Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Romance > Vendida para o Don 2
Vendida para o Don 2

Vendida para o Don 2

Autor:: Edilaine Beckert
Gênero: Romance
Filho do temido Don Antony, Vinícius Strondda herdou o sangue frio do pai, só que nunca aprendeu a lidar com algo que não pudesse controlar. E Lucia Bianchi era exatamente isso: indomável, corajosa, e capaz de despertá-lo como nenhuma outra mulher. Ela não tem medo do seu olhar. Não se cala diante das suas ordens, mas carrega cicatrizes que gritam segredos, e que podem destruir ambos se forem revelados. Ele jurou que ninguém a teria. Ela jurou que jamais seria de um homem como ele. Entre amor e ódio, nasce um vínculo tão perigoso quanto proibido. "Você é a minha maior fraqueza, Lucia... e eu não sei se vou te salvar ou te destruir."

Capítulo 1 A história de Don Vinícius

Capítulo 1

Vinícius Strondda

A notificação vibrou no celular em cima da mesa de vidro.

Peguei o aparelho sem pressa, com a taça de vinho na outra mão, os olhos ainda voltados para o jardim do palazzo.

Abri o vídeo.

Demorei alguns segundos para entender. Minha noiva - a mesma que o conselho tinha me prometido desde moleque - estava deitada na cama, gemendo. Mas não era meu nome que ela chamava.

Era o de um maledetto capo.

Trinquei o maxilar. O cristal da taça quase estourou nos meus dedos.

O vídeo acabou, mas a imagem dela continuava queimando dentro da minha cabeça. Essa puttana jurava que seria a esposa perfeita para o herdeiro Strondda, enquanto se abria para qualquer um que tivesse coragem de desafiar meu sobrenome.

No mesmo instante, a porta do reduto abriu sem ninguém bater.

Maicon, meu tio e consigliere do meu pai, entrou como se a sala fosse dele.

- O conselho decidiu que chegou a hora, Vinícius. - Falou direto, cruzando os braços. - Assim que seu pai voltar da viagem, quer a resposta: você vai assumir o posto de Don ou vai continuar agindo como se não fosse o herdeiro da família Strondda?

Soltei um riso curto, sem humor.

- "Assumir" não é o problema, tio. O problema é a condição ridícula que eles colocaram pra isso.

- Casamento? - Ele assentiu, como quem repete uma sentença. - A tradição é clara. Precisa estar casado antes de ser nomeado Don, oficialmente.

Mostrei a tela do celular para ele. O vídeo ainda estava parado na imagem mais nojenta possível. A feição dele mudou imediatamente.

- Essa é a tradição que querem pra mim? Eu nunca vou casar com essa vadia. Meu pai derrubou um aliado por tentar mandar nele, e agora querem me forçar a usar uma aliança de uma puttana?

- Não estamos falando de qualquer casamento. - Maicon se aproximou, apoiando as mãos na mesa. - É estratégico, algo político. Eu me casei por uma ordem do seu pai. Olha só pra mim hoje... Estou ótimo assim.

Olhei para ele e bebi mais um gole.

- Estratégico pra eles, bom pra você, talvez. Pra mim, é só uma armadilha.

Maicon desviou o olhar, engolindo seco.

- Ela está no jardim, esperando para colocar a aliança oficial no dedo porque sabe que seu pai está pra chegar.

Deixei a taça sobre a mesa e fechei o casaco preto.

- Então vamos acabar logo com isso.

---

O sol da manhã iluminava as rosas vermelhas alinhadas quando atravessei o corredor e cheguei ao jardim.

Uma mesa comprida, meia dúzia de homens de terno, e- minha "noiva" - levantou-se com o sorriso ensaiado e o brilho de quem achava que me enganava.

Um dos acionistas mais velhos e tio da maledetta, se ergueu antes mesmo que eu chegasse.

- Finalmente, o princeso herdeiro resolveu aparecer. Achei que fosse deixar os negócios da famiglia para homens de verdade.

O jardim inteiro pareceu prender a respiração.

Parei a menos de um metro dele.

- O que você disse?

- Disse que, se não tem coragem de seguir as regras, não merece a cadeira que seu pai vai deixar. Fica enrolando pra casar. Imagino o resto.

Sorri de canto. A mão já estava na 357.

Meu disparo ecoou seco. O corpo dele tombou para trás, derrubando a cadeira.

Ninguém gritou. Todos sabiam: aqui era território do Don. Se meu pai não estava, eu mandava.

Guardei a pistola, limpei a mão na lapela do terno.

- Que sirva de exemplo pra qualquer maledetto. Principalmente os traidores. Não é, figlia de puttana?

Passei por cima do cadáver e caminhei até minha noiva.

- Pensou que eu nunca descobriria?

Ela ainda sorria nervosa, tentando disfarçar o pânico.

- Vinícius... eu posso explicar...

Encostei a arma no peito dela e curvei o rosto bem perto, o suficiente para que apenas os mais próximos ouvissem.

- Explicar o quê? Como o perfume do capo rival ficou grudado na sua pele? Ou como você gemeu o nome dele enquanto deveria guardar o meu?

O sorriso dela morreu na hora, a cor esvaiu do rosto.

Os acionistas se entreolharam em silêncio, entendendo o que eu já sabia.

- Não... não é o que você pensa... - gaguejou, os olhos marejados. - Eu posso explicar?!

- Pode, no inferno. De preferência para o diavolo.

Atirei.

O vestido branco ficou manchado de vermelho. O corpo caiu sobre as rosas.

O silêncio foi total. Até o vento parou. É claro que eu não deixaria pra depois. Aprendi desde criança... Lugar de traidor é queimando no inferno com o diavolo.

---

Foi então que percebi o movimento no canto do jardim.

Uma mulher corria pelo gramado lateral, contornando a fonte. Calça justa preta, blusa simples, coque bagunçado com mechas escuras e bem vermelhas escapando.

Não era do conselho. Não era convidada.

- Quem é aquela? - perguntei baixo a Maicon, sem tirar os olhos dela.

- Não faço ideia. Com tanto monitoramento, já deveria estar morta.

Ele puxou a arma, mas segurei seu braço.

- Não. Ainda - ele ficou me olhando.

A intrusa parou um instante para respirar, apoiando as mãos nos joelhos, sem perceber que era observada.

- Tragam ela pra mim. - Ordenei.

VDois soldados se afastaram da mesa e cruzaram o gramado. A mulher percebeu tarde demais e tentou fugir, mas foi agarrada pelo braço. Se debateu, chutou, xingou, mas foi arrastada até mim.

- ME SOLTEM! EU NÃO FIZ NADA! - gritou.

Quando parou diante de mim, seus olhos verdes me acertaram em cheio. Estava com raiva, não medo.

- Soltem. - Falei baixo, tirando a 357 do bolso e lustrando no tecido da roupa.

- O que acha que está fazendo? - ela cuspiu as palavras, ofegante.

Dei um passo à frente, estudando o rosto delicado.

- Garantindo que ninguém entra no meu território e sai vivo. - Ela olhou para todos os lados.

- Eu só estava correndo. - A voz dela tremia de fúria, não de pavor.

Inclinei a cabeça, meio sorriso surgindo.

- Odeio mentirosos. - Empurrei-a contra uma árvore, prendendo seu braço. - Tem um minuto pra me convencer a te deixar viver.

- Está louco? Eu só fugi de um cara!

- Perdeu alguns segundos. Seja mais eficiente.

Ela respirou fundo, os olhos faiscando.

- Pulei seu muro porque é o mais alto. Achei que ninguém notaria. Só isso. É só fingir que não viu e me deixar ir embora.

Passei a mão pelo corpo dela, firme, verificando se não carregava arma.

- Que ragazza... - sussurrei.

Alisei desde os braços até a bunda, cintura, bunda, coxas. Mamamia. Uma mulher dessas não passa despercebida em lugar nenhum.

- Me solta! Me solta! - ela gritava, mas nem ouvi o que dizia.

Eu só estava verificando se estava armada, mas essa puttana me deixou excitado.

- Mamamia.

Ela tinha a bunda farta, cheguei até as coxas grossas.

- Qual seu nome? Idade? Estado civil? - disparei as perguntas.

- É... Eu...

- VAMOS PORRA! DIGA!

- Lucia Bianchi. Vinte e quatro. Italiana.

- É solteira? - ela pareceu pensar.

- Sim.

Sorri de canto.

- Agora não é mais.

Arrastei-a pelo braço e a entreguei para meu tio.

- Prendam ela. Se querem casamento, vai ser assim. A noiva vai ficar presa. E eu escolho as regras.

Ela começou a espernear.

- Não! Eu não posso! Não vou casar!

Virei as costas sem olhar.

O conselho estava em choque, o jardim coberto de sangue, e eu já tinha decidido.

Meu tio se aproximou e perguntou:

- Não perguntou se é virgem?

- Não. Tanto faz. Não sei se vou esperar até a cerimônia.

- Merda! Seu pai vai nos matar.

- Foda-se. Se o preço para ser Don era uma esposa, que fosse a intrusa de olhos verdes que teve a ousadia de invadir meu território.

Um Strondda não pede permissão. Ele toma.

- Me dêem licença... Vou verificar minha noiva de perto...

Capítulo 2 A nova esposa

Capítulo 2

Isabella Romano / Lucia Bianchi

Fugir é o que eu faço de melhor. Sempre foi.

Principalmente agora, depois de um mês correndo de cidade em cidade, dormindo em lugares que nem dava pra chamar de cama, só para ficar longe dele. Do homem que um dia chamaram de meu marido.

Porque eu... Ah! Nunca chamei.

Fui obrigada a casar com ele quando tinha 19 anos. Com os Moretti não tem conversa. Mesmo ele sendo bem mais velho... e mesmo escondendo um segredo que transformava a vida de quem estivesse ao lado dele em um inferno.

Ele não tinha o que um homem tem. Não tinha pênis. E não era apenas a frustração que o consumia - era a raiva, o ódio por não poder ser como os outros. Descontava isso em mim, todos os dias, de todas as formas possíveis. Principalmente com palavras e humilhações que não deixavam marcas visíveis, mas me corroíam por dentro.

A ausência dele como homem não o tornava menos cruel. Pelo contrário. Ele parecia sentir prazer em lembrar que, no papel, eu era dele... mas, na prática, eu não passava de um troféu guardado para exibir poder, e um saco de pancadas emocional quando ninguém estava olhando.

Mas, agora eu só conseguia pensar que estava presa de novo. E não suportaria outro homem decidindo quando e onde eu podia respirar. Ainda mais, um que acabou de matar a noiva no seu jardim e me tocar no próximo minuto.

Já ouvi falar dessa família tantas vezes... os Strondda. Se eu soubesse que a casa deles era essa aqui, jamais teria pisado.

Como vou fugir, agora?

Ele me deixou numa sala grande demais, com janelas fechadas e uma porta trancada por fora. Comecei a andar em círculos, contando passos, observando cada canto. Aprendi rápido a medir distâncias e achar saídas com os Moretti. Eu sempre dei meu jeito para não morrer.

E então vi uma brecha. Uma porta lateral, mal fechada. Talvez um descuido de algum dos seguranças. Eu já estava com a mão na maçaneta quando ouvi o som seco da arma sendo carregada.

O mafioso arrogante estava na minha frente.

- Vai a algum lugar, Bianca? - Ele enfatizou o nome errado como se estivesse provando o gosto dele.

Fiquei parada.

- Já disse que é Lucia. - mantive a voz firme.

Ele entrou e fechou a porta. Encostou-se nela, levantando a pistola só o suficiente para me lembrar que eu estava sob sua mira.

- Então começa a falar. Quem é você?

- Já falei... - tentei, mas ele avançou dois passos, me empurrando de leve contra a parede.

- Cazzo! Não me venha com mentiras. Eu conheço o sotaque de uma verdadeira italiana aqui de Roma. E você... não é daqui.

Senti meu coração acelerar, mas deixei escapar um sorriso rápido, quase debochado.

- E desde quando um homem como você se importa de onde uma mulher vêm?

Ele inclinou a cabeça, como quem avalia uma presa que morde.

- Desde que ela pule o muro da minha casa e ache que pode correr no meu jardim. - esticou o punho mexendo no meu cabelo com a arma. O coque despencou - Desde que ela se torne minha. Eu penso e faço o que quiser.

O maledetto ergueu a outra mão. Passou o polegar nos meus lábios devagar e senti o ar sumindo por alguns segundos.

Então era assim que um homem deveria tocar uma mulher?

Seu dedo era áspero, mas o toque gentil.

Respirei fundo, improvisando na hora. Então lembrei que uma arma ainda estava apontada para minha cabeça. Mesmo gostando de senti-la entre meus fios de cabelo.

- Cresci no sul, perto de Taranto. - Ele passou a arma na minha bochecha. Eu não sabia se era uma ameaça ou uma carícia.

- Continue ragazza.

- Minha tia se mudava muito por causa do trabalho... mudei tanto de cidade, que até eu confundo o sotaque.

O olhar dele estreitou, mas não disse nada. Eu continuei.

- Vim para Roma para... começar de novo. Arrumar trabalho. E porque tinha alguém atrás de mim... - deixei a frase morrer.

- Alguém? - Ele se aproximou, e agora estávamos bem perto. - Alguém como? - ergueu meu rosto com a arma, segurando meu queixo.

- Um ex. - disse rápido, baixando o olhar. - Não era uma boa pessoa. Me seguiu, e eu fugi. É isso.

O silêncio dele era pior do que gritar.

Então do nada, me prendeu com o corpo, como se estivesse medindo cada reação minha.

- Então, Lucia Bianchi... se você está fugindo, correu para o lugar errado. Encontrou o cara errado.

- É simples. Me deixe ir - Olhei bem para seus olhos verdes, eram parecidos com os meus. Sua pele era bonita, com bastante barba, mas nenhum fio branco.

- Qual o nome do cara? - perguntou me fazendo ficar assustada.

Eu nunca poderia dizer quem era, então inventei:

- Dino... Aliás, o chamam de dinamite. É explosivo. - foi a primeira coisa que pensei.

Ele puxou uma cadeira, sentou. Bateu no seu colo.

- Senta aqui. - Ele queria o quê? Dá última vez que fiz isso levei uma mordida no ombro que tenho a cicatriz até hoje.

- Pra quê? - estremeci.

- Vai sentar ou não, maledetta?

Demorei alguns segundos, ele levantou com raiva e me obrigou a sentar. Já imaginei milhões de coisas. Ele me puniria como sempre fazem.

Senti minha blusa ser erguida. Ele me fez tirar com o auxílio da arma na mão para que eu lembrasse quem ele era.

As lágrimas escorreram no meu rosto, imaginando as chicotadas. Fechei os olhos e segurei firme na cadeira esperando o primeiro golpe. Não tinha adiantado nada tanta fuga. Acabei nas mãos de um monstro diferente. Apenas bonito.

Mas diferente disso senti sua mão deslizar devagar pela minha pele.

- Foi o maledetto, não foi? - sussurrou.

- O que? - virei parcialmente o rosto pra ele.

- Me disseram você poderia ser uma pessoa e que tinha uma marca aqui nas costas, mas... Te bateram... Quem quer que seja que fez isso vai pagar.

- Está preocupado comigo? - perguntei incrédula.

- Você é minha agora. Me pertence. E tudo que pertence a um Strondda, tem seu valor. - Senti ele se afastando. - Vou trazer esse figlio de puttana até aqui.

- Não! Por favor! - levantei apressada, procurando pela blusa. Se ele fosse atrás descobriria que menti. Não existe nenhum Dino.

- Tem tanto medo assim, piccola?

Movi a cabeça confirmando.

- A esposa do novo Don não deve temer. Terei que te ensinar algumas coisas.

- Esposa? Ainda está com isso na cabeça? Eu não quero casar. Esquece essa possibilidade.

- Tarde demais ragazza... Nosso casamento já foi marcado. Em breve te levarão para o seu quarto.

Quis gritar, fazer um escândalo, mas como? Se eu contasse a verdade ele me entregaria para os Moretti...

Merda! Eu preferia morrer a voltar para um Moretti.

Capítulo 3 Piccola

Capítulo 3

Vinícius Strondda

Saí do quarto e fechei a porta com força. Aquele olhar dela ainda queimava no fundo da minha cabeça, mas não deixei que transparecesse nada.

Irei atrás do maledetto figlio de puttana que ousou machucar a Lucia daquele jeito.

Não a conheço, não sinto nada por ela, mas não aceito esse tipo de coisa e nem quero ninguém incomodando no meu casamento.

Quando passei pelo jardim, esbarrei numa rosa vermelha. Estava bonita demais, intocada demais. Estiquei a mão, arranquei-a e esmaguei as pétalas entre os dedos. Sorri de canto. Aquilo era o retrato da minha vontade: destruir o que os outros tentavam manter perfeito.

Abri o portão e encontrei meus homens perfilados como cães à espera de comando. Eu já tinha avisado pelo rádio, era o mínimo que poderiam fazer.

- Escutem bem. Quero um tal de Dinamite. Ainda hoje. Vivo, mas de joelhos. Alguém sabe quem é?

Carlo ergueu o queixo, com aquele jeito insolente que só ele tinha coragem de ter comigo.

- Chefe, esse eu conheço. Um merda de traficante. Vive atrapalhando nossas cargas nas docas.

Meus lábios se curvaram num sorriso frio.

- Melhor ainda. Vamos acabar com isso.

Dei um passo, mas ergui a mão, segurando a sede deles.

- Esperem lá fora. Eu vou buscar a ragazza.

Assentiram.

Voltei e abri a porta rapidamente. Ela estava de pé, os braços cruzados, tentando parecer firme. Mas a tensão no corpo a denunciava. Vi quando abaixou o olhar do teto. Estava tramando um jeito de sair.

- Vem comigo.

- Pra quê? - a voz falhou.

Dei dois passos, olhando seu cabelo vermelho em contraste com a pele branca e olhos verdes com delineado preto. Caralho! É exótica. Tem a boca bonita..., mas vou deixar pra avaliar depois. Agora quero resolver essa pendência.

- Vem! - puxei a ragazza pelo braço.

- Onde estamos indo?

- Atrás do cara que ousou te machucar. Vai morrer ainda hoje.

Ela arregalou os olhos.

- Não! Não precisa... não o mate.

- Não matar? Está debochando piccola?

Avancei rápido. A pistola gelada encostou em seu pescoço. Vi o tremor percorrer seu corpo inteiro.

- Tá com pena, porra? - rosnei baixo. - Esse maledetto vai visitar o diavolo. Só preciso que você veja o rosto dele e confirme se é o mesmo. Ninguém mais vai me fazer de idiota.

- Eu não quero...

- Sou eu que mando aqui, caralho! - colei meu rosto no dela, o hálito quente. - Se abrir o bico pra me envergonhar, não vou te dar um tiro de presente por sua morte, vai apodrecer nas celas do meu pai por traição, no meio de monstros que não perdoam mulher. É isso que você quer?

As mãos dela estremeceram. A coragem morreu no olhar. Negou rápido.

- Então anda logo.

Arrastei-a pelo braço até o carro, enfiei no banco do passageiro e bati a porta. Entrei do outro lado, liguei o motor. Durante o trajeto, observei de relance: ela respirava rápido, os dedos presos ao tecido da saia. O medo transbordava, mas havia raiva também. E isso me divertia.

Chegamos ao galpão. Meus homens já esperavam. Dois caminhões foram posicionados de modo a bloquear a entrada. Outros quatro seguravam metralhadoras, cobrindo as janelas. Dei o sinal.

- Vai.

Em segundos, as portas de ferro foram arrombadas com correntes e uma barra de ferro. O som metálico ecoou pelo ar, assustando os bastardos lá dentro. O primeiro dos meus invadiu chutando um capanga contra a parede, o segundo explodiu uma luz de emergência para cegar o ambiente. Eu entrei logo depois, Taurus 9 mm dourada em punho, avançando como dono do território.

- Todo mundo no chão! - gritei, e meus homens abriram fileiras, encurralando os traficantes.

Os ratos largaram armas, mãos para o alto. O cheiro de suor e medo tomou conta. Cada respiração deles era um pedido de clemência que eu não pretendia atender.

Me voltei para o carro. Ela ainda estava sentada, imóvel, como se o banco fosse uma prisão.

Abri a porta que estava travada.

- Vamos.

- Não... - tentou se segurar. Inclinei o corpo sobre ela.

Levei o cano da pistola até seu queixo.

- Quer amanhecer presa? Fodida, usada? Porque em menos de um minuto esses animais fazem isso com você.

Ela tremeu, mas obedeceu, saindo devagar. Caminhou ao meu lado, o corpo rígido, os olhos arregalados. Analisava cada cadáver vivo que respirava ali dentro, cada capanga ajoelhado. Era como se estivesse vendo um inferno pela primeira vez. Só que duvido que seja.

- É aquele ali? - apontei com o cano para o homem que Carlo tinha indicado.

Ela balançou a cabeça em negação.

A raiva ferveu.

- É algum daqui, porra?! - avancei, meu corpo colado ao dela, sentindo o tremor correr dos ombros até a ponta dos dedos.

Ela engoliu em seco.

- Não... não é nenhum deles.

Olhei nos olhos dela. Havia medo, mas também algo escondido, como se tentasse me enganar. Isso bastava.

- Foda-se. - ergui a pistola. - Vão morrer assim mesmo.

Atirei. Um estampido seco, depois outro. Meus homens seguiram meu ritmo, disparando em uníssono. O som ensurdecedor preencheu o galpão. Os corpos tombaram um a um, espalhando sangue no chão de concreto. São malditos traficantes baratos que só fazem merda pra atrapalhar os carregamentos do meu pai. Estou farto deles.

Lucia gritou. Um grito desesperado, puro. Virei devagar, encarei-a. Ela mordeu os lábios e silenciou.

Tentou correr quando dei as costas, mas minha mão agarrou seu braço antes mesmo do segundo passo.

- Nem pensa.

A empurrei de volta para o carro, enfiando-a lá dentro como posse minha. Ela respirava rápido, as mãos trêmulas.

- A gente vai conversar de perto piccola. Va bene? - virei passando a Taurus nela. - Ninguém me faz de besta. Espera só a gente chegar.

Observei o rosto dela por um instante. O medo brilhava, mas também havia fúria. Ela não é nada tradicional. Gosto disso.

E foi ali que decidi: Lucia Bianchi não fugiria de mim. Nunca.

Mas essa noite não me escaparia. Não a deixaria ir até me contar porque não queria o maledetto morto.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022