Lara
Eu sou jogada para frente e não consigo me proteger.
As costas batem no chão com força suficiente para arrancar o ar dos meus pulmões. O impacto reverbera por toda coluna, sobe pelo pescoço, explode atrás dos olhos.
Levo alguns segundos para conseguir respirar de novo. Quando o ar entra, entra errado. Curto. Raspando.
Meu corpo se dobra sozinho.
A barriga endurece de uma vez, como se tivesse sido travada por dentro. Não é susto. Não é medo. É contração.
Minha mão procura apoio e encontra terra solta, áspera. O braço falha. O peso da barriga puxa meu corpo para o lado e eu gemo sem querer.
- Lara. - a voz de Lílian chega perto. - Olha para mim.
Abro os olhos.
O chão está a poucos centímetros do meu rosto. Vejo pés passando, gente circulando como se nada estivesse acontecendo. Um rádio ligado em algum lugar. Vozes altas demais. Risadas.
Algo metálico bate duas vezes, sempre no mesmo ritmo.
Ninguém corre e nem abaixa a cabeça. Os passos continuam no mesmo ritmo, as vozes seguem altas, alguém ri.
Alguém passa chutando uma pedra para o lado, rindo de alguma coisa que não tem nada a ver comigo.
Meu corpo dobrado no chão não interrompe a tarde dessas pessoas.
O som começa a se organizar ao redor de mim.
Funk pesado vibra acima, marcando território. Entre uma batida e outra, estalos curtos de rádio confirmam que aquilo não é bagunça. É controle.
- Chegou?
- Chegando.
- Segura aí mano.
As vozes não se explicam. Elas se reconhecem.
Alguém passa falando mais alto, avisando que "tá tudo limpo". Outro responde rindo que "a madame tá sentindo". A palavra atravessa meu corpo como tapa. Madames não suam no chão. Madames não gemem de dor com a barriga dura demais para caber em si.
Sinto o cheiro do lugar agora. Poeira quente, gordura velha, esgoto distante, algo queimado. É o cheiro de um lugar que não espera permissão para existir.
Um rádio chia perto demais. Uma voz surge, abafada, impaciente.
- Ela tá aí?
- Tá viva. Por enquanto.
Não dizem meu nome, não precisam.
Alguém encomendou isso.
E esse alguém pode estar a caminho.
Não foi sequestro, nem acaso, foi escolha.
- Aqui não entra ninguém, não tem conversa, não tem erro, aqui é Laje, porra - a voz sai debochada, segura, como quem não precisa explicar o nome porque todo mundo ali já sabe quem manda.
Dito como regra antiga, dessas que não precisam ser repetidas.
É aí que meu estômago afunda. O calor sobe pelo peito, a boca seca e minhas mãos começam a tremer sem que eu mande. O ar fica curto. Meu corpo entende antes de mim que isso não é bagunça, não é acaso. É a casa deles.
A contração não vem em ondas separadas. Ela cresce. Começa como um aperto fundo, silencioso, e se transforma num peso contínuo que desce sem pedir licença. Meu corpo trava inteiro, as pernas falham e o ar some de uma vez, como se algo estivesse me empurrando para fora de mim antes da hora. Não dói só, avisa. Algo começou e não vai parar.
- Não agora... - murmuro, sem saber para quem.
O suor escorre pela lateral do rosto. Meu corpo entrou em modo de emergência e não está esperando autorização.
Lílian se ajoelha ao meu lado, segura meu rosto com as duas mãos.
- Você tá comigo, respira. - ela diz, firme demais para alguém que também está com medo.
Tento obedecer. Não consigo manter o ritmo. O ar entra e sai em espasmos curtos. A barriga contrai outra vez, sem aviso, arrancando um som baixo da minha garganta.
Lílian abre a boca para falar de novo.
Um olhar corta ela no meio da frase. Ela fecha a boca na hora.
Ouço passos se aproximando. Alguém para bem perto. Sinto um olhar rápido sobre mim. Não curioso. Avaliador. Como quem confere um problema antes de seguir adiante.
- Tá cedo? - uma outra voz pergunta, indiferente.
- Se nascer aqui, segura. - alguém diz, de longe, como quem fala de um pneu murcho.
Ninguém mais responde.
Meu corpo responde por conta própria. A pressão desce. Um estalo interno, profundo, que não dói, avisa.
Minha mão aperta o chão com força. Os dedos cravam na terra. O instinto é primitivo, antigo.
- Lílian... - minha voz falha. - Meu corpo não tá esperando.
Ela entende na hora. Vejo no rosto dela antes que qualquer palavra saia.
Não é sequestro agora, nem é só medo agora.
Meu corpo começa algo que não pode ser pausado.
Aqui, tudo pode esperar. Menos eu.
A contração veio inteira, sem aviso, como se algo me rasgasse por dentro de uma vez só. Meu corpo dobrou no chão, o ar sumiu, e por um segundo eu tive certeza de que não ia levantar de novo.
Meu corpo não está pedindo permissão, está avisando.
E quando começa, ele não espera resgate.
E a pergunta que atravessa tudo, cruel, inevitável, sem resposta é:
Se meu corpo começou aqui... quanto tempo meu bebê ainda tem?