A escuridão da masmorra era o meu fim.
Fria e úmida, com cheiro de mofo e desespero, ela selava o destino de Maria, a cantora que outrora brilhava, agora caída.
Minha irmã Joana, vestida de seda e sorrisos falsos, pairava sobre mim com André, meu ex-noivo, ao seu lado.
"Por quê?", sussurrei, a voz irreconhecível.
"Porque eu merecia tudo isso", ela devolveu, sem titubear.
Lembrei do escândalo, das acusações plantadas por ela no meu álbum, me transformando em herege.
A gravadora rompeu o contrato, os fãs me abandonaram, e minha vida foi destruída num piscar de olhos.
Confiei a ela a mixagem final, e ela me apunhalou.
"Você me destruiu", as lágrimas quentes escorriam pelo meu rosto sujo, enquanto uma lâmina fria encerrava meu sofrimento.
Meu último suspiro foi um desejo ardente, um anseio louco por uma segunda chance, para fazer tudo diferente.
E de repente, a dor sumiu, o frio desapareceu.
Abri os olhos. Eu estava de volta, no salão da mansão dos meus pais, no dia do lançamento do meu álbum.
Eu era jovem, radiante, e a inocência ainda preenchia meus olhos.
Um calafrio me percorreu: não era um sonho.
Foi então que a vi: Joana, segurando a unidade de áudio, pronta para a sabotagem.
Desta vez, não haveria ingenuidade, nem confiança cega.
Desta vez, a única ruína seria a dela.
Eu voltei, e meu inferno se tornaria o dela.
A escuridão era fria e úmida, um cheiro de mofo e desespero preenchia o ar da masmorra. Maria sentia o frio do chão de pedra através do tecido fino de seu vestido rasgado, seu corpo doía por toda parte. Ela ergueu a cabeça com dificuldade, seus olhos se ajustando à pouca luz que vinha de uma tocha distante.
Lá, do outro lado das grades, estava Joana, sua irmã mais nova. Ela não usava mais os vestidos simples de antes, agora estava vestida com sedas e joias, brilhando como uma estrela. Ao lado dela, com a mão em sua cintura, estava o homem que um dia a chamou de noiva.
"Por quê?" , a voz de Maria saiu como um sussurro rouco, um som que mal era humano.
Joana sorriu, um sorriso que não alcançava seus olhos.
"Porque eu merecia tudo isso, Maria. Você sempre teve tudo, a voz, a fama, o amor do público. Eu sempre estive na sua sombra, esperando por uma chance. E eu a criei."
A lembrança do escândalo a atingiu como um golpe físico. O dia do lançamento do seu álbum, as acusações, as mensagens subliminares que Joana plantou, associando seu nome a rituais obscuros. A gravadora rompendo o contrato, os fãs a chamando de herege, sua carreira e sua vida destruídas em um piscar de olhos.
Ela confiou em Joana, a deixou supervisionar a mixagem final. Uma confiança fatal.
"Você me destruiu" , disse Maria, sentindo as lágrimas quentes finalmente escorrendo por seu rosto sujo.
"Eu construí meu próprio caminho sobre as suas ruínas" , Joana corrigiu, com uma frieza cortante. "Adeus, irmãzinha. Aproveite seus últimos momentos."
Eles se viraram e foram embora, seus passos ecoando no corredor de pedra, deixando Maria na escuridão total. O guarda se aproximou, a porta da cela se abriu com um rangido. A dor final foi rápida, uma lâmina fria que encerrou seu sofrimento.
Seu último pensamento foi um desejo ardente, uma oração desesperada por uma segunda chance. Uma chance de fazer tudo diferente.
De repente, a dor sumiu. O frio desapareceu.
Em seu lugar, havia o calor de centenas de velas e o som suave de uma música clássica. Maria piscou, a luz forte a cegando por um momento. Ela estava de pé, no meio de um salão de festas grandioso, o salão principal da mansão de seus pais.
Ela olhou para suas mãos. Eram as mãos de uma jovem, sem calos ou cicatrizes. Ela tocou seu próprio rosto, sentindo a pele lisa e macia. Ela correu até um grande espelho na parede. A mulher que a encarava de volta era ela mesma, mas anos mais jovem, radiante, com os olhos cheios de uma inocência que ela pensava ter perdido para sempre. Ela usava um vestido branco deslumbrante, uma peça única que sua mãe havia desenhado para uma ocasião especial.
Seu coração batia descontroladamente. Que ocasião era essa?
A música, as decorações, o vestido... tudo se encaixou. Era a festa de lançamento do seu novo álbum. O dia em que tudo começou a ruir. O dia do início do fim.
Um calafrio percorreu sua espinha. Isso não era um sonho. Era real. De alguma forma, seu desejo desesperado foi atendido. Ela havia voltado.
Ela se virou, seus olhos varrendo a multidão de convidados. Produtores, jornalistas, amigos da família, todos sorrindo e conversando. E então, ela a viu.
Joana.
Ela estava perto da mesa de som, conversando animadamente com o técnico. Em suas mãos, ela segurava uma pequena unidade de áudio, idêntica àquela que a polícia encontrou depois, contendo os arquivos adulterados. Aquele era o momento. O momento da sabotagem.
Na sua vida passada, Maria estava muito ocupada recebendo os convidados para perceber. Ela estava cega pela felicidade e pelo orgulho. Desta vez, seus olhos estavam bem abertos.
Uma raiva fria e calculada substituiu o choque. A dor da traição, a agonia de sua morte, tudo estava fresco em sua mente. Não haveria mais ingenuidade. Não haveria mais confiança cega.
Desta vez, a única ruína seria a de Joana.
Sem hesitar, Maria começou a andar em direção a ela. Seus passos eram firmes, seu olhar fixo. As pessoas abriam caminho para ela, surpresas com sua expressão séria. A música parecia diminuir, o barulho do salão se tornando um zumbido distante.
Joana a viu se aproximando e seu sorriso vacilou por um instante, uma sombra de culpa passando por seus olhos antes de ser substituída por uma falsa alegria.
"Maria! Você está deslumbrante! Estão todos esperando por você" , disse Joana, tentando esconder a unidade de áudio atrás das costas.
Maria parou bem na frente dela, ignorando completamente suas palavras. Ela olhou diretamente nos olhos da irmã.
"O que é isso na sua mão, Joana?"
A pergunta foi feita em um tom baixo, mas carregado de uma autoridade que fez Joana estremecer. O técnico de som ao lado dela recuou um passo, sentindo a tensão no ar.
"Isso? N-não é nada. Apenas... ajudando com os preparativos" , gaguejou Joana.
Maria estendeu a mão.
"Me dê."
Não era um pedido. Era uma ordem.
O rosto de Joana ficou pálido. Os convidados mais próximos começaram a notar a cena, suas conversas morrendo. O silêncio começou a se espalhar pelo salão.
"Maria, não vamos fazer uma cena..." , começou Joana, tentando sorrir, mas o sorriso se desfez.
Maria não se moveu, sua mão continuava estendida. Sua paciência era inexistente. Com um movimento rápido, ela agarrou o pulso de Joana e arrancou a unidade de áudio de sua mão.
Ela a ergueu para que todos pudessem ver.
"Esta é a sua grande 'ajuda' , Joana?" , a voz de Maria soou alta e clara no salão agora silencioso. "Trocar as faixas do meu álbum por áudios com mensagens manipuladas para me destruir?"
O queixo de Joana caiu. O choque em seu rosto era genuíno. Como ela poderia saber?
Maria se virou para a multidão chocada.
"Minha querida irmã, Joana, a quem eu confiei meu trabalho e meu coração, tentou sabotar meu novo álbum. Ela planejava inserir mensagens que me ligariam a cultos e rituais, tudo por inveja. Tudo para roubar a minha carreira."
Ela fez uma pausa, deixando o peso de suas palavras assentar. Então, ela se virou para Joana, cujo rosto estava agora contorcido em pânico.
"Sua festa acabou, Joana."
O silêncio no salão era pesado, quebrado apenas pela respiração chocada dos convidados. Joana, pega de surpresa, rapidamente mudou sua tática. As lágrimas começaram a brotar em seus olhos, seu rosto se contorcendo em uma máscara de mágoa e inocência ofendida.
"Maria, como você pode dizer uma coisa dessas?" , ela soluçou, sua voz embargada. "Eu nunca faria isso! Eu te admiro mais do que a qualquer pessoa no mundo. Eu só estava... só estava segurando isso para o técnico. É um backup!"
Ela olhou ao redor, buscando a simpatia da multidão.
"Por que você está me acusando assim na frente de todo mundo? Eu sou sua irmã!"
Alguns convidados começaram a murmurar, parecendo confusos. A imagem de Joana, a irmã mais nova e devotada, em lágrimas, era convincente. Maria, por outro lado, parecia fria e implacável.
Mas Maria não se abalou. Ela conhecia aquele teatro. Tinha visto Joana usá-lo por anos para conseguir o que queria, para se fazer de vítima.
"Sua admiração é uma mentira tão grande quanto a sua lealdade" , respondeu Maria, sua voz firme e sem emoção. "Você não é uma criança indefesa, Joana. Você é uma mulher ambiciosa que não se importa em destruir a própria família para chegar ao topo."
Ela se virou para o técnico de som, que estava encolhido perto da mesa, pálido como um fantasma.
"Você" , disse Maria, apontando para ele. "Diga a verdade. Ela te pediu para trocar os arquivos, não pediu?"
O homem engoliu em seco, olhando de Maria para Joana.
"Eu... eu não..."
"Não minta para mim" , a voz de Maria era baixa, mas carregada de uma ameaça sutil. "Sua cumplicidade nisso pode acabar com a sua carreira. A minha palavra contra a sua. Quem você acha que a gravadora vai acreditar?"
O suor brotou na testa do técnico. Ele olhou para o rosto desesperado de Joana e depois para os olhos frios e determinados de Maria. Ele fez sua escolha.
"Sim... sim, ela pediu" , ele admitiu em voz baixa, mas todos ouviram. "Ela me deu este drive e disse para substituir a faixa três. Disse que era uma versão masterizada de última hora."
Um suspiro coletivo percorreu o salão. A mentira de Joana foi exposta. Seu rosto se contorceu de raiva e pânico.
"Ele está mentindo! Maria, você o forçou a dizer isso!" , gritou Joana, desesperada.
"Chega de mentiras" , disse Maria, sua paciência finalmente se esgotando. Ela se aproximou de Joana, que recuou um passo. "Você não vai manchar meu nome. Não desta vez."
Maria estendeu a mão para o segurança mais próximo.
"Tirem-na daqui. E garantam que ela não chegue perto de nenhum equipamento de áudio ou da imprensa."
O segurança hesitou, olhando para o pai de Maria, que observava tudo de longe, chocado.
"Façam o que eu digo!" , ordenou Maria, sua voz ecoando com uma autoridade que ninguém jamais tinha ouvido dela.
Os seguranças começaram a se mover em direção a Joana, que olhava ao redor em pânico, suas lágrimas agora reais, lágrimas de fúria e humilhação.
Foi então que uma voz masculina se interpôs.
"Maria, já chega!"
Um homem alto e bem-vestido abriu caminho pela multidão. Era André, o noivo de Maria, um advogado promissor de uma família influente. Ele parou entre Maria e Joana, colocando-se como um protetor para a irmã mais nova.
"Olhe o que você está fazendo" , disse André, com o rosto franzido em desaprovação. "Humilhando sua própria irmã em público. Isso é cruel e desnecessário. O que quer que tenha acontecido, poderia ser resolvido em particular."
Joana imediatamente correu para o lado dele, agarrando seu braço como se fosse uma tábua de salvação.
"André, ela está louca! Ela está me acusando de coisas horríveis!" , soluçou.
Maria olhou para o homem que deveria estar ao seu lado, defendendo-a. Em sua vida anterior, André foi um dos primeiros a se afastar dela quando o escândalo estourou, preocupado com sua própria reputação. Vê-lo agora, defendendo a mulher que a destruiu, acendeu uma nova chama de fúria em seu peito.
"Cruel, André?" , ela questionou, com um riso amargo. "Cruel é o que ela planejava fazer comigo. E você, em vez de me apoiar, está defendendo a culpada? Saia do meu caminho."
O rosto de André endureceu. Ele se sentiu desafiado, sua autoridade questionada.
"Eu não vou sair. Você está agindo como uma criança mimada e ciumenta. Joana te ama, ela nunca faria mal a você. Peça desculpas a ela agora mesmo."
A audácia do pedido deixou Maria sem palavras por um segundo. Pedir desculpas? Para a sua quase-assassina?
André viu seu silêncio como hesitação e pressionou ainda mais.
"Pense na sua imagem, Maria. Na nossa imagem. Somos um casal. Em breve, seremos uma família. Um escândalo como este, causado por seu próprio temperamento, pode prejudicar a nós dois. A minha carreira, a sua. Você quer jogar tudo fora por causa de um mal-entendido bobo?"
Ele usou a ameaça velada, o lembrete de tudo o que ela tinha a perder. O casamento, o status, a reputação. Era a mesma chantagem emocional que ele sempre usava.
Mas esta não era a mesma Maria que ele conhecia. Aquela Maria estava morta.
Ela olhou para a mão dele no braço de Joana, para o olhar presunçoso em seu rosto, e tomou uma decisão.