para dentro da casa, meio perdida, como se tentasse decidir se era melhor me deixar entrar ou correr e avisar os meus pais.
Entrei.
E a primeira coisa que senti foi o peso.
A mansão podia estar de pé, mas dentro dela... tudo estava desmoronando.
O ar estava denso. O silêncio, pesado demais para uma casa que costumava ter música, conversas e cheiros de comida boa. Caminhei pelo corredor até a sala principal e parei na porta, o coração descompassado.
Minha mãe estava ali.
Sentada em uma poltrona reclinável branca, magra demais, pálida demais, com as pernas cobertas por uma manta leve. Um soro pendia ao lado dela, e dois enfermeiros estavam por perto, ajustando alguma coisa. Ela olhava para a janela, perdida em pensamentos, até me ver.
Seu rosto mudou. Primeiro susto. Depois, a emoção. E por fim... medo.
- Ellen? - a voz dela saiu fraca, mas carregada de surpresa.
Eu corri até ela. Me ajoelhei ao seu lado, segurando sua mão com cuidado. Meus olhos ardiam, mas eu me recusei a deixar as lágrimas caírem ali.
- Mãe... meu Deus. O que está acontecendo? Você está bem?
- Estou, estou, sim, minha filha. É só uma anemia boba - disse, tentando ajeitar o cabelo como se aquilo escondesse o soro. - Uma besteira. Estou só fazendo um tratamento preventivo, coisa de rotina.
- De rotina, mãe? Dois enfermeiros em casa? - Minha voz falhou.
Ela respirou fundo, evitando me encarar.
- Eu não queria te preocupar. Você tem seus estudos, sua vida... isso aqui não é nada de mais.
- E por que ninguém me disse nada? - a questionei, tentando transparecer forte.
- Porque você sempre foi nossa menina, Ellen. Sempre quisemos te proteger. É o nosso papel, não é?
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ouvi passos pesados vindo da cozinha. Virei o rosto e vi meu pai.
Ele parou quando me viu. Ficou parado ali, como se não soubesse se deveria sorrir ou se desculpar. E foi aí que vi o quanto ele estava diferente. As olheiras profundas, os ombros caídos, a barba malfeita... nada naquele homem lembrava o pai elegante e invencível que eu conhecia.
Levantei e fui até ele. Não disse nada. Só abracei.
Ele ficou rígido por um segundo e então me envolveu nos braços. Forte. Como se, por um instante, deixasse cair toda a armadura.
- Vim passar um tempo aqui com vocês - murmurei contra seu ombro.
- Mas... e a faculdade?
- Isso pode esperar. Vocês não. - Soltei o abraço e olhei para os dois. - Eu estou aqui agora. E não vou a lugar nenhum.
Eles trocaram um olhar entre si. Aquela mistura de alívio, constrangimento e, no fundo, saudade. Sabiam que não podiam mais esconder. Sabiam que, de alguma forma, eu tinha descoberto.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
E foi nesse silêncio que uma coisa se clareou dentro de mim.
Até aquele momento, eu era sustentada por eles. Vivendo uma vida confortável, sem questionar de onde vinha tudo. Agora era minha vez. Não importava como. Não importava quanto custasse.
Eu não ia mais depender de mesadas, favores ou mentiras bondosas. Eu ia trabalhar, me virar, dar um jeito.
Eu ia cuidar deles.
Assim como eles cuidaram de mim.
Era a minha hora de fazer algo por eles, era minha hora de mudar tudo a nosso favor.
Ellen Vasconcellos
À noite, deitada na minha antiga cama, o teto do quarto parecia me encarar de volta.
Eu havia crescido ali. Nas paredes ainda estavam os adesivos que colei na adolescência, a escrivaninha com marcas de café e rabiscos de provas estressantes. Mas agora... tudo parecia menor. Menor do que a culpa que me consumia por não perceber nada antes. Menor que a urgência que eu sentia de fazer algo.
O que eu poderia fazer agora?
Passei a mão sobre o rosto e respirei fundo, lembrando de tudo que aconteceu mais cedo.
Virei de lado pela milésima vez. As cobertas estavam quentes demais. O coração, inquieto demais. Eu precisava agir, fazer alguma coisa para cuidar dos meus pais, de toda aquela situação.
Não podia simplesmente cruzar os braços e esperar que as coisas se resolvessem como num passe de mágica. Eles haviam feito tudo por mim. Agora era minha vez.
Me sentei na cama e então decidi que iria cuidar da minha mãe.
No dia seguinte, iria conversar com eles, seria isso.
Respirei fundo, como se esse simples ato aliviasse o peso nos meus ombros.
Me deitei novamente e tentei relaxar, pelo menos um pouco.
No fundo, eu sabia que minha vida iria mudar com tudo aquilo, com todas aquelas escolhas. E eu rezava para estar fazendo as coisas certas.
******
Eu dormi por pouco tempo naquele quarto, confesso que estava pensativa.
Levantei cedo da cama, lavei meu rosto, troquei de roupa, passei perfume e amarrei meus cabelos longos em um rabo de cavalo.
Fui rapidamente para a cozinha.
Estava usando uma camiseta larga velha, que achei no guarda-roupa, era de quando usava nos tempos da escola.
Meus pais já estavam à mesa. O cheiro de pão fresco e café preenchia o ar, como nos velhos tempos. Aquilo quase me enganou. Quase me fez acreditar que tudo estava normal.
Eu amava chegar na escola e a mesa estar arrumada e comer com eles, isso me enchia de nostalgia.
- Bom dia, filha - disse minha mãe, sorrindo com os olhos mais brilhantes do que ontem. Ela parecia melhor, mais corada... ou talvez estivesse apenas fingindo bem.
- Bom dia, meu amor - completou meu pai, levantando o jornal para me ver melhor.
Sentei entre os dois, passando manteiga no pão sem fome nenhuma.
Mesmo com aquele clima estranho, havia uma leveza ali. Como se, só pela minha presença, eles estivessem se permitindo respirar de novo.
Mas eu não podia fingir mais. Era hora de falar.
- Eu decidi sobre algo ontem à noite - comecei, olhando para eles.
Os dois pararam. Minha mãe pousou a xícara sobre a mesa. Meu pai abaixou o jornal devagar.
- Decidi que irei pausar a faculdade por um tempo, irei falar com eles quando voltar a São Paulo. Quero ficar com vocês. - disse olhando para seus rostos, que estavam chocados com o que disse.
- Ellen... - minha mãe começou, mas eu levantei a mão, interrompendo com gentileza.
- Eu não estou abandonando meus estudos, mãe. E, além disso, eu quero procurar um emprego. Vou ajudar no que for preciso. É o mínimo. - Falei firme.
- Filha, não precisa disso - disse meu pai, já balançando a cabeça. - A gente vai dar um jeito.
- Vocês sempre deram. Mas agora é a minha vez. Eu tenho 23 anos. Já sou adulta. Sei me virar. Posso trabalhar e estudar ao mesmo tempo, como muita gente faz.
Eles trocaram um olhar. O tipo de olhar que pais trocam quando sabem que perderam a discussão, mas ainda tentam resistir.
Meu pai soltou um suspiro longo, passando a mão pelos cabelos grisalhos. E então, como se tivesse se lembrado de algo, franziu a testa.
- Ontem à noite, eu falei com um amigo. Ele está passando por uns perrengues. A esposa dele faleceu recentemente, e desde então ele não consegue encontrar alguém que cuide do filho. Um bebê de oito meses. Depois que a primeira babá foi embora, já passou por quatro outras, e nenhuma ficou.
- Que horror... - murmurei, sentindo um aperto no peito só de imaginar como devia estar sendo difícil para ele.
- Pois é... Ele está desesperado. Quer alguém de confiança, e... bem, pensei em você agora. Você sempre gostou de crianças, tem paciência, tem um jeito natural com os bebês. O que acha? É uma vaga temporária, só até ele encontrar alguém definitivo. - Meu pai continuou, respirando profundamente. - Ele tem me ajudado muito na empresa, tem sido um ótimo amigo, não queria abandoná-lo assim, não numa situação difícil como essa.
- Você acha que eu daria conta? - perguntei, meio surpresa. Nunca havia pensado em trabalhar como babá, mas a ideia não me parecia ruim. Pelo contrário... havia algo reconfortante em cuidar de uma vida tão frágil.
Realmente amo bebês, meu humor muda completamente quando estou com uma criança.
- Acho que daria certo sim - ele disse com convicção. - E, sinceramente, filha, ele vai pagar muito bem. É um cara bem-sucedido, dono de uma empresa enorme. Não mede esforços quando se trata do filho.
Balancei a cabeça, negando quando meu pai falou do dinheiro.
Se esse tal amigo estava ajudando meu pai, bastante como ele havia dito com sua empresa, o mínimo que eu podia fazer era retribuir.
- Se ele é um amigo seu, está te ajudando com o trabalho, não irei cobrar nada... você disse ser temporário de qualquer forma, enquanto isso, irei procurar um emprego por fora. - Meu pai olhou meio confuso e agradecido ao mesmo tempo, e eu continuei. - Qual o nome dele? - perguntei, meio curiosa.
Meu pai hesitou por um segundo, depois respondeu:
- Ethan. Ethan Blake.
O nome ecoou na minha cabeça como se já tivesse escutado em algum lugar. Talvez na mídia, ou em alguma palestra da faculdade. Mas antes que eu pudesse me lembrar de onde, a voz da minha mãe me trouxe de volta:
- Tenho certeza de que você irá conseguir, minha querida.
Assenti com a cabeça e comecei a comer o pão, depois me servi de café. Ali na mesa, continuamos a conversar, meu pai disse para voltar quanto antes para São Paulo, ele e minha mãe não queriam que eu parasse a faculdade. Então disse a eles que não iria largar os estudos se minha mãe ficasse comigo em São Paulo, iria cuidar dela, enquanto meu pai se dedicaria à empresa.
Eu queria cuidar da minha mãe, retribuir a eles tudo que fizeram por mim, por tantos anos. Disse a eles que a minha condição de não largar os estudos seria se minha mãe morasse comigo, e então eles concordaram.
Eu iria fazer o meu melhor, para que minha mãe melhorasse, e meu pai pudesse ficar tranquilo sem se preocupar com minha mãe e voltasse a trabalhar normalmente na empresa.