Esther Hawthorne.
Sempre achei que havia algo de errado comigo. Às vezes, era meu cabelo negro demais, longo e ondulado demais, como se carregasse sua própria sombra. Outras vezes, eram meus olhos cinzas: frios, raros, quase estranhos que chamavam atenção mesmo quando eu tentava desaparecer.
Ou talvez fosse a minha pele clara, tão branca que qualquer emoção parecia se acender nela com as sardas que eu carregava desde criança.
Mas, no fundo, eu sabia o verdadeiro motivo de me sentir deslocada: O luto silencioso que nunca foi embora.
Cinco anos se passaram desde que meus pais morreram. Um acidente, disseram a polícia, e bom... Eu acreditei.
Repetiram tantas vezes que deveria ter virado verdade, mas dentro de mim... nada se encaixava.
Desde então, eu vivi com Lucas Hawthorne, meu tio. O irmão do meu pai. O homem que nunca fez questão de esconder o quanto não queria estar no meu caminho.
Lucas nunca gostou de mim. Eu sempre soube. Só achava que era indiferença. Algo frio, distante... suportável. Nunca imaginei que pudesse ser pior.
Mas naquela tarde, eu senti algo estranho, não sabia bem explicar.
Lucas apareceu na porta do apartamento, batendo com força, chamando meu nome com uma urgência que nunca ouvi antes. O que poderia ser? Pensei.
Estava secando a louça, quando ouvi sua voz.
- Esther. Vamos sair. - Sua voz era impaciente. - Já chamei um táxi. Anda logo.
Eu franzi a testa, confusa.
- Sair? Para onde? - perguntei secando minhas mãos no pano.
- Só quero dar uma volta. - Ele respondeu seco, abrindo a porta como se estivesse atrasado para algo.
Ele nunca fazia isso. Nunca me chamava para nada. Nunca demonstrava nenhum interesse em mim.
Ainda assim, eu obedeci. Talvez por hábito, por medo. Não sei. Eu só obedecia, era rotina eu fazer isso.
Só saí do apartamento e entrei no veículo, eu me perguntava, para onde estávamos indo, ele não disse nada o caminho todo.
****
Quando o táxi parou diante de um portão enorme de ferro, cercado por muros altos e seguranças armados, rostos cobertos por máscaras, postura rígida, meu coração parou por um segundo.
Eu reconhecia aquele lugar. Reconhecia as histórias, os avisos, os sussurros.
A mansão Moretti. O lar do homem que todos temiam. Minha respiração travou. Minhas pernas pareciam de borracha. Antes que eu pudesse pensar, meu corpo simplesmente reagiu. Saímos do carro, mas naquele instante, quis ir embora, correr dali. Não ficaria ali, o que meu tio estava fazendo aqui afinal?
Meu coração disparou, o medo me invadiu. Não pode ser.
Me virei e tentei correr, mesmo que minhas pernas estavam bambas.
Mas a mão do meu tio agarrou meu pulso com tanta força que ardeu como fogo na pele. Ele me fez virar para ele, seu rosto estava furioso, um olhar que nunca vi antes, não com tanta raiva.
- Para com isso. - Ele rosnou. - Vai entrar por bem ou por mal.
Ele estava louco? Por que estava fazendo isso?
Não tinha como eu lutar com ele, era impossível. Eu só não sabia, porque ele estava fazendo isso? Era por raiva de mim? Por que não gostava de mim? Não sabia.
Ele me puxou até os portões e aqueles homens... Abriram aquelas grades.
Quando meu tio caminhou e me puxou, senti que estava entrando em outro mundo. Um pesadelo. O caminho iluminado por luzes amareladas criava sombras compridas. Havia homens armados em todos os lados.
Meus dedos tremiam, e eu mal conseguia respirar. Na mansão, o impacto foi ainda pior. Uma mesa longa ocupava o centro da sala, sobre ela, um contrato.
O que era isso? Meus olhos saltaram.
Ao redor, capangas imóveis como estátuas, me observando. E então eu o vi. O Don.
Damian Moretti. O homem mais temido de toda a Califórnia.
Ele estava sentado à cabeceira como se fosse dono do mundo. A luz baixa tocava seus olhos castanhos intensos, profundos, perigosos. As tatuagens subiam por seu pescoço e sumiam sob a camisa aberta, revelando só o suficiente para dar medo... e curiosidade.
Quando os olhos dele encontraram os meus, senti algo gelado correr por dentro.
Era como se ele estivesse anotando cada detalhe meu. Meu cabelo, minha pele, meu medo, minha postura, minha respiração.Tudo. Nada passava despercebido.
Meu tio caminhou até a mesa, e só então percebi que suas mãos tremiam um pouco. Ele nem olhava para Damian. Apenas pegou a caneta e assinou o contrato.
Eu senti o chão sumir sob meus pés. Aquele contrato... era sobre mim. Claro... Ele estava, me vendendo para ele? Mas, por que? Não entendia.
Minha visão ficou turva por um instante. As palavras não faziam sentido. O ar parecia pesado demais para entrar nos meus pulmões.
Damian pegou a caneta com uma calma que me aterrorizou. Ele assinou como se estivesse fechando um acordo qualquer. E, com aquele simples gesto, minha vida deixou de ser minha.
Não era nada qualquer, era a minha vida... E agora... eu pertencia a ele.
- Um dos meus homens vai entregar o dinheiro. - A voz dele cortou o silêncio como lâmina.
Meu desespero finalmente explodiu. Eu corri até meu tio, segurando sua camisa, implorando.
- Por favor... me leve embora. Por favor, tio... eu não quero ficar aqui. Eu imploro... por que está fazendo isso comigo? Eu não entendo... - disse, com os olhos marejados.
Ele olhou para mim como se eu fosse nada. Olhos vazios, não havia nada ali, e isso era bem pior.
- Você não é mais problema meu. - disse, afastando minha mão com violência.
E então... ele foi embora. Sem olhar para trás. Sem hesitar. Sem remorso.
Meu mundo quebrou ali. Segurei o choro com tanta força que meus dedos doíam enquanto apertavam meu vestido. Mas não adiantava. Foi então que eu senti. A presença dele.
Damian Moretti se aproximou devagar. Seus passos eram calculados, firmes. Predatórios.
Quando ele parou diante de mim, a sala toda pareceu encolher. Ele me observava como se eu fosse uma peça rara que acabara de adquirir.
- Agora você é minha. - disse, sua voz rouca e baixa, carregada de um poder que me fez estremecer.
Sua mão tocou minha cintura. Forte. Quente. Ele me puxou até a parede gelada, prendendo meu corpo com facilidade. Arfei, tentando empurrá-lo, mas era impossível movê-lo. Ele era grande demais, forte demais.
Mesmo assim... eu consegui me afastar alguns centímetros. Não muito. Mas o suficiente para mostrar que eu não queria aquilo. Os olhos dele mudaram. Eles se estreitaram... E então vi algo que me deixou sem ar:
Interesse. Diversão. Curiosidade. Como se eu fosse o primeiro desafio da vida dele.
Ele sorriu de lado, um sorriso perigoso, lento.
- A partir de hoje... tudo será divertido. - Ele disse, como se estivesse me avisando e brincando ao mesmo tempo.
Depois, estalou os dedos.
- Levem-na para o quarto. E reforcem a porta. Não quero que ela saia.
Dois homens vieram imediatamente. Me seguraram pelos braços e me arrastaram pelo corredor como se eu fosse leve demais para importar. A mansão parecia um labirinto escuro, iluminado apenas por lâmpadas antigas, jogando sombras estranhas nas paredes.
Quando a porta se fechou atrás de mim, eu não aguentei.
Meu corpo cedeu.
Me joguei na cama e comecei a chorar, não acreditando que meu tio tinha feito isso. Ele me vendeu para o Don, mas por que? Eu não valo nada, isso não tem explicação.
Esther Hawthorne
Eu quase não dormi naquela noite.
Na verdade, não dormi.
Passei horas rolando na cama, com o corpo encolhido e o coração quebrado, tentando imaginar algum motivo... qualquer... que explicasse o que meu tio fizera. Mas nada fazia sentido.
Eu chorava.
Me escondia debaixo das cobertas.
Me abraçava, tentando me sentir inteira de novo.
Mas eu estava falhando.
Os dias seguintes não foram melhores.
Eu continuava presa naquele quarto enorme, frio, silencioso demais. A porta é sempre vigiada por dois seguranças. As janelas eram de vidro blindado, impossíveis de quebrar. Os corredores, quando eu os ouvia de longe, pareciam intermináveis, como se a casa toda fosse uma prisão planejada nos mínimos detalhes.
Eu estava viva. Mas não livre.
E isso me destruía um pouco mais a cada dia.
No terceiro dia, quando meu corpo já não tinha forças para chorar, ouvi batidas na porta.
Meu coração disparou.
- Senhora Hawthorne. - A voz era firme, masculina, sem emoção. - Abra a porta.
Eu me levantei devagar. Minha mão tremia enquanto segurava a maçaneta. Quando abri, só um pouco, vi um dos homens do Don parado ali, enorme, sério, usando preto da cabeça aos pés.
- Você precisa se alimentar. - Ele disse, estendendo um prato. - O Don vai querer vê-la em breve.
Meu estômago se revirou só de ouvir aquilo.
Mas eu peguei o prato, murmurando um "obrigada" quase inaudível, e fechei a porta rapidamente.
O prato tinha frutas, pão e uma vitamina. Eu bebi tudo devagar, tentando não enjoar.
Foram os primeiros alimentos decentes desde que cheguei. Eu sobrevivi só com água e algumas frutas. Meu corpo estava fraco, minha cabeça, pesada. Mas eu precisava recuperar alguma força... mesmo sem saber para quê.
Algumas horas se passaram, e eu me aproximei da janela, única coisa que me conectava ao mundo lá fora. Foi aí que o vi.
O Don.
Damian Moretti saiu de um carro importado preto, impecável. Passou a mão nos cabelos, empurrando-os para trás, enquanto dois de seus homens o acompanhavam. Ele tinha aquela presença... aquela forma de caminhar como se nada pudesse atingi-lo.
Meu peito apertou. Em breve, ele viria até meu quarto. E eu estava apavorada.
Foi então que a ideia surgiu. Eu precisava fugir.
Abri a porta devagar, com medo de encontrar alguém ali. Mas os seguranças não estavam na entrada. Talvez tivessem descido para acompanhar Damian. Aquela era com certeza minha única chance.
Meu coração batia tão rápido que parecia sacudir o meu corpo inteiro.
Eu saí para o corredor, respirando fundo, tentando não fazer barulho. Cada passo ecoava nos meus ouvidos, mesmo que não fizesse som algum. Eu precisava ser rápida.
Ouvi vozes. Passos.
Me escondi atrás de um armário no fundo do corredor, apertando o corpo contra a parede, como se pudesse desaparecer ali. As vozes se aproximaram.
- Ela não está no quarto. - disse um dos homens.
- Como assim? Quem estava na porta? - outro disse.
- Abram busca no corredor. Agora! - ordenou um deles.
O pânico subiu pela minha garganta. Eu não podia ser pega. Não ali. Não daquele jeito. Senti minhas mãos suarem enquanto olhava para os lados. Foi quando vi: uma janela do outro lado do corredor. Era alta, mas era minha única saída. Corri até ela. Sem pensar. Sem respirar.
Quando minhas mãos tocaram a janela e eu consegui destravá-la, uma voz cortou o ar atrás de mim.
- Ora, ora... - A voz dele era baixa, grave, iminente. - A coelhinha se cansou de se esconder e resolveu fugir de mim?
Meu coração quase explodiu.
Virei devagar, sentindo meu rosto queimar. Ele estava ali, Damian Moretti, parado no fim do corredor. O sorriso dele era curto, perigoso. Seus olhos escuros estavam fixos em mim como se eu fosse uma brincadeira pessoal.
Ele começou a andar na minha direção. Um passo. Depois, outro. Cada movimento firme, decidido.
Eu não conseguia me mexer.
Quando ele chegou perto o bastante, avançou sem hesitar. Sua mão segurou minha cintura e me prendeu contra a parede com força. A outra segurou meu rosto, guiando meu olhar para o dele, não havia distância entre nós. Eu podia sentir sua respiração quente na minha pele. Seu cheiro masculo, sua colonia, ele era tão quente, tão forte.
- Você realmente achou que podia fugir de mim? - Ele perguntou, a voz baixa, carregada de ironia e irritação mascarada.
Os homens dele apareceram no corredor, mas pararam ao ver a cena. Era claro: quando o Don estava envolvido, ninguém interferia.
Eu respirava rápido demais.
- Eu... eu não quero ficar aqui. - Eu disse, com a voz falhando. - Esse lugar não é meu... eu não pertenço a isso... por favor, me deixe ir embora, você não precisa de mim, eu não valo nada.
Os olhos dele pareciam queimar. Era raiva? Desejo? Eu não entendia.
- Não pertence? - Ele repetiu, inclinando o rosto até quase encostar no meu. - Você pertence a mim, Esther. E nunca vai sair daqui. Você é minha, toda minha, todo seu corpo... é tudo meu. - senti seu halito sobre meu rosto, cheiro de whisky, forte, alcool puro.
Minhas pernas fraquejaram, meu corpo tremia, mas eu não ia desistir, eu queria sair dali, aquele lugar não pertencia a mim, com esforço forcei minha voz a sair.
- Eu não escolhi isso. Eu não sei por que meu tio me vendeu... mas, eu não valo nada para você, nada.
O sorriso dele desapareceu. Foi substituído por algo mais frio.
Damian aproximou ainda mais o rosto do meu, como se estivesse prestes a me beijar, mas parou um segundo antes.
- Seu tio era um homem miserável. - Ele disse. - Se você ainda não sabia disso, creio que vai descobrir agora. Você vai saber em breve o porque dele ter feito isso e vai dar graças a Deus por estar aqui, na minha mansão, sobre minha proteção, Esther. - A voz dele ficou mais baixa, mais ameaçadora.
- E se você ousar fugir de novo... eu não serei gentil, é meu ultimo aviso, eu não sou tão paciente.
Ele se afastou de repente, como se tivesse encerrado o assunto. Olhou para os homens dele.
- Levem-na de volta ao quarto.
Eu fiquei parada, tremendo, enquanto o corredor se enchia de olhares ferozes dos capangas, como se eu fosse uma criminosa que merecia punição.
Meu corpo encolheu sozinho. Não havia saída. Não havia salvação. Então eu voltei para o quarto em silêncio, com a cabeça baixa e as mãos tremendo. Eu não tinha outra opção.
Damian Moretti
Esther Hawthorne era jovem. Assustada. Frágil demais...
Mas havia algo nela que me chamou a atenção desde o primeiro segundo.
Talvez fossem aqueles olhos cinzas raros, frios, sempre atentos mesmo quando ela tremia. Talvez fosse o jeito como ela tentava se afastar de mim, de um jeito amedrontado, ela queria sumir da minha vista, ou pelo menos, tentar. E o mais importante, ela não sabia o poder que tinha seu sobrenome, disso eu tinha certeza, ela não sabia nada sobre si.
Uma coisa, porém, era certa: Ela era perfeita para o que eu precisava.
E pensar que tudo tinha começado com o tio dela aparecendo na minha porta no momento exato... isso só provava mais uma vez que o destino favorece para quem sabe usá-lo.
E então... ele apareceu... Lucas Hawthorne. Um miserável patético.
Devia dinheiro a meio mundo da máfia, incluindo alguns que estavam prestes a arrancar a pele dele. Sem família, sem títulos, sem dinheiro, sem poder. Não era nada. Apenas um parasita sustentado pelo nome Hawthorne, um nome que ele jamais teria direito de comandar.
Aquele verme. Mas eu teria. Assim que me casasse com Esther.
E seria rápido, eu tinha que pensar em tudo, planejar, queria algo perfeito e não de qualquer jeito. Queria que todos vissem que eu, o Don, seria marido da Esther e teria mais poder do que já tinha.
Eu estava sentado na minha cadeira de couro, no escritório, observando a cidade pela janela enquanto planejava meus próximos passos. O sol já estava começando a se pôr, tingindo tudo de laranja profundo. Eu apoiava os dedos sobre a mesa, batendo de leve, enquanto deixava meus pensamentos se organizarem.
O tio dela havia vindo até mim quase implorando para que eu a comprasse. Ele achava que estava fazendo um grande negócio. Mas a verdade é que eu já estava planejando isso antes mesmo de ele aparecer.
Eu só precisava de uma oportunidade.
E ele trouxe a peça certa no tabuleiro, empurrando-a bem para as minhas mãos.
Eu sempre movi meus homens como peças de xadrez.
E agora... eu tinha a jogada perfeita.
A lembrança dela tentando fugir mais cedo arrancou um sorriso do meu rosto.
O jeito como seus olhos arregalaram quando me viu no corredor...
A boca entreaberta de pavor...
O corpo encolhido contra a parede, incapaz de escapar...
Ela era tão previsível. Tão vulnerável. Tão fácil de quebrar se eu quisesse. E ainda assim... havia algo ali. Algo que me empolgava mais do que deveria. Ela era minha. Mesmo que não aceitasse isso ainda. E se ousasse brincar comigo... Bem, ela aprenderia rápido a se arrepender.
Ninguém me desafia. Ninguém.
Em breve, eu me casaria com ela. Abriria as portas do império dos Hawthorne, um império que deveria ter sido meu desde o início e colocaria meu nome em mais países, mais territórios, mais negócios.
Poder atraía medo, e medo mantinha tudo funcionando. E eu conquistaria cada parte disso.
Após revisar alguns documentos, finalizei ordens, fiz anotações e enviei instruções aos meus homens. O escritório estava silencioso, exceto pelo som constante da caneta batendo contra a mesa enquanto eu pensava.
Por fim, decidi fazer uma ligação.
Peguei o celular e disquei o número. Em poucos segundos, uma voz familiar atendeu.
- Daniel.
Meu sócio mais confiável. Amigo de anos. Alguém que entendia o jogo tanto quanto eu.
- Damian. Achei que você tivesse sumido. - ele disse, rindo.
- Longe disso. - Eu relaxei na cadeira. - Tenho novidades. - disse, esboçando um largo sorriso.
- Boas? - ele parecia curioso.
- As melhores. Consegui exatamente o que queria. - inspirei fundo.
Ouvi o silêncio dele por um segundo, seguido de um assovio.
- Conseguiu a garota?
- Consegui tudo - respondi. - O tio idiota dela a vendeu. Estava devendo a outros mafiosos e não tinha saída. Fez o que um miserável faria.
Do outro lado da linha, Daniel começou a rir.
- Impressionante, Damian. Você sempre consegue o que quer.
- Eu sempre planejo antes. Ele só acelerou o processo.
- O que me interessa saber é... - Daniel mudou o tom, curioso. - Ela é bonita? Vai servir como esposa? Porque pelo menos o sobrenome dela vale muito. Mas, para ter herdeiros... ela precisa ser apresentável. - comentou, dando uma leve risada.
Fiquei em silêncio por alguns segundos. Não porque não soubesse responder, mas porque a imagem dela surgiu sozinha na minha mente. Cabelos negros, longos. Pele branca demais, quase transparente. As sardas no rosto... Os olhos cinzas frios, assustados, mas absurdamente marcantes.
Eu não pensei nisso na hora da venda. Não me importava com a aparência. Eu queria o nome. O poder. A entrada para o que pertencia à família dela. Mas agora...
Agora eu lembrava do jeito como ela me olhou no corredor. Como tremeu. Como tentou se afastar, mesmo sabendo que não podia. Sim. Ela tinha beleza. Uma beleza diferente, delicada, quebrada. E aquilo me agradava. Senti um sorriso subir lentamente pelos meus lábios.
- Você a verá em breve, Daniel - respondi, ainda com aquela imagem fixa na cabeça. - E então você me diz se ela é bonita. Vai ficar em choque, meu caro.
Daniel riu outra vez.
- Então está feito. Quando é o casamento?
- Em breve, não quero nada às pressas, mas será mais rápido do que imagina.
- Claro que será. - Ele suspirou com diversão. - Parabéns, Damian. Você acabou de subir mais um degrau.
- Eu sei. - Minha voz saiu firme, precisa. - E ainda há muitos outros pela frente.
Nos despedimos e desliguei.
O escritório voltou ao silêncio absoluto. A luz do fim de tarde pintava as paredes em tons escuros, projetando sombras longas. Eu permaneci ali, em pé, observando minha própria reflexão no vidro.
Eu, Damian Moretti, aos vinte e oito anos, comandava um império.
Mas em breve... teria outro, bem maior. Mais poderoso. Com raízes profundas demais para qualquer inimigo arrancar. E Esther Hawthorne era a chave disso tudo. Ela ainda não sabia. Nem imaginava. Mas logo, muito em breve... Ela seria minha esposa. Minha posse. Minha arma.
E todos que ousassem me desafiar aprenderiam, mais uma vez, o que significa enfrentar o Don.