PRÓLOGO
~ Quase 1 mês depois ~
Estava impaciente. Na verdade, estava morrendo de raiva por ter dado a ela um tempo tão grande. Poderia ter lhe dado apenas uma semana para pensar sobre nós dois e decidir. Mas isso seria egoísmo da minha parte. Ela tinha acabado de receber a notícia de que sua mãe havia morrido, tinha acabado de descobrir que eu sou um filho da puta e que sua amiga estava a enganando esse tempo todo. Eu tentei... Tentei muito ficar esse tempo sem ter notícias dela. No início até pensei que se ignorasse as lembranças do dia que a conheci na floricultura, eu iria a esquecer e seguir a minha vida. Mas eu estava enganado. Eu não consegui! Meus pensamentos sempre acabavam em torno da minha ruiva, e pequenos detalhes me lembravam dela. Até o dia que eu estava dirigindo pela cidade, queria ir para uma casa no lago que tenho há duas horas de São Paulo, passei em frente à uma locadora de filmes, porém um maldito filme me fez lembrar dela. O dia que assistimos o mesmo romance juntos.
Achei que estava ficando louco, tanto que cogitei a ideia de me internar. Por que diabos ela estava mexendo tanto com a minha cabeça?
Eu nem busquei informações com seu segurança, o Jerry. Só sei onde fica a sua faculdade, mas o endereço do seu apartamento evitei perguntar. Tenho certeza que iria assim que soubesse. Até na empresa eu parecia distraído. Um dos diretores da empresa veio me perguntar diversas vezes se estava tudo bem comigo. Respondi com um breve "estou bem" e mandei ele voltar ao trabalho.
Pelo menos uma coisa boa em tudo isso, os pensamentos e pesadelos atormentantes não voltaram, já que tudo o que ocupa meus pensamentos é uma certa ruivinha...
Respiro fundo e jogo mais água em meu rosto.
Eu disse que não conseguia abrir mão de tudo o que me torna fodido, mas sem ela, eu nem consigo pensar em me encontrar com as diversas garotas que tem seu nome assinado em um contrato feito por mim. Simplesmente... Não dá! Não sinto vontade, ao menos por enquanto, eu acho. Mas se me perguntarem se eu virei um virjão adolescente... eu vou dizer que sim! Caralho! Eu não consigo me controlar toda vez que me lembro dela gemendo meu nome, eu me sinto um descontrolado!
Observo meu reflexo no espelho, já decidindo que tenho que cortar o meu cabelo, para assim que o mês acabar, ela não notar o quanto me sinto perdido sem ela. Mechas do meu cabelo já caem na minha testa...
Saio do banheiro, indo na direção do balcão onde deixei minhas chaves, decidido a ir e vê-la, mesmo que seja de longe, eu preciso lembrar da tonalidade de seus cabelos ruivos, da cor de seus olhos, e se assim eu tiver sorte, do seu sorriso. E de novo, estou me sentindo um louco por levar meus pensamentos a ela desse jeito.
Eu só queria entender o que está acontecendo comigo...
Me apressei em fazer o caminho até a sua faculdade, aumentando a velocidade em meu carro para eu não perder o momento em que ela estiver saindo. Consegui com Jerry algumas informações sobre o final das suas aulas em cada dia da semana, e após isso tive que me segurar para não à ver no mesmo instante, mas agora, eu sinto que não posso mais aguentar. É quase como uma necessidade.
Estava dentro do meu carro, do outro lado da rua da sua faculdade, ouvindo uma música para que eu pudesse me acalmar. Fiz questão de escolher um carro diferente dos quais ela já tenha visto, e por mais que ele seja luxuoso, eu não acredito que ela vá pensar que sou eu.
Me pergunto se ela está bem, como está lidando com tudo o que aconteceu, e se pensa em mim de vez em quando, sentindo falta do que tivemos, porque eu sinto. Não tem um dia que eu não me sinta louco para vê-la, e isso está acabando comigo, pois não faço ideia do que é isso que eu estou sentindo.
Eu já consigo avistar o seu segurança encostado no carro, esperando por ela, já que além de seu segurança, eu o contratei como seu motorista. Eu pensei que ela não aceitaria, mas parece que está levando numa boa após saber que os paparazzi estão no seu pé.
Alguns minutos depois, várias pessoas começam a sair pela porta da faculdade, e logo a vejo. Eu endireito a minha postura, observando-a usando uma calça jeans e uma camisa justa de manga longa. O seu cabelo está preso em um rabo e eu posso perceber que ela abandonou o liso que usava na Itália, ressaltando ainda mais a sua beleza natural. Uma garota de cabelo cacheado, com o tom da pele da cor do chocolate, aparece ao seu lado. As duas parecem estar conversando, e a minha ruiva sorri...
Tão de leve, mas ainda assim, ela sorri me arrancando um suspiro satisfeito.
Assim que ela se aproxima do seu segurança, alguém a surpreende por trás, a assustando. A minha vontade é de sair do carro e ir até ela, mas logo me sinto congelado no lugar quando vejo quem é a pessoa que a abraçou por trás.
Alan...
Ela se vira para ele com um sorriso e o abraça como se fossem íntimos. Porra! Eu juro que posso sentir uma enorme vontade crescendo em meu peito, e talvez tenha sido uma batida do meu coração que havia falhado. Nesse momento havia várias perguntas rondando da minha mente, e a principal é o porquê de ele estar aqui, tão coincidentemente na mesma cidade e faculdade que ela. Talvez ele seja um perseguidor? Terei que investigar isso...
Jerry os vê como se isso fosse algo normal de se acontecer. Porquê é que ele não faz nada para impedir? Alan abraça a morena, e logo se afastam de Mel, indo juntos para algum lugar. Talvez sejam namorados, ao menos pensar dessa forma me acalma. Mel cumprimenta Jerry, que lhe lança um sorriso amigável, o que me surpreende de certa forma já que o mesmo é bastante recrutado e conhecido por não demonstrar, nem se deixar levar pelas emoções. É um homem que já vivenciou muitas situações, e é muito duro consigo mesmo, mas também, quem é que não se comove tendo alguém como a Mel por perto?
Ele abre a porta do carro para ela poder entrar. Mel dá o seu primeiro passo, e eu posso suspirar aliviado, exceto ao perceber que o seu olhar se prendeu exatamente na minha direção. Ela franze o cenho e eu sinto as batidas do meu coração mais rápidas, me repreendendo pois o único carro comum que eu tinha, eu deixei na mão de Jerry. Mas como alguém poderia perceber? Não sou só eu que tem carros de luxo pela cidade, mas ainda assim... Ela parece convicta quando recua e dá o primeiro passo na minha direção, prestes a atravessar a rua. Me xingo mentalmente, aproveitando a deixa de que um ônibus está passando por nós, para dar partida no carro. Mesmo que ela já tenha certeza que se trata de mim, eu não sei se estou pronto para vê-la, mesmo que eu queira isso como eu preciso do ar. E por este motivo, eu faço o meu caminho rapidamente de volta para o meu apartamento, comprando uma pizza de calabresa no caminho. Comer pizza sem ela jamais será a mesma coisa, mas desde aquele dia em que eu comi, lembranças boas da minha infância vieram à tona, e a sensação que ficou foi maravilhosa.
Cheguei em meu apartamento, mas logo fiquei ocupado pelas diversas ligações que surgiram das minhas empresas, já que eu estava menos presente nelas do que de costume, deixando até mesmo os meus diretores para cuidarem das coisas caso eu não pudesse resolvê-las. A noite chegou rapidamente, e eu estava comendo a pizza requentada no micro-ondas enquanto encarava as chamas da lareira, percebendo como sempre fui sozinho, mas isso nunca passou pela minha cabeça até este momento.
As chamas também me traziam memórias, mas estas não eram agradáveis, e me lembravam do dia em que a minha pele ganhou cicatrizes, e eu ganhei a minha liberdade. Às vezes penso que as chamas me salvaram, e talvez isso se deva ao fato de eu nunca ter procurado ajuda psiquiátrica após ter passado por tantas coisas. Sempre me achei forte e invencível, mas a verdade é que olhando desse ponto de vista de agora, talvez eu não seja tão forte assim.
Meus pensamentos são dispersos por duas batidas na porta, que me fazem questionar quem é que está me procurando e porque os porteiros não me avisaram e pediram a minha permissão. Não é como se eu tivesse alguém que tem esse passe livre, somente Tadeu, mas pensei que ele estaria com Cristina...
Me levanto deixando a pizza de lado e vou até a entrada. Os meus olhos se abrem em espanto e surpresa assim que abro a porta e vejo a pessoa.
- Ben, meu querido.
Eu reconheceria essa cabeleira ruiva em qualquer lugar...
CAPÍTULO 1
Eu suspiro mexendo no copo, quando o bartender enche pela quinta vez o copo de quem estava ao meu lado, enquanto o meu estava intacto desde que cheguei nesse lugar. A música alta, os corpos dançando e suados na pista de dança, e o cheiro de álcool não era algo que me agradava. Sinceramente, as lembranças da última vez que estive em um lugar como esse, me vieram à tona, me deixando perturbada. Eu não me sentiria assim se estivesse na presença dele, e disso eu tenho certeza. Talvez desde o primeiro momento, eu nunca tenha realmente gostado de festas como essa, mas sim de estar me divertindo com ele, o que acabou confundindo a minha mente.
- Ei, você quer dançar, princesa?
A voz de Alan arrastada em meu ouvido faz com que eu vire a minha cabeça na sua direção, balançando-a para os lados.
- Não, eu vou ficar aqui mais um pouco...
Levanto o meu copo, numa forma de sinalizar que pretendo ficar bebendo. Mas a verdade é que estou desanimada.
- Você nem tocou no copo; - Ele tira o copo da minha mão e me lança uma piscadela. - Mas eu posso fazer isso por você.
Ele vira a bebida rapidamente e eu suspiro, não gostando do fato de ele estar tão bêbado. Eu sei que isso é normal quando você sai para um lugar como esse e quer se divertir sem pensar nos problemas, e ele me alertou antes de virmos que ele iria beber todas para esquecer todos os trabalhos propostos na faculdade. O destino realmente é uma coisa engraçada, não é? Em um momento estou na Itália fazendo amizade com um desconhecido que eu sabia que jamais veria na minha vida, e em outro eu estou fazendo faculdade e se tornando ainda mais próxima desse desconhecido. Quais eram as chances de eu me encontrar com ele aqui? Também, é a primeira vez na vida que saio de verdade e não fico em casa o tempo todo, e talvez por isso nunca nos esbarramos pela cidade.
Me pergunto se o mesmo destino me juntou à Benjamin com algum propósito, ou foi somente um acaso. Se eu fechar os olhos, eu ainda posso lembrar da última vez que nos vimos e nos despedimos com um beijo e uma promessa. Já se passou um mês desde aquilo, mas eu ainda não o vi, e não faço ideia se ele irá me procurar. Talvez ele nem lembre mais de mim...
Alan vai até a pista de dança, onde se mistura com as pessoas, dançando no ritmo agitado da música. De verdade, ele poderia ter maneirado na bebida, pois sendo a única sóbria aqui, terei que cuidar dos dois.
Falando em dois...
Me levanto da cadeira, passando meu olhar ao redor da festa à procura de Lorena. Lembro dela dizer que queria ir ao banheiro, e como Alan ainda estava meio sóbrio, não quis ficar sozinho. Acho que os dois não estão se falando, e eu realmente não entendo o porquê. Eu sinto que os dois estão me usando como competição, ou algo do gênero. Eles se dão bem, mas estão sempre discutindo por alguma besteira, e isso me deixa agoniada.
Passo entre todas aquelas pessoas, e mesmo que fora da pista de dança, o lugar está numa aglomeração, eu quase não consigo passar para procurar por Lorena. No canto do local, em uma mesa mais afastada das demais, eu a vejo em pé em cima da mesa, dançando e balançando seus cachos enquanto uns homens rodeiam a mesa. Droga, porque é que ela tem que ser tão impulsiva a ponto de dizer que vai no banheiro e parar numa mesa cheia de desconhecidos, que sequer parecem confiáveis? Digo isso pelo olhar que eles têm sobre o corpo dela.
- Ah, não...
Lorena está na mesma faculdade que eu, cursando o primeiro ano do curso de enfermagem. Assim como eu, assim que ela chegou estava meio perdida sem conhecer as pessoas, e então logo nos identificamos e começamos a conversar. Essa é a primeira vez que saímos para nos "divertir". Ela tem dezenove anos, e é uma linda morena com cachos lindos e rebeldes, que logo chamam atenção onde passa. Nos conhecemos em uma das nossas aulas em conjunto, que foi laboratório. Incrivelmente e até me surpreendendo, eu escolhi cursar biomedicina após uma pesquisa na internet onde descobri que gosto de realizar pesquisas e estar em laboratórios. Ao menos eu estou me dando bem.
Olho mais uma vez para Lorena que parece estar se divertindo, sem noção alguma de como essa situação parece. Ela já estava alterada pela bebida quando se afastou da gente, não quero nem pensar que ela pode ter bebido mais alguma coisa, ou alguém até mesmo a ter drogado. Olho ao redor a procura de Alan, já que não me sinto tranquila para ir sozinha, mas não o encontrando, eu tomo uma atitude pois não posso deixá-la sozinha nessa situação.
Caminho até lá, observando o tanto de garrafa de bebidas que os mesmos tomaram.
- Lorena, vamos embora daqui. Me desculpem pela bagunça.
Seguro o seu braço, a puxando, mas ela se desvencilhou, me encarando com um sorriso.
- Não, deixa eu me divertir! - Ela exclama jogando os braços pro ar, como se isso fosse realmente divertido.
O homem mais próximo dela começa a acariciar a sua perna e eu sinto a bile se formar na minha garganta, nervosa por estar nessa situação e ela sequer estar ajudando.
- Lorena, eu não vou falar mais uma vez, por favor, vamos embora. - Murmuro lançando-lhe um olhar suplicante.
- Ih, gatinha, deixa ela. Estamos todos nos divertindo. - Um deles comenta com a voz carregada pela bebida e todos concordam levantando suas garrafas de bebidas.
Um deles afasta o meu braço quando vou tentar puxá-la novamente.
- Ela está bêbada! Eu vou levar ela de volta! - Exclamo já irritada e assustada com essa situação.
Não quero me exaltar e me meter ainda mais na confusão, mas isso o que eles estão fazendo é tão ridículo, e Lorena nem percebe o que está acontecendo. Eu poderia simplesmente a deixar e não estar passando por isso, mas com que consciência eu viveria? Não posso deixá-la de lado porque eu não gostaria que me deixassem, por isso, resolvi insistir. O sorriso debochado deles é o que mais me deixa agoniada.
- Estamos nos divertindo, você deveria participar também, boneca. Por que não se junta a ela? - Um deles comenta e eu sinto um calafrio percorrer a minha espinha, ainda mais quando todos lançam um olhar malicioso na minha direção, mais especificamente em meu corpo.
Eu poderia até mesmo vomitar só de pensar no que deve estar se passando na cabeça deles. São todos ridículos por estarem querendo se aproveitar dela, que está bêbada e sem pudor algum estão me olhando dessa forma, me impedindo de a tirar daqui.
- Ah, Mel. Você está sendo chata. Se não quer se divertir então não atrapalhe a diversão dos outros. - Ela murmura e então cai no colo do loiro, que tem um sorriso de satisfação em seu rosto.
Respiro fundo e ponho minha mão dentro da bolsa de lado que eu estou usando, pensando em alguém que pode me ajudar nessa situação já que Alan também está bêbado.
- Eu vou ligar para Jerry me ajudar com isso.
Assim que tenho o meu celular em mãos, um moreno se levanta de rompante, pegando de repente o celular das minhas mãos, me deixando ainda mais assustada. Sua mão pressiona o meu braço com força, me encarando enquanto sinto as batidas do meu coração aceleradas em meu peito. Eu juro que podia sentir o meu corpo estremecendo com o pânico se alastrando pelo meu corpo. O olhar em seus olhos é o mesmo daquele cara que me assediou no banheiro, e isso faz com que eu congele.
- Calminha, boneca. Você não ouviu o que ele disse? Vem se divertir com a gente... Senta aqui do nosso ladinho.
Ele me puxa com força pelo braço e eu logo tento me desvencilhar, me debatendo em seus braços. Deus, eu estou tão horrorizada. Só agora me dou conta do quanto essa situação está passando dos limites. Lanço um olhar para Lorena, implorando para que ela acabe com isso agora mesmo, e parece que ele entendeu, pois a mesma se levanta e lança um sorriso sem graça para eles.
- Pessoal, eu acho melhor nós irmos. Já está tarde e...
Um deles a interrompe a puxando de volta para o seu colo, a assustando. Fecho os meus olhos sentindo que a qualquer momento eu vou desabar no choro, já que todo o meu corpo está fraco.
- Não, eu tenho uma ideia melhor; - O loiro que Lorena está no colo põe seu dedo indicativo sobre os seus lábios e olha para os seus amigos. - Sabem que ideia é essa, rapazes?
Todos eles riem com escárnio, e tudo o que eu sinto é meu estômago se revirando, avisando que a qualquer momento eu vou pôr tudo o que comi para fora.
Se eu já estava em pânico, agora eu já nem tenho mais controle do meu corpo. Estou rendida ao desespero e o meu corpo está congelado enquanto vários flashes da noite em que Benjamin me salvou me vêm à mente.
- Sei bem.
O moreno ao meu lado brinca com uma mecha do meu cabelo, me fazendo sentir repulsa. Eu sei que eu deveria estar gritando a plenos pulmões... olha quantas pessoas tem ao meu redor. Me pergunto se alguma dessas pessoas estariam prontas para nos ajudar. Eu sinto as lágrimas escorrendo por minha bochechas e Lorena também parece estar notando o que pode nos acontecer.
- Desculpe, mas queremos ir embora.
A mesma cena se repetia diversas vezes na minha mente, mas dessa vez, eu tinha certeza que ninguém estaria para me salvar. Ele não estava aqui! Na manhã seguinte ele me fez esquecer tanto como se nada tivesse acontecido. Me pergunto qual o problema dessas festas comigo, pois sempre acontece algo que me deixa mal.
Eu não faço ideia, mas parece que um deles está discutindo e segurando Lorena a força, a levando para algum canto.
- Shh, boneca. Vamos aqui para um canto que eu vou dar um jeito na sua boca atrevida. - Ele sussurra em meu ouvido e eu sinto o meu corpo tremer, sentindo calafrios de medo percorrem a minha espinha.
Ele me puxa pelo braço com bastante força para algum lugar que eu não faço ideia, pois a minha visão está embaçada por conta das lágrimas que deslizam incessantemente. A tontice me pega de surpresa, pois se antes eu já não estava conseguindo reagir, imagina agora. Eu já tenho certeza do que vai me acontecer, mas o meu corpo não consegue se mexer além de chorar, sentindo a bile subir pela minha garganta ao imaginar o que eles estão planejando fazer com nós duas.
Os gritos de revolta de Lorena já são mais audíveis, mas eu somente fechei os meus olhos quando alguém me pressionou contra a parede com o seu corpo. Eu não faço ideia da ordem de como as coisas aconteceram, mas eu juro ter ouvido uma voz masculina xingando, parecendo muito bravo e o corpo do homem se afastando do meu. Quando eu abri os meus olhos tomando coragem, todos estavam apanhando, mas tudo o que eu via eram rastros da situação. Tinha até mesmo sangue e aquilo me assustou.
Eu só tive tempo para raciocinar com mais clareza quando eu senti as mãos de Cristina nas minhas, me puxando para longe da confusão. Eu ainda estava meio abalada enquanto desviava das pessoas na pista de dança, tentando entender o que tinha acabado de acontecer, ao mesmo tempo em que o alívio dominava o meu corpo.
Uma mão pousa em meu ombro e eu pulo para trás, me virando assustada.
- Caramba, eu sou tão feio assim? - Alan aparece na minha frente, parecendo estar achando graça.
Suspiro mais uma vez em alívio e logo o seu olhar alterna entre mim e Lorena, que parece ter enviado algum tipo de mensagem somente com o olhar, e ele logo parece ter entendido.
- O que aconteceu? Vocês estão bem? - Alan põe suas mãos em meus ombros, me encarando com preocupação.
Lorena dá de ombros e suspira, abraçando o seu próprio corpo. Está claro em seus olhos que ela está muito abalada e se sentindo culpada pelo o que aconteceu. Mas eu não a culpo. Ela tinha bebido demais, e acredito que a sua intenção não era que as coisas chegassem nesse ponto.
- Mel... - Alan sussurra, atraindo a minha atenção.
- Eu preciso de ar, estou me sentindo sufocada. - Aviso esfregando os meus próprios braços, sentindo que aquele lugar estava me deixando claustrofóbica.
Na verdade, tudo naquele lugar estava me fazendo mal, até mesmo o cheiro estava me fazendo ter vontade de vomitar. Eu acho que não sou compatível com lugares assim.
- Vamos, eu vou levar as duas para o lado de fora.
Alan nos arrasta para um lado da balada e abre uma porta lateral, que dá de cara para o estacionamento aberto do local. Me apoio no parapeito da escada, respirando fundo em busca de ar.
- Eu vou chamar um táxi.
Vejo Alan se afastando da gente, indo até a calçada. Logo me sinto arrependida por ter dito a Jerry que ele não precisava ficar à minha espera, pedindo para ele voltar e descansar pelo resto da noite já que ele sempre estava disponível para mim.
- Me desculpa.
Me viro na direção de Lorena que tem um olhar arrependido na minha direção. Lanço-lhe um olhar tranquilizador, tentando não pensar muito no que nos acabou de acontecer.
- Não se culpe, estamos bem, certo?
Ela assente bastante abalada.
- Quando eles lhe seguraram, e eu olhei para você, tudo o que eu pude ver foi medo e só então percebi o quanto estava assustada. Eu não devia ter te colocado nessa situação, mas eu realmente não pensei que as coisas chegariam nesse ponto. Eles me ofereceram bebida e logo começamos a nos divertir. Eu perdi a noção do tempo e estava me sentindo tão louca que nem vi a maldade neles. Eu não deveria ter insistido para virmos. Eu realmente sinto muito.
Ela segura as minhas mãos, tentando me mostrar o seu arrependimento através do olhar e eu sorrio, já me sentindo mais calma.
- Está tudo bem, mas... - Desvio o meu olhar voltando a lembrar do que aconteceu agora a pouco. - O que aconteceu lá dentro? Quer dizer, alguém estava batendo neles.
Um sorriso se desenha em seus lábios e ela assente.
- Sim, eu não o vi muito bem, mas o cara parecia furioso. Ele já tinha tirado o cara de cima de você quando tirou de cima de mim. Ele parecia muito forte, mas eu estava tão assustada que somente me preocupei em nos tirar de lá; - Ela ergue uma sobrancelha pensativa. - Ele parecia um gato. Se algum dia eu o ver na rua, farei questão de agradecê-lo.
Sinto o meu coração acelerar em meu peito e um alarme começar a soar na minha cabeça. Qual seria a chance do que eu estou pensando acontecer? A verdade é que é muito baixa, e talvez seja somente a saudade em meu peito que me fez desejar que tivesse sido ele. Eu não me importaria de vê-lo numa situação como essa. O seu abraço me conforta de forma que eu até mesmo esqueço dos problemas. Acho que estava tão imersa em meus pensamentos, que eu nem tive tempo para questionar Cristina sobre a aparência dele, pois ela já saiu disparada na direção de Alan, que parece estar falando com o taxista.
Confiro a hora em meu relógio de pulso e me dou conta que é meia noite. Um mês e uma semana havia se passado, e pelo visto, ele não viria atrás de mim. Pensar dessa forma me deixava com uma angústia enorme em meu peito. Eu tentei não pensar nele nesse meio tempo, porém mesmo tendo diversas coisas para fazer e resolver, foi ele quem ocupou a minha mente, e de verdade, espero que ele ao menos pense em mim de vez em quando.
Encosto minhas costas na parede logo atrás de mim e fecho os meus olhos, me sentindo cansada por parecer que sempre estou tentando resolver tudo, sendo que eu não consigo lidar com tantas coisas ao mesmo tempo. A morte da minha mãe ainda é muito difícil, e eu sei que a faculdade começará a pesar nas minhas costas. Nem quero imaginar como estarei quando começar a trabalhar. O meu único alívio e momento de paz está sendo estar com pessoas que me fazem bem, e principalmente, no conforto do meu apartamento. O contrato também ocupou os meus pensamentos, mas não importa quanto eu pensava, a minha resposta sempre era a mesma. Ser uma escrava dos seus desejos não é algo que entra na minha mente. Também não quero receber nada em troca. Eu só quero ficar com ele...
Sinto um aperto no peito e meu sangue gela quando um cheiro amadeirado invade as minhas narinas. Deus, eu podia pensar que é apenas uma coisa da minha cabeça, ou talvez alguém com o mesmo perfume passando por mim. Mas acho que estava com tanta saudade que eu reconheci imediatamente essa mistura com o cheiro de cigarro e álcool.
- Ruiva...
O vento balançava o meu cabelo no ar, acariciando a minha pele e arrepiando o meu corpo. Quando a sua voz chegou até mim, eu tive que me segurar pois tinha certeza que não iria conseguir ficar em pé, já que quase instantaneamente eu senti o meu coração saltar em meu peito.
Endireito a minha postura e me viro na direção da voz, me sentindo fraca e ansiosa. Os seus olhos me encaram com confusão, e parece que são o reflexo dos meus, mas isso não importa, pois ele está bem na minha frente e tudo o que eu quero fazer é me jogar em seus braços.
Dou um passo em sua direção mas me interrompo quando me dou conta do seu estado. Benjamin tem o seu cabelo maior que o normal, com algumas mechas caindo por sua testa. De certa forma, ele já não me parece o mesmo homem de quando eu o conheci. Ele já não aparentava a mesma áurea, e talvez isso se deva pelo fato do seu olhar me parecer acabado. Ou por quê agora que o conheço um pouco mais do seu eu, eu consiga enxergar a dor em seu olhar. Meus olhos pousam em suas mãos que estão ensanguentadas e feridas, mas em seu rosto não há sequer um resquício de que alguém possa ter batido nele.
O meu coração acelera em meu peito quando eu me dou conta de que a minha teoria pode ser realmente verdade.
- Como... Como se machucou? - Pergunto me sentindo sem graça, pois a resposta está tão exposta que é até idiota da minha parte.
Como se tivesse acabado de sair de um transe, ele abaixa o seu olhar para as suas mãos e dá de ombros, como se isso não fosse grande coisa.
- Tive que lidar com alguns imbecis que estavam deixando a minha garota assustada.
Sinto um arrepio percorrer a minha espinha e arfo me sentindo nervosa por suas palavras. Ele está deixando na minha cara que ainda sente carinho por mim, mas eu não sei como agir, pois já faz um mês desde que nos vimos e eu não faço ideia de quais são os seus pensamentos sobre a gente. É quase como se eu estivesse no escuro para conseguir enxergar um caminho.
- Eu... - A minha voz falha enquanto eu o encaro e ele logo ergue uma sobrancelha, dando alguns passos decididos na minha direção. Talvez ele saiba que eu não saiba como reagir... - Benjamin!
Sua mão vai para a minha nuca, e ele logo trata de me puxar para um beijo, como se o mundo não existisse ao nosso redor. Seus lábios encostam nos meus e sua língua implora para que eu ceda, e mesmo sentindo que posso me desmanchar em seus braços a qualquer momento, eu cedo. Nossas línguas buscam uma a outra em desespero, e é verdade que eu já sentia falta disso. Da sua mão apertando a minha cintura, do gosto dos seus lábios e como ele consegue me deixar tonta apenas com essas atitudes. Sua mão desceu até minhas costas e ele me cola em seu corpo, mordendo o meu lábio. Um calor começava a se alastrar pelo meu corpo, e inconscientemente, eu solto um gemido entre nosso beijo, aliviada por estar finalmente em seus braços. Aquele mesmo friozinho na barriga, causado pelo seu toque e beijo é tudo o que eu mais precisava. É quase como se eu estivesse no céu, ansiando para que essa sensação não se vá.
Quando os nossos lábios se separam um do outro, a sua testa vem de encontro à minha e ele começa a acariciar a minha bochecha, me encarando com suas íris escuras que sempre me trouxeram tranquilidade e segurança. Na verdade, isso é o que eu estou sentindo nesse momento com ele e não poderia ser diferente.
- Estava com tanta saudade... - Ele sussurra e eu sinto o efeito das suas palavras transbordando em meu peito. - Não faz ideia do quanto eu estava ansioso por isso. Só queria te tocar, sentir o seu cheiro; - Ele inspira fechando os seus olhos, como se estivesse em um transe no momento, e talvez seja assim que eu também esteja. - É como um bálsamo para mim.
Os meus lábios se desenham em um sorriso, já emocionada por ele pensar em mim dessa forma. Ele também é assim para mim, pois é ele que sempre está me dando segurança e fazendo com que eu me sinta melhor, quando na verdade, se ele não estivesse ali, eu não saberia lidar.
- Eu quero você, Mel.
As suas palavras me pegam desprevenidas, e um arrepio percorre a minha espinha. Deus, porquê é que ele tem tanto efeito sobre o meu corpo? Eu me sinto tão inebriada por ele, que dou um passo para trás, me afastando do mesmo para que eu consiga pensar com clareza. Mesmo que suas palavras sejam bonitas e ele realmente tenha sentido a minha falta esse tempo todo, ele deixou claro que não iria desistir da ideia de contrato. Eu sei que não deveria estragar o que está nos acontecendo com isso, mas é inevitável pois temos opiniões divergentes sobre esse assunto, e querendo ou não, isso pode afetar a nossa relação.
- Eu pensei bastante, mas eu ainda mantenho as minhas palavras. Eu não vou me vender. - Murmuro calmamente, em busca de avaliar as suas expressões.
Ele franze o cenho e começa a esfregar sua têmpora, de repente parecendo mais agitado.
- E eu também mantenho o que disse. Não pretendo abrir mão nem de você, nem deste contrato. E eu já te expliquei, ruiva. Você não vai estar se vendendo.
- De qualquer forma, eu não me sentiria legal fazendo isso. Eu finalmente me conheço e não estou a fim de obedecer mais ninguém. - Explico com a intenção de que ele entenda o meu lado e que possa ceder em relação a esse contrato.
- Eu não quero que me obedeça. Eu jamais cobraria isso de você. Nem precisa seguir as regras, eu só preciso que você assine.
Ele termina num suspiro e eu o encaro, percebendo que o seu olhar carrega uma dor assim que ele diz essas palavras. É como se existisse algo muito sombrio e perturbador, que vai muito além do que eu consiga imaginar.
- Eu não sei... - Sussurro me sentindo exasperada com essa situação.
Eu estou completamente confusa quanto a isso. Benjamin fez com que eu enxergasse o mundo de uma forma diferente, e eu o agradeço por isso. Quando nos despedimos, eu deixei claro que iria lutar por ele, mas agora eu preciso deixar claro que não pretendo assinar nenhum contrato. Mas a verdade é que estou com medo dele fugir, sou eu quem deveria estar correndo para longe, mas eu estou assustada, pois quero que ele entenda que não pretendo ir embora enquanto houver uma chance de termos alguma coisa sem o contrato. Nesse meio tempo em que estivemos separados, eu me dei conta que o que ele me fez, apesar de ser uma lembrança chata, já não me doía tanto quanto era para doer. A verdade é que eu posso passar por cima disso tudo se ele disser que me quer de verdade, não por um capricho ou desejo sexual, mas porque deseja estar comigo. É só disso que preciso para lutar.
Os seus olhos nesse momento estão tão confusos quanto os meus, mas ele parece impaciente. O meu coração e o meu subconsciente entram em uma briga sobre qual caminho eu devo seguir, mas sequer tenho tempo de pensar pois mais uma vez, os lábios de Benjamin se encontram com os meus.
CAPÍTULO 2
Sinto o meu corpo suado e as batidas do meu coração aceleradas à medida que eu abro os meus olhos, me sentindo cansada e trêmula. Minha boca está seca e eu fecho os meus olhos novamente, percebendo como tudo não passou de um sonho. As memórias ainda estão gravadas na minha mente, mas me parecem tão reais... acho que estou ficando louca a ponto de ter alucinações com Benjamin. Mas a verdade é que eu não gostaria que tivesse se tratado somente de um sonho. O seu beijo em meu sonho, era tudo o que eu mais estava precisando, mas acho que de certa forma, isso me tranquilizou e me deixou mais segura, mesmo que não tenha sido real.
A realidade volta como um soco no estômago quando eu me sento na cama e meus olhos varrem todo o local, procurando por uma única coisa que me seja familiar. Mas absolutamente nada me vem à mente. Lorena dorme no dormitório da faculdade, já Alan tem um pequeno apartamento e a casa dos seus pais, mas eu não poderia estar em nenhum desses lugares, nem mesmo no meu apartamento, pois eu não teria condições de pagar por um lugar tão caro como esse.
A enorme cama de dossel em que eu estava sentada estava forrada com sedas tão macias que eu custava a acreditar, e a parede ao meu lado, inteiramente de vidro com uma vista incrível para as estrelas, me revelavam que eu estava em um prédio, provavelmente no último andar, a julgar pela altura.
As batidas do meu coração se intensificaram à medida que eu observava todo o lugar, de repente me sentindo nervosa. Assustada, eu me levantei em um pulo mas antes que eu pudesse raciocinar, o lençol deslizou pelo meu corpo até o chão, revelando a minha nudez. As memórias voltam como uma pancada, quase como se eu fosse tirada do agora e tivesse voltado no tempo.
"- Unhum!
Ouço alguém limpando a garganta e isso já é o suficiente para eu me afastar dos braços de Benjamin, assustada.
- Então... - Lorena começa, de repente parecendo sem graça.
Deus, eu poderia enterrar a minha cabeça debaixo da terra nesse momento para não ter que encará-los, após eles terem me flagrado o beijando. O olhar de Alan alterna entre mim e Benjamin, parecendo estar surpreso e desconfiado enquanto Lorena parece espantada e envergonhada.
- Está tudo bem aqui? - Alan questiona, franzindo o cenho na minha direção.
Ele sabe de tudo o que houve entre mim e Benjamin, inclusive, há alguns dias foi ele quem me aconselhou a esperar que o mês acabasse para que eu viesse a tomar uma decisão definitiva, já que naquele momento eu estava bem relutante, quanto a seguir com as minhas palavras. Eu nem faço ideia do que pode estar passando por sua cabeça agora, mas definitivamente ele deve estar surpreso por encontrar Benjamin me beijando quando, há alguns minutos, eu quase fui violentada juntamente com Lorena.
- Sim... - Minha voz falha e eu limpo a garganta, ainda me sentindo afetada pelo beijo. - Eu estou bem.
Alan assente parecendo estar mais aliviado, e então o seu olhar se volta para Benjamin, que parece estar mais tranquilo que eu.
- Foi você! - Lorena sussurra abrindo os seus olhos, espantada. - Foi você que nos ajudou! Meu Deus!
Ela põe as mãos em sua boca, tentando conter a sua surpresa. Essa situação seria engraçada se eu não estivesse tão envergonhada. Benjamin me lança um sorriso convencido e eu reviro os meus olhos, desviando o meu olhar.
- O táxi está nos esperando. Podemos ir? - Alan sugere parecendo estar impaciente com alguma coisa.
- Ah, claro...
- Não; - Benjamin segura o meu braço, me impedindo de ir até eles. - Ela vai comigo.
Ele me lança um olhar que não me deixa espaço para contestar. Alan parece estar em dúvida quanto a isso, mas eu desvio o meu olhar rapidamente. A verdade é que eu quero gritar e dizer que ele não pode simplesmente me dar ordens, mas eu acho que ainda estou abalada demais. É quase como se eu estivesse dentro de um transe e, se eu falar qualquer coisa, a minha voz não vai sair tão confiante quanto espero que ela pareça. Droga, eu odeio que ele me afete dessa forma!
- Mel. - Lorena se aproxima e segura minhas mãos, me lançando mais uma vez, um olhar arrependido. - Me desculpe, de verdade. Prometo que da próxima vez que sairmos, eu não vou beber sequer uma dose. Vou tomar muito cuidado, e prometo que não vou me afastar de vocês, também.
Um sorriso se desenha em nossos lábios simultaneamente, e ela trata de me abraçar.
- Não acho que seja preciso que você não beba nenhuma dose. Mas não exagere, pelo amor de Deus! Você já é difícil de controlar estando sóbria, bêbada se torna impossível.
Ela ri e então se afasta dos meus braços, me lançando um olhar carinhoso e mais aliviado.
- Você tem certeza que vai com ele? - Ela olha de soslaio para Benjamin que neste momento está cumprimentando Alan, ambos de cara fechada. - Quer dizer, ele é bonito... muito bonito. Mas que sortuda, Mel! Nem eu nunca fiquei com um cara tão lindo assim!
Ela bate em meu ombro e eu ponho minha mão sobre a sua boca, tentando conter o meu riso.
- Deus, você fala alto demais! E sim, eu quero ir com ele, está bem? - Murmuro baixinho retirando minha mão da sua boca e ela me lança um olhar sugestivo.
- Safada... vai ter que me contar tudo assim que nos vermos novamente, hein? - Sinto as minhas bochechas corarem ao pensar nessa possibilidade. - Aproveite a noite, e não se preocupe, eu dou um jeito no Alan.
Ela começa a caminhar até ele, enroscando o seu braço no dele, que lança um olhar confuso para ela.
- Você disse que o táxi está à nossa espera. E você! - Lorena direciona o seu olhar para Benjamin, que põe as mãos no bolso da sua calça. - Muito obrigada por ter nos ajudado, mesmo que agora esteja claro que foi por causa da Mel.
- Eu o faria de qualquer jeito, caso eu visse qualquer uma naquela situação. - Ele responde seriamente e então Lorena assente com um sorriso em seu rosto.
- Vamos, eu quero ir para casa.
Ela puxa Alan pelo braço, e ele agora está me lançando um olhar frustrado.
- Tchau, Mel. Ligo para você em uma hora, para ter certeza de que você chegou bem.
O meu sorriso se alarga em meu rosto, à medida que vejo os dois se afastarem. Eu fico até emocionada quando paro para pensar que eu finalmente tenho amigos que se importam comigo. Eu não fazia ideia de como essa sensação era boa, pois fui privada disso durante toda a minha vida, por isso, quero aproveitar.
Benjamin se vira na minha direção com a cara fechada.
- Eu não gosto dele.
Há tanto desgosto em sua voz, que eu me pergunto se Alan já fez algum mal a ele. Porque não é possível odiar alguém gratuitamente.
- Pois bem, eu não lembro de ter perguntado, Benjamin. Lembre que ele é o meu amigo e que eu gosto muito dele.
Ele arregala os olhos com as minhas palavras e eu somente cruzo os meus braços na altura do meu peito, não gostando que diga qualquer coisa sobre Alan. Um sorriso se desenha em seus lábios, enquanto nos encaramos por longos segundos.
- Ah, essa sua boca ousada; - Ele sussurra se aproximando de mim com o seu olhar escurecido, ao mesmo tempo que eu sinto um friozinho na minha barriga. - Eu quero dar um jeito nela nesse exato momento.
Dou um passo para trás, de repente me sentindo fraca sob o seu olhar. A minha boca fica seca enquanto ele levanta a minha cabeça, me encarando com tanta luxúria que eu até poderia ver o que ele planejava fazer comigo, e em quais posições. Ele acaricia a minha bochecha e o seu olhar desce de encontro aos meus lábios.
- Onde foi que paramos, ruiva?"
Após ele me beijar, tudo na minha mente é muito vago. Lembro de estarmos dentro de um elevador enquanto nos beijávamos, com a sua mão em meu bumbum, e depois posso sentir claramente a sensação dele me penetrando. Dos seus beijos e toques, até mesmo do meu corpo tremendo sob o seu. Tudo aconteceu nesse quarto. No mesmo lugar em que eu me encontro nesse momento. Arfo olhando ao redor, percebendo que não conversamos sobre o contrato e que, provavelmente, agora ele deva estar achando que eu irei concordar.
As memórias ainda estão frescas na minha mente, e talvez por isso, eu me sinta levemente dolorida. Caminho até o meu vestido que está jogado no chão, junto com sua camisa, mas o que mais me chama a atenção, é a minha calcinha rasgada num canto da cama. Meu Deus! Não tivemos nem senso, parecia que estávamos desesperados por isso. Mas também, já faz um mês que eu anseio por sentir o meu corpo no seu novamente, com ele não deve ter sido diferente.
Vou até a minha bolsa, também no chão, e pego o meu celular verificando as horas. Eu quase caio para trás com o susto. Quase três horas da manhã, e eu sequer vi o tempo passar. As várias ligações perdidas de Jerry e Alan estão em primeiro plano no visor do meu celular, alertando que eles podem estar preocupados ou com algum problema. Já ia apertar para retornar a ligação de Jerry, mas sou impedida, pois ouço vozes vindo de fora do quarto, um pouco longe de onde estou, mas estão bem claras.
Sou surpreendida quando Benjamin aumenta o tom de voz, me assustando de certa forma, pois penso que ele pode estar brigando com alguém. Me levanto, deixando o meu celular de volta na bolsa e vou caminhando a passos lentos até a porta, e encosto a minha orelha nela. A verdade é que não estou conseguindo conter a curiosidade, e eu não entendo quem poderia estar aqui a uma hora dessas, e que tenha deixado Benjamin tão bravo quanto ele parece estar.
Fico surpresa com o que eu escuto. Benjamin parece hostil, e algumas das suas falas parecem embaralhadas quando chegam no meu ouvido, porém uma de suas falas não me passa despercebida.
"Eu não os contratei à toa. Não é permitido que essa pessoa suba para o meu apartamento, você entendeu? Essa pessoa está proibida de chegar perto de mim, quero que sigam todos os seus passos. Eu não quero mais nenhuma ameaça."
Suas palavras me pegam desprevenida me fazendo dar um passo para trás, surpresa. Alguém o está ameaçando? Ele está em perigo? Suspiro sentindo meu coração acelerar cada vez mais, me sentindo preocupada por imaginar que alguém o esteja ameaçando e pondo-o em perigo. Porque alguém faria algo assim com ele? Encosto a minha orelha na porta mais uma vez, não querendo perder tempo e ouvir para tentar entender do que se trata.
"Mas, Senhor Hunter, não há nem sinal dessa pessoa andando pelo prédio. Eu não faço ideia de como, mas ela deu um jeito de corromper as imagens das câmeras."
A voz abafada da mulher parece extremamente séria quanto ao assunto. Pelo jeito que eles conversam, ela pode ser sua assistente ou fazer parte da sua equipe de segurança que, isso eu descobri através de Jerry, é muito grande.
"Eu não me importo com as imagens. Essa pessoa esteve aqui, e eu a vi. Eu só quero impedir que ela chegue até mim novamente. Quero que projete mais sistemas de segurança, ela deve estar procurando mais uma forma de chegar até mim, e não quero que ela ache uma falha sequer em seu sistema."
Mordo o meu lábio tentando compreender as palavras, já que para mim parecem estar bem longes.
"Tudo bem, senhor. Mas não acha melhor nos revelar quem está por trás das cartas que vem recebendo? Assim poderíamos ser mais úteis para o senhor."
O pouco que eu continuei ouvindo da conversa entre eles, mostrava um Benjamin irredutível quanto a revelar quem é a pessoa. Eu me afastei da porta quando já não ouvia mais a voz dos dois, sentindo um conflito acontecer dentro de mim. Posso ficar aqui e fingir que não ouvi nada, até mesmo porquê, parece um assunto particular, porém posso descer e conversar com ele. Quer dizer, se ele realmente está em perigo, eu deveria saber, não é?
Respiro fundo, exasperada. Tudo bem que talvez eu não devesse me meter em seus assuntos, mas eu não posso fingir que não ouvi isso, e eu tão pouco não posso agir como se nada tivesse acontecido. Eu estou preocupada, e por este motivo, eu irei ao menos tentar saber o que está acontecendo. É claro que se ele não me disser, eu irei morrer de curiosidade e preocupação, mas vale a pena tentar.
Abro a porta do quarto me sentindo nervosa, de repente. Me deparando com um corredor e, no final dele, o corrimão para descer as escadas, que inclusive, é diagonal. Eu tinha um plano inicial, que era conversar sobre a nossa situação em particular, mas agora eu nem consigo raciocinar direito, tomada pela preocupação e medo do que possa vir a acontecer com ele.
Benjamin está exatamente no fim da escada, usando somente a sua calça de moletom, parecendo nervoso e preocupado. Mas também, não é para menos. Se eu estivesse me sentindo em perigo ou sendo perseguida, eu surtaria. Molho os meus lábios os sentido secos e começo a descer os degraus, esperando que Benjamin me note, e ele me nota rapidamente. Seu olhar vem de encontro ao meu e os seus ombros se relaxam, dando a entender que ele estava tenso antes.
- Ei... - Ele murmura para mim quando eu me aproximo mais.
Olho para os dois lados em seu apartamento, para ter certeza de que a mulher já se foi, e que estamos sozinhos. A decoração não me passa despercebida, pois é tudo muito chique e extravagante. A maioria dos seus móveis são uma combinação de preto e branco, e se destacam bastante. À minha direita, ao lado da escada, é possível ver uma sala, que mais se pareceria ser de lazer, se não fosse por seu enorme tamanho. De onde estou, é possível ver uma mesa de sinuca e uma lareira apagada. Havia um outro detalhe que, na verdade, eu já esperava, a parede é de vidro, com a vista completa dos prédios e uma parte do céu. À minha esquerda, próximo à porta de entrada, tem uma cascata artificial, quase como uma cachoeira que, por acaso, se parece muito com a paisagem que presenciamos no dia da morte da minha mãe. É quase como se ele quisesse guardar uma lembrança do que tivemos. Ao lado da cachoeira artificial, tem uma linda cozinha, com várias luminárias no teto e uma ilha com bancos ao redor. Uma luz azul que se move de cima para baixo, ilumina o caminho até a cozinha, e eu sinto um aperto no peito ao imaginar o motivo disso. O que ele já fez com outras garotas aqui... pois lembro exatamente de quando chegamos, nos beijando loucamente e desesperados para sentirmos um ao outro.
Ele limpa a garganta e eu volto a encará-lo.
- Benjamin, está tudo bem? - Ele me encara por alguns segundos, parecendo estar refletindo sobre, e quem sabe pensando numa possível resposta e fugir do assunto que eu realmente quero saber. - Tinha mais alguém aqui com você. Quem era?
Ele desvia o olhar e engole em seco.
- Sim. Era só a minha chefe de segurança. Estava repassando algumas ordens para ela; - Ele se aproxima de mim e deposita um beijo na minha testa. - Como está se sentindo?
Como estou me sentindo? Se eu for esquecer da conversa que eu ouvi, e do contrato que é um empecilho entre a gente, eu diria que me sinto ótima. A noite foi incrível, na verdade, ele nunca tinha me feito chegar lá tão divinamente quanto hoje. Talvez tenha sido somente pelo fato de que eu estava me sentindo desesperada por isso, e não conseguia olhar dessa forma para um outro homem.
- Bem... muito bem.
Assinto sentindo todo o meu rosto esquentar ao lembrar de nós dois juntos em sua cama. Ele me lança um sorriso, segura em minha mão e começa a me guiar até a ilha da cozinha.
- Você quer beber alguma coisa? - Ele questiona enquanto se serve de um copo com algo que mais se parece com whisky.
Balanço minha cabeça para os lados, e me ponho ao seu lado, querendo que ele olhe em meus olhos e não tente fugir do assunto, já cansada de tanta enrolação.
- Você está em perigo? - Pergunto calmamente, resolvendo analisar a sua reação, mesmo que eu não seja boa em ler as pessoas.
Mas seus olhos arregalados me revelam que ele está surpreso com a minha pergunta.
- O quê? Porquê acha isso, ruiva?
Desvio o meu olhar do seu, não querendo admitir que estava ouvindo a sua conversa de propósito.
- Vocês estavam falando um pouco alto, e dava para ouvir de lá de cima. - Forço um sorriso na sua direção, trocando o peso nas pernas por estar envergonhada porque não foi bem assim.
Eu poderia ter evitado ouvir se eu não fosse tão curiosa. Alguns segundos se passam em silêncio, com Benjamin parecendo estar absorvendo as minhas palavras enquanto encaro as minhas próprias mãos, que estão juntas ao meu corpo.
- Ei; - Sinto sua mão em meu queixo, levantando a minha cabeça, me fazendo encarar suas íris escuras que nesse momento, além de estarem intensas, me passam certo tipo de tranquilidade. - Eu não estou em perigo, ruiva. Mas fico feliz que se preocupe comigo. - Um lindo sorriso se desenha em seus lábios e ele acaricia a minha bochecha. - É só alguém que insiste em querer falar comigo. Está sempre me incomodando, mas nada demais.
Eu quase posso sentir o peso saindo dos meus ombros, com o alívio tomando posse do meu corpo. Isso definitivamente me deixa muito mais tranquila. Eu já tenho que lidar com tantas preocupações, então mesmo que Benjamin nunca quisesse compartilhar isso comigo, eu acho que eu morreria de tanta preocupação.
- Vem, senta aqui.
Nos sentamos lado a lado nas banquetas. E ele então coloca um copo na minha frente, e põe somente dois dedos do seu whisky para mim.
- Acho que temos muito o que conversar. - Comento o encarando, pois eu me conheço o suficiente para saber que irei ficar ansiosa demais caso não chegarmos a uma conclusão ainda hoje.
- Você pode tornar isso simples, sabe disso.
Sua mão pousa em minha coxa, e eu ergo uma sobrancelha em sua direção, mordendo o meu lábio pois eu não vejo como isso pode ser simples. Nenhum dos dois está disposto a ceder, por isso, uma conversa pode ajudar quanto ao assunto.
- Benjamin, eu espero que não esteja falando sobre eu ceder em relação ao contrato. Eu jamais vou fazer algo que vá fazer com que eu me sinta suja!
- Caramba! Mas você já tem uma opinião formada sobre isso antes mesmo de me escutar! - Ele exclama parecendo exasperado.
- Mas você vai dizer o que eu já sei! Terei que seguir a suas regras, coisa que eu não quero, e terei uma recompensa por fazer sexo com você, coisa que eu também não quero. Eu não vejo como você pode me convencer a assinar! - Digo cruzando os meus braços na altura do peito, enquanto ele me encara balançando a cabeça para os lados com seu cenho franzido.
- Esse é o ponto, Mel. Eu não quero que me obedeça, gosto de estar te descobrindo uma garota bem teimosa. - Ele segura o meu rosto em suas mãos, tentando me passar uma mensagem silenciosa. - Você é especial para mim.
Bufo e tiro suas mãos do meu rosto.
- Se eu sou tão especial para você, porque preciso assinar um contrato sob esses termos como todas as outras?
Eu só quero que ele entenda o meu ponto de vista. Eu sei que deve haver algum tipo de bloqueio em sua mente e coração que faz ele agir assim, mas eu não posso ajudá-lo se ele não se abrir comigo. Eu estou disposta a entender ele, mas até esse dia, ele tem que entender que esse contrato iria fazer com que eu me sentisse uma prostituta. Mesmo com a minha mente abrindo aos poucos e eu me descobrindo, eu não posso ignorar quem eu fui a minha vida inteira. Eu fui criada de uma forma cheia de princípios, e não posso quebrá-los sem saber se fazem ou não parte de mim. Eu o quero tanto, mas tudo está confuso demais na minha cabeça.
- Puta merda, Mel. Não faz isso. Não diz isso e nem me olha dessa forma. - Ele se levanta da banqueta, virando de costas para mim e passando a mão pelo cabelo, parecendo exasperado. - Durante todo esse tempo em que estivemos separados, em que eu dei um tempo para você pensar, você não saiu da minha cabeça por nem um instante. - ele se vira para mim, olhando em meus olhos. - Ter você hoje em meus braços foi... puta que pariu! A melhor coisa que me aconteceu.
O seu olhar escurece alguns tons enquanto eu o encaro. A única forma da gente ficar juntos é se eu convencê-lo ao menos a me entender e se abrir comigo, fora isso, estaremos perdidos.
- Ruiva, eu quero você pra caralho. Eu quero de verdade, e eu não poder abrir mão desse contrato não significa que você é igual a todas as outras. Cacete, Mel! Eu posso até me casar, mas não abro mão desse contrato.
O encaro sentindo a borda dos meus olhos se encherem de lágrimas. Eu quero lutar por ele, eu realmente quero. Ele está demonstrando que me quer de verdade, mas somente nos termos de um contrato. Deus, eu queria insistir mas estou cansada demais. O meu coração está doendo por saber disso, e seria mais lógico que eu tentasse o entender, mas de verdade, eu já não aguento mais ter que lidar com tantas coisas.
- Nenhuma? Nenhuma chance de ficarmos juntos? - A minha voz falha, entrega todos os meus pensamentos inquietantes, e quando ele balança a cabeça para os lados, eu tenho a certeza.
- Eu sei que eu disse que ia deixar você tentar, mas de verdade, você não vai conseguir mudar o que tem dentro de mim. Eu gosto de você, você gosta de mim, porque não tenta fazer um esforço, Mel? Se quiser, podemos ir com calma em relação a isso até que você se sinta pronta...
Eu me levanto da banqueta antes mesmo dele terminar.
- Eu sinto muito, Benjamin... - Sussurro com as lágrimas deslizando pela minha bochecha, e eu levanto o meu olhar para encontrar o seu, que parece inquietante. - Eu sinto muito, pois eu estou cansada demais. Eu queria te ajudar, mesmo sem saber de que tipo de ajuda você precisa, mas se você está deixando claro que eu não vou conseguir mudar o demônio que tem dentro de você, eu não vou insistir. Eu não vou assinar esse contrato... estou indo embora. - Murmuro sentindo as lágrimas quentes deslizando pela minha bochecha, querendo estar no meu apartamento novamente, chorar até que essa dor passe.
Mas quando eu passo por Benjamin, as suas mãos prendem na minha cintura, me puxando e me virando na sua direção, me encarando como se o mundo fosse acabar assim que eu o deixar.
- Mel, calma. Por favor, olha para mim; - Ele segura o meu rosto em suas mãos. - Eu te dei um mês, se você ao menos soubesse o que eu sinto por você, Mel. E você prometeu que...
- Eu sei o que eu disse, Benjamin! - O interrompo e tiro suas mãos do meu rosto, enxugando as lágrimas, em seguida. - Eu disse que estaria disposta a lutar e convencer você de que não precisa desse contrato para ser feliz. Mas você não quer! Nem pensa na ideia de se libertar disso! Então, sim! Eu desisto antes mesmo de lutar! Eu estou tão cansada... - As lágrimas continuam a deslizar incessantemente, e eu cubro o meu rosto com as mãos. - Dói demais saber que você nem mesmo procura me entender. Deve estar me achando uma fresca por agir assim, mas vá à merda! Eu não tive nada durante toda a minha vida que me fizesse ser uma adolescente normal e fui privada de tantas coisas. Me desculpe, mas não me libertei de uma amarra para me prender a outra. Eu sou louca para te ter, Benjamin. Mas estou esgotada. Você sabe disso, eu fui enganada por todos à minha volta e você foi uma dessas pessoas. Eu perdi a minha mãe e estou aprendendo a me virar sozinha, quando na verdade eu não sei... e eu sequer posso contar com o meu próprio pai.
Benjamin segura mais uma vez o meu rosto em suas mãos quando um soluço me escapa inesperadamente, se rompendo pela minha garganta, causado pela enorme pressão em meu peito.
- Você não está sozinha. Olha para mim. Eu estou bem aqui por você.
Um sorriso descrente aparece em meu rosto, enquanto balanço minha cabeça para os lados.
- Está mesmo? Eu prometi a você que iria te ajudar aqui. - Ponho uma das mão em seu peito, exatamente onde as batidas do seu coração estão aceleradas. - Mas agora eu estou desistindo, e eu sei que você merece alguém que lhe ajude, mas eu não posso. Por isso acho que não te mereço, você deveria começar a filtrar quem é especial na sua vida.
- Porra! Para de ser tão autodepreciativa. Você já fez tanta coisa boa comigo, mudou muitas coisas dentro de mim. Você pode não perceber, mas sou eu que não mereço você, mas sou egoísta demais para te deixar ir. Assim como estou sendo egoísta agora. Eu quero você. - Ele repete lentamente, com o seu olhar tão intenso que eu poderia me deixar levar agora mesmo.
- Não importa o quanto você insista, eu nunca vou me vender, assim como você nunca vai se abrir comigo e me fazer entender, então para quê insistir?! - Pergunto me afastando dele mais uma vez, não conseguindo entender tudo isso.
- Mel, eu já lhe disse tantas vezes. Não é nada disso que você está pensando...
Ele tenta segurar os meus braços, porém mais uma vez eu me desvencilho dele, evitando que eu mesma me entregue sem pensar nas consequências, pois é isso que o seu olhar causa em mim.
- Coloca de uma vez na sua cabeça que eu não sou esse tipo de pessoa! Se você não está disposto a se ajudar, eu não posso fazer absolutamente nada! Tem tantas candidatas por aí que não perderiam a chance de serem suas escravas sexuais, ou sei lá que merda é essa, mas eu não! De verdade, Benjamin. Eu não!
Sequer tenho tempo para ver a sua reação, pois me viro rápido costas para ele e praticamente saio correndo do seu apartamento, ouvindo ele me chamar baixinho. Eu não queria pensar demais sobre isso, mas aquilo estava me atormentando. Eu quero ele, e ele também me quer, mas se a única forma de ficarmos juntos é com um contrato que me faça me sentir suja, eu não o quero. Quero viver um pouco dessa liberdade que estou vivendo, e é exatamente por este motivo, que não posso me prender a ele. Eu saio do seu prédio, com o pensamento de que ele encontre alguém que consiga o ajudar mais do que eu, pois é nítido que ele tem traumas fortes. Mas eu sou fraca demais para lutar por ele.
Eu estava atravessando a rua, completamente perdida quando o farol de um carro reluziu em meu rosto. Acho que eu congelei no lugar, percebendo o carro se aproximar de mim em alta velocidade. Acho que eu poderia desmaiar naquele mesmo instante, pois a minha cabeça estava girando e me deixando tonta. Meu corpo estava trêmulo e apenas uma frase se repetia na minha cabeça.
Eu vou morrer!