O grito de Marieta atravessou os corredores da mansão como uma lâmina enferrujada. "A noiva já está pronta! Tragam a Antonella agora!" A alegria na voz da madrasta era tão falsa quanto as joias que usava; para ela, Antonella não era uma enteada, era um bilhete premiado.
No escritório, o som metálico de uma notificação bancária selou o destino da jovem. O visor do celular de Afrânio brilhou com o número: R$ 5.000.000,00. - Sr. Jansen, o depósito caiu. - Afrânio sorriu, secando o suor da ganância. - Minha filha é um diamante bruto. Nunca foi tocada. Ela é sua.
Atrás da porta, Antonella Ventura sentiu o mundo girar. Mario Jansen não era um marido; era um colecionador de mulheres. - Você está me vendendo... - sussurrou ela, as lágrimas queimando. - Não é uma venda, Antonella. É um investimento. - O olhar de Afrânio era de puro gelo. - Agora, entre naquele carro e cumpra seu dever de filha.
O pânico foi o combustível. Antonella disparou pela estrada escura, o vestido de noiva pesando como uma armadura de chumbo. Quando os faróis de um carro negro cortaram a névoa, ela não pensou: ela se lançou ao asfalto. Morte ou liberdade.
O freio gritou. No banco de trás do luxuoso veículo, a atmosfera era de um necrotério em chamas. Fernando Bakker lutava contra uma agonia invisível, as veias do pescoço saltadas sob a pele febril. - O que foi isso? - a voz dele era um trovão rouco. - Uma mulher, senhor! Ela bloqueou a estrada! - respondeu Fábio, a mão já no console, pronta para o pior.
Antes que pudessem reagir, a porta se abriu e a noiva fugitiva invadiu o carro, trazendo consigo o cheiro de chuva e medo. - Por favor, saia daqui! Me leve para qualquer lugar! - implorou ela.
Mas o que ela encontrou não foi um salvador. Mãos de ferro a agarraram pela cintura, puxando-a para um calor sobrenatural. Fernando Bakker queimava. O ritmo do coração dele contra o braço dela era um galope caótico e mortal. - Você... você está ferido?
Anthonela percebeu gotas de sangue sujando seu vestido.
Fernando soltou um riso sombrio, os dedos enterrando-se na seda branca do vestido dela. Seus olhos injetados encontraram os dela. - Então você é médica? Que ironia... eu pedi um milagre ao destino e ele me enviou uma noiva.
Sob o luar, em um acostamento deserto, o silêncio era cortado apenas pela respiração pesada de Fernando. Antonella sabia que deveria ajuda-lo.
Ao tentar buscar ajuda, o clique metálico de uma pistola contra sua têmpora a paralisou. Fábio a encarava com olhos de pedra. - Nem um passo para a polícia, garota. Você vem com a gente. - Ele precisa de pontos! - ela gritou, a autoridade médica brilhando em meio ao caos. - Me levem para a minha clínica. Agora!
Meia hora depois, no refúgio de sua clínica particular, Antonella terminava a sutura no braço de Fernando. O cheiro de ervas e antisséptico preenchia a sala. Quando ela ia se afastar, a mão dele disparou como uma armadilha, prendendo seu pulso com uma força possessiva.
Fernando Bakker abriu os olhos. A febre havia sumido, deixando apenas uma frieza predatória que parecia devorar a alma de Antonella. - Você me salvou - ele disse, sua voz agora límpida e perigosa.