Tentei dizer que eu já tinha doado um rim secretamente para o nosso pai cinco anos atrás - um sacrifício pelo qual minha irmã levou o crédito.
Mas Axel jogou uma pilha de exames médicos falsificados no meu rosto.
- Pare de mentir para salvar a própria pele - ele cuspiu as palavras. - Você é uma Ômega inútil, uma Sem-lobo. Esta é sua única chance de ter algum valor para esta alcateia.
Ele não sabia que Kailane vinha me envenenando com acônito por uma década para suprimir minha Loba Branca interior.
Ele não sabia que a anestesia não funcionaria no meu corpo envenenado.
Eu senti cada centímetro do bisturi de prata enquanto eles me abriam para colher meu único rim restante.
Eu morri naquela mesa, ouvindo o homem que eu amava me chamar de dramática.
Mas a morte não foi o fim. Meu espírito flutuou acima do caos, observando o rosto do cirurgião empalidecer de horror.
- Ela só tinha um! - o médico gritou, erguendo o órgão enegrecido. - Alfa, olhe as cicatrizes antigas! Nós acabamos de matá-la!
Somente depois que meu coração parou, as drogas que mascaravam meu cheiro se dissiparam.
Axel caiu de joelhos na sala encharcada de sangue, finalmente sentindo o cheiro de chuva e pinheiros que ele procurou por toda a sua vida.
Ele percebeu que tinha acabado de massacrar sua verdadeira companheira para salvar uma mentirosa.
- Jana? - ele uivou, cravando as unhas no peito.
Mas eu já tinha partido.
Capítulo 1
Ponto de Vista de Jana:
O cheiro me atingiu antes mesmo de a porta se abrir.
Era o aroma de florestas de pinheiros encharcadas por uma chuva pesada, um cheiro que costumava fazer minha loba interior se aninhar de prazer. Agora, só trazia um pavor frio e paralisante.
A pesada porta de carvalho da ala de isolamento se abriu com um estrondo. Axel Drummond estava parado ali. Ele era o Alfa Supremo da Alcateia da Lua de Prata, um homem cujos ombros eram largos o suficiente para carregar o peso de todo o nosso território em Campos do Jordão. Seus olhos, geralmente da cor de um mar tempestuoso, brilhavam com uma leve luz vermelha e predatória.
Ele estava furioso.
- Assine os papéis, Jana - disse ele. Sua voz era baixa, vibrando fundo em seu peito.
Eu estava sentada na beira da cama do hospital. Minhas mãos tremiam. Tentei escondê-las sob o lençol branco e fino. O ar no quarto parecia pesado, carregado com sua dominância.
- Axel, eu não posso - sussurrei. Minha garganta parecia ter engolido cacos de vidro. - Você não entende. Meu corpo... ele não vai aguentar.
Ele deu dois passos à frente. O espaço entre nós desapareceu. Ele jogou uma pilha de documentos na mesa de cabeceira. Eles deslizaram pela superfície, parando bem ao lado de um vaso de flores murchas que ninguém se deu ao trabalho de trocar.
- Kailane está morrendo - rosnou Axel. - O núcleo de sua loba se rompeu. Ela precisa de um transplante de Essência Vital imediatamente. Você é a gêmea dela. Você é a única compatível.
Em nosso mundo, os rins não são apenas órgãos para filtrar o sangue. São os recipientes que armazenam a Essência Vital de um lobisomem. Eles guardam a energia que nos permite transformar de humano para lobo. Temos dois, mas precisamos de pelo menos um para sobreviver. Se um lobo perde ambos, sua alma não tem onde se ancorar. Eles não apenas morrem; eles desaparecem. Não podem retornar para a Deusa da Lua.
- Eu sei que ela precisa - eu disse, com lágrimas ardendo em meus olhos. - Mas Axel, me escute. Eu não tenho Essência suficiente. Se eu der um a ela, eu vou morrer.
- Pare de mentir! - ele gritou. O som foi como um trovão no pequeno quarto. - Você é uma Ômega. Você é inútil para a alcateia. Você nunca nem se transformou! Você fica no seu quarto enquanto sua irmã, a futura Luna, se mata de trabalhar por esta família. Esta é a sua chance de finalmente fazer algo de valor.
Ele não sabia. Como poderia? Kailane tinha se certificado disso.
Por dez anos, minha irmã vinha colocando acônito na minha comida. É um veneno para a nossa espécie. Ele suprimiu minha loba, me manteve fraca e fez todos acreditarem que eu era uma "Sem-lobo" - um defeito.
- Cinco anos atrás - tentei falar mais rápido, desesperada para que ele me ouvisse. - Quando o papai sofreu aquele acidente na obra. Ele precisou de um transplante. Axel, eu dei a ele meu rim esquerdo. Eu só tenho um agora!
Axel congelou por um segundo. Sua expressão não se suavizou; endureceu em nojo.
- Kailane deu aquele rim para o seu pai - ele disse friamente. - Ela tem a cicatriz para provar. Eu mesmo vi. Temos os arquivos médicos, Jana. Eu revisei os exames esta manhã. Dois rins saudáveis. Pare de inventar histórias para salvar a própria pele.
- Não - eu balancei a cabeça, o pânico crescendo em meu peito. - Esses exames são falsos! Aquela cicatriz nela é de cirurgia plástica! A minha é real. Por favor, só olhe a minha barriga...
- Chega!
O ar no quarto de repente se tornou sólido. Pressionou meus ombros, mais pesado que chumbo.
- Eu, Axel Drummond, Alfa da Alcateia da Lua de Prata, ordeno a você.
Meu corpo me traiu. Era o Comando do Alfa. É uma lei absoluta escrita em nossa biologia. Quando um Alfa dá uma ordem direta usando sua autoridade, um lobo de ranking inferior fisicamente não consegue resistir.
Minha espinha se enrijeceu. Minha boca se fechou. Minhas mãos saíram de debaixo dos lençóis contra a minha vontade.
- Pegue a caneta - ele ordenou.
Meus dedos se fecharam ao redor do metal frio da caneta. Eu queria gritar. Queria atirá-la nele. Mas minha mão se moveu roboticamente em direção ao papel.
- Assine.
Eu olhei para ele uma última vez. Procurei em seus olhos pelo garoto que uma vez me tirou de um lago congelado quando éramos crianças. O garoto que me envolveu em seu casaco e prometeu me proteger.
Mas aquele garoto se foi. Em seu lugar havia um homem drogado pelas poções da minha irmã, um homem cujo olfato foi enganado para pensar que Kailane era sua Companheira de Alma. Ele não conseguia sentir a doença em mim. Ele não conseguia sentir o cheiro da verdade.
A porta se abriu novamente. Meus pais, Frederico e Joyce, entraram. Eles eram membros de alto escalão da alcateia, vestidos com seda e couro caros.
- Já está feito? - minha mãe perguntou. Ela não olhou para mim. Olhou para os papéis.
- Ela está enrolando - disse Axel, cruzando os braços.
- Jana - disse meu pai, sua voz cheia de decepção. - Não seja egoísta. Sua irmã está sofrendo. Ela será a Luna. Ela é a Loba Branca da profecia. O que você é?
Eu queria dizer a ele. *Eu sou a Loba Branca. Fui eu quem salvou sua vida, pai.*
Mas o Comando do Alfa havia travado minha língua. Eu só podia fazer o que me foi mandado.
- Se você fizer isso - meu pai acrescentou, ajustando sua gravata - nós construiremos um pequeno chalé para você na divisa do território. Você poderá viver lá em paz. Não será mais um fardo para nós.
Um chalé. Esse era o preço da minha vida.
Olhei pela janela. A lua cheia estava nascendo, enorme e prateada no céu noturno. Era linda. Era o rosto da Deusa que me abandonou.
Pressionei a caneta no papel.
*Eu rejeito esta vida*, pensei. *Eu rejeito esta dor.*
Assinei meu nome.
Axel arrancou os papéis antes mesmo que a tinta secasse. Ele não disse obrigado. Não olhou para trás. Ele se virou e saiu do quarto, com meus pais o seguindo como cachorrinhos ansiosos.
Eu estava sozinha novamente. O cheiro de pinheiros e chuva permaneceu, zombando de mim. Toquei meu lado, onde meu único rim restante lutava para filtrar o veneno em meu sangue.
Esta noite, eu salvaria minha irmã. E esta noite, o Alfa mataria sua verdadeira companheira.