Camila Haynes se casou naquele dia. Infelizmente para ela, o noivo não deu as caras.
Camila olhou para o quarto vazio, o rosto branco como papel.
Sentiu-se profundamente humilhada. Recusava-se a aceitar aquela afronta!
Mas o que poderia fazer?
Desde que nascera, todos os aspectos de sua vida haviam sido controlados por outros. Naturalmente, isso incluía a questão do matrimônio.
Fora obrigada àquela união pelo pai, um homem movido pela ganância.
Seu avô trabalhara como motorista de Robin Johnston, o patriarca da poderosa família Johnston. Num trágico acidente, o avô de Camila perdeu a vida ao salvar Robin.
Nos últimos meses, a pequena empresa da família acumulara dívidas por todos os lados. Estavam à beira da falência. Mesmo assim, o pai astuto recusara-se a pedir ajuda aos Johnston, pois isso cancelaria a dívida que a família Johnston tinha com os Haynes. Em vez disso, arquitetou um plano: casar Camila com Isaac Johnston, o neto de Robin.
Diante da fortuna dos Johnston, era certo que pagariam uma boa soma pela mão de Camila.
E, como bônus, estabeleceriam uma ligação mais sólida com os Johnston, agora vinculada por lei.
Claro, a família Johnston não podia recusar a proposta sem perder a face.
Isaac, por sua vez, expressou seu descontentamento com todo o arranjo faltando ao banquete, ainda que apenas as duas famílias estivessem presentes. Também negou a Camila o uso do sobrenome Johnston e proibiu-a de contar a qualquer um que era sua esposa.
E, do início ao fim, ninguém se preocupara em perguntar a Camila o que ela achava.
Agora, ela estava de pé, coluna ereta, ombros para trás. Os cílios podiam tremer ligeiramente, mas no olhar havia um resquício de teimosia. Não se renderia à humilhação.
Mas como prosseguir? Ainda refletia sobre como passaria o que deveria ter sido sua primeira noite quando uma mensagem de uma colega chegou.
Pedia que Camila assumisse seu plantão.
Sem hesitar, Camila saiu do quarto, pegou um táxi e, momentos depois, já estava na sala de descanso do hospital, de jaleco branco, analisando prontuários.
Com um estrondo, a porta foi arremessada contra a parede.
Antes que pudesse erguer os olhos, a porta fechou-se novamente. Ouviu o clique do interruptor. A escuridão tomou conta.
Um calafrio percorreu-lhe a espinha.
"Quem -"
O resto da frase morreu na garganta quando a empurraram sobre a mesa. Material de escritório espalhou-se pelo chão no exato instante em que sentiu o gume frio e afiado de uma faca no pescoço. "Quieta!", sussurrou o agressor com ferocidade.
Camila mal distinguia o rosto do homem, mas os olhos se destacavam. Brilhavam na penumbra, a vista alerta.
Um cheiro metálico familiar pairou no ar. Ele estava ferido.
Graças aos anos de formação e experiência como médica, Camila manteve a calma.
Lentamente, dobrou um joelho, preparando-se para atacar. Ele, porém, percebeu a intenção. Mal ela se moveu, ele prendeu-lhe as pernas com força, imobilizando-a contra a mesa com as coxas.
De repente, passos apressados ecoaram no corredor. Dirigiam-se à sala de descanso.
"Rápido, vi ele entrar aqui!"
Bastaria um grito, e invadiriam o quarto.
Desesperado, o homem baixou a cabeça e beijou Camila.
Ela debateu-se, surpresa por tê-lo afastado com relativa facilidade. Mais surpresa ainda ficou quando ele não tornou a ameaçá-la com a faca.
A mente de Camila acelerou.
Do outro lado da porta, alguém já agarrava a maçaneta.
Decidida, Camila puxou o homem para perto e envolveu-lhe o pescoço com os braços. Desta vez, foi ela quem o beijou.
"Posso ajudá-lo", murmurou, esperando que o medo não transparecesse.
O homem engoliu em seco. Precisou de um instante para decidir. Então, ela sentiu o hálito quente em seu ouvido. "Eu assumo a responsabilidade." A voz era baixa e ímã.
Mas ele parecia tê-la entendido mal. Ela só queria encenar. Ele não precisava assumir nada.
No segundo seguinte, a porta abriu-se outra vez.
Camila e o homem chocaram os lábios novamente. Ela soltou até um gemido longo e sensual, daqueles que ouvira em filmes pornô. Apesar da situação, o corpo do homem reagiu ao som.
Ele teria se perdido naquilo se os homens à porta não tivessem falado.
"Droga! É só um casal se pegando. Cara, tão fazendo isso no hospital. Um pouco de decência!"
A luz do corredor invadiu a sala, iluminando o casal entrelaçado. O corpo do homem envolvia Camila, ocultando-lhe o rosto dos intrusos.
"Bom, definitivamente não é o Isaac. O desgraçado está ferido demais. Por mais gostosa que a mulher seja, duvido que ele tenha disposição para nada."
"Mas olha só, a mina tá gemendo gostoso, hein?"
"Cala a boca e anda! Precisamos achar o Isaac logo, senão a gente se fode!"
Houve um ruído de passos apressados, e a porta fechou-se.
O homem sabia que os perseguidores haviam ido embora, mas a consciência de estarem sozinhos quebrou seu autocontrole. Ele simplesmente cedeu. Uma onda inesperada de desejo tomou-o.
Aquela corrente de luxúria não poupou Camila. Talvez fosse a proximidade, a intimidade da posição, ou a súbita descarga de adrenalina, mas uma rebeldia que ela mesma desconhecia veio à tona.
Até ali, vivera na monotonia cinzenta, sempre seguindo regras e planos alheios.
Naquela vez - pela primeira vez - iria se permitir.
Camila abandonou as inibições e deixou que o homem fizesse o que quisesse. Foi assim que lhe entregou a primeira vez, numa relação intensa e dolorosa.
Quando terminaram, o homem beijou-lhe suavemente a face. "Volto para você", sussurrou, a voz ainda rouca do prazer. E partiu, tão abruptamente quanto chegara.
Camila levou um bom tempo para conseguir erguer-se. A cintura e as costas doíam, sem falar na ardência entre as pernas.
O silêncio foi quebrado pelo toque do celular. Ela olhou em volta e viu-o à beira da mesa.
Camila agarrou-o antes que caísse e atendeu. "Doutora!", soou uma voz frenética. "Acabou de chegar um politraumatizado na emergência! Acidente de carro. Precisamos que você venha agora!"
Camila limpou a garganta para firmar a voz. "Estou a caminho."
Desligou e dirigiu-se à porta, mas parou. Olhou para si mesma.
As roupas, amarrotadas e manchadas. Uma sensação pegajosa entre as coxas. Um estremecimento percorreu-a ao dar-se conta. Acabara de fazer sexo com um estranho em sua noite de núpcias.
Era a coisa mais absurda que já fizera!
Mas não era hora de comemorar ou ponderar consequências. Camila recompôs-se como pôde e seguiu para a emergência.
O resto da noite foi de trabalho incessante.
Quando finalmente pôde parar, o dia já clareava. Retornou à sala de descanso e encontrou-a tão desarrumada quanto deixara.
As mãos de Camila cerraram-se quando as memórias da noite anterior a invadiram.
"Obrigada por assumir meu plantão, doutora Haynes." A colega de Camila, Debora Griffith, entrou com um sorriso grato.
Camila retribuiu com um sorriso tenso. "De nada.
Agora eu cuido daqui. Você pode ir descansar." Debora lançou um olhar aos papéis espalhados pelo chão e arqueou uma sobrancelha. "O que aconteceu aqui? Por que está tudo no chão?"
Camila desviou os olhos, constrangida. "Ah, deixei cair sem querer. Pode arrumar para mim? Estou exausta, vou indo."
Debora estranhou a resposta, mas não deu importância. Despediram-se, e Debora começou a recolher os objetos do chão.
Mal havia começado quando o próprio diretor do hospital apareceu à porta, seguido pelo assistente de Isaac.
"Esta é a médica de plantão ontem à noite", disse o diretor do hospital. "Doutora Debora Griffith."
Willie Calderon, assistente de Isaac, entrou na sala e examinou o crachá no jaleco de Debora. "Venha comigo."
Era compreensível que Debora ficasse confusa.
"Para onde estamos indo?"
Mas o diretor do hospital não tinha a menor intenção de responder. Puxando-a com certa força, ele ordenou: "Vamos. Não deixe o senhor Johnston esperando."
Pouco depois, ela já estava no escritório do diretor.
Isaac estava sentado no sofá, seu corpo magro e musculoso reclinado numa pose descontraída, as longas pernas cruzadas à frente. Só um olhar muito atento notaria que seus lábios estavam mais pálidos que o normal.
Felizmente, o cheiro forte de desinfetante que impregnava as paredes do hospital mascarava o odor de sangue em sua pele.
Vestia um terno totalmente negro, o que também ajudava a esconder as manchas vermelhas que, de outro modo, alarmariam todos ao redor. Sua expressão era dura, deixando claro que aquele homem havia passado pelo inferno e voltado, e não era alguém com quem se brincasse.
Willie se aproximou do sofá e inclinou-se para sussurrar no ouvido de Isaac: "Os vídeos de vigilância de ontem à noite foram adulterados de propósito, provavelmente pelos seus agressores. Limparam os rastros e eliminaram qualquer possível evidência. Esta é a doutora Debora Griffith, a residente de plantão. O próprio diretor confirmou. Eu também verifiquei os registros. É ela mesmo."
Só então Isaac ergueu os olhos.
Debora prendeu a respiração ao reconhecer o homem à sua frente: era o dono da Corporação Pamo.
"Foi você quem me ajudou ontem à noite?" Isaac perguntou, olhando-a da cabeça aos pés.
Imediatamente, Debora baixou a cabeça, sem coragem de encarar aquele olhar intimidante.
"Sim... fui eu." Não entendia exatamente do que se tratava, mas sabia que cair nas boas graças de Isaac Johnston só lhe traria vantagens. Benefícios certamente surgiriam.
Por coincidência, o Hospital Central Militar estava prestes a selecionar candidatos para estágio.
E, embora fosse chamado de estágio, todo mundo no meio sabia que os estagiários acabariam efetivados e fariam carreira na instituição.
No mínimo, o Hospital Central Militar tinha acesso a recursos muito superiores aos deste hospital onde estavam.
Debora planejava se aproximar de Isaac na esperança de usar seus contatos para entrar no hospital melhor.
"Posso compensá-la da maneira que quiser, até com casamento." A voz fria de Isaac cortou seus pensamentos subitamente. Seu rosto permanecia impassível, mas a lembrança do encontro da noite anterior suavizou a linha rígida de sua boca.
"Bem... eu..." Isso ia muito além do que Debora imaginara. Ela lutou para encontrar uma resposta.
"Procure-me quando se decidir." Isaac levantou-se e fez um gesto para Willie lhe dar seu contato.
O diretor do hospital apressou-se a oferecer-se para acompanhar Isaac até a saída.
"Não é preciso", recusou Isaac, sua postura tornando-se gelada novamente. De repente, parou, como se tivesse lembrado de algo. Virando-se para o diretor, disse: "Cuide bem dela."
"Claro", garantiu o diretor com um sorriso treinado.
Assim que se certificou de que estavam fora do alcance da audição, Willie chegou perto de Isaac. "Senhor", falou em tom baixo mas urgente. "O senhor já é casado. Não acho que o casamento seja uma opção viável para a senhorita Griffith. Seria melhor retirar a oferta."
Os lábios de Isaac contraíram-se ao ouvir falar do próprio casamento, e seu rosto escureceu ainda mais ao pensar na mulher com quem fora forçado a se unir. "Você quer morrer?", ameaçou o assistente.
Willie sabia que falara o que não devia e estremeceu imediatamente. Naquele momento, não sabia quem deixava seu chefe mais irritado: a nova esposa ou os responsáveis pelo ataque da noite anterior.
Enquanto isso, Camila retornava à casa que deveria dividir com o marido.
A governanta de meia-idade, Glenda Rivera, a recebeu no hall, o rosto marcado pela preocupação. "Por que a senhora saiu ontem à noite?"
"Tive que cobrir o plantão de uma colega", respondeu Camila.
Seus olhos estavam vermelhos e ardiam de cansaço.
Vendo aquilo, Glenda julgou melhor não insistir.
Camila subiu as escadas e entrou na banheira. Involuntariamente, seus pensamentos voltaram à noite anterior, e sentiu as bochechas esquentarem. Respirou fundo e mergulhou na água, como para fugir daquela lembrança perturbadora.
Seus sentimentos sobre o assunto eram complicados, e ela não sabia por onde começar a entendê-los.
Nem sequer fazia ideia de que tipo de homem era aquele.
E, acima de tudo, ela era casada.
Uma pontada de culpa atravessou-a ao pensar nisso. Independente das circunstâncias que os levaram àquela situação, o fato era que ela e Isaac eram marido e mulher.
Ao sair do banho, Camila vestiu-se e preparou-se para sair outra vez.
Como era de se esperar, Glenda ficou alarmada assim que a viu descer. "Já vai sair de novo? Por que não toma o café da manhã primeiro?"
Camila conferiu a hora. "Não posso, vou me atrasar para o trabalho."
Glenda sabia que Camila era médica, portanto era normal que a jovem passasse horas excessivas no trabalho. Ela entregou um copo de leite a Camila e disse: "Beba isto, pelo menos. Cuidado, está quente."
"Obrigada", disse Camila suavemente, comovida com a preocupação da governanta.
"De nada", respondeu Glenda com um sorriso gentil. O casamento podia ter sido forçado, mas ela tinha bom senso suficiente para não menosprezar Camila. Mesmo sem o título de esposa de Isaac Johnston, Camila era uma médica formada, e isso por si só a tornava mais do que digna de respeito.
Depois de beber o leite, Camila devolveu o copo a Glenda e saiu.
No entanto, não foi direto para a sala de descanso. Saíra cedo de casa porque precisava passar pelo Departamento de Internação.
Sua mãe estava na Unidade de Terapia Intensiva.
Camila entrou em silêncio no quarto e verificou a condição da mãe. Ela continuava em estado grave.
O coração de Camila apertou-se.
Sua mãe sofria de insuficiência cardíaca e encontrava-se em condição crítica. A única maneira de mantê-la viva era um transplante de coração, o que, naturalmente, custaria uma fortuna.
A principal razão pela qual Camila aceitara o casamento fora a ameaça do pai de reter o dinheiro necessário para a cirurgia.
Agora que se casara como ele exigira, só faltava encontrar um doador de coração compatível.
Camila lançou um olhar amargo para a mãe. "Mãe, vou melhorar a senhora. Eu prometo."
A mãe era a pessoa mais próxima, sua principal apoiadora e confidente.
De repente, seu celular tocou.
Camila tirou-o do bolso e atendeu.
"Mila", ecoou uma voz masculina do outro lado da linha. "Preciso que me faça um favor."
O homem do outro lado da linha era Forrest Walters. Eles tinham feito faculdade de medicina juntos, embora ele fosse dois anos mais velho. Ele acabara de ir para o exterior para continuar os estudos e agora era um especialista renomado na área.
Forrest sempre cuidara bem de Camila, então eles eram bastante próximos.
"Que tipo de favor?" Camila perguntou direto.
"Tenho um paciente precisando de tratamento, mas surgiu uma urgência e não vou conseguir me livrar disso tão cedo. Pode cuidar do paciente para mim?"
Camila deu uma olhada no relógio. Ela não estava de plantão naquele dia e, além de duas cirurgias marcadas para a tarde, estava praticamente livre. "Tudo bem. Para onde preciso ir?"
"Vou te mandar o endereço. Quando chegar lá, é só dizer aos seguranças que veio para o senhor Calderon. Eles resolvem o resto."
"Certo."
"Mais uma coisa", acrescentou Forrest, o tom ficando sério. "Não comenta isso com ninguém e não faz perguntas desnecessárias. Só precisa tratar o paciente."
"Entendi. Claro."
Desligaram. Camila chamou um táxi para levá-la ao endereço.
O local ficava num bairro nobre, repleto de casas com sistemas de segurança de alto nível.
Como esperado, um segurança parrudo a barrou na entrada. Segundo as instruções, Camila disse aos seguranças que estava lá para o senhor Calderon. Após uma ligação para confirmar, ele a deixou entrar no condomínio.
Camila encontrou a casa fácil. Subiu os degraus e tocou a campainha.
Não precisou esperar muito. A porta se abriu alguns segundos depois. Pelo visto, a situação era mesmo urgente.
Willie franziu a testa. Esperavam por Forrest, mas em vez dele, uma mulher estava na porta. "Licença, a senhora é..."
Pelas orientações de Forrest, Camila já presumira que o paciente prezava pela privacidade. Para não se meter em problemas, achou melhor usar uma máscara. Só por garantia.
"O doutor Walters me pediu para vir aqui."
Willie lançou um olhar rápido para o kit médico que ela carregava. "Sabe o que fazer?"
"Sim, o doutor Walters me passou as instruções. Não vou contar para ninguém."
Willie sabia que Forrest não passaria a tarefa a alguém não confiável ou incompetente. Por isso, assentiu e deixou Camila entrar.
Conduziu-a por uma sala de estar enorme, subiu as escadas e entrou num quarto.
Estava escuro lá dentro. "Como vou fazer o tratamento sem luz?"
Quando Isaac ouviu que era uma mulher, pegou rápido o paletó e cobriu o rosto com ele. "Acende a luz", ordenou por cima do tecido.
Willie apertou o interruptor. A luz forte inundou o quarto.
A primeira coisa que passou pela cabeça de Camila foi que a voz do paciente parecia familiar, mas preferiu não pensar nisso. Observou então a figura deitada na cama. A camisa social branca dele estava manchada de sangue já seco.
Camila não quis perder tempo com outros detalhes. Focou só nos ferimentos.
O homem claramente não queria que ela soubesse sua identidade. Era melhor obedecer e se portar direito.
Colocou o kit na mesa de cabeceira e pegou os instrumentos cirúrgicos.
Com uma tesoura, Camila cortou a camisa do paciente, expondo os ferimentos. Estavam cobertos por uma fina camada de gaze. Retirou a gaze e finalmente viu dois ferimentos abertos no lado direito do torso do homem.
Imediatamente, começou a trabalhar, limpando os ferimentos com mãos habilidosas.
Permaneceu calma o tempo todo, com movimentos rápidos e eficientes.
"Tem alergia a anestesia?", perguntou depois de um tempo.
Felizmente, os ferimentos não eram profundos, apenas cortes na maior parte da pele, mas ainda precisavam de pontos.
O procedimento exigiria anestesia local.
Camila falava com calma, quase num tom suave, um contraste gritante com a voz frenética da noite anterior.
Por isso, mesmo tendo trocado algumas palavras, Isaac não a reconheceu.
"Não", disse com a voz fria de sempre, por mais que internamente elogiasse a habilidade dela.
Camila preparou os anestésicos e injetou a substância perto dos ferimentos dele.
Precisaram esperar alguns minutos para o efeito fazer-se sentir. Então, ela começou a costurar.
Cerca de uma hora depois, terminou.
No geral, o tratamento foi rápido e bem-sucedido.
Camila olhou para as mãos ensanguentadas e disse: "Preciso usar o banheiro."
"Pode usar o de baixo", respondeu Willie.
Sem perder tempo, Camila saiu do quarto.
Quando teve certeza de que ela estava no primeiro andar, Willie fechou a porta e se aproximou de Isaac.
Soube que os bandidos que te atacaram ontem foram enviados pela sua tia Audrey. Ela provavelmente está desesperada para se livrar de você, principalmente depois que você tirou os espiões dela da empresa.
Isaac se sentou com um grunhido. Arrastou-se até a beirada da cama e colocou os pés no chão. Estava com uma cara horrível, mas os olhos dele brilhavam com um brilho ameaçador.
Então, voltou seu olhar penetrante para o assistente. "Aquela mulher com quem fui forçado a me casar tem alguma ligação com a Audrey?"
Willie baixou a voz para responder: "Na verdade, a Audrey entrou em contato com seu sogro, Marvin Haynes. Ele estava tão determinado a casar a filha com alguém da família Johnston, mas nunca pareceu ter considerado seu primo, Travis, como um candidato viável. A Audrey deve ter feito um acordo com ele."
"Ela não para de me surpreender. Seria falta de educação se eu não retribuísse o favor." Isaac só tinha ficado no exterior por um curto período, e ela já tinha feito muita bagunça na sua ausência.
"Ouvi dizer que o Travis tem um estabelecimento meio duvidoso na Rua Cavern, chamado "Charm"", disse Isaac.
Willie entendeu na hora o que o chefe queria. "É, eles não têm vez na empresa. Aquele clube é a única fonte de renda deles. Se for fechado... bom, vão ficar numa saia justa."
"Faça acontecer", disse Isaac, a voz ficando mais baixa.
Willie encontrou Camila quando descia as escadas.
Imaginou que o Forrest já devia tê-la avisado, mas não custava nada dar mais um lembrete. "Se contar isso a alguém, vai ter uma morte horrível."
Se a notícia dos ferimentos de Isaac chegasse à Audrey ou ao filho dela, Travis Johnston, eles certamente aproveitariam para causar mais problemas.
Camila assentiu. "Não vou contar para ninguém. Vou pegar meu kit e já vou embora."
Quando voltou ao quarto, encontrou o homem parado perto da janela, do outro lado da porta. Estava de costas para ela. Ela teve uma visão perfeita dos ombros largos e das costas musculosas, que se afunilavam numa cintura estreita e numa bunda que com certeza era durinha. O corpo era bem-proporcionado, quase divino.
"Não vai embora?", perguntou o homem com uma voz zombeteira. Não se virou, mas de alguma forma sabia que ela estava encarando. Talvez tivesse sentido o olhar quente dela.
Camila baixou a cabeça, envergonhada. Por mais que odiasse admitir, a visão dele a tinha deixado atordoada.