Dois dias antes de Pedro passar no concurso, minha memória voltou, trazendo de volta quem eu realmente era: Sofia Mendes, neta de um dos juristas mais respeitados do Brasil. Meu primeiro pensamento foi nele, meu namorado que eu sustentava com dois empregos, sonhando em dar-lhe tudo.
Mas a realidade desabou sobre mim como um raio. No dia de sua aprovação, Pedro me jogou fora como lixo, escolhendo a filha do governador, Júlia, uma influenciadora digital.
Ele me olhou com desprezo, dizendo: "Uma órfã humilde como você não me serve mais. Júlia é sofisticada, culta, e mil vezes melhor que você."
Não bastasse a traição e a humilhação de ser chamada de "empregada" na frente de todos, fui agredida e trancada num quartinho sujo. A dor física se misturava à agonia de um coração partido.
Como ele pôde? Eu, que trabalhei até sangrar para pagar seus estudos, que perdi seis gestações de tanto esforço para mantê-lo? E o fogo que matou minha assistente, Lúcia, e me deixou com amnésia, não foi acidente... Tudo foi um plano cruel da família dele para me roubar.
A promessa de vingança se acendeu em meus olhos. Pedro mal sabia que eu não era uma heroína sofredora de romance: eu era a Princesa Sofia, e estava prestes a mostrar a ele o verdadeiro significado de inferno.
Dois dias antes de Pedro passar no concurso, minha memória voltou.
Naquele momento, eu estava limpando o chão da casa, esfregando com força a madeira gasta com um pano áspero. O cheiro de produto de limpeza enchia minhas narinas, e minhas mãos, já cheias de calos de dois empregos, ardiam um pouco. Mas meu coração estava leve.
Eu me lembrava de tudo. Eu era Sofia Mendes, a neta de um dos juristas mais respeitados do Brasil, o Dr. Mendes. O acidente na montanha, o incêndio, a amnésia... tudo voltou com uma clareza assustadora.
Meu primeiro pensamento não foi sobre minha fortuna ou meu status. Foi sobre Pedro. Meu namorado não precisaria mais passar por dificuldades. Eu poderia dar a ele tudo o que ele sempre sonhou.
Escrevi uma carta e pedi a um entregador para enviá-la com urgência para a capital. Na carta, eu contava tudo ao meu avô e pedia para que ele preparasse minha volta. Planejei esperar o resultado do concurso para fazer uma surpresa a Pedro. Imaginei seu rosto chocado e depois feliz.
Mas a surpresa foi minha. E não foi nada feliz.
No dia em que o nome de Pedro saiu na lista de aprovados para procurador, a casa simples que dividíamos se encheu de vizinhos e amigos. Ele era o orgulho da vila. Eu me mantive nos fundos, sorrindo, feliz por ele. Servi comida e bebida a todos, com o coração transbordando de alegria por seu sucesso.
Quando a festa acabou e a última pessoa foi embora, ele me chamou para o canto do quintal. Ao seu lado estava Júlia, a filha do governador, uma influenciadora digital que eu só via em revistas. Ela era linda, vestida com roupas caras que valiam mais do que tudo que tínhamos em casa.
"Sofia, preciso terminar tudo com você", ele disse, sem rodeios. A voz dele era fria, sem a ternura que eu conhecia.
Eu senti o chão sumir sob meus pés. Minhas mãos, as mesmas que trabalharam até sangrar para pagar seus livros e cursinhos, de repente pareciam pesadas e inúteis.
"Três anos", eu consegui dizer, com a voz embargada. "Três anos juntos, Pedro. Precisa ser tão cruel assim?"
Ele me lançou um olhar que eu nunca tinha visto antes. Era um olhar de desprezo, de nojo.
"Uma órfã humilde como você não me serve mais. Olhe para você. Olhe para as suas mãos. Júlia é sofisticada, culta, e mil vezes melhor que você."
Ele não esperou minha resposta. Abraçou a cintura de Júlia, deu um beijo em sua bochecha e se virou para ir embora. Antes de sair, ele olhou para seu novo assistente, um homem que ele contratou naquela mesma semana.
"Leve-a para o quartinho dos fundos. Tranque a porta. Não quero que ela cause problemas."
O assistente me agarrou pelo braço. Eu não lutei. O choque era grande demais.
Mas o que Pedro não sabia é que eu não era uma heroína sofredora de romance. Minha verdadeira identidade era a de Sofia Mendes. Se fosse para falar de status, eu estava muito acima dele.
Enquanto era arrastada, a imagem dos últimos três anos passou pela minha cabeça. Três anos atrás, eu e minha amiga de infância, Lúcia, que trabalhava como minha assistente, fomos passear na montanha. Um incêndio começou de repente. Lúcia morreu tentando me salvar, e eu desmaiei com a fumaça e o pavor.
Quando acordei, estava na casa de Pedro. A mãe dele, Dona Clara, disse que me encontrou na beira da estrada e me salvou. Eu tinha batido a cabeça e perdido a memória. Não sabia meu nome, de onde vinha, nada.
Por gratidão, e porque Pedro era charmoso e parecia cuidar de mim, eu acabei aceitando seu pedido de namoro. No ano seguinte, Dona Clara faleceu de uma doença repentina. A família de Pedro era muito pobre. Para que ele pudesse se dedicar totalmente aos estudos para o concurso, eu assumi tudo.
Eu trabalhava de dia em uma lavanderia e de noite como garçonete. Inúmeras noites, meus olhos ardiam de cansaço enquanto eu remendava as roupas velhas dele com minhas mãos, que nunca tinham feito um trabalho assim.
O inverno passado foi terrivelmente frio. Para ganhar um dinheiro extra, eu lavava roupas para fora em um tanque de cimento com água gelada, como Dona Clara costumava fazer. Minhas mãos ficaram cheias de frieiras, doloridas e rachadas.
Uma vez, com medo de que ele não estivesse se alimentando bem, fui pescar no rio. A correnteza estava forte e quase me levou. Voltei para casa ensopada, tremendo de frio, mas com três peixes na mão.
Ele me abraçou, comovido e assustado.
"Sofia, eu nunca vou te abandonar! Nunca!"
Ele disse que "Sofia" significava "sabedoria", mas para ele, significava "aquela que dá, que oferece". Ele disse que eu era o presente mais precioso que o céu lhe deu.
Meu coração se derreteu. Naquela noite, eu me entreguei a ele, acreditando em cada palavra.
Eu o amava. E achava que ele me amava também.
No momento em que minha memória voltou, há dois dias, meu primeiro pensamento foi: "Meu namorado não vai mais precisar sofrer".
Quem diria que, assim que ele realizasse seu sonho, me descartaria como um objeto velho.
O assistente me jogou no quartinho escuro e úmido dos fundos e trancou a porta. Fiquei ali, no escuro, ouvindo os passos deles se afastando. O ódio começou a crescer dentro de mim, um sentimento frio e duro que eu não conhecia.
Como eu poderia recuperar a sinceridade que entreguei a ele? Como poderia recuperar a vida da minha amiga Lúcia?
Horas depois, ou talvez no dia seguinte, a porta se abriu. Era Pedro. Ele entrou com uma tigela de comida na mão. Seu rosto não era mais cruel, mas sim falsamente preocupado.
"Querida, como você pode me entender mal?", ele disse, se aproximando e segurando minhas mãos. "Eu só estava pensando no nosso futuro."
Ele falava com tanta convicção que por um segundo, uma parte de mim quis acreditar.
"A filha do governador me pediu em casamento. Fui forçado a aceitar. Pelo meu futuro, você terá que se sacrificar um pouco. Quando a hora for certa, eu te trarei de volta como minha amante."
Ele tentava fazer parecer que estava sendo obrigado, mas eu vi um brilho de satisfação em seus olhos.
"Terminar e depois me ter como amante? Você precisa ser tão cruel comigo?", eu repeti a pergunta, com o coração apertado de nojo e raiva.
Ele suspirou, como se estivesse sofrendo muito.
"Já que você não concorda, prefiro desistir da minha carreira a recusar este casamento."
Ele parecia tão sincero. Eu quase, quase revelei minha verdadeira identidade. Estava prestes a abrir a boca quando o assistente dele gritou da porta.
"Senhor, a Srta. Júlia, filha do governador, está aqui."
Pedro soltou minhas mãos como se elas queimassem.
"Traga um pouco de chá, rápido!", ele ordenou para mim.
E saiu correndo pela porta, me deixando ali, com as mãos vazias e o coração afundando.
No quintal, Júlia estava parada, uma figura de elegância que não combinava em nada com a pobreza da casa. Pedro se inclinou para ela e disse algo que a fez rir, cobrindo a boca com a mão.
A amargura que eu havia conseguido reprimir voltou com força total. Peguei uma xícara e um pouco do chá simples que tínhamos. Respirei fundo e caminhei até eles.
"Só temos chá simples em casa, peço desculpas, Srta. Júlia."
Eu me aproximei, tentando esconder a amargura na minha voz.
"Quem é esta?", Júlia perguntou, olhando para mim de cima a baixo com curiosidade.
A pergunta pairou no ar por um momento. Eu olhei para Pedro, esperando para ver o que ele diria. Uma parte de mim ainda tinha uma esperança tola de que ele me defenderia.
"Ah, ela?", Pedro riu, um som forçado e nervoso. "É só uma empregada que minha mãe salvou da rua há alguns anos. A Srta. Júlia não precisa se preocupar com ela."
Empregada.
A palavra me atingiu como um soco no estômago. Minha mão tremeu e a xícara de chá balançou. Um pouco do líquido quente respingou no vestido branco e caro de Júlia.
Tudo aconteceu muito rápido.
Um estalo alto ecoou no quintal. Meu rosto virou com a força do tapa. A assistente gorda de Júlia estava na minha frente, com o rosto vermelho de raiva.
"Empregada desastrada! Você sujou o vestido da minha senhorita! Você tem como pagar por isso?"
A assistente me olhava com um desprezo que imitava o de sua patroa. Meu rosto ardia, não tanto pela dor, mas pela humilhação.
Eu olhei para Pedro. Ele parecia desconfortável, mas não pelo que aconteceu comigo. Ele estava preocupado com a reação de Júlia. Eu esperei que ele dissesse algo, qualquer coisa. E ele disse.
"Não consegue fazer nem isso direito? Ajoelhe-se e peça desculpas à Srta. Júlia agora!"
A voz dele era dura, um comando.
"Pedro?", eu sussurrei, incrédula.
"Uma empregada se atreve a chamar o Sr. Pedro pelo nome? Que audácia!", a assistente gorda interveio novamente. "Sr. Pedro, você precisa educá-la direito. Senão, quando se casar com a nossa senhorita, ela vai causar mais problemas."
A menção do casamento fez a expressão de Pedro piorar. Ele olhou para mim com fúria.
"Não me faça dizer uma segunda vez. Ajoelhe-se ou eu te coloco na rua hoje mesmo!"
Eu o encarei, o coração gelado. Ajoelhar? Eu, Sofia Mendes, neta do Dr. Mendes, me ajoelhar para essa gente? Mesmo que eu o amasse, mesmo que estivesse presa a essa vida falsa, havia limites.
Com toda a teimosia que consegui reunir, eu respondi, com a voz firme:
"Pedir desculpas, sim. Ajoelhar, não!"
"Você!", Pedro rosnou, me fuzilando com os olhos. Ele fez um sinal discreto, piscando, como se me dissesse para ceder logo.
Mas eu não cedi.
Júlia, que até então observava tudo com um sorriso divertido, suspirou com falsa tristeza.
"Ah... Parece que o Pedro e essa empregada têm uma relação bem íntima. Acho que não deveria ter vindo assim, sem avisar."
Ela olhou para Pedro com os olhos cheios de uma mágoa fingida, o que foi o suficiente para fazê-lo perder o controle.
"A culpa é minha por ter sido muito bom com você no passado. Isso te fez esquecer quem salvou sua vida!", ele gritou. "Hoje, você vai se ajoelhar, querendo ou não!"
Ele pegou um bastão de madeira que estava encostado na parede. Sem pensar duas vezes, ele bateu com força na parte de trás dos meus joelhos. A dor foi aguda e inesperada. Minhas pernas cederam e eu caí de joelhos no chão de terra.
A assistente gorda sorriu, vitoriosa. Ela veio por trás e segurou minha cabeça, forçando-a para baixo.
Eu lutei, mas estava fraca e dominada. Ela empurrou minha cabeça contra o chão duro. Uma, duas, três vezes. Senti a pele da minha testa se romper e o calor do sangue começar a escorrer pelo meu rosto.
Júlia sorriu levemente, um sorriso satisfeito.
"Não é à toa que meu pai concordou com o seu pedido de casamento, Pedro. Você é um homem decidido. Com certeza vai passar no concurso no próximo ano. Algumas pessoas e coisas velhas precisam ser descartadas logo."
"Pedido de casamento"? Então não foi ela quem pediu. Foi ele. Ele ativamente buscou esse noivado.
Pedro, ao lado dela, concordou com a cabeça, bajulando.
"A Srta. Júlia tem toda a razão."
Quando os dois finalmente pareceram satisfeitos com a minha humilhação, eles se viraram para entrar na casa.
Eu me levantei com dificuldade, apoiando as mãos no chão. Gotas de sangue pingavam da minha testa, manchando a gola da minha blusa simples.
Olhando para as costas de Pedro, o homem que eu amei, o homem que agora estava cego pela ambição, eu não conseguia entender. Era o poder e o dinheiro que o seduziam tanto, ou ele esteve fingindo durante todos esses três anos?
Talvez meu olhar fosse tão calmo que chegou a ser assustador. Ele deve ter sentido culpa, porque depois que Júlia entrou, ele se virou e veio até mim, fingindo preocupação.
"Sofia, aguente mais um pouco", ele disse, abraçando meus ombros. "Quando eu prosperar, nunca mais vou te deixar sofrer assim."
Ele falava baixo, como se fosse um segredo entre nós.
"Você está tão machucada. Deve estar doendo muito, não é? Deixa eu te ajudar a limpar."
Enquanto falava, ele usou a manga da própria camisa para limpar suavemente o sangue da minha testa. Ele até assoprou, como se fizesse para uma criança. Era o mesmo Pedro atencioso que eu conheci. Ou a melhor imitação dele.
Nesse momento, seu assistente trouxe uma tigela com um líquido escuro e fumegante.
"Senhor, o chá de gengibre que pediu."
Pedro pegou a tigela e a levou até minha boca.
"Sua menstruação está atrasada esses dias. Vendi alguns desenhos antigos para comprar este chá para você. Beba enquanto está quente, vai te fazer bem."
Eu virei a cabeça, empurrando a mão dele com frieza.
"Não preciso. Eu não mereço."
"Vamos, não brinque com a sua saúde. Eu fico preocupado."
Ele insistiu. Eu recusei várias vezes, mas ele era mais forte. Ele segurou meu rosto e forçou a tigela contra meus lábios. Eu não tive escolha a não ser pegar a tigela para não me sujar toda.
Mas, assim que bebi dois goles, senti minha garganta queimar. Não era gengibre. Era algo corrosivo, venenoso. A dor era insuportável. Eu comecei a me contorcer no chão, sufocando, sem conseguir gritar.
Entre a vida e a morte, com a visão ficando turva, ouvi a voz hipócrita de Pedro acima de mim.
"Fui forçado. Você é muito teimosa, quase arruinou o futuro brilhante que eu tanto lutei para conseguir. As pessoas sempre buscam o melhor, Sofia. Você deveria entender isso."