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Vendida Ao Don Da Máfia

Vendida Ao Don Da Máfia

Autor:: Priscila Ozilio
Gênero: Máfia
​Ela acreditava ter encontrado o amor da vida dela... Até ele vender seu corpo para pagar uma dívida. Agora, nas mãos de Dante Vitale, o herdeiro mais temido da máfia italiana, Valentina Rojas vai descobrir que o verdadeiro amor pode ser cruel, obsessivo e muito mais quente do que deveria. Dante a comprou como se fosse um bem. Com um único propósito. Gerar seu herdeiro. Mas o destino tem seus próprios planos... ​ Ele jurou nunca mais amar. Ela jurou nunca mais se entregar. Mas o destino decidiu colocar fogo onde só havia cinzas. Entre o ódio e o desejo, entre o perigo e a paixão, Valentina vai aprender que o coração não entende de acordos. E Dante... vai descobrir que o controle não existe quando é o corpo que se ajoelha primeiro. "O segundo amor cura as feridas do primeiro, mas às vezes, é ele quem te destrói de vez."

Capítulo 1 Flores, Mentiras e Trancas

Valentina

O homem que eu amava me deu flores. Depois, me deu como pagamento.

As rosas estavam frescas quando Giovanni chegou. Vermelhas demais para a noite tranquila que ele tentou pintar, cheiro doce demais para combinar com a tensão que eu sentia no ar desde cedo, uma coisa invisível, mas insistente, como fumaça que entra pela fresta e se recusa a ir embora.

- Pra você. - Ele sorriu, daqueles sorrisos que sempre me desmontavam, e colocou o buquê nos meus braços como se estivesse selando uma promessa.

Eu ri, meio sem graça, apertando as flores contra o peito.

- Não precisava...

- Eu sei. - Giovanni se aproximou e encostou a testa na minha. - Mas eu quis.

Por um segundo, eu acreditei. Acreditei como sempre acreditava.

Giovanni era o tipo de homem que fazia você se sentir escolhida. Não por acaso, não por falta de opção, mas como se você fosse a única coisa certa num mundo cheio de decisões erradas. Ele falava baixo quando estava sério, e quando me chamava de mia bella, eu esquecia que era uma órfã com um sobrenome emprestado, vivendo de pequenos trabalhos e de um orgulho que eu carregava como escudo.

Foi ele quem me apresentou aos Moretti.

"Eles vão te amar", ele disse, na primeira vez que me levou àquela casa enorme com cheiro de vinho, charutos e comida cara. "Você vai ter uma família."

Eu não disse em voz alta, mas foi ali que meu coração se abriu pela última vez. Eu queria tanto aquilo... um lugar. Um nome. Alguém que me esperasse.

Os pais de Giovanni me tratavam com uma gentileza medida, educada, correta, distante. Os irmãos me olhavam como se eu fosse um detalhe que ainda não decidiram se incomoda ou diverte. Mas Giovanni segurava minha mão por baixo da mesa e apertava meus dedos, como se dissesse: eu tô aqui.

E eu ficava.

Eu sempre ficava.

Naquela noite, ele me beijou na testa, como se eu fosse de vidro.

- Preciso resolver uma coisa com meu pai. - falou, ajeitando a manga do paletó. - É rápido. Você espera no quarto?

- Agora? - estranhei. - Já é tarde.

- Eu sei. - Ele passou os dedos pelos meus cabelos, carinhoso demais. - Mas é importante. Por mim.

Por mim.

Eu sempre caía nessa parte.

Assenti, mesmo com o estômago apertado por um pressentimento que eu não queria nomear. Caminhei com o buquê até o quarto de hóspedes onde eu ficava quando passava a noite na casa deles. Era bonito. Grande. Impessoal. Tudo ali gritava que eu era visita mesmo quando Giovanni jurava que eu já era parte.

Coloquei as flores numa jarra e tentei relaxar. Tirei os sapatos. Sentei na beira da cama.

Respirei.

Não era a primeira vez que eu me sentia deslocada, mas era a primeira vez que eu sentia... medo. Um medo sem forma, sem rosto. Um medo que não vinha de uma ameaça direta, e sim daquela certeza ancestral que mora no corpo quando alguma coisa está errada.

Levantei e fui até a porta, só para ter certeza de que estava encostada.

Quando girei a maçaneta, ela não cedeu.

Tentei de novo. Mais forte.

Nada.

Meu coração deu um salto seco.

- Giovanni? - chamei, batendo de leve. - Ei... a porta travou.

Silêncio.

Bati mais uma vez, agora com o punho.

- Giovanni! Para de brincadeira.

Ainda silêncio.

Um arrepio subiu pela minha nuca.

Eu não era criança. Não era ingênua ao ponto de achar que homens como os Moretti brincavam com tranca e chave. Algo pesado demais pairava naquele corredor do lado de fora e, de repente, o quarto não parecia mais um quarto.

Parecia uma cela.

Eu respirei fundo, tentando não entrar em pânico. Não tinha janela que desse para o jardim; era uma janela alta, mais decorativa do que útil. O celular estava na bolsa, em cima da poltrona. Peguei rápido, dedos tremendo.

Sem sinal.

Claro. A casa tinha pontos cegos. Pessoas ricas adoravam privacidade.

- Tá... tá tudo bem. - murmurei para mim mesma, como se minha voz fosse capaz de segurar a minha calma no lugar.

Aproximei o ouvido da porta.

Lá fora, finalmente, ouvi passos.

E vozes.

Vozes baixas. Masculinas. Aquelas conversas que acontecem quando alguém acha que não pode ser ouvido.

Me inclinei ainda mais, prendendo a respiração.

- ...não dá pra voltar atrás, Giovanni. - disse uma voz mais velha, áspera. - O acordo já foi feito.

- Eu sei. - Giovanni respondeu. E a forma como ele falou meu nome logo depois me fez gelar. - Ela tá aqui. Tá tudo sob controle.

Eu senti o chão fugir um centímetro sob os meus pés.

"Ela".

Eu.

Meu estômago revirou.

- Você tem certeza? - outra voz entrou na conversa, mais fria, mais impaciente. Um dos irmãos? Talvez o tio. - O Vitale não aceita erro. Se ele desconfiar...

Vitale.

O nome bateu dentro de mim como um soco.

Eu já tinha ouvido rumores. Nas ruas, em cochichos. Em notícias mal explicadas. Em "acidentes" e "desaparecimentos" que todo mundo entendia sem precisar perguntar. Vitale era o tipo de sobrenome que fazia gente adulta abaixar a voz.

- Ela é perfeita. - Giovanni falou, e o desprezo escondido ali me deu vontade de vomitar. - Vinte e dois. Sem ligação com ninguém. Órfã. Não tem amigos. Não tem família.

Meu coração começou a bater tão forte que eu temi que eles ouvissem.

- E... - ele hesitou, e então completou com naturalidade, como quem comenta sobre um carro ou um relógio - ...ela é virgem.

O ar sumiu dos meus pulmões.

Eu apertei o celular com tanta força que a capa rangiu.

Virgem.

Eu sempre guardara isso como escolha. Como decisão. Como uma parte de mim que eu controlava num mundo em que quase tudo escapava. E ele... ele usava isso como valor de mercado.

Uma risada baixa surgiu do outro lado.

- Ótimo. - um dos homens disse - Isso vai facilitar as exigências do Don.

Eu me encostei na parede para não cair.

Don.

Meu corpo inteiro começou a tremer, mas não era choro. Era raiva. Era choque. Era aquela sensação de estar olhando para o próprio coração fora do peito, sendo segurado por mãos sujas.

- Ela não pode desconfiar de nada. - Giovanni continuou. - Eu cuidei disso. Ela confia em mim. Sempre confiou.

Ele disse como se fosse mérito.

Como se eu fosse um animal treinado.

Ouvi passos mais próximos. Uma pausa.

- E quando ele vem? - alguém perguntou.

- Hoje. - Giovanni respondeu, e eu quase gritei. - Mais tarde. Eles vão buscá-la. Eu só precisava... preparar.

Preparar.

As flores. O sorriso. O beijo na testa.

Eu senti um gosto amargo subir pela garganta. Eu queria abrir a porta e partir para cima dele. Queria arranhar o rosto bonito que eu tantas vezes beijei. Queria quebrar tudo naquela casa que fingia ser minha família.

Mas eu tinha uma coisa que a raiva não dá: instinto.

Instinto de sobrevivência.

A conversa se afastou pelo corredor.

E eu entendi, com uma clareza cruel: eu não tinha tempo.

Olhei ao redor, desesperada, buscando qualquer saída. O quarto era alto, mas a janela... a janela tinha uma trava simples. Corri até ela, puxei com força. Travada por dentro? Não. Abriu com um estalo.

O vento frio da noite bateu no meu rosto, e foi como se o mundo lá fora me chamasse pelo nome.

O terreno era alto. Não era um segundo andar comum era mais. Mas eu vi uma varanda lateral, uns dois metros abaixo, com uma cobertura de vidro que dava acesso a uma parte menos iluminada do jardim.

Se eu esperasse, eu seria "buscada".

Eu já sabia o que isso significava.

Meus dedos se fecharam no parapeito. As mãos suavam. O coração gritava para eu ser cuidadosa, mas o medo empurrava mais forte.

Eu respirei uma vez. Duas.

E então subi.

O vidro da varanda parecia frágil, mas havia uma viga metálica na lateral. Eu podia me apoiar ali.

Foi quando ouvi de novo a voz de Giovanni, mais perto, vindo de algum lugar abaixo.

- A ideia é simples. - ele disse, e eu congelei com metade do corpo para fora. - Eu entrego e ele apaga a dívida. Feito.

Dívida.

Então era isso.

Eu fui o pagamento.

Um objeto. Uma moeda. Uma solução.

Eu mordi o lábio com tanta força que senti o gosto de sangue.

E mesmo tremendo, mesmo com as pernas ameaçando falhar, eu me obriguei a descer.

Meus pés tocaram a cobertura de vidro com um rangido assustador. O material cedeu um pouco, mas não quebrou. Eu me movi devagar, como um animal acuado, até alcançar a estrutura lateral e escorregar para o chão do jardim.

Quando meus pés finalmente tocaram a grama, eu quase chorei de alívio.

Quase.

Porque naquele exato instante, ao longe, eu vi os faróis.

Dois carros pretos, grandes, silenciosos, entrando pelos portões.

E eu entendi, com o corpo inteiro gelando:

Eles já tinham chegado.

Eu apertei as flores que eu ainda carregava sem perceber o buquê que Giovanni me deu e, num impulso, joguei no chão.

As rosas se espalharam como sangue sobre a grama.

Então eu corri.

Sem bolsa. Sem dinheiro. Sem plano.

Só com uma certeza queimando por dentro:

Se eu fosse capturada... eu não voltaria a ser Valentina Rojas.

Eu viraria propriedade de alguém que eu ainda não tinha visto.

E eu precisava, pelo menos uma vez na vida, tentar fugir antes que me tirassem até isso.

E, quando uma mão forte agarrou meu braço na escuridão, eu soube que eu não tinha sido rápida o suficiente.

Capítulo 2 Ninguém Vem

Valentina

A mão que me agarrou não era de Giovanni.

Esse foi o primeiro pensamento que atravessou minha mente enquanto meu corpo era puxado para trás com força suficiente para arrancar o ar dos meus pulmões. Não havia cheiro conhecido, não havia voz doce sussurrando desculpas. Só um aperto firme no meu braço e o peso de alguém que sabia exatamente o que estava fazendo.

- Solta! - tentei gritar, mas a voz saiu quebrada, engolida pela noite.

O homem não respondeu. Não precisou. Ele me virou com um movimento seco, rápido, e por um segundo eu vi apenas sombras e o brilho frio de olhos atentos demais para alguém que estivesse improvisando.

- Quietinha, garota. - disse, baixo. Controlado. - Se gritar, piora.

Eu congelei.

Não por obediência. Por cálculo.

O jardim dos Moretti era grande, escuro, cheio de caminhos que se cruzavam como um labirinto bonito demais para alguém pedir socorro. As luzes da casa principal estavam acesas. Havia carros chegando. Homens circulando.

E ninguém... ninguém estava olhando para mim.

- Por favor... - escapou, sem que eu tivesse planejado. O orgulho vacila quando a sobrevivência bate na porta. - Eu não fiz nada. Eu só quero ir embora.

O homem me observou por um segundo a mais. Um segundo perigoso, silencioso. Ele parecia avaliar algo além do meu rosto como se estivesse medindo não o meu medo, mas o quanto eu valia.

- Não depende de mim. - respondeu, por fim.

A frase caiu como uma sentença.

Ele me soltou de repente, e por um instante meu corpo reagiu antes da mente. Dei dois passos para trás. Me virei. Corri.

Corri sem direção, sem fôlego, sem saber se havia saída ou só mais muros. Meus pés escorregaram na grama úmida. O coração batia tão alto que parecia querer saltar do peito. O mundo se reduziu a duas coisas: fugir e respirar.

Passei por uma lateral da casa, por uma área mal iluminada onde havia uma pequena porta de serviço. Forcei a maçaneta.

Trancada.

- Merda... - murmurei, sentindo o pânico começar a subir como maré.

Continuei correndo. Pulei um pequeno canteiro, arranhei a perna num arbusto, senti a dor arder, mas não parei. Dor ainda era vida.

Alcancei o portão lateral do terreno. Alto. Fechado. Câmeras girando lentamente, como olhos mecânicos que nunca piscam.

Eu estava cercada.

Encostei as costas no ferro frio e deslizei até o chão, ofegante. Minhas mãos tremiam. Minha cabeça girava.

Foi ali, sentada na terra de uma família que eu achei que fosse minha, que a verdade se instalou de vez:

Eu estava sozinha.

Não havia número para ligar. Nenhum nome para gritar. Nenhuma porta amiga para bater no meio da noite. Meus pais morreram quando eu tinha três anos. Não havia memórias suficientes para doer só fotos antigas e histórias contadas por outros.

Meu tio... ele tentou. Deus sabe que tentou. Me deu teto, carinho, limites. Me ensinou a não baixar a cabeça fácil. Mas o câncer levou ele rápido demais, como se o mundo tivesse pressa em me lembrar que nada dura.

Depois disso, eu virei boa em sobreviver.

Boa em não depender. Boa em não criar raízes.

Até Giovanni.

Até eu acreditar que amor também podia ser abrigo.

Soltei uma risada curta, quase histérica.

- Que idiota... - sussurrei para mim mesma.

Acreditei em promessas. Em jantares de domingo. Em "futuro". Acreditei quando ele disse que eu era diferente. Quando disse que jamais permitiria que alguém me machucasse.

E foi ele quem me entregou.

Levantei com dificuldade. Não podia ficar ali. Mesmo sem plano, mesmo sem saber para onde ir, ficar parada era aceitar.

Passei pelo portão menor, que dava para a rua lateral. Não estava trancado. Saí.

O ar da cidade bateu no meu rosto como um tapa. O som distante de carros, uma sirene longe demais, um casal discutindo na calçada oposta. A vida seguia.

Menos a minha.

Caminhei rápido, tentando parecer normal. Uma mulher andando sozinha à noite não chama atenção se finge que sabe exatamente para onde vai. Meus passos doíam. Meu corpo inteiro doía.

Parei numa esquina iluminada. Vi uma pequena igreja aberta, luz acesa, porta entreaberta.

Entrei.

O cheiro de incenso e madeira antiga me envolveu. Havia uma senhora sentada nos primeiros bancos, rezando em silêncio. Um homem mais velho organizava papéis perto do altar.

Por um segundo, eu quase chorei.

- Com licença... - minha voz saiu baixa, quebrada. - Eu... eu preciso de ajuda.

O homem levantou os olhos. Me avaliou. Rápido demais. Como se já tivesse aprendido a reconhecer problemas.

- Está tudo bem, filha?

Eu abri a boca. E fechei.

Como explicar que eu tinha sido vendida? Que homens armados me procuravam? Que eu não tinha documento comigo, nem dinheiro, nem casa para voltar?

- Eu... preciso usar o telefone. - foi o que consegui dizer.

Ele hesitou. Olhou para a senhora. Olhou para a porta.

- Não é uma boa hora. - respondeu, gentil, mas firme. - Estamos fechando.

Fechando.

Tudo estava sempre fechando.

Assenti, engolindo o nó na garganta.

- Desculpa. - murmurei, antes de sair.

Do lado de fora, a noite parecia mais fria.

Caminhei mais algumas quadras. Tentei entrar num hospital. Segurança na porta. Perguntas demais. Olhares desconfiados. Eu parecia exatamente o que era: uma garota sem nada.

Passei por um ponto de táxi. O motorista me olhou de cima a baixo.

- Tem dinheiro?

Balancei a cabeça.

Ele virou o rosto.

Continuei andando até as pernas ameaçarem falhar. Parei perto de um pequeno parque vazio, sentei num banco de concreto e abracei os próprios joelhos.

Foi ali que a ficha caiu de vez.

Não importava o quanto eu fosse forte.

Não importava o quanto eu quisesse sobreviver.

Quando alguém decide que você é mercadoria... o mundo inteiro colabora.

Fechei os olhos por um segundo. Só um segundo. Para respirar. Para organizar a cabeça. Para pensar no próximo passo.

Quando abri, o carro preto estava estacionado do outro lado da rua.

Meu coração afundou.

A porta se abriu devagar. O mesmo homem do jardim desceu. Paletó escuro. Postura calma. Olhar atento.

Ele caminhou até mim sem pressa.

- Eu disse que não dependia de mim. - falou, parando a poucos passos. - Agora depende menos ainda.

Levantei devagar. Endireitei os ombros.

- Eu não vou gritar. - avisei. - Não adianta.

Um canto da boca dele se ergueu, quase imperceptível.

- Inteligente.

- Posso saber pra onde está me levando?

Ele abriu a porta traseira do carro.

- Pode.

Esperei.

- Mas não vai mudar nada.

Entrei sozinha.

A porta se fechou com um som pesado, definitivo.

E enquanto o carro arrancava, eu entendi, com uma clareza dolorosa:

Ninguém vinha me salvar.

E eu estava oficialmente fora do mundo que conhecia.

Capítulo 3 O Dono do Meu Destino

Valentina

O carro seguia pela estrada como um caixão em movimento.

Vidros escuros. Silêncio pesado. O motor ronronando baixo, constante, como um aviso de que nada ali era improvisado. Eu estava no banco de trás, mãos apoiadas no colo, coluna ereta, o olhar perdido no reflexo do vidro que me devolvia uma versão pálida de mim mesma.

Uma garota de vinte e dois anos, olhos secos, alma em ruínas.

Não chorei.

Não porque não doía... doía em cada osso, em cada memória, mas porque havia um tipo de dor que não encontra saída pelos olhos. Ela se acumula no peito, vira pedra, vira lâmina. E eu ainda precisava dela inteira para sobreviver.

O homem que dirigia não falou nada desde que saímos. Nem música. Nem rádio. Nada além da estrada escura cortando a noite. Ele era grande, ombros largos, postura rígida. Um profissional. Não um capanga qualquer. Alguém treinado para executar ordens sem curiosidade.

- Quanto tempo falta? - perguntei, depois de longos minutos.

Ele me olhou pelo retrovisor. Só isso.

- Não muito.

Monossilábico. Frio. Como tudo naquela noite.

Encostei a cabeça no banco, sentindo o couro gelado contra a pele. Minha mente insistia em voltar para Giovanni. Para o sorriso. Para as flores espalhadas no chão como sangue. Eu poderia ter gritado mais? Corrido melhor? Confiado menos?

Perguntas inúteis.

O que estava feito, estava feito.

- Ele... - comecei, e minha própria voz me pareceu estranha, distante. - Ele sabe que eu tentei fugir?

O homem demorou um segundo antes de responder.

- Ele espera isso.

Engoli seco.

Ele.

Aquela palavra tinha peso. Não precisava de sobrenome. Não precisava de título. Naquele carro, naquele silêncio, "ele" era suficiente para ocupar todo o espaço.

- E o que acontece com quem tenta fugir? - perguntei, mantendo o tom firme, mesmo com o coração disparado.

O homem respirou fundo. Parecia escolher as palavras.

- Depende do humor dele.

Aquilo devia me assustar mais do que assustou. Mas a verdade era que, em algum ponto da estrada, algo dentro de mim tinha se desligado. Um fio fino, invisível, que ligava esperança à realidade.

Eu já tinha entregue os pontos.

Não no sentido de desistir de viver, mas no sentido de aceitar que aquele encontro era inevitável. Que não adiantava implorar, chorar, barganhar. Pessoas como ele não compravam coisas para depois negociar com elas.

Cruzei as pernas com cuidado, ajeitei a postura. Se eu ia ser levada como objeto, não seria um objeto quebrado.

- Qual é o nome dele? - perguntei, mesmo já sabendo a resposta.

O homem hesitou. De novo aquele segundo perigoso.

- Dante Vitale.

O nome caiu no banco entre nós como uma sentença formal.

Dante Vitale.

Don da máfia italiana. Temido por políticos. Respeitado por criminosos. Conhecido por matar com as próprias mãos quando necessário.

E agora... dono do meu destino.

A estrada começou a subir. Curvas fechadas. Muros altos surgindo dos dois lados, como se a própria cidade tivesse sido deixada para trás. Câmeras. Portões. Guardas armados.

O carro diminuiu a velocidade.

Meu coração acompanhou.

Passamos pelo primeiro portão. Depois pelo segundo. O último se abriu em silêncio absoluto, como uma boca que engole sem fazer barulho.

A mansão surgiu à frente.

Enorme. Escura. Silenciosa demais para ser um lar. Mais parecia uma prisão de luxo, erguida para lembrar a todos que entravam ali que nada escapava. As luzes eram poucas, estratégicas. O mármore refletia tudo inclusive o que eu não queria ver em mim mesma.

O carro parou.

- Chegamos. - o homem disse.

Desci sem ajuda. O ar ali parecia mais denso, como se pesasse nos pulmões. Dois guardas se aproximaram. Nenhum tocou em mim. Não precisavam. O lugar inteiro já me mantinha sob controle.

Caminhei entre eles, passos ecoando no chão polido. Cada som parecia carregar um julgamento. Eu sentia olhares, mesmo sem vê-los. Pessoas escondidas nas sombras. Observando. Medindo.

Eu estava sendo levada como um objeto.

Mas mesmo com medo, levantei o queixo.

Se era isso que restava de mim, então pelo menos... eu cairia de pé.

Entramos no saguão principal.

Foi então que o vi.

De costas, no centro do espaço. Alto. Imponente. Os ombros largos cobertos por um paletó negro impecável. A postura de quem não espera é esperado. A luz do lustre refletia no relógio prateado em seu pulso e nos cabelos perfeitamente penteados.

Ele não se virou de imediato.

Falava com alguém em voz baixa, calma demais para um lugar daqueles. Cada gesto era econômico, preciso. Um homem acostumado a ser obedecido sem precisar levantar o tom.

Eu parei a alguns metros de distância.

O silêncio se esticou.

Então ele se virou.

Meu coração congelou.

Cabelos escuros. Barba marcada. Um rosto esculpido por linhas firmes e uma expressão que não entregava nada. Os olhos... cinzentos. Frios. Atravessavam tudo o que eu era como se estivessem avaliando matéria-prima.

Dante Vitale tinha o tipo de beleza que não devia existir em homens perigosos.

Mas ali estava ele.

Lindo.

E mortal.

Ele me analisou de cima a baixo. Não com pressa. Não com desejo explícito. Como quem avalia um investimento. Um ativo recém-adquirido.

- É isso? - perguntou, sem emoção. A voz grave, controlada. - Foi isso que me mandaram?

A pergunta ecoou no saguão como um golpe seco.

E foi ali, sob aquele olhar que não prometia nada além de domínio, que eu entendi:

Minha vida, como eu conhecia, tinha acabado.

E tudo o que viesse depois... dependeria dele.

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