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Vidas Trocadas: A Esposa Errada do CEO

Vidas Trocadas: A Esposa Errada do CEO

Autor:: Lanuza Santos
Gênero: Romance
Ana Paula vive o luxo e as armadilhas da alta sociedade, mas quando um casamento arranjado com Leonardo Montenegro - o poderoso e temido "Czar de Gelo" - surge como sentença inevitável, ela entra em pânico. Incapaz de suportar a prisão dourada que a espera, ela propõe à irmã gêmea uma troca de identidades. Usando a doença grave do pai e as dívidas que ameaçam o sítio da família, Paula consegue fisgar Ana Clara e convencê-la a assumir seu lugar. Ana Clara, coração mole e raízes profundas no interior, aceita o sacrifício por amor ao pai. Ela abandona sua vida simples, casa-se com um homem frio, calculista e marcado por tragédias, e entra em um mundo de riqueza opulenta, segredos sombrios e uma Sociedade secreta que controla fortunas e destinos com regras implacáveis. Mas o que era para ser apenas um acordo temporário rapidamente sai do controle. Leonardo não é apenas o homem de gelo que todos temem. Por trás da armadura há dor, desconfiança e uma luta silenciosa contra os radicais que dominam a Sociedade. E Clara, com sua inteligência afiada e calor humano que não consegue esconder, começa a despertar nele algo que ele jurou nunca mais sentir. Enquanto mentiras se acumulam, atentados são encobertos, Clara se vê presa entre proteger sua família e o risco real de se apaixonar pelo homem que deveria apenas enganar. Quando a verdade vier à tona, restará a pergunta mais perigosa de todas: Será que o amor consegue sobreviver quando tudo foi construído sobre uma mentira? Até quando Ana Clara conseguirá ser a esposa errada do CEO?

Capítulo 1 Raízes Que Sangram

O cheiro de terra molhada e de café fresco sempre foi o meu porto seguro, mas, naquela manhã, tinha gosto de despedida.

Olhando pela janela da cozinha, vi meu pai, Luiz Carlos, sentado na varanda. O sol da manhã batia em seu rosto, mas sem trazer cor. Ele tentava esconder o tremor nas mãos enquanto segurava a caneca, como se o mostrar fraqueza fosse uma traição a tudo o que ele sempre foi.

Eu conhecia cada detalhe daquele homem.

E o via enfraquecer, dia após dia, como uma árvore esquecida pela chuva.

- Ele não tomou o remédio novo, Ana - minha avó Maria sussurrou ao meu lado. A voz vinha cansada, carregada de noites mal dormidas. - Disse que é caro demais... que não vale a pena gastar com algo que não tem cura.

Engoli em seco e senti o nó apertar minha garganta.

Meu pai era meu alicerce. Quando minha mãe, Laura, partiu em busca do brilho da cidade grande, levando Ana Paula pela mão, eu escolhi ficar. Escolhi o barro, os bichos, o silêncio que conforta. Escolhi o amor simples e firme daquele sítio.

Mesmo assim, a partida dela sempre deixou um vazio que ecoa em cada canto da casa. O coração se dividia entre o ressentimento e a compreensão pela busca dela por algo maior, algo que talvez eu nunca pudesse oferecer, mas que me ensinou a valorizar o que eu tinha.

Eu também senti uma necessidade profunda de proteger o que restava, de garantir que as raízes que nos prendiam àquele lugar não se perdessem. Assim, cada decisão minha era uma promessa silenciosa de lealdade ao homem que sempre escolheu permanecer.

Recebi a melhor educação que o esforço do meu pai pôde pagar. Tive acesso a livros, bons professores e valores, mas meus diplomas não serviam de nada se eu não podia salvar a vida de quem me ensinou tudo.

O barulho de um carro importado cortou o silêncio, destoando daquele lugar.

Levantei o olhar a tempo de ver o veículo reluzente estacionar perto do celeiro, levantando poeira demais para algo tão delicado.

Era ela.

Ana Paula saiu do carro com a confiança de quem nunca precisou pedir licença. Cada gesto era preciso. O cabelo estava impecável, usava óculos escuros de marca, um vestido claro de tecido leve e acessórios que valiam mais do que toda a nossa colheita.

Tão parecida comigo.

E tão distante.

- Ela odeia esse lugar - murmurou meu avô Geraldo, surgindo atrás de mim. - Mas nunca deixa de vir.

Sorri, sem tirar os olhos dela.

- No fundo, ela precisa daqui. Mesmo que nunca admita.

Ana Paula entrou na casa segundos depois, retirando os óculos e observando tudo como se estivesse em um museu antigo.

- Isso aqui continua... igual - comentou, sem saber se reclamava ou constatava.

- Ainda bem - respondi, me aproximando.

Nos encaramos por um segundo a mais do que o normal. Tínhamos o mesmo rosto, os mesmos olhos, mas histórias completamente diferentes refletidas neles.

- Você está mais magra - disse ela, após um abraço apertado. - Interior não combina com dieta, sabia?

- E você está mais dramática - devolvi, sorrindo. - Cidade grande faz isso?

Ela revirou os olhos e sorriu.

- Bem-vinda, minha filha - minha avó abriu os braços. - Deixei o quarto preparado. Espero que esteja do seu agrado.

- Fiz questão de examinar cada canto daquele lugar - meu avô completou, rindo. - Não quero ser acordado de madrugada de novo com seus gritos por causa de algum visitante indesejado.

- Argh... - Ana Paula fez uma careta. - Diz isso porque não foi o senhor que acordou com um sapo na beira da cama! Aquele bicho estava me encarando!

Ela ainda abraçava o avô quando meu pai apareceu na porta.

Caminhava com dificuldade. O corpo denunciava o que ele insistia em esconder. Ainda assim, endireitou os ombros e brincou:

- Pare de drama, menina. O Godofredo não faz mal a ninguém.

Ana Paula ficou parada por um instante ao vê-lo daquele jeito. Seus olhos se arregalaram, mas ela logo disfarçou. Ela nunca gostou de mostrar sentimentos profundos na frente dos outros.

- Papai! - reclamou. - Sua opinião não conta. Seu gosto por animais de estimação é duvidoso.

Todos nós rimos.

- Venha aqui, minha filha - ele abriu os braços. - Estava com saudades.

Ela se aproximou devagar, como se ele fosse frágil. Mas meu pai a puxou para um abraço forte e deu um beijo barulhento em sua bochecha.

Ficamos reunidos em volta da mesa da cozinha. Café quente, pão fresco, risadas tímidas. Ana Paula falava da viagem, dos amigos, de lugares distantes.

Meu pai observava em silêncio, como se quisesse guardar cada detalhe na memória.

Duas filhas, duas vidas, e um futuro que talvez ele não pudesse ver.

Pude perceber, pelo seu olhar, quando um pensamento atravessou sua mente. Então me lembrei da conversa de dias antes: queria nos ver casar, formar família, ter filhos.

Mal sabia ele que, naquele ano, Ana Paula não viera apenas para uma visita.

Ela trouxe uma proposta e planos que poderiam mudar o destino de todos nós.

Capítulo 2 A Proposta

A cozinha foi se esvaziando aos poucos.

Meu avô saiu primeiro, ajeitando o chapéu de palha, reclamando do sol que já castigava cedo demais. Minha avó foi atrás, levando uma cesta de pano e a lista mental dos afazeres do dia: galinhas, horta, roupas no varal.

Meu pai caminhou devagar até a varanda e voltou a se sentar na cadeira de sempre, como se aquele fosse o único lugar onde ainda se sentia inteiro. Ficou ali, observando o nada, com os cotovelos apoiados nos joelhos e o olhar perdido no pasto.

Fiquei na cozinha, terminando de lavar a louça. O barulho da água caindo na pia era quase hipnótico. Pratos simples, copos antigos, tudo no seu devido lugar. Sempre foi assim. Ordem era a forma que encontrei de manter o caos longe.

Senti o olhar dela antes mesmo de virar o rosto.

Ana Paula estava encostada no batente da porta, em silêncio. Sem celular, sem pressa. Só me observava, como se tentasse entender como alguém podia viver assim ou, talvez, criando coragem.

Ela acompanhava meus movimentos com atenção. Minhas mãos molhadas, o avental já gasto, o cabelo preso de qualquer jeito.

Eu terminei de enxaguar o último prato e o guardei no armário.

Foi então que ela falou:

- Preciso falar com você. Sozinha.

O tom baixo e contido fez meu estômago se contrair.

Não era um pedido, era um aviso.

Enxuguei as mãos com calma, mesmo sentindo o coração acelerar.

- Agora?

Ela assentiu, já se afastando pelo corredor.

O quarto antigo nos recebeu com o mesmo cheiro de madeira e de lembranças. Ana Paula fechou a porta atrás de nós e, por alguns segundos, ficou parada no meio do cômodo, como se tivesse esquecido o motivo de estar ali.

Então, a máscara caiu.

- Clara, eu não aguento mais! - disparou. - O Pedro quer me vender! Ele e aquela aliança maldita de empresários!

Caminhava de um lado para o outro, as mãos trêmulas.

Ela parou, abriu a bolsa e tirou o celular. Encarou a tela apagada por alguns segundos, como se buscasse coragem.

- Eu vou me casar.

Senti o mundo girar.

- O quê?

- Não por escolha - apressou-se. - É um acordo antigo. Entre famílias.

- Com quem?

Ela engoliu em seco.

- Leonardo Montenegro.

O nome soou como uma sentença.

Eu o conhecia pelas notícias. O "Czar de Gelo" do mercado financeiro. O homem que perdera a noiva semanas antes do casamento, em um acidente que chocara o país. Desde então, diziam que seu olhar era feito de lâminas.

- Paula, ele tem quase dez anos a mais do que você. Dizem que ele é...

- Um monstro de terno? - ela interrompeu, a voz quebrada. - Sim. Ele é. Quer uma esposa troféu enquanto tenta derrubar as regras daquele grupo de velhos poderosos. Sem esposa, não pode continuar liderando as empresas.

Ela começou a chorar. Não era um choro calmo, mas de quem chegou ao limite.

Então me contou sobre o pacto. Sobre como a fortuna do padrasto dependia desse acordo. Então, lançou a bomba.

- Eu sei sobre o papai. Vi as contas médicas. Ouvimos boatos sobre o sítio. Vocês vão perder tudo, não vão?

Baixei a cabeça. O silêncio respondeu por mim.

- Eu tenho um plano - ela segurou minhas mãos. - A mamãe já concordou. Ela vai garantir o dinheiro.

Meu coração disparou.

- Troque de lugar comigo. Só por alguns meses. Leonardo não quer uma esposa de verdade; ele odeia a ideia desse casamento. Ele vai te deixar em um canto da mansão e esquecer que você existe. Em troca, a mamãe transfere o dinheiro para o tratamento do papai e quita as dívidas do sítio. Hoje mesmo.

Imagens da infância invadiram minha mente. Nós duas trocando roupas, nomes, identidades. Enganando professores, confundindo adultos.

Olhei para minhas mãos calejadas. Imaginei anéis de diamante.

Olhei pela janela. Vi meu pai curvado pela tosse.

- Ele vai perceber - sussurrei.

- Ele nunca me olhou nos olhos por mais de dois segundos. Para ele, sou apenas um item em um contrato.

Parecia absurdo.

Perigoso.

E talvez fosse a única saída.

Naquele momento, entendi: o 'sim' que eu diria no altar não seria para Leonardo Montenegro.

Seria para salvar a vida do meu pai.

Eu seria a esposa errada, no mundo errado, torcendo para que o Czar de Gelo jamais descobrisse que a mulher em sua casa era apenas uma impostora do interior.

Capítulo 3 O Peso da Decisão

Balancei a cabeça devagar, tentando organizar os pensamentos que se atropelavam dentro de mim.

- Paula... não é só vestir suas roupas e repetir seu nome - falei, finalmente. - Sua vida é outra. Seus amigos, seus hábitos, sua forma de falar... Eu não sei viver naquele mundo.

Ela respirou fundo, como se já esperasse por aquilo.

- Eu sei. - Aproximou-se da janela, apoiando as mãos no parapeito. - Você sempre foi... inteira. Eu sempre fui moldada.

Virei o rosto para ela.

- Isso não é verdade.

- É, sim - respondeu, sem me olhar. - Você sabe quem é. Eu sei o que esperam que eu seja.

O silêncio caiu entre nós.

- E sua profissão? - perguntei. - Seus colegas, seus contatos... Eu não posso fingir entender coisas que nunca vivi.

Ela se virou então, com um meio sorriso cansado.

- Nossas áreas são diferentes, mas conversam entre si. Você entende o suficiente para não levantar suspeitas. E o resto... - deu de ombros - ninguém realmente presta atenção quando acha que já sabe quem você é.

Aquilo me arrepiou.

- E seus amigos? - insisti. - Eles te conhecem. Sabem como você age.

- Os mais próximos já se afastaram desde que esse casamento foi anunciado - respondeu, amarga. - E os outros... gostam mais do que eu represento do que de mim.

Caminhou até a cama e se sentou.

- Clara, eu pensei em tudo.

Essa frase nunca é reconfortante. Nunca.

- Antes de voltarmos pra cidade, vamos fingir um acidente doméstico.

Meu coração falhou uma batida.

- Um... o quê?

- Uma queda - disse com naturalidade demais. - Nada espetacular. Escada, banheiro, algo comum. Mamãe vai anunciar tudo com aquele tom dramático que ela sabe usar tão bem.

Engoli em seco.

- Você bate a cabeça - ela continuou. - Fica desacordada por um dia inteiro. Na clínica particular de uma amiga dela. De confiança.

- Eu?

- Sim. Você. Sedada. Quando acordar, vai dizer que está confusa. Pequenos lapsos. Esquecimentos pontuais. Nada grave demais para justificar um afastamento, mas o suficiente para explicar mudanças.

Meu estômago embrulhou.

- Isso explica, caso eu não reconheça algumas pessoas... - murmurei, começando a entender.

- Exatamente. - Os olhos dela brilharam. - Médicos adoram zonas cinzentas. E pessoas ricas não gostam de questionar diagnósticos quando eles são convenientes.

Fiquei em silêncio.

- Temos a semana toda pela frente. Nós vamos estudar juntas - Paula continuou. - Meus gostos, minhas manias, meus amigos mais citados. A mansão. Os empregados. O que cada um espera ouvir.

- E Leonardo? - perguntei, sentindo o nome pesar na língua.

Ela deu de ombros.

- Não temos muito contato. E isso joga a nosso favor.

A ideia crescia diante de mim, assustadora e cada vez mais possível.

- E nossos avós? - minha voz saiu baixa. - E papai?

Ela hesitou pela primeira vez.

- É a parte mais difícil - admitiu. - Talvez... não contemos tudo. Inventamos uma desculpa para sua ausência. Um trabalho. Um projeto temporário.

- Você quer que eu minta para o homem que nunca me escondeu nada?

- É para salvá-lo, Clara! Se dissermos a verdade, ele morre antes da doença. Deixe que ele pense que você está feliz, realizando seu sonho.

- E o dinheiro?

- Pagamento adiantado. - respondeu rápido. - Algo que seja justificado por uma proposta de emprego ou por um projeto remunerado.

Fechei os olhos.

Mentir para estranhos era uma coisa.

Mentir para quem me criou... era outra.

- Eu não posso ficar aqui - Paula acrescentou, quase em defesa. - Não aguentaria. Isso me sufocaria.

- Então você vai pra onde? - perguntei.

Ela respirou fundo, como quem finalmente fala de algo que ama.

- Vou viajar. Como sempre planejei. Um descanso sabático. Europa, Ásia, África... - sorriu de leve. - Termino no Canadá.

Meu peito apertou.

- Tudo já está organizado - continuou. - Agência, roteiro, hotéis. Só vou mudar o nome do pacote.

- Para o meu.

- Sim.

Olhei para ela. Para o mesmo rosto que o meu refletia. Para a distância invisível entre nossas escolhas.

- Você nem vai viver minha vida... enquanto eu vivo a sua - murmurei.

- Quase. Pelo que me lembro, você também sempre quis conhecer o mundo. Estar entre as culturas e os povos que você tanto estuda. Serão apenas alguns meses. É só uma troca temporária.

A palavra "temporária" nunca pareceu tão frágil.

Lá fora, ouvi a tosse do meu pai. Seca. Dolorosa.

Abri os olhos.

- Se eu fizer isso - falei, sentindo o peso da decisão esmagar meus ombros -, não é por você. Nem por esse acordo maldito.

Ela se aproximou.

- Eu sei.

- É por ele - completei. - E só por ele.

Ana Paula assentiu, emocionada.

Naquele quarto simples, entre lembranças de infância e um futuro que eu jamais planejei, entendi que minha vida acabara de se dividir em duas.

A que eu conhecia.

E a que eu estava prestes a roubar.

E, pela primeira vez, senti medo não do que eu perderia, mas de quem eu poderia me tornar.

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