Acabamos o primeiro semestre da faculdade, queríamos sair e comemorar. Meu pai prezava pelo cuidado comigo. Eu só podia sair com Thales, meu primo gay, mesmo que eu já tivesse completado 18 anos. O senhor Maurício Duprat, francês naturalizado brasileiro, era muito rígido com minha educação e postura, afinal, eu era a princesinha do direito, ele o rei! Mas nem sempre foi assim.
Entrei na adolescência depressiva, com complexo de pobre menina rica, justamente porque ele não tinha nenhum cuidado comigo. Tentei apagar todas as memórias ruins da minha infância e pré adolescência. Mas tinha duas coisas que eu não conseguia esquecer: meu primeiro surto, quando entendi que meu pai usava minha beleza desde sempre pra fechar bons negócios.
E eu entendi porque tinha 12 anos quando um cliente tocou em minha mão. E ele não se manifestou contrário a isso! Me tranquei em meu quarto, chorando desesperada, e minha mãe sem saber o que fazer, mandou o motorista buscar Thales e Emily para conversarem comigo:
- Aquele velho nojento me tocou e meu pai não fez nada!
- Desculpe amiga, mas minha mãe diz que seu pai é um idiotä que é capaz de te vender para angariar clientes!
- Mas não pode, gente! Isso é abuso. Sua mãe é conivente com isso?
- Minha mãe é uma sonsa, Thales.
- Então a gente precisa dizer pra ela deixar de ser. Já pensou, prima? Seu pai te vende pra um desses velhos nojentos?
- Acho que ele não faria isso! Mas já pensou se ele obriga a Bianca a casar com um deles?
- E não é vender do mesmo jeito?
Fiquei apavorada! Contei pra minha mãe, com medo de ter que me casar ainda criança, e então começaram as brigas. Meu pai gritava, descontava nela, mas ela não cedia! Não deixava mais ele receber clientes em casa, e eu não tinha permissão de sair do quarto quando tinha visitas, a menos que ela me buscasse!
Meu pai era outra pessoa. Começou a passar noites fora de casa, alegando que estava atendendo os clientes, minha mãe chorava disfarçada, e rezava!
Depois, a transformação! Eu tinha 14 anos quando meu pai mudou da água pro vinho! Era presente, os dois estavam sempre juntos, sorrindo, ele trazia presentes pra mim e pra ela, não passava mais nenhuma noite fora de casa, era meu amigo, quando não podia ir até meu quarto, me levava pro escritório pra gente ficar perto. Passei a admirar meu pai ao extremo, ele estava virando uma potência no ramo do direito, já tinha uma vasta carteira de clientes, era inteligente, safo. Aquela fase ruim passou. Mas eu? Era a idiota tímida e depressiva que via os meninos se aproximando de mim por causa do dinheiro e fala do meu pai, então aprendi a ser mais reservada e manter todos os homens longe. E Thales me ajudava muito nessa parte!
Depois que finalizei minha maquiagem, enterrei isso na memória novamente. Eu estava com uma calça preta, um cropped manga longa dourado e meus cabelos loiros soltos. Uma maquiagem fatal e botas pretas de salto fino, no meio da pista, dançando despreocupada, rodeada por meus amigos. A gente tinha terminado o primeiro semestre na universidade, éramos jovens e estavamos relaxando.
De longe, o dono da boate, um bom vivant acostumado a ter tudo o que queria, me observava...
Nicolas Pontes me observava dançando na boate dele, com o pensamento: essa mulher vai ser minha nessa noite! Quando Thales se aproximou do bar para buscar bebidas para as meninas, Nicolas o abordou:
- Boa noite, voce vai conseguir levar todos os copos?
- Não se preocupe, eu só vim pedir para adiantar. Meus amigos já estão vindo.
- Desculpe, sou Nicolas Pontes, o dono do local.
- Prazer, Thales Noruega. Estudante de medicina.
- Vejo que você está num grupo bem animado.
Thales revirou os olhos. Sabia bem das intenções do rapaz. Estava acostumado a destruir corações.
- Aquela é Bianca Duprat, a princesinha da cidade. Minha prima, começamos universidade juntos. Ela está cursando Direito. Apesar de você estar vendo ela soltinha assim na pista, é uma menina tímida. Criada severamente pelo meu tio, que não deixa qualquer um se aproximar dela. Hoje estamos aqui relaxando depois da bateria de exames de final de semestre, mas ela não costuma frequentar lugares assim, e por ela mesma, não costuma deixar que rapazes a bajulem.
Nicolas olhou o rapaz de cima abaixo. Era bonito, parecia os riquinhos da universidade que ele estava acostumado a receber na boate. Pensou no discurso pronto que Thales acabou de fazer. Poderia, perfeitamente, querer afastar os homens dela porque a queria pra si. Não deixaria um moleque recém saído das fraldas atrapalhar seu plano.
- Não entendi o porquê de você me falar tudo isso. Apenas notei que vocês estão bem animados e queria agradecer a visita - percebeu que eu estava me aproximando com o grupo, então elevou a voz:
- Diana, essa rodada do grupo hoje é por minha conta.
Thales revirou os olhos novamente. Muito padrão, muito clichê. Eu também não fiquei surpresa em ganhar as bebidas para todos. Peguei no balcão as bebidas e sai distribuindo, quando peguei meu copo, levantei na direção de Nicolas e fiz um sinal de agradecimento.
Nicolas assentiu e se afastou. Deixaria eles a vontade e quando voltassem pra pista, dançaria com ela e se apresentaria.
- Incomodado mais uma vez? - perguntei para Thales.
- Até que não, esse disfarçou bem.
Todos no grupo deram sorrisinhos
- Deixe de mentir, Thales. Estamos bebendo de graça mais uma vez... - Emily era a minha melhor amiga. Inicialmente, os três faziam tudo juntos. Depois que saímos do colégio, o grupo aumentou. Com Amanda que cursava Direito com nós duas e o irmão gêmeo dela Noah, que cursava Engenharia e namorava Emily. Também de Engenharia tinha Paula, Anna e Pedro que eram os inseparáveis de Noah. Recentemente o grupo foi completo por Damares de Medicina, que só saía com seu irmão Augusto, o único do grupo já formado. Como era mais velho, era chamado de tio por todos, alvo de brincadeiras dos jovens de 18 anos. Mas nunca se ofendia, pois sabia que tinha conquistado o respeito através de Thales, com quem estava tendo um relacionamento.
- Mas não é só por isso que a gente sai com a chata da Bianca? - Amanda perguntou
- Tô começando a pensar que a economia da mesada não tá valendo a pena - Paula brincou
- Como não? - Damares respondeu - você bebe mais que Opala. Se tivesse que tirar tudo da sua mesada, só poderia sair uma vez por mês.
Todos riram. Paula era a que mais bebia do grupo, mais até que os meninos. Augusto e eu não bebemos nada que contenha álcool. Eu não tinha o hábito e Augusto estava fazendo residência em cirurgia. Temia que consumir álcool tirasse a firmeza de suas mãos.
- Tá, vale a pena economizar o dinheiro. Mas os rapazes não me notam. Estou até com a boca ressecada sem beijar há uma década, por isso que eu bebo.
- Nisso eu concordo. Poderíamos fazer rodízio e deixar a Bianca em casa algumas vezes pra dar oportunidade a todas de serem vistas. - Anna respondeu com bom humor.
Corei violentamente
- Vocês estão exagerando...
- Não, prima, elas não estão. Eu que passo por isso há anos, sei bem do que elas estão falando. A coitada da Emily, mesmo linda e considerada mulher fatal sendo ruiva natural, viveu na sua sombra e teve que caçar na Engenharia, os profissionais mais maçantes do mundo, pra desencalhar. - Noah, olhou feio para ele. Anna e Paula mostraram a língua - E esse que vos fala então, coitado de mim. Se já é estatisticamente 5 vezes mais difícil pra arrumar um parceiro, ao seu lado se tornou impossível!
- Aí voce teve que se contentar com um sugar dady, não é, bicha sem vergonha - Pedro respondeu, se vingando do comentário sobre engenheiros. Os dois sempre se provocavam, com Thales dizendo que engenheiro era chato, e Pedro chamando Thales de bicha, o que é politicamente incorreto. Muitas vezes, quem via de fora se ofendia, mesmo quem não participava da comunidade gay, mas Thales não se importava e dizia que preferia esse tratamento aberto e franco do seu grupo do que o mimimi hipócrita de quem não aceitava sua orientação sexual.
Eles ficaram rindo e se provocando e eu me afastei um pouco. Fiquei pensando que era muito feliz por ter um grupo de amigos tão bom.
Demorou um tempo para entender porque era tão cobiçada. Desde meus 15 anos, sempre achei Emily muito mais bonita que eu, pois era uma ruivinha com longos cabelos cacheados, sua pele clara com sardas lhe dava uma beleza selvagem que chamava atenção. Enquanto ei era só uma loira dos olhos azuis comum. Me achava até meio sem sal.
Com 15 anos, cheguei a pensar que era mais cobiçada por causa de dinheiro. Meu pai era o advogado mais badalado da cidade. Era dono de um grande escritório que controlava todas as áreas possíveis, e todos que queriam se livrar de confusão, o procuravam. Ele treinava os melhores para ser seus associados e todo mundo queria uma oportunidade de trabalhar com ele.
Sendo assim, aprendi desde muito nova que as pessoas usariam qualquer meio possível para se aproximar do Rei da cidade. Então achava que, como "princesinha", era o alvo mais procurado. Cheguei a ficar mais deprimida por isso e com 15 anos, cortei meus cabelos no banheiro de casa.
Thales e Emilly me encontraram deitada na cama, com a tesoura nas mãos. Nesse dia, Thales me colocou na penteadeira, consertou o estrago que eu tinha feito, fazendo um chanel de bico e batendo o pescoço. Quando terminou, ele me obrigou a olhar no espelho enquanto falava.
- Quem diria que conseguiria ficar ainda mais linda em um curtinho básico? Olha bem para você, Bianca Duprat. - Enquanto falava, ele ajeitava o bico da franja no meu rosto. Me olhei e nem acreditei na mulher que vi no espelho. O rosto pequeno, maçãs delineadas, olhos grandes, pele alva. - Sabe o que as mulheres sofrem para atingir esse tom de loiro? E você imagina o quanto detonam seus cabelos para isso? E você é agraciada com esse loiro natural, e olha esse volume de cabelos! - ele fala, afofando as pontas no pescoço. - Você já viu uma loira com esse tanto de cabelo? Claro que não, elas passam tanta porcaria pra ficarem loiras que os cabelos caem tudo. Olha pra você. Olha esses olhos! Tá bom, não olha não porque estão uma porcaria agora, você estragou eles chorando e deixou tudo inchado, parecendo o sexto round de uma luta de boxe!
As duas não conseguiram evitar de rir. Thales percebeu que seu tom foi me acalmando, e continuou:
- E esse nariz? Parecia pintado por Michelangelo no seu rosto, de tão perfeito e delicado. Agora parece uma coxinha de frango deformada, todo ranhento. - Emilly automaticamente me estendeu um lenço de papel.
Me senti muito melhor com a visita deles, mas Emily chegou por trás de mim e acabou definitivamente com minha baixa auto-estima
- Você é linda. Não estrague a obra prima de Deus. Ele te desenhou a mão, você é única.
Daquele dia em diante, passei a me arrumar mais, a me sentir linda de verdade. Não baixei a guarda quanto aos rapazes que me cortejavam, pois sabia que eles poderiam querer unir o útil ao agradável. Afinal, não pensava em namorar. Achava que era muito nova e tinha um longo caminho a trilhar para ser uma advogada tão poderosa como meu pai e poder caminhar com minhas próprias pernas.
No ano seguinte, meu pai pegou um caso muito famoso, de cunho internacional, explodiu no mercado, virou mais badalado, mais cobiçado e se consolidou como o eterno rei do direito, e eu então decidi que queria seguir seus passos!
Consegui me desvencilhar de Nicolas tranquilamente naquela noite! Tenho verdadeiro nojo desses garanhões que tomam como certo conseguir me arrastar. Eu estava feliz, em outra vibe! Comecei a estagiar no escritório do meu pai, e precisava aprender tudo o que fosse possível. Até o final da faculdade, ia ser tão grande quanto ele! E ele precisava me treinar com bastante eficiência, pós queria se aposentar e me passar o bastão o mais rápido possível!
Eu percebia que muitos dos seus sócios ficavam irritados com minha presença. Estavam acostumados com profissionais brilhantes, o alto escalão do Direito. Ter uma loirinha iniciante acompanhando tudo de perto era desolador.
Mas eu não me importava. Tinha uma memória fotográfica e um alto poder de guardar ressentimento. Quando percebia alguém torcendo o nariz para mim, automaticamente guardava rosto, nome, posição e tudo o que podia sobre a pessoa na minha caixinha de memórias. Sabia que iam ser informações úteis quando quisesse me vingar.
Por isso, quando em meu terceiro dia no escritório, concentrada nas tarefas que meu pai deixou enquanto ia ao Tribunal, precisei atender um dos contadores e ele foi extremamente gentil e atencioso comigo, até estranhei.
- Senhorita Duprat, sinto muito incomodá-la, mas preciso realmente de uma orientação. Na falta de seu pai, a senhorita é a pessoa com maior responsabilidade aqui.
- Por favor, senhor... - Li o nome em seu crachá - Paulo. Menos formalidades. Eu sou Bianca, prazer . - Estendi a mão pra ele, que hesitou. Estava muito acostumado ao jeito sério e seco que meu pai atendia as pessoas. - Só falo com pessoas que me chamam pelo meu nome. E não sou melhor que ninguém. Pra mim, não são empregados, são colaboradores e podemos agir entre nós sem formalidades.
Paulo retribuiu o cumprimento e começou a explicar a situação. Ele era o chefe dos contadores, quem contratava e revisava o serviço dos outros. Recentemente recebeu a ficha de um recém formado, indicado por um amigo funcionário público. Eles eram irmãos.
- E o senhor pede autorização de meu pai para cada contratação?
- Não, senhorita... Desculpe. O problema é grande. Fazemos uma grande checagem de todos os funcionários novos. Esse processo demora um pouco até a contratação. Mas esse senhor não me interessou muito, a princípio. Então nem mandei fazer a checagem. Mas hoje ele veio até meu escritório, com um relatório que me envergonha.
- Não entendi.
- Eu sou responsável por cada trabalho daqui, e não percebi que temos um contador comprado. Que está sendo pago para dar baixa em 2% de nossas comissões nos processos que ele trabalha.
- Estamos sendo roubados, é isso?
- Sim.
- E o que esse contador tem a ver com tudo isso?
- Ele queria pedir uma entrevista para mostrar sua capacidade, então estudou alguns processos e percebeu o erro. Então estudou mais alguns e percebeu o padrão, e que todos que apresentam erros, são assinados pelo mesmo contador.
- Ele está aqui?
- Sim, por isso a urgência. Está esperando em meu escritório.
- Traga-o pra mim.
Fiquei aguardando Paulo voltar com o rapaz com o estômago revirado. Sabia que essa era minha chance. Deveria saber resolver esse problema e mostrar a todos no escritório que estava no nível do meu pai.
Mas qual seria a reação de papai nesse momento? Eu acreditava que jamais alguém teria coragem de roubá-lo, e sabia que ele também não. Então, não tinha nenhum parâmetro para qual seria a atitude dele.
Estava apavorada em como lidaria com aquele problema. E percebi que era isso o que me esperava para o futuro. Não só ser uma advogada brilhante, com uma carteira vasta de clientes. Eu tinha que lidar com problemas administrativos também. E funcionários, colaboradores, parceiros, sócios. Nem sempre conseguiria agradar a todos, como era o caso no atual momento.
Eu era só uma menina. Uma princesinha criada cheia de mimos. Meu estômago embrulhou de novo quando ouvi a batida na porta, mas me revesti de toda confiança que meu pai depositou em mim, controlei os nervos e fingi que não estava com o estômago cheio de borboletas quando mandei que entrassem.
Tudo em vão quando coloquei os olhos em Gustavo, em nada parecido com o velho nerd de óculos que imaginei.
Quando Gustavo, alto, forte, com cabelos negros e olhos parecendo jabuticabas apertou minha mão, todas as borboletas fugiram do pote que eu prendi e deram crias, espalhadas por meu estômago e fazendo minhas mãos suar.
- Muito prazer, senhorita. Gustavo Namioto, a seu dispôr.
De novo, controlei o nervosismo. Agora estava me tremendo toda! Mas tinha ali um problema maior do que o frio na barriga por conhecer um homem lindo:
- Gustavo, você pode provar e apontar o que está dizendo?
- Sim, senhora.
- Nem senhora, nem senhorita. Paulo, você corrobora o que ele diz?
- Sim, Bianca.
- Então está contratado, Os dois tem uma hora para me trazer as provas. Chequem a origem dos roubos.
- Já fiz isso, Bianca.
- E do que a gente precisa então?
- Chamar a polícia.
- Não. Escândalo e propaganda negativa. Gustavo, você concorda em fazer uma pequena encenação?
- Sem problemas.
- Ótimo! Paulo, imprima toda a checagem do Gustavo e me traga o ladrãozinho!