Alessa
Acordei com o som suave da respiração de Leo ao meu lado. Abri os olhos lentamente, a luz do sol filtrando-se pelas frestas da janela quebrada. O quarto estava silencioso, exceto pelo som do vento que passava pelas cortinas puídas. A casa, se é que podíamos chamar assim, era pequena, apertada, e eu sabia que o que tínhamos ali era tudo o que conseguiríamos manter. Um quarto, um banheiro compartilhado, e uma cozinha onde o cheiro de café sempre parecia disfarçar o cheiro de abandono.
Leo estava dormindo profundamente, a testa franzida como se estivesse tendo um pesadelo, mas seu rosto tranquilo logo voltou à normalidade. Eu o observava, pensando em como ele ainda era tão jovem para carregar o peso do mundo nas costas. Era por ele que eu me levantava todas as manhãs, enfrentava a exaustão, e continuava a lutar. Ele não sabia, mas eu me recusava a deixar que o que aconteceu com nossos pais o destruísse. Era isso que nos mantinha de pé, apesar de tudo.
O silêncio da casa era confortável, mas também sufocante. Não havia luxo aqui. Não havia espaços grandes, sofás macios ou paredes coloridas. A pobreza estava em cada canto, mas o que mais doía não era o pouco dinheiro ou as contas que nunca paramos de acumular, mas o vazio da saudade. Saudades dos meus pais, de uma vida que, eu sabia, não voltaria.
Muitas vezes me perguntava como seria se tivéssemos tido uma chance de viver de outra forma. Se as coisas tivessem sido diferentes. Mas o que seria da minha vida, afinal? Uma vida sem Leo não teria sentido. Ele era tudo o que me restava.
Suspirei e me espreguicei, tentando afastar os pensamentos pesados. Levantei-me com cuidado, para não acordar Leo, e fui até a pequena pia da cozinha improvisada. Enchi uma panela com água e coloquei no fogão, ligando o gás. O café me ajudaria a começar o dia, mas, sinceramente, o que eu mais precisava era de algo mais. De algo que me fizesse acreditar que as coisas podiam melhorar.
Mas, naquele momento, as palavras de meu pai ecoaram na minha mente, como um lembrete doloroso do que havia acontecido. Ele sempre dizia que o destino era algo que não podíamos controlar. E agora, aqui estava, tentando encontrar alguma forma de controlar o meu, mesmo sabendo que ele já estava completamente fora das minhas mãos.
O cheiro do café começou a se espalhar pela casa, mas antes que eu pudesse servir a primeira xícara, senti um movimento ao meu lado. Leo se mexia na cama, ainda meio atordoado com o sono. Ele sempre acordava tarde, mas nunca reclamava, sempre dizia que a noite era o momento em que ele conseguia descansar de tudo.
Com um suspiro, ele se virou para o lado e me abraçou, como fazia desde que éramos crianças. Eu sorri baixinho, tentando segurar a emoção. Leo sempre foi meu porto seguro, mas ao mesmo tempo, me lembrava constantemente da responsabilidade que eu carregava.
- Bom dia, Alessa - disse ele, a voz rouca de sono, enquanto encostava a cabeça em meu ombro.
- Bom dia, Leo - respondi suavemente, acariciando seus cabelos. - Dormiu bem?
Ele assentiu, mas o olhar pensativo logo tomou conta de seu rosto. Leo era muito mais introspectivo do que eu gostaria. Às vezes, me perguntava o que se passava em sua cabeça.
- Eu estava pensando - começou ele, soltando-me lentamente para se sentar na cama. - Não sei se vale a pena continuar com a escola, Alessa. Talvez eu devesse começar a trabalhar. A gente precisa de dinheiro, e você não pode fazer tudo sozinha.
Eu me endireitei, preocupada, tentando entender o que ele queria dizer. Ele tinha apenas 16 anos, ainda estava na escola, mas sabia o quanto a situação estava difícil.
- Não fala isso, Leo - disse, com firmeza, embora uma sensação de preocupação me invadisse. - Você tem um futuro. Estudar é importante. Não podemos abrir mão disso. Eu vou te ajudar no que for preciso.
Ele suspirou, levantando-se e indo até a janela. A luz do sol batia em seu rosto, mas não escondia a frustração que ele tentava esconder.
- Eu sei, mas... - Ele se virou para mim, com uma expressão que eu não gostava de ver em seu rosto. - A escola não está nos ajudando a sobreviver, Alessa. O que vale mais agora? Estudar ou trabalhar para ajudar aqui em casa? O que você ganha sendo bartender não é nada, não é?
Eu senti uma pontada no peito. Leo sempre foi direto e, às vezes, suas palavras eram mais duras do que eu queria admitir.
- Não é fácil, eu sei - falei, tentando manter a calma. - Mas a gente não pode desistir. Você tem que terminar a escola, Leo. Isso vai ser importante para o seu futuro. Trabalhar agora é só uma solução temporária. Não podemos abrir mão dos nossos sonhos por causa disso.
Ele balançou a cabeça, irritado.
- Eu sei que você quer me proteger, mas eu também quero ajudar. Você não pode carregar tudo sozinha. Eu posso fazer alguma coisa, qualquer coisa. Só não posso ficar parado aqui, vendo você se sacrificando.
Senti o coração apertar. Leo estava crescendo rápido demais, e eu não sabia o que fazer para convencê-lo de que o que eu mais queria era que ele tivesse um futuro melhor. Um futuro que nós dois merecíamos, longe da luta diária pela sobrevivência.
- Não é sobre você ficar parado, Leo. É sobre você ter oportunidades. O trabalho é só uma parte do que podemos alcançar. Você tem que continuar estudando, e eu vou fazer o possível para que a gente tenha mais chances - disse, tentando ser firme.
Ele ficou em silêncio por um momento, como se estivesse ponderando o que eu havia dito. Mas a expressão no seu rosto não desapareceu. Ele estava determinado, e isso me preocupava.
Eu sabia que ele estava certo em parte. O trabalho no bar mal dava para pagar as contas. Mas para mim, a educação dele era a única chance de mudarmos nosso destino. Não podia deixar que ele desistisse agora.
- Vou dar mais aulas para você, Leo - falei, com um sorriso forçado. - A gente vai conseguir. Eu prometo.
Eu olhei para Leo e respirei fundo, tentando encontrar as palavras certas. Ele ainda estava na janela, pensativo, mas eu sabia que ele precisava entender algo mais.
- Leo, eu sei que você não vê muita utilidade nos estudos agora, mas a verdade é que o que a gente tem... é o conhecimento - comecei, com calma, enquanto me aproximava dele. - Eu dei aulas para você porque sei que a única maneira de a gente mudar de vida é estudando. Eu não tenho muito para te oferecer, mas a educação... isso ninguém pode tirar da gente. Isso é nosso.
Leo me olhou por cima do ombro, os olhos ainda nublados pela dúvida, mas algo na minha voz parecia chamá-lo de volta ao que realmente importava.
- Você sabe que quando a gente perdeu nossos pais, não foi só a casa e o dinheiro que desapareceram - continuei, tentando ser honesta, sem que as palavras do desespero transbordassem. - Foi também a chance de aprender mais, de ter um futuro diferente. O que eu estou tentando fazer, mesmo que pareça difícil, é te dar o melhor caminho. Eu não quero que você seja como eu, Leo. Eu não quero que você trabalhe no que eu trabalho, em um lugar onde cada dia é só para sobreviver. Quero que você seja mais do que isso.
Eu o vi encarar o chão, pensativo. Ele nunca gostava quando eu tocava nesse assunto. Ele sentia, assim como eu, que não éramos como outras pessoas. Que o mundo parecia ter tirado de nós a chance de viver como "normais". Mas ele ainda era jovem, e eu tinha que acreditar que ele poderia ter mais.
- Eu sei que o dinheiro é um problema, e eu vejo como você fica preocupado - continuei, agora caminhando em direção à mesa onde tinha alguns livros. - Eu nunca quis que você parasse de estudar. Eu não sou professora, mas, por algum motivo, tenho que ensinar a você o que aprendi. Cada manhã, antes de ir trabalhar, tento te dar o máximo que posso. São poucas horas, eu sei, mas o que importa é o que a gente consegue fazer com o que tem.
Leo ainda estava quieto, mas suas mãos estavam fechadas em punhos ao lado do corpo, como se tivesse algo a mais para dizer. Ele se virava para mim, uma expressão de conflito estampada em seu rosto.
- Você tem razão, Alessa... - Ele se virou para a mesa e pegou os livros que eu havia deixado ali, começando a folheá-los. - Eu sei que não é o melhor caminho, mas sinto que estou tão longe do que eu deveria estar. Você sempre tenta me dar as respostas, mas e você? O que está fazendo para sair dessa vida, Alessa?
Sua pergunta me pegou de surpresa. Eu nunca havia falado sobre meus próprios planos, porque eu não tinha um. O que eu fazia era trabalhar, trabalhar e trabalhar mais, para garantir que ele tivesse uma chance. Mas a verdade é que eu sentia que minha vida já estava definida. O bar, os turnos longos, a luta diária para pagar as contas - parecia que era só o que restava para mim.
Fui interrompida pela minha própria voz, que saiu sem querer, meio sem pensar:
- Eu não sei, Leo... Eu não sei o que fazer. Só sei que, por você, eu vou continuar tentando. Mas, por favor, não faça isso... Não pare de estudar. Eu não quero que você seja como eu. Você merece mais.
Ele permaneceu em silêncio por um momento, o peso da nossa conversa pairando no ar. Então, finalmente, ele se aproximou de mim, colocando a mão no meu ombro, como se quisesse me lembrar de que, no fundo, éramos uma equipe.
- Eu vou tentar, Alessa. Eu sei que você tem razão... Eu só não quero te ver sozinha nisso. Vou continuar com os estudos, prometo.
Eu sorri, aliviada. Não era a solução perfeita, mas era o melhor que podíamos fazer com o que tínhamos.
- Obrigada, Leo. Agora, vamos lá, você tem muita lição para fazer - disse, tentando suavizar o clima.
E assim, continuamos nossa rotina. Eu, tentando ser professora em casa, e ele, tentando não desistir dos seus sonhos, mesmo com a dura realidade que enfrentávamos.
A tarde se arrastava lenta. Leo saiu de casa mais cedo do que o habitual, aproveitando a leve camada de neve que havia caído durante a noite. Ele costumava ajudar os vizinhos quando a neve se acumulava, oferecendo seu tempo e força em troca de uns trocados. Eu sempre ficava um pouco preocupada, mas ele dizia que preferia fazer isso a ficar parado, esperando que o dia passasse.
Eu observei pela janela enquanto ele empurrava a neve, com os braços gelados e o rosto vermelho. Ele era jovem demais para já estar fazendo esse tipo de trabalho, mas eu sabia que ele só queria ajudar. Ele queria contribuir, ainda que fosse com algo simples como limpar a calçada do vizinho. Para ele, cada centavo contava.
Eu voltei para dentro de casa, onde o silêncio logo me envolveu novamente. O lugar estava frio, sem calor, além das lâmpadas tremendo devido ao vento lá fora. Ouvia os passos de Leo se afastando e logo o som das suas botas na neve desapareceu. Ficaria sozinha até ele voltar.
Me forcei a continuar com as tarefas diárias, mas tudo parecia sem vida. A casa era pequena demais para esconder o vazio, e o cheiro de café frio me lembrou que ainda não havia sido capaz de beber um gole quente. As horas passavam, e a sensação de que a vida ali dentro era uma repetição sem fim só aumentava.
Eu varria o chão da cozinha novamente, como se isso fosse fazer alguma diferença. Os móveis, gastos e cobertos por uma camada fina de poeira, pareciam se derreter em sua própria decadência. Enquanto passava o pano, meus pensamentos vagavam para longe, tentando encontrar algo que me distraísse.
O tédio era como uma sombra, sempre ali. O dia se arrastava lentamente, como se o tempo tivesse decidido andar mais devagar quando eu não tinha nada para fazer. Eu mal podia esperar até a noite chegar, quando finalmente seria hora de trabalhar na boate. No entanto, até lá, restava-me apenas esperar, e isso me deixava inquieta. Estava cansada de esperar. Cansada de me sentir invisível.
Claro, o trabalho no bar não era o que eu queria. Eu sabia que minha vida ali não tinha muito futuro, mas o que mais eu poderia fazer? Eu sobrevivia. Isso era o suficiente, pelo menos por agora. A boate me pagava o suficiente para cobrir as contas, mas a exaustão dos turnos longos me pesava mais do que qualquer valor que eles me pagavam. O tempo parecia se arrastar nas horas vazias, mas sempre que eu pensava em desistir, uma parte de mim me lembrava que ainda havia Leo.
Eu parei de limpar e me recostei na cadeira velha, olhando o teto, tentando afastar os pensamentos pesados. O que eu esperava da vida? O que mais poderia acontecer para mudar nossa situação? O que eu estava fazendo, além de viver de um dia para o outro? Mas eu não sabia responder a essas perguntas. Tudo o que eu sabia era que eu tinha que continuar. Para Leo. Para nós.
As horas se arrastaram e, finalmente, o dia escureceu. Eu sabia que estava na hora de me preparar para mais uma noite na boate, e a sensação de cansaço já me dominava antes mesmo de eu sair de casa. O uniforme sujo e os saltos desconfortáveis eram sempre os mesmos. Eu já estava acostumada com o cheiro de tabaco misturado ao álcool, o som abafado da música, as risadas disfarçadas de risos e as conversas forçadas entre clientes entediados.
Mas o que mais pesava em meu peito eram os olhares. Eu os sentia antes mesmo de vê-los. Os homens que chegavam à boate não estavam ali para apreciar a música ou o ambiente. Estavam ali por um único motivo, e esse motivo sempre me fazia sentir como um objeto, uma mercadoria à venda. Eles achavam que tinham direito ao meu corpo, à minha atenção, como se eu fosse só mais uma daquelas garotas que se importavam com o que eles pensavam. Alguns eram mais discretos, outros mais ousados. Mas todos eles me viam da mesma forma: uma peça de reposição, sem identidade, sem valor, além do que eu poderia oferecer a eles.
Era cansativo, doloroso, e ainda assim eu precisava continuar. Quando um cliente se aproximava mais do que o desejado, quando a mão deslizava por minha cintura de forma insistente, eu tentava manter a compostura. Eu sabia o que fazer. Conhecia o jogo. Sorri, evitei o contato visual, e, quando necessário, afastei-me, sempre com a desculpa de que precisava atender a outra mesa. Às vezes, eles ficavam irritados, mas eu sabia que não tinha escolha. Se eu não fizesse o trabalho, outro faria.
Tive que aprender a rir de coisas que não tinham graça, a aceitar comentários indesejados como se fossem apenas parte do cenário. O pior era quando as palavras eram ditas em tom de brincadeira, mas você sabia que havia algo muito mais profundo, algo escuro por trás delas. Alguns homens, especialmente os mais velhos, acreditavam que podiam me tratar como quisessem só porque me viam como parte do cenário. Já me vi perdida em conversas desconfortáveis, tentando escapar, com as palavras se entrelaçando em mentiras que eu já estava cansada de contar. Não, eu não estava ali por prazer. Não, eu não gostava do que acontecia no backstage da boate. Mas ninguém queria saber disso.
O pior de tudo era a sensação de que eu estava sendo moldada por aquele ambiente. Às vezes, sentia como se tivesse deixado de ser Alessa e virado apenas uma figura, uma sombra que passava entre os homens enquanto eles faziam suas apostas, competiam entre si e tentavam fazer de mim mais uma vitória na noite.
Eu sabia que nada daquilo era para mim. Mas o que mais eu poderia fazer? Eu já tinha desistido de tantas coisas. Deixei de sonhar com algo melhor, com uma vida diferente. Leo precisava de mim, e, por mais doloroso que fosse, eu ainda sentia que, de alguma forma, eu estava cumprindo meu papel. Eu sobrevivia. E isso, por agora, era o suficiente.
Eu olhei para o espelho quebrado que estava pendurado na parede da cozinha. Era sempre assim. Quando me arrumava, o reflexo que eu via parecia um pedaço de alguém que eu não reconhecia. O cabelo preso em um coque improvisado, o rosto sem maquiagem, mas com os olhos cansados que me denunciavam. Eu sempre pensava que, se ao menos pudesse sair da rotina, sentir o toque de algo mais bonito, mais confortável, talvez pudesse me esquecer por um momento de tudo o que a vida me impôs. Mas tudo o que eu tinha era aquele reflexo, aquele olhar vazio que estava tão acostumado à luta diária que já não sabia mais como ser outra coisa.
Eu me vesti, puxando o uniforme de bartender, mais uma vez ignorando a sensação de desconforto que ele me causava. O material era áspero, e o corte não favorecia em nada, mas era o que eu podia pagar. O cheiro de álcool e a fumaça do dia já se instalavam na minha pele, como se eu já estivesse preparada para o que estava por vir. O salto alto foi a última peça que coloquei. Eu ainda sentia dor em cada passo, mas não podia me dar o luxo de parecer frágil.
Quando terminei, olhei para Leo, que ainda não tinha voltado. O silêncio da casa agora estava mais pesado, talvez por causa da tensão do que viria mais tarde. O pensamento de deixar Leo sozinho à noite me angustiava, mas não havia alternativa. Eu sabia que ele preferia não saber de nada. Sabia que, de alguma forma, eu o protegia desse mundo, ou pelo menos tentava. Mas era difícil proteger alguém de algo que você mesma não sabia como lidar.
Foi quando a porta se abriu. Leo entrou, com as bochechas rosadas pelo frio e os olhos brilhando de um entusiasmo juvenil que eu adorava ver. Ele havia se esforçado mais do que o necessário para ajudar os vizinhos a limpar a neve. Seu esforço me trouxe uma onda de alívio e um sorriso involuntário. Eu sabia que ele estava fazendo tudo aquilo por mim, para aliviar um pouco a carga.
- Já está pronta para sair? - ele perguntou, deixando os casacos pesados na porta e se aproximando de mim. Ele olhou para meu uniforme com uma expressão que era mistura de preocupação e um tipo de desapontamento, como se ele soubesse que isso não era o que eu merecia.
- Sim, mais uma noite - respondi, tentando dar um sorriso que não fosse tão forçado. O sorriso dele era sempre a luz em um dia nublado. Ele acreditava em mim, acreditava que aquilo não era tudo o que a vida tinha a oferecer. E, de certa forma, eu ainda tentava acreditar também.
Leo olhou para os seus sapatos sujos de neve e fez uma pausa antes de falar.
- Alessa, eu estava pensando... Eu posso trabalhar mais. Ajudar mais com o que a gente precisa. Talvez eu consiga arrumar algo, sei lá... Para não depender de você o tempo todo.
Eu suspirei, sentindo o peso da conversa se arrastar pelo ar, e me aproximei dele. Segurei seus ombros com mais firmeza do que pretendia.
- Leo, você não vai trabalhar. Não vai parar de estudar. - Tentei não parecer tão rígida, mas a ideia dele desistir da escola era como um soco no estômago. - A vida já está sendo dura demais para nós dois. Eu vou dar aulas para você até o fim. Só não me peça para parar com isso, porque eu não vou. Entendeu?
Leo parecia hesitar por um momento, mas logo me deu um sorriso suave, como se estivesse me protegendo de algo que eu sabia que ele não entendia completamente. Ele não sabia o quanto aquilo me consumia, mas eu queria que ele tivesse alguma esperança, algo para se agarrar. Ele não podia abrir mão da sua infância, do que ainda restava de uma vida normal.
- Tá, Alessa. Eu só... não gosto de ver você se esforçando tanto. Você merece mais do que isso.
Eu não soube o que responder. Porque, de alguma forma, ele estava certo. Eu merecia mais. Mas o que eu podia fazer? A realidade era como uma parede fria que me impedia de ver além. Eu respirei fundo.
- E você vai ter mais, Leo. Um dia, você vai. Agora vai para o quarto e tenta descansar, porque essa noite vai ser longa para os dois.
Ele me deu um beijo na bochecha e foi embora, indo para o pequeno quarto, enquanto eu sentava na mesa, me forçando a olhar para o relógio. O tempo parecia se arrastar, mas a noite, essa sim, chegaria rápido demais.
Alessa
Entrei na boate com o peso do mundo nos ombros, sentindo o peso da música alta vibrando em meus ossos. O cheiro de álcool e perfumes baratos me envolvia, e logo fui engolida pela escuridão da casa, onde as luzes piscavam incessantemente e a pista de dança estava lotada. O caos estava em cada canto, mas isso já não me assustava mais. Era o meu trabalho, o meu sustento, e já estava mais do que acostumada com tudo aquilo.
Passei pelos bastidores, onde as outras meninas se arrumavam e se preparavam para a noite. Marisa, uma das minhas colegas, se aproximou de mim com um olhar que eu bem conhecia: preocupada, mas sem querer demonstrar muito.
– Alessa, você chegou... – ela disse, fazendo um gesto discreto para que eu me aproximasse. – Olha, fica esperta. O chefe está estressado hoje. Não parece estar com paciência para nada.
Eu soltei um riso sem humor e dei de ombros. Já sabia como ele ficava nos dias assim. Não era novidade.
– Já me acostumei – respondi, tentando não deixar transparecer o quanto essas palavras eram vazias para mim.
Marisa continuou, mais séria agora, com uma expressão preocupada.
– Só toma cuidado, tá? Ele está dando uns olhares meio... tortos nas garotas que ficaram mais perto da mesa dele ontem. Não quero que você se meta nisso.
Olhei para ela, uma mistura de cansaço e indiferença nos olhos. Não era a primeira vez que ouvia esse tipo de conselho, mas eu sabia o que estava fazendo. Eu sabia onde colocar os limites, ou pelo menos, onde tentar.
– Valeu, Marisa. Vou ficar de olho – murmurei, afastando-me sem mais palavras. Eu não tinha tempo para conversas agora. O relógio estava correndo, e a noite só estava começando.
O chefe era um homem que eu nunca realmente aprendi a decifrar. Antonio Ricci. Um homem de presença imponente, que entrava na sala como se o lugar fosse dele - e na maioria das vezes, era. Ele não era o proprietário da boate, mas controlava tudo o que acontecia ali, como se tivesse um acordo silencioso com o dono. Seu poder vinha do medo, e ele sabia usá-lo com maestria. Com os olhos duros e o sorriso gelado, Ricci não era o tipo de homem que você ignorava ou contrariava. Cada movimento dele exalava controle.
Ele se sentava em sua mesa no canto mais afastado da boate, sempre cercado por alguns dos seus homens de confiança e, é claro, por uma seleção de garotas que ele mantinha por perto - garotas como eu, que sabiam que o trabalho era complicado, mas a alternativa parecia ainda pior. Ricci não precisava pedir nada. Ele só dava um olhar, e a casa se ajeitava ao seu redor. Era um jogo de poder, e ele sempre ganhava.
Quando o vi pela primeira vez, eu soubera imediatamente que ele era um daqueles homens que não se importavam com o que acontecia em volta deles, desde que seu império permanecesse intacto. Eu não sabia o que ele queria de mim, mas percebi rapidamente que ele gostava de observar, de controlar, e de testar os limites de quem estivesse à sua volta. Seu olhar era como uma lâmina afiada, cortando sem se preocupar com quem ou o que fosse atingido.
A boate ficou mais animada à medida que a noite avançava, mas eu não conseguia desviar os olhos dele por muito tempo. Ele estava sentado em sua mesa, como sempre, com um copo de uísque na mão e um olhar distante. Quando nossos olhares se cruzaram, senti um calafrio, mas tentei manter minha expressão neutra. Não podia deixar que ele percebesse o quanto eu estava tensa. Ele gostava disso - da tensão, da sensação de que todos estavam ao seu alcance.
Ricci não era apenas o chefe aqui, ele era a sombra que pairava sobre cada um de nós. E, de alguma forma, ele sabia exatamente como fazer com que eu me sentisse pequena, sem que eu pudesse escapar.
Passei a noite servindo as bebidas, um copo após o outro, tentando me manter o mais distante possível dos homens mais insuportáveis da boate. Mas, como sempre, não demorou para que alguém ultrapassasse os limites.
O barulho da música, as risadas e o cheiro de álcool no ar não me impediam de sentir o olhar do rapaz sobre mim. Ele veio sorrindo, já visivelmente embriagado, e antes mesmo que eu pudesse desviar, sua mão, quente e suja de um desejo arrogante, deslizou pela minha perna. A repulsa foi instantânea, e sem pensar, virei-me bruscamente.
- Que diabos você acha que está fazendo? - minha voz saiu mais alta do que eu queria, mas não me importei. Ele me ignorou, como se fosse natural, e puxou-me para mais perto.
- Relaxa, gata - ele disse, rindo baixo, tentando me agarrar.
O ódio cresceu em mim. Ele não se dava conta de que estava lidando com a pessoa errada. Em um movimento rápido, peguei o copo de vodka que estava na minha mão e joguei todo o líquido nele. O som do vidro quebrando e o líquido escorrendo pela sua camisa foram quase satisfatórios.
Ele olhou para a própria roupa manchada, a raiva tomando conta do rosto dele. - Você vai se arrepender dessa, sua vadia! - Ele gritou, tentando se levantar, mas a falta de coordenação fez com que quase caísse.
Antes que pudesse fazer mais alguma coisa, senti uma mão firme agarrando meu braço com força. Olhei para cima e encontrei os olhos de Ricci, frios e mortais.
- O que diabos você pensa que está fazendo? - Ricci rosnou, puxando-me com brutalidade para longe do homem ainda tentando se recompor. - Aqui não é lugar para suas cenas, Alessa. Você tem noção de onde está? - Ele apertou meu braço, a pressão insuportável, como se me lembrasse do meu lugar ali.
Eu não consegui mais olhar para o rosto do rapaz, nem para Ricci, que me arrastava pelos corredores escuros. Meu coração batia rápido, mas não tinha escolha.
Ricci me puxou com tanta força que quase perdi o equilíbrio, os dedos dele cravando em minha pele com violência. Eu queria gritar, queria sair correndo, mas sabia o que isso significaria. A última coisa que ele queria era ser desafiado na frente dos clientes.
- Você acha que pode fazer o que quiser aqui? - a voz dele estava carregada de desprezo. Ele me empurrou contra a parede fria do corredor, os olhos fulminando com um ódio que eu conhecia bem. - Não me importa o quanto você odeie esse lugar. Eu pago você para servir, não para causar confusão.
A dor no meu braço era quase insuportável, mas o medo de agravar as coisas me fez permanecer em silêncio. Eu sabia que não podia falar demais ou ele perderia completamente a paciência.
Ele se aproximou, o cheiro de cigarro misturado ao perfume barato que ele usava me fazia engolir a repulsa. - Se fizer mais uma cena, vou garantir que nunca mais trabalhe em lugar algum.
Eu queria gritar, me defender, mas tudo o que consegui fazer foi manter os olhos fixos no chão, sentindo a humilhação rasgar o pouco de orgulho que restava em mim.
- Agora, levanta e vai voltar a servir os clientes - Ricci ordenou, sua voz gélida e autoritária. - Faça exatamente o que eles pedirem, e se não agradar, será ainda pior.
Ele se afastou, e com um empurrão final, me mandou de volta para a área principal. O som da música já não parecia tão distante, e as luzes piscavam, quase zombando da minha situação. Eu precisava continuar, não tinha escolha. A raiva estava lá, queimando por dentro, mas sabia que nada disso iria mudar.
Voltei para a parte principal da boate, a sensação de humilhação e raiva corroendo minha alma a cada passo. Fui até o balcão, com um sorriso forçado, atendendo aos clientes como sempre fiz. Mas, por dentro, eu estava em guerra comigo mesma.
Enquanto servia mais uma rodada de bebidas, o ambiente parecia se distorcer ao redor de mim. Eu estava tão absorta nos meus pensamentos, tentando manter a calma e fazer o meu trabalho, que mal percebi o olhar fixo sobre mim até que ele se tornou impossível de ignorar. Um olhar profundo, como se atravessasse minha alma.
Eu me virei lentamente, e ali, no canto da mesa, havia um homem observando-me com intensidade. Seus olhos, sombrios e calculistas, estavam fixos em mim, como se me conhecesse, como se soubesse o que eu estava tentando esconder. O brilho de seu olhar fez meu corpo se tensionar instantaneamente.
Ele não disse uma palavra, mas o olhar... aquele olhar pesado e penetrante, parecia me rasgar por dentro. Por um segundo, ele notou meu braço, o hematoma roxo que Ricci havia deixado ao me arrastar. O homem inclinou a cabeça, como se estivesse analisando cada detalhe, mas antes que eu pudesse processar qualquer coisa, ele se afastou, virando-se para a conversa com os outros na mesa.
O choque foi imediato. Algo sobre aquele olhar... Ele me conhecia? Ou apenas estava me estudando como um predador observa a presa? Eu me afastei rapidamente, sentindo o coração bater mais rápido. Mas, à medida que ele voltava à conversa, me perguntava se ele sequer tinha percebido o quanto me incomodou sua presença.
No fundo, eu sabia que algo não estava certo. Mas o que poderia ser? Ele era apenas mais um cliente, certo? Como todos os outros. Porém, esse homem... algo nele parecia diferente.
Tentei afastar o pensamento e continuei meu trabalho, mas o olhar dele ficou na minha mente, martelando a cada movimento que eu fazia.
O relógio na parede indicava quase 5 da manhã quando finalmente consegui sair da boate. Meus pés estavam pesados, o corpo exausto, e a mente sobrecarregada por tudo o que aconteceu naquela noite. A cidade ainda estava adormecida, com as ruas vazias e a luz do amanhecer começando a pintar o céu de um tom suave de azul. Eu caminhava lentamente, sem pressa para chegar em casa, como se a única coisa que quisesse fosse um pouco de paz, um pouco de silêncio.
Quando cheguei em frente à casa, vi Leo parado na porta, esperando. Ele sempre ficava acordado até eu voltar, uma forma de se garantir de que eu estava segura. Ao me aproximar, ele me olhou com aqueles olhos preocupados, como sempre fazia, mas algo naquela noite parecia diferente. Seu olhar foi direto para meu braço, que ainda estava roxo e inchado, fruto da violência de Ricci.
- Alessa... - Sua voz saiu baixa, quase um sussurro. Ele deu um passo em direção a mim, com a expressão de quem já sabia o que havia acontecido, mas não queria perguntar.
Eu tentei sorrir, tentando afastar o medo que começava a crescer dentro de mim, mas era difícil mentir para ele. Ele já sabia.
- Não é nada, Leo - falei, forçando um tom leve. - Só... uma queda. Nada demais.
Ele não acreditou. Seus olhos estreitaram, e sua mão foi até o meu braço, tocando o hematoma com cuidado, como se temesse que pudesse me machucar mais.
- Alessa, isso não é normal. Quem fez isso?
Eu respirei fundo, tentando encontrar uma resposta, mas nada que eu dissesse poderia aliviar o peso daquela noite. Olhei para o céu, como se ele pudesse me dar alguma resposta, alguma saída.
- Não importa, Leo - falei finalmente, com uma voz cansada. - Eu só... preciso de um pouco de descanso, ok?
Ele me encarou por um momento, a frustração visível em seu rosto, mas ele não insistiu. Era sempre assim. Eu dizia que estava tudo bem, e ele acreditava. Pelo menos por enquanto.
- Só me promete que vai tentar não se machucar mais - ele murmurou, soltando um suspiro pesado e me dando um abraço rápido. - Eu não quero ver você assim de novo.
Eu fechei os olhos por um instante, sentindo o calor do abraço, e então sussurrei:
- Prometo, Leo. Eu prometo.
Entrei na casa, sentindo o peso da noite me arrastando para a cama. Leo já tinha entrado e se deitado, mas ainda estava acordado, como sempre. Fiquei parada por um momento, olhando para ele, com o cansaço tomando conta do meu corpo. Cada movimento parecia mais lento do que o anterior, e eu só queria dormir, esquecer por algumas horas a dor e o peso da noite.
- Dorme, Leo - falei baixinho, jogando a mochila no canto e me sentando na cama. - Eu vou dormir um pouco agora, mas à tarde a gente vai estudar, ok?
Ele respondeu com um simples "tá bom", mas seu olhar permanecia preocupado, fixo no meu braço. Sabia que ele sabia que algo estava errado, mas ele também sabia que eu não iria falar mais sobre isso. Não agora. Talvez nunca.
Me deitei, fechando os olhos e tentando acalmar a mente, mas o cansaço me dominou rapidamente. O sono veio em ondas pesadas, e logo eu estava imersa em um sono profundo, esperando que as poucas horas de descanso me renegassem para o que viria.
Naquele momento, o que mais queria era apenas um dia tranquilo. Mas sabia que, na minha vida, tranquilidade era um luxo que eu não podia me permitir.
Acordaria de tarde para mais uma aula para Leo, depois teria que me preparar para a noite. O ciclo nunca parava. Aula durante a tarde, trabalho de noite, e poucas horas de sono pela manhã. Só tinha uma folga, no domingo, mas até lá, a rotina me consumia. Eu me perguntava até quando conseguiria continuar assim, vivendo entre a esperança e a sobrevivência.
Alessa
O sol já estava alto quando eu abri os olhos, a luz filtrando pela cortina rasgada. O quarto pequeno e abafado estava vazio, exceto por Leo, que ainda dormia pesadamente ao meu lado, como se o peso do mundo não o alcançasse. Senti um aperto no peito ao observá-lo. Eu sabia que ele não queria que eu carregasse o peso de tudo sozinha, mas a realidade não era tão simples.
Levantei-me devagar, tentando não fazer barulho, e fui até a cozinha improvisada. O cheiro de café queimado misturado com o mofo da parede me dava a sensação de que, não importa o quanto eu tentasse, nunca conseguiríamos escapar. Mas não podia pensar nisso agora.
Coloquei a chaleira no fogo e comecei a preparar um café fraco, como sempre fazia. Meus olhos se fixaram na janela quebrada. Eu sabia que a vida de Leo poderia ser melhor do que isso. Ele merecia mais. Mas, por mais que eu me esforçasse, a vida nunca parecia seguir o caminho que eu queria.
Quando o café estava pronto, Leo acordou, ainda sonolento, mas com o olhar de quem sabia o que estava acontecendo. Ele se levantou e foi até a mesa, onde sentou-se como sempre fazia, já pegando o livro de história que eu deixara ali na noite anterior. Era a nossa rotina.
- Você sabe que não precisa fazer tudo isso, né? - ele falou, as palavras arrastadas, mas sinceras. - Eu posso ajudar mais, trabalhar... Já te disse, eu poderia... - Ele hesitou, mas seus olhos mostravam que já havia pensado em tudo isso antes.
Eu respirei fundo, tentando não deixar a frustração tomar conta de mim, mas não consegui. Bati com força na mesa, o som do impacto ecoando no pequeno quarto.
- Leo, já falei que não! - Minha voz saiu mais alta do que eu queria, mas a raiva que se acumulava dentro de mim não permitia outra reação. - Você tem que estudar, tem que ter um futuro. Não vou deixar você perder isso! Não vou deixar você fazer as mesmas escolhas que eu fiz! Você tem que ser diferente!
Ele me encarou com os olhos de sempre, como se estivesse absorvendo cada palavra, mas eu podia ver que a impaciência começava a tomar conta dele. Ele não queria ouvir isso. Não queria ser tratado como uma criança que precisava ser protegida o tempo todo.
- Eu só... - Leo parou, como se buscasse as palavras certas, mas parecia que já estava cansado de discutir sobre isso. - Eu só quero ajudar, Alessa. Eu não quero ver você se matando trabalhando, indo para aquele lugar onde eles não te respeitam. A gente já está sofrendo demais, você sabe disso.
Meu coração apertou. Ele estava certo em tantos pontos, mas a ideia de vê-lo desistir dos estudos, de ver a esperança se esvair, me fazia sentir como se eu tivesse falhado. Eu não sabia mais o que fazer para protegê-lo. Para dar a ele algo melhor.
- Não, Leo - respirei fundo, mais calma agora, embora a raiva ainda queimasse por dentro. - Você vai terminar a escola, vai se formar, vai ser alguém. Não vou permitir que essa vida te arraste. E eu vou fazer tudo o que for preciso para garantir isso, entendeu?
Ele cruzou os braços, o olhar desafiador, mas o que eu mais temia era que ele realmente não acreditasse mais em mim. Na nossa luta.
- Eu entendo - ele disse baixinho, mas o tom de frustração ainda estava lá, mesmo que ele tentasse esconder. - Só não sei até quando vou aguentar.
Eu sabia que ele estava exausto. Eu também estava. Mas não havia outra opção. Eu não podia deixar ele desistir.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, antes que eu pegasse os livros de história e os colocasse na mesa, empurrando-os de volta para ele.
- Agora, vamos estudar. Não temos tempo a perder.
Ele resmungou algo, mas finalmente pegou os livros e começou a folhear. Não foi fácil, mas era o que restava. Nossa rotina continuava, e eu sabia que não podia deixar que o desespero nos consumisse.
Passaram-se algumas horas até que o sol começasse a se pôr, e a tarde foi se esvaindo lentamente entre o som das páginas viradas e as palavras que eu tentava ensinar a Leo. Eu podia ver que ele estava cansado, mas se esforçava. No fundo, ele queria entender. Queria mais. Mas eu podia sentir que ele estava se sentindo cada vez mais preso na rotina que, de alguma forma, parecia não ter fim.
Eu também me sentia assim.
Quando finalmente fechamos os livros e a tarde se despedia, Leo foi até a cozinha preparar algo simples para nós, como sempre fazia. Eu, por outro lado, me preparei para o turno na boate. Não havia outra opção. O dinheiro que ganhávamos mal cobria as necessidades mais básicas, e meu trabalho como bartender era tudo o que restava.
O pensamento de ter que voltar para aquele lugar, onde o ar era pesado de promessas quebradas e olhares lascivos, me fazia querer sumir. Mas não podia. Minha vida estava no fio da navalha, e eu sabia que o que eu fizesse ou deixasse de fazer poderia mudar tudo para nós.
A última coisa que eu queria era que Leo visse tudo o que acontecia lá. Eu fazia o possível para que ele não soubesse dos meus sacrifícios. Mas, às vezes, era impossível esconder o desgaste.
Quando me olhei no espelho, já vestindo a roupa de trabalho, notei as olheiras profundas. O cansaço físico era uma coisa, mas a dor dentro de mim era uma constante. O que eu estava fazendo com minha vida? Até quando eu poderia continuar dessa maneira?
Fui interrompida pelos passos de Leo se aproximando da porta.
- Eu vou dormir cedo hoje - ele disse, me lançando um olhar cansado. - Tente não se estressar lá, ok? Você sabe o que fazer, só não se envolva em briga.
Eu sorri fraco, tentando passar a ideia de que estava tudo bem, que tudo ficaria bem. Mas no fundo, eu sabia que ele já via mais do que eu queria que ele visse.
- Vou tentar, Leo. Fica tranquilo - respondi, me virando para pegar minha bolsa e meu casaco. O caminho de volta à boate me esperava, e eu tinha que encarar mais uma noite.
E mais uma vez, o relógio giraria em um ciclo vicioso, com a esperança escapando pelos dedos e a sensação de que a qualquer momento, o chão poderia desabar de vez. Mas eu não tinha escolha. Eu precisava continuar.
Dante
Eu estava sentado à mesa de meu escritório, o olhar fixo na pilha de papéis espalhada à minha frente. Não me importava com os números ou as siglas que apareciam em cada página, mas eu sabia que era necessário, que tudo aquilo tinha um propósito. A máfia, como a maioria das coisas na vida, era feita de números, contratos e, claro, ameaças.
Marco, meu segurança de confiança, estava na minha frente, olhando com atenção para os papéis enquanto eu fumei o último cigarro de uma longa série. Ele sempre soube que eu preferia lidar com as coisas de forma mais direta, sem rodeios, mas havia algo nos últimos dias que estava me incomodando.
- As ameaças aumentaram - Marco disse, sua voz grave e calma. Ele nunca era de fazer suposições, então quando ele falava assim, eu sabia que não era só conversa fiada.
Olhei para ele, sem surpresa, mas com um leve aperto no peito. Cada palavra que ele falava só confirmava o que já sabia. Os recados anônimos. Os olhares furtivos. As conversas nas ruas. Tudo apontava para a mesma coisa: estavam tentando me derrubar.
- Eles estão cada vez mais ousados - respondi, o olhar fixo no fundo da minha bebida. - Mas vão se arrepender. Não sou alguém fácil de derrubar, e vão perceber isso em breve.
Marco assentiu. Sabia que eu não gostava de perder tempo com explicações, mas ele me conhecia o suficiente para saber que, quando eu falava assim, o risco era real. Ele estava mais preocupado com a pressão que sentia no campo político. A paz que tentávamos alcançar com a Itália estava começando a desmoronar. Um erro, um passo errado, e tudo viraria pó.
- E o acordo de paz com a Itália? - Marco perguntou, seu olhar mais sério agora.
Eu fechei os olhos por um momento, respirando fundo. Esse acordo era a chave para muitos dos meus planos. Mas não podia ser ingênuo. Não confiava nem mesmo nos meus próprios aliados, quem dirá em quem estava do outro lado da mesa.
- Está indo bem, mas não posso baixar a guarda. Alguns querem me ver na lona, e é só questão de tempo até que tentem fazer alguma besteira. Vamos nos manter alertas.
Eu me levantei da cadeira e caminhei até a janela, olhando para a cidade. Cada luz, cada movimento, cada sombra, era uma peça nesse jogo de poder e violência. Eu precisava manter o controle, ou tudo o que construí tinha chance de desmoronar.
- Está tudo sob controle. Mas à noite, eu vou à boate do Ricci. Ele tem algo que preciso ver de perto. Quem sabe um pouco de diversão também não faz bem... - soltei a frase como se fosse uma mera constatação, mas ambos sabíamos que o que estava por trás daquela visita não era só um simples prazer. A boate de Ricci poderia ser uma fachada, mas em algumas noites, as informações mais valiosas vinham de onde menos se esperava.
Eu observava a cidade pela janela, com os olhos fixos nas luzes distantes. A cidade nunca dorme, e eu tampouco. Mas, ao contrário de muitos, a noite não era meu refúgio. Não havia descanso para um líder como eu, alguém constantemente em guerra, seja com outras famílias ou consigo mesmo. Cada movimento na minha vida era calculado, cada decisão tinha um preço. A minha jornada foi feita com sacrifícios que poucos poderiam entender.
Desde pequeno, fui treinado para ser implacável. O sangue em minhas mãos não é apenas figurativo. As cicatrizes em meu corpo, tanto físicas quanto emocionais, são marcas de uma vida onde a fraqueza não tinha lugar. Meu pai, Lorenzo, me preparou para isso, me moldou para ser o homem que sou. Mas foi a morte de minha mãe, Sofia, e a perda de Matteo, meu melhor amigo, que realmente me fizeram entender que este mundo é cruel demais para aqueles que têm coração. Eles me ensinaram a duras penas que a lealdade é algo raro e que, se você quiser sobreviver, precisa ter o controle absoluto.
Eu não tinha amigos. Eu não sabia o que era confiança. O que me restava era poder, e era disso que eu me alimentava. Eu era o chefe da família Romano, o último bastião da nossa linhagem, e ninguém ousaria desafiar minha autoridade, ou pagaria o preço. A morte do meu pai foi um golpe que ainda ecoa dentro de mim. Ele sempre foi distante, mas sua morte me deixou com mais perguntas do que respostas. O veneno que o matou foi uma lição amarga: o perigo estava em todos os lugares, até mesmo dentro de nossa própria casa.
A ascensão ao poder não foi fácil. Traições, inimigos, e até mesmo aqueles que juraram lealdade à nossa família tentaram me derrubar. Mas, ao contrário do que muitos pensam, eu nunca fui apenas um homem de força. Meu pai me ensinou a jogar o jogo com inteligência, e foi isso que me manteve no topo. Não é apenas sobre ser o mais forte, mas ser o mais calculista.
E agora, com todos esses problemas que se acumulam, eu me encontrava mais isolado do que nunca. As ameaças à minha família e aos meus negócios estavam crescendo, mas eu não podia me dar ao luxo de mostrar fraqueza. O acordo de paz com a Itália era uma necessidade, mas uma necessidade arriscada. Todos ao meu redor estavam ansiosos, e eu não podia confiar em ninguém. Até Marco, que sempre foi leal, era apenas uma peça no grande tabuleiro de xadrez que eu jogava.
Eu precisava encontrar algo que me desse mais controle.
O casamento, para mim, sempre foi mais do que uma união de corpos ou um simples compromisso. Era um jogo de poder, uma aliança estratégica que garantia a estabilidade do meu império e a sobrevivência dos meus aliados. Casar-se não era uma escolha, mas uma necessidade, um símbolo de controle. Para um líder como eu, a paz não é algo que vem com palavras ou promessas. Vem com ação. E o casamento é o maior símbolo dessa ação.
Os clãs estão sempre em guerra, em busca de território, de influência, de poder. Manter os clãs unidos - ou, pelo menos, aparente união - é fundamental. Um casamento pode acalmar as tensões, pode apaziguar os ânimos e garantir que os inimigos não vejam uma oportunidade para atacar. E, acima de tudo, um casamento pode fortalecer a imagem de um líder, mostrando que ele está disposto a fazer qualquer coisa para garantir o futuro da sua linhagem.
Foi por isso que decidi me casar. Mas a escolha do meu casamento não foi simples. Eu poderia ter escolhido qualquer uma das filhas de clãs aliados, mas eu precisava de algo mais. Eu precisava de um acerto de contas. Um acerto com o passado. Um resgate. Algo que trouxesse justiça, mesmo que de uma forma tortuosa.
E Alessa foi a escolha. A ideia de casar com ela não foi apenas para garantir a paz entre os clãs. Foi para corrigir um erro que estava me assombrando. O assassinato dos pais dela não foi uma simples tragédia. Foi uma consequência de minhas próprias ordens, mesmo sem saber quem seriam as vítimas.
Eu não sabia na época, mas os pais de Alessa, aparentemente cidadãos comuns, estavam profundamente envolvidos com a nossa família. Eles haviam ajudado a esconder informações cruciais sobre um traidor dentro da organização. Eles estavam tentando proteger a minha família, sem sequer saber que estavam lidando com algo maior do que imaginavam. Quando dei a ordem para eliminar qualquer um que pudesse estar envolvido com a traição, não fazia ideia de que aqueles dois eram as vítimas.
Agora, eu tinha a oportunidade de corrigir isso, de pagar essa dívida. Casar-me com Alessa não seria apenas uma estratégia para acalmar os clãs. Seria um ajuste no equilíbrio que tinha sido quebrado. Um acordo com o passado, para garantir que o futuro da família Romano permanecesse intacto.
Mas, ao mesmo tempo, havia algo dentro de mim que me fazia questionar essa escolha. Eu sabia que ela não seria fácil de controlar se soubesse a verdade.
Sem contar o fato de que ela sequer sabe quem sou eu.
Eu me pergunto, em silêncio, como ela reagirá quando descobrir a verdade. Mas sei que isso é algo que eu não posso deixar acontecer.
Eu sou o líder da família Romano. Não sou mais o filho que perdeu sua mãe e seu amigo. Sou um homem que construiu um império com base em decisões implacáveis e muitas vezes dolorosas. O casamento com Alessa é mais um passo nesse jogo. Uma jogada estratégica para manter o controle e manter a paz. Mas se algo mais surgir entre nós, não sei o que acontecerá.
Ainda assim, uma coisa é certa: nada poderá me parar.