"Tenho certeza de que foi apenas um acidente. Ele nunca machucaria alguém de propósito, especialmente seu melhor amigo", defendo, inconformada com a ideia de expulsarem uma criança tão nova.
"Não acredito que ele tenha tido a intenção, mas o fato é que machucou. Tenho que priorizar a segurança dos demais alunos. E, por isso, ele não pode continuar frequentando a escola. Farei uma carta de recomendação para uma instituição mais especializada em lidar com esse tipo de comportamento", explica a diretora, com um sorriso simpático, mas distante.
"Então vocês vão simplesmente desistir dele?", retruco, sentindo o medo e a indignação se acumularem em meu peito.
"De forma alguma, apenas achamos que..."
"Poupe-se. Pode guardar essa recomendação para você. Não precisamos de mais nada vindo daqui", rebato, levantando-me e saindo da sala com raiva fervendo nas veias.
Do lado de fora, meu filho me esperava, e seu rostinho se iluminou ao me ver.
"Vamos, Jax. Hora de ir para casa." Lanço-lhe um sorriso suave, escondendo a revolta que me consome por dentro, e estendo a mão para ele.
Jaxon segurou minha mão com a dele, pequena e confiante, e ainda acena para a diretora com doçura enquanto seguimos para o carro.
"Desculpe, mamãe", disse Jaxon, enquanto eu apoiava a cabeça no volante, tentando conter as lágrimas com uma respiração profunda.
Jax tinha apenas seis anos, e não deveria me ver nesse estado. Era um garoto adorável, afetuoso e extremamente esperto, mas ultimamente vinha demonstrando uma força que ultrapassava os limites do que conseguia controlar. Ver meu filho passando por isso me despedaçava por dentro.
"Está tudo bem, meu amor. Vai ficar tudo bem", garanti, forçando um sorriso ao encará-lo pelo retrovisor.
"Amanhã vou pedir desculpas a Robbie, prometo", ele disse, com aqueles olhos azuis enormes e inocentes fixos em mim.
Como eu poderia explicar que ele havia sido expulso da escola para sempre, que não veria mais seus amigos e que, com sorte, os pais de Robbie não iriam envolver a polícia?
"Acho que um tempo afastado vai nos fazer bem por agora. Mas que tal fazer um desenho bem bonito para Robbie? Podemos levar até a casa dele no fim de semana. O que acha?", sugeri, enquanto ligava o carro e nos afastávamos da escola.
"Boa ideia! Vou desenhar um robô gigante com olhos de laser. Robbie adora robôs!", gritou Jax empolgado, antes de passar o caminho todo fingindo ser um robô.
Ao estacionar em frente à nossa casa, notei o carro do Greg na garagem. Provavelmente ele havia saído do trabalho mais cedo. A simples ideia de contar que Jaxon havia sido expulso me deixou em pânico.
Estávamos casados há dois anos, e apesar de Greg, na maior parte do tempo, ser um padrasto dedicado, às vezes era rígido demais com Jax, e isso me incomodava profundamente. Já tentei conversar com ele sobre isso, mas ele sempre dizia que só queria evitar que Jaxon seguisse os passos do pai biológico. Mas, no fundo, eu achava que ele simplesmente não conseguia esconder o ressentimento que vinha acumulando em relação ao meu filho.
"Podemos comer pizza no jantar, mamãe? É o prato preferido de Greg", disse Jax, enquanto entrávamos em casa.
Parei na entrada e tentei escutar sinais de Greg, mas a única coisa que ouvi foi o som do chuveiro ligado lá em cima. "Pizza parece ótimo", concordei com um sorriso leve. "Que tal você ir para o seu quarto e começar aquele desenho para Robbie? Eu te chamo quando a janta estiver pronta."
Jaxon subiu as escadas animado, e eu fui até a cozinha pegar uma pizza congelada para colocar no forno. Enquanto ajustava o timer, meu celular apitou com uma nova mensagem.
Era da líder do grupo de escoteiros de Jaxon, avisando que ele não poderia mais participar das atividades por causa do incidente na escola e das preocupações dos outros pais. As notícias realmente se espalhavam depressa nessa cidade.
Como toda a cidade podia se voltar contra um garoto de apenas seis anos com tanta facilidade? Sim, ele errou ao empurrar o colega que tentou pegar seu brinquedo, mas não havia como prever que Robbie cairia, machucaria a cabeça e precisaria levar pontos. Crianças dessa idade vivem se empurrando. Jax só tinha mais força do que a maioria dos meninos da idade dele, mas isso não significava que ele fosse uma criança ruim.
"Estou saindo", disse Greg ao passar pela cozinha, sem sequer me dar um beijo, como costumava fazer. Aos poucos, eu sentia que ele estava se afastando de mim.
"Para onde vai? Fiz pizza e queria conversar antes do jantar", chamei.
"Vou ver alguns amigos. E vou acabar jantando fora. Pode comer sem mim", respondeu ele, já abrindo a porta de entrada.
"Espere, Greg, eu realmente preciso conversar com você sobre..."
"Jaxon foi expulso", interrompeu ele. "Já estou sabendo e, para ser honesto, não me surpreende. Eu te avisei que ele seguiria os passos do pai."
Ele bateu a porta antes que eu conseguisse responder. Mas como ele soube disso? Será que a escola ligou para ele?
Nunca entendi o ódio que Greg sentia por Ryder. Eles nunca se conheceram, e Greg só sabia o que diziam por aí. É verdade que Ryder tinha seus defeitos, mas Greg sempre exagerou demais.
Ryder cresceu no sistema de adoção. A família com quem ele morava não era adequada, e ele sofria muito bullying na escola. Na faculdade, ele era defensivo e acabava brigando com outros alunos, mas comigo sempre foi gentil. Ele nunca me forçou a nada, mesmo tendo deixado claro que gostava de mim. Então, na véspera do seu aniversário de 18 anos, achei que estava pronta. Nossos aniversários tinham dois dias de diferença, e ele sempre brincava me chamando de "coroa" por ser mais velha.
Na manhã seguinte ao nosso momento desajeitado na barraca, acordei sozinha. Ele tinha sumido. Seu celular estava desligado, e ele nunca mais apareceu na faculdade. Tentei ligar para a casa dele várias vezes, mas ninguém atendia.
Quando descobri que estava grávida, seis semanas depois, comecei a procurar por ele desesperadamente.
Por fim, uma vizinha, com pena de mim, contou que a família havia feito as malas e se mudado. Demorei quase dois anos para aceitar, porque custava acreditar que Ryder faria isso comigo. Tínhamos sentimentos um pelo outro, e ele não iria me abandonar daquela forma, sem dizer nada.
Depois do jantar, com Jax dormindo e Greg ainda fora, fui tomar um banho. Enquanto tirava a roupa para colocá-la no cesto, algo me chamou a atenção. O celular de trabalho do Greg caiu do bolso da calça.
Por sorte, percebi antes de colocar tudo na máquina. Deixei o celular na pia e entrei no chuveiro, tentando aliviar o peso do dia. Amanhã eu precisaria começar a procurar outra escola para Jax, mas naquela noite só queria um pouco de paz com um livro e uma xícara de chá de camomila.
Mesmo com a água correndo, conseguia ouvir o celular vibrando sem parar, e aquilo começou a me irritar. Quem estaria mandando tantas mensagens fora do horário de trabalho? Ele só trabalhava em uma loja de artigos esportivos. Não havia por que alguém procurá-lo tão tarde assim. Suspirei, desliguei o chuveiro e fui até o celular com a intenção de colocá-lo no silencioso, mas ao ver as mensagens, meu coração parou.
Havia várias mensagens de uma mulher chamada Leanne, e só a primeira linha já dizia tudo.
"Sinto sua falta. Já contou a verdade para ela? Obrigada por hoje. Te amo demais."
O celular escorregou da minha mão, eu não conseguia continuar lendo.
Meu marido estava me traindo.
Um soluço escapou quando percebi que meu mundo estava desabando. As coisas não estavam perfeitas, eu sabia, mas como ele pôde fazer isso comigo? Por que eu nunca era o suficiente? Por que sempre perco as pessoas que amo?
Enrolei uma toalha ao redor do corpo e fui direto para o quarto ligar para a única pessoa em quem podia confiar: minha irmã, Poppy. Ela havia se mudado recentemente para cursar a faculdade. Estava estudando veterinária, e eu não poderia estar mais orgulhosa dela.
Poppy atendeu logo na primeira chamada e me ouviu desabar. Contei sobre a expulsão de Jaxon, o aviso dos escoteiros e a traição de Greg.
"Paige, você precisa deixar essa cidade para trás. Tem uma casinha para alugar perto da minha faculdade. Fui visitá-la hoje, mas a rota de ônibus é ruim e, sem carro, fica difícil pra mim. Mas é uma graça, com dois quartos e toda mobiliada. A cidade parece tranquila e acolhedora. Arruma suas coisas e vem recomeçar aqui comigo. Você não tem mais nada aí", disse Poppy.
"Mas e se... "
"Ele não merece uma segunda chance, Paige. Não faça isso com você", cortou Poppy.
Ao ouvi-la, meus olhos se encheram de lágrimas. Ela tinha razão. Eu realmente não tinha mais motivos para continuar aqui. Poppy havia ido embora, meus pais estavam mortos, Jaxon não tinha escola, Greg me trocou por outra mulher, e Ryder não voltaria, então por que continuar em um lugar com mais dor do que alegria?
Mudar de cidade não seria tão complicado. Meu trabalho como editora me permitia trabalhar de qualquer lugar, e sem escola para Jaxon, não havia nada me prendendo. Poppy estava certa. Um novo começo era exatamente o que precisávamos.
"Está bem, Pops. Me envie as informações da casa."