Giovanni Mancini
Antes de sair de casa, eu sempre fazia uma pausa. Apenas alguns minutos, parado na varanda, absorvendo a beleza silenciosa de Alessandria. Era uma cidade pequena, escondida no coração da Itália, mas seus campos se estendiam como mares verdes, e as colinas douradas ao longe brilhavam sob o sol da manhã como se guardassem segredos antigos. Era impossível não se perder naquele cenário - mesmo que por breves segundos.
Minha família era dona de um dos maiores vinhedos da região. Tínhamos terras, tradição e um nome que carregava respeito... e rancor. Porque onde havia riqueza, havia disputa. E essa vinha de muito antes de mim. A rivalidade com os Giordano era antiga, cega e inútil - mas ainda assim, mortal.
Eu não queria parte nisso. Não mais. Quando criança, meu irmão e eu presenciamos os horrores que esse orgulho envenenado causava. Perdi meu tio Álvaro por causa de uma vingança mal curada, uma morte fria e anunciada. Um ciclo de ódio herdado de geração em geração - tanto nossa quanto dos Giordano.
Já enterramos tios, primos, pais, até amigos que estavam no lugar errado na hora errada. E, no fundo, todos sabíamos que mais cairiam. Foi por isso que deixei tudo para trás. Renunciei à casa onde cresci, aos sonhos que meus pais projetaram para mim, ao direito sobre a vinícola. Nada disso importava diante da única coisa que eu não podia - e não queria - perder: Polina.
Minha esposa, grávida de sete meses, era a minha escolha. Meu futuro. Nosso filho estava prestes a nascer. Polina queria chamá-lo de Renzo, e eu repeti esse nome tantas vezes na cabeça que ele já fazia parte de mim. A felicidade que eu sentia era absurda, difícil até de conter. E foi com esse pensamento que desviei os olhos do campo dourado e segui em direção à ferrovia - meu novo mundo.
Trabalhar ali era duro. O sol castigava, o ferro era pesado, e o barulho constante fazia meus ouvidos latejarem. Mas eu preferia mil vezes isso do que carregar o peso de uma guerra que não escolhi. Meu chefe havia me escalado para um dia intenso: desmontar uma locomotiva condenada e salvar as peças que ainda prestavam. Era o tipo de tarefa que exigia força, foco e paciência.
Carregava grandes peças de ferro de um lado ao outro, suando, calado, com os músculos em chamas. Mas eu não reclamava. O salário era justo. E o mais importante: longe dali, ninguém pensava em mim como alvo. Os Giordano não viam operários comuns - apenas herdeiros. E eu havia deixado de ser um.
Ainda assim, eu não conseguia deixar de pensar na tolice de tudo aquilo. Décadas de sangue derramado por algo que ninguém mais sabia como havia começado. Um olhar atravessado, uma ofensa mal interpretada... e pronto. A faísca. A cidade aprendia a temer o silêncio entre as famílias, porque sabíamos que, logo depois, viria o estrondo.
Às vezes, a polícia intervinha. Prendia uns, ameaçava outros. A tensão recuava, como maré baixa. Mas bastava um encontro no mercado, um tropeço, um olhar torto - e a guerra recomeçava, como se nunca tivesse parado.
E é por isso que eu escolhi o suor do trabalho ao invés do sangue do campo. Porque meu filho está a caminho. E ele não vai herdar esse ódio.
Quando cheguei à ferrovia, Gino já estava mergulhado no trabalho, desmontando com cuidado a velha locomotiva que, à primeira vista, nem parecia tão antiga. O brilho da pintura desgastada ainda resistia ao tempo, e os metais polidos reluziam sob o sol. Mas o modelo estava fora de fabricação há anos e, para a maioria, era apenas sucata.
Exceto para Gino.
Ele tinha um carinho especial por aquelas máquinas antigas. Trabalhava com um grupo de restauradores apaixonados e, sempre que possível, resgatava peças úteis para dar vida a outras locomotivas que seriam exibidas no museu ferroviário da capital. Ele dizia que aquilo era como salvar um pedaço da história - e, no fundo, eu admirava isso.
Não demorei a me juntar a ele. Era fácil gostar de trabalhar ao seu lado, ouvindo suas histórias cheias de nostalgia e sabedoria. Para mim, ele era mais do que um colega. Era a figura paterna que meu pai deixou de ser desde o dia em que escolhi abandonar a tradição da família Mancini.
Meu pai nunca engoliu minha decisão de sair de casa cedo e trocar as uvas pelo aço. Para ele, era quase uma traição. Mas, felizmente, ele ainda tinha Hugo - meu irmão mais velho - o herdeiro do vinhedo, do nome... e do ódio enraizado entre os Mancini e os Giordano.
A verdade? Hugo poderia ter quebrado esse ciclo. Mas ele se entregava à rivalidade com prazer. Como se aquilo fosse uma guerra nobre, um dever sagrado. Discutíamos sempre que o assunto surgia. Eu tentava mostrar que era tudo uma estupidez - odiar alguém por um sobrenome, por um pedaço de terra. Mas era como falar com uma parede.
No meio da tarde, meu celular vibrou no bolso. Era o nome de Henry que aparecia na tela. Meu padrinho.
Nunca entendi muito bem como ele e meu pai se tornaram amigos, mas sei que a ligação entre eles era forte o suficiente para que Henry se tornasse padrinho tanto meu quanto de Hugo. Ele nunca teve filhos, e sempre insinuava que deixaria sua fortuna para um de nós - o que soava completamente insano, considerando que ele era um dos homens mais ricos da Inglaterra, dono de empresas espalhadas pelo mundo, cercado por executivos brilhantes... e ainda assim, ligava para mim, o operário da ferrovia.
Atendi sorrindo, afastando uma enorme peça de ferro.
- Tio Henry! A que devo a honra? - disse com entusiasmo. A sorte era que meu chefe era tranquilo, daqueles que confiavam que, no fim do dia, o trabalho estaria feito - e isso bastava.
- Sua ironia continua afiada. Principalmente porque sei exatamente o que está fazendo agora - respondeu ele com aquele tom levemente sarcástico que eu tanto gostava. Sempre tivemos uma conexão especial. Henry me tratava com carinho, com um tipo de afeto que meu pai parecia incapaz de oferecer. - Você sabe que não precisa viver assim. Se viesse para Londres com Polina, teria uma casa enorme, segurança para o bebê... e trabalharia ao meu lado.
Suspirei, sentindo o peso de sempre.
- Eu sei, tio. Mas também não quero abusar da sua generosidade. E ainda acho que um dia você vai encontrar alguém realmente preparado para esse cargo.
Eu não me via como o tipo de homem que usava terno e gravata, que comandava salas de reuniões em prédios de vidro espelhado. Nunca estudei para isso. Nunca fui treinado para liderar impérios.
- Não diga besteiras, Giovanni. Você é meu sucessor, goste ou não. - O tom agora era sério, quase uma bronca. - E não, não é uma sugestão.
- Isso é uma ordem então? Sem direito a voto? - brinquei, tentando aliviar o clima.
- Sua escolha é a errada, como sempre. - retrucou com humor, me fazendo rir. - Mas falando sério... estou na cidade. Quero te ver. Você e Polina. Estou preocupado com os últimos acontecimentos.
Franzi o cenho, meu sorriso desaparecendo.
- Últimos acontecimentos? Que tipo?
Eu realmente estava por fora. Nos últimos dias, havia me dedicado apenas ao trabalho e à gravidez de Polina. Não tinha falado com Hugo, e meu pai... bom, ele ainda se recusava a mencionar meu nome.
- Os conflitos estão piorando. Na última conversa com seu pai, ele estava fora de si. Disse que mataria Luca e toda a família Giordano. Por isso vim até Alessandria. - A voz de Henry carregava um peso que raramente aparecia.
Meu estômago afundou.
Dez anos de trégua. Desde que a polícia prendeu meu tio - irmão de Luca - pelas mortes de três das nossas tias e da mãe dos Giordano. Ambos morreram na prisão, um suposto suicídio duplo que ninguém acreditou de verdade. Desde então, restaram apenas meus pais, Hugo e eu... e do outro lado, as duas irmãs de Luca e a filha dele, Alice, uma garota de apenas quinze anos.
- Polina e eu nos afastamos disso, Henry. Eu deixei claro para meu pai. Para o próprio Luca. Abandonei tudo justamente para não herdar essa maldita guerra. - Falei, andando em círculos, com o celular pressionado contra o ouvido. - Polina está grávida. Não vou colocar nosso filho no meio disso. Hugo que abrace essa loucura, se quiser.
- Só por precaução, Giovanni. Eu te conheço. Não baixe a guarda. - insistiu ele, firme.
Suspirei e olhei para Gino, que desmontava a máquina com uma serenidade que eu invejava.
- Tudo bem... vou pedir para sair mais cedo. Vou conversar com o Gino.
Depois da ligação de Henry, tentei contato com meu irmão. Liguei para meu pai também, várias vezes. Nada. Nenhum deles atendeu. Nenhuma mensagem. O silêncio me corroía por dentro.
A preocupação me fez esquecer qualquer plano. Henry havia me pedido para ir direto para casa, proteger Polina. Mas, naquele momento, uma urgência me dominou. Eu precisava vê-los. Precisava impedir o pior.
Não fui para casa. Em vez disso, corri pelas estradas estreitas até o vinhedo da minha infância - o mesmo onde jurei nunca mais pisar. Não estava pensando, só sentia. A esperança era chegar a tempo, convencê-los a largar tudo. A guerra, o orgulho, a terra maldita. Fugir, começar do zero. Londres, ou qualquer lugar longe demais para o ódio alcançar.
Quando me aproximei, senti um calafrio.
As luzes do vinhedo ainda estavam acesas, o que era estranho - naquela casa, ao anoitecer, tudo se apagava como um ritual. E a porta... aberta. Isso nunca acontecia. Meu pai era paranoico com segurança.
Entrei. Cada passo parecia um grito.
- Mãe? - chamei, a voz saindo mais fraca do que imaginei. Nenhuma resposta.
O cheiro de sangue veio antes da visão. Forte. Cru. Mortal.
E então a vi.
O corpo da minha mãe jazia estendido na sala, cercado por uma poça de sangue espesso que escorria lentamente pelo chão de madeira. Aquela cena estilhaçou algo dentro de mim. Me ajoelhei ao lado dela, toquei seu rosto pálido, desesperado por um milagre.
- Mãe... - sussurrei. - Me perdoa... Eu devia ter te tirado daqui. Devia ter feito mais... - As palavras saíam engasgadas, misturadas às lágrimas que há anos eu me recusava a derramar. Nem quando meu pai me agrediu, uma vez, eu chorei. Mas agora... era diferente. Aquela dor, quente e sufocante, me esmagava.
Ela estava fria. Fria como o mármore de um túmulo recém-fechado.
Levantei-me, trêmulo, chamando por mais alguém. A casa estava vazia. Sombria. Silenciosa. Apenas eu... e ela.
Liguei para a polícia. Relatei o que vi. Minhas mãos tremiam, sujas de sangue. Meus pés correram de volta para casa, o coração pulando no peito como se quisesse escapar. Henry estava certo. Eu tinha que fugir. Eu e Polina. Antes que fosse tarde demais.
Mas já era.
Cheguei exausto, quase sem fôlego. A mente nublada, o coração anestesiado. Nossa casa era distante da cidade, cercada por árvores secas e o silêncio típico do interior. Um refúgio. Um esconderijo. Um lar.
Mas naquela noite, tudo parecia errado.
As luzes estavam apagadas. Polina sempre acendia todas assim que o sol começava a cair. Ela odiava o escuro. Ainda mais grávida. Ainda mais sozinha.
- Polina? - gritei, minha voz quebrada pela ansiedade. - Amor, responde... temos que ir. Polina!
Silêncio.
Liguei a luz da entrada e parei, congelado. Pegadas. Pegadas sujas de sangue marcavam o chão de madeira, grandes demais para serem dela. Meu estômago virou. Não. Não. Não podia ser o que eu estava pensando.
Talvez ela estivesse na casa da irmã. Talvez tivesse saído... talvez...
Cada passo que dei em direção à sala foi uma batalha contra o pânico. Rezei por qualquer explicação racional. Qualquer uma. Mas quando acendi a luz, o que vi destruiu o resto do meu mundo.
Polina.
Sentada no sofá onde costumava ler, onde sonhava em amamentar nosso filho, onde sorria sempre que eu a surpreendia com flores... agora estava ali, imóvel. O vestido branco manchado de vermelho. A barriga... ensanguentada.
Meus joelhos cederam.
- Não... não... - murmurei, ajoelhando-me aos seus pés, implorando por um sinal de vida. - Por favor, amor... acorda. Reage... nosso filho...
Nada.
Toquei seu ventre com as mãos trêmulas, esperando um chute, qualquer movimento. Mas tudo que senti foi o silêncio de uma vida que havia ido embora.
A dor explodiu no meu peito. Um vazio cortante, como se uma lâmina me atravessasse por dentro. Quis morrer. Quis trocar de lugar com ela. Quis gritar até rasgar a garganta.
- Perdoa-me, Polina... Eu devia ter te tirado daqui. Eu devia...
As lágrimas caíam sem controle, misturando-se ao sangue seco em suas roupas. Pela primeira vez, desejei nunca ter nascido um Mancini. Desejei apagar meu nome, minha história... tudo.
E foi então que ouvi a voz.
Grave. Rouca. Gélida como a morte.
- O último Mancini... - disse ele, atrás de mim.
Virei lentamente. Um arrepio cortou minha espinha. Ali estava ele. Luca Giordano. O homem que vi apenas uma vez - e jamais quis ver de novo.
Ele segurava a arma como quem segura uma promessa cumprida. Seus olhos não tinham alma. Apenas ódio. E uma estranha cor avermelhada, como se o sangue que derramou tivesse manchado até seus pensamentos.
- O desgraçado do seu pai matou minhas irmãs. Achou que sairia impune. - Sua voz era carregada de rancor, mas também de prazer. Um prazer doentio. - Foi... divertido matá-los. Sua mãe. Essa puta que você chama de esposa. E agora, você. O último. Quando você morrer... minha família finalmente estará livre.
Me levantei lentamente, sem sentir mais o corpo. Só a raiva. Uma raiva tão profunda que me fez esquecer o medo. Por anos fugi disso. Do ódio, da violência. Por anos tentei ser diferente. Mas agora... eles levaram tudo.
Agora, não sobrou nada de mim - a não ser fogo.
Levantei-me devagar, como se meu corpo não me pertencesse mais. Os punhos cerrados, o coração em chamas. Não havia pensamento, não havia razão - só fúria. Bruta. Cega. Mortal.
Tudo o que eu mais amava havia sido arrancado de mim. Minha mãe. Polina. Meu filho. E o desgraçado responsável por isso estava bem ali, diante de mim, com o sangue da minha família ainda quente em suas mãos.
Eu queria matá-lo.
Com as próprias mãos. Sentir seus ossos se partirem sob meus dedos. Sentir o sangue dele sujar minha pele como um símbolo de justiça - ou vingança. Não importava o nome.
Mas eu estava em desvantagem.
Nem tive tempo de dizer uma palavra. Nem um grito, nem uma maldição. Luca agiu com frieza. Apertou o gatilho uma, duas vezes.
O primeiro disparo me atingiu de raspão, mas o segundo... o segundo entrou fundo no meu abdômen. Um calor estranho se espalhou pela minha pele, e depois veio a dor - lenta, profunda, ardente como se me rasgasse por dentro. Cambaleei. Quis avançar. Ainda sonhava em agarrar aquele monstro pelo pescoço. Mas minhas pernas cederam.
Caí de joelhos. Depois, tudo ao meu redor começou a perder forma.
Ainda assim, encarei Luca.
O maldito sorria.
Um sorriso leve, satisfeito, quase... sereno. E havia algo nos olhos dele que jamais esquecerei: um brilho de prazer. Como se cada morte que causou o alimentasse. Como se, finalmente, tivesse concluído sua missão.
Ele se virou e foi embora.
Não precisou se certificar se eu morreria. Ele sabia. E eu também.
Naquele instante, deitado no chão frio da sala onde sonhei em construir uma família, uma parte de mim desejava que a morte viesse logo. Porque o homem que fui morreu com Polina. O Giovanni que sonhava com uma nova vida, que queria paz, amor, futuro... ele havia sido executado junto com sua família.
O que restava agora era um vazio insuportável.
Eu não queria sobreviver.
Porque viver sem ela, sem meu filho, era uma condenação pior do que a morte.
Fechei os olhos. E deixei a escuridão vir.
5 anos depois
Alice Giordano
Não sou o tipo de pessoa que teve a sorte ao seu lado. Na verdade, posso dizer com certeza que a sorte nunca me notou. Quando perdi minha mãe, aos vinte e sete anos, fui descartada pelo meu próprio pai como se eu fosse um fardo - enviada para um convento, longe dos olhos dele, longe da sua frieza.
E foi lá, entre freiras e orações, que vivi os dias mais felizes da minha vida.
A fé era meu alívio. Rezava com fervor, pedindo um futuro melhor, um pai que me amasse, uma vida que não doesse tanto. Mas Deus, talvez ocupado com promessas maiores, me entregou um destino ainda mais cruel.
Numa noite fria e encharcada de chuva, Luca Giordano apareceu no convento. Irrompeu pelas portas sagradas com a arrogância de sempre, e me levou com ele - quase à força - para um país desconhecido, com promessas que eu sabia que nunca seriam cumpridas. Polônia. Terra onde minha mãe nasceu, junto da mãe dele.
Nada fazia sentido. Ele parecia paranoico, agressivo, mais sombrio do que eu lembrava. Abandonou a vinícola, a única coisa que amava de verdade, e nos instalou numa casa minúscula em Varsóvia. Dois quartos apertados, uma sala triste e uma cozinha onde mal cabiam dois pratos. E o pior: um silêncio constante, como se o medo morasse conosco.
Ainda assim, encontrei algo aqui. Varsóvia era viva, cheia de gente, de culturas, de vozes diferentes. Apaixonei-me pelas línguas e sonhei, pela primeira vez, em ser tradutora. Trabalhar com idiomas, me comunicar com o mundo. Mas Luca - meu carcereiro - sempre deixava claro: minha vida já estava escrita. E não era ele quem tinha escrito, mas séculos de homens que achavam que sabiam o lugar de uma mulher.
Eu achava que já o odiava o suficiente. Até descobrir a verdade.
Minha tia Sara, irmã da minha mãe, foi quem me contou. Ela morava aqui em Varsóvia e nos ajudou como pôde nos últimos cinco anos. Um dia, com os olhos pesados e a voz trêmula, me revelou o motivo da nossa fuga. O motivo pelo qual meu pai vivia se escondendo. Ele havia matado a família Mancini inteira. Todos. Por vingança. Por orgulho.
Eu quis não acreditar. Mesmo com todo o desprezo que sentia por ele, me agarrava à ideia de que, ao menos, tinha algum resquício de caráter. Mas não. Meu pai era um assassino. Um fugitivo. Um monstro.
A história fez tudo se encaixar: o nome falso, o pavor de sair de casa, o ódio do mundo lá fora.
E como se o destino achasse que isso não era o bastante, jogou mais uma sombra sobre mim: Oton Nowak.
Outro carrasco. Mais velho, muito mais rico, e obcecado por mim. Dizia que me amava, que queria se casar. Eu só via um homem com olhos de predador. E meu pai, como o miserável que era, me vendeu a ele.
Sim. Vendeu. Oton pagou uma quantia absurda. E hoje seria o meu casamento.
Quando ouvi a negociação, quase desmaiei. Chorei como nunca antes. Chorei até o corpo doer, até faltar ar. Nunca me senti tão sozinha, tão sem saída. Mas minhas preces, dessa vez, não foram ignoradas. Deus ouviu. E me deu um milagre.
Minha tia Sara comprou uma passagem para Londres. Uma chance. Um recomeço. Eu ficaria na casa de uma amiga de infância dela. Não conhecia ninguém, mas sabia o idioma. Estava disposta a fazer qualquer trabalho, qualquer sacrifício, para me manter longe daquele pesadelo.
Era loucura fugir?
Claro que era.
Mas melhor morrer tentando do que viver como propriedade de um homem que me via como carne em exposição. Que Deus me perdoe, mas desejei que Oton tivesse um infarto no altar. Depois, me senti tão culpada por esse pensamento que prometi rezar mais 500 ave-marias pela minha alma.
Sara era tudo que me restava. Desde que cheguei à Polônia, ela me tratou como filha. E agora, arriscava tudo por mim.
- Tia... eu não queria te envolver nisso - sussurrei, sentindo a ansiedade apertar o peito. - Mas você é a única pessoa que me resta. Eu não posso me casar com aquele homem. Prefiro voltar para o convento e viver o resto da vida em silêncio do que me prender a esse horror.
Ela me abraçou com força, como se tentasse me proteger do mundo inteiro.
- Não diga isso, Alice. Você é inteligente, determinada... vai conseguir um emprego, vai ser livre - disse com um carinho que me fez chorar de novo. - Seu pai está com medo. Ele é um fugitivo. Não vai fazer nada arriscado. E Oton... bom, ele vai ficar furioso. Por isso, evite os holofotes.
Ri com um nó na garganta. Eu odiava holofotes. Fugiria deles mesmo se minha vida não estivesse em risco.
- Isso não será um problema - sorri com tristeza, me afastando, olhando pela última vez para a mulher que me salvou. - Vou sentir sua falta.
- Eu também, querida. Mas não temos tempo. Ele virá te buscar em breve. Você precisa estar longe antes disso.
- Você tem certeza que vai ficar bem com...?
- Vá, Alice! - interrompeu com firmeza. - Antes que seja tarde demais. Eu cuido do seu pai.
Ela me deu um beijo na testa, e então corri. O táxi já me esperava. O plano era simples: Luca acordava às nove. Meu voo partia às oito. Tudo cronometrado. Nada podia dar errado.
O medo me acompanhava. Mas havia também uma centelha de coragem - frágil, sim, mas viva. As irmãs do convento costumavam dizer que o mundo não era o inimigo... os homens maus, sim.
Mas eu me sentia tão ingênua. Tão despreparada. Como distinguir os bons dos maus, se passei a vida inteira sob as rédeas de um monstro?
Eu não sabia.
Mas, dessa vez... eu ia descobrir.
Encostei a cabeça no banco do carro e fechei os olhos, tentando silenciar o turbilhão dentro de mim. A estrada seguia em frente, mas minha mente corria em círculos. Londres. Uma cidade imensa, rica, lotada de pessoas que eu nunca vi, com histórias que eu jamais conhecerei. E em meio a tudo isso... eu. Sozinha.
O coração batia forte no peito, mais por medo do que por excitação. Pela primeira vez na vida, eu estava indo para algum lugar sem que meu pai soubesse. Sem ser vigiada, controlada, limitada. Era a liberdade que eu tanto pedi a Deus... e agora que ela finalmente chegava, parecia assustadora demais para ser real.
Nunca trabalhei. Nunca tive um lar que fosse só meu. Nunca estive em um espaço onde pudesse respirar sem olhar por cima do ombro. Meu mundo sempre foi feito de muros invisíveis, de ordens ditadas com voz de aço, de promessas que pareciam castigos. E agora, a única certeza que me acompanhava era o desconhecido.
Será que eu estava fazendo a coisa certa?
E se tudo isso fosse um erro?
Talvez eu estivesse apenas trocando uma prisão por outra. Talvez a liberdade fosse mais cruel do que o cativeiro, porque ela exigia coragem - algo que eu ainda não tinha certeza se possuía.
Mas entre o medo do novo e a certeza do inferno que deixava para trás, decidi me apegar à esperança.
Mesmo que ela ainda fosse só um sussurro no meio do caos.
Alice
Não precisei sequer colocar os pés para fora do aeroporto para sentir que aquele lugar representava o meu futuro, a minha salvação. Não importava o quanto fosse difícil - eu enfrentaria qualquer obstáculo só para ficar ali, longe do destino que Luca havia traçado para mim.
Eu deveria pegar o táxi que me levaria até a casa da amiga da minha tia, mas preferi ser cautelosa. Conheço muito bem o meu pai. Se ele arrancasse qualquer informação da Sara, eu estaria de volta à Polônia antes do sol nascer.
Luca era um assassino. E só por isso, o medo de ele descobrir que Sara me ajudou me corroía por dentro. Não acreditava que ele chegaria ao ponto de matá-la - afinal, estava em um país onde não confiava em ninguém além de si mesmo -, mas não podia contar com a sorte.
Minha tia havia juntado, com muito esforço, uma quantia razoável. Mesmo contra minha vontade, ela me entregou esse dinheiro antes da minha partida. Partir sem ela já havia sido doloroso o suficiente. Sair levando o que ela juntou com tanto sacrifício, ainda mais. Mas era graças àquela quantia que eu conseguiria me manter por um tempo.
Buscar um emprego era minha segunda prioridade. A primeira era encontrar um lugar para ficar. Por isso, ainda no país de origem, pesquisei na internet por quartos para alugar. Foi difícil. Sabia que não podia confiar em qualquer um - não era tão ingênua assim. Pedi, então, que a garota com quem conversei viesse me encontrar no próprio aeroporto.
Havia muitas opções de aluguel, mas a maioria era com homens - e essa era uma possibilidade que eu descartei imediatamente. Julia, por outro lado, era brasileira, estudante universitária, e tinha praticamente a minha idade.
Eu estava nervosa. Era a primeira vez que me encontrava sozinha, tão longe de casa, sem conhecer absolutamente ninguém. Minhas mãos suavam, e meu coração batia descompassado.
No convento, aprendi muitas coisas. Valorizavam muito o ensino. Além da Bíblia, também estudávamos todas as matérias escolares. Eu não era a única garota por lá e até fiz algumas amigas - até o dia em que meu pai me encontrou e nos obrigou a fugir para outro país.
Meu amor pelas línguas nasceu ali, com a irmã Lurdes. Ela era inglesa e falava três idiomas. Sempre a considerei a mais inteligente de todas. Foi ela quem me ensinou inglês e espanhol. Depois, quando fomos para a Polônia, tentei aprender mais dois: alemão e mandarim. Mas confesso que o mandarim era mais complicado do que física avançada.
Por incrível que pareça, vi meu nome escrito em uma placa nas mãos de uma mulher de cabelos cacheados, tingidos de vermelho. Ela sorria de orelha a orelha. Quando me aproximei, parecia prestes a saltar de tanta empolgação.
Aquela animação acabou me contagiando. Nunca havia sido recebida com tanto entusiasmo. Julia parecia ser uma colega de quarto divertida. Pelo menos era a impressão inicial.
- Alice! Eu estava tão ansiosa! Ai, meu Deus, nem sei o que dizer! - exclamou com um entusiasmo quase infantil. Curioso, considerando que ela nem me conhecia.
- Obrigada pela recepção - respondi, tímida e um pouco envergonhada.
- Desculpa, é que eu nunca tive uma colega de quarto. Mas as coisas apertaram por aqui, então precisei abrir essa vaga no meu apartamento - explicou, falando tão rápido que eu mal conseguia acompanhar seu inglês. Mas me esforcei para entender. - Sabe, um cara esquisito se candidatou antes de você. Não queria um homem morando comigo. Meu irmão teria um treco. Mesmo assim, fui encontrá-lo. Fiquei morrendo de medo de ser golpe, sequestro, essas coisas. No fim, fingi que ia ao banheiro e fugi! Depois lembrei que, na descrição do anúncio, deixei meu endereço... fui muito burra! Ele podia bater lá e... sei lá, me matar! Mas graças a Deus, nada disso aconteceu.
Fazia menos de dez minutos que nos conhecíamos, e eu já sabia mais sobre Julia do que sobre várias pessoas com quem convivi por anos. Pelo menos tive certeza de que ela não era uma assassina nem faria de mim uma escrava sexual.
- Estou animada para conhecer tudo por aqui - comentei, forçando um sorriso. Ainda tentava processar a história surreal que acabara de ouvir.
- Não se preocupa! Vou te mostrar tudo. O bom é que vamos estudar na mesma universidade. Talvez nossos horários não batam, mas já é alguma coisa. Ah, e preciso te alertar sobre alguns garotos da faculdade...
Ela falava bastante - e rápido -, mas eu não me importava. Nunca tive uma amiga que realmente conversasse comigo. No convento, as garotas limitavam-se a falar sobre orações ou sobre a vida antes de entrarem para a vida religiosa.
Enquanto caminhávamos para fora do aeroporto, Julia continuava a contar histórias sobre a faculdade e suas desventuras com colegas de classe. Eu me concentrava em entendê-la e, ao mesmo tempo, me preocupava com a possibilidade de ela morrer sem ar - de tanto que falava sem parar.