A caneca de café quase escorregou da minha mão quando o cliente ranzinza da mesa 4 resmungou outra reclamação.
- Moça, eu pedi esse café com menos açúcar! Quer me matar de diabetes?
Forcei um sorriso enquanto pegava a xícara de volta.
- Claro, senhor. Vou trazer outro pra você.
Me virei com um suspiro e caminhei até o balcão, onde Zoe terminava um pedido. Quando nossos olhares se encontraram, revirei os olhos, e ela teve que morder o lábio para não rir.
- Mais um reclamão?
Ela perguntou, balançando a cabeça.
- O de sempre.
Respondi, despejando o café na pia com um pouco mais de agressividade do que o necessário.
Meu celular vibrou no bolso do avental. Puxei-o com um pressentimento ruim e, quando vi o nome do senhor Vasquez, meu senhorio, um frio percorreu minha espinha. Com um suspiro, abri a mensagem.
Vasquez: Babi, o aluguel tá atrasado. Preciso desse dinheiro até sexta, senão vou ter que procurar outro inquilino. Nada pessoal.
Fechei os olhos por um momento. O dinheiro do aluguel? Tinha evaporado quando precisei comprar uma geladeira nova no mês passado. A antiga simplesmente desistiu da vida, e viver sem geladeira estava fora de questão.
O que diabos eu ia fazer agora?
- Terra chamando Babi?
Zoe estalou os dedos na frente do meu rosto.
- Nada, só... problema com o aluguel.
Enfiei o celular no bolso e peguei o novo café para o cliente chato.
- Ih, grana curta? Você sempre dá um jeito.
Eu desejei que fosse verdade.
...
Depois do expediente, saímos juntas, aproveitando a brisa da noite. Enfiei as mãos no bolso do meu casaco surrado enquanto olhava para Zoe, que usava uma jaqueta nova e aparentemente cara.
- Ei, de onde você tirou essa jaqueta?
Perguntei, franzindo o cenho.
- A gente trabalha no mesmo lugar e eu sei que esse salário não dá pra luxos assim.
Ela hesitou por um momento antes de suspirar.
- Você promete que não vai julgar?
Ergui uma sobrancelha.
- Depende. Você tá vendendo órgãos no mercado negro?
Zoe deu uma risada.
- Não! Mas... tô fazendo um negócio bem lucrativo.
- Zoe...
- Tá bom, tá bom. Eu sou sugar baby.
Pisquei.
- O quê?
- Você sabe... um site de homens ricos, dispostos a bancar uma garota em troca de companhia, diversão, essas coisas.
Arregalei os olhos.
- Você tá falando sério?
- Sim! E antes que você tire conclusões erradas, nem sempre envolve sexo. Alguns só querem companhia, alguém pra conversar, sair... e o dinheiro é ótimo.
Eu processei aquilo em silêncio, enquanto o aviso do senhor Vasquez ecoava na minha mente. Eu precisava de dinheiro. Rápido. Mas eu estaria disposta a entrar nesse mundo?
Ainda estava digerindo aquela informação enquanto caminhávamos pela calçada iluminada pelos postes amarelados.
- Você tá falando sério? Tipo... você sai com esses caras e eles simplesmente te pagam?
Zoe riu, ajeitando a alça da bolsa no ombro.
- Exatamente. Às vezes é só um jantar, às vezes uma viagem, e às vezes... algo mais, se eu quiser. Mas a escolha é sempre minha.
Franzi a testa.
- E são... como? Digo, os caras?
- Ricos, charmosos, generosos.
Ela enumerou nos dedos.
- Mas na maioria das vezes, mais velhos. Tipo... acima dos 40.
Fiz uma careta.
- Acima dos quarenta? Tipo, idade pra ser meu pai?
- Ah, para! Nem todo mundo envelhece mal, viu? Alguns são super atraentes. Além disso, eles sabem tratar bem uma mulher. Nada de dividir conta, nada de joguinhos. É tudo direto e claro.
Fiquei em silêncio por um momento, pensando.
- E eles pagam bem?
- Muito.
Zoe sorriu, orgulhosa.
- Além do dinheiro, ainda ganhei essa jaqueta, um iPhone novo e um fim de semana em um resort de luxo. Tudo isso só por ser agradável e fazer companhia.
Soltei um suspiro longo. Eu mal conseguia pagar o aluguel, enquanto Zoe andava por aí cheia de presentes e viagens.
Chamamos um Uber e entramos no carro, continuando a conversa enquanto o motorista seguia pela cidade.
- Olha, eu sei que parece um choque no começo.
Zoe disse, olhando para mim com curiosidade.
- Mas pensa bem. Você já tá servindo gente chata o dia inteiro por um salário ridículo. Pelo menos esses caras te tratam bem.
Mordi o lábio inferior. Eu não conseguia negar que a ideia parecia tentadora.
O carro parou em frente ao prédio antigo onde eu morava. Saí do carro, e Zoe acenou antes de o motorista arrancar.
Fiquei parada por um momento, observando as luzes da cidade ao longe, antes de soltar um suspiro pesado e subir as escadas rangentes até meu pequeno apartamento.
A cada degrau que eu subia, as palavras de Zoe ecoavam na minha mente.
"Dinheiro fácil."
"Homens ricos que sabem tratar uma mulher."
Mas outra voz, mais suave e distante, também estava ali. A voz da minha mãe, que já não estava mais aqui.
Eu podia imaginar a expressão desapontada da mulher que passou a vida ensinando a importância de trabalho duro e honestidade.
Joguei a bolsa no sofá e me joguei ao lado dela, encarando o teto descascado.
Eu estava desesperada.
Mas até onde eu estaria disposta a ir para resolver isso?