Ser mãe não é fácil.
Mas acho que você mãe ou que conhece alguém que já é mãe, tem consciência disso, pois é um trabalho contínuo e sem folga.
Tecnicamente não escolhi ser mãe, a verdade é que mão tinha muitas informações em relação á isso. Eu sabia que as mulheres que geravam os bebês e também sabia de onde saia mas, eu não sabia e nem entendia todo o processo que se seguia até isso acontecer. Não sabia que precisava de um homem em questão.
Conheci meu atual marido com 15 anos. Um absurdo, não é? Eu sei. Mas eu não compreendia o quanto prejudicial era para mim naquela época, me envolver com um homem mais velho e como isso atrapalharia muita coisa na minha vida.
Ele era mais velho do que eu, enquanto eu ainda estava estudando, ele já trabalhava como ajudante de pedreiro com o pai que era pedreiro. Assim como a maioria das minhas colegas, eles me conheceu a saída da escola, numa pequena multidão de alunos ansiosa para ir para casa. Eu era um deles e só queria ir para casa. Ele me acordou de repente mas, com toda a gentileza do mundo. Gentileza essa, que não conhecia.
Posso garantir que me apaixonei naquele instante. Naquele momento em que ele usou palavras doces e gentis comigo, uma menina de 15 anos, que não conhecia os homens e que nunca havia se relacionado com nenhum até então.
Claro que me fiz de difícil. Não queria parecer que era fácil, sempre ouvi minha mãe com as minhas tias falando sobre o assunto, o quanto era feios mulheres com determinados comportamentos. Como mulher, eu devia manter uma postura diferente, me fazer de difícil até ele desistir ou persistir.
Então assim eu fiz nos dias seguintes, onde ele continuou me encontrando na saída da escola, sempre com algum pretexto para me ver. Nos dias que ele não aparecia, eu sentia falta e me questionava se ele não iria aparecer. Mas no dia seguinte, lá estava ele, com alguma desculpa de que trabalhou até tarde e que depois foi direto para casa pois estava muito cansado.
E eu sempre entendia, como se já tivesse algum relacionamento com ele. Até que em determinado momento, ele resolveu me pedir em namoro e eu mesmo sem saber se a minha mãe apoiaria, se meu pai conservador aceitaria, eu aceitei, esperançosa de que eles me entenderia.
Mesmo sem meus pais saberem, namorávamos como se já tivéssemos permissão, para todo mundo ver. Isso não durou muito tempo, é claro, logo os boatos começaram a rolar com o nome de Mário. Havia boatos por toda parte, mas sempre no mesmo contexto, Mário tinha mulher e estava traindo ela comigo, óbvio que não acreditei, ele não iria mentir descaradamente para mim dessa forma, havia sido sincera com ele desde o primeiro instante e esperava apenas que ele fizesse a mesma coisa comigo.
Em menos de uma semana, chegou aos ouvidos da minha mãe que estava namorando com um homem casado. Ela não hesitou em ir me buscar na escola e perguntar ali mesmo quem era, estava prestes a dizer, olhando fixamente para Mário, quando simplesmente ele subiu em sua bicicleta monarca e foi embora.
Não tive mais reação. Não sabia o que dizer, não sabia o quê fazer. Na minha frente estava minha mãe, furiosa comigo e até com razão, por estar sabendo da boca de outras pessoas algo daquela magnitude. E a única coisa que eu queria fazer era correr para bem longe.
Claro que não tive chance, minha mãe me arrastou para casa, onde meu pai já me esperava com o cinto e me bateu até eu dizer quem era ele. Eu não tinha alternativa a não ser contar toda a verdade, em casa sempre priorizamos isso, era quase que obrigatório.
Como se a surra já não bastasse, meus pais me fizeram ir com eles até a casa de Mário e lá descobri que realmente ele era casado. Meu mundo já estava no chão, então quase que não senti aquele baque. A mulher dele se enfureceu logo e partiu para cima dele, exigindo respostas e gritando que iria se separar. Todo instante meus pais diziam que era para ele se casar comigo, que não teriam uma filha desonrada dentro de casa. E aquela confusão continuou por minutos que pareciam uma eternidade, até que a mulher entra em casa, faz uma trouxa e sai, sem ao menos olhar na cara dele.
Naquele momento, tecnicamente me tornei a mulher dele. Meus pais fizeram nosso casamento acontecer o mais rápido possível e logo estava dentro da casa que um dia ele dividiu com outra mulher. Já não sentia o que sentia antes, era como se tivesse evaporado dentro de mim e via nas atitudes dele que também já não sentia a mesma coisa. As vezes me perguntava, se ele não a amava e só estava comigo com medo de ser preso por estupro, pois meus pais o havia ameaçado com isso.
O primeiro e o segundo mês foi de "boa", até que comecei a passar mal de repente e fui parar no hospital, recebendo o diagnóstico de gravidez. Com tudo que estava acontecendo, ainda seria mãe, quando claramente o que eu e Mário tínhamos, mão era benéfico para uma criança. E mesmo querendo abortar e tendo o apoio dele, acabei não cedendo e permitindo que simplesmente gravidez prosseguisse.
E quer saber? Foi a melhor decisão que tomei.
Júlia se tornou minha luz no final do túnel. Tudo que eu fazia era para ela, e também por causa dela tive que largar a escola e comecei a vender doces e bolos na rua para conseguir fazer o enxoval dela, já que meus pais haviam deixado claro que não iriam se envolver.
Foi indo com pequenos passos, que consegui roupa para lavar, casa para faxinas e conseguir fazer todo o enxoval. E mesmo ainda preste a parir, trabalhei e fui sozinha para o hospital quando comecei a sentir dor.
Tive Júlia sem Mário por perto ou qualquer outro parente, só souberam que havia parido quando cheguei em casa e não houve muita surpresa de Mário. A única diferença agora era que tinha que trabalhar com uma recém nascida, o que não era nada fácil e nem um pouco apropriado. Não esperei meu resguardo acabar, não podia, minha filha precisava de fraldas e o pai dela todo o dinheiro que arrumava era apenas para ele, para as necessidades básicas dele, que diferente e mim tinha até que me preocupar com a minha alimentação.
A creche veio a calhar num momento que já não estava dando para levar Júlia, que já não tinha paciência para me esperar trabalhar, queria sempre atenção e estava numa fase que tudo ela chorava. Até então, minha mãe nunca havia ficado com ela para poder trabalhar, muito menos minhas irmãs, era o jeito da minha família cristã e conservadora, me punir, me deixando padecer sozinha e sem qualquer apoio.
Júlia chorava todos os dias. Todos os dias era um escândalo e as tias da creche até entendia. E eu sempre a deixava com meu coração apertado, querendo largar tudo para me dedicar á ela, era o que mais eu queria no mundo, parar de cuidar dos filhos dos outros e cuidar da minha filha.
O emprego que estava numa casa de família, além de não pagar todos meus direitos, me tratavam mal. Comecei aos poucos procurar por outro emprego, por indicação, consegui chegar até outro bem melhor que pagava todos os direitos trabalhistas e tinha horário para entrar e sair, além que nos finais de semana não era necessário ir.
Praticamente o emprego dos sonhos e numa casa ainda mais dos sonhos. Um apartamento, na zonal sul e com muita coisa chic. Tanta coisa Chic que eu tinha medo de quebrar alguma coisa e não é que quebrei uma vez uma taça de cristal e jurei que seria demitida? Esperei pela doutora Gabriela com o coração na mão, já me preparando para o que iria ouvir.
- Luíza - diz ela surpresa ao me ver, franzindo o venho - Seu horário de trabalho já acabou. Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu sim! - digo quase sem fôlego, quase chorando.
- O quê?! - diz assustada.
- Quebrei uma taça - choramingo.
Gabriela fecha os olhos, soltando o ar dos pulmões.
- Uma taça, Luíza?
- Me desculpa! Pode descontar do meu salário! - digo rapidamente - Eu... eu...
- Está tudo bem, Luíza. Só é uma taça. Compro outra depois - diz ela com um sorriso despreocupado, dando fim a conversa.
Doutora Gabriela era uma patroa boa. Ela muitas vezes pagava mais do que o combinado, me dava cesta de Páscoa, Natal, presente para Júlia e para mim. Estava sempre me agradando de alguma forma e pedindo respeito aos filhos gêmeos, que de gêmeos não tinham nada. Lucas e Luan não sr pareciam em nada, tinham personalidades diferentes e mesmo o marido de Gabriela, César, dizendo que Luan não era boa pessoa, discordava. Acho que ele não conhecia bem o filho adotivo.
Tinha momentos tensos naquela casa, aonde presenciava muitas discussões e como mãe me sentia mal. Mas não capaz de levar tudo que acontecia para a doutora, ela e o marido me ajudavam muito, ela havia conseguido me convencer a voltar a estudar pela Internet. Eu tirava duas horas do meu horário de trabalho só pata isso e me sentia tão agradecida á ela por acreditar em mim que, não conseguia me imaginar levando problema para ela, principalmente sobre a relação do marido com o filho.
Com a ajuda dela consegui me formar e ela até comemorou essa conquista comigo mas, não demorou para dizer que precisava estudar mais, que precisava de faculdade e não me acostumar com o que já tinha. Claro que eu fiz o que ela recomendou, comecei a estudar para o ENEM, cada dia mais focada.
Mesmo quando do chegava do trabalho, ainda estudava.
- O quê tanto você faz com esse livro? - Mário né perguntou certa noite, após a janta e de colocar Júlia para dormir.
Na mesa da cozinha, debruçada sobre um livro e um caderno, tentava absolver o máximo de informações possível.
- Estudando.
- Estudando - Ele repete, olhando o livro de cima Conta outra, Luíza.
-Então acredite se você quiser.
Não me importava o quê Mário achava
Já algum tempo, acho que desde que entramos naquele "relacionamento" que deixei de me importar com o que ele achava, ele não era tão participativo, nem na criação da nossa filha. As contas eram pagas por mim, praticamente era eu que bancava tudo trabalhando de sol a sol, enquanto ele vivia uma vida de solteiro, como se não tivesse qualquer obrigação.
Eu também não queria ter responsabilidade. Não queria ter que levantar cedo, ir trabalhar, me preocupar com uma criança que era completamente dependente de mim ainda, cuidar de uma casa e me preocupar com as contas que não paravam de chegar. Não queria nada disso, mas infelizmente essa era a minha rotina diariamente e não entendia como ainda havia pessoas que ainda julgavam por esquecer alguma coisa ou por não estar presente completamente na vida da minha filha. Parecia que não viam o tipo de homem que eu era "casada", talvez gostassem de me ver passar por diversos perrengues e ainda manter de pé quando tudo dizia para desistir.
Eu era uma sobrevivente. Tentava sobreviver todos os dias no caos que era viver numa favela do Rio de Janeiro, aonde não sabíamos se conseguiríamos sobreviver a tiroteios ou as regras ditadas pelos traficantes. Eu não só temia minha vida quando saia da Rocinha, temia mais pela vida da minha filha que continuava naquele lugar. Ali só só éramos vistas como mais uma estatística causo algo acontecesse com uma de nós, não iriam dar a atenção devida e acabaríamos caindo no esquecimento após pedirem por justiça umas duas vezes.
E a última coisa que queria era que minha filha fosse vítima de uma bala perdida. Já havia presenciado muitas vezes o sofrimento de muitas mães e era impossível não se colocar no lugar delas, compartilhar a mesma dor.
Era pensando nisso, temendo que o pior acontecesse que queria ir para outro lugar com Júlia, um lugar que desse para recomeçar do zero, sem Mário por perto, só eu e ela.
Talvez fosse por causa disso que eu trabalhava ao máximo, dava meu máximo, guardando dinheiro toda vez que era possível e economizando o máximo que eu podia. Eu queria um futuro melhor daquele que tínhamos naquele momento, não queria mais passar por necessidade, temer que a vida da minha filha fosse ceifada ou ter que trabalhar excessivamente para que pudéssemos sobreviver naquele mundo.
- Isso é uma perca de tempo - diz Mário por fim resmungando - Isso sim.
- Não é perca de tempo - digo irritada, olhando para ele - Estou pensando no meu futuro.
- Que futuro, Luíza? Fixou louca é? Aonde que pobre tem futuro.
- É aí que você está enganado. Enquanto eu puder tentar, vou estar tentando.
- Só pra perder tempo.
Mário só me apoiou uma vez na minha vida, em todo aquele tempo que estávamos morando mesma casa e foi apenas quando eu cogitei a hipótese de abortar. Ele não queria ser pai, não queria responsabilidade, então de alguma forma estaria ajudando ele com isso. Fora isso, ele nunca me apoiou em absolutamente nada, estava sempre ocupado demais com ele mesmo. Sendo assim, era até surpresa para ele me ver me preocupando comigo mesma, além de estar pensando por dois, por mim e por ele.
Mas eu sentia, mesmo que não tivesse certeza, que iria conseguir chegar aonde eu queria, ter tudo o que sempre quis e iria conseguir, sem a ajuda dele, para poder dizer isso depois com todas as palavras.
Ignorando a existência de Mário, continuou com meus estudos até tarde da noite, quando minha mente estava mais do que cansada e só querendo parar um pouco. Essa era a minha rotina da noite, depois que havia me formado. Sempre depois das minhas horas de estudos, guardava tudo muito bem guardado, já que uma vez de propósito Mário molhou um livro e ainda alegou que eu havia deixado largado por aí, que a culpa era minha.
Diferente da maioria das mulheres dali, eu não me importava em ser traída, muito menos em ouvir as fofocas com o nome de Mário. Vivia ocupada demais para aquele tipo de coisa, então simplesmente deixava que os desocupados falasse. Falassem tudo o que quisessem, com direito em até aumentar um pouco e inventar.
Estava determinada em vencer na vida praticamente sendo uma mãe solteira, precisando trabalhar duro, mesmo que demorasse cem anos, eu não me importava, só queria sentir a sensação de dever cumprido quando chegasse lá e olhasse para trás e visse tudo o que havia acontecido e que, tudo que aconteceu foi importante para eu poder chegar aonde eu queria, aonde eu estava naquele momento.
Eu iria conseguir. Sim, eu iria e um dia lembraria de tudo aquilo com um sorriso no rosto e uma reflexão na mente de que tudo é possível, quando se acredita.
Meu dia começava cedo, para ser mais exata as quatro e meia da manhã. Preferia levantar esse horário, por que dava tempo de organizar a casa, arrumar a mochila da Júlia e me arrumar.
Quando a Júlia acordava, o café da manhã já estava pronto, na mesa, eu já estava arrumada e apenas esperando que ela tomasse o café da manhã dela no tempo dela e que permitisse que eu a arrumasse.
Mário por outro lado, neste horário, ainda estava dormindo no sofá da sala, com a roupa do dia anterior e cheirando a álcool, podia sentir o cheiro a pelo menos dois metros de distância. Júlia já não se importava com essa situação e já havia aprendido a lidar da melhor forma ao ver o pai naquele estado, então depois do café, saímos de casa com destino a escola.
No trajeto, conversávamos sobre tudo. Tudo ao nosso redor, as pessoas, o sol, o céu... Júlia era uma criança observadora e que se apegava a cada detalhe que via.
Na porta da sala dela, sempre nos despedíamos com um forte abraço e a deixava ir, pronta para começar meu dia. Para chegar na zona sul precisava de dois ônibus, doutora Gabriela havia sugerido diversas vezes que era melhor pegar um táxi todos os dias por sua conta mas, eu não achava certo, era pedir demais.
Geralmente os ônibus estavam cheios, tanto na ida quanto na vinda. Ouvia as pessoas reclamado do clima, da vida, das pessoas no geral; Além do desconforto de ficar em pé, ainda tinha que lidar com os diversos odores que viam de todos os lados, era sufocante e me sentia numa lata de sardinhas, presa, incapaz de me mover, correndo o risco de ser abusada.
Depois de todo esse percurso, finalmente chego na zona sul e ainda preciso andar alguns poucos metros, até chegar no prédio alto de vinte e poucos andares e, passar pela portaria.
Diferente das empregadas que trabalhavam ali também, não erra obrigada a entrar pelo elevador de serviço. Doutora Gabriela não me forçava á isso e era mais uma coisa de que era grata. Isso gerava murmúrios toda vez que me viam, mas eu não ligava.
Ao entrar pelo apartamento pela porta da frente, me deparo com o cheiro de café e vozes baixas.
- Bom dia - digo ao entrar na cozinha. Ali na minha frente estava a doutora Gabriela e seu marido César, que pela cara, não estava tendo um bom dia.
- Oi, Luíza - diz Gabriela sorrindo - Senta. Vem tomar café da manhã.
Sorrio sem jeito, as vezes acabava que eu cedia e me juntava á eles. Mas não me sentia bem, sentia que estava sendo inconveniente, saindo do lugar que era para estar.
- Já tomei café. Mas obrigada.
- Toma de novo - diz César.
Mantenho o sorriso.
- Bom, se quiser comer alguma coisa já sabe - Ela levanta, pegando a bolsa ao lado - Até mais tarde - diz antes de sair da cozinha e por fim do apartamento. César continua comendo seu café da manhã, o que aproveito para trocar de roupa, vestir a roupa mais ou menos que sempre tinha por ali e começar meu dia.
Geralmente eu começava a limpeza pelo quarto do casal. Não havia muito o que fazer, mesmo assim eu tirava o pó de tudo e limpava o melhor que podia. E sempre tirava alguns instantes para olhar uma fotografia ao lado da cama.
Era Gabriela sem dúvida e com uma menina sorridente. Estava óbvio que era a filha dela, mas não conseguia parar de pensar aonde ela estava. Gabriela nunca havia mencionado que tinha uma filha, também poderia ser sua sobrinha, havia diversas opções mas que não conhecia descobrir qual era a certa.
O quarto em si era muito bem dividido, um lado do quarto era somente de Gabriela, havia pertences dela, simples, diferente do lado de César, aonde tudo parecia ser muito caro e eu temia quebrar qualquer coisa.
Toda a limpeza dura cerca de uma hora, quando deixo o cômodo, passo para o próximo que neste caso é o quarto de Lucas. Lucas era o filho prodígio, como posso dizer...? Era o tipo de adolescente raro que não dava trabalho aos pais, só orgulho e elogios. Ele era assim, além de ser muito gentil e atencioso com todos ao seu redor, com certeza o filho que toda mãe queria ter.
- Oi... - digo entrando no cômodo. Lucas ergue o olhar dos livros em sua frente e me olha - Atrapalho?
- Oi, Luíza. Não. Pode entrar.
Assim como o quarto dos pais, o de Lucas não ficava atrás. Estava sempre muito organizado, limpo e não havia quase nada para fazer.
- Andou limpando o quarto de novo? - pergunto no meio do quarto, sem saber por onde começar.
- Não - Ele começa a fechar os livros e a guardar seus devidos lugares.
- Lucas.
- Sério, Luíza. Não fiz nada.
- Nem parece que você dorme neste quarto.
- Mas eu durmo - Ele se levanta, pegando a xícara ao lado e saindo do quarto. Suspirando, limpo tido o quarto sem necessidade alguma, saindo de lá meia hora depois em direção do cômodo aonde com certeza toda a bagunça da casa ficava.
O quarto do Luan.
Pelo horário, eu sabia que ele estava dormindo, não tinha dúvidas, mas eu precisava acordá-lo se quisesse limpar aquela bagunça.
- Luan - Chamo assim que entro no cômodo, indo abrir as cortinas e depois a janela. Na cama, ele parecia em coma ou qualquer coisa do tipo, pois nem se mexeu, continuou dormindo roncando alto - Luan - digo mais alto e dessa vez consigo com que ele se assuste e semicerre os olhos desnorteado - Bom dia!
- Ah, Luíza - Ele geme, tentando colocar o travesseiro na cabeça - Você de novo...
- E preciso limpar esse quarto.
- Tá limpo - Olho ao redor sem ter como concordar com ele. Aquele quarto estava um verdadeiro chiqueiro, havia roupas por toda parte, lixo e o banheiro parecia de rodoviária. Luan era daquela forma e mesmo que a mãe dele pedisse sempre para cooperar com toda aquela bagunça, ele até tentava mas não conseguia. Já era dele mesmo viver no meio de toda aquela bagunça.
- Vamos. Levanta.
Ele resmunga alguma coisa, mas não dou importância, já que começo a juntar toda aquela roupa espalhada e suja. Depois de alguns minutos, Luan consegue levantar e vai direto para o banheiro, aonde passa mais alguns minutos até finalmente sair do banheiro ainda molhado pelo banho.
- Outro baile? - pergunto quando já não tinha mais roupa em nenhum lugar.
- Perco algum?
- Luan... - Não era bom ouvir dele que estava indo a bailes em favelas. Adolescentes como Lucas e Luan, não era muito aconselhável irem para lugares como aquele. Era perigoso.
- O quê?
- A sua mãe não vai gostar de saber disso.
- Ela não precisa saber. É só você não contar.
- Não vou contar - Aquele era um assunto que não era da minha conta. Não estava trabalhando naquela casa para ficar de olho nos filhos dela, ela não me contratou para isso, então não tinha direito algum de me meter na vida deles - Aqui sou apenas a empregada.
- Não é bem assim.
- É assim sim, Luan. Só quero que você... tome cuidado.
- Tô ligado, Luíza. Tô ligado.
Eu sabia que não. Ele não sabia de todos os perigos, não tinha ideia do que era viver em uma favela, sobre as regras de traficantes. Eles não sabiam e era tão bom isso, eu queria poderia estar daquele lado deles, aonde a vida era melhor, a comida, as pessoas... não do lado aonde havia mais sofrimento e luta do que vitórias. Luan era privilegiado demais para estar na nossa pele, como era ser negro e favelado.
Demoro cerca de duas horas para colocar o quarto de Luan em ordem. Muito lixo acabou sendo tirado e muita roupa suja, principalmente do guarda-roupa. Ele até que ajudou do jeito dele, tentando guardar roupa que estava suja de volta no guarda-roupa.
Quando finamente saio do quarto, me deparo com César vindo do escritório. Tinha dias que ele não ia trabalhar e trabalhava dali mesmo, acho que era o lado bom em ser advogado. Eu não gostava muito, me sentia como se estivesse sendo vigiada, como se ele estivesse de olho em cada passo que eu dava e esperando eu ter um deslize, era diferente da doutora Gabriela que, não parecia se importar comigo limpando por aí.
Ele olha para o saco de lixo em minha mão e o cesto de roupas na outra com um certo pesar.
- Desculpa por isso, Luíza.
- O quê? - Sigo seu olhar para as minhas mãos, entendendo sobre o que estava falando - Ah, isso
Não é nada não.
- Claro que é. Este quarto é um lixão. Dá para sentir o cheiro até com a porta fechada - diz irritado, pouco se importando se o filho escutaria ou não. Claro que eu queria que não escutasse e tentei fazer com que Luan não escutasse, o que foi inútil, pois no momento em que estava me preparando para fechar a porta do quarto, ele segura a maçaneta e a puxa para trás, indo de encontro ao pai.
- É meu quarto - Ele faz questão de lembrar - Faço o que quiser da porta pra dentro.
- Mas a casa não é sua.
- É da minha mãe.
O clima se torna tenso de um instante para o outro, tão rapidamente que me assusta. Não gostava quando aquilo acontecia, não gostava quando os dois se enfrentavam daquela forma e ainda por cima por causa de bobagens, por que era sempre bobagens, nunca era por algo realmente relevante. E cada discussão daquela, só me fazia ter a impressão que só piorava, estava saindo do controle, eu sentia isso e não sabia como impedir que as coisas saíssem do controle mais do que já estava.
- Você não vai ter ela pelo resto da sua vida.
- Eu sei disso.
- E ela também não vai proteger você para sempre.
- Quer dizer alguma coisa com isso? - Ele estreita os olhos, dando um passo para frente, me deixando no meio deles.
- Vai estar sem seus privilégios quando isso acontecer.
Foi o estupim, Luan tentou avançar sobre César e como eu estava no meio, acabei prensada entre os dois e enquanto tentavam se agredir, acabei sendo ferida. Quando perceberam isso, Luan fixou paralisado, o que foi mais do que o suficiente para César aproveitar a oportunidade e desferir um soco contra o rosto de Luan que, perde o equilíbrio e bate a cabeça.
- Luan! - grito assustada, mesmo sentindo dor em uma parte do meu corpo, vou até ele, tentando ver se ele estava bem.
Como esperando, ele se afastou do meu contato irritado com o pai e se levantou se apoiando.
- Você é um moleque! - César grita, praticamente rosnando em cima do menino.
- Luan, entra no quarto - digo querendo evitar o pior, mesmo com a sensação que o pior já estava acontecendo bem ali.
- O que está acontecendo? - Lucas pergunta, saindo do quarto.
- Não é nada, Lucas - digo.
- Só seu irmão que precisa acordar pra vida - César continua. Por fim, Luan me obedece e entra no quarto, não antes de bater a porta do quarto com força, provocando mais xingamentos da parte de César que, xingava tanto que parecia estar até babando de raiva.
Meu ombro doía e um lado do meu rosto, sabia quem havia sido o autor daquilo. Só sabia que havia ficado num lugar que não era para ter ficado. Já havia presenciado discussões entre os dois, sempre calorosas, cheias de ofensas e tudo mais, algo que não era natural e nem saudável para uma relação de pai e filho. Apesar de Mário ser um péssimo pai e não agregar em nada na vida de Júlia, não queria que ela chegasse aquele ponto com o pai, era triste.
Após colocar a roupa para lavar e por o lixo no lixo, vou para a cozinha, aonde ainda trêmula, tento me acalmar. O primeiro copo de água não me acalmou, precisei tomar o segundo e a metade de um terceiro, até começar a me sentir mais calma.
- O que aconteceu, Luíza? - Lucas pergunta, ao se aproximar em silêncio.
- Não foi nada - Não parecia me ser uma boa ideia entrar em detalhes com tudo que aconteceu, não queria parecer que estava sendo fofoqueira ou algo do tipo.
- Como nada? Eles estavam discutindo de novo.
Dou de ombros.
Ele mais do que ninguém, mais do que eu mesma, sabia como era a relação do irmão e do pai, já deveria ter presenciado muitas discussões ou até mesmo agressões. Era difícil de saber mas, era fácil de imaginar. Só não entendia o motivo pelo qual os levava a discutirem tanto, a se desentenderam constantemente como se estivessem em pé de guerra constantemente. A verdade era que César e Luan viviam em pé de guerra e, duvidava de que a doutora Gabriela soubesse do que acontecia em sua ausência, quando não estava por perto para intervir.
Com certeza ela não iria aprovar nem um pouco aquele comportamento do marido, aonde deixava claro qual era seu filho preferido. Só não conseguia entender o por que de fazer essa divisão, os dois adolescentes eram ótimos, meninos muito bem educados mas cada um com sua particularidade. Parecia que simplesmente César havia escolhido amar apenas Lucas e Luan que simplesmente aceitasse a decisão dele.
Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, mesmo eu sabendo que não iria dizer nada. César entra de repente na cozinha, a expressão séria.
- O que aconteceu, pai? - Lucas insiste, querendo saber o que havia acontecido.
César suspira, colocando uma mão no ombro do filho.
- Só mais uma discussão com seu irmão.
- E por que agora?
- Ele acha que vai ter empregado pra sempre.
Lucas revira os olhos suspirando, se contentando com a resposta do pai.
- Eu vou tentar conversar com ele depois.
- Deixa pra lá, tá bom, meu filho? Agora volta lá pro seu quarto - Ele não hesita, obedece o pai. Os segundos seguintes foram de completos silêncio, até que César decide quebrar o silêncio.
- Se machucou não, não é?
- Não - digo sem hesitar, não querendo me fazer de vítima ou algo do tipo. Só queria voltar para meu trabalho e esquecer aquilo que aconteceu.
- Você sabe que o que aconteceu...
- Sim. Eu sei - Não permito que ele termine a frase que eu já conhecia muito bem. Sabia meu lugar naquela casa e nas outras também e, última coisa que eu queria era me meter na vida dos meus patrões. Já estava velha de saber que não estava ali para isso e não queria que César fizesse questão de me lembrar disso, infelizmente se ele quisesse que eu mudasse de opinião a respeito de Luan, eu teria que mudar, pois eu dependia daquele emprego, era dali que sustentava minha filha e com certeza ele sabia disso.
- Ótimo, Luíza. É bom saber que você entende.
- Eu entendo, sim, senhor.
Ele dá um meio sorriso, antes de ir até a geladeira e eu começar a me sentir mal por estar ali e, voltar para o trabalho o mais rápido possível. Ainda trêmula com o que havia acontecido.
Apesar de tudo, a melhor parte do dia, era quando eu voltava para casa. As vezes estava tão psicologicamente cansada de tanta desavença na casa da doutora Gabriela que, só queria ir me afastar de tudo aquilo.
Não conseguia entender como uma família era tão desunida até aquele ponto, e ela não sabia de nada, simplesmente nada, pois César fazia questão de esconder dela e manter aquela sensação de paz e tranquilidade dentro da família.
Só não sabia se César estava certo ou não.
A volta para casa era igual a ida, ônibus cheios, pessoas esgotadas do dia e só a vontade de chegar em casa. No ponto de ônibus ainda precisava andar algumas ruas até chegar na mesa casa, subir a rua principal que era íngreme e fazia os joelhos doerem de propósito.
Mas quando eu entrava na rua que morava, sentia como se o cansaço do dia desaparecesse e só sobrasse a vontade de ver Júlia de novo.
- Vaneide! - Chamo no portão ao lado do meu. Vaneide era a vizinha e ela sempre buscava a Júlia e a deixava em sua casa até eu voltar, já que Mário nunca podia buscar a própria filha na escola e nem ficar algumas horas com ela até eu chegar.
- Oi, mulher - diz ela ao abrir a porta - Júlia, suave chegou - Avisa, antes de andar até o portão médio
Vaneide tinha a mesma altura que eu, mediana, porém tinha mais corpo, usava roupas mais chamativas e tinha um jeito próprio. Era casada e diferente de mim, o marido ajudava em casa e não achava ruim ela ficar em casa com os filhos.
Júlia não demora para aparecer, tomada banho e provavelmente já alimentada. Vaneide cuidava da minha filha da mesma forma que cuidava dos filhos dela e eu era grata por isso, por saber que alguém cuidava da minha filha na minha ausência.
- Ela deu trabalho? - pergunto acariciando a cabeça de Júlia.
- E Júlia lá dá trabalho, Luíza? - diz Vaneide, colocando as mãos na cintura - Queria ter duas Júlia em casa.
Conhecia a minha filha e sabia o quão criança ela conseguia ser, mas sempre gostava de lhe dizer que nas casas dos outros tinha que se comportar, que só podia brincar do jeito que ela gostava na casa dela e ainda bem que ela entendia. Entendia que eu precisava de Vaneide para buscá-la na escola.
- Como foi lá hoje?
Dou de ombros, não querendo contar o que havia acontecido. Não podia, da porta para fora tudo que acontecia naquela casa, tinha que ficar lá, não era meu direito de contar nada.
- Normal. Aquele emprego é uma benção.
- E que benção. Queria arrumar um desse - Ela olha para o final da rua - As vezes é uó ficar dentro dessa casa cuidando de criança, fazendo as mesmas coisas de sempre.
- E eu queria passar algum tempo com Júlia. Não trabalhar tanto.
- Melhor coisa que tem no mundo é trabalhar, Júlia
Larga a mão de ser boba, não depender de macho nem pra comprar um absorvente - Eu entendia o lado dela e realmente ela tinha razão. Gostava da minha independência, de não depender de Mário para comprar absolutamente nada.
Muitas vezes havia visto conhecidas ali mesmo da rua, sendo humilhadas pelos companheiros, pelos pais, por causa de dinheiro, por quererem determinado alimento e simplesmente ouvirem um não, mesmo sabendo que a pessoa em questão podia dar. Parecia que alguns maridos faziam questão de negar cinco reais, dez reais... vendo a esposa completamente cativa á eles, comendo exatamente o que ele queria.
Era exatamente pelo o que não queria passar, muito menos minhas filha. Preferia trabalhar de segunda a sexta, ser torturada pela saudade da minha filha e a culpa por não estar por perto, em vez de me humilhar para Mário, pedindo alguma coisa ou outro homem.
Só queria que a maioria das mulheres pensassem como eu, mesmo tendo ao seu lado um verdadeiro príncipe que fazia questão de cumprir seu papel como homem.
- Então procure um, Vaneide - Proponho.
- E quem vai cuidar dessas crianças, hein? Teria que pagar e acabaria trabalhando só pra pagar a pessoa pra cuidar dos meus filhos - E mais uma vez ela tinha razão, eu até aquele momento, não estava sendo obrigada a isso. Júlia ficava a manhã inteira na escola e depois, o restante do dia na casa de Vaneide até eu chegar. Em poucos anos, quando ela já pudesse ir sozinha para a escola, já não iria mais precisar de Vaneide e poderia se "cuidar" sozinha.
Solto o ar dos pulmões, olhando para casa, cujas luzes já estavam acesas.
- Ele chegou a pouco tempo.
- Devia estar em algum bar.
- E estava, desde da hora que fui buscar as crianças.
Não me surpreendia mais aquele comportamento do Mário. Ele vivia uma vida de solteiro, e era, pois já não tínhamos nada há anos, desde antes de Júlia nascer e pretendia ficar daquela forma. Duvidava que iria encontrar um dia um homem que me amasse, me respeitasse e que quisesse permanecer ao meu lado.
E tinha certeza que iria ter trabalho para encontrar esse homem.
- Vou deixar você descansar, tenha uma boa noite - digo seguindo Júlia que já havia aberto o portão de casa e entrado correndo.
- Só sabe andar correndo - Mário resmunga deitado no único sofá da casa, que havia ganhado de segunda mão e que já estava pedindo pata ser trocado.
- Ela está na casa dela - digo passando por ele.
- Alugada, né?
- Mas quem paga o aluguel todo mês sou eu - Lembro, já usando aquela oportunidade para alfinetá-lo mesmo sabendo que não teria muito efeito sobre ele.
Júlia vai direto para o quarto que dividimos, o único quarto, enquanto Mário, já estava praticamente em seu quarto que, era a sala. Para mim, depois de todos aqueles anos, ainda era difícil morar na mesma casa que Mário morou com a ex mulher, a maioria dos móveis ali, eram delas, mas que ela não fez questão de levar, apenas as roupas mesmo. Acho que a raiva, o ódio, por Mário era tanto que ela não quis nada que ele houvesse tocado ou usado e eu a entendia, entendia muito bem agora.
Mário não era essas coisas e duvidava que aquele comportamento dele tenha sido apenas comigo. Pois, ela não pensou duas vezes em ajuntar suas coisas e ir embora. Ele deve ter ido atrás dela, implorado para voltar para ela e contado que havia sido enganado e que não tinha nada haver com o que estavam dizendo. E ela deveria ter sido esperta o suficiente para continuar longe dele.
Uma pena que também não fui esperta o suficiente e acabei naquela situação, presa com um homem inútil, que não agregava em minha vida em nada. Pelo menos, diferente das outras mulheres, ela não me culpou pelo comportamento do marido, não achou que a culpa era inteiramente minha e que o seduzi de alguma forma. Já que havia testemunhas o suficiente, que viram que foi ele que começou tudo aquilo.
Depois de um banho, esquento o que acho dentro da geladeira e depois disso passo as duas horas seguintes em frente aos livros, colhendo o máximo de informação possível e que meu cérebro conseguisse digerir.
Em tempo em tempo, Mário entra ma cozinha, abre a porta da sala e anda pela casa arrastando os pés e pisando alto, tudo para tirar minha concentração. Já conhecia as artimanhas dele e sabia que só fazia tudo aquilo para me irritar, quando ele começou a fazer isso, realmente ele me irritava, quanto mais eu pedia que precisava me concentrar, que precisava estudar, mais ele fazia barulhos, aumentava a televisão, brigava com Júlia por motivos idiotas e até comigo, por a comida não está no seu agrado, por sua roupa não estar bem dobrada ou passada, sendo que eu só passava as roupas de Júlia, a minha e a dele, eu simplesmente dobrava e guardava.
Mas toda vez que isso acontecia, eu o ignorava e continuava focada, entendendo aos poucos o que significava foco.
Quando termino, já passava da meia noite. Acabei tomando outro banho, para conseguir dormir, encontrando Júlia já dormindo. Não demoro para pegar no sono, é quase que instantâneo.
Acordo acredito que horas depois, ouvindo uma pequena movimentação do fora do quarto. Sonolenta, saio do quarto, encontrando Mário mexendo na minha bolsa, na mochila dos meus livros, tudo! Parecendo que procurava alguma coisa, claro que estava, se não estivesse não estava agitando os livros daquela forma, como se estivesse esperando achar alguma coisa no meio deles.
- Tá procurando o quê? - questionou irritada, falando alto, me arrependendo no mesmo instante ao lembrar que Júlia estava dormindo e que os vizinhos poderiam ouvir - Hein, Mário?! - Insisto.
Ele continua procurando o que quer que fosse, agora jogando meus livros no chão com brutalidade.
- Para - digo indo até os livros no chão, os pegando rapidamente. Sempre tive muito cuidado com todos os livros, não escrevia neles, mão manchada, nada! E ver Mário os tratando como se fossem lixos, me feria de uma forma estranha. Ele continuou, chegando até arrancar a página de um ao fazer isso, sacudindo minha mochila como se algo fosse cair, mas não caiu nada - Por quê tá fazendo isso?! - grito por fim, sem entender aquele comportamento repentino dele.
- Ele tá me cobrando - diz sem me olhar, indo agora novamente para a minha bolsa - Você esqueceu ou tá guardando o dinheiro?
Paraliso por um momento, respirando pelos meus lábios entre abertos, os olhos vagando pelo chão. Eu não havia esquecido, é claro, era meio que difícil esquecer dívidas, principalmente de grandes magnitude.
Há pouco mais de um ano atrás, quando ainda não estava trabalhando na casa da doutora Gabriela, eu só fazia bicos. As vezes achava uma casa para faxinar, roupa para lavar ou até mesmo o filho de alguém para cuidar e as contas começou a se acumular, graças ao pouco dinheiro que conseguia e que só direcionava para a alimentação.
Eu me vi cheia de contas, desesperada e sem saber o que fazer, foi aí que tive a ideia brilhante de pedir um empréstimo, mas não um empréstimo convencional que se faz em um banco mas, com o dono da Rocinha, o chefe do tráfico. Pedi somente o valor das contas, nem um real a mais e todo o dinheiro usei somente para pagar as contas.
Só que acabou que não consegui pagar as primeiras parcelas, por passar um tempo estagnada, sem qualquer serviço e agora que estava na casa da doutora Gabriela, a minha divida havia duplicado, graças ao juros alto dele.
Resumindo, o que eu tinha que pagar era a metade do meu salário e estava pensando seriamente em arrumar um segundo emprego nos finais de semana para conseguir uma renda extra.
- Ele tá me cobrando - Ele repete entre dentes, jogando minha bolsa no chão - Está me ameaçando! - Ele me fuzila com o olhar, a expressão séria - Quando era pra tá ameaçando você! Foi você que pegou dinheiro com ele!
- Pra pagar as contas.
- Que conta, Luíza?! Você gastou foi tudo com besteira.
Reviro os olhos me sentindo cada vez mais impaciente em relação a Mário. Ele parecia que mão enxergava todos os sacrifícios que fazia diariamente, inclusive em ficar longe da nossa filha para termos comida na mesa. E na primeira oportunidade que eles tinha, inventava algo do tipo.
Ele encurta o espaço entre nós, me prestando contra a parede em minhas costas.
- Dá seu jeito.
- Eu não tenho dinheiro.
- Se vira, Luíza. E manda ele parar de me cobrar - Ele se afasta no mesmo instante, me deixando para trás, segurando os livros contra meu peito, sem saber o quê seria de mim e de Júlia. O aluguel dali não era muito caro, mas tinha que pagar, havia também água, luz, comida...
Solto o ar dos pulmões, arrumando as minhas costas que Mário havia feito questão em bagunça. Depois que termino, não tenho mais sono e só faltava uma hora para amanhecer, então, acabei começando meu dia uma hora antes e adiantando a janta daquela noite.
Júlia também acorda cedo, o que é bom e também adianta várias coisas. Me preparava psicologicamente para mais um dia de trabalho, antes de sair de casa, quando ouço palmas fortes no portão. Com o coração dando um salto dentro do peito, vou até a porta, abrindo-a, encontrando ali um dos traficantes locais.
- Oi - digo baixo, saindo de casa, esperando que ele também falasse no mesmo tom.
- E aí, Luíza. Tudo na paz? Vou mandar o papo reto. Índio tá querendo aquela parada lá, tá ligada?
- Estou sim.
- Então fica esperta.
Apenas assinto, sentindo novamente o chão sumir em baixo dos meus pés. Eu precisava daquele dinheiro o mais rápido possível mas, o problema era que eu não tinha. E não fazia ideia de onde poderia arrumar pelo menos duas parcelas, para ver se ele me deixava um pouco e me esquecia por mais alguns dias.
Mentalmente questionei se não podia pedir um adiantamento para a doutora Gabriela. Até que poderia, mesmo correndo o risco dela falar um não. Mas não iria conseguir, estava lá há pouco mais de um ano, ela já me ajudava mais do que tinha que ajudar e eu não poderia pedir mais nada a ela.
Pedir aquele dinheiro emprestado para outra pessoa estava fora de cogitação. As pessoas que conhecia não tinham tanto direito guardado, muito menos disponível a qualquer momento e se tinham era para a própria necessidade básica.
- Luíza - Vaneide chama, quando saio de casa instantes depois.
- Oi - digo forçando um sorriso, não permitindo que ela percebesse a preocupação estampada na minha cara e me corroendo.
- É pra buscar Júlia hoje?
- Se você puder, eu agradeço.
- Eu pego sim. Os meninos não vão hoje, mas eu pego ela.
- Obrigada - digo me virando, me preparando para começar minha caminhada.
- E Luíza - Me viro para ela novamente - Eu ouvi o piolho aí.
- Vou dar um jeito de arrumar o dinheiro - digo com um suspiro - Não sei onde. Mas vou.
- E se tivesse um jeito?
- Que jeito? - digo curiosa, eu estava disposta a fazer qualquer coisa para tirar Índio do meu pé. Voltar a respirar normalmente sem ter que ouvir nenhuma das ameaças dele.
Ela olha para trás, como se temesse que o marido escutasse.
- Tem um cara - Ela começa, dando alguns passos na minha direção, com a voz num tom mais baixo, quase que num sussurro - Ele tá preso, sabe? E ele tem direito a visitas íntimas, mas o problema é que ele não tem quem... vá o visitar e precisa se aliviar.
Pisco algumas vezes, absorvendo aquela informação, tentando me imaginar indo até a cadeia, visitando um desconhecido e...tendo relações sexuais com ele num ambiente deplorável.
- Quanto ele paga? - murmuro ainda em dúvida.
Ela sorri lentamente.
- Aí que tá. Ele paga muito bem. Três salários.
Três salários?! Minha mente grita. Eu recebia um mais benéficos, fora a porcentagem que doutora Gabriela me dava por fora e já achava muito, o que dirá três salários apenas para ir na cadeia.
- Pra abrir as pernas, pra mim já estava bom demais - Ela comenta - Só não vou por que você já sabe mas, se eu fosse você. Eu ia.
- E eu vou - digo mais ou menos convicta, sem ter ideia se estava fazendo certo ou não. As vezes era melhor apenas ir, sem pensar muito, pensar nas consequências.