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Corações em Ruinas
img img Corações em Ruinas img Capítulo 5 O Ouro e a Cinza
5 Capítulo
Capítulo 6 Estilhaços de Verdade img
Capítulo 7 Pacto de Sangue img
Capítulo 8 O Inimigo Invisível img
Capítulo 9 O Porto das Lamentações img
Capítulo 10 O Batismo de Fogo img
Capítulo 11 A Sombra da Dúvida img
Capítulo 12 O Labirinto de Espelhos img
Capítulo 13 O Beijo do Judas img
Capítulo 14 O Evangelho da Lama img
Capítulo 15 O Santuário dos Renegados img
Capítulo 16 O Ressurgimento das Cinzas img
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Capítulo 5 O Ouro e a Cinza

A manhã de quarta-feira invadiu o quarto principal da cobertura com uma insolência dourada. Os raios de sol atravessavam as frestas das cortinas de veludo, desenhando linhas de luz sobre os lençóis de seda escura que ainda guardavam o calor dos corpos da noite anterior. Clara acordou lentamente, sentindo o corpo pesado e dolorido de uma forma deliciosa, uma fadiga que não vinha do trabalho braçal, mas da entrega absoluta. Cada centímetro de sua pele parecia vibrar com a memória do toque de Antony.

Ela esticou o braço para o lado esquerdo da cama, mas encontrou apenas o vazio do lençol frio. Antony não estava ali. O travesseiro dele, no entanto, ainda mantinha a depressão de sua cabeça e o perfume inconfundível de sândalo e tabaco, um cheiro que agora servia como o oxigênio particular de Clara. Ela permaneceu deitada por alguns minutos, observando o teto alto e permitindo-se, pela primeira vez, acreditar que a vida de privações era um pesadelo do qual ela finalmente despertara.

Vestindo apenas a camisa social dele - que se tornara seu uniforme não oficial naquele santuário de vidro -, Clara levantou-se. Seus pés descalços afundavam no tapete felpudo enquanto ela caminhava pelo apartamento silencioso. O luxo da cobertura, que antes a intimidava, agora parecia quase familiar. Ela se sentia como uma rainha em um castelo de cristal, ignorando que cristais são, por natureza, frágeis.

Ela caminhou em direção à cozinha em busca de um copo de água, mas ao passar pelo corredor lateral, notou algo diferente. A porta do escritório de Antony, que ele mantinha rigorosamente fechada como se guardasse os segredos de um Estado, estava entreaberta. Um feixe de luz saía de lá, revelando a poeira dançando no ar.

A curiosidade, aquele instinto que muitas vezes sobrevive até nos momentos de maior segurança, a venceu. Clara empurrou a porta de mogno pesado com a ponta dos dedos. O escritório era o coração do poder de Antony. Paredes forradas de livros de capa dura, uma iluminação sóbria e uma enorme mesa de mogno que parecia um altar dedicado à estratégia e ao controle. O ar ali era mais frio, saturado com o cheiro de papel antigo e couro.

Antony não estava lá. Mas sobre a mesa, espalhada sob a luz de um abajur de banqueiro, havia uma pasta de couro preta, aberta como uma ferida exposta.

Clara aproximou-se devagar. O coração, que batia em um ritmo de calmaria, subitamente errou uma batida. No topo da pilha de documentos, havia uma fotografia. Não era uma foto de família ou de negócios. Era uma foto dela.

Seus dedos tremeram ao pegar a imagem. Ela estava saindo da clínica odontológica, com a expressão exausta e o uniforme levemente amassado. A data no verso era de seis meses atrás. Clara sentiu um frio súbito subir por sua espinha. Seis meses. Isso foi muito antes de Marcos fugir. Muito antes do ataque no beco.

Ela começou a folhear a pasta com uma urgência febril. Havia dezenas de fotos. Clara no supermercado escolhendo o item mais barato da prateleira; Clara sentada no banco de uma praça perto de casa, chorando em silêncio; Clara entrando no ônibus lotado sob chuva. Era um dossiê completo. Cada movimento dela fora documentado, catalogado e analisado. Ela não fora "observada" por acaso, como Antony sugerira; ela fora caçada.

Mas o golpe de misericórdia estava mais abaixo. Sob as fotos, havia um documento financeiro impresso em papel timbrado de uma holding internacional com selos holográficos. O nome do devedor principal estava em negrito: MARCOS LIMA.

Clara leu as entrelinhas, o jargão jurídico e os números com cifras astronômicas. A dívida de Marcos não era com agiotas de esquina ou criminosos comuns. O credor principal, o dono das notas promissórias e dos contratos que destruíram sua vida, era uma empresa subsidiária do grupo de investimentos de Antony.

O ar pareceu faltar nos pulmões de Clara. O chão de mármore sob seus pés pareceu oscilar.

A narrativa que ela construíra em sua mente - a do herói sombrio que aparecera por milagre para salvá-la da tragédia - começou a desmoronar, dando lugar a uma verdade muito mais sinistra. Antony não a encontrara por acaso. Ele era o dono da dívida que causara todo o caos. Ele era o homem que pressionara Marcos. Ele era o arquiteto das sombras que cercavam sua vida desde o início.

- Antony... - o nome escapou de seus lábios como um lamento quebrado.

Ela percebeu, com uma clareza dolorosa, que o ataque no beco fora conveniente demais. O salvamento fora perfeito demais. Será que tudo fora um teatro? Uma encenação para que ela se jogasse nos braços dele em busca de proteção, entregando sua lealdade e seu corpo ao homem que, na verdade, segurava as correntes que a prendiam?

O som da porta do escritório sendo empurrada com firmeza a fez dar um salto, deixando a pasta cair sobre a mesa. Antony estava parado no batente. Ele segurava duas xícaras de porcelana com café fumegante, mas sua expressão era de uma neutralidade gélida que Clara aprendeu a temer. Ele não parecia surpreso ao encontrá-la ali. Ele parecia... preparado.

Ele caminhou até a mesa com a elegância de sempre, colocou as xícaras sobre o mogno, ignorando o caos de documentos que ela acabara de remexer. Seu olhar fixou-se nas mãos trêmulas de Clara, que ainda seguravam uma das fotos.

- Existem coisas, Clara, que são melhores compreendidas no tempo certo - ele disse, a voz baixa, perigosamente calma, sem um traço de arrependimento.

- O tempo certo? - Clara explodiu, a voz embargada pelo choro e pela raiva. - Você me seguiu por seis meses! Você é o dono da dívida que acabou com a minha vida! Você deixou o Marcos me destruir para que você pudesse aparecer como o salvador? Você me comprou, Antony? É isso que eu sou? Uma propriedade que você adquiriu através de uma dívida de jogo?

Antony deu um passo à frente, e por um momento, a máscara de controle deslizou. Havia uma chama escura em seus olhos, uma mistura de possessividade e uma verdade crua que ele não podia mais esconder.

- Eu não deixei o Marcos te destruir. Observei todas as tentativas dele e interferi quando passou do limite. Eu ia te contar hoje, Clara. Eu ia explicar que no meu mundo, nada é por acaso. Eu queria você. E no meu mundo, quando eu quero algo, eu elimino a concorrência e me torno a única opção.

Clara recuou, sentindo nojo e terror. O homem que a amara na noite anterior era o mesmo que a monitorou como uma presa. O luxo daquela cobertura não era um refúgio, era uma gaiola de ouro cujas chaves ele sempre possuíra.

- Você é um monstro - ela sussurrou, as lágrimas finalmente caindo, quentes e amargas.

- Eu sou o homem que manteve você viva - ele retrucou, aproximando-se mais. - E eu faria tudo de novo.

Mas antes que a discussão pudesse escalar, um som ensurdecedor e violento silenciou qualquer palavra. Foi como se o céu tivesse caído sobre a cobertura.

Um estrondo de impacto seguido pelo som de vidro temperado estilhaçando-se em milhões de pedaços ecoou pelo escritório. A onda de choque jogou Clara contra a estante de livros. Um objeto pesado atravessara a parede de vidro da varanda, e o alarme de segurança do prédio começou a urrar um som estridente de pânico.

O escritório, que segundos antes era um cenário de revelações traumáticas, transformou-se em uma zona de guerra. Antony não hesitou. Antes que o segundo estrondo ocorresse, ele saltou sobre a mesa, jogando o próprio corpo sobre o de Clara, protegendo-a enquanto uma chuva de estilhaços de diamante mortal cobria o tapete de mogno e seda.

O ouro daquela manhã acabara de se transformar em cinzas. E a verdade, por mais dolorosa que fosse, teria que esperar. A sobrevivência era agora a única moeda que restava.

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