Eu era Luna, a última sacerdotisa da Ordem Mística, prestes a conduzir o Ritual de Ligação Espiritual que escolheria o próximo Imperador.
No entanto, meu coração não batia de esperança, mas de um trauma que queimava mais que qualquer fogo, uma traição de uma vida passada que transformou meu amor tolo e cego pelo Príncipe Kael em cinzas.
Eu o havia colocado no trono, torcendo o destino e traindo meu juramento, e em troca, ele me arrancou de meu posto, despojou-me da honra, massacrou minha ordem e me jogou nas masmorras, transformando-me em um fantoche amaldiçoado.
Como fui tão cega? Como pude acreditar em suas palavras e não enxergar o monstro que se escondia sob sua beleza e carisma, levando o reino à tirania e minha alma à ruína?
Mas os deuses, ou o próprio destino, me deram uma segunda chance, e eu acordei de novo aos dezoito anos, no dia fatídico do ritual, com uma certeza fria: desta vez, não haveria amor, apenas dever, e Kael pagaria por tudo.
Luna, a última sacerdotisa da Ordem Mística, sentia o peso de mil anos em seus ombros. O Grande Salão estava lotado, os nobres do império sussurravam atrás de seus leques e taças de vinho, com os olhos fixos nela. Todos aguardavam o Ritual de Ligação Espiritual, a cerimônia que ela, e somente ela, poderia conduzir. Uma profecia antiga ditava que seu poder escolheria o futuro líder do reino, o próximo Imperador.
Ela se lembrava da última vez que esteve aqui, neste mesmo lugar, com o coração transbordando de um amor tolo e cego. Naquela vida, ela amava o Príncipe Kael com a força de um milhão de sóis. Por ele, ela traiu seu juramento, manipulou a magia sagrada e torceu o fio do destino. Ela o colocou no trono.
A recompensa por sua devoção foi uma traição que queimou mais do que qualquer fogo.
No dia da coroação de Kael, ele a arrancou de seu posto. Ele a despojou de seu título, de sua honra e de seu poder. Ele ordenou a aniquilação de sua ordem, o massacre de suas irmãs sacerdotisas, cujos gritos ainda ecoavam em seus pesadelos. Luna foi arrastada para as masmorras, torturada até sua mente se quebrar, e transformada em um fantoche amaldiçoado, forçada a assistir ao sofrimento de seu povo sob o reinado tirânico do homem que ela elegeu.
Mas os deuses, ou talvez o próprio destino, lhe deram uma segunda chance. Ela acordou novamente com dezoito anos, no dia fatídico do ritual. O trauma de sua vida passada estava gravado em sua alma, um lembrete frio e constante do preço da paixão.
Desta vez, não haveria amor. Não haveria manipulação. Haveria apenas dever.
Ela decidiu seguir o caminho traçado pelos antigos, permitir que o ritual fluísse sem sua interferência. Que o destino escolhesse o verdadeiro herdeiro, o Príncipe Elias, um homem que ela mal conhecia, mas que, segundo os registros de sua ordem, representava a única esperança de um futuro pacífico para o reino.
O ritual começou. O Orbe do Destino, uma esfera de cristal pulsante, foi colocado no centro do altar. Ele refletiria a verdadeira natureza de cada candidato.
"Que os príncipes se apresentem," a voz de Luna soou, clara e fria, desprovida de qualquer emoção.
O segundo príncipe, um homem conhecido por sua ganância, tocou o orbe. A esfera brilhou com uma fraca luz amarela, revelando imagens de moedas de ouro e contratos injustos. Ele recuou, envergonhado.
O terceiro príncipe, um general brutal, fez o orbe brilhar com um vermelho-sangue, mostrando cenas de batalhas cruéis e desnecessárias.
O quarto príncipe nem sequer conseguiu fazer o orbe reagir, sua alma era tão vazia e insignificante.
A multidão murmurava, a decepção pairando no ar. O Imperador, sentado em seu trono elevado, suspirou pesadamente, seu rosto uma máscara de desapontamento com seus filhos.
Foi então que as grandes portas do salão se abriram com um estrondo.
O Príncipe Kael entrou. Ele não andava, ele desfilava, a arrogância emanando de cada poro. Ele estava atrasado, um sinal claro de seu desrespeito pela cerimônia sagrada, mas seu rosto não mostrava um pingo de remorso. Ele era o primeiro príncipe, o favorito da Imperatriz, e agia como se o mundo lhe pertencesse.
Seu olhar encontrou o de Luna, e um sorriso presunçoso curvou seus lábios. Ele também se lembrava. Em sua arrogância, Kael acreditava que era o único renascido, o único digno. Ele acreditava que a história se repetiria, que o amor dela por ele era uma constante universal, tão certa quanto o nascer do sol.
Ele caminhou diretamente para o altar, ignorando a ordem estabelecida.
"Luna," ele disse, sua voz alta o suficiente para que todos ouvissem. "Não há necessidade de prolongar esta farsa. Nós dois sabemos quem o destino escolheu. Complete o ritual. Me escolha."
Sua exigência era um tapa na cara da tradição, um insulto à ordem mística e a tudo que ela representava. Luna o encarou, seu rosto impassível. O amor que ela sentiu por ele uma vez era agora apenas cinzas frias em seu coração. Ela não sentia nada além de um desprezo gelado.
"A tradição deve ser seguida, Alteza," ela respondeu, sua voz firme. "O Orbe do Destino decide. Não eu."
A irritação brilhou nos olhos de Kael, mas ele a disfarçou rapidamente com um sorriso condescendente. O jogo havia começado.
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"Como quiser, sacerdotisa," Kael disse com um encolher de ombros displicente, como se estivesse fazendo um favor a ela ao seguir as regras. Ele se aproximou do Orbe do Destino, a confiança irradiando dele. Ele colocou a mão na esfera de cristal, esperando a explosão de luz dourada que confirmaria sua realeza.
E por um momento, a luz veio. Uma luz ofuscante, brilhante e intensa preencheu o salão, fazendo a multidão ofegar em admiração. Kael sorriu, um sorriso de pura vitória. Ele olhou para Luna, seus olhos dizendo: "Viu? Eu sou inevitável."
"O poder reconhece seu mestre," ele declarou em voz alta, saboreando o momento. "Agora, Luna, termine com isso. Declare-me o príncipe herdeiro."
Ele a tratava como uma serva, um mero instrumento para sua ascensão. A antiga Luna teria se derretido com sua atenção, feliz em ser a ferramenta que o levasse à glória. A nova Luna apenas o observava com uma frieza cortante.
No meio da multidão, uma mulher vestida com elegância fingiu um desmaio.
"Oh, Kael! Sua magnificência... é demais para mim!"
Era Seraphina, a cantora de ópera por quem Kael era obcecado, a mulher por quem ele a havia descartado na vida passada. Ela também renascera, e sua atuação era tão calculada quanto venenosa. Seu falso mal-estar era projetado para solidificar a imagem de Kael como uma figura de poder avassalador.
Kael se virou para ela, seu rosto se suavizando com uma falsa preocupação. Nesse exato momento, a luz brilhante do Orbe vacilou. A cor dourada intensa começou a se misturar com finos fios de fumaça negra, uma corrupção que só os olhos mais atentos podiam ver.
A mudança foi sutil, mas Kael sentiu. Sua cabeça se virou bruscamente para Luna, a raiva distorcendo suas feições.
"O que você está fazendo?" ele rosnou, sua voz um sibilo baixo e perigoso. "Está tentando me sabotar? Depois de tudo que tivemos?"
A Imperatriz, sua mãe, levantou-se de seu assento. "Sacerdotisa! Como ousa interferir com o destino de meu filho? Sua ordem já é uma sombra do que foi. Tenha cuidado para não ofender a futura família imperial."
Luna baixou a cabeça, escondendo o desprezo em seus olhos.
"Minhas desculpas, Alteza. Talvez meu poder esteja instável hoje," ela disse, sua voz um murmúrio de falsa submissão. Ela estava jogando o jogo dele, por enquanto.
Kael, vendo Seraphina "sofrer" por ele, decidiu que já tinha sua vitória. Ele era o único que tinha feito o Orbe brilhar tão intensamente. O resto era mera formalidade.
"Eu vou cuidar de Seraphina," ele anunciou, caminhando até sua amante e a pegando em seus braços de forma dramática. "Voltarei para a minha coroação. Prepare tudo, Luna."
Ele saiu do salão como um rei conquistador, com Seraphina aninhada em seus braços, lançando um olhar triunfante para Luna por cima do ombro de Kael.
No momento em que eles cruzaram a soleira da porta, a luz no Orbe do Destino se apagou completamente. Por um segundo, houve apenas escuridão. Então, a esfera se encheu de uma cor vermelha doentia, a cor de sangue coagulado e traição. Dentro do cristal, imagens fugazes de fogo, morte e desespero dançaram como fantasmas - a verdade nua e crua da alma de Kael, a ruína que ele traria para o reino.
O salão ficou em um silêncio chocado. O Imperador se levantou, seus olhos fixos no orbe escurecido, sua mandíbula cerrada em fúria. A verdade, por mais feia que fosse, fora revelada.
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