Elara
Ninguém deveria estar planejando o próprio suicídio antes de chegar à vida adulta.
Eu planejei.
Esta noite será a mais longa do ano e também marcará meu aniversário. Nunca temi a chegada de um dia como temo este. Desde que me lembro, fui alertada sobre meu destino terrível - aquele que aguarda todos os primogênitos nesta nova sociedade.
"Elara!" A voz da minha mãe me puxa dos devaneios. "O jantar está pronto!"
Olho meu reflexo pela última vez antes de me levantar da penteadeira e descer as escadas bambas até a sala, onde minha família me espera. A escadaria é iluminada por uma vela meio consumida repousando num aplique de parede. Desde a chegada deles, o progresso parou. Fomos condenados a viver do jeito deles. Malditos nostálgicos com aversão à tecnologia. Tudo o que sei sobre o "mundo avançado" é o que consegui ler em livros antigos ou ver em fotografias que já começam a desbotar e rachar. Passamos mais de um século voltando no tempo, adaptando-nos ao modo de vida deles: viajamos de carruagem, usamos roupas pomposas e desconfortáveis, e nos comunicamos por carta. Nasci quando computadores, celulares e carros movidos a gasolina já eram apenas lembranças na mente dos mais velhos.
Piso no último degrau, que range sob meu peso, e encontro toda a minha família reunida ao redor da mesa. Minha mãe serve sopa com uma concha, enchendo as tigelas com um sorriso, porque poder nos oferecer esta refeição hoje não é algo comum. Não somos uma família rica, nem sequer de classe média.
"Querida, sente-se, vai esfriar."
Tomo meu lugar ao lado da minha irmã de sete anos, Abigail, uma garotinha de cachos em tom acobreado e olhos cor de mel. Ela sorri para mim com o vãozinho entre os dentes.
"Não fique nervosa, talvez eles não escolham você."
A voz do meu pai é doce, como ele é. Às vezes penso que ele é assim comigo porque fui marcada desde o nascimento. Ser primogênita me marcou e me condenou a um destino miserável. Um destino em que me veem como mera fonte de alimento para aqueles seres frios, sádicos, sem alma.
"Eu não estou nervosa", minto. "Passei dezoito anos me preparando para isso."
Sei que o sorriso não chega aos meus olhos, embora eu tente transmitir o máximo de calma possível. Isso não é fácil para eles - como poderia ser para quaisquer pais? Em poucas horas, será meu décimo oitavo aniversário e, em apenas alguns dias, haverá lua cheia, o que significa entrar no Leilão Carmesim. Se você tiver sorte, talvez ninguém a compre, mas se agarrar a essa esperança é tolice. Somos produtos, somos apenas sangue. No fim, eles vão acabar nos comprando, seja você atraente, ossuda ou doentia. Cedo ou tarde, alguém estará disposto a se alimentar de você.
"Para ser exato, foram dezessete anos e trezentos e sessenta e quatro dias", diz meu irmão, tentando aliviar o clima. "Não me peça para ser mais preciso com horas, minutos e segundos porque nisso eu posso falhar."
Reviro os olhos; isso é típico dele recorrer ao humor bobo quando as situações o sobrecarregam. Silvano, a quem todos chamamos de Silas, é meu irmão mais novo por dez meses, mas insiste em agir como se fosse mais velho que eu. Ele tem o corpo largo, atarracado, cabelo dourado-palha e olhos cor de mel como os da Abigail. Os meus são cinzentos, vazios, sem cor. Tudo em mim parece carecer de brilho, dos olhos ao tom escuro do meu cabelo.
Pego a colher e provo um pouco da sopa. O olhar da minha mãe está em mim, esperando que eu diga algo ou reaja de algum modo. Sorrio para ela, e ela parece relaxar no assento. Seu cabelo é da mesma cor do meu irmão, levemente grisalho e preso num coque baixo na nuca. E, embora o olhar dela seja o mais doce que já vi, também é o mais triste.
"Está uma delícia, mãe."
Me obrigo a continuar comendo, embora meu estômago esteja fechado de nervoso. Sou uma péssima filha e irmã pelo que planejo fazer esta noite. Certamente eles não terão orgulho de ter criado uma filha tão egoísta, disposta a terminar a própria vida por medo de vivê-la até o último suspiro ao lado daquelas criaturas insaciáveis e pecaminosas.
"Então você disse que você e a Lea vão dar uma caminhada perto do lago..." diz meu pai. "Você sabe que não deve voltar tarde, está escurecendo. Não importa o que prometam, eles são perigosos."
"Eu sei, pai, não se preocupe, vamos ficar bem."
Ele acaricia a barba de vários dias com os dedos enquanto me examina. Será que ele sabe minhas verdadeiras intenções? Eu as trago estampadas no rosto? Por fim, ele volta a atenção para a tigela.
"Posso ir?" pergunta Abigail. "Por favor, por favor..."
"Não", respondemos todos ao mesmo tempo.
Abigail faz bico e volta para a sopa. O clima está mais tenso do que o esperado; não deveria ser assim, mas a ameaça está no ar e ninguém está disposto a ignorá-la. Em quatro dias, vou deixar esta casa - muito provavelmente para o resto da vida.
Não deixo uma única gota na tigela antes de me levantar. Olho toda a minha família, gravando-os na memória. Queria poder dizer a Silas que espero que um dia ele me perdoe pelo preço que minha morte vai custar a ele, pela forma como o condenará. Queria poder explicar que vivi com medo por muitos anos e não suporto mais. Que a morte me parece um passeio no parque comparada ao destino que a vida me reserva.
Não faço nada disso. Apenas sorrio para eles uma última vez, corro para o meu quarto e pego um manto forrado de pele que a Lea me deu anos atrás e que venho guardando com cuidado, pois é uma das poucas coisas valiosas que possuo. Depois de alguns minutos, escapo pela porta sob o olhar de todos. O ar frio beija minhas bochechas e, embora a primeira neve ainda não tenha chegado, temo que não vá demorar. Sigo pelo caminho até a casa da Lea, a algumas ruas da minha. Os últimos trabalhadores percorrem as ruas, ansiosos por se refugiar no calor de seus lares, algumas mulheres terminam de recolher as roupas que estenderam pela manhã, e os lojistas estão fechando seus estabelecimentos.
Lea está bem na entrada do pequeno caminho para sua casa, esperando por mim, toda encolhida no manto, o nariz vermelho de frio. Ela sorri e, mesmo sem querer, é um sorriso triste. Seus cabelos alaranjados emolduram o rosto.
"Elara!" Ela corre alguns passos na minha direção. "Pensei que você não viria!"
"Desculpe, me atrasei um pouco." Enlaço meu braço no dela e começamos a caminhar pelas ruas sujas da aldeia. "Como está a família?"
"Como sempre. Mamãe ainda espera as cartas da Sophie toda semana, mas já fazem duas semanas desde a última."
"As estradas estão ruins, o correio não tem chegado com frequência ultimamente", tento tranquilizá-la.
Sophie é a irmã mais velha da Lea. Há um ano, ela entrou no Leilão Carmesim e foi comprada. Nem todos têm a sorte de ter donos que permitam manter contato com a família. A maioria é arrancada completamente, considerada morta para o mundo. Sophie tem sorte de ter sido comprada por alguém que não se importa com nada além de ter um lanche à meia-noite.
A falta de cartas pode ser apenas coincidência ou, no pior dos casos...
"Mamãe vai adoecer se isso continuar, e papai tem trabalhado demais. Acho que eles estão começando a temer o pior, e eu... eu não sei como me sentir."
"Tenho certeza de que ela só se atrasou um pouco, não perca a esperança." Eu afago a mão dela com a minha, dando leves tapinhas. "Como vão suas últimas leituras?"
Tento distraí-la falando sobre aqueles livros enormes que falam do mundo de antes. Lea é uma garota curiosa; desde que aprendeu a ler, adora vasculhar as barraquinhas do pequeno mercado em busca de livros que contêm como a vida costumava ser. Eu amo isso nela gosto de sentar à beira do lago e ouvi-la tagarelar por horas sobre como pessoas da nossa idade se relacionavam, sobre a moda, tão mutável, fugaz e muito mais confortável do que a de hoje.
Chegamos ao lago, caminhando de braços dados, e acabo me perdendo enquanto encaro a água. Lea tem sorte.
O sacrifício da irmã significou que o Libris da família dela foi selado.
Uma vez selado, considera-se que a família já pagou o suficiente. Os pais entregam o primogênito e, em troca, recebem a certeza de que não perderão mais nenhum filho, além de uma pequena bolsa de moedas para se alimentar por um ano. Uma pequena esmola em troca de perder um filho para sempre.
"Você está me ouvindo?"
Pisco, saindo dos pensamentos.
"Desculpa." Sorrio, constrangida. "O que você estava dizendo?"
"Não se preocupe." Aquele sorriso triste de novo. "Tenho certeza de que você tem muita coisa na cabeça. Eu estava dizendo que ontem, durante a caminhada com a mamãe, Felippo, o filho do padeiro, parou para conversar com a gente por um tempo. Ele não conseguia parar de olhar para mim, talvez..."
"Talvez...?" As bochechas dela ficam coradas. "Você gosta do Felippo?"
Ela tenta me ignorar, olhando para qualquer coisa menos para mim. Mesmo assim, não desisto e começo a cutucá-la de lado, forçando-a a me encarar entre risos.
"Não seja boba, Felippo é demais..."
"Demais o quê?"
"Demais certo."
"Certo demais?" Ergo uma sobrancelha. "Você é a pessoa mais certinha que conheço."
Ela solta meu braço e começa a andar de costas, girando devagar enquanto fala.
"Sim, por isso quero alguém rebelde, aventureiro, alguém que me faça sentir viva. Não quero algo tradicional e típico quero alguém que me empurre a fazer coisas novas."
"Você quer dar um ataque do coração nos seus pais", digo.
Ela ri de novo, rodopiando enquanto caminha pelo restante do caminho. Chegamos ao fim, o sinal de que é hora de voltar e regressar ao conforto de nossos lares. Eu tenho outra ideia para esta noite. Refazemos o caminho e, quando chegamos ao final, paro diante de Lea e olho diretamente em seus olhos.
"Hoje à noite vou para casa sozinha", anuncio. "Preciso de alguns momentos comigo mesma."
"Elara, isso não é uma boa ideia. Está escurecendo, você não pode voltar sozinha..."
"Lea, por favor..." digo em súplica. "Não me resta muito tempo, logo não terei mais essas caminhadas, não terei tempo para mim. Nem para pensar."
O farfalhar da barra do vestido dela soa na brita quando ela se aproxima e me abraça com força. Deixo que ela me conforte, inalando o doce cheiro de violeta dos cabelos. Sinto o tremor em seus ombros e então sei que ela está chorando. Tento não deixar as lágrimas nublarem meus olhos. Somos amigas a vida inteira e uma de nós tem que se despedir para sempre da outra, mesmo que ela não saiba das minhas intenções definitivas. Ela não receberá minhas cartas, porque estou tão apavorada com meu destino que planejo fugir dele como uma covarde.
"Pronto, pronto..." Acariciei suas costas num gesto de consolo. "Vai ficar tudo bem, vou escrever para você e contar como é minha nova casa. Vai ser como se eu estivesse aqui."
A mentira tem gosto de cinzas.
Ela se afasta de mim, incapaz de conter o soluço que escapa. Enxugo com os polegares as lágrimas que descem pelas bochechas dela e lhe dou um pequeno sorriso.
"Vou lhe escrever tantas cartas", promete. "Tantas que você vai se cansar de mim."
"Isso é impossível."
"Vou te contar tudo o que eu descobrir nos meus livros, vou te falar do Felippo e de qualquer outro que aparecer durante as nossas caminhadas..."
"Quero os detalhes do casamento com o Felippo", provoco. "Você está corando de novo!"
"Você é uma idiota!"
Ela me abraça de novo e encerra a despedida com um pequeno aceno de mão e uma exclamação.
"Até amanhã!"
Enquanto ela segue pelo caminho, vira-se várias vezes para me ver, e eu fico no lugar até que suas ondas alaranjadas desapareçam.
Solto o ar que mantinha preso no peito e desabo no chão, onde a vegetação é opaca e seca. Não me dou ao trabalho de juntar as saias - quão sujo meu vestido vai ficar já não importa.
O céu lentamente se torna de um azul escuro e os únicos sons que me acompanham são a brisa, a água em movimento e as copas das árvores sendo sacudidas. O lago fica numa ponta da aldeia, na área mais deserta. A primeira casa habitada deve estar a centenas de metros. Não é próprio para moças virem aqui, muito menos ficarem sozinhas em um lugar tão remoto e solitário. Meus pais não aprovariam.
Tiro os sapatos de bico arredondado e, depois, as meias. Sinto a terra sob os pés enquanto começo a andar em direção à margem.
Quando a água toca meus dedos, um arrepio percorre meu corpo todo, entorpecendo-o. Dou outro passo, e depois mais um.
Meu corpo não se acostuma ao frio a água gélida de dezembro parece centenas de agulhas me apunhalando. Por mais doloroso que seja, não vou parar. Tenho um objetivo e não vou abandoná-lo.
Meu peito protesta enquanto meu corpo tremendo pressiona os aros do corpete contra mim. Sigo avançando; a água me cobre além do peito e meus dentes não param de bater. Não sinto meus dedos dos pés e é difícil mover as mãos. Continuo avançando um pouco mais, lutando para me manter na superfície.
Cada minuto é como um grão caindo de uma ampulheta, marcando a contagem regressiva.
Pouco a pouco, todo o meu corpo fica dormente, o frio turva até minha mente. Pequenas nuvens de vapor escapam dos meus lábios trêmulos.
Chega um momento em que meus pés ficam tão pesados que paro de movê-los e permaneço imóvel, deixando minha cabeça afundar, centímetro a centímetro.
O ar escapa de mim quando mergulho. O choque de estar totalmente naquela água fria é brutal. A calma excessiva nela é ainda mais inquietante.
Afundo devagar, suspensa na água, observando meu cabelo flutuar ao redor enquanto nem meus braços nem minhas pernas conseguem o esforço para nadar e voltar à superfície. O frio me perfura como estacas de gelo.
Meu peito protesta. Arde, e juro que mãos pressionam nele, comprimindo-o.
Abro a boca involuntariamente, procurando ar e encontrando apenas água. Engasgo. Um espasmo me sacode, minha visão embaralha-se, e o peso do meu corpo continua me arrastando cada vez mais para o fundo.
Mais espasmos me atravessam, quebrando a imobilidade da água, e por mais que eu tente mover os braços, eles não respondem.
Mesmo querendo morrer, o instinto de sobrevivência é forte, mas lembro-me repetidas vezes de que é isso que eu quero.
Minha visão fica traiçoeira, mostrando o que parece um rosto que desaparece tão rápido quanto eu pisquei.
As bordas da minha visão escurecem, como as margens de uma fotografia pegando fogo.
"Você deve viver, você tem que viver..."
As palavras sussurram na água.
"Você tem que viver, você deve viver."
O peso das minhas pálpebras aumenta, e também a sensação de que algo vem em minha direção.
"Este ato de covardia me decepciona."
Algo nessas palavras me faz ferver por dentro.
Elas me invadem como ácido corroendo minhas veias.
Uma onda de vergonha me domina.
Eu não consigo fazer isso. Não posso fazer isso com meus pais. Com meus irmãos.
O Libris não está selado Silas terá que entrar no Leilão Carmesim por minha causa. Não posso condená-lo a isso esse é meu fardo, só meu.
Tento abrir os olhos, lutar contra a água, mas é tarde demais.
Por mais que me esforce, meu corpo recusa-se a responder.
"Garota estúpida."
A histeria me faz abrir a boca de novo, e a água jorra para dentro de mim, enchendo meus pulmões e silenciando meus gritos.
Cabelos cruzam minha visão, enrolam-se em volta do meu pescoço como um laço.
Olho para cima e tudo o que vejo é preto. Estou longe da superfície.
Aquele rosto misterioso se aproxima, mais e mais...
Perco a consciência por um momento e, quando volto, meu rosto está contra a margem do lago, manchado de terra molhada.
Meu vestido ainda boia na água, e minhas pernas continuam dormentes.
Apoio os cotovelos na terra para arrastar o que resta do meu corpo para fora.
Minhas mãos tremem e, ao olhar meus dedos, vejo que estão roxos.
Viro-me de costas, com o céu escurecendo e a lua mais presente.
Minha respiração não está normal - é ofegante - e meu peito faz sons de agonia.
Tento levar as mãos à boca para aquecê-las.
Minhas pernas não obedecem às ordens e meus pés têm um tom arroxeado.
A brisa sacode as copas das árvores e, com ela, um novo sussurro me alcança.
"Aceite o seu destino."
Olho em todas as direções procurando a origem da voz, mas só as árvores e o caminho solitário me respondem.
As palavras me atingem com um peso, e meus ombros tremem enquanto caio em prantos.
Fui tão egoísta, uma filha e irmã terrível...
Quase condenei meus irmãos ao meu destino e minha família à desgraça.
Cubro os olhos com as mãos, tentando segurar as lágrimas, mas elas saem com força, sem querer parar.
Não sei quanto tempo fico sentada ali antes de Silas aparecer.
"Elara!" Os passos do meu irmão ficam cada vez mais altos. "Elara! O que aconteceu?"
O calor dos seus braços me envolve e, instintivamente, minhas mãos tentam agarrá-lo, buscando consolo.
Enterro meu rosto no peito dele, encharcando sua camisa com meu cabelo e roupas molhadas.
Ele murmura algo que não consigo entender enquanto nos embala suavemente.
"Calma, calma, Elara... Está tudo bem agora."
Sinto seus dedos enredarem-se no meu cabelo enquanto o acaricia.
Seu abraço é exatamente o que eu precisava - e eu não sabia disso até aquele momento.
Pequenas nuvens de vapor se formam no ar a cada uma das minhas respirações ofegantes.
Suas mãos massageiam meus pés e tornozelos, tentando recuperar minha circulação e dissipar a cor doentia.
"Quer me contar o que aconteceu?"
Balancei a cabeça, e ele não insiste.
Isso é o que eu gosto nele: o vínculo que temos, o acordo mútuo de não pressionar o outro quando as perguntas são dolorosas demais para responder.
Passamos muito tempo à beira do lago - eu agarrada a ele tentando absorver algum calor, e ele verificando se a circulação nos meus membros volta ao normal.
"Espero que saiba que vai causar um rebuliço quando chegarmos em casa."
Um dos seus braços envolve minhas costas, o outro passa por baixo dos meus joelhos, e ele me ergue do chão.
"Mamãe e papai vão pirar quando te virem assim."
Assinto. Meus pais certamente farão escândalo por eu não ter voltado antes do anoitecer, e aparecer desse jeito não vai ajudar.
Silas não fala mais; carrega-me em silêncio pelo caminho até as ruas vazias da aldeia.
O frio ainda persiste nas minhas entranhas e não sei mais o que fazer para me aquecer.
Suspiro aliviada ao ver nossa casa à distância, lançando luz alaranjada pelas janelas.
Quando chegamos à porta, Silas a chuta e a avalanche de preocupação da minha família começa.
"O que aconteceu?" pergunta meu pai, levantando-se da cadeira junto à lareira.
"Elara!" O grito da minha mãe corta o ar. "Minha menina! O que houve? Você está encharcada!"
"Tragam o máximo de mantas que puderem", ordena Silas enquanto me conduz em direção ao fogo.
Nem chego a sentir o alívio de estar perto da lareira.
Desmaio a caminho dela, e a última coisa de que tenho consciência é a cabeça caindo para trás com um choque agudo.
Como era de esperar, passei meu aniversário e os dias seguintes na cama com pneumonia que fazia o ar sair do meu peito com um relincho. Quatro dias depois, minha aparência não melhorou muito, e espero que isso sirva de desculpa para que ninguém me compre esta noite.
Meu cabelo preto e grosso está cuidadosamente preso na nuca com pequenos grampos florais. Minha pele tem um tom sem vida e duas ranhuras roxas repousam sob os olhos.
"Minha menininha..." diz mamãe entre lágrimas enquanto belisca minhas bochechas para lhes dar cor. "Não estou pronta para este momento. Nenhum de nós está."
Meu peito aperta a cada palavra; pisco várias vezes para afastar a vontade de chorar. Minhas lágrimas só tornariam tudo mais difícil.
"Não se preocupe, mamãe. Talvez eu tenha sorte e ninguém me ache apetecível o bastante hoje à noite."
Os olhos da minha mãe me encaram sem humor, vermelhos e inundados de lágrimas.
"Quer queira ou não, esta é a última noite que passará sob o nosso teto." As mãos dela pousam nos meus ombros e ela me puxa para um abraço. Acaricia minhas costas levemente. "Fique saudável - não por eles, mas por você, Elara. Escreva para nós, nos diga de alguma forma que você ainda está viva."
"Vou tentar", respondo sem convicção.
A maioria de nós já sabe o destino que nos aguarda uma vez comprados.
Cada vampiro deveria ter um certo número de "alimentadores" conforme sua patente. Nem mais, nem menos, desde que eles permaneçam saudáveis e capazes de cumprir seu dever.
Não lhes é permitido nos ferir, exceder ou apressar nossas mortes. Mas são só palavras, leis escritas por seus ancestrais e pelos nossos para garantir uma paz.
Na prática, muitos deles bebem em excesso, nos deixam secos, descartam-nos e logo encontram um substituto, com a colaboração, é claro, de leilões Carmesins corruptos.
Mamãe me deixa sozinha por alguns instantes, que uso para gravar na memória cada detalhe do que foi meu quarto por dezoito anos - meu lugar de descanso e confissões.
Estou usando o vestido mais bonito e novo do meu armário.
Aquele que aperta meu peito tão fortemente que é difícil respirar.
É de veludo verde com bordados em fio dourado; o decote quadrado revela as curvas dos meus seios. Levanto-me do banquinho diante da penteadeira e pegou o xale.
Dou-me uma última olhada no espelho e involuntariamente passo os dedos pela curva do meu pescoço, como se já soubesse que nunca o veria intacto outra vez. Envolvo o xale sobre os ombros, seguro-o com força e saio do quarto.
Desço as escadas, ouvindo cada ranger da madeira, e vejo todos os rostos da família à espera lá embaixo.
"Você está linda", diz Silas, os olhos brilhando.
"Elara está sempre linda."
Papai prende minha mão ao descer o último degrau e me puxa para o peito, abraçando-me com força até que meus ossos protestem.
Ainda assim, não digo nada.
Fico ali por vários instantes, sabendo que esta será a última vez que estarei nos braços do meu pai.
É dolorosamente difícil me afastar.
"Elara?" uma voz infantil chama.
Minha irmãzinha olha para mim de entre as cabeças mais abaixo. Seus grandes olhos cor de mel me observam, amedrontados, e eu sorrio para tranquilizá-la. Abraço-a, aninando seu rosto contra o meu peito e fazendo-lhe carinho nos cachos acobreados.
Vou sentir tanta falta...
Não estarei presente para curar os joelhos ralados da próxima vez que ela cair brincando; não haverá mais histórias à luz de velas, e não verei o sorriso dela por causa de algum rapaz.
Nossos pais assistem à cena com angústia verdadeira, e Silas se junta ao abraço, envolvendo-nos e nos protegendo do mundo com a extensão do seu corpo.
Inalo o cheiro de casa enquanto contenho as lágrimas.
O som de um sino quebra o silêncio.
O Leilão Carmesim está aberto para nos receber.
Cada badalada cai sobre nós como um balde de água fria.
Mamãe prende a mão de Abigail, e meu pai oferece o braço para eu andar.
Silas fica à minha direita e abre a porta, deixando entrar uma rajada de ar gélido.
Todos prendemos a respiração por um segundo e então começamos a andar.
A rua está vazia, embora dezenas de pares de olhos nos observem pelas janelas.
Toda lua cheia é um evento que todos assistem da segurança de suas casas, com arrepios e corações apertados, pois cada vez que alguém entra no Leilão Carmesim, lembra aos outros do que um dia acontecerá em suas próprias casas.
Muitos outros leilões acontecem esta noite em centenas de aldeias amaldiçoadas como a nossa.