Kyle Clark a puxou para um abraço apertado, enquanto o arrependimento pesava sobre ele. Com dificuldade para falar, sua voz saiu embargada pela emoção. "Allie, nós dois concordamos com isso. Eu também não queria isso. Por favor, não jogue toda a culpa em mim. Estou de mãos atadas."
Ela apoiou a cabeça no peito dele e finalmente se permitiu chorar, suas lágrimas encharcando a camisa dele enquanto ela o abraçava com força. Em meio aos soluços, sua voz se quebrou: "Só nos dê mais uma chance. Por favor, Kyle..."
Kyle acariciou as costas dela suavemente na tentativa de confortá-la, suas palavras não oferecendo muita esperança: "Sei que você sofreu muito, mas é por causa da minha mãe. Você tem que entender, Allie. Eu te amo, amo mesmo. Por favor, não complique ainda mais as coisas."
Allison percebeu que não havia mais nada a dizer que pudesse mudar a situação. Sua compostura se desmoronou e ela começou a cair em prantos, se transformando em uma mulher completamente diferente daquela que se preocupava com cada detalhe da sua aparência antes de sair de casa.
Desde o casamento, os pais de Kyle queriam um neto. Dois anos se passaram sem que ela engravidasse, e a paciência da mãe dele estava se esgotando rapidamente.
No dia em que recebeu o resultado do exame, Allison leu as palavras com descrença. Diagnosticada com infertilidade permanente... aquele papel acabou com seu casamento.
Após a finalização do divórcio, Kyle a olhou com um semblante preocupado. "Me deixe te levar para casa, tá bem?"
Allison balançou a cabeça e respirou fundo. Embora tivesse conseguido parar de chorar, suas palavras saíram carregadas e ríspidas. "Não, não precisa."
Tudo entre eles havia acabado.
Kyle colocou a mão no ombro dela para acalmá-la, temendo que ela pudesse desabar bem na sua frente. "Tem certeza de que está bem?"
Allison o encarou, forçando um sorriso que continha mais dor do que conforto. "Acabei de renunciar aos últimos quatro anos da minha vida. Como eu poderia estar bem?"
Diante da pergunta dela, ele desviou o olhar, a vergonha estampada no rosto. "Desculpe, Allie..."
Sem dizer mais nada, ela afastou a mão dele e se afastou, sem olhar para trás.
Ela já estava farta de ouvir essas desculpas.
Nos últimos tempos, parecia que cada palavra que saía da boca dele era "desculpe" ou algo sobre as últimas ordens da sua mãe.
Ela passou quatro anos amando um homem que era um verdadeiro "filhinho da mamãe", nunca livre para ser seu marido de verdade. E agora, lá estava ela, com os papéis do divórcio na mão, mas lutando para arrancá-lo do seu coração.
Kyle observou da calçada enquanto ela chamava um táxi e ia embora. Quando o veículo partiu, ele finalmente olhou para o celular e viu sete chamadas da sua mãe na tela.
Antes que ele pudesse retornar a ligação, o aparelho vibrou na sua mão.
Com um suspiro cansado, ele atendeu, o documento do divórcio ainda na outra mão. "Acabou."
Joan Clark, sua mãe, não perdeu tempo em ir direto ao ponto, com uma alegria indisfarçável na voz. "Bom, já era hora! Aquela mulher era impossível. Não acredito que você demorou tanto!"
Kyle apertou a ponte do nariz. "Mãe, precisa de alguma coisa ou posso desligar?"
Ele já estava pensando em tomar um drinque, ou talvez dois.
"Haylee está chegando hoje. Não ficou sabendo? O voo dela pousa às duas. Não se esqueça de trazê-la para cá. A empregada vai preparar os petiscos favoritos dela."
Joan estava radiante, pois seu filho finalmente estava livre e a mulher que ela havia escolhido estava voltando.
"Sim, sei", respondeu Kyle, jogando o documento do divórcio no porta-luvas e encerrando a ligação antes que a mãe pudesse dizer mais alguma coisa.
Allison voltou para sua antiga casa, mas o lugar parecia vazio agora.
O homem que antes o enchia de risadas e amor se foi, mas as lembranças sobre ele assombravam cada canto.
Na época da faculdade, eles eram apenas um casal de estudantes comuns, perdidamente apaixonados. A família dele, todos empresários, não se impressionou muito com a origem modesta dela no início, mas isso nunca intimidou a ela, a melhor aluna da sua turma numa universidade renomada, determinada, inteligente e com uma beleza que atraía admiração. Mesmo depois de se formar, ela construiu uma reputação de destaque numa empresa respeitada, impressionando todos ao seu redor com seu trabalho e confiança.
Desde o início, Kyle se recusou a desistir de Allison e discutiu até que sua família cedesse, finalmente convencendo-os de que ela seria uma boa esposa para ele e talvez até abriria novas portas para sua carreira. Foi só então que eles deram sua bênção para o casamento.
Allison nunca imaginou que algo tão antiquado como não ter filhos seria o motivo do divórcio. A amargura em relação à família Clark crescia a cada dia, alimentada por suas crenças ultrapassadas, enquanto a decepção com Kyle era ainda mais profunda. Mesmo assim, seu coração se agarrava teimosamente ao amor que ela havia construído ao longo de quatro anos.
Afinal, durante esses anos, ela dedicara cada parte de si a ele.
No seu quarto, Allison puxou as cobertas sobre a cabeça, rezando para que o sono pudesse afogar a dor.
Em nenhum lugar do apartamento ela conseguia escapar das lembranças. O cheiro de Kyle ainda permanecia em cada canto, principalmente no travesseiro, tornando impossível dormir.
Depois de se revirar na cama, ela foi para a varanda em busca de alívio. Lá, encontrou os cigarros dele e um cinzeiro ainda sobre a mesinha.
Com as mãos trêmulas, ela acendeu um cigarro e deixou a fumaça encher seus pulmões. Foi então que percebeu que não era tão forte quanto tentava parecer.
Para onde quer que olhasse, ela era dominada pelas lembranças - o sofá onde eles se abraçavam, a cozinha que ecoava risadas, a varanda onde eles observavam as luzes da cidade juntos. Aquela planejada viagem de inverno para sua cidade natal à beira-mar, repleta de promessas de fogos de artifício e novas lembranças, havia se transformado em nada.
Cinzas e lágrimas caíam enquanto ela dava a última tragada.
Antes do amanhecer, ela arrumou suas malas e saiu do apartamento.
Sem nenhum plano em mente, só sabia que precisava se afastar de tudo que a lembrasse de Kyle.
Diante do painel de partidas da estação de trem, Allison leu os nomes desconhecidos até que Blirson, uma pequena cidade que ela não se lembrava de ter ouvido falar, se destacou.
Após comprar uma passagem e embarcar, ela se sentou e digitou sua carta de demissão no celular. Depois, enviou uma mensagem rápida para sua melhor amiga, Tricia Saunders, contando sobre seu divórcio. Por fim, desligou o celular e fechou os olhos.
Depois de uma viagem apertada de dez horas, Allison esticou seus membros rígidos e se juntou à multidão que entrava na cidade desconhecida, pronta para o que viesse pela frente.
Cores vibrantes e ruídos se misturavam do lado de fora da estação de trem, onde vendedores anunciavam seus produtos e taxistas chamavam por passageiros. A energia pulsava nesse cenário agitado, selvagem e indomável.
A mala de Allison batia no pavimento irregular enquanto ela percorria as ruas, até que encontrou um apartamento de dois quartos sem nada de especial. Ela quase não acreditou quando o proprietário lhe informou o valor do aluguel: apenas novecentos por mês.
Blirson era pequena, e o ritmo da cidade era lento e acolhedor. Curiosa sobre o ambiente ao seu redor, Allison decidiu explorar os quarteirões próximos, deixando seus pés a guiarem pelas vitrines das lojas e pelas fachadas de tijolos antigos.
Depois de comprar o básico e carregar suas novas compras de volta, percebeu que o anoitecer já havia deixado o céu azul-escuro. O cansaço a dominava, mas ela não podia descansar até que o apartamento estivesse limpo, então trabalhou metodicamente para deixar o espaço com a sua cara.
Por volta da meia-noite, amarrou dois sacos de lixo cheios e os levou para fora.
Com um pequeno grunhido, ela os jogou na lixeira, pronta para encerrar o dia. De repente, um choro suave e trêmulo rompeu o silêncio, a fazendo parar abruptamente.
O medo a dominava. O que poderia explicar o choro de uma criança a essa hora da noite?
Ela correu em direção ao prédio, mas apenas alguns passos depois, congelou, o som sinistro ainda ecoando na sua mente. Não era sua imaginação - um bebê estava chorando, e o som vinha de trás das lixeiras!
Recusando-se a deixar o medo dominá-la, ela acendeu a lanterna do celular e voltou para investigar.
As sombras obscureciam um pequeno embrulho ao lado da lixeira, de onde vinha o som fraco.
Ao abrir o pano com cuidado, Allison encontrou um recém-nascido, com o rosto vermelho de tanto chorar e a voz mal passando de um sussurro.
Era óbvio que alguém havia abandonado o bebê.