Por oito anos, eu fui a namorada do bilionário mais intocável de São Paulo, Arthur Monteiro. Para o público, éramos um conto de fadas: o CEO brilhante e frio que era completamente devotado a mim, uma simples artista que ele tirou do anonimato. Ele construiu uma fortaleza de luxo e segurança ao meu redor.
Mas era tudo mentira. No nosso aniversário, eu o ouvi com outra mulher. Ele me chamou de "isca", um "escudo" que ele usava para absorver as ameaças e a atenção destinadas ao seu verdadeiro amor, Karina.
Sua máscara caiu. Ele permitiu que Karina me humilhasse publicamente, destruísse a herança de família da minha falecida mãe e, como castigo, me forçou a tomar uma sopa feita com meu amado gato.
Sua "lição" final foi me jogar em um clube de luta clandestino. Enquanto eu jazia espancada e sangrando na lona, eu o vi no camarote VIP, assistindo com um tédio distante enquanto Karina ria ao seu lado. Os oito anos de proteção não foram amor; foram apenas a manutenção do seu escudo humano.
À beira da morte, fui resgatada por seu maior rival, Breno Tavares. Com meu último suspiro, entreguei a ele os segredos que colocariam o império de Arthur de joelhos. Em troca, pedi apenas uma coisa.
"Faça Helena Bastos desaparecer", sussurrei. "Me ajude a morrer."
Capítulo 1
Arthur Monteiro era um nome que impunha respeito em São Paulo. Nas capas das revistas, ele era o CEO de tecnologia brilhante e frio, um bilionário que parecia existir em um plano diferente de todos os outros. Seu rosto era afiado, seus olhos distantes, e ele nunca sorria. As pessoas o chamavam de máquina, um gênio sem tempo para conexões humanas. Essa era sua imagem pública, cuidadosamente construída e mantida.
Mas em particular, na cobertura gigantesca com vista para o Parque Ibirapuera, a máquina tinha uma única e avassaladora obsessão. Ele não era frio; era uma fornalha de intensidade cuidadosamente controlada. E essa intensidade era direcionada a uma pessoa: Helena Bastos.
Helena era uma estudante de artes passando por dificuldades há oito anos, mal conseguindo pagar o aluguel de um apartamento minúsculo na Vila Madalena. Arthur a encontrou, a tirou do anonimato e a tornou sua namorada. Não apenas sua namorada, mas a parceira publicamente adorada do homem mais intocável da cidade.
Ele era intensamente protetor, uma característica que todos confundiam com amor. Quando uma empresa rival tentou desenterrar podres sobre ele, ele construiu um muro de segurança em torno de Helena tão espesso que nenhum repórter conseguia chegar a menos de trinta metros dela. Quando uma coluna de fofocas da alta sociedade publicou um comentário maldoso sobre sua origem simples, a publicação foi processada até a falência em uma semana.
Todos em seu círculo acreditavam que Arthur Monteiro, o bilionário estoico, era completamente devotado a Helena Bastos. Eles viam a maneira como ele a seguia com os olhos nas festas, a maneira como ele escolhia pessoalmente cada peça de seu guarda-roupa de grife, a maneira como ele enviava um helicóptero para buscá-la se ela estivesse trabalhando até tarde em seu ateliê. Eles viam um conto de fadas.
Esta noite era o oitavo aniversário deles. Estavam em uma gala de caridade, um evento reluzente com a elite da cidade. Helena, vestida com um vestido da cor do céu da meia-noite, sentiu uma rara centelha de ousadia. Ela se inclinou para perto de Arthur, sua voz um sussurro suave contra o tilintar das taças de champanhe.
"Arthur", disse ela, "você poderia me dar o colar 'Estrela do Mar' quando for a leilão? Como presente de aniversário?"
Era uma peça que ela tinha visto no catálogo, uma simples safira em uma corrente delicada. Lembrava-a de sua mãe, que amava o oceano.
A expressão de Arthur, que estava neutra, instantaneamente se transformou em gelo. Ele se afastou um pouco, seus olhos percorrendo o rosto dela com uma súbita e arrepiante reprovação.
"Você tem um cofre cheio de joias", disse ele, sua voz baixa e cortante. "Por que você iria querer algo tão insignificante?"
Suas palavras foram um tapa. Um momento depois, Karina Lacerda, a filha de um dos principais parceiros de negócios de Arthur, aproximou-se da mesa deles. Ela sorriu docemente, seus olhos pousando em Helena.
"Helena, seu vestido é adorável", disse Karina, mas seu tom era carregado de algo afiado. "Embora, ouvi dizer que você estava pedindo a Arthur pela 'Estrela do Mar'. Não é um pouco... modesto para uma ocasião como esta? Mal vale a pena mencionar."
Algumas pessoas na mesa riram baixo. O rosto de Helena ardeu de humilhação. Ela sentiu a mão de Arthur em seu braço, não em conforto, mas em aviso. Ele não a defendeu. Ele não disse uma palavra. Apenas a deixou sentada ali, exposta e ridicularizada.
Ela não conseguia entender. Por oito anos, ele lhe dera tudo. Ele havia construído para ela um mundo de luxo e segurança. Mas às vezes, por coisas pequenas e aparentemente insignificantes, essa frieza aparecia. Esse estranho cruel e desdenhoso substituía o homem que ela pensava amar.
Mais tarde naquela noite, sentindo-se mal com a confusão, Helena se afastou do salão principal. Ela precisava de um momento de silêncio. Ao passar por uma varanda isolada, ouviu vozes. A voz de Arthur e a de Karina. Ela congelou, escondendo-se nas sombras de uma grande palmeira em um vaso.
"Arthur, ela não tem o direito de pedir aquele colar", a voz de Karina era um silvo venenoso, completamente diferente de sua persona pública. "Ela está ficando confortável demais. Está esquecendo o seu lugar."
"Eu sei", a resposta de Arthur foi seca, desprovida de qualquer calor. "Foi um erro deixá-la se apegar tanto."
O coração de Helena parou. Um erro?
"Ela é apenas uma isca, Arthur. Um escudo. Você não pode começar a tratar o escudo como se fosse a coisa real", continuou Karina, sua voz se elevando com ciúmes. "Sou eu quem você deveria estar protegendo. Aquele colar deveria ser para mim."
As palavras atingiram Helena como um golpe físico. Uma isca. Um escudo.
"A humilhação pública de hoje não foi suficiente", Karina prosseguiu, seu tom se tornando sádico. "Ela precisa de um lembrete mais forte. De que ela é apenas uma substituta, um corpo para absorver as ameaças e a atenção que são destinadas a mim."
Helena sentiu o ar sair de seus pulmões. As ameaças. A atenção. Todo o perigo do qual ela pensava que Arthur a estava protegendo... ele na verdade a estava usando para atraí-lo.
"Ela é um peão, Arthur. E está começando a pensar que é a rainha", cuspiu Karina. "É nojento."
Então vieram as palavras que estilhaçaram todo o mundo de Helena. A voz de Arthur, fria e final.
"Eu sei", disse ele. "Estou ficando cansado dela. Faça o que quiser. Só não deixe rastros."
O som era um rugido nos ouvidos de Helena. Ela tropeçou para trás, a mão voando para a boca para abafar um soluço. Ela não conseguia respirar. Sua mente girava, repassando os últimos oito anos em um rolo nauseante e de alta velocidade.
O acidente de carro que quase a matou há dois anos, que Arthur chamou de um trágico acidente causado por um motorista bêbado. O incidente de intoxicação alimentar que a deixou hospitalizada por uma semana. O perseguidor que invadiu seu ateliê e destruiu suas pinturas. Tudo isso. Por oito anos, ela tinha sido uma esponja humana, absorvendo o perigo destinado a outra mulher.
Ela se lembrou das vezes em que Arthur a abraçou depois de um desses "acidentes", seu rosto tenso com o que ela pensava ser preocupação. Ele a examinava em busca de ferimentos, seu toque frenético. Ele murmurava sobre aumentar sua segurança. Ela pensara que era amor, seu medo desesperado de perdê-la.
Agora ela via a verdade. Não era amor. Era uma avaliação fria e calculista de seu ativo. Ele estava verificando se seu escudo ainda estava funcional. A percepção foi um veneno se infiltrando em cada boa memória que ela tinha, tornando-a negra e podre. Ela era uma ferramenta. Um objeto descartável.
"E Arthur", a voz de Karina arrulhou da varanda, trazendo Helena de volta ao presente horrível. "Se ela ficar muito desobediente de novo... talvez uma lição mais permanente seja necessária. Meu tio conhece algumas pessoas. Eles administram um clube particular. Fica bem pesado."
O sangue de Helena gelou. Ela ouviu o silêncio de Arthur e soube o que significava. Era aprovação. Aprovação fria e insensível.
Ela não conseguia ouvir mais. Virou-se e correu, seus saltos emprestados prendendo no tapete felpudo. Ela não sabia para onde estava indo, apenas que tinha que fugir. O lindo vestido parecia uma fantasia de tola. Os diamantes em seu pescoço pareciam uma coleira.
Ela conseguiu voltar para sua suíte na cobertura, seus pulmões ardendo. Suas mãos tremiam enquanto ela jogava uma mala na cama, abrindo gavetas, pegando roupas, seu passaporte, qualquer coisa. Ela tinha que ir embora. Agora.
De repente, a porta de seu quarto se abriu sem fazer barulho. Não era Arthur. Um homem que ela nunca tinha visto antes estava lá, um sorriso cruel no rosto. Ele era grande e seus olhos eram predatórios. Ele trabalhava para o tio de Karina. Helena soube instantaneamente.
"Indo a algum lugar, gracinha?", ele zombou, entrando no quarto e fechando a porta atrás de si.
O pânico a dominou. Ela recuou até suas pernas baterem na cama. O homem avançou lentamente, estalando os nós dos dedos.
"Não me toque", sussurrou Helena, sua voz trêmula.
"A senhorita Lacerda disse que você precisava de uma lição", disse ele, seu sorriso se alargando. "E o senhor Monteiro não disse não."
Ele se lançou. Helena gritou quando ele a agarrou, sua mão tapando sua boca. Sua outra mão rasgou o ombro de seu vestido caro.
"Eu tenho dinheiro!", ela ofegou, tentando se livrar. "Posso te dar o que você quiser!"
Ele riu, um som áspero e feio. "Seu dinheiro é o dinheiro de Arthur Monteiro. E é ele quem quer que você seja punida." Ele se inclinou, seu hálito quente e fétido. "Ele acha que você é suja. Ele nem suporta te tocar, sabia? Oito anos, e ele nunca dormiu com você. Apenas te mantém por perto como uma boneca bonita na prateleira."
As palavras foram uma nova onda de agonia. Era verdade. Arthur sempre fora fisicamente distante, alegando que a respeitava demais para apressar as coisas. Era outra mentira. Ele sentia repulsa por ela. Ela era apenas um adereço. Não uma amante, nem mesmo uma pessoa. Apenas uma coisa.
Uma onda de raiva pura e primal a atravessou. Ela não era uma coisa. Ela não era uma boneca.
Enquanto o homem se atrapalhava com o cinto, Helena viu sua chance. Sua mão disparou e agarrou a pesada luminária de vidro da mesa de cabeceira. Com uma força nascida do terror e da fúria, ela a balançou com toda a sua força.
A luminária atingiu a cabeça dele com um estalo doentio. Ele grunhiu, cambaleando para trás, seus olhos arregalados de surpresa. Ela não hesitou. Balançou de novo, e de novo, até que ele desabou no chão, inconsciente.
Helena ficou de pé sobre ele, ofegante, a luminária quebrada ainda na mão. Soluços rasgaram sua garganta, crus e partidos. A ilusão se fora. O amor era uma mentira. Sua vida era uma mentira.
Seus olhos caíram em seu celular, deitado na cama. Suas mãos ainda tremiam, mas ela o pegou. Havia um número em seus contatos que Arthur não conhecia. Um segredo que ela guardara para si mesma.
Ela discou o número. Tocou duas vezes antes que uma voz suave e calma atendesse.
"Aqui é Breno Tavares."
Breno Tavares. O maior rival corporativo de Arthur Monteiro. Um homem baseado no Rio de Janeiro que Arthur odiava com paixão. Eles haviam se encontrado uma vez, um ano atrás, em uma conferência de tecnologia. Ele fora charmoso, inteligente e a olhara com uma intensidade que a deixara nervosa. Ele lhe dera seu número particular, "Caso você precise de uma nova perspectiva."
"Eu tenho informações", disse Helena, sua voz um sussurro rouco. "Informações privilegiadas. Do tipo que poderia aleijar o novo projeto de Arthur Monteiro."
Houve uma pausa do outro lado. "Continue."
"Eu vou te dar", disse ela, sua determinação se transformando em algo afiado e inquebrável. "Vou te dar tudo. Em troca, quero uma coisa."
"Diga", a voz de Breno estava afiada de interesse.
Helena respirou fundo, um suspiro trêmulo, olhando para o homem sangrando em seu chão e para a vida que agora estava em cinzas ao seu redor.
"Eu quero que você faça Helena Bastos desaparecer", disse ela. "Eu quero que você me ajude a morrer."
Houve outra pausa, mais longa desta vez. Quando Breno falou novamente, sua voz estava diferente. Mais suave.
"Helena Bastos estará morta até o amanhecer", disse ele. "Eu prometo."
Helena não dormiu. Ela sentou no chão no canto do quarto, observando o homem inconsciente, esperando. O sol começou a nascer, lançando longas sombras cinzentas pela cidade. Assim como Breno havia prometido, dois homens em ternos escuros e discretos chegaram. Eles eram silenciosos, eficientes e profissionais. Limparam o sangue, removeram o homem e deixaram o quarto exatamente como estava antes. Como se nada tivesse acontecido.
Algumas horas depois, uma empregada bateu em sua porta. Era Marta, uma mulher que trabalhava na cobertura há anos e sempre fora gentil com ela. Hoje, seu rosto era uma máscara fria e formal.
"O Sr. Monteiro instruiu que você retire seus pertences deste quarto", disse Marta, sem encontrar os olhos de Helena.
Helena apenas assentiu, seu coração uma pedra entorpecida e pesada no peito.
"Uma nova hóspede chegará em breve para ocupar esta suíte", acrescentou Marta, sua voz seca.
"Eu entendo", disse Helena. Ela não sentia nada. Nenhuma raiva, nenhuma tristeza. Apenas um vazio vasto e oco. Ela tomou um banho, deixando a água quente escorrer sobre ela, tentando esfregar a sujeira dos últimos oito anos. Vestiu um simples par de jeans e um suéter, roupas que pareciam mais sua própria pele do que os vestidos de grife jamais pareceram.
Enquanto ela estava embalando o último de seus materiais de arte em uma caixa, a porta da suíte se abriu. Uma mulher estava lá, banhada pela luz da manhã. Ela era linda, com os mesmos cabelos escuros e traços delicados de Helena. Era como olhar para um reflexo distorcido.
"Então você é a substituta", disse a mulher, sua voz pingando uma mistura de diversão e desprezo. Ela entrou, olhando ao redor do quarto como se fosse a dona. "Eu sou Karina Lacerda. É um prazer finalmente ver a isca pessoalmente."
Helena finalmente entendeu. Não era apenas sobre proteção. Arthur a escolhera porque ela se parecia com Karina. Ele passara oito anos transformando-a em uma cópia perfeita, uma substituta para a mulher que ele realmente queria.
Os olhos de Karina percorreram Helena da cabeça aos pés. "Arthur estava ficando impaciente para eu voltar da Europa. Acho que olhar para você não era mais suficiente para ele."
Helena não disse nada. Pegou sua caixa, com a intenção de passar por Karina e deixar este pesadelo para trás.
Ela tentou oferecer um aceno educado, um gesto final e sem sentido.
Ao passar, Karina de repente ofegou e tropeçou, seu braço se agitando como se tivesse perdido o equilíbrio. Foi um ato desajeitado e óbvio.
"Oh!", gritou Karina, caindo em direção ao chão.
Naquele exato momento, Arthur apareceu na porta. Ele se moveu com a velocidade de um raio, seu rosto uma máscara de puro pânico. Ele passou correndo por Helena, empurrando-a para o lado para pegar Karina antes que ela atingisse o chão.
O empurrão foi forte. Helena tropeçou para trás, sua cabeça batendo na quina afiada de uma mesa com tampo de mármore. A dor explodiu atrás de seus olhos, e ela viu estrelas. Ela deslizou para o chão, sua visão embaçando.
"Karina! Você está bem?", a voz de Arthur estava cheia de um terror frenético que Helena nunca tinha ouvido antes, nem mesmo quando ela sofreu um acidente de carro. Ele segurava Karina como se ela fosse feita de vidro fiado.
"Estou bem, Arthur", murmurou Karina, agarrando-se a ele e lançando um olhar triunfante e venenoso para Helena por cima do ombro dele. "Acho que... acho que a Helena pode ter me empurrado. Foi um acidente, tenho certeza. Ela deve estar chateada por eu ter voltado."
A cabeça de Arthur se virou para Helena, seus olhos ardendo com fúria fria.
"Peça desculpas a ela", ele ordenou.
Helena o encarou do chão, sua cabeça latejando. A injustiça era tão profunda que era quase absurda. "Eu não a toquei", disse ela, sua voz fraca.
"Eu disse, peça desculpas." Sua voz foi um estalo de chicote.
Ela balançou a cabeça, a incredulidade lutando com a dor. "Não."
"Ótimo", rosnou Arthur. Ele pegou Karina nos braços como se ela não pesasse nada. "Você pode ficar na sala de reflexão até aprender boas maneiras."
Ele levou Karina embora, murmurando palavras suaves e reconfortantes para ela. Ao saírem, Karina olhou para trás, para Helena. Seus olhos brilhavam de vitória, um pequeno sorriso cruel brincando em seus lábios.
Dois seguranças apareceram e puxaram Helena bruscamente para seus pés. Eles a arrastaram por um longo corredor até um quarto no final da cobertura. Era um espaço pequeno, sem janelas, mobiliado com nada além de uma única cadeira dura. Eles a empurraram para dentro e trancaram a porta.
Uma das empregadas, uma mulher mais jovem que sempre tivera ciúmes de Helena, destrancou a porta alguns minutos depois.
"O Sr. Monteiro disse que você não merece conforto", a empregada zombou, puxando a cadeira para fora do quarto. "E sem comida ou água até que você esteja pronta para se desculpar com a Srta. Lacerda."
A porta bateu novamente, mergulhando Helena na escuridão absoluta. O ar estava frio e viciado. Ela deslizou pela parede até o chão, abraçando os joelhos. A dor latejante em sua cabeça era uma batida surda e constante. Ela estava com fome, com frio e presa no escuro.
Ela pensou no passado. Arthur tinha fobia do escuro. Ele não conseguia dormir sem uma luz acesa. Uma vez, durante um apagão, ele ficou quase frenético, e ela segurou sua mão a noite toda, contando-lhe histórias até a energia voltar. Ele a chamara de sua luz.
A memória era uma ferida fresca e profunda. Era tudo mentira.
Lágrimas que ela não sabia que ainda tinha começaram a escorrer por suas bochechas. Ela chorou silenciosamente no frio e no escuro, lamentando a garota que fora e o amor em que acreditara.
Horas depois, a porta finalmente se abriu. Arthur estava lá, silhuetado contra a luz do corredor. Seu rosto era ilegível.
"Levante-se", disse ele, sua voz seca. "Vista-se. Vamos sair."
Helena tentou se levantar, mas suas pernas estavam fracas de fome e frio. Ela tropeçou, seus joelhos cedendo.
Karina apareceu atrás de Arthur, parecendo fresca e bonita em um vestido novo. "Oh, Helena, olhe para você", disse ela, sua voz cheia de falsa simpatia. "Você deveria ter apenas se desculpado. Arthur estava tão preocupado comigo."
Ela olhou para um relógio na parede. "Vamos nos atrasar para o leilão de caridade. É um evento muito importante."
Os olhos de Arthur estavam frios. "Vistam-na", ordenou ele à empregada que estava atrás de Karina. Duas empregadas vieram e puxaram Helena bruscamente para seus pés, tirando suas roupas simples e forçando-a a vestir um vestido elegante e desconfortável. Elas arrumaram seu cabelo e maquiagem com mãos rudes e impacientes, como se ela fosse uma boneca.
O leilão foi um borrão de luzes brilhantes e vozes altas. Helena se sentia tonta e enjoada. Sua cabeça ainda doía, e seu estômago era um nó apertado de fome. Ela sentou-se ao lado de Arthur, um acessório silencioso e bonito.
Ela não prestou atenção às joias reluzentes e à arte cara que estavam sendo vendidas. Nada daquilo importava.
Então, um novo item foi apresentado. Era uma peça pequena e despretensiosa. Um medalhão de prata em uma corrente simples.
A respiração de Helena ficou presa na garganta. Ela o reconheceria em qualquer lugar. Tinha um arranhão minúsculo e único no fecho. Era de sua mãe. Fora roubado de seu antigo apartamento anos atrás, uma perda que ela lamentara profundamente.
Era a única coisa no mundo que era verdadeiramente dela, a última peça de sua vida antiga, de seu verdadeiro eu. Mas ela não tinha dinheiro. Arthur controlava cada centavo. Ela era um pássaro em uma gaiola dourada, e a porta da gaiola estava trancada.
Ela se virou para Arthur, sua compostura cuidadosamente construída finalmente se quebrando. Ela agarrou sua manga, seus dedos cravando no tecido caro de seu terno.
"Arthur, por favor", ela implorou, sua voz um sussurro desesperado. "Você tem que conseguir isso para mim. Por favor."
Nesse momento, Karina se inclinou para o outro lado de Arthur. "Oh, que bonito", disse ela, sua voz leve e musical. "Acho que eu gostaria disso, Arthur."
O coração de Helena martelava contra suas costelas. Suas mãos estavam úmidas enquanto ela encarava Arthur, cujo rosto permanecia uma máscara de indiferença.
"Por favor, Arthur", ela sussurrou novamente, sua voz quebrando. "Era da minha mãe. É a única coisa que me resta dela."
Ela tentou explicar o significado do medalhão, as memórias ligadas a ele, a maneira como sua mãe o usava todos os dias.
Karina soltou uma risada leve e tilintante que cortou as palavras de Helena. "Oh, Helena, sempre tão sentimental. É apenas um pedaço de prata. Tem certeza de que não está apenas inventando uma história para chamar a atenção de Arthur?"
Ela virou seus olhos grandes e inocentes para Arthur. "Eu posso comprar para mim mesma, é claro. Só achei charmoso."
Com um movimento do pulso, Karina levantou sua raquete de leilão.
"Cem mil reais", ela anunciou, sua voz clara e confiante.
A esperança de Helena desmoronou. Ela se virou para Arthur, seus olhos suplicantes. "Arthur, eu faço qualquer coisa. Nunca mais vou pedir nada, eu prometo. Apenas esta única coisa."
Karina riu de novo, mais alto desta vez. "Ouça-a, Arthur. 'Nunca mais vou pedir nada.' Quantas vezes já ouvimos isso? Ela é uma mentirosa. Está apenas tentando te manipular."
A mandíbula de Arthur se contraiu. Seu olhar mudou do rosto desesperado de Helena para o rosto sorridente de Karina, e sua expressão ficou sombria.
Ele, lenta e deliberadamente, soltou os dedos de Helena de sua manga.
"Você envergonhou a Karina esta manhã", disse ele, sua voz perigosamente baixa. "Este será o meu pedido de desculpas a ela."
Ele acenou para seu assistente, que estava sentado atrás deles. O assistente imediatamente levantou sua raquete. Os lances aumentaram rapidamente, mas a riqueza de Arthur era ilimitada. Em um minuto, o martelo caiu.
"Vendido, para o representante do Sr. Monteiro."
Helena balançou a cabeça, um apelo silencioso e desesperado. "Eu não fiz nada de errado", ela sussurrou, lágrimas brotando em seus olhos. "Ela caiu de propósito."
"Fique quieta", sibilou Arthur, sua voz como uma lâmina. "Diga mais uma palavra e você vai se arrepender."
Alguns minutos depois, um funcionário do leilão trouxe o medalhão para a mesa deles em uma caixa de veludo. Karina o aceitou com um sorriso radiante.
"Obrigada, Arthur", ela arrulhou, lançando um olhar triunfante para Helena.
Helena não conseguia desviar o olhar do medalhão. Seus lábios estavam brancos, todo o seu corpo tremia.
Karina abriu a caixa, seus olhos brilhando de malícia. "Aqui, Helena", disse ela docemente. "Por que você não experimenta? Já que significava tanto para você."
Helena hesitou, dividida entre seu orgulho e a necessidade desesperada e dolorosa de tocar o medalhão mais uma vez. Lentamente, ela estendeu a mão.
No momento em que seus dedos tocaram a prata fria, a mão de Karina ficou frouxa. Ela "acidentalmente" soltou o medalhão. Ele caiu no chão de mármore e se estilhaçou, a delicada caixa de prata se partindo.
O tempo pareceu parar. Helena olhou para os pedaços quebrados, seu coração se partindo junto com eles. Karina soltou um suspiro teatral.
"Oh, meu Deus! Helena, como você pôde ser tão desajeitada? Você quebrou o presente de Arthur para mim!"
Helena caiu de joelhos, ignorando os suspiros e sussurros das mesas ao redor. Ela começou a juntar cuidadosamente os minúsculos pedaços quebrados da memória de sua mãe. Uma borda afiada cortou sua palma, mas ela mal sentiu. Ela mordeu o lábio com tanta força que sentiu o gosto de sangue.
Arthur olhou para ela, seu rosto uma máscara de nojo frio. "Pare de fazer cena", ele rosnou. "Vamos para casa."
Ele tentou levantá-la, mas ela resistiu, agarrando os fragmentos em sua mão. A combinação de fome, dor e coração partido era demais. Sua visão turvou, o quarto inclinou, e ela desmaiou, caindo em seus braços.
Ela acordou em seu antigo quarto, aquele que fora forçada a desocupar. A primeira coisa que viu foi Karina, sentada em uma cadeira ao lado da cama. Aos seus pés, enrolado, estava um Doberman grande e ameaçador, seus dentes à mostra em um rosnado baixo.
Helena sentiu um choque de medo. "Onde está o Sketch?", ela perguntou, sua voz rouca. Sketch era seu gato, um pequeno cálico que ela resgatara de um abrigo, seu único verdadeiro companheiro nesta casa solitária.
"Arthur não está aqui", disse Karina, ignorando sua pergunta. Ela acariciou a cabeça do Doberman. "Ele foi escolher um novo presente para mim, para substituir aquele que você quebrou tão descuidadamente."
Lágrimas encheram os olhos de Helena novamente. Sua vida, sua dor, significavam menos para ele do que uma joia.
"Mas ele mandou o chef preparar uma sopa para você", continuou Karina, gesticulando para uma tigela na mesa de cabeceira. "Ele disse que você deve estar com fome. Ele me pediu para trazer para você."
Helena olhou para a sopa, depois para o sorriso cruel no rosto de Karina. Ela soube, com uma certeza profunda, que algo estava errado. "Eu não quero."
Ao sinal de Karina, duas empregadas entraram no quarto. Elas agarraram Helena, segurando-a enquanto Karina pegava a tigela quente. Elas forçaram sua boca a abrir e começaram a derramar o líquido escaldante por sua garganta.
Helena engasgou e tossiu, a sopa quente queimando sua boca e peito. O Doberman latiu excitado, e Karina riu.
"Ele é um bom cão, não é?", disse Karina em tom de conversa. "Ele é muito bom em pegar coisas. Coisas pequenas. Como gatos."
O sangue de Helena gelou. Ela encarou Karina, uma suspeita horrível surgindo.
"Onde está o meu gato?", ela exigiu, agarrando o braço de Karina, suas unhas cravando em sua pele. "O que você fez com o Sketch?"
Karina puxou o braço, sua fachada doce finalmente caindo para revelar o monstro por baixo. "Me solta, sua vadia!", ela gritou. "Você quer saber onde está seu gato? Você acabou de bebê-lo."