"O chefe disse para tirar o fedor", respondeu a outra, esfregando meu braço até a pele ficar em carne viva e vermelha. "Ele não quer a senhora chateada."
Mordi o lábio até sentir o gosto de cobre, desesperada para não gritar.
Eu era um objeto a ser higienizado. Um erro a ser apagado.
Elas me deram um uniforme que era grande demais - um vestido cinza que pendia em meu esqueleto como uma mortalha.
"Fique aqui", ordenou a primeira empregada, sua voz desprovida de simpatia. "Não saia perambulando. O Sr. Abreu vai cuidar de você."
Elas me deixaram na sala úmida, o silêncio zumbindo em meus ouvidos.
Meu estômago se contraiu, um nó agudo e torturante. Eu não comia há dois dias. O medo do castigo era pesado, mas a exigência primal da fome era mais pesada.
Eu me arrastei até a porta, abrindo-a uma fresta.
Levava a um corredor conectado à garagem.
Ouvi um rosnado baixo e vibrante.
Eu congelei.
Kaila estava lá.
Ela estava sentada no capô de uma Ferrari vermelha, balançando as pernas com arrogância casual.
O Doberman, Zeus, andava de um lado para o outro na frente dela.
Ele era uma fera musculosa, suas orelhas cortadas, seus olhos fixos em mim como um predador avistando sua presa.
"Então, você é a ratazana", disse Kaila.
Não era uma pergunta.
Ela pulou do carro e caminhou em minha direção.
De perto, ela cheirava a baunilha e açúcar - um contraste enjoativo com o alvejante queimando meu couro cabeludo.
"Eu sou Elisa", sussurrei.
"Eu sei quem você é", ela zombou, inclinando-se para perto. "Você é o erro. O papai Darek te odeia. Você sabe disso, não sabe?"
Meu peito se apertou. "Ele é meu pai."
Kaila riu. Foi um som agudo e cruel que ecoou pelas paredes de concreto.
"Ele queria que você tivesse morrido naquele porão. Mamãe também queria. Você a lembra do homem mau."
Ela estalou os dedos.
Zeus avançou, latindo ferozmente.
Eu tropecei para trás, caindo com força no chão de concreto.
Kaila puxou a coleira no último segundo, rindo enquanto eu me afastava de quatro.
"Fique no seu buraco, ratazana", disse ela. "Ou da próxima vez eu solto a coleira."
Eu corri.
Me encontrei na cozinha.
Era uma zona de guerra. Chefs gritavam, panelas batiam.
O cheiro de alho e alecrim assando me atingiu como um golpe físico, tonto e avassalador.
Minha boca salivou dolorosamente.
Vi uma bandeja de aperitivos sendo preparada.
Espetinhos de satay com molho de amendoim.
O pânico explodiu em meu peito, eclipsando minha fome.
"Espere!", grasnei, dando um passo à frente.
O chefe de cozinha, um homem grande com o rosto vermelho, virou-se para me encarar.
"Quem deixou você entrar aqui?"
"O amendoim", eu disse, apontando freneticamente para o molho. "Minha mãe... Eleonora... ela é alérgica. Anafilática."
Eu me lembrava disso de antes do sequestro. Era uma das poucas memórias que eu tinha, um fragmento precioso de uma vida roubada de mim.
O chef marchou em minha direção.
Ele não ouviu. Ele viu uma criança suja e indesejada interferindo em seu trabalho.
"Fora!", ele rugiu.
Ele me empurrou.
Eu voei para trás, meu quadril batendo em uma mesa de preparação de metal com um baque surdo.
A dor explodiu pela minha perna, me cegando por um segundo.
"Sr. Abreu!", gritou o chef. "Tire essa vira-lata da minha cozinha!"
Abreu, o gerente da casa, apareceu. Ele parecia um agente funerário, magro e solene.
"Eu disse para você ficar na lavanderia", ele sibilou, agarrando minha orelha e me arrastando em direção à saída.
"Ela é alérgica!", gritei, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. "Por favor, não a mate!"
"O menu foi aprovado pela própria Sra. Magalhães", disse Abreu friamente. "Você é uma mentirosa e um incômodo."
Ele me jogou pela porta dos fundos para o pátio de serviço.
Estava chovendo.
Eu me encolhi sob o beiral, olhando através das janelas do chão ao teto para a sala de jantar.
Lá dentro estava quente. A luz dourada banhava a mesa, lançando tudo em um halo de perfeição.
Darek sentava-se na cabeceira.
Eleonora estava à sua direita. Kaila estava à sua esquerda.
Eles pareciam uma família real, intocável e completa.
Servos colocavam pratos na frente deles.
Prendi a respiração, observando Eleonora.
Ela não tocou no satay. Ela o dispensou com um sorriso.
Ela não era alérgica.
Ou talvez ela tivesse superado isso.
Ou talvez eu me lembrasse errado.
Minha memória, a única conexão que eu tinha com ela, era uma mentira.
Eu os observei comer.
Darek cortou o bife de Eleonora para ela, um gesto terno e íntimo.
Kaila riu de algo que ele disse.
Ele sorriu para Kaila. Um sorriso genuíno e caloroso.
O pai que eu queria estava bem ali, dando seu amor a uma garota que não compartilhava uma gota de seu sangue.
Minha fome se tornou uma agonia aguda e torturante.
Olhei para a grande caçamba de lixo perto da borda do pátio.
Eu sabia que não devia. Eu era uma Magalhães.
Mas meu corpo não se importava com nomes. Só se importava com a sobrevivência.
Eu me arrastei em direção às lixeiras.
Encontrei um pão meio comido e um pedaço de frango frio.
Enfiei a comida na boca, sem mastigar, apenas engolindo em goles desesperados.
Meu estômago a rejeitou imediatamente.
Meu corpo, desacostumado a se sustentar, se revoltou.
Caí no pavimento molhado, vomitando seco até que pontos pretos dançaram em minha visão.
"O que é isso?"
A voz era gelo.
Eu olhei para cima.
Darek estava parado na porta.
Ele segurava um copo de uísque, o líquido âmbar capturando a luz.
Ele olhou para mim, encolhida ao lado de uma lata de lixo, com vômito no queixo.
Ele não parecia preocupado. Não havia piedade em seus olhos, apenas uma fúria fria e latente.
"Você está comendo lixo", ele afirmou.
"Eu estava com fome", sussurrei, minha voz tremendo.
"Você é uma Magalhães", ele cuspiu. "Ou diz ser. Magalhães não comem lixo como ratos."
Ele virou a cabeça bruscamente. "Abreu!"
O gerente da casa correu para fora.
"Chame um médico", disse Darek. "Não porque eu me importe se ela morrer, mas porque não quero que o legista encontre lixo em seu estômago. Ficaria mal no relatório."
Ele se aproximou de mim.
Ele se agachou, seus sapatos caros a centímetros do meu rosto.
"Eu ouvi você na cozinha", ele disse suavemente, seu tom mortal. "Mentindo sobre as alergias da minha esposa para chamar a atenção."
"Eu pensei-"
"Eleonora não é alérgica a amendoim", disse ele. "Beto era."
O nome pairou no ar como fumaça, me sufocando.
"Você se lembrou da alergia do seu pai", disse Darek, sua voz pingando veneno. "Você realmente é cria dele."
Ele se levantou e se afastou, me deixando na chuva.
Ele não viu o coração partido.
Ele só viu o inimigo.