O calor se espalhava por cada superfície no quarto, deixando o ar denso e abafado.
O corpo de Caiden Wells continuava queimando contra a pele de Iris Wells.
"Está tão bom assim? Sua voz é tão sedutora..." Ele riu preguiçosamente no ouvido dela, a voz rouca e arrastada. "Então... que tal isso?"
Um suspiro assustado escapou dos lábios de Iris.
Ela acordou abruptamente, seu coração despencando antes de disparar e martelar em seu peito.
Por um momento, a confusão dominou seus sentidos, até que ela percebeu a realidade: nada disso era real.
Ela esteve perdida num sonho vívido, onde o toque de Caiden parecia tão real que a lembrança da proximidade dele ainda queimava sua pele enquanto ela piscava para o teto, com a respiração ofegante.
Vários minutos se passaram até que ela conseguisse se recompor. Sua mão alcançou o espaço ao lado dela. Apenas lençóis frios encontraram seu toque.
Caiden, seu marido, não havia voltado para casa.
Soltando um suspiro, Iris afastou o cabelo dos olhos e saiu da cama para pegar um copo de água.
Uma sensação incômoda se agarrava entre as pernas. Aborrecida, procurou sua calcinha e camisola e foi ao banheiro para lavar a sensação pegajosa do desejo.
O desejo sexual não fazia distinção de gênero, e Iris sabia disso tão bem quanto qualquer homem, já que havia se acostumado com a intimidade regular desde o casamento.
Naquela época, as noites dos dois se estendiam até o amanhecer, e nenhum deles desistia até as primeiras horas da manhã. Esse ritmo havia terminado abruptamente após um incidente, e Caiden havia assumido uma tarefa no exterior, desaparecendo por quase um ano.
Não era de se admirar que essas lembranças tivessem invadido seus sonhos.
Após vestir roupas limpas, Iris estava prestes a lavar sua calcinha à mão, quando o toque estridente do seu celular quebrou o silêncio.
Ligações no meio da noite eram comuns para uma cirurgiã como ela. No entanto, quando atendeu, a voz que a cumprimentou era de um homem desconhecido, calmo, mas urgente.
"É Iris Wells?"
"Sim. Quem é?"
"Boa noite, senhora Wells. Sou o policial Grant, da delegacia da Avenida Horizon. Caiden Wells é seu marido? Ele foi detido num bar esta noite, bêbado e envolvido numa briga. Gostaríamos que você viesse para ajudar a resolver a situação."
Iris ficou sem reação por um momento. Caiden estava de volta? E já estava causando problemas, a ponto de ser detido pela polícia?
Iris hesitou antes de responder: "Tudo bem. Vou estar aí o mais rápido possível."
Sem perder tempo, colocou algo apresentável, pegou as chaves e saiu de casa.
A Avenida Horizon se estendia pelo coração da vida noturna de Slidrora. Letreiros de neon brilhavam sobre as calçadas lotadas, a música ecoando no ar abafado.
O trajeto da sua casa tranquila até a região movimentada da cidade parecia interminável. Quando chegou ao seu destino, já eram quase quatro da manhã.
Por onde quer que ela olhasse, os bares se espalhavam, e as ruas estavam agitadas com as confusões da noite. Mesmo a essa hora, a delegacia estava movimentada.
Assim que Iris passou pelas portas de vidro, o avistou: Caiden, sentado numa cadeira de plástico branca e desgastada, sozinho no meio da multidão.
Apesar do ambiente caótico e barulhento, ele ainda era a presença mais chamativa.
Ele parecia estar no seu próprio mundo, alheio ao caos ao seu redor, ocupando um espaço solitário sem ninguém por perto.
Fazia um ano desde a última vez que ela o vira, e seus olhos percorreram cada traço familiar - ele parecia inalterado.
Caiden usava uma camisa branca impecável com as mangas arregaçadas até os cotovelos e uma calça preta que lhe caía perfeitamente, sem a gravata e o paletó. O tecido caro envolvia seu corpo alto como se tivesse sido feito sob medida para ele.
Ele estava esparramado na cadeira, com os joelhos afastados, sua camisa aberta até o pescoço, revelando a curva do seu pomo de Adão e um pedaço da clavícula à luz. As rugas marcavam a calça onde ele estava sentado, e meias pretas envolviam seus tornozelos. Havia um charme descontraído nele, do tipo que fazia seu visual parecer desleixado, mas irresistivelmente atraente.
Seu queixo estava inclinado para frente, como se estivesse um pouco tonto, Com os olhos avermelhados, ele parecia ainda mais impressionante do que ela se lembrava.
Iris só havia visto esse lado cru e magnético dele em momentos íntimos - a forma como sua beleza se intensificava quando ele estava totalmente satisfeito, envolvido nos braços dela.
Nesta noite, todos na delegacia tiveram o privilégio de testemunhar isso. Até os estranhos que passavam não conseguiam deixar de olhar para ele.
Só de vê-lo assim, era um prazer culposo.
O sangue Wells corria em suas veias - a família mais proeminente de Slidrora, conhecida pela sua riqueza e legado.
Caiden sempre se destacava, abençoado com beleza e charme, e sempre no controle de qualquer lugar que estivesse.
A maioria das pessoas na cidade sabia que não era bom contrariá-lo. Ele estava em outro patamar, distante e inalcançável, como uma estrela que ninguém ousava tocar.
Então, por que as coisas deram tão errado a ponto de a polícia tê-lo prendido com os outros?
Em algum momento, talvez por sentir os olhares sobre ele, Caiden ergueu a cabeça. Seu olhar estava turvo, como se ele não tivesse certeza se o rosto à sua frente era real. Mesmo assim, a familiar suavidade permanecia nos seus olhos, inalterados depois de todo esse tempo.
Iris manteve distância a princípio, indo até a recepção. "Olá, sou Iris Wells. Alguém me ligou sobre meu marido e me pediu para vir."
O jovem policial que estava cuidando do caso se aproximou.
Iris notou que o distintivo no peito dele pertencia a outra delegacia, o que explicava o motivo de ele não parecer conhecer o nome Wells.
"Você é a esposa de Caiden Wells, não é? Ele foi detido por brigar num bar. Se quiser saber todos os detalhes, podemos assistir às imagens de segurança juntos."
O policial digitou algumas teclas, exibindo as imagens de vigilância. O ângulo da câmera capturava Caiden de frente, o enquadrando perfeitamente sob a iluminação intensa do bar.
Mesmo meio bêbado e recostado no balcão, as características marcantes de Caiden não eram obscurecidas pelas luzes chamativas - sua postura descontraída, sua beleza impossível de ignorar.
Com uma das mãos no bolso e o celular na outra, ele parecia completamente indiferente a tudo ao seu redor. De repente, uma mulher atraente se aproximou e passou os braços em volta da cintura dele.
A cena pegou Iris desprevenida.
A mulher ficou na ponta dos pés e sussurrou no ouvido de Caiden, que logo abriu um sorriso preguiçoso.
Enquanto sorria, os óculos com armação dourada davam a ele um toque travesso que Iris nunca o havia visto usar em público.
Ela segurava as chaves do carro com força, sem nem perceber o metal se cravando na sua pele.
As imagens de vigilância continuaram a ser exibidas.
Na tela, um grupo saiu do elevador. As palavras deles estavam distorcidas pela estática, mas a linguagem corporal contava a história.
Caiden tirou os óculos e guardou-os no bolso.
Num piscar de olhos, o clima mudou e os socos começaram a voar.
Caiden se movia com a destreza de alguém que fora treinado para isso.
Iris sabia que a família Wells havia contratado os melhores instrutores desde que ele era menino, o que era evidente na imagem - sua luta não era apenas sobre força, mas também sobre habilidade, cada movimento calculado e eficiente.
Logo, os seguranças chegaram, interrompendo o caos e chamando a polícia.
Tudo estava bem claro, sem mistério sobre quem deu o primeiro soco ou por quê.
Mas a imagem que não saía da cabeça de Iris era a dos braços daquela mulher em volta da cintura de Caiden.
Seus olhos se desviaram de Caiden, que estava sentado desajeitadamente na cadeira, para a multidão que ele enfrentara.
Entre eles estavam duas jovens. Quando perceberam que ela era a esposa de Caiden, elas a olharam com um certo tom de compaixão.
Ter um marido suspeito de infidelidade já era péssimo, mas ser arrastada da cama no meio da noite para resolver uma briga de bar era uma humilhação ainda maior.
"Senhora, não queríamos causar nenhum problema. Minha amiga brincou que minha barriga estava chapada esta noite, embora estivesse maior antes. Ela só estava insinuando que eu poderia ter engravidado e perdido o bebê. Provavelmente, seu marido achou que estávamos falando da mulher que estava com ele, e foi aí que tudo começou", explicou uma das duas mulheres.
A frase sobre ter perdido um bebê caiu como um balde de água fria sobre Iris, que levou a mão à barriga inconscientemente, enquanto sua mente girava.
Por fim, entendeu por que Caiden, sempre tão calmo e correto, havia perdido o controle e se metido numa briga.
O policial disse: "Você viu o que aconteceu com clareza? Este caso..."
Iris o interrompeu:"Com licença, mas o que Caiden fez com eles conta como agressão intencional?"
O policial hesitou antes de responder:"Tecnicamente, é considerado uma briga mútua, já que eles revidaram também."
Iris insistiu:"Então o que ele fez conta como conduta desordeira?"
"A conduta desordeira geralmente exige intenção. Como ambos os lados estavam bêbados e agiram sem pensar, não podemos realmente chamar isso de conduta desordeira."
Iris continuou: "Não é imoral exibir um caso e abraçar a amante na frente de todo mundo? Algo assim não poderia resultar em alguns dias de detenção? Cinco? Ou talvez dez?"
De repente, todos ali, até mesmo o policial, perceberam que Iris não estava tentando tirar Caiden da cadeia, mas sim procurando um motivo para mantê-lo detido.
As pessoas olharam para eles, incrédulas. Que casal infernal!
Enquanto os outros tentavam processar o que estava acontecendo, Caiden se recostou na cadeira de uma forma que o fez parecer ainda mais alto e imponente.
Em um tom baixo e rouco, pronunciou o nome dela: "Iris."
Não havia nada abertamente ameaçador em sua voz, mas a frieza que a acompanhava era suficiente para incomodar qualquer um.
No fim, Iris cedeu. Considerando o preço das ações do Grupo Wells em jogo e as lembranças de como os pais de Caiden sempre foram gentis com ela, finalmente concordou em resolver o assunto. Ela negociou com o outro lado e entregou trinta mil para garantir a liberação de Caiden.
Nenhum dos dois disse uma palavra durante o caminho para casa.
Iris demorou do lado de fora para estacionar o carro. Quando ela entrou, Caiden já havia desaparecido no banheiro com as roupas na mão. Então, ela acabou indo lavar o rosto no quarto de hóspedes, depois vestiu sua camisola novamente.
Deitada na cama, sentiu como se toda a sua energia tivesse sido drenada.
A noite de hoje deveria ter sido tranquila, pela primeira vez em muito tempo - sem chamadas de emergência do hospital, sem cirurgias de última hora esperando - e ela poderia ter tido uma rara e pacífica noite de sono.
No entanto, a noite tinha sido um desastre que a fez correr de um lado para o outro por duas horas seguidas. Tudo o que conseguia fazer agora era tirar um cochilo antes de seu próximo turno.
Quando seus olhos finalmente começaram a se fechar, a barra de sua camisola foi levantada e uma mão pressionou entre suas pernas, a fazendo acordar num sobressalto.
Iris fechou as pernas com força e lançou a ele um olhar furioso.
Sentado na beira da cama, Caiden usava um roupão amarrado frouxamente, que mal o cobria, revelando seu peitoral e abdômen sob a luz quente.
Ao notar que ela estava acordada, ele não hesitou em se aproximar. Seu rosto permanecia inescrutável, embora suas mãos se tornassem mais ousadas.
Para Iris, as ações dele não passavam de uma provocação.
Ela empurrou o braço dele enquanto exclamava:"Caiden, você enlouqueceu? Me solte agora mesmo!"
Os olhos de Caiden, escuros e inescrutáveis, brilharam com uma pitada de sarcasmo. "Vi o que você deixou no banheiro. É isso que você faz quando eu passo meses fora? Suas próprias mãos já te satisfizeram tanto quanto eu?"
Iris finalmente entendeu o que ele tinha visto: a calcinha que ela havia deixado para trás na pressa.
Embora o constrangimento transparecesse em seu rosto, ela se manteve firme, pressionando as palmas das mãos com força contra o peito dele.
Caiden nunca a forçou, já que sua posição e reputação tornavam isso impensável. No momento em que ela revidou, ele perdeu o interesse, a considerando dramática e sem graça, e a soltou sem dizer mais uma palavra. Com um ar de indiferença, pegou um lenço umedecido e limpou as mãos.
Iris cerrou os dentes, se recusando a olhar para ele.
Um leve sorriso zombeteiro surgiu nos lábios de Caiden, embora qualquer desejo tivesse desaparecido.
Quando ela tentou se virar de costas para ele, avistou algo que não esperava: a aliança de casamento brilhando no dedo dele, um anel simples de platina.
Ela acreditou por muito tempo que ele a havia tirado para sempre.
Já a aliança dela, havia desaparecido de seu dedo há muito tempo.
Depois de jogar o lenço e amarrar o roupão com mais força, Caiden se esticou na cama. O espaço entre eles desapareceu, e seu cheiro familiar - amadeirado e quente - pairava no ar. Em questão de segundos, estava dormindo profundamente.
O sono abandonou Iris por completo.
Embora fosse a primeira vez em um ano que seu marido dividia a cama com ela, desejava com todas as suas forças que ele tivesse ficado longe.
Como não queria ficar lá nem mais um segundo, saiu da cama silenciosamente e foi para o quarto de hóspedes, na esperança de encontrar pelo menos um pouco de conforto.
Sozinha na cama, não conseguia afastar o pensamento de que os últimos dois anos de casamento não passaram de tempo perdido.
...
Na manhã seguinte, Iris se vestiu rapidamente e desceu as escadas.
Caiden já estava à mesa, com uma aparência impecável, como sempre, sem nenhum vestígio do caos da noite anterior.
Ele usava um terno preto feito sob medida, uma gravata combinando, abotoaduras reluzindo e um par de óculos de aro dourado pousados em seu nariz. Em pouco tempo, havia se transformado na imagem perfeita do herdeiro da família Wells, exalando privilégio e compostura.
Quando Iris entrou na sala de jantar, Caiden permanecia focado em seu celular, sem olhar para ela, nem sequer mencionar o fato de ela não ter dormido ao seu lado na noite passada.
Ele levava o mingau à boca com a colher, enquanto o punho de sua camisa social roçava em um relógio com mostrador azul-escuro, um símbolo discreto de sua elegância e mistério.
A governanta, Cecily, apareceu com um prato na mão. "Senhora Wells, seu café da manhã está pronto."
Com um aceno de cabeça gentil, Iris agradeceu antes de voltar sua atenção para Caiden. "Paguei pelo seu acordo ontem à noite. Foram trinta mil. Por favor, me devolva."
Atrás dos óculos finos e transparentes, os olhos de Caiden se ergueram, e ele perguntou com uma voz firme: "Já não te dei dinheiro suficiente?"
Mantendo a calma, Iris respondeu: "Você pode verificar a conta, se quiser. Não toquei no seu dinheiro nenhuma vez desde que nos casamos."
Ambas as famílias tinham muita riqueza, então Iris nunca precisou depender do apoio financeiro dele.
Sem discutir mais, Caiden pegou seu celular e enviou a quantia exata para ela, sem adicionar nada a mais.
O café da manhã decorreu em um silêncio quase absoluto, quebrado apenas quando sua secretária chegou para acompanhá-lo ao trabalho.
Quando ele se levantou para sair, Iris pousou a colher e disse:"Já que você voltou, vamos resolver nosso divórcio."
Caiden parou, suas sobrancelhas erguidas, e olhou para ela com um sorriso levemente divertido. "Como é que é?"
Sem vacilar, ela continuou: "Primeiro, aquela que mora na Avenida Autumn, e depois, a mulher da noite passada. Não faz sentido prolongar isso. Vamos terminar."
Para dar privacidade ao casal, Cecily e a secretária se retiraram, fechando a porta atrás de si.
Caiden se recostou na cadeira e cruzou uma perna sobre a outra, seus olhos a percorrendo. "Certo. Me diga seus termos para o divórcio."
Iris balançou a cabeça levemente. "Não quero nada. Nós mal vivemos como um casal de verdade, além de dormir na mesma cama. O que é seu fica com você, e eu levarei o que é meu. Me mudarei assim que a papelada estiver pronta. É só isso."
Ela nunca sequer pensou em dividir a riqueza dele.
Caiden mantinha uma máscara de polidez, embora todos que o conheciam soubessem que havia muito mais sob a superfície. Ele podia parecer um herdeiro mimado por fora, mas na verdade, era frio e calculista, um homem com a reputação de jogar segundo as próprias regras.
Quando Caiden entrou pela primeira vez nos negócios da família, seu pai o colocou no comando de uma subsidiária em dificuldades - o braço de entretenimento que vinha perdendo dinheiro há anos.
Caiden cortou empregos e reestruturou toda a operação, ignorando todos os apelos por clemência. Nem mesmo os veteranos que construíram a empresa desde o início foram poupados. Na época, a maioria das pessoas achou que ele estava sendo imprudente.
Em vez de jogar pelo seguro, ele investiu o dinheiro da empresa em filmes, TV e novos shows de talentos, lançando uma nova onda de estrelas, revertendo os prejuízos e fazendo com que a fortuna da empresa disparasse.
Agora, essa divisão era uma joia da coroa do Grupo Wells, e os artistas que ele havia descoberto estavam entre os mais brilhantes da indústria.
Não havia nada de simples ou inocente em Caiden, e Iris não tinha a intenção de se envolver no mundo dele - só queria um rompimento limpo.
Em um tone suave, quase gentil, Caiden respondeu:"Esse acordo não é viável para mim. Depois de todo esse tempo juntos, acho que uma compensação é necessária."
Por um segundo, Iris pensou que ele estava falando em facilitar as coisas para ela, e essa cortesia repentina a desarmou.
Erguendo o olhar, ela respondeu:"Realmente não é necessário. Se você estiver disposto, entrarei em contato com o advogado hoje..."
"Você entendeu mal. Eu quis dizer que é você quem me deve uma compensação."
Pega de surpresa, Iris congelou.
Um sorriso lento e frio se espalhou pelo rosto de Caiden. "Não faz nem um ano, Iris. Por acaso você esqueceu que me deve um bebê?"
Iris imediatamente pensou na discussão amarga do ano anterior, uma briga que havia tirado qualquer senso de orgulho e deixado os dois vulneráveis.
"Você só conseguirá o divórcio depois que me der um filho. Até lá, a dívida não estará quitada." Caiden fez uma pausa para ajeitar os óculos, um meio sorriso se formando nos lábios como se ele estivesse a provocando. "Iris, se acha que pode escapar dessa, só está se enganando."
Sem esperar por uma resposta, se virou e saiu.
Iris se recostou na cadeira, seu peito se apertando de ansiedade.
Ela se lembrou das palavras da mulher na noite passada - Caiden havia explodido ao ouvir a piada de que uma mulher havia engravidado em segredo e perdido o bebê.
Essa velha ferida não havia cicatrizado de forma alguma, pelo contrário, o rancor só aumentou.
Quase inconscientemente, sua mão foi para a barriga.
Ele ainda acreditava que ela lhe devia um filho...
A ironia da situação a consumiu. Caiden era tão bom em se fazer de vítima quando, na verdade, era obviamente o culpado.
...
Hoje, Iris tinha um atendimento ambulatorial.
No Hospital Unity, ela era chefe do departamento de cirurgia cardiotorácica.
As pessoas geralmente não imaginavam que alguém tão jovem como ela tivesse conseguido um cargo tão prestigiado, mas sua competência não deixava margem para dúvidas.
Após se formar em uma faculdade de medicina de renome mundial, foi contratada pelo diretor do hospital, que lhe ofereceu um salário impressionante para trazê-la de volta do exterior.
Seus anos no Hospital Unity só consolidaram sua reputação. Funcionários e pacientes a chamavam de a melhor cirurgiã cardiotorácica da área.
Cada médico tinha uma sala de consulta particular. Iris se acomodou no seu espaço e apertou o botão de chamada, sinalizando o início das consultas.
Ela verificou as informações do próximo paciente na tela, se preparando para o dia que estava por vir.
A porta se abriu e uma jovem entrou.
Ao erguer os olhos, Iris teve a impressão de já ter visto essa mulher em algum lugar.
"Não encontrei nenhum registro seu. É a primeira vez que vem aqui? O que te traz aqui hoje?", ela perguntou.
A mulher não devia ter mais de vinte anos e usava um vestido com um decote em V profundo, que parecia muito maduro para sua idade. Ela se sentou na frente de Iris, se comportando com uma confiança que beirava a arrogância.
Iris perguntou novamente: "O que te traz aqui hoje?"
A jovem a observou por um momento antes de abrir um sorriso malicioso e dizer: "Estou grávida."
A resposta pegou Iris desprevenida.
Um instante depois, a mulher continuou: "O bebê é de Caiden."
De repente, tudo se encaixou para Iris.
Não era à toa que achava o rosto da jovem tão familiar.
Finalmente, ela a reconheceu: era a mesma mulher das imagens de segurança do bar, aquela que estava praticamente grudada em Caiden ontem.
A garota usava uma maquiagem pesada na noite passada. Sem a maquiagem pesada, Iris quase não conseguiu reconhecê-la.
Ela manteve uma voz firme ao dizer: "Se está grávida, terá que ir ao departamento de obstetrícia e ginecologia. Aqui é o departamento de cardiologia. Você acabou de desperdiçar um horário de consulta de alguém que realmente precisa."
A mulher soltou uma risada zombeteira. "Pare de fingir. Estou grávida de Caiden. Não deveria estar se preparando para sair de cena?"
Sair de cena? Essa era nova.
Iris girava sua caneta distraidamente. A mulher que Caiden mantinha na Avenida Autumn por anos nunca ousou falar com ela assim. Essa novata tinha nervos de aço.
Era evidente que Caiden a havia enchido de arrogância a ponto de se sentir intocável.
Ao invés de discutir, Iris pegou o telefone do escritório e ligou para a doutora Fletcher. "Doutora Fletcher, pode me encaixar em um horário? Agende um aborto indolor para uma paciente chamada Ariana Watson."
Ariana se levantou da cadeira, seu rosto empalidecendo. "Você está louca? Não pode simplesmente se livrar do meu bebê! Se tentar fazer alguma coisa, Caiden irá atrás de você!"
"Preciso de duas enfermeiras aqui. Esta paciente está resistindo ao atendimento."
Quando ela desligou, duas enfermeiras robustas entraram no escritório. "Doutora Wells, você ligou?"
Percebendo que Iris estava falando sério, a coragem de Ariana se transformou em pânico e ela bateu o pé com indignação. "Você é inacreditável! Todos sabem que você armou para se casar com Caiden. Você não passa de uma manipuladora sem coração!"
Iris apontou para seu jaleco, o símbolo da sua profissão. "Me explique como sou a vilã aqui."
A raiva de Ariana transbordou. "Você só conseguiu Caiden porque sua mãe era próxima da dele. Tudo isso me dá nojo. Se não fosse pela mãe dele ter insistido, ele nunca teria olhado para você. Você é um azar - até causou a morte dos seus pais. Já manteve Caiden longe de todos por tempo demais. É hora de você desistir!"
Iris tomou um gole de água, com um ar de indiferença, como se estivesse ouvindo uma história sobre estranhos. Após colocar o copo sobre a mesa, acenou com a cabeça pensativamente. "Parece que você fez sua lição de casa. Caiden te contou tudo isso?"
Os olhos de Ariana brilharam. "Não vou deixar você continuar o machucando!"
Desviando o olhar para a barriga de Ariana, Iris de repente teve uma ideia. "Você se importa tanto com ele? Então me deixa te ajudar."
Ariana estreitou os olhos, a desconfiança evidente na sua voz. "Do que está falando?"
Iris se virou para as enfermeiras. "Por favor, a levem para o departamento de obstetrícia e ginecologia. A doutora Fletcher estará esperando. Ela sabe exatamente o que precisa ser feito."
Ignorando a enxurrada de protestos e insultos de Ariana, Iris pegou seu celular e ligou para Caiden.
No entanto, ele recusou a primeira ligação.
Sem hesitar, ela ligou novamente.
Desta vez, ele atendeu, sua voz monótona e brusca. "Estou ocupado. Você tem três minutos."
"Agradeceria se viesse buscar sua nova namorada. Ela fez um escândalo no hospital e atrapalhou meu trabalho. Se deixá-la aqui, não serei responsável pelo que acontecerá depois", disse Iris, encerrando a ligação antes que um minuto se passasse.
Caiden apareceu pouco depois que sua reunião terminou. Nesse momento, Iris já havia terminado de atender seu último paciente da manhã.
O terno era o mesmo preto impecável desse manhã, mas ele havia afrouxado a gravata e deixado os dois primeiros botões desabotoados.
A maneira como ele se comportava, parte elegante e parte desleixada, se destacava mais do que nunca.
Iris se recostou instintivamente, criando uma barreira entre eles. "Sua namorada disse que está grávida de você."
A expressão de Caiden permanecia indecifrável por trás das armações finas dos seus óculos. Nenhum sinal de emoção o denunciava, então Iris não conseguia adivinhar se isso era novidade para ele.
"Ela está sob minha custódia", acrescentou ela.
Essas palavras finalmente provocaram uma reação dele. "Você a prendeu? Você tem muita audácia."
Se era isso que ele chamava de audácia, Iris achava que ele estava exagerando.
"Quero fazer um acordo", disse ela, seu tom firme.
Caiden soltou uma risada abafada. "Tem ideia de quanto vale o acordo que acabei de fechar?"
Iris olhou para ele, sua voz neutra ao responder: "Minha proposta é tão valiosa quanto o seu acordo. Posso ficar com o filho de Ariana. Se quiser, direi que é meu, sem que a família precise se preocupar com uma criança ilegítima. Com a história certa, seus pais aceitarão. Assim, não te deverei mais um filho e poderemos nos divorciar."
Caiden arqueou uma sobrancelha, o brilho nos seus olhos se alterando por trás dos óculos de armação dourada. "Tenho que admitir que você tem um talento e tanto para negociar."
Iris não estava interessada em saber se ele estava fazendo um elogio ou uma provocação. Olhando para o relógio de pulso, ela disse: "Não se apresse, mas também não demore muito. Ariana está no pré-operatório agora. O destino do bebê está nas suas mãos."