¬¬¬¬¬¬¬"10 minutos é o tempo suficiente para saber se um livro vale a pena ser lido até o final!" disse Mabel ao ver Anna acordar devagar na poltrona ao seu lado.
"você passou a viagem toda lendo? Chegamos?" Anna pergunta devagar e preguiçosa. Mabel tenta olhar pela janela do ônibus.
Os primeiros raios de sol começaram a aparecer, anunciando um provável dia bonito. O ônibus entra devagar na rodoviária, até que finalmente estaciona. Mabel acorda Bruna que dormia na poltrona a sua frente e anuncia a chegada. As três universitárias estavam muito animadas para curtir o Carnaval em Águas Claras, cidade no interior do estado do Rio de Janeiro. Se organizaram, juntaram dinheiro fazendo trabalho extra e lá estavam. O que conseguiram com as economias foi um quarto em uma república de estudantes, onde as 3 dividiriam uma cama de casal e um colchão, sem luxo, porem qualquer coisa fora disso estava fora das possibilidades financeiras delas no momento.
O anúncio dizia que a república estava localizada perto da rodoviária, o que era bom pois poderiam ir a pé, economizando táxi ou Uber. Ao andar com suas malas de rodinhas pela calçada, elas observavam a cidade. Parecia bem pequena e pacata, nem parecia que no dia seguinte começaria as festas de Carnaval mais badaladas da região.
Mabel era a mais sorridente, estava se sentindo ótima por estar fora de São Paulo, fora do ambiente acadêmico. Sentia o frescor da manhã, o vento no rosto, estava ansiosa para conhecer o local. Desde que tinha começado o curso de pedagogia e o namoro, tinha se fechado para o mundo, frequentando basicamente o campus universitário e o apartamento do namorado. Assim tinham se passado 3 anos. Até que inesperadamente, Lucas decide terminar a relação, afirmando precisar de mais tempo para si. Subitamente, o vazio. Basicamente, colegas e conhecidos por perto. Família estava longe da capital, inviável visitar todos os fins de semana com o dinheiro limitado de estudante. Ela precisava se reinventar.
Após fazer uma disciplina optativa junto com estudantes do curso de jornalismo, conheceu Anna e Bruna, que compartilharam a ideia de ir para o Carnaval em Águas Claras. Fazia apenas 1 mês do término do namoro. Sua tia iria viajar na época de Carnaval, nem a sua cidade natal tinha para escapar da solidão, então, era o carnaval em Águas Claras ou o vazio. Por essa ótica, a breve viagem não parecia ruim. Então, juntaram dinheiro, decidiram o local onde dormiriam e fizeram as malas. Apesar de conhecer suas companheiras de viagem a tão pouco tempo, se sentia bem perto delas. Elas precisavam de alguém para dividir os custos da viagem e Mabel precisava desesperadamente de distração.
Toc toc toc batia no portão velho de madeira da república Anna, após tentar tocar a campainha e perceber que a mesma não funcionava. Bruna impaciente procurava o número de telefone do anfitrião para telefonar. Até que as garotas escutam passos apressados que aparentavam estar descendo escadas. Logo após, barulho de chaves virando e do trinco da porta.
Um rapaz que aparentava ter no máximo 20 anos, alto, cabelos cacheados castanhos, olhos amendoados, algumas sardas no rosto, óculos muito grandes para o rosto dele, apareceu ao abrir a porta, percorreu o espaço entre a porta da casa e o portão, abriu o portão com pressa. A aparência dele gritava: Nerd!!! Ele sorri discretamente.
"Oi, eu sou o Leniel. Podem entrar, vou mostrar a casa"
As garotas veem uma casa antiga, pintada de amarelo pálido, em alguns locais a pintura estava saindo da parede, jardim mal cuidado. Na porta uma placa escrito: República Dungeons & Dragons. Dentro aparentava melhor. Piso de madeira marrom claro, assim que entrava na casa podia ver a escada para o andar superior, no lado direito a sala de estar, no lado esquerdo uma porta para a cozinha. Ao subir as escadas, rangia um pouco, denunciando a idade da casa. Os quartos ficavam no andar superior.
O rapaz explicou que a casa tem 3 moradores. Cada morador, tinha o seu quarto. Estavam procurando um estudante para ocupar o último quarto vazio da casa, enquanto não obtinham êxito, alugavam para visitantes esporádicos. As garotas logo perceberam que foi usado photoshop nas fotos da casa na internet, o quarto parecia bem maior e mais novo no anúncio.
O quarto tinha uma cama de casal, um colchão ao chão, um guarda roupas pequeno e uma pequena mesa com uma cadeira. Não era ruim. Para o preço que estavam pagando para ficar uma semana, estavam ok. Por fim, mostrou o banheiro de uso comum de todos da casa. Pia, vaso sanitário, chuveiro. Decente.
As meninas deixaram suas pequenas malas no quarto e acompanharam o rapaz até a cozinha. Lá, ele explicou como usar o microondas, fogão, sanduicheira, cafeteira... Anna e Bruna prestavam atenção, já Mabel parecia distante. Olhava as janelas, as paredes, até que a visão parou em um livro grosso e pesado em cima da mesa. Ao ver Mabel olhando, ele pegou o livro.
"É meu livro de RPG, eu e os meninos jogamos todos os sábados. Vocês gostam?"
Pela expressão das 3 garotas, elas não tinham ideia do que era aquilo. Escutasse barulho de chave girando e de trinco da porta. Passos. Entra na cozinha um rapaz alto, cabelos escuros, contrastando com a pele muito clara, carregava um pacote nas mãos que claramente se tratava de pães pelo cheiro que exalava e se espalhava por todo local.
"Servidas?" sorri timidamente o rapaz.
Silêncio. Após alguns segundos sem resposta, ele se apresenta.
"Eu sou Thomas. Moro aqui com o Leniel e o Vitor. Caso precisem de algo, basta falar".
As garotas sorriem. Thomas senta na pequena mesa no meio da cozinha, pega um prato e uma faca, começa a comer. As garotas se sentam em seguida, tentando se acostumar com o novo ambiente, com todas as cadeiras ocupadas, Leniel se encosta em uma das paredes.
"Vocês moram aqui há muito tempo?" pergunta Bruna tentando puxar assunto.
"Há 2 anos, desde que comecei o curso de engenharia. O Leniel faz o mesmo curso. E vocês, o que fazem em São Paulo?"
"eu e a Anna fazemos jornalismo e a Mabel de pedagogia. Tem algo interessante para fazer amanhã de manhã antes da festa começar?"
'beber, visitar a cachoeira, ou beber visitando a cachoeira, basicamente isso" diz Thomas com um sorriso de deboche. "é o que eu faria".
Leniel entrega algumas chaves a Bruna.
"Aqui está a chave da porta da frente, do portão e do quarto de vocês, caso tenham alguma dúvida, vocês tem meu número, pode ligar" diz ele.
Bruna confirma com um gesto de cabeça e os garotos saem. Mabel que estava sorridente na rodoviária, estava séria e distante.
"O lugar não é tão ruim assim, sorria" brinca Anna. Mabel sorri timidamente.
"e os garotos não são de se jogar fora" completa Bruna rindo.
Anna e Bruna decidem descansar um pouco, 6 horas nos acentos não reclináveis do ônibus não foram fáceis. Mabel as acompanha. Acabam cochilando e por volta do meio dia, Bruna acorda com um leve toque de Anna em seu braço. Ambas percebem que Mabel não está no quarto, nem no banheiro e nem na casa. Enviam mensagens em uma rede social, porem apenas um check aparece, mostrando que a mensagem nem mesmo chegou no celular da colega. As chaves da casa estavam no mesmo local, em cima da mesa, mostrando que seja lá onde Mabel tivesse ido, foi sem as chaves. Ambas trocam de roupa e decidem passear pela cidade, em breve, Mabel deveria estar de volta.
A cidade era realmente pequena. Uma sorveteria, uma igreja, uma praça. A prefeitura, uma agencia bancária, um posto de saúde. Por mais que a cidade fosse minúscula, não encontraram Mabel em nenhum lugar, o que era estranho. Onde ela poderia estar? De fato, a festa só era grande pois atraia pessoas de várias cidades próximas, de toda a região, mas a cidade em si era bem pequena.
As amigas comeram em uma lanchonete, fizeram compras no mercadinho para o jantar, afinal, alugaram o quarto sem direito a consumir os alimentos dos moradores. Saíram da republica no início da tarde e voltaram no início da noite, e Mabel não estava lá, nem mesmo a mensagem tinha chegado em seu celular. Ao chegar foram recepcionadas pelo terceiro morador da casa.
Vitor era alto, cabelos loiros, olhos verdes, aparentava ter por volta dos 20 e poucos anos, era atlético, estava sentando no sofá da sala de estar quando as garotas entraram. Vestia calça jeans azul e blusa branca de mangas curtas, mostrando seus braços, evidenciando alguns músculos adquiridos provavelmente em academia. Ao perceber a presença das garotas, se levanta e se apresenta.
"Oi, sou o Vítor. Bem vindas." fala ele com um sorriso largo e jovial.
Os olhares de Vítor e Bruna se cruzam. Elas cumprimentam o rapaz e vão para a cozinha, fazem misto quente na sanduicheira. Vítor que até então estava na sala de estar assistindo TV também vai a cozinha.
"Estão gostando da cidade?"
Os 3 conversam amenidades. Faculdade, festival, clima.... as garotas puderam perceber que Vítor era mais descontraído e desenrolado que os demais moradores da casa. De vez em quando, os olhares de Bruna e Vítor se cruzavam. Após algum tempo de conversa que passou muito rápido, as garotas se despedem e sobem para o quarto.
"Estão gostando da cidade? Hmmmm... eu acho que a Bruna agora está gostando mais daqui" brinca Anna ao entrar no quarto. "Ele é bonito e bem desinibido, não tirava os olhos de você"
"não é de se jogar fora" responde Bruna sorrindo "será que ele vai para a festa amanhã?"
Anna dá de ombros. "Espero que sim, você viu os braços dele? Uma perdição" diz ela rindo. "Ele ficou super interessado em você"
"Claro, uma garota que vai ficar aqui apenas uma semana, que ele pode pegar e nunca mais ver..."
"O mesmo vale pra você" interrompe Anna. "Você pode curtir e nunca mais ver ele também... ninguém aqui te conhece, ninguém que te conhece vai saber, ninguém vai julgar se você estiver afim e ele também... as pessoas falam dessas coisas como se só o homem curtisse, como se só o homem sentisse prazer, como se não fosse igualmente bom pra ambos, como se a mulher tivesse obrigação moral de dizer não quando quer na verdade dizer sim, detesto essa diferença de tratamento que a sociedade dá para os gêneros". As palavras de Anna ficam na cabeça dela, que assimila aquilo e desconversa:
"nada da Mabel, estou começando a ficar preocupada, mandei mensagem, liguei e nada."
"ela deve estar voltando, talvez ela conheça alguém que more aqui ou que esteja aqui, sei lá" diz Anna já deitada na cama, puxando o cobertor e fechando os olhos. "deixa a porta destrancada, em caso dela voltar na madrugada, não acordar a gente".
Anna dorme, mas Bruna não tem a mesma sorte, fica olhando para o teto, pensando na conversa com Anna, pensando no jeito que Vítor a encarava na cozinha, ele parecia ser o tipo que sabia bem o que queria e isso a agradava. Lembra também da colega de viagem que até agora não tinha retornado, onde estaria? Conhecia ela alguém naquela cidade?
Bruna não fazia ideia quanto tempo estava tentando dormir. A noite estava extremamente silenciosa, tranquila. Até que escuta sussurros, ela levanta e caminha em direção de onde os sussurros vinham. Vai até a janela do quarto e vê no portão da casa um homem usando jaqueta e boné pretos e calça jeans, ele está do lado de fora e conversa com Vítor que estava dentro da casa. Ela reconheceu Vítor imediatamente por estar usando a mesma roupa que há algumas horas atrás.
Bruna não consegue ver o rosto do homem de fora da casa pois o boné cobria seu rosto e estava escuro, apenas a luz fraca e distante de um poste de luz na esquina, porém consegue ver que eles fazem uma troca. Ela se esforça para ver o que era, mas a troca é rápida. O rapaz de preto olha para trás como se verificasse se tinha alguém vendo e coloca algo no bolso da jaqueta bem rápido, Vítor coloca algo no bolso de trás da calça jeans. O rapaz sai rapidamente. Vítor acende um cigarro e senta em um pequeno degrau na frente da porta da casa.
Bruna estava com zero sono e cansada de tentar dormir em vão. Ela troca o pijama por uma blusa de magas compridas e uma saia, desce as escadas, abre a porta principal da casa e encontra Vítor, ainda fumando, parece surpreso ao vê-la.
"Ainda acordada?" sorri com satisfação.
"Eu não consegui dormir, tirei um cochilo de manhã depois que cheguei, agora o sono não vem" responde ela que pensou em comentar sobre o que tinha visto para iniciar uma conversa, porém sentiu por algum motivo que não deveria. Todas as amenidades ela tinha conversado com ele na cozinha junto com Anna, então a partir desse momento, não sabia o que dizer. Veio um vento forte, ela estremeceu um pouco. Deveria ter colocado um casaco, pensou. Vítor a olhou nos olhos profundamente a deixando um pouco envergonhada. Oferece cigarro, ela recusa.
A casa era a última do quarteirão e não tinha construções do outro lado da rua que passava na lateral da casa. Vítor termina o cigarro e a chama para sentar em um banco de concreto do lado da casa que não tinham vizinhos, segura sua mão e antes que ela responda, ele a conduz delicadamente em direção a lateral da casa. Ela não sabia ao certo porque estava lá ao invés de tentando dormir, mas ele sabia.
Quando estão se aproximando do banco, ele a posiciona contra a parede, se aproxima delicadamente dela, encostando o seu corpo no corpo dela, aproxima seu rosto do rosto dela sem nada falar, a olha nos olhos. Faz isso de forma lenta, permitindo que caso ela não quisesse, tivesse tempo suficiente de dizer ou se manifestar de alguma forma. Mas ela queria.
Ele a beija na boca de forma lenta e profunda, sendo esse, sem dúvidas, um dos melhoras beijos da vida dela. Ela sente uma química deliciosa, sente como o beijo encaixava perfeitamente. O beijo foi longo e ambos aproveitaram cada segundo.
Ele a beija no pescoço e coloca a mão lentamente por baixo de sua blusa, acariciando suas costas. Desce a mesma mão lentamente por debaixo da saia e acaricia as nádegas, Bruna pensa que deveria dizer algo ou pedir para parar, mas ela está gostando demais para fazer isso. O coração dela bate forte, ela coloca a mão no pescoço dele, sinalizando que ele poderia prosseguir. Bruna sente desejo, um arrepio e percebe que está cada vez mais úmida entre as pernas.
Os beijos e carícias íntimas duram algum tempo, ela coloca sua mão por baixo da camisa dele, acariciando suas costas, Vítor percebe o tesão que ela está sentindo, quando coloca a mão dentro da calcinha da moça, coloca os dedos nos lábios vaginais e chega ao clitóris, massageia o local e percebe que está muito molhada, o que o agrada bastante e coloca a mão dela sob a calça jeans dele, para ela sentir seu membro ereto, a olha nos olhos e a convida para ir ao quarto dele. Nesse momento veem a sua memória a voz de Anna falando que ali ninguém a conhecia, ninguém ia julgar... Bruna consente com um gesto de cabeça sem pensar muito.
Ao acordar de manhã, a primeira coisa que Anna olha é para o colchão ao chão do quarto e, para sua surpresa, lá estava Mabel no que parecia um sono profundo. Viu apenas os cabelos cacheados da garota, pois ela estava coberta do pescoço para baixo e dormindo de costas para ela.
Anna sente alivio, porém o alívio dura pouco quando não vê Bruna em nenhum lugar do quarto. Olha o telefone: 6:42 da manhã, levanta devagar, troca de roupa em silencio para não acordar Mabel, liga várias vezes para Bruna, a ligação chamava mas ninguém atendia, então sai do quarto. Vê a porta entre aberta de um dos quartos, dentro, uma mesa com um livro grosso de capa dura preta, vários dados de cores diferentes, vários papeis espalhados, alguns bonecos espalhados, velas de cores diferentes, cheiro de insenso... Anna não sabe por quanto tempo ficou observando aquela mesa, que parecia um tanto macabra, de repente:
"Bom dia"
Ao se virar, vê os olhos grandes de Thomas que segurava uma escova de dentes e estava posicionado no lado oposto ao que ela estava olhando.
"Bom dia. Eu estava distraída e..."
"Já jogou RPG?" interrompeu ele
"Não..."
Anna não fazia ideia do que RPG era, mas pelo uso do verbo "jogar" imaginava que podia se tratar de um jogo.
"Jogamos todas os sábados a noite, se não gostar das festas, pode nos acompanhar"
"precisa de bonequinhos e velas para isso? É macumba?" aquela pergunta simplesmente saiu, sem reflexão previa.
Ouve-se batidas na porta principal da casa.
"a campainha está quebrada" fala Thomas com um sorriso tímido. Passa por Anna, fecha a porta do quarto que a moça observava e desce as escadas, ignorando a pergunta.
Anna caminha até o banheiro, molha o rosto com a água da torneira, se olha no espelho. Pensa no dia que está começando. Pensa no carnaval, no que deveriam fazer antes, no sumiço das amigas... Fazia pouco tempo que conhecia Mabel, inicialmente a achou legal, soube que a moça tinha acabado de terminar um relacionamento longo, mas depois começou a estranhar certas atitudes, como alterações repentinas de humor, em alguns momentos Mabel estava melancólica, até triste, e subitamente parecia estar bastante feliz, até eufórica. Transtorno bipolar? Não sabia... só era estranho isso e o sumiço de ontem. Os pensamentos são interrompidos por batidas na porta do banheiro.
"Anna?" era a voz da Bruna.
Anna abre a porta do banheiro, vê Bruna com roupas diferentes de quando dormiu.
"Onde você estava?"
"Depois te conto"
Na cozinha, as garotas encontram Leniel e Thomas sentados, bebendo café, sonolentos.
"Bom dia" diz Anna. "Tem algo interessante para fazer hoje, antes do carnaval começar?"
"Você diz de manhã? Tem a cachoeira e a trilha que chega até ela, é muito bonito" responde Leniel ainda acordando devagar.
"Hmm... interessente, vou conversar com as meninas pra a gente passar lá" diz.
"Temos prova hoje no primeiro horário, depois estamos livres, se der, damos uma passada lá também" diz Leniel olhando para Anna.
Anna e os garotos passam um tempo conversando sobre a cidade, o festival, elas adicionam os garotos em uma rede social. Até que os garotos precisam ir para a faculdade, se despedem. Estava uma manhã linda de sol, prometendo máxima de 30 graus segundo a meteorologia local. Só bastava saber se Mabel as acompanharia.
Ao voltarem para o quarto, as garotas veem Mabel sentada no colchão, olhando para o celular, expressão bastante assustada. Ao perceber a entrada das colegas, Mabel desliga o celular e repousa o aparelho no colchão, ao seu lado.
"Bom dia, flor do dia" fala Anna descontraída. "Como foi seu dia ontem?" pergunta tentando usar um tom de voz o mais neutro possível, disfarçando a curiosidade.
"É... por aí... fui andar pela cidade e acabei me distraindo... tão bonita..."
"Te procuramos em todo lugar, ligamos... viu as mensagens?" pergunta Bruna, tentando disfarçar a chateação pela falta de resposta dela e achando estranhíssima aquela resposta.
"Fiquei sem bateria. O que você vão fazer hoje?" pergunta Mabel mudando abruptamente de assunto.
Anna e Bruna se entreolham. Para ambas era bizarro aquela garota que estavam conhecendo agora passar aquele tempo todo conhecendo a cidade, mas não tinham intimidade para continuar perguntando e ela claramente não queria falar sobre isso.
"Vamos à cachoeira, quer ir? Talvez os garotos apareçam depois." responde Anna.
Mabel aceita o convite. Vestiram biquínis e roupas por cima, ajeitaram as bolsas com protetor solar, toalhas, sanduíches, bebidas, celulares, mandaram mensagens para suas famílias informando que estavam bem e foram. Pegaram o ônibus e desceram no ponto orientado pelos garotos, fizeram o resto do percurso que não era coberto por transporte público à pé, após uma caminhada de aproximadamente 30 minutos, chegam à cachoeira. As garotas já tinham visto fotos dela na internet, mas agora, estando lá, parecia ainda mais bonita. As garotas tiram algumas fotos juntas e do local, postam algumas em redes sociais, estendem uma toalha, colocam as bolsas e começam a curtir o dia que prometia ser lindo.
Todas as vezes que as garotas tentavam conversar sobre o dia anterior de Mabel, ela desconversava. Após um tempo aproveitando o sol, comendo os sanduíches e frutas que levaram, os garotos chegam:
"Não entraram na água ainda?" perguntou Thomas descontraído.
As meninas veem Thomas e Leniel se aproximarem com suas mochilas nas costas. Eles se sentam junto a elas.
"Ainda não. O Vítor não veio?" pergunta Anna olhando para Bruna.
"Não, ele cursa direito, vai ter aula o dia todo" responde Thomas. "Vamos entrar na água?" pergunta.
Mabel confirma com um gesto afirmativo de cabeça e olha para Bruna, que também concorda em entrar. Os 3 caminham alguns passos e já estão nas margens da lagoa, deixando Anna e Leniel sós sentados sobre a toalha de picnic. Fica um silêncio incomodativo, até que Leniel tenta quebrar o gelo:
"Então, porque essa humilde cidade e não a capital? Dizem que lá é o maior carnaval da América do sul."
"Falta de grana mesmo, os gringos vão todos pra lá no Carnaval, ai inflaciona tudo, fica muito caro para estudante, pra conseguir vir pra cá fiz alguns bicos por alguns meses" lamenta ela. "Mas ainda vou passar um carnaval no Rio. Você é de lá?".
"Não... sou de uma cidade próxima daqui, cidade menor do que essa, mas lá não tem faculdade, aí vim pra cá estudar engenharia. Mas não penso em morar aqui pra sempre, quero morar em uma cidade maior quando terminar a faculdade, conhecer outros lugares"
"Sei como é" diz ela "eu nasci em cidade pequena também, só me mudei pra capital quando comecei a faculdade, você vai para o Carnaval hoje? Podemos ir juntos"
"Hoje tenho jogo de RPG, jogamos todos os sábado, não posso faltar. Eu também não curto muito Carnaval".
Anna achou um pouco estranho, mas nada disse. Ela o observou enquanto falava e pensou que apesar da aparência nerd, ele era muito, mas muito bonito. Seu rosto era proporcional, os cabelos combinavam muito bem com os olhos e a boca. Era um rapaz tímido, mas bastante charmoso e Anna sentia que o conhecia a muito tempo. Eles continuam conversando sobre suas origens e planos para o futuro, até que os 3 voltam da água. Durante o resto do dia Anna percebe que Bruna olha excessivamente para o celular.
"Vamos gente!" chamava Anna impaciente aguardando sentada no último degrau da escada da republica. "Estamos perdendo a festa!" Olha para Leniel e Thomas jogando vídeo game na sala de estar e pergunta "vocês não vão mesmo?"
"Vamos jogar RPG hoje, todo sábado jogamos" responde Thomas sem tirar os olhos da tv. "vamos talvez amanhã"
"Mas hoje é dia de festa! A festa mais famosa da região... " Anna é interrompida com os passos de Bruna e Mabel descendo as escadas. "Finalmente!" diz ela.
As garotas estavam muito bem arrumadas, maquiadas e perfumadas. Usavam roupas leves de verão, saias e blusas coloridas. Caminham apressadas, aos poucos vão vendo cada vez mais pessoas e escutando a música cada vez mais alta a medida que vão se aproximando da praça principal. Elas podem ver o palco bem longe, as barracas que vendiam diversos tipos de alimentos e bebidas ao redor da praça, e quanto mais se aproximavam da praça, a multidão aumentava, elas começaram a segurar nos braços umas das outras no intuito de não se perderem entre as pessoas. A primeira banda já tinha começado a tocar e elas queriam se aproximar do palco o máximo possível.
Ali podia se perceber vários tipos de pessoas, de todas as classes sociais, bebendo, comendo, cantando, dançando. O som estava muito alto, sendo impossível a comunicação verbal. As garotas chegaram a um ponto da multidão que não conseguiam mais passar e perceberam que era o mais próximo que conseguiriam chegar do palco. Mabel grita alto para as amigas:
"O que vocês querem beber?"
"O que?!" dizem ambas ao mesmo tempo.
"BEBER???" grita mais alta.
"Cerveja" grita Anna.
"Duas" completa Bruna.
Demorou bastante para Mabel voltar com as bebidas. Cerca de meia hora quase. Ela volta com 3 cervejas. As garotas brindam. Antes de beber, Mabel pega um pequeno saquinho transparente de sua bolsa, onde podia se ver pequeninos comprimidos brancos. Anna e Bruna arregalam os olhos, surpresas. Mabel abre o saquinho, pega dois comprimidos, os expõe para as garotas com a ponta dos dedos, sorrindo os coloca na boca e bebe sua cerveja em um longo gole.
"O que é isso?" pergunta Bruna curiosa.
Mabel aponta para seu ouvido e faz um gesto com o dedo indicador de "não", dando a entender que não a escutava. Pega um comprimido e com um gesto oferece as amigas. Anna e Bruna a princípio nada respondem, ambas ficam tentadas a aceitar, tinham uma suspeita do que seria aquilo, mas não tinham certeza. Depois ambas gesticulam com a cabeça que não.
A noite prossegue animada, muitas pessoas bebendo, de vez em quando as garotas sentiam cheiro de maconha, algumas pessoas mais alcoolizadas aqui e ali, algumas brigas esporádicas, mas nada sério. Eventualmente aparecia um garoto tentando conversar com alguma delas, porem nenhum que despertasse interesse. As garotas dançavam, se abraçavam, curtiam.
Após hora de festa, Bruna se sente cansada, aperta suavemente o braço de Anna e faz um gesto com a cabeça, indicando que queria sair, depois junta as palmas das mãos e as coloca no lado direito da face indicando que queria descansar ou dormir. Anna acena positivamente com a cabeça concordando, ambas olham para trás, procuram por Mabel, nada. Vazio. Elas olham ao redor, nada. Se entreolham, achando estranho, todas as vezes que Mabel precisou sair, seja para comprar bebida, comida, banheiro, ela indicava. As garotas procuraram por algum tempo, depois, desistiram. Devagar, cansadas e com sono, caminhavam até a república. Quando já estavam distantes do barulho:
"Ela deve estar na república, só acho sacanagem não avisar" fala Bruna já demonstrando insatisfação com a amiga.
Ao chegar na república, as amigas vão até a cozinha comer algo, já lutando contra o sono. Ao chegarem, veem Leniel de costas, ao perceber a presença de alguém, o rapaz se vira abruptamente em direção a elas assustado, ele estava com uma faca na mão. Anna levanta as mãos para a cima e fala em tom de brincadeira:
"Somos nós, pode abaixar a faca"
Leniel ao perceber que eram as garotas se sente um pouco envergonhado pelo susto que teve.
"Oi, como foi na festa?" fala ele, mudando de assunto.
Ambas percebem manchas vermelhas, como se fossem pequenos respingos na blusa do rapaz, como a blusa era clara, os respingos estavam bastante evidentes.
"Foi ótimo, vocês perderam... Você abriu a porta para a Mabel entrar?" pergunta Bruna já bocejando.
"Ahn? Não... ela não está com vocês?" pergunta ele meio perdido.
'Não. Nossa que estranho. Ela sumiu outra vez" diz Bruna pensativa. "Ela tem uma chave daqui?"
'A única cópia que temos para hospedes dei para vocês..." responde Leniel.
As meninas comem sanduiche na cozinha e conversam com Leniel. Depois os três vão para seus quartos. Já na cama, antes de dormir Anna diz para Bruna:
"Quando a gente acordar, ela vai estar deitada nesse colchão e vamos descobrir o que houve"
Garrafas, embalagens, latas, pratinhos plásticos espalhados por toda a calcada. "As pessoas não respeitam mais nem os cemitérios" pensa Matilda, ao chegar na calçada à frente do cemitério, devagar, usando a bengala ora como apoio, ora usando a para jogar para longe dela o lixo deixado pelos participantes da festa da noite anterior. Ela detestava o carnaval. Detestava as músicas altas e vulgares, sujeira, bebidas, promiscuidade... No fundo, ela detestava a liberdade que a juventude atual tinha, sentia inveja por não ter tido o mesmo em seu tempo de moça, porém nunca admitiria isso, não em voz alta.
Há 5 anos visitava o túmulo de seu falecido marido, sempre aos domingos. Sempre chegava muito cedo devido à insônia, por volta das 7 horas da manhã, logo após o nascer do sol. O portão do cemitério estava sempre destrancado. Ela entra e caminha com flores compradas na tarde anterior nas mãos.
Ao longe, vê algo estranho sobre um dos túmulos, algo que parecia a princípio um manequim. Curiosa, ela se aproxima devagar, porém, devido a miopia e a idade, teve que se aproximar bastante para entender que não se tratava de uma boneca, mas sim de um corpo feminino humano nu, deitada com a barriga para cima, pernas cruzadas, braços abertos, lembrando uma crucificação. No corpo é possível ver várias marcas de perfurações, a moça estava de olhos fechados, extremamente pálida, sangue em vários locais do corpo e ao redor dele. Do lado do corpo, tinham uma vela vermelha grossa ainda acessa e roupas cuidadosamente dobradas. Demorou alguns segundos para Matilda entender que aquilo era real mesmo e soltar um grito de horror mais alto que conseguiu. Se virou e tentou correr em direção contrária o mais rápido que pôde deixando as flores cair, até que tropeçou em uma lápide e caiu, machucando o joelho e a testa no chão. Desmaia.
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O despertador do celular. As garotas queriam aproveitar bem o dia, não sabiam o que fariam para aproveitar, mas estarem acordadas era um começo. Anna desliga e volta a dormir. E Mabel não estava lá. O colchão permanecia o mesmo, evidenciando que a garota nem mesmo tinha passado por ali aquela noite. Elas se entreolham.
"Será que ela conheceu alguém ontem?" pergunta Bruna tentando suavizar o momento.
Anna dá de ombros. Elas trocam de roupas, fazem a higiene bucal, Anna vai abrir a porta do quarto para irem tomar café da manhã, que devido ao horário, já seria quase almoço, quando Bruna fala:
"Espera, quero te contar uma coisa"
Anna tira a mão do trinco da porta e olha para ela. Bruna respira fundo, vai começar a falar quando escutam batidinhas na porta, Anna abre e vê Leniel com uma expressão um tanto estranha.
"Tem 2 policiais lá em baixo procurando por vocês" diz ele.
Anna franze o cenho e fala:
"Porque? "aquela pergunta sai quase que automática.
"Só falaram que precisam conversar com vocês" responde ele.
Com um pressentimento ruim, as garotas ao descer as escadas e veem 2 policiais de meia idade, com expressão cansada, trajando uniforme, podia se perceber que ambos estavam armados.
"Bom dia" diz um deles. As garotas respondem a saudação.
"Vocês são Anna e Bruna?"
Elas confirmam com um gesto de cabeça.
"Vocês poderiam nos acompanhar até a delegacia?" continua.
"Sim... mas porquê? " responde Bruna.
"É um assunto delicado, gostaríamos de conversar com vocês na delegacia."
Elas se entreolham.