Sentindo-se suja e contaminada, as lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto. A raiva crescia dentro dela, uma chama ardente que desejava vingança, mas a consciência de que isso era impossível a paralisava. O homem que a ferira não era qualquer um; ele era poderoso, e Silvia sabia que não tinha como enfrentá-lo. Ao olhar para si mesma, notou que estava sangrando. Com um nó na garganta e o coração acelerado, decidiu que precisava ir ao hospital. Optou por uma clínica pública, temendo que a atenção chamasse a ira de quem a ferira, e o medo de ser perseguida ainda a acompanhava como uma sombra.
Ao chegar no hospital, as luzes fluorescentes a atingiram como uma bofetada, acentuando a palidez de seu rosto. O cheiro a desinfetante a envolvia, criando um ambiente tenso e frágil, mas o que realmente a fez parar foi o murmúrio da sala de emergência. Misturando-se entre os feridos e doentes, Silvia sentou-se e aguardou seu turno, tentando se perder no anonimato.
Quando finalmente foi chamada, a médica reconheceu de imediato os sinais de violação. Silvia hesitou, mas, em um impulso de autodefesa, respondeu que seu namorado às vezes exagerava. Não queria se expor mais do que já estava. A ideia de que sua família não acreditaria nela a assustava. Ela precisava manter sua imagem impecável, especialmente agora, que havia sido indicada para uma posição em uma importante empresa de segurança. Como especialista em padrões, o cargo não era dos mais relevantes, mas como auxiliar, poderia resolver suas questões financeiras.
A médica, uma mulher de meia-idade com cabelo curto e olhos sinceros, pediu que Silvia a acompanhasse. "Você tem uma ferida interna e precisará de um anti-inflamatório", disse a doutora, enquanto Silvia se sentava no consultório, com as pernas tremendo. O ar-condicionado frio a fazia sentir-se exposta, e ela se encolheu sob o lençol que a doutora lhe passou.
A doutora começou a fazer perguntas sussurrando, tentando fazê-la se sentir confortável. Silvia mordia o lábio, contando sua história da maneira que acreditava que a doutora a acreditaria. "Nós estávamos bebendo demais e exageramos", disse, com a voz trêmula.
A médica parou de anotar e levantou o olhar, fixando-se em Silvia. "Você sabe que a violência doméstica é um crime sério?" questionou, a preocupação evidente em sua voz. Silvia desviou os olhos, murmurando que sim.
"Vamos fazer um exame para ver o que temos aqui", disse a doutora, e Silvia sentiu que cada palavra era um grito silencioso, um pedido por justiça e vingança. No entanto, no meio daquele caos, a prioridade era curar. "Eu adorei minha noite com ele. Apenas exageramos", pensou, tentando se convencer.
O exame revelou que, além da ferida interna, Silvia tinha lesões leves. A doutora lhe prescreveu medicamentos e recomendou um tempo de descanso. "Você vai precisar se cuidar, e se isso for repetido, é necessário buscar apoio. Você não tem que enfrentar isso sozinha", afirmou a médica, sua voz suave mas firme.
Silvia agradeceu, sentindo um nó na garganta. Aquelas palavras de preocupação e cuidado eram um lembrete de que, embora estivesse perdida, havia uma saída. A luta pela recuperação começava ali, e, mesmo que o caminho fosse árduo, ela sabia que precisava encontrar a força dentro de si para enfrentar o que viria a seguir.
Silvia saiu da clínica com uma mistura de sentimentos. O frio do ar lá fora a atingiu como um lembrete cruel da realidade que estava vivendo. Enquanto caminhava, um turbilhão de pensamentos invadia sua mente. A experiência no hospital havia sido um passo importante, mas a sensação de vulnerabilidade ainda estava presente, como uma sombra que a seguia.
Com a receita em mãos, decidiu que precisava de um lugar tranquilo para refletir. O café da esquina, um dos poucos lugares onde se sentia um pouco confortável, parecia ser a escolha ideal. Ao entrar, o aroma do café fresco e o murmúrio suave das conversas alheias a envolviam, proporcionando um breve alívio.
Silvia escolheu uma mesa no canto, longe do movimento. Enquanto esperava seu pedido, seus pensamentos voltaram para o que havia acontecido. Cada imagem da agressão era uma facada em seu coração, mas também um lembrete de uma força que ela não sabia que possuía. O desejo de vingança ainda a consumia, mas, ao mesmo tempo, ela sabia que precisava se concentrar em sua própria recuperação.
A médica havia mencionado a importância de buscar apoio, mas a ideia de abrir-se para alguém ainda a aterrorizava. O medo de não ser acreditada, de ser julgada, a impedia de dar esse passo. Porém, uma semente de esperança começou a brotar em sua mente. "E se eu encontrasse um grupo de apoio? Um lugar onde outras pessoas entendem o que eu estou passando?", pensou.
Depois de tomar seu café, Silvia decidiu que precisava fazer algo a respeito. Com o celular em mãos, começou a pesquisar grupos de apoio para sobreviventes de violência. A ideia de se conectar com outras pessoas que haviam enfrentado situações semelhantes a deixava nervosa, mas também intrigada. Ela precisava de um espaço seguro onde pudesse compartilhar suas experiências e ouvir as histórias dos outros.
Enquanto navegava pelas opções, um número de telefone chamou sua atenção: um grupo que se reunia semanalmente no centro da cidade, oferecendo apoio e recursos. O coração de Silvia disparou. Era um passo pequeno, mas significativo. Com um respiro profundo, ela decidiu que ligaria mais tarde. O primeiro passo para se libertar do peso que carregava.
Ao voltar para casa, Silvia se sentia um pouco mais leve. A ideia de buscar ajuda e compartilhar sua história a fazia sentir-se menos isolada. Quando chegou, preparou um banho quente, um ritual que sempre a acalmava. Enquanto a água escorria, ela permitiu-se chorar novamente, mas agora não era apenas por dor. Era também por esperança.
Naquele momento de vulnerabilidade, Silvia decidiu que não se deixaria ser definida por sua experiência. Ela era mais do que a vítima de um crime; era uma sobrevivente. Sabia que o caminho à frente seria difícil, repleto de desafios emocionais e físicos, mas estava determinada a se recuperar. A luta pela justiça e pela sua própria vida estava apenas começando, e ela estava pronta para enfrentá-la de cabeça erguida.
As quartas-feiras eram marcadas por um almoço na casa de seus pais, um ritual que Silvia havia mantido por anos, mesmo que se sentisse cada vez mais desconfortável com a situação. Seu pai, Edson Morisson, e sua tia Clarice sempre foram figuras de destaque na sociedade, conhecidos por sua posição financeira e status. No entanto, esse prestígio vinha acompanhado de expectativas e críticas severas, que pesavam sobre os ombros de Silvia como um fardo.
Durante o almoço, Edson frequentemente questionava as escolhas de Silvia, sua vida profissional e suas decisões pessoais. "Você não acha que deveria estar mais focada em uma carreira mais tradicional? Algo que traga mais segurança", dizia ele, sua preocupação disfarçada sob um tom de desaprovação. Para Edson, sucesso significava seguir um caminho convencional, algo que Silvia se esforçava para evitar.
A presença de sua tia Clarice tornava tudo ainda mais difícil. Com um olhar crítico e um jeito cortante, ela não hesitava em fazer comentários maldosos sobre a vida de Silvia. "Você está gastando seu tempo com esses projetos que não levam a lugar nenhum. Se não tomar cuidado, vai acabar sozinha, querida", dizia, com um sorriso que não chegava aos olhos. Essas palavras a machucavam profundamente, e cada interação parecia um lembrete da distância entre quem ela era e quem sua família esperava que ela fosse.
Silvia muitas vezes se sentia presa em uma armadilha, lutando para encontrar sua identidade em meio às expectativas sufocantes. Seu pai, apesar de sua posição, não tinha a força necessária para defendê-la. Ele parecia mais interessado em manter a paz à mesa do que em apoiar sua filha em suas escolhas. Essa falta de apoio apenas a fazia sentir-se mais isolada e incompreendida.
Com o tempo, Silvia decidiu que precisava de uma mudança. Se havia algo que ela havia aprendido com suas experiências, era que a independência era essencial para sua sobrevivência emocional. Ela não poderia continuar a sucumbir aos maus-tratos constantes que a cercavam em casa. Assim, começou a traçar um plano para sua vida, buscando oportunidades que a permitissem se afastar da influência de sua família.
A ideia de se tornar independente era aterrorizante, mas também empoderadora. Silvia se dedicou a seu trabalho, buscando crescer profissionalmente e estabelecer sua própria identidade. O desejo de se libertar das críticas e expectativas era mais forte do que o medo do desconhecido. Ela sabia que, ao se afastar, teria a chance de se redescobrir e definir seu próprio caminho.
Nos almoços de quartas-feiras, Silvia começou a se preparar mentalmente para as conversas. Ela tentava desviar os assuntos que a deixavam desconfortável e, quando questionada, respondia com assertividade sobre suas escolhas. Era um desafio, mas cada pequeno passo a ajudava a se sentir mais forte. Ela estava determinada a não permitir que as vozes críticas a definissem.
Aquele almoço em particular estava carregado de uma tensão palpável. Silvia notava a ausência de seu pai, Edson, que parecia perdido em suas próprias lembranças, alheio às conversas à mesa. O olhar distante dele, como mexia distraidamente com a comida, indicavam que ele estava longe, em um lugar onde as preocupações do presente não o alcançavam. Isso tornava a atmosfera ainda mais pesada, especialmente com a presença de sua tia Clarice.
Clarice estava mais agressiva do que o habitual, e suas palavras cortantes eram como lâminas afiadas. "Você realmente acha que uma entrevista na Solutions Corporate é algo digno de se comemorar?" disse, com um tom de desdém. "Ainda mais em uma posição que, pelo que você me disse, não é nem mesmo uma promoção significativa. Quando vai finalmente entender que precisa de um emprego que condiga com o seu potencial?"
Silvia sentiu a ira subir dentro de si. Era difícil suportar as críticas e a falta de apoio. "Tia, é um bom cargo. Estou animada com a oportunidade de trabalhar numa empresa tão respeitada", respondeu, tentando manter a calma. "A posição pode abrir portas para o futuro."
"Abrir portas? Você precisa de algo mais sólido, Silvia. Essa busca por uma carreira instável só vai te levar a encrencas. Você deve focar em algo mais seguro, como o que fiz na sua idade", Clarice insistiu, sem dar espaço para que Silvia se defendesse.
A tensão na mesa aumentava, e Silvia lutava contra a vontade de se levantar e sair. Em vez disso, respirou fundo e tentou ignorar as palavras de sua tia. "Eu sei o que estou fazendo, tia. Estou pronta para assumir novos desafios", afirmou, buscando se afirmar.
O silêncio se instalou por um momento, e a tensão era palpável. Mesmo sem a presença de seu pai para intervir, Silvia se sentia mais decidida a não deixar que as palavras de Clarice a abalassem. A verdade era que ela estava entusiasmada com a entrevista, e a possibilidade de trabalhar na Solutions Corporate representava um passo significativo em sua jornada de independência.
"Edson, você não tem nada a dizer sobre isso?" Clarice questionou, quebrando o silêncio. "Sua filha está prestes a entrar em uma área que não entende e você apenas se senta aí como se nada importasse."
Silvia olhou para seu pai, que finalmente pareceu despertar de suas lembranças, mas não havia nada em seu olhar que indicasse apoio. Ele apenas balançou a cabeça, murmurando algo inaudível. Essa falta de defesa só intensificava o sentimento de solidão que Silvia carregava. Naquele momento, ela percebeu que precisaria encontrar força dentro de si mesma, independentemente do que sua família pensasse.
"Eu vou à entrevista, e estou confiante sobre minhas habilidades", disse Silvia, decidida a se manter firme. "Este é um passo importante para mim, e eu quero que vocês vejam isso."
Silvia sentiu que as palavras eram um lembrete não apenas para sua tia, mas também para si mesma. Ela estava se afastando do ciclo de críticas e incertezas. A vida que estava construindo era sua, e ela estava determinada a seguir em frente, independentemente do que os outros pensassem. O almoço pode ter sido difícil, mas seu espírito estava inabalável.
"Você está muito pálida, tem certeza de que não está doente?" Clarice perguntou, seu tom carregado de uma preocupação que soava mais como crítica do que como cuidado. O olhar da tia, que antes era cortante, agora parecia um misto de curiosidade e julgamento.
Silvia respirou fundo, tentando manter a compostura. "Estou bem, obrigada, só um pouco cansada", respondeu, forçando um sorriso que mal ocultava a tensão que sentia. A verdade era que a pressão do almoço, somada ao peso das críticas constantes, a deixava exausta.
"Cansada, é? Ou será que está apenas escondendo algo? Essa sua busca por uma carreira instável pode estar te afetando mais do que você imagina", Clarice insistiu, sua voz repleta de uma ironia que deixava claro que ela não acreditava na resposta de Silvia.
Silvia sentiu a frustração crescer dentro dela. Era difícil lidar com a constante desconfiança e a falta de apoio. Em vez de se deixar abalar, decidiu usar a situação a seu favor. "Estou enfrentando desafios, é verdade, mas isso não significa que estou doente. Estou apenas me esforçando para construir um futuro melhor para mim", respondeu, com mais firmeza do que antes.
"Desafios são uma coisa, mas você precisa ter cuidado para não se perder nesse caminho. Não quero que você acabe em uma situação complicada", Clarice respondeu, sua expressão ainda crítica.
O olhar de Silvia se firmou, e ela percebeu que precisava se afirmar. "Eu aprecio sua preocupação, mas sou adulta e estou pronta para tomar minhas próprias decisões. A vida é sobre riscos e aprendizados, e estou disposta a enfrentar o que vier. A entrevista na Solutions Corporate é uma oportunidade e vou aproveitá-la", disse, sua voz decidida.
Clarice a observou por um momento, como se estivesse avaliando sua resposta. Então, com um leve aceno de cabeça, a tia desviou o olhar, mas Silvia notou uma pequena mudança na expressão dela. Talvez, por uma fração de segundo, Clarice estivesse considerando que Silvia poderia, de fato, estar no controle de sua própria vida.