Se você tivesse o prazer de passar pelo Vale da Lua em seus dias de glória, veria algumas casas de madeira ladeadas por flores e ervas, árvores frondosas e chaminés fumegantes, estradinhas de pedras tortuosas que corriam ladeadas por inúmeras fazendas ricas em todo tipo de alimento, se aproximando mais do centro havia uma grande praça, onde um chafariz com uma estátua de querubim cuspia água cristalina, e as paredes de um imenso castelo de pedra se avolumavam de forma resplendorosa, esculpido quase que de forma angelical sobre montanhas verdejantes.
Montanhas essas que circulavam quase todo o vale, que se estendia em um semicírculo estranhamente simétrico até ser cortado pelo mar tempestuoso e praticamente intransponível.
Era um lugar belo e rico, onde humanos, fadas, feiticeiras, vampiros, e todas as outras criaturas conviviam em harmonia.
Se andasse pelas ruas com ouvidos atentos, certamente escutaria o nome de Irina, a feiticeira mais poderosa que já havia existido, a responsável por tamanha fortuna e paz.
Mas, se espreitasse pelos becos mais escuros, notaria rumores, pequenas palavras sussurradas ao vento, que de forma premonitória, avisavam do grande mal que estava por vir.
Se você fosse uma pessoa esperta, daria meia volta e pegaria o primeiro navio para qualquer lugar longe dali, mas se não fosse, se a fartura, a magia e a promessa de uma paz eterna fossem capazes de te seduzir.
Então que tivesse ao menos a sorte de ter uma morte rápida.
O sangue que escorria do corte em sua barriga, misturado a terra e a neve que grudavam ao seu corpo lhe dava um ar imundo, quase desprezível, enquanto ela cambaleava entre os galhos e espinheiros da floresta; uma dor excruciante parecia envolver cada músculo de seu corpo e sua cabeça latejava manchando de um tom avermelhado sua visão.
Irina ainda podia ouvir os gritos agonizantes de suas irmãs ressoando em seus ouvidos. Não sabia por quanto tempo correra, ou se ainda estava sendo perseguida, mas sentia o cheiro adocicado de carne incendiada e via a fumaça espiralando ao seu redor; parecia sufocá-la, ainda mais sabendo que o combustível disso eram suas irmãs, sabendo que tudo o que ela mais amava... se dissolvera em cinzas e gordura queimada.
Ela queria esquecer, queria deixar de existir por ao menos um segundo, sabia que era culpa dela, que era a única culpada por todas as mortes que haviam ocorrido naquele dia; e o que lhe dava mais ódio de si era o fato de seu estômago vazio revirar de fome com aquele aroma de carne, como ela era capaz de sequer pensar em fome quando todos que ela amava estavam mortos? Pior ainda; como o cheiro das entranhas queimadas daqueles que lhe eram mais queridos podiam lhe fazer salivar de desejo?
Mas a dor que mais lhe corroía não era a de seus músculos inúmeras vezes perfurados por agulhas ou facas, nem a do corte profundo em seu ventre e tampouco a da pele que lhe faltava em alguns membros, mas a da culpa. Sentia que não poderia haver ser mais repudiante do que ela mesma; um ser que destruiu sozinho, tudo o que poderia ter sido.
Sentia a beladona ainda em suas veias, a queimava por dentro enquanto ela lutava para pôr um pé em frente ao outro, foi quando tropeçou em um emaranhado de raízes e caiu em uma trilha escondida por arbustos, era uma descida bem íngreme e coberta de neve, seu corpo desceu rolando e batendo em algumas árvores e pedras, sem forças para se firmar; no fim da queda, ela foi lançada sobre uma grande rocha pontiaguda que a rebateu de costas contra um espinheiro.
Seus músculos já não respondiam normalmente, de forma que ela não foi capaz de gritar em momento algum, estava completamente exaurida e ao sentir os espinhos se cravarem em suas costas e braços, simplesmente se deixou recostar ali; era o mais longe que conseguiria ir de qualquer forma.
Ainda assim, por mais que desejasse, não era capaz de se entregar à inconsciência, o frio agudo parecia lhe intensificar a dor e sua garganta ardia na vontade infindável de gritar até que o mundo deixasse de existir. Mas ela não se moveu, seu rosto se tornou relaxado e inexpressivo enquanto sua alma queimava em agonia.
A floresta estava num silêncio gritante agora que não havia mais o som de seus passos ou respiração acelerada, e uma agonia praticamente tangível parecia emanar de Irina, sua respiração saía fraca, quase ausente, o mundo parecia espiralar ao seu redor de forma confusa.
Então passos firmes começaram a ressoar ao longe, num ritmo familiar, ela sabia que aquelas botas pesadas que quebravam os galhos da trilha pela qual caíra só poderiam pertencer à uma única pessoa, a mesma que viera lhe torturando há semanas...
Quando aquela forma alta se pôs diante dela, já não restavam-lhe mais forças para gritar, correr, ou para qualquer coisa, Irina apenas levantou os olhos e fitou o homem que um dia, jurara amar por toda a eternidade.
Hoje, esses momentos de amor infinito pareciam ter sido há muitos séculos, todo o amor que sentia misturava-se ao ódio e a dor da traição que queimavam muito mais que o veneno em suas veias, seu coração se acelerou de uma forma audível, os batimentos fortes enchiam os ouvidos de Irina e uma vertigem repentina turvou sua visão.
Dieggo usava botas de caça novas e polidas, calças de couro tão justas que delineavam cada músculo de suas pernas e uma camisa de algodão cru, finamente costurada, que agora estava manchada de sangue inocente, o sangue daqueles que ela mais amava... as pessoas que haviam morrido por culpa dela.
Irina sentia falta de seu poder, sentia falta de ser a feiticeira que ela sempre fora, se fosse em outro momento, qualquer ser vivo se curvaria diante de sua majestosidade e força, ela era divina, desejada por todos os homens e mulheres dos oito reinos, além de temida e invejada por qualquer humano que a conhecesse, ela desfrutava bem disso, sabia usar com sabedoria e equilíbrio, a mais bela, a mais poderosa, a mais perfeita, praticamente uma deusa na terra; sua pessoa e seus feitos eram lendários, foi a única responsável por unir os oito reinos do vale da Lua, a vencedora da Grande Batalha, e a feiticeira escolhida do rei, mas agora, ferida, sem sua magia, imunda, vestida em trapos rasgados e jogada entre espinheiros... Ela não passava de uma mulher indefesa, digna de pena, manchando a imagem de toda a sua história.
-Te encontrei minha cara... - A voz de Dieggo era fria, não trazia nenhum único sentimento, seus olhos castanhos profundos mandavam choques eléctricos diretamente à alma da garota, que sentiu uma dor aguda no peito ao ouvir aquele tom rouco e decidido - Não parece a bruxa das lendas... Parece... Uma pedinte leprosa!
Ao cuspir estas palavras ele soltou um riso irônico profundo que fez cada pelo do corpo dela se arrepiar, um ódio imenso preencheu todo seu ser e uma força descomunal a invadiu novamente.
Irina se pôs de pé em poucos segundos, o homem desprevenido deu alguns passos para trás e foi o que ela precisou para segurar seu pescoço e prendê-lo contra uma árvore, chutando a espada para longe.
Mas ele não se abalou, riu com o ar que lhe restava e então estalou os dedos, começaram a descer a trilha dois guardas completamente armados, acompanhados por Taíssa, ela o soltou imediatamente, preocupada com o que fariam a sua amiga.
Foi no mesmo instante que notou, não haviam algemas, não haviam correntes, e os guardas apontavam as lanças para Irina, andando lado a lado com Taíssa; Os sonhos... ela já sabia o que estava acontecendo! Ela já sabia há semanas, só que se recusava a acreditar...
- Vocês estão juntos! Vocês dois me traíram!
Não era uma pergunta, ela tinha certeza do que estava acontecendo, dizer em voz alta fez com que tudo parecesse bem mais real, ela deixou que a dor e o choque a percorressem enquanto Taíssa ria e caminhava até os braços de Dieggo, e lhe dava um beijo teatral na boca.
- Você demorou tanto pra notar Irina... Enquanto você teve que esgotar seus poderes para que ele estivesse com você em troca de seus favores... era para mim que ele vinha todas as noites em que sumia do palácio, sempre fui eu, você era apenas um meio para que ele pudesse chegar onde queria... Comigo.
Mas Taíssa não fazia ideia do efeito de suas palavras... Todo o torpor sumiu de Irina, e pela primeira vez desde que começaram a lhe ser ministradas as doses do veneno, ela sentiu o poder fluir por suas veias, alimentado pelo ódio mais puro e cru, de imediato suas feridas se curaram, e uma brisa morna invadiu todo o ambiente, fazendo com que seus cabelos emaranhados e vestes rasgadas esvoaçassem ao seu redor.
As expressões de escárnio de todos ali se transmutaram de imediato para o medo, o sorriso de Dieggo vacilou, os guardas que traziam um semblante calmo arregalaram os olhos e começaram a correr de volta pela trilha de onde haviam vindo, foi a coisa mais inteligente que poderiam ter feito...
Taíssa soltou os braços do homem de ombros largos e a encarou embasbacada.
Dieggo teve o semblante trespassado pelo choque, mas logo assumiu novamente o tom malicioso e se pôs em frente a Taíssa.
- Não machuque ela... Por favor...
Seu tom era confiante apesar de implorador, ele tinha certeza de que se usasse as palavras corretas Irina faria aquilo que ele quisesse, afinal, havia sido assim por anos.
Os olhos de Irina rebrilharam em um tom vermelho vivo, e ela sorriu, a risada mais doce escapando por entre seus lábios.
- Eu não vou... é você quem vai!
Pela primeira vez Dieggo parecia completamente indefeso, era possível ver que ela não mudaria de ideia, ela o encarava com uma frieza profunda, um olhar que era reservado somente aos seus inimigos, e não havia dúvidas, o que quer que fosse acontecer, seria Irina quem guiaria. E ela não costumava ter clemência.
Em questão de segundos o semblante dele foi para um pavor intenso, ele nunca imaginou que seria o destino de sua fúria, mas sabia que era inevitável, Irina era famosa por um motivo, e não foi com doçura e perdão que conquistou seu nome...
Trepadeiras começaram a crescer aos pés de Taíssa que lutava para tentar correr, a imobilizando, ela gritava palavras ininteligíveis, seus dedos soltavam faíscas contra as raízes que subiam por seu corpo... Mas era em vão. A magia de Irina era mais forte do que a de qualquer bruxa existente.
Dieggo gritou de pavor quando seu corpo começou a se mover em direção à espada, seus braços se guiando contra sua vontade, não havia como ele controlar seu próprio corpo, seus músculos eram movidos por algo muito mais forte que própria sua vontade.
- Por favor! Irina! Por favor, meu amor! Não faça isso! - Ele implorava em desespero, mas Irina não vacilou por um único segundo, suas mãos se moviam em direção a Dieggo como se movesse uma marionete, os olhos vermelhos como o sangue mais vivo, ela fechou as mãos num rompante.
E com um único golpe Dieggo arrancou a cabeça de Taíssa.
- NÃO! – Ele gritou sem acreditar no que suas próprias mãos haviam feito.
Irina ria efusivamente vendo a cena diante dela, Dieggo não controlava mais a si mesmo. Ele faria o que ela mandasse. Ele era dela. Assim como todos sempre haviam sido.
Mas ela abriu mão disso, cortando as cordas invisíveis com um acenar dos dedos.
Queria ver o que ele faria, queria saborear cada segundo de sua dor, ele lançou a espada ao chão e caiu de joelhos aos seus pés, segurando a barra do vestido rasgado.
- Você não me mataria não é? Não machucaria o seu amor verdadeiro? Você sabe que tudo o que fiz foi por amar você, e saber que jamais poderíamos pertencer um ao outro não é?
O coração de Irina vacilou, ela o amava... foi quando as últimas semanas encheram sua mente novamente a lembrando da realidade, ela tinha certeza de que eram mentiras que saíam daqueles lábios tão macios, foi com pesar, que proferiu suas próximas palavras.
- Não, não vou te matar, eu vou te amaldiçoar, meu único e verdadeiro amor.
Ele empalideceu de imediato.
- Não! Não pode fazer isso!
Isso era impensável, se ela o amaldiçoasse ele poderia esperar o pior dos destinos imagináveis para si. O desespero o dominou, enchendo-o de coragem, ele teria de lutar. A única solução seria matá-la antes que qualquer outra palavra saísse daqueles lábios.
Ele pegou novamente a espada e se lançou contra ela, logo antes de ficar paralisado no ar, os olhos arregalados e chorosos, uma maldição, de Irina, ele com certeza deveria preferir morrer a qualquer coisa que viria a seguir.
- Por favor, não me amaldiçoe amor, nós podemos resolver tudo isso, podemos conversar, eu sei que errei mas foi pelo amor que sentia por você. Nós podemos ficar juntos, podemos mudar tudo isso. Irina, minha doce Irina, minha Deusa, me deixe consertar as coisas...
Sua voz tremia de maneira absurda, e a postura, paralisada com a espada a centímetros do pescoço da feiticeira, não ajudava a dar veracidade ao que dizia.
- Dieggo... ah Dieggo...
Você ousou roubar meu coração...
E usou ele para destruir tudo o que mais amei...
O que seria mais adequado?
- Por favor meu amor, tenha piedade.
Ele chorava, lágrimas escorriam incessantemente por seu rosto enquanto imaginava qual seria seu fim.
- Você Dieggo
Há de ver a morte de todos que amar
Mas seria muito simples apenas presenciar
A todos aqueles a quem seu coração se inclinar
Com suas próprias mãos a vida irá arrancar
Todos os dias de sua existência
Pela morte irá implorar
Com a mais doce agonia
Terá de aprender a continuar
Mas não será tão simples assim
Com sua própria dor acabar
Apenas uma pessoa
Que seja assassina sem nunca matar
Que tenha beijado a morte e vivido para contar
Poderá de ti a vida tirar
Você jamais terá um verdadeiro lar
Jamais terá em quem confiar
Mas como seria simples da história lhe apagar
Se não tiver mais nada em que se apegar
Por isso há também um dom nessa doce magia
Um momento de paz e suave alegria
Pois logo antes de sua vida tomar
Profundamente vai se apaixonar
Só então finalmente
É que irão de ti a vida arrancar
E eu vou estar a observar
E rirei a mais doce melodia
Enquanto grita em profunda agonia
Mas ainda assim não irá descansar
Pois todos aqueles que já veio a matar
Vão pela eternidade
Te torturar
Ditas essas sentenças, uma brisa suave veio da floresta, Dieggo finalmente pôde se mover, e caiu de joelhos novamente diante de Irina o olhar suplicante.
- Você não pode fazer isso...
- Eu já fiz!
Irina começou a se desfazer, esfarelando lentamente diante do olhar de seu amado, até que restaram somente seus olhos vermelhos o encarando com frieza extrema. Mais uma brisa, e tudo desapareceu.
A lua sumiu do céu, e um tremor intenso percorreu todo o vale, logo, como trovões, ouviu-se a voz de Irina ressoando por todos os lugares.
- Por terem se unido contra mim
Jamais nenhum de vocês
Nem seus filhos
Ou os filhos dos seus filhos
Poderão sair desse vale
Aquele que tentar
Certamente morrerá
Da forma mais dolorosa possível
E para que aprendam a respeitar sua Deusa
Nem a lua
Nem o sol
Aparecerão novamente
Até que seja chegado
O dia da minha vingança
Quando tornarei tudo
Como eu desejar que seja
Essa foi a última vez que alguém ouviu ou viu Irina, até os dias de hoje.
Abri
a janela para que a fumaça do cigarro não impregnasse em meus cobertores, e me
sentei no tapete preto felpudo diante do espelho, era meu aniversário de
dezesseis anos; e eu me sentia horrível.
Meus cabelos brancos e ondulados caiam
rebeldes até a altura de meu quadril, e meus olhos vermelhos estavam
emoldurados por uma camada grossa de rímel e delineador que eu não havia tirado
antes de dormir.
O dia já começava a clarear, alguns fractais
de alma entravam pela minha janela lançando luzes multicoloridas, ainda estavam
fracas, deviam ser em torno das cinco da manhã, mas eu acordara por um pesadelo
especialmente perturbador que eu simplesmente não conseguia esquecer.
Dei mais uma tragada no cigarro sentindo a
fumaça me preencher, mas meu corpo ainda estava trêmulo, eu lembrava dos gritos
agonizantes que haviam perturbado meu sono, não sabia quanto tempo mais poderia
suportar sem dormir direito.
Mas naquele momento precisava me acalmar,
andei até minha cama e peguei meu ursinho de pelúcia, eu o tinha desde criança,
minha mãe tinha me dado, assim como minha vó o deu para ela, pus um dedo na
dobra de seu macacão, e lá estava uma lâmina rebrilhando em minha mão.
Peguei meu lenço de caxemira preto, e ri me
lembrando de como o furtara de uma loja uns dois anos atrás... então andei até o
tapete novamente, me posicionando diante do espelho de corpo inteiro. Eu usava
uma camisola vermelha de seda que deslizava gentilmente pela minha pele macia
conforme meu corpo se movia.
Coloquei o lenço abaixo de meu braço, e me
entreguei ao deleite da dor e do sangue. Aos poucos, os cristais começaram a
reluzir de forma mais intensa, seus fractais lançavam luzes azuladas, cinza e
roxas hoje, era sempre interessante ver qual cor o dia teria, a maioria das
pessoas não ligava muito, mas eu amava observar a forma como em algum momento
da madrugada a terra começava a emanar um brilho suave, e como numa poesia
brotavam os fractais de alma, cristais flutuantes que iam se espalhando e
mudando de cor, até que ficassem cada vez mais altos e brilhantes, e como no
fim do dia eles iam descendo e se apagando novamente, até sumirem em uma fumaça
densa que envolvia todo lugar.
Ri suavemente enquanto um pequeno fragmento de
luz azul tocava o sangue em meu braço, a sensação dele em minha pele era morna
e macia, como um beijo apaixonado, ele chiou e começou a subir e descer pela
pele ferida, então veio até meu nariz encostando levemente na ponta; antes de
sair novamente pela janela numa velocidade absurda.
Deitei a cabeça no tapete novamente e fechei
os olhos, o lenço enrolado no braço para que nada se sujasse com o líquido
vermelho vivo enquanto eu absorvia a sensação de paz que irradiava por meu
peito.
Deixei as luzes penetrarem em minhas pálpebras
fechadas enquanto me concentrava ao máximo para focar apenas na dor em minha
pele, era uma leve ardência, porém a agonia se acumulava em minha garganta e
corria por meu peito implorando para sair, qualquer solução que eu tivesse, era
apenas passageira.
Uma luz alaranjada muito forte inundou minha
visão, olhei ao redor e labaredas subiam pelas paredes lambendo todos os móveis
se espalhando de uma forma extremamente rápida.
-
Mãe? Pai? Jéssica?
Nenhuma resposta.
Saí e vi o corredor bloqueado por chamas que
devoravam cada estante e quadro e fechando qualquer saída que eu pudesse ter,
ouvi um grito agudo e desesperado que fez meu coração saltar de pavor.
-
Mãe?!
Os gritos se intensificaram tornando-se um
sonido gutural e animalesco, tentei atravessar as labaredas que dominavam o
corredor mas elas se intensificaram ao meu redor me deixando encurralada contra
a porta de meu quarto, a abri apenas para me deparar com mais chamas que
cresciam rapidamente, havia algo estranho naquele fogo, na forma como ele
queimava tão intensamente... sem fazer nenhuma fumaça!
Eu já estava começando a delirar, ótimo.
Será que era assim morrer? Você se entregava à
insanidade extrema?
Ouvi Jéssica começar a gritar no andar de
baixo, os gritos de mamãe já haviam cessado, eu não ouvi nenhuma vez a voz de
meu pai... será que ele havia conseguido fugir? Será que estava cuidando de suas
flores no quintal quando o fogo começou?
Se bem que não adiantaria gritar, as chamas
eram intensas demais para que eu tentasse fugir, se me atirasse em meio a elas
só morreria mais rápido, deixei que elas se aproximassem cada vez mais,
sentei-me no chão e pus a cabeça entre as pernas aguardando por meu fim.
-
Parabéns pra você...
Acordei assustada enquanto Jéssica abria a
porta de meu quarto com uma caixa púrpura em suas mãos, era pequena e tinha um
laço azul torto em cima.
Ela usava um vestido verde com decote em V e
os cabelos ruivos e longos presos num coque frouxo, metade de seu rosto trazia
um sorriso gentil, a outra ostentava marcas de queimadura que congelavam sua
expressão, descendo em espirais pelo seu pescoço e entrando entre seus seios,
para aparecerem novamente em suas coxas abaixo do vestido e chegarem até seus
pés de salto amarelo.
-
Meu Deus, que horas são? - Olhei
atordoada ao redor, os fractais não estavam mais aqui dentro, mas uma luz
intensa e colorida entrava pela minha janela.
Seu olhar percorria divertidamente minha
expressão e meu pijama, até pousar no lenço em meu braço esquerdo.
-
Já passam das dez, sua festa é em
uma hora... - Seu sorriso vacilou e ela andou até mim me envolvendo num abraço. -
Eu também sinto falta de como tudo era antes Vic... Está sendo horrível... Mas
por favor, não me faça te perder também... Eu não suportaria!
Ela desenrolou meu braço e olhou pesarosamente
para ele, o sangue seco descascava sobre a pele, então recuperou o sorriso e
estendeu a caixa em minha direção.
-
Vamos, abra!
Peguei o embrulho e puxei a fita torta fazendo
com que o papel estalasse e se abrisse mostrando uma caixa de música com uma
bailarina de vestido negro.
Ergui-a encantada e girei a manivela, click,
click, click, trrrrrrrrrrrrrrrr...
Várias notas doces e sutis se iniciaram, uma
melodia triste e sincera, e então num canto doce como a morte, uma voz feminina
e suave recitou:
O
que acontece quando duas almas mortas se encontram?
O
que acontece quando a vida em ti já se apagou?
O
que acontece quando nos olhos se vê desesperança?
O
que acontece quando o sentido de tudo já se acabou?
Click, click trrrrrrrrrrrrr
Era um trecho de uma música das Feiticeiras,
eram simplesmente a maior banda já criada, elas tinham letras maravilhosas, uma
melodia profunda e ótimos efeitos especiais de palco, faziam jus ao nome com
toda a aura teatral e mágica que as envolvia, infelizmente não consegui comprar
um ingresso para o próximo show já que haviam se esgotado menos de uma hora
após a abertura das vendas.
Ainda assim eu tinha agora um pedaço de um dos
novos lançamentos que sairiam completos apenas no fim do ano, e era o que
bastava, um gostinho do novo álbum, antes que ficasse disponível em discos para
que eu comprasse.
Abracei Jéssica com força, sentindo a pele
queimada e repuxada de seu braço contra o meu ferido, pelo menos era uma forma
de me punir por ter saído sem uma única marca daquele incêndio.
-
É o melhor presente que já ganhei.
Após algum tempo ela soltou-me e inclinou a
cabeça para o meu guarda-roupas e depois para o meu pijama, saindo assim de meu
quarto e fechando a porta.
Fui até minha escrivaninha e peguei mais um
cigarro, acendi-o enquanto girava até o guarda-roupas e o abria distraidamente,
acabei colocando uma saia preta de tule e uma camisa vermelha de flanela
xadrez, coloquei meias roxas listradas e um all star preto.
Então desci as escadas.
Jéssica me esperava na cozinha com uma mesa
repleta de doces, salgados, e três bolos diferentes, vários refrigerantes
cobriam as bancadas, havíamos convidado metade da escola, provavelmente aquilo
seria pouco se todas as pessoas viessem, mas é claro que sempre vem menos gente
do que foi convidada.
-
Enquanto os seus amigos não chegam,
- disse ela - que tal tocarmos um pouco?
Abri um sorriso de imediato e fomos para a
sala, além de ser mais fácil de ver os convidados chegando já que eles
entrariam por ela, era o lugar onde ficavam nossos instrumentos, antigamente
mamãe deixava seu piano de cauda em frente ao sofá, mas como nenhuma de nós
duas tocava, e era doloroso vê-lo depois do incêndio, acabamos nos livrando
dele e Jessy trouxe sua bateria que antes ficava no sótão, e eu segui seu
exemplo trazendo minha guitarra.
Já
se foram os pássaros
Já
morreram as borboletas
Já
saíram os anjos
Já
arrancaram minhas asas
Já
não posso mais voar
Já
não posso respirar
Já
não há uma saída
Já
não há nenhum lugar
Docemente
o sangue flui
Rindo
a me aliviar
Já
os pulsos são cortados
Já
a dor volta a sumir
Já
o sangue que escorre
Conta
a história de quem morre
Após algumas músicas olhei para o relógio de
pêndulo que descansava ao lado da janela de ébano, já era quase meio dia e
ninguém havia chegado.
Senti um aperto de apreensão no peito, era meu
primeiro aniversário depois da morte de nossos pais, e hoje fazia um ano da
morte deles, eu precisava daquela festa, precisava me distrair, precisava fugir
urgentemente da realidade que se lançava sobre mim.
Olhei para Jessy que também já havia notado,
ela soltou suas baquetas e respirou fundo olhando novamente para o quintal.
Era possível ver tanto a porta quanto a janela
de onde estávamos.
A nossa frente se estendia um quintal imenso
repleto de estátuas e flores, os portões de ferro maciço trançados em padrões
espirais estavam abertos e adornados com balões púrpura, o chafariz estava
decorado com balões transparentes e a calçada estava recoberta por confete que
voava e se grudava entre as margaridas ao redor.
Mas nenhuma alma viva passava por ali.
Me dirigi à cozinha seguida de perto por
Jéssica que pegou um refrigerante e uma bolinha de queijo antes de se sentar no
degrau da varanda que tinha visão para o quintal.
Peguei alguns salgados e segui seu exemplo.
-
É normal que se atrasem, ninguém
nunca chega na hora em aniversários - Ela disse.
Era como se estivesse tentando convencer a si
mesma, ela mantinha um sorriso exagerado no rosto e uma atitude excessivamente
positiva, isso só me fazia pensar cada vez mais em como tudo estava errado.
Passaram-se algumas horas mais, e perto das
cinco da tarde ela finalmente me deixou cortar o bolo, insistindo que eu
acendesse as velas.
Assoprei-as
sem pensar em nenhum desejo, Jessica ainda sustentava um sorriso doce e repetia
de tempos em tempos que alguém chegaria.
Eu me sentia em uma disforia macabra.
Já passavam das oito quando ela finalmente desistiu,
uma fumaça densa emanava do chão, formando uma neblina impenetrável lá fora.
Jessy
pegou uma garrafa de vinho e subiu para seu quarto me deixando sozinha com um
sorriso condescendente nos lábios.
Eu não aguentava sua mania de fingir que
estava tudo bem, desde o incêndio ela agia assim, talvez se sentisse
responsável por manter alguma espécie de ordem em nosso lar, acho que ela
tentava acreditar que, se sorrisse bastante na minha frente, eu não veria todas
as vezes que ela se entupia de remédios e vinho e chorava em seu quarto, que eu
não saberia quantas brigas ela tivera com Sky seu namorado, e que eu acabaria
me esquecendo do que aconteceu.
Acho que ela ainda me via como uma criança que
deveria proteger, mas com certeza não notava que fingir que o problema não
existia, não fazia com que ele deixasse de estar ali.
Sentei-me no chão recostada na bancada, e abri
a porta branca do armário tirando uma garrafa de vodca, peguei a carteira de cigarros
no bolso e logo que acendi um, dei um gole no líquido transparente que desceu
queimando pela minha garganta.
Eu queria poder ir embora, sair daquela cidade
bizarra onde as memórias me perseguiam como facas, mas Jessy jamais aceitaria,
acreditava na lenda boba de que morreria se saísse do vale, já eu, queria que
se explodissem todas as pessoas com aquelas superstições ridículas.
Estava tão imersa em meus devaneios, que não
ouvi quando alguém entrou pela porta da cozinha, não notei que botas de couro
manchavam de vermelho vivo o piso alvo, e nem as correntes que chocalhavam
tilintando sobre o jeans de uma calça preta, até que ouvi sua voz.
-
Victória, preciso da sua ajuda.
Ergui a cabeça e me vi diante de uma feição
familiar: cabelos longos e brancos emolduravam um rosto pálido e bem esculpido,
lábios macios e rosados que traziam um corte vertical em um dos lados que
sangrava e chegava quase até a altura dos olhos brancos e leitosos, o sangue
escorria por seu rosto e respingava na camisa branca de babados se misturando
com o líquido vivo que fluía dos cortes profundos em seu peitoral magro e
definido, a camisa rasgada mostrava os músculos fortes maculados por machucados
que pareciam ter sido feitos por um canivete muito bem afiado, por fim, o
sangue escorria pela calça justa coberta de correntes de prata, e se acumulava
no chão abaixo de seus coturnos polidos.
-
O que aconteceu com você? -
perguntei derrubando a garrafa no chão e me levantando de imediato, o cigarro
ainda entre os dedos, o líquido transparente e ardente escorrendo pelo piso em
meio ao vidro quebrado e se misturando ao sangue férreo que descia pelo corpo
do garoto diante de mim.
Ele nem se moveu com o impacto da garrafa no
chão, apenas fitou o ar em minha direção com uma profundidade estarrecedora,
seus olhos eram completamente brancos, sem sequer uma sombra de onde deveriam
estar as íris e pupilas, mas ele olhava diretamente em minha direção, e eu
sentia como se ele pudesse ver bem mais do que deveria, sua postura, mesmo
ferido, demonstrava uma calma infindável e uma confiança invejável, e a forma
como seu rosto se inclinava em minha direção me fazia ruborizar como se ele
tivesse acabado de me flagrar nua.
-
Bebendo novamente minha cara? - ele
passou a mão pelos cabelos brancos e sedosos, ele não parecia ser muito mais
velho que eu, deveria ter uns 17 ou 18 anos, embora eu nunca tenha tido tempo
para perguntar sua idade.
Ele não era simplesmente um garoto lindo.
Era deslumbrante, sua feição extremamente
perfeita e o rosto bem definido, apesar de seus olhos arrepiantes e de sua
forma antiquada de agir, ele era o sonho de qualquer garota, e mesmo aturdida
com o sangue que escorria por sua pele alva, não pude deixar de estremecer ao
som de sua voz rouca e suave, ou de imaginar como seria tocar aqueles lábios...
-
O que eu bebo ou deixo de beber não
lhe interessa - dei um trago mal humorado no cigarro enquanto procurava o kit
de primeiros socorros entre os armários.
-
Ah... muito pelo contrário minha cara...
inclusive, se eu fosse você, pararia de fumar... você não quer morrer cedo... quer?
Senti como se faíscas saíssem de seu corpo
diretamente para o meu, então senti suas mãos quentes em meus ombros, sua
respiração suave em minha nuca fez com que todo meu ser fosse percorrido por
uma corrente elétrica.
-
Você quer morrer...? Doce Victória?
Sua voz era extremamente atraente e
convidativa... eu iria para qualquer lugar ao qual aquele som me chamasse...
Ele deslizou os dedos por meu braço revelando
as cicatrizes no pulso e soltando um riso suave, não era condescendente ou doce
como o de Jessy, mas irônico, sombrio, e ainda assim macio como uma cama
quente.
-
Eu... você... - Tentei formular um
pensamento coerente mas estava embriagada por aquela voz.
Antes do que eu gostaria ele se afastou e me
virei para encará-lo.
Estava calmamente recostado na mesa, os olhos
penetrantes fixados diretamente nos meus, senti que havia algo errado, mas não
conseguia entender o quê.
-
Eu vim aqui por um motivo, Victória.
Preciso da sua ajuda para ...
-
Que merda é essa?
Bryan entrava na cozinha segurando um urso de
pelúcia enorme e um buquê de rosas azuis e amarelas, seus cabelos loiros caíam
sobre os olhos azuis enquanto ele deixava os presentes sobre a mesa e ajeitava
a camisa branca de botão.
-
Não é da sua conta Bryan. - a voz de
Dimitri era apática mas firme, seu tom não se elevou em momento algum.
Fitei o urso caído solitário sobre a mesa fria
de ébano, as rosas haviam escorregado para o chão onde pétalas se misturavam a vodca
e sangue, líquido que também manchava os tênis all star de Bryan, que colocava
uma das pernas para trás enquanto levantava o punho e dava um soco na direção
de Dimitri.
Foi muito rápido, antes que o soco encontrasse
uma das costelas do garoto de cabelos brancos, ele já estava com a mão em
frente, segurou o punho de Bryan e com um único girar do pulso o torceu fazendo
com que o loiro caísse ao chão, a camisa branca completamente maculada pelo
líquido vermelho vivo; Dimitri nem sequer mudou a postura, de maneira relaxada
olhava em minha direção enquanto permanecia segurando o outro garoto no chão.
-
O que é que...
Jéssica estava de pijama e pantufas na porta
da cozinha, seu olhar demonstrava surpresa, obviamente, mas ela claramente não
estava sóbria, principalmente pelo fato de não conseguir permanecer parada sem
dar leves cambaleadas.
-
O que acontece Jéssica - Disse
Dimitri, que estava de costas para ela, sem nem se mover mas mantendo a pressão
no pulso de Bryan - É que você bebeu demais, e está vendo coisas. Vá dormir.
Amanhã vai entender que foi só um sonho.
Ele girou um pouco mais o pulso fazendo Bryan
se contorcer.
-
Victória faça alguma coisa! Me
ajude! - nessa altura sua camisa já estava completamente perdida, ele tentava
se soltar inutilmente.
Dei mais um trago no cigarro, sentindo a
fumaça preencher meus pulmões e batendo a cinza sobre o piso, fitei Jessica
estarrecida, Dimitri paciente e tranquilo, e Bryan ofegante.
Aquele dia era pra ser o meu dia, mas a
cada segundo que passava eu só pensava em como tudo ao meu redor parecia
quebrado.
-
Se virem vocês três. Eu vou dormir.