"Aquela vadia Valerie chamou a polícia e até cortou o próprio pulso. Que dor de cabeça do caralho. Tem certeza de que a família Todd não virá atrás de mim se eu a foder e acabar matando ela, né?"
A voz de um homem serpenteou pelo ar, obscena e lasciva, cada palavra repleta de uma crueldade desenfreada.
Do alto-falante do celular, uma mulher deu uma risada - aguda, divertida e completamente cruel. "Fique tranquilo. Mesmo que aquela putinha morra, ninguém vai se importar. A família Todd não está nem aí para ela!"
A dor dilacerou o corpo de Valerie Todd, arrancando-a da beira da inconsciência. A primeira coisa que ouviu foi a conversa cruel.
Nesse instante, cada fragmento de memória voltou com tudo.
Ela já chegou a comandar a rede de assassinos e mercenários mais letal do mundo, um império sombrio onde só seu nome, Phantom, já era capaz de causar medo em todos os cantos do submundo.
Recentemente, ela havia lutado para sair de um cerco montado por centenas de mercenários, abrindo caminho através do sangue e do fogo, mas acabara sendo traída por um dos seus. A emboscada foi perfeita, planejada com uma crueldade implacável.
Ela havia morrido. Apesar disso, lá estava ela, com os olhos se abrindo em um corpo que não lhe pertencia.
Esse corpo era de Valerie, filha da família Todd, perdida desde criança e encontrada há três anos.
Ela crescera num fim de mundo, onde fora maltratada pelos pais adotivos e acabara se tornando uma pessoa frágil e assustada, que aprendera desde cedo que a resistência resultaria em mais dor.
Mesmo após retornar à família Todd, seu sofrimento não teve fim. A filha adotiva deles, Paulina Todd, a atormentava abertamente e sem parar, dia após dia.
Dentro daquela família, o respeito nunca foi um luxo que ela pôde ter. Para eles, Valerie era uma imprestável - um estorvo, um incômodo que era melhor nem ser visto.
Naquela noite, Paulina a atraíra para uma suíte de hotel sob falsos pretextos, colocara um afrodisíaco na bebida dela e a entregara como um presente embalado a um empresário idoso em troca de um contrato multimilionário.
Diante do estupro iminente e da humilhação pública, Valerie cortara o pulso com uma lâmina, preferindo a morte à submissão!
Mas a consciência que agora despertava dentro do corpo maltratado era a de Phantom.
Baixando o olhar, ela avaliou calmamente a situação. Suas roupas estavam em farrapos e seus pulsos ainda estavam algemados. O sangue não parava de escorrer do corte em seu pulso, caindo no chão em gotas escuras e pegajosas.
Qualquer outra pessoa teria se rendido ao medo, se encolhido em um canto e esperado pela morte.
Mas ela não era qualquer pessoa.
Ela era a ex-líder da força de mercenários mais poderosa do mundo - a mulher que sobrevivera a zonas de guerra banhadas em sangue, atravessara o solitário Deserto de Sarhia, onde nada vivia e nada perdoava, e cumprira missões consideradas impossíveis.
Para ela, isso não passava de um mero contratempo.
Ao girar o pulso, ela se livrou das algemas com facilidade, como se fossem brinquedos baratos.
Em seguida, ela agarrou o abajur da mesa de cabeceira sem hesitar e o arremessou com precisão letal na cabeça do homem, que nem sequer conseguiu se virar e, atingido pelo abajur, desabou no chão, como carne inconsciente.
Valerie se aproximou, com o rosto vazio - sem raiva, medo ou piedade. Ergueu o abajur mais uma vez e o desferiu contra a virilha dele.
O impacto foi brutal - o metal encontrando a carne com um baque úmido e nauseante. O sangue espirrou pelo chão, mas Valerie não se abalou, nem sequer piscou.
Foi só quando a parte de baixo do corpo dele foi reduzida a uma ruína irreconhecível que ela finalmente soltou o abajur.
Endireitando-se lentamente, ela limpou as mãos e deixou que um lampejo de desgosto estampasse seu rosto, como se tivesse pisado em algo nojento.
Nesse momento, bateram na porta, e a voz de um segurança soou, hesitante e desajeitada: "Senhor? Os brinquedos sexuais que o senhor pediu chegaram. Devo levá-los para dentro?"
Os olhos de Valerie se endureceram no mesmo instante. Sem hesitar, ela correu em direção à janela e subiu no parapeito com uma graça fluida.
Um instante antes de a maçaneta da porta girar, ela agarrou a cortina e, usando o impulso do tecido, se lançou na escuridão que a aguardava lá fora...
No andar de baixo, em outra suíte luxuosa, o presidente Leland Harper estava parado rigidamente atrás de uma porta trancada. Uma vermelhidão incomum coloria suas feições normalmente frias e disciplinadas.
Dando socos na porta, ele gritou com a fúria estampada em sua voz: "Mãe, me deixe sair agora mesmo! Você tem ideia do que está fazendo? Prender o presidente é crime!"
Do lado de fora, a voz de Sarah Powell ecoou, triunfante e sem remorso algum: "Se arranjar um herdeiro para esta família me levar para a cadeia, que assim seja. Relaxe, a droga não vai te fazer mal. É só transar com a mulher que arranjei para você esta noite que eu destranco a porta depois!"
A fechadura se trancou, selando o destino dele.
Com os olhos faiscando, Leland sacou sua arma. "Posso explodir essa porta com um único tiro. Você não pode me prender aqui."
Sarah avisou: "Estou bem aqui fora. Se você atirar, vai matar sua própria mãe. E imagine as manchetes - 'Presidente Atira na Mãe Durante Disputa Familiar'. É assim que você quer que a história se lembre de você?"
Leland pressionou os dedos contra a têmpora, soltando um suspiro forte enquanto a frustração o consumia.
Após um longo momento, ele guardou a arma no coldre e se virou, indo em direção ao banheiro da suíte. Ele planejava usar água fria para apagar o calor incomum que queimava em suas veias.
No entanto, no momento em que ele voltou para o quarto, um corpo ardendo em calor, com uma fragrância suave e inebriante, se jogou em seus braços.