O cheiro de desinfetante no corredor do hospital era forte, sufocante.
Olhava Pedro, meu marido, pálido na cama.
O médico disse que os rins dele falharam.
E a única doadora compatível era Dona Clara, a mãe dele.
Ela chorava, implorando para não fazer a cirurgia.
Mas eu declarei, glacial: "Você vai fazer a cirurgia. Você é a única que pode salvá-lo."
E então, minha voz venenosa, sussurrando: "Se você não assinar, eu mesma desligo as máquinas."
Pedro não entendeu por que fiz aquilo com a mãe dele.
Ele sussurrou: "A Sofia que eu conheço nunca faria isso."
Eu ri, um som oco. "A Sofia que você conhecia está morta."
Ele não sabia que eu me lembrava de tudo da nossa vida passada.
Da indiferença dele, do acidente que nos matou.
De como eu o empurrei para fora do carro em chamas, antes que explodisse.
"Pedro, viva", foram minhas últimas palavras.
Ele renasceu, tentando me reconquistar, mas eu construí um muro.
Então veio o acidente dele, e eu finalmente deixei claro.
"A ponte velha... traz más lembranças, não acha?"
Aquele choque nos olhos dele. Ele também se lembrava.
Não era indiferença. Era vingança.
Ele tentou lutar, mas o Thiago, meu amante, estava lá.
Eu me certifiquei de que ele visse nosso beijo.
Ele pediu o divórcio. Assinei.
Não fiz nenhuma pergunta. Como um recibo.
Na festa, anunciei meu noivado com Thiago.
A humilhação dele era pública.
E eu sabia que estava apenas começando.
O cheiro de desinfetante no corredor do hospital era forte, quase sufocante. Sofia estava de pé, imóvel, com os braços cruzados, olhando através do vidro para a cama onde Pedro estava deitado, pálido e ligado a máquinas que apitavam ritmicamente. O médico ao seu lado, um homem de meia-idade com uma expressão cansada, ajustou os óculos.
"Senhora Sofia, a situação do seu marido é crítica," disse ele com uma voz grave. "Os rins dele falharam completamente após o acidente. Ele precisa de um transplante urgente."
Sofia não se virou, seus olhos fixos em Pedro.
"E qual é a solução?" ela perguntou, a voz fria como o mármore do chão.
"Fizemos os testes de compatibilidade com a família. O único doador compatível é a mãe dele, a senhora Clara."
Nesse momento, uma mulher mais velha, com os olhos vermelhos de tanto chorar, agarrou o braço de Sofia. Era Dona Clara, a mãe de Pedro.
"Sofia, minha querida, por favor," ela soluçou, o corpo tremendo. "Eu sou velha, tenho problemas de saúde, não posso passar por uma cirurgia dessas."
Sofia finalmente se virou, mas seu olhar para a sogra era desprovido de qualquer compaixão. Ela pegou a mão de Dona Clara e a afastou com uma força contida.
"Você vai fazer a cirurgia," Sofia declarou, cada palavra saindo como uma sentença. "Você é a única que pode salvá-lo."
"Mas eu posso morrer! O médico disse que há riscos!" Dona Clara implorou, o desespero estampado em seu rosto.
"Então morra," Sofia respondeu sem hesitar. "Pelo menos você terá servido para alguma coisa."
A crueldade nas palavras de Sofia deixou Dona Clara e o médico em estado de choque. A sogra desabou em lágrimas, caindo de joelhos no chão, agarrando a barra da calça de Sofia.
"Por favor, eu te imploro, não me force a isso..."
Sofia olhou para baixo, para a mulher patética a seus pés, e sentiu uma onda de satisfação sombria. Ela se inclinou, sua voz um sussurro venenoso.
"Se você não assinar os papéis da doação, eu garanto que a vida do seu filho vai acabar aqui e agora. Eu mesma desligarei as máquinas."
Dona Clara congelou, o terror substituindo o desespero. Ela olhou para o rosto de sua nora, um rosto que ela antes amava, e viu uma estranha que não reconhecia. Com as mãos trêmulas, ela se levantou e, amparada pelo médico, caminhou para assinar os papéis que poderiam ser sua sentença de morte.
Mais tarde, após a cirurgia de transplante ter sido declarada um sucesso, Sofia entrou no quarto de Pedro. Ele já estava acordado, ainda fraco, mas seus olhos estavam claros e cheios de uma dor que não era apenas física.
"Sofia," ele sussurrou, a voz rouca. "Por que você fez isso com a minha mãe?"
"Eu salvei sua vida," ela respondeu, parando ao pé da cama, mantendo uma distância segura.
"A que custo? Você a ameaçou! Eu ouvi tudo," ele disse, a angústia em sua voz. "Essa não é você. A Sofia que eu conheço nunca faria isso."
Sofia riu, um som oco e sem alegria. "A Sofia que você conhecia está morta. Você deveria saber disso melhor do que ninguém."
Pedro sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ele renasceu. Ele se lembrava de tudo da vida anterior. Ele se lembrava de sua indiferença, de sua negligência, de como ele a tratou. Ele se lembrava do fogo, do acidente que os matou. Ela o empurrou para fora do carro em chamas, salvando-o, enquanto ela era consumida pelas chamas. Ele havia renascido nesta vida com uma única missão: encontrá-la e compensá-la por tudo, amá-la como ele nunca amou.
Na vida passada, Sofia o amava com uma devoção que beirava a loucura. Ela fazia tudo por ele, ajustava sua vida em torno dele, perdoava suas ausências e sua frieza. Ela era seu sol, mas ele estava muito ocupado olhando para outras estrelas para perceber seu calor. Ele a tratava como um objeto que sempre estaria lá, um porto seguro para o qual ele poderia voltar quando quisesse.
A memória mais dolorosa era a do fim. O carro derrapando na estrada molhada, o impacto, o fogo se espalhando rapidamente. Ele estava preso, em pânico, mas Sofia, mesmo ferida, conseguiu abrir a porta dele. "Pedro, viva," foram suas últimas palavras antes de empurrá-lo para fora, momentos antes do carro explodir.
Ele renasceu na mesma família, com as mesmas pessoas ao seu redor. Quando ele a viu novamente nesta vida, seu coração quase parou. Era ela. Sua Sofia. Ele jurou a si mesmo que desta vez seria diferente. Ele a cortejaria, a amaria, a colocaria em um pedestal e nunca mais a deixaria sofrer.
Ele a conquistou novamente, casou-se com ela, acreditando que o destino lhe dera uma segunda chance para consertar seus erros terríveis. Por um tempo, eles foram felizes. Mas então, a frieza começou a se instalar. Sutilmente no início, depois como uma geleira, congelando tudo entre eles. Ele tentou de tudo para se aproximar, para mostrar seu amor e seu arrependimento, mas ela construiu um muro impenetrável ao redor de si mesma.
Ele tentou conversar, dar presentes, planejar viagens românticas. Nada funcionava. Ela o olhava com uma indiferença que era mais dolorosa do que o ódio. Ele se sentia frustrado, impotente. Ele pensou que talvez ela simplesmente não o amasse nesta vida, que a conexão deles havia se perdido. A ideia de divórcio passou por sua mente, uma rendição dolorosa ao fato de que talvez ele não pudesse consertar o passado.
Ele buscou consolo em seus pais, que estavam confusos com a mudança repentina de Sofia. "Ela costumava te adorar, filho," sua mãe dizia, preocupada. "O que aconteceu?" Ele não podia explicar a verdade sobre o renascimento, então apenas balançava a cabeça, a dor presa em sua garganta.
Então veio o acidente. Um motorista bêbado o atingiu em cheio. Enquanto estava deitado na estrada, sangrando e perdendo a consciência, seu último pensamento foi para ela. E agora, acordando neste quarto de hospital, ele percebia a terrível verdade. A vingança dela estava apenas começando.
"Sofia, nós precisamos conversar," ele disse, tentando se sentar.
Uma dor aguda o atingiu e ele gemeu, caindo de volta nos travesseiros. Sofia o observou com o mesmo olhar distante.
"Não temos nada para conversar," ela disse. "Descanse. Você precisa se recuperar."
Ela se virou para sair, mas parou na porta. Sem olhar para trás, ela disse algo que fez o sangue de Pedro gelar.
"A propósito, você deveria ter mais cuidado ao dirigir em dias de chuva. Especialmente naquela curva perto da ponte velha. Traz más lembranças, não acha?"
A ponte velha. O local do acidente fatal na vida anterior. Ninguém além deles dois sabia daquele detalhe. Seus olhos se arregalaram em choque. Ela também se lembrava. Ela também havia renascido. E tudo o que ela estava fazendo não era indiferença. Era vingança.
O choque da revelação deixou Pedro sem palavras. Ele olhou para a porta por onde Sofia havia saído, o coração batendo descontroladamente contra as costelas. Ela também se lembrava. Todo esse tempo, a frieza dela não era falta de amor, era a antessala do inferno que ela estava preparando para ele.
Ele tentou confrontá-la no dia seguinte, quando ela voltou para uma visita fria e protocolar.
"Você se lembra, não é?" ele perguntou diretamente, a voz fraca, mas firme. "Você se lembra da outra vida."
Sofia arrumava um vaso de flores na mesa de cabeceira, sem olhá-lo. Ela deu um sorriso forçado e condescendente.
"Pedro, querido, o acidente afetou sua cabeça? Que outra vida? Pare de falar bobagens e se concentre em melhorar," ela disse, o tom de voz como se estivesse falando com uma criança confusa. A negação era tão perfeita, tão calma, que por um momento ele quase duvidou de si mesmo. Mas o olhar dela, quando finalmente o encontrou, continha uma escuridão que confirmava tudo.
Ela não ficou muito tempo. Disse que tinha um compromisso importante e saiu, deixando-o sozinho com seus pensamentos tumultuados. Mais tarde, pela janela do quarto, ele a viu do lado de fora. Ela não estava sozinha. Um homem mais jovem, bonito e sorridente, abriu a porta do carro para ela. Thiago. Ele o conhecia de alguns eventos sociais. Sofia entrou no carro e, antes de partir, ela olhou para cima, diretamente para a janela de Pedro, e deu a Thiago um beijo rápido, mas deliberado.
O gesto foi uma faca em seu peito. Ele sentiu o gosto amargo do abandono, da substituição. Ela estava o forçando a assistir, a sentir exatamente a mesma dor que ela sentiu quando ele a negligenciava.
A solidão no quarto do hospital se tornou uma tortura. Cada bipe das máquinas era uma contagem regressiva para o próximo ato de vingança dela. Ele sabia que não podia continuar assim. O amor que ele sentia por ela era avassalador, mas a dor que ela estava infligindo era insuportável. Com o coração pesado de uma tristeza infinita, ele tomou uma decisão.
Ele ligou para seu advogado.
"Prepare os papéis do divórcio," ele disse, a voz embargada. "Eu vou assinar."
No dia em que recebeu alta, seus pais o levaram para casa. Dona Clara ainda estava se recuperando, pálida e fraca, mas viva. O alívio de vê-la bem foi a única luz em meio à escuridão de Pedro.
Os papéis do divórcio chegaram alguns dias depois. Pedro os pegou com as mãos trêmulas. Cada cláusula era um prego em seu caixão. Ele releu o nome dela, "Sofia", e o seu, "Pedro", unidos por um "versus" legal. Com a caneta pairando sobre a linha de assinatura, ele hesitou. Uma parte dele ainda gritava para não desistir, para lutar por ela, para fazê-la ver seu arrependimento.
Mas então, a imagem dela beijando Thiago voltou à sua mente. A frieza em seus olhos. A ameaça à sua mãe. Ele sabia que não havia mais volta. Com um suspiro profundo que carregava todo o peso de duas vidas, ele assinou. A ponta da caneta arranhou o papel, um som definitivo, final.
Ele pediu ao advogado que entregasse os papéis a Sofia pessoalmente, para evitar um confronto direto. Ele não achava que seu coração pudesse suportar mais uma interação com ela.
Alguns dias depois, o advogado ligou. "Ela assinou," disse ele. "Não fez nenhuma pergunta. Apenas assinou, como se estivesse assinando um recibo de entrega."
A indiferença dela foi o golpe final. Para ela, o fim do casamento deles não significava nada. Naquela mesma noite, houve uma festa de gala da empresa da família de Sofia. Pedro, ainda se recuperando, foi obrigado a comparecer por insistência de seus pais, que não sabiam do divórcio e queriam manter as aparências.
Lá, ele a viu. Sofia estava deslumbrante em um vestido vermelho, rindo e conversando com Thiago ao seu lado. Ela o segurava pelo braço, uma demonstração pública de afeto. Em um determinado momento, eles passaram por Pedro sem sequer olhá-lo. Foi quando ele ouviu a voz dela, alta e clara o suficiente para que todos ao redor ouvissem.
"Thiago, querido, você acha que devemos anunciar nosso noivado esta noite?"
O salão pareceu silenciar. Todos os olhos se voltaram para Pedro. A humilhação foi pública, brutal. Ele sentiu o rosto queimar, o ar faltar em seus pulmões. Ele era o marido, e ela estava anunciando seu noivado com outro homem na frente dele.
Ele se virou para sair, mas Sofia o barrou.
"Pedro, que surpresa te ver aqui," ela disse com um sorriso falso. "Você não parece bem. A recuperação está difícil?"
"Sofia, por favor..." ele sussurrou, implorando com os olhos.
Thiago se aproximou, colocando um braço protetor ao redor de Sofia. "Amor, deixe-o em paz. Ele parece que vai desmaiar. Talvez precise de um copo d'água."
A condescendência de Thiago, orquestrada por ela, era enlouquecedora. O avô de Sofia, um senhor gentil que sempre gostou de Pedro, se aproximou para tentar acalmar a situação.
"Sofia, Pedro, o que está acontecendo aqui? Vamos conversar em particular."
"Não há nada para conversar, vovô," disse Sofia, a voz ainda alta. "Pedro e eu estamos nos divorciando. Na verdade, acho que ele já deveria ter recebido os papéis. Ele só está fazendo uma cena porque não aceita o fim."
Ela o pintou como o vilão, o marido rejeitado e patético. A mentira era tão descarada que Pedro ficou sem reação. Ele se sentia preso em um pesadelo, forçado a desempenhar um papel que ela havia escrito para ele. A noite se arrastou, com Pedro sendo forçado a ficar, a assistir Sofia e Thiago desfilarem seu "amor" para todos, enquanto ele se tornava o alvo de sussurros e olhares de pena. Cada minuto era uma nova camada de humilhação, e ele sabia, com uma certeza aterrorizante, que ela estava apenas começando.