Afinal, quantas vezes e de quantas maneiras uma pessoa pode apanhar até que ela desmorone? Quanto vale a alma de um criminoso?
Estava pensando sobre isso enquanto ouvia a senhora Karen dizer sobre como acabara de ser assaltada em plena luz do dia. Falar sobre como já lutou muito na vida, sendo mãe solteira e desempregada há dois anos, foi uma forma dela aliviar o susto que tinha sofrido. Mesmo as lágrimas em seus olhos não tinham respostas para essas perguntas complexas.
Clara, a filha da dona Karen, a mesma com quem eu trabalho como babá, estava assistindo algum desenho animado no qual eu nunca havia ouvido falar, enquanto a sua mãe me mostrava alguns arranhões que tinham ficado em seus braços como consequência da sua relutância na hora da ação. O que não é surpresa para mim, pois mesmo agora sendo casada com um médico rico, a mulher é uma selvagem quando se trata de dinheiro. Digo no bom sentido. Acho que depois de tanto tempo vivendo em motéis, ela tem um sério trauma e entra em desespero quando a situação financeira se torna desfavorável.
Mas... antes perder alguns trocados do que a vida, não é?
- Ah, minha querida. Desculpe por tomar muito do seu tempo, sei que logo estará anoitecendo e você tem que estar em casa antes disso. - Ela diz enquanto enxuga suas lágrimas com um pequeno lenço que eu havia oferecido, numa forma de consolá-la, já que eu não sabia o que dizer. - Bom, mesmo com esse dia desastroso... tome isso aqui para você.
Vejo ela se virar de costas e pegar algo dentro de uma carteira que se encontrava dentro da gaveta da sala de estar. Quando Karen se vira e eu vejo a nota de cinquenta reais em sua mão, arregalo os meus olhos, embasbacada por ela estar me oferecendo dinheiro depois de tudo isso.
- O que? Por favor, não precisa... - Digo enquanto movo minhas mãos na frente do meu corpo, sentindo minhas bochechas esquentarem.
Um sorriso brilha em seus olhos, e ignorando minhas palavras, ela agarra o meu pulso e põe a nota na palma da minha mão.
- É o seu aniversário, não é? Você nem comentou isso comigo mais cedo, mas a Clara estava animada pois pensava que você poderia abrir os seus presentes com ela, por isso não foi difícil de eu lembrar. E também... eu vejo o quanto você cuida dela com bastante carinho.
Suspiro me virando na direção da garotinha que continua entretida na televisão, com uma roupa completamente rosa e o cabelo bagunçado. Nada diferente do normal. Um sorriso surge em meu rosto e eu volto a olhar para Karen, que se afasta dando de ombros e pegando o seu casaco de cima da mesa.
- Você está liberada, Emma. Se quiser sair com suas amigas ou ficar com a sua família pode tirar o dia de folga. Agora se me der licença, vou tomar um banho e contar a desgraça pela qual passei hoje para o meu marido. Clara, se despeça de Emma e venha comigo.
Clara pula em meus braços para um abraço que eu retribuo com um sorriso.
- Tchau, titia... Não esqueça de avisar para o moço que está te esperando para ser bonzinho.
Ela sai correndo escada acima junto com a sua mãe, me deixando completamente confusa. "Moço que está me esperando"? O que ela quis dizer com isso? Estaria ela falando do meu pai? Não é como se eu já tivesse contado qualquer coisa para ela sobre a minha vida pessoal. E como poderia saber logo da minha realidade? Estou cansada de mentir sobre uma vida familiar dos sonhos, quando na verdade... eu nem sei explicar o que acontece lá em casa.
Definitivamente deve ser mais uma daquelas falas de crianças que nunca conseguimos compreender. Talvez ela ache que eu tenho um namorado? Pensar nessa hipótese me faz rir. Não é como se algum dia eu tivesse coragem de me entregar a alguém além de mim mesma.
E com esse pensamento eu saio da casa de classe média em direção a delicatessen mais próxima da minha casa, situada em um bairro nada favorável, conhecido pelos surgimentos de vários crimes como roubos e até assassinatos. Todos acontecem de uma forma diferente da outra, mas todos ligados por uma única pessoa. A pessoa que comanda o tráfico que até agora tem seu nome em desconhecimento. Ao menos é o que diz Nathália com todas as suas teorias da conspiração.
Quando volto para casa, com minha sacolinha carregada por um bolinho com uma vela e alguns salgadinhos e refrigerante para que eu possa aproveitar meu aniversário, mesmo que eu saiba que tem vários boletos que eu deveria estar priorizando pois sei que o meu pai vai gastar todo o seu salário com bebidas e todas aquelas drogas, já é de noite.
Abrindo lentamente a porta de entrada consigo sentir o cheiro insuportável da bebida invadindo minhas narinas, enquanto tento a todo custo não respirar esse ar tóxico. Tento correr na direção da escada assim que fecho a porta para evitar ser vista pelo homem bêbado que um dia já foi uma inspiração de homem, quando ainda era policial, quando interrompo os meus passos ao perceber um movimento estranho na sala de estar.
Mesmo com as luzes apagadas, eu conseguia o ver deitado no sofá da sala com uma mulher que fazia barulhos estranhos. Senti o meu estômago embrulhar e quase que imediatamente corri para o meu quarto, abrindo a janela do mesmo em busca de acalmar as batidas do meu coração.
Essa situação me despedaça... Lembrar que esse mesmo homem já foi um pai de verdade, que não ficava bêbado e que cuidava de mim... Isso realmente machuca.
Prendo o meu cabelo num coque e caminho até o banheiro, pronta para tomar um banho e me aliviar um pouco do peso de cada dia, mesmo que eu já esteja acostumada a lidar com situações parecidas...
Quando eu finalmente estou banhada, cheirosa e limpa, eu sento na minha cama com a sacolinha em mãos. Um sorriso surge em meus lábios enquanto dou um jeito de acender a vela. A foto da minha mãe no porta-retrato na minha cabeceira de cama faz com que lágrimas surjam na borda dos meus olhos.
O sentimento de impotência... vulnerabilidade... Esse é o meu aniversário de dezessete anos, e ainda assim... nada mudou. Não me sinto mais livre, exceto que agora me sinto ainda mais presa enquanto a saudade aumenta em meu peito.
Acho que nenhuma saudade é pior do que daquilo que você já viveu... Mesmo com a minha mãe tendo morrido no meu parto, eu posso dizer que até os meus sete anos eu tive uma família. Meu pai era a minha base, o centro da minha vida, até que...
Assopro a vela com os olhos fechados, sentindo as lágrimas deslizando enquanto deixo escapar pelos meus lábios a coisa que mais desejo do mundo...
- Faz isso parar, por favor... me devolve a minha felicidade.
Eu só não esperava que nessa mesma noite, o meu pedido iria se virar contra mim de forma que eu não conseguiria medir o impacto daquilo na minha vida.
Na mesma noite, durante a madrugada, o céu estava chorando. Tenho plena certeza disso pois o barulho da água da chuva colidindo contra o teclado da minha casa, e o trovão ressoando no céu realmente me assustava. Eu sequer conseguia fechar os meus olhos e me deixar levar pelo sono. Na verdade, estava ouvindo coisas vindo do andar de baixo da minha casa, o que é bem frequente pois meu pai bêbado sempre quebra coisas pela sala, mas dessa vez, essa combinação de barulho com a chuva realmente estava me aterrorizando.
Mesmo sendo uma garota de dezessete anos, carregando a responsabilidade de estudar, trabalhar e cuidar de uma casa, eu pareço uma criança quando se trata de medos. E esse é um deles...
Tão rapidamente, a luz de raio me cegou por menos de um segundo, me fazendo fechar os olhos e soltar um gritinho assustada. O meu coração estava num ritmo desregular e eu só queria correr até o meu celular e ligar para Nathália, numa forma de me acalmar já que eu não poderia contar com mais ninguém além dela.
Quando me sentei na cama, tentando acostumar-me com a escuridão que se encontrava no quarto, uma silhueta apareceu na frente da porta. O meu coração deu um salto e eu joguei meu corpo para trás, puxando o cobertor numa forma de proteção, enquanto eu tentava me convencer de que devia ser mais um daqueles "vultos" que nossa mente prega.
Mas quanto mais eu encarava a silhueta perfeitamente como a de um homem, mais eu tinha vontade de gritar, amedrontada com a possibilidade de alguém ter invadido o meu quarto. Quer dizer, o meu pai não apareceria em meu quarto a essa hora da noite, não é?
Eu senti o meu sangue gelar e mais uma daquelas pontadas na cabeça. A mesma que sinto momentos antes de perder o ar e entrar em pânico... isso estava prestes a acontecer. Eu sei...
Quem está aí? O que vai fazer comigo? São as perguntas que fazem minha cabeça girar, mas minha voz está presa na garganta.
A luz de repente acendeu e eu me deparei com três homens, completamente desconhecidos mas com rostos estranhamente familiares. Um sorriso malicioso surgiu nos lábios de um e eu senti o meu corpo tremer.
Mais uma pontada...
Antes de tudo ficar escuro, a última coisa que vi foi o olhar do homem que estava na frente. Eram impenetráveis e uma sensação reverberou pelo meu corpo...
Impiedade.
Capítulo 1
Acho que quando recobrei os sentidos e um calafrio percorreu o meu corpo ao som de vozes estranhas, a última coisa que desejei foi ver o seu rosto.
- Se ela não significa nada para você, então como podemos tê-la como garantia?
Minha boca está seca e meu corpo está suando quando eu me forço a abrir os olhos, sentindo uma estranha fraqueza. A lembrança dos três homens na porta do meu quarto me deixa momentaneamente em frenesi. Por mais que na minha cabeça tudo esteja confuso, eu lembro perfeitamente do olhar de um deles... eles estavam tão vazios em comparação aos outros. Essa imagem ficou gravada na minha memória de forma que eu a sentia latejando.
- Podemos simplesmente ficar com a casa. Tenho certeza que será um bom investimento.
Meus olhos se abrem em desespero quando ouço uma voz que havia pensado fazer parte apenas de um sonho ou pesadelo. Meu coração errou uma batida quando eu despertei da imersão dos meus pensamentos e percebi que estava no banco de trás de algum carro. Eu forcei meus olhos a enxergar algo, já que tudo o que posso contar como iluminação é a luz da lua e uma lâmpada fraca que estava acendida na frente da minha casa. Isso de certa forma me aliviou, pois eu tive a certeza que não estava longe.
Eu estou sendo sequestrada? Aqueles homens foram reais? O que está acontecendo?
Mesmo na penumbra da noite, eu consegui ver um daqueles homens que havia aparecido de repente em meu quarto, logo ao lado do carro, discutindo algo com o homem que conheço como pai, que parece estar desesperado. Mesmo que um pouco tonta por conta da confusão que se encontra na minha mente, eu pus a mão na porta do carro a procura pela maçaneta. Não entendo o porquê de eu estar aqui, mas se for mais um dos problemas que o meu pai está metido... talvez ainda haja uma chance de eu conseguir sair daqui.
- An-ham!
Saltei assustada ao perceber que o som vinha de mais perto do que eu esperava. Ao olhar para frente me deparei com dois olhos na minha direção, refletidos no retrovisor do carro. Por conta da escuridão eu não pude perceber a sua presença. Mesmo agora, finalmente notando, a pressão em meu peito se torna tão intensa que por alguns segundos eu esqueço de respirar.
- Se eu fosse você eu não faria isso. Mesmo que tente, a porta está trancada. E mesmo que não tivesse, o meu amigo do lado de fora é muito nervoso e está com uma arma em mãos; - Ele diz como se não fosse nada, com um tom até divertido. Aperto minhas mãos uma na outra numa forma de conter meu corpo trêmulo. - Eles estão fazendo um acordo. Vai ser mais divertido ficar aqui comigo.
- Q-Quem são v-vocês? - Pergunto com os lábios trêmulos sentindo uma sensação de medo invadir o meu peito. - C-Como assim acordo? Que tipo de acordo?
O que o meu pai poderia estar querendo com esses homens? Por que eu estou dentro do carro com um deles? E o que ele quis dizer com "garantia"?
- Você se chama Emma, não é? Eu me chamo Enzo, é um prazer te conhecer.
Ele vira o seu rosto na minha direção, me lançando um sorriso "simpático". Ele fica alguns segundos me encarando. Esse homem que se apresentou como Enzo, está usando um boné que praticamente esconde seus olhos, mas é possível notar algumas mechas loiras escapando do chapéu.
Pode ser estranho, mas esse gesto fez meu corpo parar de tremer.
- Por que eu estou aqui dentro? Eu quero sair.
Minha voz pareceu um sussurro, porém tive a certeza que ele conseguiu entender, pois o mesmo assentiu voltando a olhar para frente com um olhar mais sério.
- Nosso chefe está te esperando. Ele gostou de você.
Arregalo os meus olhos, me sentindo ainda mais encabulada e amedrontada. Isso é realmente um sequestro, meu Deus! Por que o chefe dele gostou de mim, estão me levando a força? Quando eu paro para pensar... lembro dos olhos vazios daquele homem, e não parecem ser nada parecido com nenhum desses dois. Seria ele o chefe que esse Enzo está falando?
- Negócio fechado!
O meu coração deu um salto quando a porta do passageiro se abriu e o mesmo que estava lá fora apareceu. A luz do interior do carro se acendeu e eu pude ver suas características. Ao contrário de Enzo que parecia estar se escondendo, eu pude ver claramente a sua aparência. Ele é um homem alto, com cabelo castanho, piercing na sobrancelha fora algumas pequenas tatuagens e um sorriso sugestivo de orelha a orelha. Eu tremi novamente, recuando em meu banco ao lembrar que segundo o seu amigo, ele possui uma arma.
Enzo o respondeu com um "Ótimo" e logo o seu olhar foi direcionado a mim, mantendo o mesmo sorriso.
- Então temos que levá-la... Ela até que é fofa. - Ele murmura fazendo que um arrepio percorra a minha espinha. - Inclusive o meu nome é Lucas.
Ele me lança uma piscadela e eu suspiro, olhando através da janela do carro me sentindo desesperada. Eles realmente vão me levar?! Por que o meu pai não está fazendo nada? Por que está apenas de frente para mim com a cabeça baixa?
- Olha, por favor. Eu não sei o que está acontecendo, mas se ele tiver arrumado briga com vocês ou algo do tipo, não podem apenas reconsiderar? Se for alguma dívida eu tenho juntado algumas economias e posso trabalhar apenas para pagar, mas por favor... me deixa sair daqui. Não façam nada comigo, eu prometo que não conto para ninguém sobre isso. Por favor... - Murmuro entre as lágrimas, sentindo um medo que eu nunca tinha sentido antes.
Em qualquer situação eu estaria controlada, como de costume, mas tratando dos meus medos eu ajo com uma criança. Me descontrolo quando o assunto é sentimentos.
O que se apresentou como Lucas parece não se importar com minhas súplicas, enquanto Enzo desvia o olhar, ainda mais sério.
- Você tem dez mil reais em mãos, princesa? - O homem do piercing pergunta e eu arregalo os meus olhos, prendendo a respiração. - Pois bem, eu imaginei. Sinto muito, mas recebemos ordens para cobrar uma dívida do seu pai. Ele não tem dinheiro, portanto temos que levar algo como garantia. Você entende, não é?
Garantia? Eu? É por isso que o meu pai não está fazendo questão de me tirar daqui? Olho mais uma vez para janela, sentindo lágrimas inundarem meus olhos enquanto o homem entra no carro, fechando a porta.
- Pai, por favor! Me tira daqui!
Bato na janela, tentando abrir a porta, mesmo sabendo que está trancada.
- É inútil.
- PAI! Por favor... por favor, não deixa eles me levarem!
Ele continua de cabeça abaixada e a dor em meu peito só aumenta. Mesmo quando ele deixou de ser o pai que era, eu não tinha sentido essa sensação de abandono avassaladora. Quando o carro começou a andar e eu o vi se afastar do meu campo de visão junto com a casa na qual eu fui criada, eu senti algo como uma facada no coração. Ele estava sangrando por dentro enquanto eu chorava. Enzo que ainda dirigia parecia estar fazendo o máximo para ignorar e até mesmo não parecia gostar disso, enquanto Lucas ficava apenas dizendo que não tinha motivo para entrar em desespero que nenhum deles iriam me tratar mal caso eu me comportasse.
Eu nunca me importei realmente com a minha vida e sempre pensei que se eu deixasse de viver, talvez a sensação de vazio e dor em meu peito cessasse. Porém agora nessa situação, eu não quero morrer! Eu sequer consegui abrir a carta que a minha mãe escreveu para mim antes da sua morte. Eu nunca tive coragem... sempre pensei que minhas mãos estavam manchadas com o seu sangue e que eu não merecia. Mas agora... eu não posso morrer! Não quero que eles me usem, me matem e depois jogue o meu corpo no mato. Ver isso na televisão sempre me amedrontou e agora eu sequer estou conseguindo falar.
Quando eu cessei o choro e olhei em volta, percebi que estávamos indo para uma direção fora da cidade, adentrando numa floresta. O meu corpo ainda estava trêmulo e minha mente confusa, mas consegui raciocinar um pouco melhor para manter a calma.
Se eu sou a garantia de que uma hora meu pai vá pagar, eles não podem me matar. Porém não posso garantir que não me machuquem, e não consigo mensurar o tamanho do meu desespero ao pensar sobre isso.
Quase uma hora se passou, comigo calada no banco traseiro, pensando em diversas formas de fugir quando o carro parou na frente de uma casa. Mesmo na situação desesperadora, eu não consegui evitar de me sentir impressionada. A casa é enorme, de madeira carvalho e tijolo. Eu nunca pensei que essa combinação pudesse resultar em algo tão bonito até ver esse lugar. Mas nem mesmo isso foi capaz de conter meu medo.
Lucas abriu a porta e me tirou do carro com certo cuidado, analisando o meu rosto inchado por conta das lágrimas. Eu permaneci calada, entorpecida pelo dano causado na minha mente. Eu ainda estava com medo pelo fato dele possuir uma arma, porém ele apenas sorriu.
- Não estamos acostumados a aceitar pessoas nessas situações, só para deixar claro. Ninguém vai te fazer mal se você agir corretamente. Não se preocupe, eu tenho cara de mal mas eu não mordo. Apenas torça para que o seu pai arrume um jeito de pagar a gente. Mesmo sendo apenas dez por cento do valor, aceitaremos deixar você livre, contando que ele pague todo mês até quitar a dívida.
Dez por cento do valor... Mil reais por mês! Se já não tínhamos para nos sustentar direito, como ele vai conseguir pagar mil reais por mês?! Alguém como ele não tem nenhum contato além das prostitutas!
- Deixa ela em paz, Lucas. Só vamos levar ela lá para dentro.
Enzo apareceu ao meu lado e Lucas se afastou, levantando os braços como se fosse culpado de algo. Por mais que eu odeie isso, se o que esse Lucas me falou for verdade, eu não preciso sentir tanto medo e apenas torcer para que o meu pai faça algo.
- Vamos.
Enzo segurou o meu braço e me puxou com ele para frente da casa, onde subimos dois degraus e nos deparamos com a porta de entrada.
- Não tente fugir, há homens armados por todo canto ao redor da casa. - Enzo sussurra enquanto abre a porta e me lança um sorriso fraco.
Quando a porta se abre, eu consigo ouvir vozes do que parece ser pessoas discutindo. Mesmo o interior parecendo enorme e espaçoso, quando eu dou o meu primeiro passo para adentrar a casa, sinto uma pressão enorme em meu peito como se eu estivesse claustrofóbica.
No final da sala, uma garota loira que eu julgo ser da mesma idade que eu, está discutindo bravamente com uma garota um pouco mais velha, que está ao lado de um homem que se encontra de costas.
Ambas parecem não gostar uma da outra, e eu suspiro, me perguntando se elas passaram pelo mesmo que eu e agora já se familiarizaram com o local.
- Pedro, aqui está a garota. - Enzo diz e a briga entre as duas garotas cessam.
Ambas estavam me encarando de forma curiosa, e o homem alto que estava de costas se virou na minha direção.
Eu prendo a respiração ao perceber que esse é o dono daquele olhar vazio. Ele também estava no meu quarto naquela hora! O que está acontecendo?
Um arrepio percorre o meu corpo quase que imediatamente quando nossos olhares se cruzam. A mesma sensação de impiedade atravessa o meu peito e por um segundo eu esqueço de respirar, embriagada por aqueles olhos tão frios que o mundo ao meu redor para por alguns segundos.
O seu rosto é estranhamente familiar para mim, mesmo se tratando de um desconhecido... Seus braços revelam várias tatuagens e o seu cabelo é da tonalidade preto, o mais escuro possível. Algumas mechas caem sobre o seu rosto e eu poderia até mesmo o admirar de longe se não fosse por essa situação.
No canto dos seus lábios, eu notei um sorriso se desenhar enquanto me encarava. Isso sim foi malditamente arrepiante.
Quem é esse homem?
Capítulo 2
Finalmente as palavras de Albert Einstein estavam fazendo sentido na minha cabeça. "Se você continua vivo é porque ainda não chegou onde devia." Me perguntei durante os últimos dois minutos onde eu deveria chegar, porém a resposta está envolta por uma densa névoa, e eu pareço pequena demais para alcançá-la.
Continuei pensando sobre isso enquanto encarava a enorme porta de madeira à minha frente.
- Esse aqui vai ser o seu quarto.
A garota loira com aparência da minha idade, que se apresentou como Mia, dá um longo suspiro após perceber o quanto eu pareço apreensiva.
- Eu sinto muito. Isso nunca tinha acontecido antes e eu nunca pensei que Ph seria capaz de fazer algo assim. - Ao pronunciar essas palavras, Mia parece realmente decepcionada.
Tenho certeza disso devido a discussão que houve entre os dois há apenas alguns minutos atrás, quando Enzo explicou a situação e Mia tentou me defender a todo custo. Porém o homem com o olhar vazio saiu com a outra garota, a ignorando e aparentemente a deixando ainda mais brava.
- Ph? - Questiono me perguntando se isso é realmente um nome.
É até um pouco surpreendente que alguém com tamanha presença se chame assim.
Mia apenas sorri, pegando uma chave do seu bolso e destrancando a porta.
- É apenas um apelido. Nossos pais eram de países diferentes quando nos tiveram, então nosso nome é uma mistura das duas nacionalidades. Vem, mesmo que pareça horrível, vou tentar te deixar bem acomodada. - Ela diz abrindo a porta e entrando logo em seguida, porém a única coisa que consigo fazer é pensar em como qualquer esperança de que ela fosse me ajudar a fugir agora já não é existente.
- Vocês são irmãos? - Pergunto encarando o chão, me sentindo desesperançosa. - Mia, não pode me ajudar a fugir?
Minha voz soa tão baixa que é até difícil dizer se ela ouviu, porém sinto ela se aproximar e é quando tomo coragem para encará-la. Eu não sei quem são eles ou o que fazem, e depois de passar alguns minutos com ele, sinto que não tenho chance alguma de fugir dessa casa. E depois que... mesmo sendo o irmão dela, ela compactua com o que ele está fazendo comigo? Mantendo uma pessoa em cárcere privado... isso é normal para ela também?
- Emma... - Ela põe uma mão em meu ombro, me encarando com certa culpa. - Eu sinto muito, mas eles são realmente perigosos. Não posso te ajudar a fugir pois mesmo sendo irmã do líder deles, a "organização" é muito grande e não brinca em serviço. Mas eu prometo, não vou deixar eles te machucarem ou te deixarem presa aqui por muito tempo. Pense nisso como uma viagem escolar obrigatória com pessoas que você não conhece. Eu vou conversar com ele, até lá não posso te deixar sair desse quarto, mas olha... aqui tem tudo que precisar. Os meninos também não são ruins como parecem, ao menos quando não se trata do serviço que tem que fazer. E em relação a Ph... bom, ele é gente boa com todos, mas... bem... como posso dizer?
Ela parece embaraçada e até mesmo envergonhada enquanto eu a escuto atentamente, me agarrando nesse fio de esperança que ainda há algo que devo fazer, caso contrário já estaria morta.
- Só tente falar o mínimo possível com ele. E se falar não o desafie ou o contrarie. Também não mexa nas coisas dele. Ele esquenta a cabeça e acaba se deixando levar pela raiva.
Um calafrio de medo percorre a minha espinha. Então... eu não estava errada quando eu o vi pela primeira vez e a sensação impiedosa me assombrou por um tempo.
Assinto e então ela me guia para dentro do quarto, enquanto eu acaricio meus braços arrepiados. Assim como quando eu cheguei, eu não consegui evitar de me sentir impressionada com o quanto espaçoso e decorado parece o quarto. Uma enorme cama está posta no meio do quarto, ao lado de uma parede com uma enorme janela de vidro. Alguns móveis como guarda-roupa, prateleira e sofá fazem com que eu me sinta na casa dos sonhos. Eu nunca estive num lugar tão grande e que transborda riqueza como esse, o que me deixa surpresa pois eles não parecem precisar de dez mil reais, mas ainda assim... Aqui estou eu.
Em cima da cama, eu noto várias roupas dobradas de forma que eu consiga identificar o estilo delas. Ao lado da cama estão algumas caixas de sapato e além disso, a prateleira, por exemplo, tem vários produtos que eu definitivamente já tive vontade de comprar, como produtos de higienes faciais, cremes de todos os tipos, uma chapinha, perfume, maquiagens e outros produtos que não consigo identificar.
Mas por que diabos estão me dando todas essas coisas ao mesmo tempo em que fazem questão do dinheiro que o meu pai está lhe devendo. É realmente apenas dez mil? Eles falaram a verdade quanto a isso, ou estão me escondendo coisas?
- Ali é o banheiro. Como pode ver, aqui tem tudo o que precisar. Eu vou pedir para o Ph pôr um frigobar ao lado da sua cama. - Mia murmura enquanto eu encaro a roupa que peguei em minhas mãos, sentindo que há algo estranho sobre tudo isso.
- O que é essa organização? O que o seu irmão faz? - Pergunto com a voz baixa, me virando para a mesma que permanece parada na entrada do quarto.
- Ah... sobre isso... bom, eu não acho que você possa sair dizendo sobre isso, mas ele meio que trabalha com... tráfico. - Meus olhos se abrem em surpresa, pois essa era a última coisa que eu poderia imaginar, e isso me deixa ainda mais amedrontada, pois segundo tudo o que eu já ouvi sobre isso da boca das pessoas, esse tipo de gente não tem coração. - Ph é o líder. Ele administra desde muito novinho por causa do nosso pai... Mas ninguém além daqueles dois que trouxeram você sabe sobre a identidade dele. Ele prefere assim, já que depois de tudo o que ele causou, se soubessem de quem se trata, já teriam se vingado de tudo o que é jeito.
Um calafrio percorreu minha espinha ao pensar sobre isso. Quão problemático tem que ser essa pessoa para todos ao redor desejarem vingança? O quão longe ele foi nas suas atitudes? Deus... eu definitivamente não vou o desafiar e contrariá-lo. Talvez tentar fugir seja uma péssima ideia. Se ele me pegar, eu posso...
Um toque de celular de uma música popular foi o que interrompeu a minha linha de pensamento, e segundos depois Mia estava encarando a tela do seu telefone com uma expressão revoltada.
- Ah, droga! Emma, eu vou ter que te deixar sozinha. Eu sinto muito, mas eu não posso deixar de fazer isso. Eu sinto muito por isso estar acontecendo, e não se preocupe, vou dar uns puxões de orelha em Pedro. Até lá eu vou ter que trancar essa porta, eu sinto muito mesmo, mas me prometa que vai se cuidar. Pode fazer o que quiser nesse quarto, e se alguém te incomodar me fale imediatamente, está bem?
Ela me lança um sorriso fraco e eu consigo enxergar genuína preocupação em seu olhar. Um alívio em meu peito é perceptível. Ela definitivamente não parece uma pessoa ruim, e se ela me proteger... Eu posso aguentar até lá. Até meu pai conseguir pagar essa dívida.
Pela primeira vez, um sorriso surge em meus lábios, mesmo que fraco, e eu assinto, a deixando tranquila. Logo depois ela se foi, trancando a porta em seguida. Mesmo já aceitando a ideia de que posso aguentar, eu corri feito uma desesperada pelo quarto em busca de ver algo do lado de fora, mas o único lugar que me permitiu ver, foi a janela ao lado da minha cama. Ela é de vidro. Porém grades estão do lado de fora, e isso definitivamente confirma o pensamento de que serei incapaz de fugir, porém fui capaz de perceber algo. Mesmo na escuridão da noite, vi um homem armado no meio do mato segurando uma lanterna, que foi o que me permitiu enxergá-lo... ele estava olhando ao redor, como se procurasse por qualquer ameaça.
Deus... Enzo estava realmente falando a verdade! Eles são mais perigosos do que eu pensei.
As lágrimas brotaram em meus olhos rapidamente e eu me sentei na cama, perdendo a força das minhas pernas.
E se meu pai não pagar a dívida e ver isso como uma oportunidade de se livrar de mim? Ele não poderia... ele precisa de mim para pagar as contas, e como pai tem que estar preocupado com o que esses homens podem fazer comigo. Mesmo que agora tudo esteja diferente entre nós, ele tem que se lembrar de como éramos. De como ele cuidava de mim... Sem falar que mesmo que ele me deixe, Karen irá procurar por mim, tenho certeza. Ela vai chamar a polícia quando perceber que o meu pai está escondendo algo. É nessa esperança que devo me agarrar.
Abracei minhas pernas, deixando que as lágrimas caíssem numa tentativa de lavar minha dor, mas quanto mais penso sobre isso mais a sensação dolorosa se intensifica. Tanto que a pressão em meu coração é enorme e eu tenho dificuldade de respirar.
Acho que fiquei naquela posição por muito tempo, talvez vários minutos ou algumas horas, até que as lágrimas secaram em meu rosto e o pânico tomou conta de mim. Mas eu não estava conseguindo me mexer. É quase como quando você está prestes a morrer, e não consegue se mexer, mesmo sabendo que a sua vida depende disso. Eu me sinto envolta por uma névoa que não se dissipa, e várias silhuetas deformadas me atormentam. Eu estou sozinha!
Eu odeio me sentir assim, mas não posso evitar quando uma crise começa...
Não faço ideia de quanto tempo se passou, mas o céu está um pouco acinzentado, revelando o início do amanhecer.
O que eu tenho que fazer? Por que estou aqui? As coisas acontecem por acaso?
Me fiz perguntas como essa enquanto pensava em voltar a minha rotina de sempre. Não há cor na minha vida... Nada que me mantenha aqui, nada além daquela carta. Talvez seja por esse propósito que eu continuo viva. Talvez tenha sido por nunca ter lido a carta deixada por minha mãe, que eu nunca consegui cravar a lâmina no meu pulso e deixar que eu sangrasse até a morte. Talvez todas essas marcas que carrego em meu corpo, sirva como lembrança do que eu tenho que fazer, e de como abandonei tantas vezes a ideia de desistir da minha própria vida.
Talvez lá no fundo... ainda haja esperança para mim!
Um barulho me assusta, e quando me dou conta a porta do quarto está se destrancando. Me levanto da cama assustada com a ideia de alguém estar vindo me assediar, porém esperançosa de que seja apenas Mia. Abraço o travesseiro contra o meu corpo assim que percebo que definitivamente não é ela.
Muito pelo contrário... a única pessoa que eu não desejaria ver agora aparece bem na minha frente, dando um leve sorriso irônico que me deixa ainda mais aflita. Em suas mãos estão algumas sacolas, e enquanto a luz fraca do sol iluminava o seu rosto, por alguns segundos, o seu olhar vazio já não me amedrontava tanto assim.