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Vendida para o Dono do Complexo

Vendida para o Dono do Complexo

Autor:: Lanny Domiciano
Gênero: Romance
Luana cresceu entre as grades invisíveis da pobreza e da violência, tentando manter-se intacta num mundo que queria corrompê-la. Mas quando sua mãe contrai uma dívida impagável com o homem mais temido do Complexo do Arco, Luana é entregue como pagamento. Miguel Torres, conhecido como o Dono do Complexo, governa com punho de ferro. Respeitado por uns, temido por todos, ele não perdoa, não esquece e não cede. Para ele, tudo se resume a uma regra: quem entra em seu domínio, obedece. E agora Luana pertence a ele. O que começa como punição, rapidamente se transforma em um jogo perigoso de domínio e submissão, onde cada ordem dada por Miguel a obriga a se dobrar - e cada desafio feito por Luana acende nele a necessidade de dobrá-la. Presos em um vínculo tóxico e viciante, os dois descobrem que o controle pode ser exercido com palavras sussurradas no escuro, olhares que queimam mais do que açoites, e limites que são testados noite após noite. Luana tenta resistir, mas Miguel não quer apenas seu corpo: ele quer sua entrega completa, mente, alma e coração. Entre algemas emocionais, castigos que marcam e beijos que ferem, Luana se vê em um labirinto de prazer e dor, onde só existem duas opções: ceder... ou quebrar. No Complexo, amor é fraqueza. E Miguel está decidido a mostrar que, às vezes, se render é a forma mais cruel de sobreviver.

Capítulo 1 Dívida de Sangue

Luana

A noite caiu sobre o Complexo como uma maldição. O ar estava espesso, carregado de fumaça, suor e silêncio - o tipo de silêncio que precede o grito, o tiro ou o choro. Eu já conhecia bem aquele som invisível. Era o mesmo que cobria as ruas quando alguém ia morrer. As luzes brilhantes dos postes mal conseguiam romper a escuridão opressora, projetando sombras alongadas e distorcidas que dançavam ao ritmo de um vento lúgubre. O cheiro acre de pólvora e esgoto misturava-se ao aroma adocicado da maconha, criando uma sinfonia olfativa nauseabunda que perfumava cada viela, cada beco, cada barraco improvisado que se amontoava na paisagem caótica do Complexo.

As vozes abafadas dos moradores, antes tão vibrantes e cheias de vida, agora eram apenas sussurros temerosos que se perdiam no véu da noite. Crianças que antes brincavam na rua até altas horas, agora estavam trancadas em suas casas, apertadas contra as mães, com os olhos arregalados, esperando o inevitável. Os cães, normalmente tão barulhentos, jaziam quietos, seus latidos silenciados pelo instinto de autopreservação. O Complexo inteiro parecia prender a respiração, ciente de que cada segundo que passava era um passo mais perto da tempestade que se anunciava. Eu, no entanto, não sentia medo. Apenas a familiar sensação de torpor que me acompanhava desde o dia em que o Complexo se tornou meu purgatório. Era a calmaria antes do furacão, a promessa silenciosa de que a violência logo explodiria, arrastando consigo mais uma vida, mais uma esperança. E eu, como um fantasma, observava tudo, ciente de que logo estaria envolvida na tragédia que se desenhava.

E aquela noite... tudo em mim gritava que a morte tinha vindo cobrar. Só não sabia que seria a minha.

Eu estava descalça no chão da sala, as pernas dobradas contra o peito, ouvindo minha mãe sussurrar do outro lado da parede. A voz dela tremia. Eu nunca tinha escutado minha mãe tremer. Nem mesmo quando o marido dela sumiu com tudo o que tínhamos. Nem quando o gás acabou e ela teve que fazer miojo com vela. Mas agora... agora ela tremia.

E quando ela voltou, os olhos dela não se fixaram nos meus.

- O que foi? - perguntei.

Ela não respondeu.

- Mãe?

Ela engoliu seco. Sentou no sofá e soltou a bolsa no chão como se ela pesasse uma tonelada. A bolsa não pesava. Mas a culpa, sim.

- Eu fiz uma besteira, filha.

Meu estômago se revirou.

- Que tipo de besteira?

- Eu... eu pedi ajuda ao Miguel.

Miguel.

O nome bateu no meu peito como um soco seco. Quase cuspi.

Miguel Torres. O nome que ninguém dizia em voz alta no Complexo. O Dono. O Chefe. O Inferno com rosto.

Ele não era só traficante. Era o arquiteto do medo. O homem que mantinha todos em silêncio. O tipo de homem que podia arrancar sua língua por olhar torto. Que fazia do castigo um ritual. E agora... minha mãe tinha ido até ele?

- Você tá brincando - sussurrei.

- Eu não tinha escolha, Luana. Ele... ele emprestou o dinheiro. Era isso ou...

- Ou o quê? Deixar a gente com fome? A gente já passou fome antes! Mas isso? Isso é se vender pro diabo!

Ela fechou os olhos. A culpa explodindo nas rugas dela.

- Eu vou pagar - ela disse. - Eu juro que vou pagar.

Mas até eu sabia que era mentira. A dívida era grande demais. E Miguel não cobrava em reais.

Ele cobrava em carne. Em alma. Em obediência.

Duas noites depois, vieram me buscar.

Três homens bateram na porta. Não precisaram dizer nada. Um deles estendeu a mão, como se eu tivesse escolha. Minha mãe chorava em silêncio no corredor, encolhida como criança. Eu encarei aquele homem com ódio. Mas minhas pernas tremiam.

Fui com a roupa do corpo. Um short jeans, regata preta e chinelo. Fui como se fosse pro matadouro.

A Kombi velha me levou morro acima. Cada curva parecia mais escura. As luzes das casas iam sumindo. E então, o portão. Duplo, de ferro, alto. Guardas com fuzis. Eu nunca tinha chegado tão perto da casa dele.

A mansão do Miguel era um insulto no meio da favela. Muro alto, câmeras em todo canto, fachada branca imaculada. Como se o inferno tivesse decidido se vestir de paz.

- Sai - ordenou um dos capangas.

Saí.

Eles me conduziram até dentro como se eu fosse nada. A sala era ampla, com móveis caros demais pro cheiro de pólvora e suor que impregnava tudo. E ali, no centro da sala, ele estava sentado.

Miguel Torres.

Alto. Corpo largo. Camisa social preta, mangas dobradas nos antebraços. Olhos que não piscavam. Uma presença que esmagava.

Ele não me olhou de imediato. Continuou bebendo uísque como se eu não estivesse ali. Como se fosse apenas mais uma coisa que ele havia comprado.

- Senta - ele disse, sem levantar os olhos.

Não obedeci.

Foi instinto. Raiva. Medo disfarçado de orgulho.

Ele levantou o olhar. E quando nossos olhos se encontraram, eu senti como se ele me atravessasse.

- Senta - repetiu, mais baixo.

Eu sentei.

Minha respiração estava descompassada. As mãos suavam. E ele... apenas me observava. Como quem analisa uma peça. Como quem escolhe por onde vai começar a desmontar.

- Teu nome é Luana, né?

Assenti com a cabeça.

- A dívida da tua mãe é alta. Dinheiro que ela não tem. E diferente dela... você vale alguma coisa.

Meu coração disparou. Ele se aproximou. Os passos lentos. As mãos nos bolsos. Ele parou na minha frente.

- Você vai pagar por ela.

Eu cerrei os punhos.

- Como?

Um canto da boca dele se curvou, como quem aprecia a pergunta.

- Com obediência.

Fiquei em silêncio. Mas por dentro eu gritava. Meu corpo todo tremia.

- Aqui dentro, você não fala sem permissão. Não sai sem autorização. E, acima de tudo... não me desafia.

Ele inclinou o rosto. Tão perto que eu senti o hálito quente no meu pescoço.

- Entendido?

Engoli seco. E pela primeira vez, senti as correntes invisíveis apertarem.

- Entendido - sussurrei.

Ele se afastou.

- Boa garota - disse com um sorriso frio.

Aquela noite, ele não me tocou.

Mas me trancou em um quarto escuro com apenas um colchão no chão, sem janelas. As paredes nuas pareciam gritar. E mesmo no escuro, eu sabia: ali não era um quarto. Era uma jaula.

E eu era a nova propriedade do Dono do Complexo.

Capítulo 2 Entregue como Moeda

Luana

Acordei com a sensação de que não era mais dona de mim.

O quarto era frio, feito de paredes brancas demais, limpas demais. Nenhum quadro, nenhum espelho. Apenas um colchão velho no chão, uma coberta áspera e um travesseiro fino, que cheirava a desinfetante. Nenhuma janela. Nenhum som de fora.

Eu estava viva. Mas tudo em mim gritava que havia morrido - ou pelo menos a parte que acreditava que minha vida ainda me pertencia.

Levantei devagar. A cabeça pesava. Talvez do medo, talvez da falta de comida - ou talvez da raiva que crescia feito tempestade no meu peito.

Tentei abrir a porta. Trancada.

Bati com força.

- Ei! Abre essa porta! - gritei.

Silêncio.

Bati de novo. A respiração já curta, o peito queimando.

- Eu não sou coisa de ninguém, ouviu?! Eu não sou mercadoria!

Mas ninguém respondeu.

Sentei de volta no colchão. Os olhos ardiam, mas eu me recusei a chorar. Não por ele. Não ali.

Era isso o que ele queria. Que eu quebrasse. Que eu implorasse.

Miguel Torres, o dono do morro, o homem que mandava e desmandava, que tratava a vida como moeda, que comprava e vendia silêncios, agora também era dono de mim. Pelo menos, era o que ele achava.

Mas eu não ia me entregar fácil.

Eu ia resistir. Nem que fosse só por dentro.

Horas depois, a porta se abriu com um estalo seco. A luz do corredor entrou como faca nos meus olhos, e junto com ela, um homem alto, de roupas pretas, entrou sem dizer nada. Apenas apontou para fora.

Levantei. Os músculos reclamaram. A boca estava seca. Mas eu fui.

O corredor era amplo e silencioso. Câmeras em cada canto. Cada passo que eu dava parecia ecoar nas paredes. O capanga me levou até uma sala. Um espaço que parecia uma mistura de escritório com sala de interrogatório. Ali, ele estava. Miguel.

Sentado em uma cadeira de couro, pernas abertas, cotovelos nos joelhos. Como um rei examinando seu brinquedo novo.

- Senta.

O tom era calmo. Mas não havia espaço para recusa.

Sentei.

Ele me observou por um longo tempo. O silêncio entre nós parecia vivo.

- Dormiu bem? - ele perguntou.

Fiquei em silêncio.

- Já começou a desobedecer de novo?

- Eu não vim aqui por vontade própria - respondi, com a voz firme.

Ele riu. Um som baixo, cínico.

- Ninguém vem. Mas todos aprendem a ficar.

Aquela frase me deu calafrios. Ele se levantou e caminhou lentamente até mim. Os passos precisos, a presença sufocante.

Parou atrás de mim. Eu sentia o calor do corpo dele se aproximando, o som da respiração dele perto do meu pescoço.

- Você sabe por que está aqui? - sussurrou.

Assenti, com os olhos fixos no chão.

- Fale.

- Minha mãe... devia dinheiro. Você me pegou como pagamento.

- Como moeda. - Ele confirmou. - E sabe o que se faz com uma moeda?

Não respondi.

- Se usa. Do jeito que quiser. Até ela não valer mais nada.

Minha mandíbula travou.

Ele passou um dedo pela minha nuca, devagar. Meu corpo inteiro enrijeceu. O toque era leve, mas carregado de poder. Ele estava testando limites. E eu sabia que qualquer reação errada podia ser usada contra mim.

- Mas antes de usar... a gente ensina a funcionar. E você vai funcionar do meu jeito, entendeu?

- Eu não sou máquina - rebati, a voz tremendo de raiva.

Ele deu a volta e parou diante de mim, inclinando o rosto para o meu.

- Não. Você é propriedade. E eu cuido do que é meu.

As palavras arderam.

Propriedade.

Nunca imaginei ouvir isso dirigido a mim. E o pior: dito com tanta calma, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

- Você vai me obedecer - ele continuou - até isso parecer normal. Vai aprender a olhar nos meus olhos só quando eu permitir. Vai comer quando eu mandar. Vai falar quando eu deixar. E quando eu quiser silêncio... você vai se calar.

Fechei os punhos.

- E se eu não quiser?

Ele sorriu. Mas os olhos estavam frios.

- Você quer viver?

Meu coração parou por um segundo.

Era isso. Sem me bater. Sem gritar. Sem levantar a voz. Ele fazia isso: te dominava com palavras, com olhar, com a certeza de que, se ele quisesse, você sumia sem deixar rastro.

- Começamos hoje - disse ele, voltando à cadeira. - Primeira lição: confiança.

- Confiança? - cuspi. - Em você?

- Não. Em mim, você vai obedecer. A confiança é em você mesma... em não fazer merda. Vamos ver se consegue cumprir uma ordem simples.

Ele apontou para a bandeja sobre a mesa. Havia pão, queijo, suco.

- Coma.

Eu franzi a testa. Era isso?

- Não está envenenado, princesa. Mas se quiser morrer de fome, o problema é seu. Isso aqui funciona com regras. E regra número um: você come quando eu digo. E agora eu disse. Então... coma.

Fui até a bandeja. A mão trêmula. Cada mordida tinha gosto de derrota.

Ele me assistia. Não como um homem assistindo uma mulher comer. Mas como um dono observando se o cachorro aprendeu o truque.

Quando terminei, ele se levantou.

- Vai voltar pro quarto. Mais tarde, quero você pronta. Roupa em cima da cama. Você vai vesti-la. Sem questionar.

- Pra onde eu vou?

- Aonde eu mandar.

- Vai me vender?

Ele se virou, riu pelo nariz e respondeu sem olhar:

- Não. Te vender seria fácil demais. E você... eu vou manter por perto. Tem coisas que só se aprende com convivência. Você vai descobrir.

Voltei ao quarto.

A roupa estava lá. Um vestido preto, justo, curto. Mais maquiagem, salto, e até uma gargantilha fina com uma argola de metal no centro.

Engoli em seco.

Era humilhação com etiqueta.

Sentei no colchão com o vestido nas mãos. Ele estava me moldando. A cada ordem, a cada silêncio imposto, a cada toque que não era violência... mas dominação.

Ele não precisava me bater pra me dobrar.

Ele fazia isso com o olhar. Com a ausência de escolha. Com a certeza de que aqui, no morro, ele era Deus.

E eu era só mais uma alma entregue como moeda de troca.

Mas no fundo do meu peito, uma parte ainda gritava. Ainda resistia.

E essa parte... eu ia proteger com todas as forças.

Mesmo que ele tentasse quebrar cada pedaço de mim.

Capítulo 3 As Regras da Casa

Luana

Coloquei o vestido como quem veste a própria sentença.

O tecido colava na minha pele como se tentasse marcar cada curva, cada suspiro. Era curto demais, justo demais. E aquela gargantilha... a argola de metal no centro pesava no pescoço como uma lembrança constante de que eu não era mais livre.

Olhei para o espelho que agora tinham colocado no quarto - talvez para que eu visse a nova versão de mim mesma. A que pertencia a ele.

E pela primeira vez, meus olhos não pareceram meus.

Eles estavam opacos. Cheios de fúria engolida.

A porta se abriu sem bater.

Um capanga, o mesmo de antes, me olhou de cima a baixo. Seu olhar era neutro, mas carregado da mesma frieza que eu já estava começando a reconhecer em todos ali. Gente que vivia no silêncio, que servia Miguel como se ele fosse o único ar possível naquele lugar.

- Ele mandou chamar - disse.

Assenti e fui. O salto alto afundava nos tapetes do corredor a cada passo, e tudo em mim gritava desconforto. Eu nunca andei de salto. Nunca precisei. Aquilo era parte do espetáculo - do teatro de controle que Miguel montava ao meu redor.

Me conduziram até uma sala de jantar luxuosa. Madeira nobre, lustres pendurados, copos de cristal. Parecia um cenário de novela, mas tudo ali tinha cheiro de poder e dominação.

Miguel já estava sentado à cabeceira da mesa. Usava camisa preta de novo, dessa vez com os primeiros botões abertos. Braços musculosos à mostra, pulseira de couro no pulso esquerdo. A postura era relaxada, mas os olhos... os olhos estavam fixos em mim.

Me observando como se eu fosse a atração principal da noite.

- Senta - disse, apontando para a cadeira à sua direita.

Eu me sentei.

Havia dois pratos servidos. Comida fina, cheirosa, elaborada. Mas não toquei. Estava ocupada demais tentando entender o jogo.

Ele se serviu calmamente. Cortava a carne como se não estivesse sentado ao lado da mulher que ele havia arrancado da vida à força.

- Está bonita - disse, sem tirar os olhos do prato.

- Bonita pra quê?

- Pra mim.

Engoli a raiva. Mantive os olhos no copo de água.

- Achei que você fosse me humilhar com um quarto escuro. Não com salto e maquiagem.

Ele riu, curto.

- Você vai entender, com o tempo, que há muitos tipos de controle. O que eu aplico é o que molda. O que transforma. O quarto escuro quebra. Mas o espelho... o espelho faz você se enxergar como eu quero que se veja.

- Como objeto?

Ele ergueu os olhos, pousando o garfo.

- Como minha.

Me calei.

A comida esfriava no prato, mas eu não tinha fome. O silêncio entre nós era carregado de coisas não ditas, de limites sendo testados.

- Come - ele disse.

Peguei o talher com mãos trêmulas. Obedecer era horrível. Mas desobedecer... era pior.

Comi devagar. A garganta apertada, o gosto de raiva misturado ao tempero.

- Você vai ter regras aqui. E vai segui-las - ele disse, enquanto comia com elegância assustadora.

- Como um cachorro?

Ele deu um meio sorriso.

- Cães são leais. E bem treinados, protegem seu dono com a vida. Mas você ainda está no estágio de mordida. Vai aprender.

Meu rosto queimou. Mas eu não respondi.

- Regra número um - continuou, enquanto enxugava a boca com o guardanapo -: você fala quando eu permitir. Regra dois: você nunca sai do quarto sem ser chamada. Três: você não toca em mim sem minha ordem. E quatro... - ele se inclinou para mais perto - você pertence a mim. Aceitando ou não.

Ele segurou meu queixo com firmeza, obrigando-me a olhá-lo nos olhos.

- Se quebrar qualquer uma dessas, a punição não será com palavras.

Soltou devagar.

- Entendido?

Assenti, com os dentes trincados.

Ele voltou a comer como se nada tivesse acontecido.

- Vai ficar aqui quanto tempo? - arrisquei.

- O tempo que eu quiser.

- E depois? Vai me largar? Vai me vender?

Ele parou o garfo no ar. Me olhou como se estivesse calculando mil possibilidades.

- Isso vai depender de você. E de como você vai aprender a se encaixar no meu mundo.

- Eu não sou desse mundo - rebati.

- Agora é.

Depois do jantar, fui conduzida a um cômodo diferente.

Era escuro, com paredes acolchoadas e uma cadeira de madeira no centro. Um ambiente que não era um quarto. Nem uma sala. Era... estranho. Intimidador.

Miguel apareceu alguns minutos depois. Vinha sozinho. Sem capangas.

- Esse é o lugar onde a maioria aprende - disse, trancando a porta.

- Aprende o quê?

- A obedecer com prazer.

Meu coração disparou.

Ele se aproximou. Os passos lentos. A mão alcançou meu braço, e mesmo que fosse apenas um toque leve, o arrepio foi imediato.

- Você está aqui porque foi entregue. Mas pode escolher como será sua experiência. Pode tornar isso um inferno... ou uma transformação.

- Isso é loucura.

- Não, Luana. Isso é controle. E controle é tudo o que tenho.

Ele me girou de leve, até que eu ficasse de costas pra ele. As mãos passaram pelos meus ombros, descendo até minha cintura. Mas não foi carícia. Foi posse.

- Hoje, só vou mostrar.

Ele pegou uma fita de tecido preto e amarrou delicadamente nos meus pulsos, atrás das costas. Nem forcei. Não por submissão, mas por medo de piorar.

- Isso não é violência - ele sussurrou no meu ouvido. - Isso é entrega. Você só não percebeu ainda.

Fiquei imóvel. A respiração acelerada.

Ele não fez nada além disso.

Me virou de frente, tirou a fita com calma e me olhou nos olhos.

- Quando você entender o que é prazer na obediência... vai me agradecer.

Saiu da sala sem dizer mais nada.

E me deixou ali, tremendo. Não de frio. Mas de algo que eu não sabia nomear.

***

Horas depois, sozinha no quarto, encarei o teto escuro e tentei organizar meus pensamentos.

Ele não me tocou.

Não me machucou.

Mas me feriu com algo muito mais profundo: o controle que entrava sorrindo, que se instalava devagar, que confundia o que era certo e errado dentro de mim.

Eu ainda odiava Miguel.

Mas pela primeira vez, eu temi não o que ele faria comigo... e sim o que ele já estava fazendo dentro de mim.

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