Sua bochecha ardia, mas recusava-se a deixar que as lágrimas brotassem, pois não pretendia demonstrar que a agressão injusta lhe afetou. Falava para si que seu pai desaprovaria seu choro, entretanto, se ele estivesse ali, não teria permitido que levasse um safanão, não era mesmo?
As mãos da serva ainda tremiam de nervoso, enquanto domava com habilidade os cachos negros, tecendo uma trança grossa, teve pena dela... Louise tentou convencê-la com paciência a vestir o vestido de veludo negro varias vezes, até Ângela irromper pelo quarto esbravejando, e teria suportado a ira da rainha se a menina não se colocasse entre as duas, desafiando a mãe.
Abraçou Louise como um pedido de desculpa silencioso, amava-a, era a pessoa que mais cuidava dela depois de seu pai e não queria desagradá-la. Encarou a porta como se fosse um oponente particularmente difícil e saiu do quarto.
Desceu as escadas correndo com a serva nos seus calcanhares, os saltos das botas de caça, que Louise permitiu que usasse para mima-la, já que as saias cobriam-lhe os pés e ninguém as veria, estalavam nos degraus de pedra. Pelas janelas viam-se as bandeiras dos vários nobres e dos mais importantes vassalos de seu pai, nenhum que ele considerasse seu amigo, pois reconhecia apenas os símbolos, mas não os associava a um rosto.
Na ponta da escadaria que levava ao térreo, estava Matthew à sua espera, o menino era alguns anos mais velho que ela, mas tinham a mesma altura e o mesmo velho preceptor, de forma que, desde que se recordava, estavam sempre grudados. Não poderia ser diferente naquele dia difícil, o menino usava sua roupa de domingo e seus olhos estavam tão vermelhos quanto seus cabelos e bochechas, teve certeza que o menino andou chorando escondido.
Passaram algum tempo procurando Arthur, amigo do antigo de seu pai, mas não o acharam pelo saguão, então se viram obrigados a entrar no enorme salão de baile, onde velariam o corpo do rei. Novamente encarou as portas como um inimigo, mas não tinha que lutar sozinha contra ele.
Havia gente demais para que pudesse ver o caixão de mogno, e em seu tamanho infantil, poucos notavam sua presença, ainda mais quando estava acompanhada do filho de um soldado. Viu alguns meninos mais velhos que sabia que eram seus primos, mas que, pela diferença de idade, jamais tiveram vontade de conversar com ela, um homem redondo de cabelos negros e olhos azuis rapidamente tornou-se o centro das atenções pelo barulho que fazia, enquanto assuava o nariz ruidosamente em um lenço branco.
- Pare com esse escândalo, meu lorde... – sussurrou-lhe uma mulher de ar severo.
- Como posso não me emocionar, meu amor? – sua voz de trovão com forte sotaque, fez calar o pequeno burburinho que se fazia presente. – Meu irmão, meu rei, está morto! Assassinado dessa forma covarde, sem ao menos conseguir deixar um filho homem para assumir o trono. Não consigo me conter de indignação e tristeza!
Um impulso a guiou para perto do caixão, espremeu-se entre os adultos se acumulavam na sala, puxando Matthew pela manga da casaca surrada, então parou abruptamente, o caixão estava em cima de dois pilares altos o bastante para que não conseguisse ver com clareza seu ocupante.
Mãos firmes apoiaram-se em seus ombros, olhou para cima e viu os olhos verdes de Arthur, pai de Matthew, encarando-a com pesar e bondade, as lágrimas que conteve, bem demais para uma garotinha de cinco anos, rolaram silenciosas e escondeu o rosto no tronco do homem.
Arthur abaixou para que a princesinha pudesse enlaçar os bracinhos em seu pescoço, pegou-a no colo e afagou-lhe o topo na cabeça. Veridiana chorou sem olhar para trás e acabou adormecendo em seus braços antes que o padre fizesse suas últimas orações.
Ângela mirou-se novamente no espelho apertando o coque no topo da cabeça, fez bem em não ter mais filhos, as pomas médias, estavam altas, sua cintura era estreita e sua barriga lisa, ainda parecia jovem mesmo com uma filha quase adulta. Sua aparência a ajudava a fazer propaganda da princesa, para que seu mau gênio não fosse a única característica conhecida pelas pessoas da corte.
Abriu sua caixa de joias e puxou o colar de contas azuis, ganhou-o de sua mãe antes de deixar seu país, para que fosse educada à moda do outro continente. Lembrava-se de como a madre superiora do internato para jovens damas tomou-o, pois não era decente uma menina andar com joias extravagantes, anos mais tarde optou por não usá-lo, pois aquela sociedade o acharia vulgar. Um sorriso nostálgico brincou em seus lábios ao se lembrar de um tempo em que queria apenas prender fitas nas tranças, que obrigavam-na a fazer para domar o volume dos cachos negros, um tempo em que não era casada, não era rainha e não era mãe, apenas a princesa de uma terra distante.
O tilintar do choque de espadas lembrou-a que no mundo real tinha uma filha que estava quase passando da idade de casar, que possuía um espírito tão rebelde e livre quanto os cabelos que herdara da mãe, mas não tinha desejo de refrear qualquer um dos dois. Suspirou fechando a caixinha, trancando novamente suas belas lembranças de infância, levantou-se e foi até a sacada de seu quarto, andares abaixo estava a filha, vestida com as velhas roupas de treino do pai, com sua espada apontada para o último rapaz tolo o suficiente para desafiá-la.
- Vamos, seu verme! Não é tão difícil assim! – bradou Veridiana, com um sorriso perverso nos lábios.
O homem virou o rosto suado e cuspiu no chão, deixando claro que não pretendia ceder, da pequena multidão de guardas e aprendizes surgiu um silvo de escárnio, instigando os combatentes. Infelizmente, a princesa era uma pessoa fácil de provocar e, somado aos burburinhos, o ato serviu para deixá-la mais irritada, apoiou a base de sua lâmina do queixo da presa, fazendo-o olhá-la nos olhos.
- Acho que posso cortar uma orelha se preferir... – a espada descreveu um arco do pescoço do rapaz até sua orelha direita sem, no entanto, permitir que se tocassem mais do que milímetros. Tamanha era a ferocidade contida naqueles olhos castanhos, que o homem quase cedeu ao impulso de desviar o rosto e cortar-se.
- Peça perdão de uma vez, precisamos voltar para o trabalho! – Gritou Matthew, que fazia parte da roda das pessoas que se amontoaram para ver a briga e não tinham intenção de se dispersar até que acabasse.
- O que está acontecendo aqui? Veridiana! Largue meu soldado! – Berrou lorde Richard, que saía de dentro do castelo pomposamente vestido. – Abaixe essa espada imediatamente, mocinha! É uma ordem!
Veridiana nem sequer olhou para o tio, só falou:
- Só quando arrancar o que quero desse infeliz!
- Não se preocupe, ela não o machucará muito... – Explicou entediado Matthew. - Luca desafiou a princesa ontem depois de uma bebedeira, como ela negou, ele a ofendeu. – ele suspirou. – E aqui estamos!
Com uma expressão de pura reprovação, cuspiu a frase:
- Esse lugar inspira as atitudes mais descabidas! Esse tipo de desrespeito com um monarca seria passível de forca quando eu era criança. – Richard havia se voltado contra seu subordinado sem pensar duas vezes. – Very, não se demore ai, Lorde Rowan está vindo visitá-la!
Veridiana fitou-o por um instante, depois voltou a prestar atenção no homem à sua mira.
- Diga à mamãe que o atenderei como estou agora.
O conde deu de ombros, e soltou um sussurro quase inaudível, que pareceu a Matthew, um praguejar ao mau gênio do irmão e da sobrinha.
De sua sacada, a rainha Ângela já conseguia divisar os cavaleiros da fortaleza de Foltest, vindo na direção dos portões do castelo e, pela cor dos cabelos loiros, Lorde Rowan liderava o grupo.
Com um suspiro, voltou para seus aposentos, resignada, pensou o quanto Very pretendia ser grosseira com Foltest, o único imbecil que ainda demonstrava qualquer interesse de desposá-la. Não culpava, exatamente, a filha por não ter interesse no rapaz mimado e grosseiro que se apresentava de tempos em tempos para cortejá-la, mas deveria compreender melhor sua situação.
Não tinha lá muitas opções e Rowan, pelo menos depois que a acne havia ido embora, tornou-se um homem bem apessoado. Desceu as escadas lentamente, tão imersa em seus pensamentos infelizes que nem percebeu que Karine, a criada, subia a escada aos pulos.
- Majestade! Majestade! – sua voz rouca estava aterrorizada – Acuda! Lady Very...
- Ela matou Luca? – sua voz falhou um pouco, e teve que se agarrar no corrimão da escadaria para firmar as pernas.
- Pior majestade, ela está apontando a espada para Lorde Foltest!
Por alguns instantes não conseguiu conter o alivio, alivio esse que deu lugar ao pânico ao se dar conta do que a filha estava prestes a fazer. Desceu as escadas de dois em dois degraus, quase esbarrando com o cunhado no meio do caminho, que, aparentemente, também estava indo ao seu encontro inconformado.
- Vá lá fora e tente por um pouco de juízo na cabeça de sua filha! O que a corte irá falar desse evento! Pode dizer adeus à esperança de casá-la com um príncipe, tenho dito!
Ângela lembrou o quanto era desagradável ter o cunhado ali e ouvir todas as coisas que ele dizia, seus arrependimentos começaram no dia em que estendeu demais sua hospitalidade, removendo o muro que seu marido havia imposto, e passou a ter que suportar a ele, a esposa detestável e quem mais ele desejasse em sua casa à cada primavera.
Sem responder ao cunhado, venceu o caminho que faltava para encontrar sua filha. Na porta do castelo já se via a figura de um rapaz de dezessete anos, apavorado, espatifado no chão, e, de pé, a triunfante Veridiana sorria da piada maldosa que era o covarde a sua mira.
- Pare! Eu lhe imploro! – pedia o garoto. – Homens! Façam alguma coisa, ela quer matar seu soberano!
Os homens de Foltest encaravam-se sem saber quem deveriam temer mais, seu lorde ou sua monarca, pois se por um lado seriam açoitados quando chegassem em casa, por outro poderiam ser enforcados ali mesmo por atacar um membro da família real. O impasse não passou despercebido a Matthew, mas por segurança apertou os dedos ao redor do cabo da espada.
- Implorar não é uma coisa digna de um lorde, Rowan!
- Lutar não é digno de uma princesa, mas isso não a impede, não é mesmo? – Very olhou assustada ao ouvir a voz da mãe – Recolha imediatamente essa espada!
Very embainhou a espada, deu mais uma olhada desejosa para o garoto, Rowan estava colado no chão atento a cada um de seus movimentos, mas os demais espectadores sabiam que havia terminado, ninguém desafiava a rainha, nem mesmo a princesa.
Louise aproximou-se de Veridiana oferecendo-lhe um lenço para que secasse o suor do rosto, dois homens apoiaram os braços de Rowan e o levantaram, mantendo-o bem amparado até que suas pernas se firmassem.
- No dia que for casada comigo vou lhe ensinar boas maneiras! – Rosnou o lorde.
Matthew cerrou os punhos, mas a garota limitou-se a balançar os cachos em reprovação.
- Não abuse da sorte Rowan!- depois deu um sorriso amargo – Bem, acho que eu também vou ter que lhe dar umas aulas de bom senso. Sua primeira lição, nunca implore a vida a quem te aponta à espada, porque você é um lorde e, já que vai morrer, morra com dignidade!
E seguiu até a porta, parando junto a sua mãe para ver o que lhe aguardava, não era boa ideia rebelar-se após aquela bagunça.
- Vá direto para seu quarto, se lave, coloque roupas limpas e penteie os cabelos. Depois desse espetáculo lamentável, o mínimo que você pode fazer é escutar o que Lorde Rowan tem a lhe propor.
- Como se eu já não soubesse o que essa doninha loira vai falar. – sussurrou para si mesma.
Ela subiu batendo os pés nos degraus da entrada, então a rainha voltou-se a Rowan.
- Lhe dou um conselho, meu jovem: se um dia minha filha aceitá-lo como seu marido, se falar com ela desse jeito acho bom que durma de olhos abertos... – olhou para a montanha de guardas e criados que se formara para ver a briga – O que ainda estão fazendo aqui? Voltem para seus postos imediatamente. – as pessoas começaram a se mexer – Você não, Matthew! Faça companhia ao nosso visitante e garanta que ele saia daqui inteiro.
- Não preciso dele! – protestou Rowan que tinha recém redescoberto sua voz – Fui pego de surpresa por aquela...
- Dobre a língua, senão serei obrigado a terminar o que a princesa começou. – Matthew avançou para ele, impondo todo seu tamanho.
- Eu gostaria de vê-lo tentar, seu bastardo. – Rowan levantou o queixo para encará-lo.
Ângela estava exausta daquele tipo de rusga, seu cunhado estava certo, havia alguma coisa naquele lugar que inspirava as pessoas a guerrear, devia ser o espírito de seu falecido marido.
- Parem de discutir os dois! Vamos entrar de uma vez, já estou ocupada com meus próprios dramas familiares, não tenho tempo para o de vocês também!
Ambos assentiram para a rainha e a acompanharam.
Veridiana esfregava-se tão forte que deixava marcas vermelhas na pele, andou evitando aquela visita a meses, meteu-se em torneios, caçadas e até festas, a cada vez que descobria que Rowan havia mexido seu belo traseiro nos seus lençóis de seda.
Não queria ser mal compreendida, seu corpo não lhe era repulsivo de forma alguma, seus sonhos mais secretos podiam confirmar, mas além de insuportável, convencido e covarde, não tinha intenção alguma de ficar em casa, grávida, bordando enxovais e fingindo que seu marido não tinha uma porção de amantes.
Faltava pouco para sua coroação e não precisaria mais se preocupar em afugentar pretendentes. Desempenhava bem seu papel, era grosseira, usava calças até mesmo nas festas que sua mãe lhe fazia ir, lutava bem e não escondia, certa vez até escarrara na frente de um príncipe que insistira em levá-la para cavalgar, Matthew quase caiu de seu cavalo de rir da expressão de nojo do rapaz. Mas Rowan era diferente, conhecia-o desde pequena, nunca se deram bem, então qual não foi sua surpresa quando, por volta dos quinze anos, este manifestou algum tipo de interesse por ela, surpresa maior foi quando viu que ele seria seu maior desafio.
Lavada, deparou-se com seus cabides vazios exceto por um vestido de seda azul com bordados dourados, suas calças, camisas e botas haviam desaparecido, sua criada também já havia levado as roupas que despira.
- Mamãe! – murmurou com uma pontada de irritação por ter sido tão previsível.
Chegou a cogitar apresentar-se nua, mas a possibilidade de Rowan olhando-a dava-lhe arrepios, desconsiderando que sua mãe a prenderia em um convento para o resto de sua vida, colocou o vestido a contragosto e já ia pentear os cabelos quando escutou uma batida.
- Com licença, alteza! – entrou Louise, a mulher deu-lhe uma olhada rápida e levantou uma das sobrancelhas – Suas calças foram roubadas, certo? – com uma careta assentiu. – Ora, azul combina com a senhorita, está belíssima! Agora me deixe prender seus cabelos. – disse andando em direção da farta cabeleira castanha escura e cacheada.
Ela desviou da mulher que se aproximava.
- Mamãe não falou nada sobre prender só em pentear! – A mulher suspirou e passou a escovar-lhe os cabelos.
Sua mãe estava olhando a porta quando entrou na sala, viu a sombra de um sorriso de deboche surgir no canto de seus lábios, seu tio pareceu satisfeito com sua aparência, Matthew teve uma crise de tosse para disfarçar uma risada e Rowan tinha olhos faiscantes quando foi em sua direção.
- Não chegaria tão perto de mim se fosse você – avisou-o, mas ele lhe deu o braço.
Very ignorou-o, cobriu a distância que faltava para alcançar sua mãe e murmurou-lhe:
- Quero minhas roupas de volta!
- Vou devolvê-las depois. – assegurou-lhe a rainha.
Então continuou até parar ao lado de Matthew
- Eu gostaria de conversar as sós com a princesa se não se importa, majestade.
Ângela sorriu desagradavelmente e dirigiu-se até a porta seguida pelo cunhado e Matthew, mas impediu o guarda de se retirar com a mão.
- Ainda tem um trabalho a fazer.
Rowan era alto e esbelto, corpo de um homem que jamais enfrentou um dia de treino, como Matthew comentava com frequência, tinha olhos azuis apertados de longas pestanas douradas como seu cabelo curto e barba cerrada. Tudo nele a andava atraindo nos últimos meses, não que não tivesse tentado refrear aqueles impulsos, mas o tempo andava dificultando as coisas, concentrou-se nos lábios finos e arrogantes, eram um bom lembrete sobre como era a personalidade dele.
- Não acabei de mandar você não se aproximar? – o sorriso ampliou-se, mostrando dentes da frente mais compridos que os demais, sentiu que ele apanhava sua mão direita e seu coração errou o compasso.
- Andou me evitando, não foi? - começou Rowan impedindo-a de puxar sua mão de volta – Senti sua falta... - abriu sua palma e beijou-a.
Seu corpo endureceu, com a outra mão empurrou o rapaz, Rowan estava cada dia mais convencido, quantas garotas havia conquistado com aquele rosto bonito. O Lorde franziu o cenho e largou sua mão, meteu a dele no bolso e de lá tirou um anel dourado.
- Eu vim lhe fazer o pedido, você sabe a tempos. Então por que está me torturando? - sua voz ficou mais aguda e mais parecida com o moleque que conhecia bem.
Aproximou-se e tirou o objeto de seus dedos observando-o de perto, era um bom símbolo de posse, quase sentiu pena do rapaz pelo o que ia fazer.
- Eu não quero me casar com você, na verdade, não o suporto. – devolveu aquele anel como se ele pudesse atacá-la – Andei te evitando para te passar uma mensagem: "Não tenho interesse em você", mas você não se ajuda Lorde Rowan.
Foltest sorriu enigmático, sentou-se em um dos sofás confortáveis que sua mãe orgulhava-se de não permitir que qualquer traseiro sujo se ajeitasse ali, cruzou as pernas e os braços.
- Sua situação está cada vez mais complicada, alteza. – Não gostou do tom paternalista. – Não estou vendo muitos pretendentes por aqui, nem mesmo sua posição social fala mais alto que sua atitude, não tem medo da pouca confiança que seu comportamento trás para seus súditos? Case-se comigo alteza, antes que eu também desista e você seja obrigada a casar com algum velho asqueroso, já que esse seu "planinho" para governar sozinha não vai dar certo.
Very sentiu o estomago afundar-se, como aquele sujeito adivinhou suas verdadeiras intenções? Sua hesitação não passou despercebida, o sorriso debochado do lorde ampliou-se, encorajado pelo seu momento de choque, bateu no lugar ao seu lado no sofá para que ela se sentasse.
A vontade de estrangular Rowan estava ganhando de seu bom senso, avançou para ele determinada a eliminá-lo, Matthew poderia ajuda-la a sumir com o corpo depois. Quando estava a poucos passos do rapaz duas mãos fortes a seguraram por trás, fazendo com que suas costas colassem-se ao peito musculoso de Matthew, tentou soltar-se, mas ele era mais forte, não tinha como competir.
"Golpe baixo" pensou, sua mãe mantivera Matthew ali para fazer seu servicinho sujo.
Respirou profundamente acalmando seu coração, mas sentia a sensação, por alguns anos esquecida, de gotículas de água salgada formando-se, parou de lutar e esperou que o abraço afrouxasse. O soldado a conhecia bem, sabia que não era mais um risco ao lorde, soltou-a e observou suas costas deixando a sala com passos duros.
Encontrou sua mãe discutindo com seu tio quando passou voando pela porta do castelo, não respondeu nenhuma das perguntas que fizeram, nem tomou conhecimento delas, foi até o celeiro, apanhou seu garanhão e deixou os limites da fortaleza antes que os guardas reconhecessem-na e pudessem segui-la.
Seu esconderijo não era longe dali, era uma clareira grande oculta por uma rocha, sua entrada era de difícil acesso, mas valia a pena se considerasse quanta paz já conseguiu encontrar ali. Seu pai a levava quando era pequena para que pudesse brincar como uma criança normal com Matthew e depois de sua morte passaram a ir sozinhos, já que ninguém mais pareceu conhecer a localização e sua mãe havia cortado suas aulas de batalha, substituindo-as por "coisas mais apropriadas para uma princesa".
Deixou Teseu pastando perto da entrada, deitou-se no pasto verde, analisando as falas de Foltest.
Devia considerar que sua mãe estava ciente o suficiente do conteúdo da conversa para garantir que a mensagem fosse passada sem que o mensageiro morresse, então deveria crer que ela realmente pretendia casá-la com qualquer um caso insistisse em afastar pretendentes melhores?
Suspirou desanimada, precisava mudar de tática para vencer a guerra. Olhou para o céu e considerou quanto tempo Matthew levaria para despistar os outros e ir ao seu encontro, e então poderiam pensar uma solução juntos.
A pele de suas costas ainda formigava por debaixo do vestido, o contato firme de Matthew a havia a magoado, mesmo que compreendesse que ele não podia desacatar as ordens de sua rainha, a lembrança ainda tinha o sabor amargo da traição.
Matthew sabia muito bem onde encontrá-la, mas resolveu deixá-la sozinha por um tempo para que refletisse um pouco. Alguns grupos de busca se formaram para procurá-la, mas ele foi obrigado a vigiar Foltest de perto, pois temiam que Veridiana o surpreendesse.
Rowan passou o restante da manhã e parte da tarde satisfeito consigo, conversando agradavelmente com as pessoas, não se incomodava de segui-lo, pois ele fazia o favor de ignorá-lo, mas se preocupava com as conclusões que a amiga poderia tirar antes que pudesse se explicar.
Em certo ponto da tarde, após revistarem o castelo inteiro três vezes, foi dispensado de sua função, então se viu livre para disfarçadamente apanhar seu cavalo e ir atrás da garota.
Demorou um pouco mais para chegar, pois teve que desviar sua rota algumas vezes e apagar seus rastros outras tantas, para garantir que não encontrariam seu pedaço particular do céu.
Tocou a lona cinzenta coberta de limo que escondia a passagem estreita da clareira, quando entrou fechou-a com cuidado para que o vento não fosse capaz de balança-la. Sorriu ao ver Teseu pastando tranquilamente e deixou que Coladan fosse lhe fazer companhia, sentiu algo roçando-lhe as pernas e viu o brilho flutuante do vestido azul que vagava solitário na grama.
Apanhou a peça procurando pelo local sua dona, no meio da clareira havia um lago de água cristalina e no centro dele um corpo feminino, nu, boiando.