O asfalto rasga minhas costas quando eu caio. O impacto expulsa o ar dos meus pulmões.
Meu instinto não é lutar, é proteger a barriga.
Porque meu filho se mexe dentro de mim no mesmo segundo em que vejo os homens cercando o carro e entendo.
Então outro pensamento me atinge.
A última coisa que eu disse ao Marlon foi:
"Está tudo bem."
Não estava.
Naquele momento eu ainda não sabia... mas aquela decisão ia custar muito mais do que o meu sequestro.
Duas horas antes...
Estou sentada à mesa, planilhas abertas. Passo os olhos pela agenda sem ler. O estômago embrulha e minha respiração encurta sem motivo.
Passo a mão pela barriga quase sem perceber. O bebê se mexe sob a palma da minha mão.
A porta abre.
Encontro Marlon entrando no escritório. O olhar dele muda no instante em que me vê, a tensão habitual desaparece e dá lugar àquele sorriso, o canto da boca levantando devagar.
- Amor.
Ele atravessa a sala até mim, segura meu rosto com uma das mãos, e me beija como se estivesse chegando em casa depois de um dia inteiro longe. O beijo é quente, e eu percebo tarde demais que estou prendendo o ar.
Quando se afasta, a mão dele desce naturalmente até a minha barriga.
- E aí, campeão... - murmura, a voz mais baixa. - Está cuidando da sua mãe direitinho?
O bebê se mexe na mesma hora.
Marlon solta uma risada curta, surpreso, os olhos dele se estreitando de alegria.
Ele espalha a mão sobre minha barriga, os dedos se movimentam devagar num carinho lento.
- Eu não vejo a hora de te ter nos braços, filho. Estou contando os dias.
Ele encosta a testa de leve na minha barriga por um segundo.
Meu peito aperta.
- Amor... você pode chamar a Lílian para mim? Preciso sair para uma reunião do marketing.
Ele franze a testa de leve.
- Eu vi na agenda. - os dedos dele descansam na minha barriga. - E pensei exatamente nisso. Você não vai sozinha, ainda mais agora, no final da gestação.
- Obrigada.
Ele se inclina e me beija de novo antes de se afastar.
A porta quase se fecha quando ele volta dois passos para dentro, como se tivesse esquecido alguma coisa importante. Segura meu queixo e me rouba outro beijo, rápido, intenso e desaparece no corredor.
- Agora eu vou chamar a Lílian - murmura contra meus lábios e sai me deixando ali com a mão sobre a barriga e o coração apertado.
"..."
Lilian entra no carro com a postura impecável de sempre.
Os olhos passam rápido pelo retrovisor antes de me olhar.
Então ela sorri, e por um segundo parece mais leve do que de costume.
- Confesso que fiquei feliz quando você me chamou - ela diz, colocando o cinto. - A gente trabalha no mesmo prédio e quase não temos tempo...
- Também sinto isso - respondo. - Parece que tudo virou reunião, decisão.
Ela sorri, dá partida e diz:
- Então hoje a gente faz direito. Come alguma coisa e finge que o mundo não está nos engolindo.
O carro começa a se mover. Lílian ajusta o retrovisor novamente.
E, pela primeira vez desde cedo, a sensação de perigo se afasta um pouco.
O suficiente para eu aceitar sair e baixar a guarda.
O trânsito está lento. Horário ingrato. Os carros avançam aos poucos, parando e seguindo em um ritmo preguiçoso.
- Você acredita que eu estou pensando em fazer aquela pós-graduação?
Ela ajusta o retrovisor pela terceira vez.
- Só para estudar...
O sorriso dela dura pouco.
- Estranho...
- O quê?
- Aquele carro atrás da gente não saiu do lugar desde o último sinal.
O bebê se mexe de novo, mais forte.
Levo a mão à barriga, massageio devagar.
- Ele está inquieto hoje - comento. - Como se estivesse tentando me avisar de alguma coisa.
- Ansioso - Lílian brinca. - Puxou o pai.
Sorrio, mas algo em mim se contrai.
Um tipo de atenção que o corpo aciona antes da mente concordar. Ainda assim, atribuo ao calor, ao trânsito, ao peso da gestação avançada.
- Está tudo bem? - ela pergunta, notando meu silêncio.
- Está - respondo. - Só preciso respirar um pouco.
O sinal à frente fecha, nós paramos.
Carros dos dois lados. Um ônibus atrás. Nada fora do padrão. Um cenário comum demais para justificar qualquer inquietação real.
No ônibus parado atrás de nós, um menino encosta o rosto no vidro e olha direto para o carro.
Por um segundo, nossos olhos se encontram.
Então o sinal abre.
É quando tudo acontece.
Sem aviso, sem erro, rápido.
O som vem primeiro.
Um estalo brutal, que não pertence ao trânsito. O vidro do motorista explode em mil fragmentos que não caem, voam. Imediatamente, o ar muda. Fica pesado, hostil.
A porta é arrancada, não aberta. Arrancada.
Mãos entram no carro com precisão assustadora. Não há hesitação. Não há grito. Só execução.
- Agora.
- Cala a boca.
- Não reage...
As vozes são baixas. Controladas.
Meu corpo trava. Minha língua gruda no céu da boca.
Uma mão fecha no meu braço e me arranca do carro com uma força que não machuca.
Apenas decide por mim.
O solavanco em meu braço espalhou um choque que fez meu pescoço estalar e adormecer.
Quando minhas costas batem no asfalto, sinto a pele ser arrancada de mim, queima.
Abraço a minha barriga e me encolho no chão de olhos fechados esperando o fim do que eu ainda nem tinha entendido.
Mas o demônio não poupa crianças.
Um homem puxa meus braços para trás e prende com algo que faz minhas mãos formigarem.
- Quietinha. É melhor pra você. Não olha.
- Pelo amor de Deus, estou grávida!!!
O grito foi inútil, instintivo rasgando minha garganta em uma esperança imbecil de que ali haja humanidade.
Não há!
Do outro lado, vejo Lílian.
Ela é arrancada do banco como um objeto que perdeu valor. Ela reage. Se debate. Tenta chutar. Tenta morder.
Uma mão enorme cobre a boca dela e a outra segura o rosto.
Os olhos dela me encontram, aquele olhar não pede ajuda, ele se despede.
Somos jogadas para dentro do carro.
Não, não, não.
Meu corpo entra torto. A barriga bate. A urina escorre entre as minhas pernas antes que eu consiga impedir. O homem que me segura olha para baixo. Não desvia.
A boca dele se curva de leve, quase curiosa. Eu tento fechar as pernas, mas ele aperta meu braço e me mantém aberta ali no meio de todos.
Meu coração pula errado, rápido, meu corpo inteiro começa a tremer.
O carro anda em alta velocidade, eu escorrego. O corpo balança. Tudo gira. O cheiro me dá ânsia.
Meu ventre aperta. Meu corpo se curva sozinho.
Não agora. Por favor, filho.
Sinto um empurrão de dentro para fora. Outro. Dói. Não é só dor, é aviso. É pânico dentro de pânico.
A dor me prende antes que eu consiga me encolher.
Quero proteger, mas não sei como.
As pernas não obedecem.
Não vejo nada, só sei que estou sendo levada.
O carro acelera e algo em mim despenca junto. Uma certeza horrível e fria.
Ninguém vem, ninguém sabe.
Marlon não sabe.
E a última coisa que eu fiz foi dizer que estava tudo bem.
Meu ventre endurece e o pânico explode de vez.
Não aqui, não assim. Por favor.
O choro explode de dentro de mim, desordenado, animal, um som que rasga a garganta e me expõe inteira. Não parece meu. É só pavor vazando.
Então alguém ri.
Um riso curto, irônico me alerta.
Sinto um olhar me percorrendo rápido, técnico, sem curiosidade. Como quem confere se a mercadoria ainda serve.
E eu quebro...
Algo pressiona o meu rosto.
O cheiro invade primeiro.
Químico, forte, amargo. Errado.
- Dorme.
O polegar dele pressiona meu maxilar para abrir minha boca.
Balanço a cabeça. Tento virar, tento morder. Tento puxar ar. Meus pulmões queimam. O bebê se mexe com força, como se também entendesse que algo saiu do eixo.
O pensamento vem fragmentado, errado, sem forma.
Isso não devia estar acontecendo...
Vejo Lílian ao meu lado, ela também luta, mas também perde.
O pano cobre a boca dela. Os olhos arregalam. As mãos dela batem no banco uma última vez.
Nossos olhares se cruzam, um segundo, só um.
Tempo suficiente para o terror se fixar para sempre.
Depois, tudo começa a se afastar.
O som some primeiro, depois a luz.
Tento responder, mas...
"..."
Ainda estamos no carro, meu corpo pesa contra o banco. Não consigo mexer os braços. Não consigo gritar. O pano ainda está no meu rosto. O cheiro queima por dentro.
Sinto o meu filho mexer. Como se pedisse algo que eu não posso dar.
Ninguém abre a porta, nem chama meu nome.
Aos poucos, fica claro o que eu tentei negar desde o início.
Meu corpo decide sozinho. Minha barriga contrai.
O suor escorre. A dor vem em ondas que não pedem permissão.
Tento respirar. O ar não entra direito.
O carro despenca num buraco e a dor vem quente, puxando para baixo. Meu corpo cede sem pedir permissão.
A dor aumenta e eu engasgo com o grito.
Não agora.
Não por essas mãos.
A barriga pulsa, tento chamar alguém mas nenhum som sai. A minha garganta queima.
Não é só o meu corpo que está fora do controle, é o destino do meu filho.
Eu penso em algo pior do que o sequestro.
Será que eles não vieram só por mim? Vieram pelo meu filho?
Meu braço se fecha sobre o ventre por instinto, tentando proteger alguém que ainda nem chegou ao mundo.
E então uma ideia fria atravessa meu pensamento.
Pela forma como me observam... talvez eles não estejam esperando o momento de me levar.
Talvez estejam esperando o momento de ele nascer.