Detetive Conrad Murray
Estamos indo em direção a Floresta Nacional de Shasta-Trinity, pois recebemos uma ligação de uma pessoa encontrada no local. O resgate também foi chamado, mas quero chegar primeiro para entender o que exatamente aconteceu no local. Uma cena de crime fala muito por si só e é peça fundamental em todo processo de investigação, mesmo que seja local de desova, como parece ser o caso dessa mulher. Dirijo o mais rápido que posso na rodovia, pois eu sei que terei de ir com calma no trecho dentro da Floresta.
- Será que a vítima vai resistir até a ambulância chegar? - Bobby, meu parceiro pergunta.
- Espero que sim, o lugar é complicado, mas dependendo do estado de saúde dela, é possível. - Falo mostrando otimismo. - Apesar de ferida, a encontraram com pulso.
- Se ela ficar viva será mais fácil de colocar o desgraçado que fez isso com ela na cadeia. - Bobby fala.
- Mas de uma coisa nós já sabemos sem chegar lá, o criminoso não queria isso. - Falo minha conclusão, pois ninguém deixa uma pessoa ferida na floresta sem querer.
- Acredita que pode ter sido latrocínio? - Ele me pergunta.
- Isso não posso afirmar, precisamos periciar o local primeiro. - Falo com cautela.
Avisto o portal de entrada da floresta e como já recebi a localização exata do local, vou direto, sem parar na portaria. Sigo por 15 minutos em uma estrada de terra devagar até chegar ao local do corpo. O que me indica que estamos perto além do meu GPS, é o giroflex da viatura dos guardas florestais. A ambulância ainda não tinha chegado, logo estaciono o veículo e desço dele.
- Bom dia senhores, sou o detetive Murray e esse é o meu colega detetive Hertz. - Falo me apresentando aos guardas.
- Bom dia detetives, esse é o guarda Simmons e eu sou Fletcher. - Um homem de aproximadamente 40 de cabelos pretos se apresenta, antes aponta o seu colega de mesma idade, mas que é careca. - A encontramos a 20 minutos, até achávamos que estava morta, mas Simmons mediu o pulso e constatou que estava viva, a cobrimos com a manta térmica.
- Vocês fazem patrulha durante a noite nessa parte da Floresta? - Bobby pergunta enquanto me aproximo da vítima.
- Não, infelizmente o turno da noite tem efetivo reduzido, então só monitoramos as estradas principais da Floresta. - Fletcher responde.
- Certo, sabe dizer qual era a hora aproximadamente que a última equipe passou por aqui ontem? - Escuto Bobby faz outra pergunta.
- Por volta das 20 horas né Simmons? - Fletcher responde sem ter certeza e para confirmar pergunta ao colega.
- Por aí. - Escuto o careca responder.
Me aproximo da mulher e a vejo desfigurada, as únicas caraterísticas que posso descrevê-la no momento é que ela é branca e ruiva.
- Viram hematomas nela pelo corpo? - Pergunto. Não ia remover a manta metálica para ver isso, era o que a mantinha viva.
- Vimos e aparentemente está com a perna e o braço esquerdo quebrado. Honestamente detetive, a pessoa que a jogou aqui a queria morta. - Simmons respondeu.
- Já tinha certeza isso quando recebi a ligação de vocês, agora estou vendo com os meus próprios olhos. - Falo concordando com o guarda. - Então temos uma mulher, aparentemente jovem, jogada aqui entre 20 horas e 7 da manhã do dia seguinte. Era a primeira ronda de vocês no dia neste local?
- Sim, tínhamos acabado de assumir o posto. - Fletcher me responde.
A sirene da ambulância anuncia a sua chegada, finalmente, os paramédicos poderiam ajudar a pobre mulher. Porém, preciso me encontrar em achar outras pistas, como algo que possa ter caído do criminoso e marcas na terra.
7 DIAS DEPOIS
Dra. Melanie Carter
Mais um dia de trabalho no hospital de plantão terminando, quase 12 horas atendendo pacientes que sofreram quedas e fazendo uma cirurgia de emergência de um homem que teve traumatismo craniano depois de um grave acidente de carro. Já estou contando os minutos para ir embora, tomar um banho e encontrar a minha cama, enquanto estou sentada na copa do andar dos cirurgiões comendo uma maçã para enganar minha fome até em casa. Sinto o meu pager vibrar e vejo o Dr. Linn me chamando no quarto 417. Não me lembro de nenhum paciente esse quarto, não acredito terei caso novo faltando 20 minutos para ir embora. Saio da copa e vou para o elevador, para chegar até o 4° andar. Assim que chego no piso, vou andando até encontrar o quarto onde o Dr. Linn pediu minha ajuda. Bato na porta e entro.
- Você precisa me ajudar, EU NÃO ME LEMBRO DE NADA! - Escuto uma voz feminina gritar. Entendi por que fui chamada pelo ortopedista.
- Senhorita, essa é a Doutora Carter, ela é neurologista, poderá te ajudar. - Doutor Linn me apresenta a moça ruiva que eu desconheço quem seja.
- Qual é o quadro dela Doutor Linn? - Pergunto.
- Você não se lembra dela? É a garota que foi encontrada na Floresta Nacional de Shasta-Trinity, saiu do coma hoje. - Ele me responde e eu me lembro que ela chegou com traumatismo craniano e tive que fazer uma cirurgia de emergência para corrigir o problema e tirar o sangue acumulado em seu crânio. No dia em que a operei ela estava totalmente irreconhecível visualmente.
- Boa noite, qual é o seu nome? - Pergunto.
- O problema é esse Doutora, eu não sei. - Ela me responde.
- O que você consegue se lembrar? - Pergunto.
- DE ABSOLUTAMENTE NADA! NÃO SEI MEU NOME, DE ONDE SOU OU COMO VIM PARAR AQUI! - Ela grita.
- Imagino que seja horrível, mas vamos fazer exames e entender o seu quadro, para poder te ajudar a recuperar a memória. - Falo os procedimentos seguintes. - Também vou pedir para psicóloga de plantão vir aqui para conversar com você, ela pode te ajudar a recuperar a memória também.
- Certo, me contém o que vocês sabem sobre mim, por favor. - Ela pede, desesperada para entender o que aconteceu.
- Nós só sabemos que você foi encontrada em estado grave no meio da Floresta Nacional. Vou pedir para alguém chamar os detetives do seu caso, eles podem te dar mais detalhes. - Falo o que eu sei.
- Polícia? - Ela pergunta sem entender.
- Sim, polícia, dizem que tentaram te assassinar. - Falo o que os oficiais me falaram.
- Meu Deus. - Ela coloca a mão direita na boca assustada com que falei. - Família, amigos, ninguém me procurou?
- Infelizmente não. Nós tentamos e a polícia também tem tentado localizar alguém que te conheça, agora mais do que nunca, será essencial. - Respondo a ela, que está triste.
- Quando eu tiro o gesso do braço e da perna, Doutor? - Ela pergunta ao Linn.
- Você será reavaliada semana que vem, mas em ambos os membros terá que ficar aproximadamente mês com a imobilização. - Ele a responde.
- Então por que serei reavaliada semana que vem? - Ela pergunta sem entender.
- Se não houver sinais de recuperação, terá que fazer cirurgia. Para isso que irá fazer exames semana que vem. - Meu colega responde.
- Isso coça. - Ela fala, tentando coçar o antebraço esquerdo, coberto com o gesso.
- Sente dor? - Ele pergunta.
- Não, só essa coceira chata. - Ela responde.
- Então é um bom sinal, garota. - Ele responde.
- Obrigada pelo elogio, nem sei se sou uma garota de fato, posso ter 60 anos e está conservada para a idade. - Ela fala com senso de humor.
- Está mais calma. - Falo a ela.
- O que adianta gritar, não vou poder sair daqui e mesmo se pudesse, não tenho para onde ir. - Ela fala em um tom melancólico. - Eu não sei nem a cor dos meus olhos.
- São castanhos. - Falo contando a cor dos olhos dela. - Quer ver seu rosto?
- Quero! - Ela exclama.
- Vou pedir as enfermeiras um espelho pequeno. - Falo e vou até a porta.
- Daria, você tem um espelho pequeno a mão? Se sim, me empresta, por favor? Preciso para a paciente aqui. - Peço a primeira enfermeira que vejo.
- Tenho doutora Melanie. - Ela me responde vindo até mim e entrega o item que estava em seu bolso. - Ela está mais calma?
- Está, mas não se lembra nem do nome dela. Vou mostrar o rosto dela pelo espelho. - Respondo a Daria. - Obrigada, eu já te devolvo.
- De nada, se não me ver, pode deixar com uma das meninas do balcão. - Ela me fala.
- Combinado então. Obrigada mais uma vez. - Falo e entro novamente no quarto.
- Aqui está o espelho. - Falo e entrego o item a garota.
Ela se olha e permanece muda por um tempo, contemplando o rosto que ainda tem algumas marcas da violência que sofreu, ela ainda tinha roxos, principalmente nos olhos e um corte superficial.
- Por isso que sinto dor ao abrir muito os olhos. Devo ter apanhado muito - Ela fala.
- A oftalmologista te examinou quando você chegou aqui e não houve lesões oculares, mas posso pedir para ela vir amanhã e te avaliar novamente. - Falo o que sei a ela.
- Eu quero. - Ela fala. - Por que não desaprendi a falar?
- Porque o local onde sua memória fica no cérebro não é o mesmo onde se localiza suas habilidades. - A respondo. - Você ainda consegue andar, falar, escrever, por exemplo.
- Não sei o que é pior de perder. - Ela fala.
- Bom, eu preciso ir, meu plantão terminou. - Doutor Linn fala.
- O meu também. - Falo aproveitando a deixa, ela olha triste, possivelmente porque ficará sozinha. - Mas amanhã estou de volta, vamos fazer os exames e avaliar o seu quadro junto com a psicóloga, a Doutora Albany.
- Então vou passar a noite sozinha? - Ela pergunta.
- Terá uma equipe de médicos e enfermeiros no corredor para te ajudar se sentir dor ou outro problema. E tem a TV para te fazer companhia. - A respondo.
- Tudo bem. Vai descansar para me ajudar logo doutora. - Ela fala.
- Pode deixar, você vai recuperar sua memória. - Falo garantindo a ela. - Boa noite.
- Boa noite Doutores. - Ela fala triste.
- Boa noite. - Dr. Linn fala.
Saímos do quarto e eu fiquei com dó da garota, ela simplesmente estava só, nem a própria companhia ela tinha, já que não se lembrava de nada. Algo me intrigava também, nunca tinha visto alguém perder a memória por completo, geralmente era só a parte do trauma em si ou dias antes do evento. No caso dela é como se tivessem formatado um computador e iniciado do zero, ou seja, o computador mantém as funcionalidades, mas não tem os arquivos salvos na memória de antes da formatação.
Mulher sem Memória
Parecia um pesadelo, mas era bem real, estava em um hospital na cidade de Redding, sem qualquer tipo de memória, toda roxa, com a cabeça enfaixada e com um braço e uma perna engessadas. Os policiais que investigam meu caso disseram categoricamente que alguém queria me matar, possivelmente alguém que eu tinha confiança, porque assim que eu me lembrar do que aconteceu, essa pessoa não será digna mais da minha confiança. A Dra. Priscila que é psicóloga me aconselhou a ver TV como forma do conteúdo passado, sobretudo as imagens poderem me ajudar a lembrar de alguma coisa. Estava focada em tentar me lembrar de como eu fui parar em uma floresta toda machucada. Passei até assistir programas desse tipo em um canal de natureza. Escuto batidas na porta e quando ia abrindo a boca para autorizar a entrada, a porta é aberta.
- Bom dia, como passou a noite? - É a Dra. Carter que está entrando no quarto.
- Bom dia doutora, foi confuso passar essa noite, ainda estou tentando digerir tudo. - Respondo falando o que estou sentindo.
- Entendo que não deva ser fácil. - Ela fala. Desde ontem, percebo que ela tenta mostrar empatia por mim, sem ao menos me conhecer. - Gostou da doutora Albany?
- Sim, ela me deu dicas de como posso estimular minha mente a encontrar as minhas memórias. - Respondo.
- Ótimo. Geralmente em tratamentos de amnésia retrógrada, tratamos com um dos especialistas apenas, mas o seu caso é raro, acho melhor ficar em contato com as duas. - Ela explica. - Outra coisa é a doutora Albany pode trabalhar com você não ter ansiedade no processo.
- Vai demorar muito? - Pergunto quando ela fala sobre ansiedade.
- Cada indivíduo responde aos tratamentos de forma diferente, querida. Eu não posso te dar essa resposta. - Ela responde. - Mas estou aqui para falar que irá fazer uma ressonância magnética e uma tomografia, ambos os exames terei um mapeamento completo do seu cérebro para direcionar o tratamento certo para você.
- Quando farei esses exames? - Pergunto.
- As enfermeiras falaram que você tomou café as 9h, é necessário ficar de jejum por 6 horas antes de fazer o exame, então a equipe te buscará por conta das 15h. - Ela me responde.
- Sem almoço então? - Pergunto com a fala dela sobre o jejum.
- Você almoça após os exames. - Ela responde.
- Tá bom. Obrigada por tudo, doutora. Sei que ontem estava desesperada, mas eu só quero ter uma pequena lembrança de quem eu sou. - Falo. Essa angústia de não ter noção sobre mim está me consumindo.
- Eu não sei como é estar no seu lugar, mas penso que deva ser horrível. - Ela fala. - Se sentir alguma dor de cabeça ou qualquer outro sintoma, não evite me comunicar.
- Pode deixar, que eu vou te falar. - Falo.
- Às 15 horas eu volto para te buscar para os exames. Antes, porém, as enfermeiras vão fazer um teste alérgico em você, para saber se tem algum problema com o contraste que será usado. - Ela explica o procedimento.
- Pelo menos vou saber se tenho alguma alergia ou não. - Falo pensando positivo.
- Isso, continue pensando positivo. - Ela incentiva. - Preciso ir, tenho que ver outros pacientes.
- Tudo bem doutora, até mais tarde. - Falo com ela já na porta para sair.
- Até mais. - Ela fala e sai do ambiente.
Novamente sozinha, só com os programas de floresta na TV para ver se a minha mente puxa algo, mas nada. Me sinto uma completa inútil por não conseguir me lembrar de nada, mesmo assim não desisto de tentar.
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Tudo tinha ocorrido bem na tomografia, agora estavam me preparando para a ressonância magnética, inclusive tinha um enfermeiro colocando soro para verificar se o meu acesso no braço direito estava bom para injetar o contraste.
- Sentiu alguma dor quando coloquei o soro? - O rapaz pergunta a mim.
- Não, só um geladinho. - Respondo.
- Normal, já que o soro fica na geladeira em temperaturas baixas. - Ele fala. - Nós vamos iniciar o exame sem o uso de contraste para comparação e depois eu volto e faço a aplicação do contraste, entendido?
- Entendi. - Respondo a ele.
- Tem claustrofobia? - Ele pergunta e eu dou uma pequena risada.
- Moço, olha se fosse a umas semanas atrás, tenho certeza de que conseguiria te responder, mas atualmente, não faço a mínima ideia, só sei que esse exame é necessário para avaliar o porquê estou com amnésia. - Respondo contando o meu caso.
- Certo, caso você se sinta incomodada com o espaço pequeno, você pode apertar esse botão aqui que estou colocando na sua mão direita, eu vou entrar o mais rápido possível e te tirar da máquina. - Ele me explica o procedimento. - É normal sentir uma pequena tontura ou vertigem, não se assuste, mas caso esses sintomas sejam fortes ou tenha outros mesmo de modo fraco que não seja esses dois, pode apertar o botão também.
- Captei tudo. - Falo.
- Vai ter momentos durante o exame que vamos passar orientações pelo microfone, precisamos que as siga. - Ele fala mais procedimentos. - Durante o exame tente não fazer movimentos bruscos com a cabeça e nem perto dela, para não afetar a qualidade das imagens.
- Certo. - Falo assentindo.
- O último e não menos importante, esses fones de ouvido são para te proteger do barulho da máquina. - Ele fala e coloca o item nas minhas orelhas. - Agora vou te colocar no tubo.
- Pode por. - Falo autorizando.
Ele aperta um botão e sinto a maca se mexer, me levando para dentro do enorme tubo. Estava posicionada, percebo que parte das minhas pernas estavam pra fora do grande tubo, por conta de um ventinho que sinto ocorrer passando por elas, algo que o aparelho do exame evita, já o buraco do tubo é relativamente estreito. A máquina é ligada e mesmo com fone os barulhos feitos pelo aparelho são altos. Em algumas vezes, escuto a voz da Dra. Carter pedindo para virar a cabeça para um determinado lado ou para que prenda a respiração por alguns segundos. Até que os barulhos cessam e eu sou retirada de dentro do aparelho.
- Tudo certo nessa primeira parte? - Era o mesmo enfermeiro de antes que pergunta.
- Sim, nenhum problema. - Respondo.
- Certo, agora vamos colocar o contraste, se sentir dor ou qualquer sintoma agora ou durante o exame, fale. - Ele pede mais uma vez.
- Até agora tudo tranquilo. - Respondo falando que estou bem.
- Contraste aplicado, daqui uns 5 minutos a gente inicia o exame, é o tempo necessário até a corrente sanguínea levar o contraste até o seu cérebro. - Ele fala.
- Entendi, obrigada. - Falo agradecendo.
- De nada. - Ele fala.
O tempo se passa e eu sou novamente inserida no tubo, repetindo os mesmos movimentos pedidos pela Dra. Carter, tudo normal, a máquina é desligada e eu entendo que acabou o exame. Até que começo a sentir uma dor de cabeça e uma tontura imensa, aperto o botão, a dor aumenta e não consigo mais enxergar nitidamente, aperto o botão novamente, mas não vejo ninguém aparecendo.