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Vou te Destruir*

Vou te Destruir*

Autor:: AutoraKatleya
Gênero: Romance
Benjamin Braganzia é um jovem herdeiro de uma das mais prestigiadas fabricantes de vinho da Itália a Vinícola, mas seu caráter e empenho o fizeram fazer sua própria fortuna. Dono de uma das boates mais badaladas do mundo, Ben chegou a Los Angeles com um único propósito destruir Lorenzo, CEO da Novatore Corporation. Lorenzo também é um dos cérebros por trás de uma poderosa e perigosa rede de tráficos junto a máfia e responsável, segundo Ben, pelo sumiço de sua mãe, Cecília. Com anos de planejamento e a amizade de Dominic ele conseguiu se infiltrar nas operações da Novator, mas o que ele não planejou foi se apaixonar por Abigail Novatore, filha de seu inimigo. Ben terá muitas escolhas pela frente, uma delas entre sua vingança e o amor da sua vida. Além disso, Ben e Aby irão descobrir que suas vidas estão entrelaçadas de uma forma que nunca imaginariam. E se tudo o que conhece sobre a sua vida fosse uma mentira?

Capítulo 1 Prólogo

"Haja ou não deuses, deles somos servos."

Fernando Pessoa

Você conhece a sensação de estar se afogando?

Quando eu tinha oito anos cai na piscina, foi um segundo só, eu estava na beirada brincando com minha boneca quando ela caiu na água e eu logo estiquei meus bracinhos tentando alcançá-la, minha mãe estava perto, porém não viu, se distraiu por um instante com Sebastian meu padrinho. Eu alcancei a boneca, mas, fui engolida pela massa líquida. Por mais que eu tentasse subir, a água parecia pesada demais e pequena como eu era, não consegui alcançar o chão. Ainda me lembro da sensação do líquido começando a entrar em meus pulmões enquanto lutava para o ar entrar, mas senti a inundação bater nas paredes pulmonares destruindo as células do meu sangue, causando uma queimação por causa da asfixia. Quando fui resgatada estava quase inconsciente, meio morta, meio viva, ainda assim, ouvi as vozes da mamãe e do dindo me chamando longe, enquanto tentavam me trazer de volta. Meus pensamentos pareciam estar embaralhados, porém só mais tarde eu entendi que a dor fez aquilo, eu não tinha forças nem para pedir socorro porque o meu cérebro recebia tão pouca oxigenação que me deixou desorientada por causa do gás carbônico não eliminado.

Esse mesmo impacto é o que estou sentindo agora.

Eu nunca imaginei que me apaixonaria, sempre achei que esse tipo de sentimento não era para mim, até conhecer Benjamin. Foi quando eu entendi que eu tinha mesmo medo de amar. Medo de estar exatamente onde estou agora, devastada, me sentindo sufocada, incapaz e totalmente vulnerável como se não tivesse ar suficiente para encher meus pulmões. Eu já tinha ouvido falar de um tipo de amor assim, que poderia acabar com você, te colocar de joelhos no chão, te destruir. Mas, também havia conhecido outro tipo, duradouro, alucinante, desses que te transforma, te faz querer melhorar e dura para sempre. Um sentimento capaz de te preencher infinitamente, te faz voar ou alguma merda dessas. Eu provei os dois lados, mas me pergunto por que não segui meus instintos e fiquei sozinha, no controle dos meus sentimentos como estava acostumada? Eu poderia não ter escolhido nenhum, nem outro. Nenhum dos dois. Deveria ter me afastado dele enquanto era tempo.

Agora é tarde demais.

- Por que Benjamim? Você prometeu... você disse que cuidaria de mim, jurou que nunca me deixaria...jurou para mim que o meu coração nunca seria despedaçado, você me disse que eu não precisava ter medo de entregar ele para você - dei uma risada de escárnio - você me prometeu que cuidaria dele. Então, só me diz por quê? - Lágrimas brotaram nos meus olhos enquanto me afastei jogando todos os vasos com flores no chão. Meu choro foi desesperado enquanto eu só queria que o mundo parasse de girar, não conseguia controlar os tremores do meu corpo foi como se estivesse convulsionando - Por quê? - gritei - Seu... seu desgraçado, eu te odeio, você acabou comigo... era essa a sua intenção? - cuspi as palavras entre os soluços do meu choro, gaguejando, sem poder me conter - Eu... eu... seu... Não Bem, p-por favor, você não pode me deixar aqui...não pode me deixar assim, por favor...não me deixa aqui sem você, por favor, meu amor - andei atordoada de um lado para o outro passando as mãos pelos cabelos totalmente descontrolada, jogando tudo no chão e por todos os lugares, queria expressar o que eu sentia de qualquer forma, eu só queria que aquilo parasse. Meu apartamento estava todo destruído, assim como meu coração estilhaçado em milhões de pedaços, minha respiração tão descompensada e meus batimentos cardíacos tão altos que poderiam facilmente serem ouvidos ao longe, eu estava totalmente desequilibrada, exasperada, minha cabeça entrando em parafuso. Eu não tinha ideia que um coração pudesse aguentar tanta dor, chego a pensar que se ele tivesse sido arrancado do meu peito doeria menos. E eu estava certa, acho que meu coração não suportou e meu corpo se desligou caindo lentamente, no segundo seguinte tudo se apagou.

Benjamin.

Eu acordei com uma sensação de que algo estava errado. Tentei abrir os olhos, mas minhas pálpebras estavam pesadas, não conseguia entender onde estava ou o que estava acontecendo, me esforcei tentando levantar a cabeça, mas, outra vez tudo voltou a ser nada. Ouvi algumas vozes ao longe e tentei abrir meus olhos, como um borrão eu vi a sombra de Vic e meu pai, ele parado perto da janela olhando para o horizonte e Victoria na poltrona próxima da cama em que eu estava - On-Onde estou? O que...tá acontecendo?

- Vou avisar a enfermeira que ela acordou - Vic levantou-se apressada saindo do quarto

Dois anos antes...

Capítulo 2 Âmbar

O máximo de paixonite que já tive foi aos treze anos e se arrastou por mais dois. Ainda me lembro de como meu coração batia forte e o calafrio que percorria minhas entranhas toda vez que o via, Alexsander James Scott. No colégio todas as meninas eram apaixonadas por ele e queriam uma fatia de sua atenção, eu, no entanto, apesar de sentir algo mais além de amizade não via necessidade de fazer qualquer alvoroço. Nós éramos amigos desde sempre.

Alexsander é filho de Martha, minha madrinha e enteado do meu padrinho Sebastian, que eram amigos dos meus pais desde a época do colégio, então, meio que já se esperava que nós também fôssemos amigos. Embora tenhamos nos tornado mais próximos cerca de um ano e meio depois porque antes disso nos odiávamos com força.

Eu acho que isso aconteceu exatamente quando comecei a me tornar mulher. Bem uma adolescente. Mas, meus seios estavam saindo do casulo e tomando forma assim como meus quadris, acho que Alex também notou essa mudança em mim, porque ele começou a agir diferente. Sempre era atencioso e cuidadoso, muito carinhoso até, aquilo não me passou despercebido. Conforme o tempo foi passando nos tornamos mais próximos, era uma amizade improvável, mas nos dávamos muito bem. Quando eu tinha quatorze anos beirando os quinze, fui beijada pela primeira vez. Estávamos na piscina Alex e eu, havíamos saído da água para brincar com a bola no gramado ao lado quando eu caí, ele todo protetor correu para me ajudar, mas acabou escorregando também. Rimos um do outro até enjoar e de uma hora para outra o ar pareceu diferente, algo na atmosfera havia mudado. Estávamos nos encarando de um jeito quase surreal, era como se estivéssemos debaixo d'água sentindo toda aquela pressão, mal conseguindo puxar o ar.

Sem aviso, Alex trouxe a mão em meu rosto e puxou minha boca para a sua. Foi um beijo fofo e romântico até, ele colou nossos lábios e moveu timidamente me fazendo abrir a boca, mas não chegou a ter língua. Quando nos afastei eu estava arfando e ele igualmente, porém não tivemos chance de falar qualquer coisa porque nossos pais chegaram sentando nas cadeiras ali perto.

O beijo não mudou muita coisa em nossa relação, continuamos muito amigos e confidentes exceto pelo fato de que agora vivíamos nos agarrando, testando beijos e pegadas um no outro. Ficamos nessa por mais ou menos um ano, foi quando eu decidi. Eu tinha quinze e ele dezessete. Lembro-me como se fosse hoje a cara de Alex quando disse que queria que ele fosse meu primeiro. Ficou de olhos arregalados e um tanto nervoso, apesar de ele já saber o que era sexo porque perdeu a virgindade desde os quinze. Minha decisão era inteligente e saudável, nos conhecíamos e tínhamos uma relação de confiança muito forte, por isso me sentia segura em me entregar a ele, embora não tivesse amor romântico ali. Eu amava Alex mas não desse jeito, o que não era empecilho para sentir um tesão do caramba por ele. Depois de pestanejar e questionar e negar até... vendo que eu queria aquilo realmente, aceitou. Fizemos tudo muito bem planejado, apenas a minha mãe e a dele sabiam de nós e nos ajudaram com tudo.

A ideia era dizer aos nossos pais que íamos num passeio da escola durante o final de semana, mas na verdade, nossos cupidos haviam reservado um quarto em um hotel maravilhoso. O quarto era perfeito e elas fizeram tudo ficar ainda melhor. Os lençóis brancos faziam contraste com os móveis pretos e alguns itens dourados, no lugar onde deveria haver um mosquiteiro havia um caimento cheio de luzes decorativas e ao me aproximar da cama notei algumas pétalas de rosas amarelas enfeitavam os lençóis. Estava tudo perfeito. Apesar do nervosismo de ambos, Alex tomou as rédeas da situação e me guiou perfeitamente como o cavalheiro que era. O tempo todo me pedia para relaxar e tentar ficar calma e em nenhum momento deixava de me beijar. Foi tudo tão maravilhoso que a minha vontade era ficar ali para sempre.

Mas, o que eu não cogitei aconteceu. Eu achava que o fato de termos transado não mudaria em nada nossa relação assim como nosso primeiro beijo, mas eu me enganei. Alex começou a nutrir por mim um sentimento que não era correspondido. Quando ele me disse que estava apaixonado eu achei que fosse alguma pegadinha sua, que tentava gravar a minha reação para rir de mim depois, mas não. Ele falava sério e até mesmo demonstrou publicamente, mas eu não sentia o mesmo. Meu medo era magoá-lo e perdê-lo para sempre, por isso fui sincera com ele em relação aos meus sentimentos, mas aquilo nos afastou ainda mais. Nossa amizade nunca mais foi a mesma e por mais que eu tentasse me conectar com ele, a gente parecia não ter mais nada em comum. Alex me afastava e não me deixava mais chegar tão próximo, eu entendia que ele estava sofrendo e que me ter por perto era muito ruim, mas eu também sofria por perder o meu melhor amigo. Tentei ser paciente e esperar até que ele estivesse pronto para voltarmos com nossa amizade. Passaram-se pouco mais de um ano e ele continuava me evitando ao máximo, embora me deixasse ter um pouco mais dele, eu achei que estávamos caminhando para a normalidade quando surgiu algo que fez meu coração falhar longas batidas. Alexsander decidiu fazer faculdade em Londres e veio me dizer um dia antes de viajar, apenas para se despedir. Aquele foi o momento mais triste que passei e nunca esqueci de suas palavras ao me abraçar por longos minutos e por fim beijar a minha boca com toda delicadeza e amor que sentia por mim

- Talvez a gente se encontre lá na frente... se esbarre e se conheça novamente de uma forma mais madura. Vou torcer para que você se permita Gal. Eu espero do fundo do coração que você deixe de ser essa pessoa medrosa para o amor - ele me disse com a tristeza estampada em seu rosto - eu quero te dizer também que estou indo embora, irei essa madrugada, mas saiba que eu amo você. Eu te amo como nunca serei capaz de amar mais ninguém, mas eu não quero mais sofrer dessa forma, isso está acabando comigo, eu preciso pensar um pouco em mim agora porque dói tanto te ver e saber que nunca será minha, eu sofro por ter que ir, mas eu tenho que te deixar, preciso tirar você de mim, entende?! Eu sinto que hoje será um dos piores dias da minha vida, porque é o dia que eu tenho que deixar você para trás e olhar para a frente, não foi uma decisão fácil, pelo contrário, foi uma decisão difícil e dolorosa porque eu amo tanto você, mas eu preciso me amar também e cuidar de mim. O... o que tiver de ser, será... e se for, que nos encontremos lá na frente. Eu amo você Gal.

Foi a última coisa que ele me disse. Ele foi embora e nunca mais voltou. Falamos algumas poucas vezes por telefone, principalmente quando eu insistia, mas um dia ele me pediu para parar de ligar e parar de procurá-lo, pois precisava de tempo. Foi ali que eu perdi o meu amigo, nunca mais nos vimos ou nos falamos.

Capítulo 3 Âmbar

Dias atuais...

Uma vez eu ouvir alguém dizer que amor é um sentimento fácil de dizer porque quando você o sente ele te torna corajoso, espontâneo e verdadeiro por toda sua impetuosidade. Eu sempre fiquei curiosa sobre isso, essa veemência e intensidade porque para mim sempre pareceu ser muito difícil falar de amor e até mesmo senti-lo, não sei por quê. Concordo, com a parte que diz que para amar é necessário coragem, no entanto.

Eu nunca fui boa em demonstrar o que eu sinto, mas não acho que seja por falta de coragem, talvez apenas não seja para mim. Será que isso faz de mim uma pessoa superficial?

Eu posso ser profunda de outras formas, não posso? Veja, eu sou livre, dona de minhas ações e decisões, eu sou o que muitos poderiam chamar de a "dona da porra toda" afinal de contas o amor não faz de mim mais ou menos mulher, ou qualquer merda dessas. E o fato de eu não querer me dar a alguém não quer dizer que eu tenha medo de amar, apenas quer dizer que eu sou inteligente. O amor nubla nossa visão, ele nos torna mais fracos em muitas questões e nem venha me dizer que isso não é verdade, porque é a mais pura verdade. Claro que não estou dizendo que ele não te torna também mais forte, porque isso também acontece, mas o que me faz refletir mesmo são as fragilidades que ele traz consigo, porque amar antes de tudo é tornar-se vulnerável. Mas, como eu poderia saber qual a profundidade de amar e medir suas consequências se eu sempre estive no raso?

No auge dos meus vinte anos eu já sou uma mulher muito bem resolvida, decidida e realizada profissionalmente. Trabalho na empresa dos meus pais desde os meus dezesseis anos e fui conquistando aos poucos o meu espaço. Eu sei que você deve estar pensando "Na empresa do papai, assim é fácil". Mas, te digo que não, nunca foi fácil, mas poderia ter sido mesmo. A Novatore Association é uma corporação de advogados mundialmente conhecida, fundada pelo meu pai Lorenzo Novatore, minha mãe Stella Ferrari e meu padrinho Sebastian Renzo. Eles se conheceram durante a escola e se tornaram grandes amigos, até mesmo foram para a faculdade juntos e depois que se formaram decidiram abrir o primeiro escritório de advocacia em Los Angeles. Aos poucos foram ganhando terreno em toda Califórnia e EUA daí surgiu a oportunidade de expandir os negócios para outros países, hoje temos escritórios por todo o mundo: Índia, México, Brasil, França, Rússia... a Novatore tornou-se mais que meu sobrenome, tornou-se uma patente.

Hoje eu sou dona de mais da metade das ações porque a minha mãe e o meu padrinho deixaram tudo para mim em testamento, só soube disso há dois anos atrás, no entanto, mas voltemos ao início. Primeiro de tudo eu precisei passar por um processo seletivo como qualquer outra pessoa para conseguir uma vaga no escritório e depois o meu pai nunca me deu colher de chá, nunca me deu nada de graça, ele sempre me disse que eu precisava provar meu valor e provar a todos que eu mereceria um dia ser dona da empresa dele (que na verdade é minha, mas tudo bem, pois entendi que ele queria que eu mostrasse o meu potencial) mostrar que eu sou capaz de controlar tudo, não porque sou sua filha, mas por mérito meu.

Formei-me aos dezoito anos em Direito, parece ser pouco tempo porque só se passaram pouco mais de dois anos de lá para cá, mas eu exerço minha profissão com êxito, isso me rendeu o título de melhor advogada da Novatore Association, e uma das melhores do mundo. Já recebi inúmeras propostas, mas nunca pretendi me desligar da empresa, além de ser minha, aqui é onde me sinto feliz e realizada. Já a minha vida pessoal não é muito diferente, tenho tudo sob controle, sou livre e desimpedida e gosto disso. Estou sempre disposta a conhecer pessoas novas, a simplicidade de uma relação me atrai bastante, sem dramas, sem julgamentos ou satisfações. Eu nunca me prendo a ninguém, pelo contrário, quando sinto que está rolando algo diferente eu caio fora porque não sou fã dessa coisa de relacionamento. Não que eu nunca tenha sentido vontade de ir mais além, afinal eu não sou um robô que não sente nada, porém mesmo quando essa faísca me surgia optava pelo afastamento e a apagava antes que virasse um incêndio.

O fato é: Eu nunca me apaixonei.

E nem acho que chegarei a esse ponto.

Meus amigos Felipe e Victoria dizem que eu tenho medo de amar, mas claro que isso é uma besteira, eu apenas gosto de ter controle sobre o que eu sinto gosto da liberdade de ter quem eu quiser, quando e sem drama, sem cobranças indesejadas, eu nunca vou me apaixonar porque isso não é pra mim. Não que eu seja contra ou duvide de que exista, não é nada disso, até porque eu tive a chance de ver de perto, sei que é real e vi o quanto o amor pode ser lindo. Meus pais se conheceram na escola e começaram a namorar na faculdade ambos tinham dezessete anos e desde então, nunca mais se separaram e dava para ver e sentir o quanto eles se amavam. Era a coisa mais linda do mundo, a forma como eles se comunicavam apenas com um olhar, uma conexão incrível. Eu conheci o melhor e o pior do amor ao observá-los. O pior lado foi quando a minha mãe morreu, meu pai ficou desolado. Ele sofreu feito um louco e eu me lembro de tudo como se fosse ontem, a forma que ele permaneceu durante meses não passou despercebido. Ali eu meio que criei esse bloqueio e desde então, nunca quis aquilo para mim.

-Aby, está me ouvindo? - Victória me chama

- Desculpe Vic, eu tô ficando maluca com essa situação da Agrex, eu não sei mais o que fazer meu pai não me escuta eeu... É absurdo demais o que estão querendo fazer com essas pessoas, elas têm família para sustentar. O que irão fazer se perderem seus empregos?- digo a minha amiga completamente revoltada

A Novatore atua em outros segmentos além da advocacia, uma dessas parcerias é com uma empresa fabricante de cítricos no sul da Califórnia, onde é feito cultivo de uvas, maçãs e pêssegos. Recebi na última semana um termo de rescisão, no qual diz que teremos de nos desfazer de mais de vinte funcionários, uma vez que foram adquiridas oito máquinas de cultivo e colheita que farão em quinze minutos o que eles levam quarenta para finalizar. Há ainda, um demonstrativo muito bem elaborado, admito, corroborando tudo o que está escrito em cada parágrafo do termo rescisório, ou seja, uma previsão que mostra a economia de milhões de dólares ao longo de doze meses. O que pouco me importa. Estou cagando para essa merda de relatório, o que me interessa é saber o que será dessas famílias sem emprego e renda. Eu estou muito mal com tudo, já tentei conversar com meu pai para abrir sua mente para o lado social da questão, mas ele parece já ter tomado sua decisão e ao que tudo indica não se importa nenhum um pouco com o que irá acontecer.

- Eu te entendo perfeitamente Aby, essa questão é muito delicada mesmo e seu pai deveria compreender e ver além do fato de que irá economizar dinheiro. Essas pessoas trabalham a pelo menos dez anos na Agrex e não têm perspectiva de nada além desse emprego, são pessoas humildes e é da produção que tiram o seu sustento e de sua família - Minha amiga diz igualmente frustrada

Vic, assim como eu e Felipe trabalha na empresa, ambos também são advogados, mas enquanto eu me especializei em direito trabalhista, Vic e Felipe se especializaram em direito criminal, nos conhecemos na faculdade e entramos na Novatore juntos, nos tornamos meio que inseparáveis, principalmente eles dois que até mesmo moram juntos.

- Estamos todos muito estressados com tudo isso e acho que precisamos de uma bebida bem forte para extravasar um pouco, o que acha?!- diz me cutucando tentando me animar

-Não sei Vic, não estou no clima para festa, não sei se é uma boa ideia, estou muito mal mesmo

-Por isso mesmo devemos ir, você se envolve e absorve demais as coisas Aby, precisa desanuviar a mente, relaxar um pouco. Está decidido, iremos e fim de papo! - minha amiga maluquinha me intima e nem preciso perguntar aonde iremos porque já sei a resposta: Codec. O se lugar é novo, uma boate incrível que abriu a pouco mais de oito meses e desde a primeira vez em que estivemos lá virou nosso lugar favorito pra badalar.

Entro em meu carro e sigo-a rumo à boate, cerca de trinta minutos chegamos ao estacionamento e decidimos ir ao banheiro retocar a maquiagem. Depois de prontas passamos pela pista de dança rumo ao bar para pedir nossos drinques, a música alta faz com que eu me esqueça de tudo e não ouço nem mesmo meus próprios pensamentos. É disso que preciso hoje, Victoria tinha razão, como sempre. Penso com um sorriso estampado no rosto, enquanto"Viva la vida de Coldplay" explode nos alto-falantes

- Quero uma tequila e você? - ela me pergunta

- Vou querer uma também, vamos aquecer

- É isso aí garota! É disso que eu tô falando... - A maluca grita e me abraça sorrindo. Quando o barman nos entrega a tequila brindamos e tomamos o líquido em uma golada só

- Vamos pra pista Aby, quero dançar

- Você é uma maluca, Vic, mas eu te amo. Obrigada por me animar, eu estava precisando disso - digo para minha amiga que nos conduz a pista de dança

- De nada, eu sempre estarei aqui para cuidar de você da mesma forma que sempre cuidou de mim

Chegamos à pista ao som de Anitta, não é muito comum tocar funk em Los Angeles, mas a Anitta é destaque e em quase todos os lugares é possível curtir suas músicas, eu sou apaixonada nela e na Ludmila. Me solto sentindo a batida fluir pelo meu corpo e me entrego fechando meus olhos aproveitando a tranquilidade e a liberdade que aflora em mim. Danço e levanto os braços sentido à levada da música, estava completamente em êxtase, sorrindo me balançando toda ainda de olhos fechados, e ao abri-los vejo algo, ou melhor, alguém que me tira do chão. Puta que pariu. Um homem absurdamente lindo como eu tenho quase certeza que nunca vi igual, moreno, alto, músculos por todo o corpo bastante visíveis... Sua camiseta-preta três quarto - deixam em evidência seus braços longos e fortes expondo as várias tatuagens por todo o lugar. Seus cabelos pretos estão presos no alto da cabeça em um coque samurai. O pior de todo o absurdo é que ele está olhando em minha direção mordendo o lábio inferior, não sei o que estou sentindo agora, mas eu queria ser aquele lábio para senti-lo me morder toda. Porra. Meu pensamento pornográfico junto com seu gesto deixa a minha calcinha encharcada.

-Puta que pariu!- exclamo!

É bem disso que eu preciso hoje, sorrio internamente, enquanto ele continua olhando em minha direção. Misericórdia de homem gostoso será que estou tendo algum tipo de alucinação?! Talvez a falta de sexo tenha feito minha mente criar esse Deus grego, afinal há quase duas semanas que não molho minha plantinha, devido aos casos que eu precisei focar totalmente e me deixarem sem tempo porra nenhuma.

Torno a olhar em sua direção e percebo que ele continua me encarando sério e sedutor, já eu nesse momento devo parecer uma débil mental parada no meio da pista certamente com cara de idiota e babando pelos cantos da boca, mas saio do transe assim que o vejo em cima de mim perguntando

-Você tá gostando?- diz tão perto do meu ouvido que sinto a sua respiração quente na minha bochecha me causando uma sensação estranha e gostosa

- O-O quê?- pergunto chocada olhando para o rosto do sujeito que é ainda mais lindo assim de pertinho. Olho negro intensos assim dava pra ver que parece ter olhos bem escuros, embora as luzes da boate não permitia uma visão muito boa, já seu sorriso dá pra ver bem e ele tem covinhas bem fundas nas bochechas, a coisa mais linda gente...

- O que tá fazendo?- Ele segura meu pulso quando levo minha mão em sua bochecha e tento tocar uma de suas covinhas com o dedo

- Uau, você tem essas covinhas!!- Meu Deus o que está acontecendo comigo fiquei louca? Que porra é essa??!

Reaja Aby, que merda está fazendo? Repreendo a mim mesma mentalmente

- Hm, é... desculpe-me, e-eu... - pigarreio - acho que me empolguei, são lindas - digo sem graça forçando um sorriso para o homem mais lindo que já vi em toda minha existência

- Ok, mas não pode sair tocando a bochecha das pessoas assim, é um tanto rude, não acha? Bom, ao menos vejo que você parece está muito bem, eu realmente me preocupei, achando que você estava com algum problema?!

- Como assim? Eu estou ótima, e já pedi desculpas, não é como se eu saísse por aí enfiando o dedo nas covinhas de bochechas alheias... hm, o que quis dizer com problema? - perguntei tentando entender

- Entendi... você é bem estranha... Oh, Porra... desculpe-me eu não quis dizer isso, me expressei de forma bastante grotesca, me perdoe por isso! Hmm... Você é autista? - O idiota tem a audácia de me perguntar. Como assim?

- Como é que é? - questionei indignada com a mão na cintura o encarando

- Eu não quis ser indelicado, ok?! Eu só estou perguntando, me desculpe se pareci invasivo é que você estava me encarando de um jeito que pareceu o meu priminho Noah, ele é autista, mas depois vi que você estava diferente com uma cara sinistra, mas aí quando me aproximei voltou a me encarar do outro jeito tentando enfiar o dedo em minha bochecha - ele diz pacientemente ainda segurando meu braço

- Entendi - vagueio fazendo biquinho - Não, não há problema algum comigo e eu não sou autista e havendo alguém na sua família com autismo você deveria saber que muitos são sensíveis a lugares barulhentos como este aqui. Além disso, para sua informação, eu não estava encarando você - meu rosto revelava o desdém - V-você se acha não é? É tão pretensioso... quer soltar a merda do meu braço, por favor?! - menti descaradamente e dei um solavanco puxando o braço de seu agarre

- É. Você tem razão, Noah é totalmente o oposto de você que pelo que vejo é completamente maluca - deu um sorrisinho de canto bem na minha cara

O quê? Imbecil.

Esse palhaço está rindo de mim, é isso mesmo?

Ah! Desgraçado. Filho da puta.

- E o que você quer? Por que está aqui?

- Já disse, achei que estivesse em apuros, que poderia está passando mal ou sei lá... e vim ajudar você - Mordi minha bochecha tentando controlar a raiva porque a minha vontade é socar a cara desse infeliz, mas como a lady que sou apenas gesticulei com meu braço de modo que ele entenda que pode vazar da minha frente agora mesmo - Bom, já viu que estou ótima e que não preciso de sua ajuda, então pod...

- Vamos nessa cara!- um homem igualmente lindo o chama, interrompendo nosso... momento e sussurrou algo em seu ouvido

Percebi que o que foi dito o deixou tenso, pois ele olhou em volta e dando uma última olhada em minha direção se afastando, mas então voltou indagando - Qual o seu nome mesmo?

-Por que quer saber? - rebati, entretanto ele não respondeu apenas continuou me encarando aguardando pacientemente por minha resposta

- Anda cara, vamos logo porra!- seu amigo pareceu está nervoso e o chamou outra vez

Esse cara é bem esquisito. Mais é bem bonito também, está com uma camiseta branca, jeans escuro e uma jaqueta preta de couro, seus cabelos são curtos e bem loiros e é bem esquisito mesmo.

- Eu não tenho a noite toda gatinha - o idiota me chamou

Que porra é essa de gatinha?!

- Aby - o filho da mãe me deu as costas se afastando do meu campo de visão

- Ei idiota! Não vai me dizer o seu nome?! - embora tenha gritado em meio ao barulho da música e das pessoas percebi que ele ouviu, pois virou-se para mim dando aquele mesmo sorriso destruidor me deixando sem resposta e com uma sensação de necessidade inexplicável

Acordei com uma ressaca do cão, depois de dez doses de tequila e umas dez cervejas decidimos ir embora por volta das três da manhã.

Divertimo-nos muito, como sempre, mas confesso que fiquei meio que procurando o idiota (que nem mesmo disse seu nome) esperando que aparecesse em algum momento com aquelas covinhas perfeito, porém isso não aconteceu. Agora na pia do banheiro, encarei meu reflexo horripilante através do enorme espelho, meus cabelos estão armados como se eu tivesse tomado um choque e meu rosto todo borrado de rímel e sombra preta. Estou parecendo uma panda fugitiva. Pisco várias vezes antes de jogar um pouco de água no rosto e volto a me encarar perguntando se eu realmente não estava alucinando ontem. Será que a falta de sexo me fez idealizar aquele homem!! Eu realmente, não sei, mas se ele for real eu tenho que encontrá-lo novamente. Preciso tê-lo.

De banho tomado e arrumada pronta para ir a empresa sento-me à mesa para tomar meu café da manhã. Eu realmente não sinto mais falta de bacon, cada vez estou mais certa de que fiz a melhor escolha ao me tornar vegana foi a melhor escolha "ever" da minha vida. Depois de comer minha omelete de aveia e tomar um suco verde pego as chaves do carro e sigo para a empresa. Hoje o dia promete milhares de coisas para resolver, processos que preciso dar entrada e outros que preciso encerrar. E como se não bastasse ainda preciso conversar com meu pai, ele não pode continuar com essa ideia de demissão em massa. Conversarei com ele e manterei minha postura de desagrado em relação a isso, não irei compactuar e farei uso do meu poder de decisão já que possuo sessenta por cento das ações. Soube do testamento quando completei dezoito anos, era uma ressalva, lembro que meu pai ficou um tanto surpreso e desesperado na época, mas depois acabou relevando e compreendendo que embora eu nunca tivesse reivindicado nada, sou dona de metade da Novatore. Certamente, ele se esqueceu desse detalhe já que não costumo me envolver nas decisões da diretoria. Até agora.

São exatamente nove horas e estou adentrando a recepção. Continuo com uma dor de cabeça absurda devido a ressaca e poderia ficar em casa descansando, mas essa não seria eu. Prefiro mesmo a labuta e estou sempre disposta para o meu trabalho.

-Bom dia Ruth! - cumprimentei uma das recepcionistas que já está a postos em sua mesa

-Bom dia Senhorita Abigail - sorriu de forma simpática

Ruth trabalha conosco há mais de quinze anos, é uma funcionária exemplar sempre chega antes de seu horário, sempre disposta e muito eficiente. Conhece-me desde criança e tenho um carinho muito especial por ela, confesso que já tentei por várias vezes roubá-la para ser minha secretária, mas, Rui que é diretor do RH, não gostou nada de tirar Ruth da recepção principal, devido sua experiência e agilidade, isso acabou até nos gerando um desentendimento, mas tudo fora resolvido imediatamente e relevei a idéia.

- Meu pai já chegou? - perguntei a ela seguindo em direção a minha sala

- Ainda não. Na verdade, ele virá mais tarde, pois tem reunião com alguns dos fornecedores agora às nove e meia

- Certo. Informa quando ele chegar, por favor!

- Sim, senhorita Abigail!

- Obrigada Ruth!

Em minha sala procurei por algum remédio que fizesse essa banda de heavy metal suspender seu show em minha cabeça, é como se tivesse ao menos umas cinqüenta baterias de escola de samba. Finalmente encontro um Engov e outro que alivia minha dor de cabeça.

Estava sentada em minha poltrona de cabeça erguida e olhos fechados quando alguém entrou em minha sala - Meu Deus Aby, eu sinto que irei morrer - Victoria se arrastou sentando-se ao meu lado - Eu nunca mais bebo na minha vida

- Você diz isso desde a faculdade Vic, sempre que acordava com uma ressaca do cão - eu rio de sua ladainha de sempre

- Eu sei. Mas, dessa vez é a mais pura verdade

Sei.

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